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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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\ DA ÁSIA 

D E 

JOÃO DE BARROS 

DOS FEITOS, QUE OS PoRTUGUEZES FIZERAM 

NO DESCUBRIMENTO , E CONQUISTA DOS 

MARES , E TERRAS DO ORIENTE. 

DÉCADA QUARTA. 

PARTE SEGUNDA. 




LISBOA 

Na Regia Officina Typografica* 
anno mdcclxxvii. 

Cem Licença da Real Meza Cenforia , e Privilegio Real, 




víÊRARY 

IfelS/TY Qf ^ 



I 






ÍNDICE 

DOS capítulos, que se contém 

NESTA PARTS II. 
DA DÉCADA IV. 

LIVRO VI. 

CAP. I. Em que fe defcreve a origem 
dos povos Mogoles , e qae parte da 
terra habitaram. Pag. i. 

CAP. II. Dos coftumes , e trajos dos Mo- 
goles, e da feita que tem, e de fua lín- 
gua. I 2. 

CAP. III. Da caufa , que os Mogoles ti- 
veram para entrar no Reyno do Delij : 
e como EIRey Babor fe fez Senhor dei- 
te , e do mais que nelle fuccedeo. 16. 

CAP. IV. Como EIRey Radur de Cambaya 
começou fazer guerra a EIRey Omaum 
dos Mogoles , e a Rainha de Chitor lhe 
negou a obediência , e a de o a Omaum. 25. 

CAP. V. Como Soltam Badur foi cercar 
a Cidade de Chitor , e de algumas vito- 
rias que os Mogoles houveram de feus 
Capitães , tendo elle cercada a Cidade , 
que tomou : e do que depois dijfofez. 29. 

CAP. VI. Como Omaum Patxiah teve por 
perdido a Soltam Radur , por a manei- 
ra em que tinha ajfentado feu arraial: 
e como foi morto o CapitaoCoracanChan. 3 7. 
* ii CAÍ\ 



Índice 

C AP. VII. Como Soltam Badur , por a mor- 
te de Coraçan Chan , e outras perdas , 
âefamparou fcu arraial , e fc poz em 
falvo , e o arraial foi faqucado : e das 
riquezas que fe nelle acharam, 40. 

CAP. VII í. Como Rume Chan temendo-fe 
que Soltam Badur o queria matar , fe 
pajjòu a EIRey dos Mogoles : e EIRey 
Badur fendo lançado da ferra do Man- 
dou , fez levar de Champanel fuás mu- 
lheres , e thef ouro para í)io. 44* 

CAP. IX. Dos refpcitos per que EIRey de 

Cambaya fe não defendeo na ferra de 

Champanel d^ElRey dos Mogoles : e do 

fui o , e fortaleza , e fumptuofidadc dos 

edificios delia. Çl. 

CAP. X. Do que fez Soltam Badur em 
Dio :■ e como Martim Ajfonfo de Soufa 
quizera ir ver-fc com elle , e Nuno da 
Cunha lho eftorvou , e mandou Simão Fer- 
reira ao mefmo Soltam fobre a fortale- 
za de Dio. 56. 

CAP. XI. Como Soltam Badur mandou pe- 
dir foc corro ao Turco \ e fabendo da to- 
mada de Champanel , fe quizera ir a 
Meca ; e mudado o confelho , efcreveo a 
Martim Jlffonfo de Soufa fefojfe logo ver 
com elle : e como os Reys Badur , e Omaum 
efcrevêram ao Governador , ojferecendo- 
lhe ambos Dio. 6u 

CAP. 



dos Capítulos 

CAP. XII. Como Marfim Affonfo de Sou- 
fa foi a Bio , e elle , e Simão Ferreira 
Procurador do Governador affentdram 
fazes com ElRey de Cambaya , e lhe deo 
a fortaleza em Dio , entregando a Mar- 
tini Affonfo o baluarte do mar. 66. 

CAP. XIII. Como o Governador Nuno da 
Cunha foi a Dio ver-fe com ElRey de 
Cambaya. 71. 

CAP. XIV. Da notável façanha que fez* 
Diogo Botelho em vir da índia a Portu- 
gal em huma fujia por moflrar fua leal- 
dade a ElRey 3 ante quem fora calumnia- 
do falfamente. 755. 

CAP. XV. Como o Governador Nuno da 
Cunha fundou a fortaleza de Dio : e co- 
mo Vafco Rires de Sampayo tomou aos 
Mogolcs a fortaleza de Varivene no rio 
Indo. 84. 

CAP. XVI. Como querendo Soltam Badur ir 
vifitar algumas partes de Jeu Reyno , 
pedio ao Governador lhe déffe por com- 
panheiro a Martim Affonfo de Soufa : e 
como indo os Mogoles fobre Raçaim , fe 
tornaram com temor dos Rortuguezes , 
e Mira o Mu h mal d os foi lançajtdo de 
Cambaya. 89. 

CAP. XV II. Como Soltam Radur fe arre- 
pendeo de dar a fortaleza de Dio aos 
Rortuguezes 3 e quizera fazer entre el- 

la , 



I Ki D I C E 

la , e a Cidade hum muro , com que a 
cegara : e como o Governador o pacificou , 
efe foi a Goa. 96. 

CAP. XVIII. Como Garcia de Sd Capitão 
de Malaca ^por engano d?E2Rey de Achem , 
lhe mandou Manuel Pacheco em hum ga- 
leão d boa fé : e elle , e os que levava 
foram mortos d traição. 103. 

CAP. XIX. Como Gonçalo Pereira indo a 
Maluco mandou vifitar a EIRey de Bor- 
ne o : e como chegando a Ter na te , a Rai- 
nha lhe mandou pedir juftiça de D. Jor- 
ge de Menezes , e que foi taffefeu filho. 1 10. 

CAP. XX. Como Gonçalo Pereira prende o 
a D. Jorge de Menezes , e o mandou pre- 
zo d índia , e executou hum regimento 
que o Governador lhe de o f obre a com- 
pra , e venda do cravo : e como a Rai- 
nha de Ternate o mandou matar. 120. 

CAP. XXI. Como Vicente da Fonfeca foi 
feito Capitão de Ternate pelos inimigos 
de Gonçalo Pereira j e por a necejfidade 
de mantimentos em que o poz a Rainha 
de Ternate , veio a foltar-lhe feu filho 
EIRey Ca chi l Dai alo. 126. 

CAP. XXII. Como Patê Sarangue Rege- 
dor de Ternate , com ajuda de Vicente 
da Fonfeca , fez que Cdchil Dai a lo foffè 
defpojado de feu Reyno , e pofio em feu 
lugar Tabarija feu irmão : e como fize- 
ram 



dos Capítulos 

ram que a mai de Tabarija cffaffè com 
Patê Sarangue , e a mulher de Cachil 
D ai alo fugíjje ao marido para cajdr com 
Tabarija. 132. 

CAP. XXIII. Como Vicente da Fonfeca man- 
dou d índia prezo a Braz- Pereira , e 
de lá veio por Capitão de Maluco Trifi 
tão de Taide ? o qual mandou prezo d 
índia a Vicente da Fonfeca : e como Fer- 
não de la Torre , e os Caflelhanos fe vie- 
ram para os Portuguezes : e da morte 
cV EIRey de Ge i Ido 140. 

CAP. XXIV. Como Trijlão de Ta/de per 
calumnias de S amarão prende o a EIRey 
Tabarija , e a fuá mãi , e outros , e os 
enviou prezos á índia ao Governador , 
que os mandou para Maluco f oitos , e li- 
vres : e como Tabarija fe fez Chrijlão 
em Goa , e morrendo em Malaca , deixou 
o Reyno a EIRey de Portugal. 146. 

CAP. XXV. Como Trijlão de Taíde fim 
caufa fez guerra a EIRey de Racham : 
e como os Reys de Maluco fe conjuraram 
contra elle > e do que fobre ijjo fuece- 
deo. ifi. 

CAP. XXVI. Como Trijlão de Taide pro- 
feguio a guerra com os Reys do Maluco 
com vários fuccejfos , té a vinda de An- 
tónio Galvão 7 que vinha por Capitão de 
Tema te. 1 64, 

Li- 



Índice 

livro VIL 

CAP. I. Dos Príncipes , que ficaram 
no Reyno do Decan per morte d"El- 
Rey Mamud Xiah : e das guerras que 
entre elles houve. Pag. 170. 

CAP. II. Como o Hidalchan foi cercar a 
Cidade de Goulacondá do Cota Maluco y 
que a defendeo com grande eftrago da 
gente do Hidalchan , per confelho , e aju- 
da de doze Portuguezes feus cativos : 
e da morte do Hidalchan , e prizao de 
Àhrahemo feu filho fegundo , que fe que- 
ria levantar com o Eftado. 174. 

CAP. III. Como levando Maluchan o corpo 
de feu pai a fepultar , lhe veio ao ca- 
minho Cota Maluco , e houve batalha com 
Melique Virido : e como Abrahemo foi 
jolto por Cogertechan , efoccorrendo-o Ni- 
zamalucofeu tio, foi prezo Maluchan. 183. 

CAP. IV. Como indo o Açadachan a Bifa- 
por livrar da prizao a Maluchan , Me- 
lique Cuf \ que o guardava , lhe arran- 
cou os olhos , e com elle , e com o thejou- 
ro fe foi para Abrahemo : e das dijferen- 
ças que trouxeram muitos Capitães do 
Decan : e da morte de Melique Cuffo Co- 
checa. 190. 

CAP. V. Como o Açadachanfez que o Achan- 

de- 



dos Capítulos 

ãegij vicjjè a tomar as terras , quèxfo* 

ram de feus a vós , dando- lhe para ijfo 

favor , e ajuda : e do que elle fez com 

outros Capitães. 200. 

CAP. VI. Como o Hidalchan mandou ro- 
gar ao Açadachan que fe fojfe para el- 
le : e como o Açadachan trabalhou por- 
que Nuno da Cunha tomaffe as terras 
firmes de Goa. 207. 

CaP. VIL Como o Açadachan fe foi para 
ElRey de Bifnagd por def contentar ao 
Hidalchan , e Melique Verido foi per- 
doado. 213. 

CAP. VIII. Do encano que o Axadachan 

fez a ElRey de Bifnagd , e a Chriflovao 

de Figueiredo : e como fe veio fugindo 

para o Hidalchan , que por outros taes 

enganos o defejava matar. 219. 

CAP. IX. Como ElRey de Camhaya man- 
dou ao Hidalchan as infignias Reaes , pa- 
ra que fe intitulaffè Rey , e lhe dé/Jè obe- 
diência , e como nao quiz tal titulo : e 
das inquietações , em que andou o Aça- 
dachan , até que com medo do Hidalchan 
fe lhe veio metter nas mãos com hum 
grande prefente de dinheiro. 226. 

CÀP. X. Como o Hidalchan mandou hum 
meffageiro ao Governador , que lhe alar- 
gajfe as terras firmes , a quem dilatou 
a refpofla para Dio , para onde efiava. 

de 



Índice 

de caminho : e como Soleiynao Agá per 
vi andado do Hidalchan as veio correr , 
e cobrar, e lhe foi rtfiflido. 234. 

CAP. XI. De algumas dúvidas que houve 
entre os Portuguez.es , que ejlavam com 
Chrijlovao de Figueiredo , que ceffáram 
com a vinda de D. João Pereira , o qual 
feguio a Soleiynao Agá , até fe lhe aco- 
lher desbaratado. 242. 

CAP. XII. Como Solei mão Agd , vindo a 
Pondâ , fez algumas coufas em rompi- 
mento da paz , que o Governador tinha 
com o Hidalchan : e D. jGao Pereira lhe 
de o batalha , e o venceo. 247. 

CAP. XIII. Como o Açadachan fe par tio 
per mandado do Hidalchan cobrar as ter- 
ras firmes de Goa : e o que paffòu nefie 
caminho , e depois com Nuno da Cu- 
nha, 260. 

CAP. XIV. Como chegando o Açadachan 
a Pondd , mandou huma carta do Hidal- 
chan a Nuno da Cunha , e da refpofa 
que a ella deo : e do que mais fuecedeo 
entre elles. 269. 

CAP. XV. Das coufas que fuecedêram na 
guerra das terras firmes de Goa : e da 
entrada que nellas fez D. João Pereira : 
e do bom fucceffo que teve. 275*. 

CAP. XVL Como o Açadachan andou em 
requerimento com Nuno da Cunha f obre 



dos Capítulos 

ajfiento de pazes , e de fe verem ambos , 
o que nao houve effeito : e das viflorias 
que houveram António da Silveira nas 
terras firmes , e Gonçalo Vaz Coutinho 
na cofia. 281. 

CAP. XVII. Como oHidalchan mandou ao 
Açadachan que defifiijje da guerra com 
os Portuguezes , e elle fie eficufiou : e co- 
mo D. Gonçalo Coutinho foi desbarata- 
do nopafifio doBorij , e o Açadachan veio 
a (Tentar pazes com Nuno da Cunha , por 
evitar os damnos que recebia. 288. 

CAP. XVIII. Como o Çamorij de Calecut 
d infiancia d?ElRey ' de (. ambaya veio 
com muita gente a Cranganor , fingindo 
huma certa vifitaçao por ter azo de fa- 
zer guerra aos Portuguezes. 296. 

CAP. XIX. Como Martim Afi enfio de Sou- 
fia , indo acudir a Cochij , desbaratou 
os Colemutes , e lhes queimou o lugar ; 
e defendendo d?EJRey de Calecut o pafifio 
do váo , EIRey fie foi , e o nao efiperou : 
e do cafiigo que deo a EIRey de Repe- 
lim. 303. 

CAP. XX. Como Martim Ajfcnfio de Sou- 
fia foi ao pajjo do vão dejender que EI- 
Rey de Calecut o nao pafiafie : e como 
pelejou cem elle , e o desbaratou , e EI- 
Rey lhe fugi o. 300. 

CAP. XXL Como Martim Ajfonfio de Sou- 

f* 



T N D I C E 

fa desbaratou a Cutiale Marcar Capi- 
tão mor da Armada d? EIRey de Calecut : 
e como foi ao pajfo do vão para pelejar 
com EIRey , e elle fe recolheo , e desfez 
Jeu exercito. 314. 

CAP. XXII. Como Madune Pajidar Rey 
de Ceitavaca , com ajuda de huma Ar- 
mada de Malabares cercou a EIRey Roe- 
negohago feu irmão na Cidade da Cota , 
e Martim Ajfonfo o foi foc correr , e pe- 
lejou com a Armada , e a desbaratou. 319. 

LIVRO VIII. 

CAP. I. Como o Governador Nuno da 
Cunha foi avifado per muitas vias 
do que EIRey de Cambaya movia contra 
os Portugueses , para lhes tomar a for- 
taleza de Dio , e o lançar da Índia : e 
do que jobre i J/o fez. Pag. 326. 

CAP. II. Da embaixada , que Soltam Ba- 
dur Rey de Cambaya 'mandou ao Gover- 
nador y pedindo-lhe fe fo/Je ver com elle > 
e como Jabendo elle da traição , que lhe 
EIRey ordenava , par tio logo : e do que 
mais fuccedeo. 335'. 

CAP. III. Do que o Nizamaluco tinha paf- 
fado com Simão Guedes em Chaul , an- 
tes que Nuno da Cunha alli chegaffe : 

e dos 



dos Capítulos 

c dos indícios que achou dos propojitos 
d*ElRey de Cambaya. 341. 

CAP. IV. Como EIRey de Camhaya man- 
dou vifitar a Nuno da Cunha ao cami- 
nho : e como por vir doente o foi ver ao 
galeão chegando a Dio. 346. 

CAP. V. Como foram mortos Soltam Ba- 
dur Rey de Camhaya , e os Senhores que 
com elle hiam , e Manoel de Soufa Capi- 
tão de Dio, 357. 

CAP. VI. Do que fe fez na Cidade de Dio 
com a morte de feu Rey : e do que Nu- 
no da Cunha ordenou para confervar a 
mefma Cidade em paz , e quietação dos 
moradores delia. 367. 

CAP. VIL Do razoamento , que Nuno da 
Cunha fez aos Capitães , e peffbas prut- 
cipaes da Armada : e do cumprimento 
que teve com a Rainha mãi d^ElRey Ba- 
dur : e como mandou pôr cobro na fazen- 
da d^ElRey : e do que fe lhe achou per 
fua morte em feu thefouro , e arma- 
zém. 37Í. 

CAP. VIII. Da juftificação ', que Nuno 
da Cunha moftrou aos Mouros , e Gen- 
tios acerca da morte de Soltam Badur. 381. 

CAP. IX. Do mais que ordenou Nuno da 
Cunha para bom governo , e quietação 
do povo : e como mandou a Portugal a 
nova âa morte de Soltam Badur : e da 

vin* 



Índice 

'vinda de Mir Mahamed Zaman ao Rey~ 
no de Cambaya. 388. 

CAP. X. Como Mir Mahamed Zaman foi 
nomeado por Rey do Guzarate com fa- 
vor de Nuno da Cunha. 394. 

CAP. XI. Como ido Nuno da Cunha para 
Goa , os Capitães dos Guzarates deram 
batalha a Mir Mahamed Zaman : e do 
mais que fizeram depois de elle fer ido 
ao Cinde : e como Nuno da Cunha tor- 
nou a Dio. 403. 

CAP. XIT. Do que fez Martim Affonfo de 
Soufa Capitão mor do mar , indo em buf- 
ca de huma Armada d^ElRey de Cale- 
cut , de que era Capitão mór Patê Mar- 
car. . 41 1. 

CAP. XIII. Como Martim Affonfo de Sou- 
fa com quatrocentos Portuguezes pelejou 
com Patê Marcar , cftando em terra com 
Jete mil homens de peleja , e o venceo , e 
desbaratou , e lhe tomou a Armada , com 
morte de muitos Mouros. 418. 

CAP. XIV. De outras vitorias , 'que Mar- 
tim Affonfo de Soufa houvera na cofia 
do Ma lavar. 426. 

CAP. XV. Como D. Manoel de Menezes 

foi prezo em Xael 5 e da caufa porque 

EIRey o prendeo : e do mais que fuece- 

deo em jeu livramento. 431. 

CAP. XVI. Do que Nuno da Cunha ajfen- 

tou 



dos Capítulos 

tou com o mejfageiro dTJRey de Xael 
fobre as pazes que pedia : e como man- 
dou a D. Fernando de Lima , que hia 
por Capitão a Ormuz , que fojfe por Xael 
tirar a D. Manuel de Menezes do cati- 
veiro. 445% 

LIVRO IX. 

CAP. I. Da defcripção do Reino de Ben- 
galla - y e dos cojiumes da gente del- 
le. Pag. 45-1. 

CAP. II. Per que maneira os Reys de Ben- 
gala vieram a fer Mouros. 4^ 9. 

CAP. III. Como Martim Affbnfo de Mello 
foi a EIRey de Bengala requerer-lhe ami- 
zade , e commercio com Portuguezes : e 
do que fobre iffo lhe acontece o. 465'. 

CAP. IV. Como Martim Ajfonfo de Mello , 
e os Portuguezes que com elle hiam fo- 
ram prezos per mandado d? EIRey de Ben- 
gala. 475-. 

CAP. V. Como Martim Ajfonfo de Mello y 
e feus companheiros foram levados a EI- 
Rey d Cidade de Gouro : e do que pajfou 
António da Silva indo refgatar a Mar- 
tim Ajfonfo. 482. 

CAP. VI. Como Xerchan Capitão cPElRey 
dos Mogoles fe foi de feu fervi ço para* 
EIRey de Bengala P o qual o fez feu Ca* 
Tom.lV.P.iL ** pi- 



Índice 

pitão mor , e depois fe levantou contra 
elle , e fe tornou ao mejmo Rey dos A í o- 
goles. 487. 

CAP. VII. Da guerra que Xerchan fez a 
EIRey de Bengala , em que os Portugue- 
ses intervieram : e do concerto com que 
defiftio delia. 49 5\ 

CAP. VIII. Como EIRey de Bengala deo 
Uberdade a Marfim Ajfonfo de Mello , 
e licença que fe fojfe para a índia : e 
como Xerchan veio contra EIRey , e lhe 
tomou a Cidade de Gouro , e EIRey fe 
foi a Omaum Patxiah ; e do que lhe fuc- 
cedeo. 502. 

CAP. IX. Como fe ajuntaram Xerchan , e 
Omaum Patxiah Rey dos Mogoles na 
Cidade de Canofe junto do rio Ganges > 
e foi desbaratado Omaum. ^oó. 

CAP. X. Como Omaum Patxiah foi buf- 
c ar foc corro de alguns amigos ', e vaffal- 
los jevs , e lho não deram, e o foi pedir 
ao Xiah Tamas , que lho deo. 513. 

CAP. XI. Lo que fez Omaum Patxiah 
com o foc corro , que lhe deo o Xiah Ta- 
mas , e da morte de Xerchan. 522. 

CAP. XII. Como D. Paulo da Gama Ca- 
pitão de Malaca mandou Baftiao Vieira 
vifitar a EIRey de Ujantana , o quaPo 
matou, e aos Portuguezes que o acom- 
panharam : e como D. Paulo foi morto 

pe- 



dos Capítulos 

pelejando com huma Armada do mefmo 
Rey. 528. 

CAP. XIII. Como D. Eftevão da Gama 

foi contra EIRey de Ujantana , e lhe def- 

truio , e queimou a fortaleza. 534. 

CAP. XIV. De outra jornada , que Bom 
Eftevão da Gama fez contra EIRey de 
Ujantana ; e das pazes que lhe concedeo : 
e como foi commettido duas vezes dos 
Achens. SA Im 

CAP. XV. Do que aconteceo a Francifco 
de Barros de Paiva em Patane , c a 
Henrique Mendes de Vafconcellos na pe- 
leja que ambos tiveram com huma Ar- 
mada de Jaós. $ $o. 

CAP. XVI. Como António Galvão , que EI- 
Rey fizera Capitão de Maluco , foi por 
mandado do Governador afucceder a TriJ- 
tao de Taíde : e do alvoroço , e fefta com 
que foi recebido de todos. 554. 

CAP. XVII. Do memorável feito , que An- 
tónio Galvão fez em ir bufcar com cen- 
to e vinte Portuguezes a oito Reys Mou- 
ros , que com grande exercito ejiavam 
em Tidore : e como os desbaratou , e def- 
truio a Cidade , e a queimou. jói. 

CAP. XVIII. Como os Reys Mouros fe fo- 
ram para fuás terras ; e o de Tidore 
fez pazes com António Galvão. 571. 

CAP. XIX. Das muitas inquietações que 

fem- 



Índice 

femprc houve em Maluco entre os Por- 
tuguezes , e feus Capitães fobre a com- 
pra do cravo : e do trabalho que niffb 
pajfou António Galvão. 577. 

CAP. XX. Como António Galvão affentou 
pazes com os Reys de Geilolo , e B acham , 
e ajjòcegou os Tcmates ? que não queriam 
ter por Rey a Cachil Aeiro. ^8 3. 

CAP. XXI. Como António Galvão mandou 
ao Moro contra hum levantado , que foi 
morto , e desbaratado : e da muita dili- 
gencia que fez fobre a conversão dos Gen- 
tios das Ilhas de Maluco. 588. 

CAP. XXII. Como António Galvão foltou 
EIRey Cachil Aeiro da prizão , em que 
eflava : e dos muitos benefícios que fez 
aos Te mates. 5*96. 

livro x. 

CAP. I. Das coufas , que houve para 
Soleimão Emperador dos Turcos man- 
dar d Índia huma grande Armada con- 
tra os Portuguezes. Pag. 600. 
CAP. II. Como o Grão Turco mandou hu- 
ma groffa Armada d índia , de que fez 
Capitão mor Soleimão Baxid , das qua- 
lidades de fua pejfoa , e crueldades que 
fez antes de fua partida ; e depois del- 
ia. 604. 

CAP- 



dos Capítulos 

CA?. III. Como Soleimão Baxid partio de 
Suez para a índia : e do que pajjòu no 
caminho até chegar a Dio. 611. 

CAP. IV. Como Coge Sofar fe foi fecreta- 
mente de Dio , e perfuadio a EIRey de 
Cambaya fazer guerra aos Portuguezes , 
e veio cercar a Cidade : e dos apercebi- 
mentos que António da Silveira fez pa- 
ra fe defender. 6 1 8. 

CAP. V. Como Coge Sofar veio d Villa 
dos Rumes , e de o ajfalto ao baluarte : e 
como António da Silveira proveo os paf 
fos da Ilha , e o que mais fuccedeo. 624. 

CAP. VI. Como António da Silveira alar- 
gou a Ilha , e a Cidade , e fe recolheo d 
fortaleza-, e do que fez depois de eflar 
nella. 630. 

CAP. VIL Como Soleimão Baxid veio com 
fua Armada ao porto de Dio : e da mof- 
tra que deram de fi alguns Jani caros : 
e do avifo que António da Silveira man- 
dou a Nuno da Cunha. 636. 

CAP. VIII. Dos apercebimentos , que An- 
tónio da Silveira , e Coge Sofar faziam 
em quanto a Armada foi , e tornou de 
Madrefabat : e como veio nova , que era 
chegado a Goa o Vifo-Rey D. Garcia de 
Noronha. 643. 

CAP. IX. Conto Soleimão Baxid tornou de 
Madrefabat do combate que fe deo ao 

ba-* 



Índice 

baluarte da Villa dos Rumes : e como 
Francifco Pacheco fe entregou. 65-1. 

CAP. X. Como os Turcos deram bateria d 
fortaleza de Dio vinte e cinco dias con- 
tínuos : e do muito damno , que nella fi- 
zeram. 659. 

CAP. XI. Como os Turcos perfeverdram 
em combater o baluarte de Gafpar de 
Soufa \ c da refiftencia que fe lhes fez : 
e como foi morto Gol calo Falcão. 663. 

CAP. XII. Da doença grande que fobre- 
veio aos cercados ; e como as mulheres 
ajuddram a trabalhar nos repairos. 674. 

CAP. XIII. Como os Turcos tentaram mi- 
nar o baluarte dos combates j e como Gaf- 
par de Soufa foi morto. 679. 

CAP. XIV. Do ardil , com que os Portu- 
gueses trataram de impedir os comba- 
tes que fe davam ao baluarte ; e do foc- 
corro que o Vlfo-Rey mandou a Dio , e 
da confusão que caufou aos Turcos. 684. 

CAP. XV. Dos aJJ altos , que os Turcos 
deram ao baluarte do mar , e ao dos com- 
bates : e refere-fe hum cafo de hum ef- 
forçado foldado. 689. 

CAP. XVI. Do grande aff alto ^ que os Tur- 
cos deram d fortaleza comquatorze mil 
homens de peleja : e do grande aperto , 
em que a puzeram com morte de muitos 
dos noffos. 694. 

CAP. 



dos Capítulos 

CAP. XVII. Do que o Capitão António da 
Silveira fez quando os Turcos cejfidram 
dos combates ; e das ca ufas per que tão 
de fubito levantaram o cerco. 706. 

CAP. XVIII. Do que aconteceo a Solcimao 
Baxid , como foi em Conftant inópia , e do 
fim que houve. 717. 

CAP. XIX. Como D. Garcia de Noronha 
chegou d Índia , e foi entregue do gover- 
no delia 5 e da Armada que ajuntou pa- 
ra ir foc correr Dio. 720. 

CAP. XX. Como o Vifo-Rey D. Garcia ef- 
tava indeterminado f obre a maneira per- 
que accommetteria os Rumes : e do con- 
fie lho que nijfio lhe de o Nuno da Cunha. 727. 

CAP. XXI. Do aggravo que o Vifio-Rey 
D. Garcia fie >z a Nuno da Cunha f obre 
fiua embarcação ; e como apercehendo-fie 
em Cochij para fie vir para o Reyno , 
efcreveo hum a carta ao Vifio-Rey em re- 
fipofia de algumas fiu as. 734. 

CAP. XXII. Como Nuno da Cunha partio 
da índia para Portugal , e no caminho 
faleceo. 747. 



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DÉCADA QUARTA. 
LIVRO VI. 

Governava a índia Nuno da Cunha. 




CAPITULO L 

Em que fe defcreve a origem dos povos Mo- 
goles ? e que pnrte da terra habitaram. 

Orque a guerra dos Mogoles 
com EiRey de Cambava , e o 
que delia fuccedeo foi coufa 
mui notável , e de que coube 
grande parte ao Eífodo da ín- 
dia , e que aos Portuguezes caufou muito 
trabalho , convém darmos noticia particular 
deita gente , e em que parte da terra eftava 
efcondida ., dos quaes té aqueile tempo , em 
que vieram ter guerra com o Soltam Badur 
Rey de Cambava , os noíTos que na índia 
andavam não tinham conhecimento algum ; 
epara maior íatisfaçao dos que fe deleitam 
em faber hiílorias 3 repetiremos de longe a 
origem delles. Eíla gente , a que commum- 
Tom.ir. P.iL A men- 



2 ÁSIA de João de Barros 

mente os noííbs chamam Mogores , e pro- 
priamente Mogoles , elles entre fi fe chamam 
Chacatais " , por virem de huma linhagem 
antiga , e nobre dos Tártaros, aííi chama- 
da , de que elles fe gloriam muito , como 
os Heípanhoes fe jaftam ( fem razão ) de vir 
dos Godos , como fe os Godos , e os Cha- 
catais não foíTem dos Bárbaros , que povoam 
as terras frias do Norte. A região que ci- 
tes Chacatais habitam he chamada Chaca- 
tá b , vizinha á Província Turqueftan , mui 
natural , de que precederam os verdadeiros 
Turcos. E poílo que todos os Chacatais fe- 
jam Mogoles , os nobres fomente fe nomeam 
Chacatais , aos quaes lie grande injuria cha- 
mar-lhes Mogoles , tanto como fe lhes cha- 
maífem vilãos, o que não he no povo, que 
por iífo fe não efeandaliza. 

Os Perfas , que foi a gente daquellas 
partes Orientaes , que mais cedo recebeo a 
feita de Mafamede , por as vitorias que del- 
les houveram os Arábios , e que com a fei- 
ta também receberam a Efcritura , eferevê- 
ram cm fuás Chronicas , que eftes Mogoles 
defeendem deMagog neto de Noé Patriar- 
ca 

a Impropriamente são chamados Zagatals , e a Pro* 
vinda em q:\: habitaram Zoontai. 

h Dioro do Couto efereve } que a efla Provinda Cha- 
catâ deo nome Chacatai filho de Chingifchan , Senhor das 
Províncias Sogdiana , BaClriana , Arai o/ia , Ária , Par- 
thia, Perjia, c Arménia. 



Década IV. Liv. VI. Cap. I. 3 

ca das gentes , filho de Jafet a . E afll di- 
zem , que Magog foi hum Rcy poderofo 
naquellas partes de Tartaria , de que proce- 
deram muitas, e diverfas famílias , e linha- 
gens , como diremos em nofíbs Commenta- 
rios da Geografia , em que falíamos da ori- 
gem dos Tártaros Aíiaticos. Em vida defte 
Magog, e depois per todo o tempo que rei- 
nou leu filho Tarahan , as gentes que efta- 
vam debaixo de feu Império guardavam a 
religião , coftumes , e adoração de hum fó 
Deos , fegundo tinham recebido de Noé íèu 
progenitor. Mas falecidos eftes dousReys, 
íuccedèram outros Príncipes , que feguíram 
fuás próprias inclinações , com que os povos 
fe deram a varias feitas , e opiniões contra- 
rias aos preceitos dos feus antigos Padres. 
Daqui fe caufou derramarem- fe per diverfas 
A ii par- 

a Faz Diogo do Couto larga relação dos Mogoles , e 
de fua úefeendencia , a qual deduz , fe guindo as hifiorias 
Tártaras y de hum Turco neto d€ Noé filho de Jafet , [do 
qual n7io fazem menção os H i/l or ia dor es , ) como fe pôde 
ver nos cap. i. e Q. do liv 10. K no cap. 7. do liv. t. 
efereve , que quando no anno de 100. de nofja Redempção 
baixaram do Norte os Mogoles , com as outras gentes , fica' 
ram elles povoando o Reyno de Mandou \ e que naquella Ci- 
dade fe vem ainda hoje três fepulturas de Reys Mogoles , 
como confia dos letreiros delias ; e he prefumpção iem fun- 
dada , que foram efies povos antigamente fenhores de toda 
(t índia , onde no marítimo delia fundaram as duas Cidades 
de Mangalor , huma na cofia de Dio , e outra na de Cana- 
rá y e nefia ha fepulturas de multa antiguidade , per cujos 
epitáfios fe conhece que jazem nellas Reys Mogoles* 



4 ÁSIA de JoÃo de Barros 

partes , e habitarem novas Províncias. E pof- 
to que efta gente per aquella grande Tarea- 
ria tinha eíle nome de leu primeiro Príncipe 
Magog , e foífe havida por vagabunda , co- 
mo aquella que diicorrc per diverfas partes y 
onde fe mais confervou efta geração foi na 
região que ora he chamada Mogalia , ou 
Mogoíla do nome delks , a que Ptolomeu 
chama Paropanifus , poíto que elles fe exten- 
dam mais, porque vam vizinhar ao preíènte 
com o Reyno Horacan , chamado per Pto- 
lomeu Ária , de huma Cidade fua Metropo- 
li , a que hoje chamam Here. E pela parte 
do Norte vam beber as aguas do rio Geum a , 
chamado dos Geógrafos Oxo , que palia pe- 
la Província Badhiana , nomeada de fua me- 
tropoli Badria , que ora fe chama Bohára , 
eftudo mui célebre , e antigo , como relí- 
quias do grande Zorcaílres * , a que os Per- 

fas ' 

a Outros chamam a efle rio Afna. 

b Zoroafires , como refere Suid.iS , foi Perfa Medo , vi- 
vco em tempo de Nino Rey dos Afjyrios t antes da guerra 
'Troiana 500. annos ■, perfuadiê aos Affyrios que depois de 
fua morte , que foi com foço do Ceo , guardajjem as fuás 
cinzas , fe queriam quefeperpetuafje o Reyno delles. Efcre- 
veo quatro livros da Natureza , hum de pedras preciofas , e 
cinco de Aíirolcgia judiciaria. PUnio efereveo no cap. 1 6, 
do Uv. 7. que rio Zo>oaJire.s no me [mo dia que nafveo ; e 
no cap. t. do iiv. jo. que foi o inventor da At te Magica, 
c o primeiro que a praticou em Per/ia. Outros Attthores 
vffirmam que foi Zoroafres Rey de Badriana , e que teve 
guerra com Nino , na qual foi morto. E não pôde ler viver 
Zoroajires antes da guerra Troiana 500. annos , e em tem* 



Década IV. Liv. VI. Cap. I. ? 

fas chamam Zoac. Nefta Bohára eftudou Avi- 
ccnna , Medico celebrado , por fer natural 
da terra , íègundo eícrevem os Perfas , o que 
lhe não tira fer natural de Córdova , con- 
forme a opinião de alguns ; porque pode fer 
que por ter eftudado em Bohára , o queiram 
os Perlas fazer feu natural. Tem mais os 
Mogoles da banda do Nordeíle a região 
Sogdiana , a que eiles ora chamam Quexi- 
mir , e aíh o monte Caucafo , que de vide a 
índia de outras Províncias , e regiões Bo- 
reaes. He verdade que nefta noíía idade , co- 
mo he gente belicoia , correm da parte de 
Meiodia té os montes a que Ptolomeu cha- 
ma Parveti , e Bagous il , e elles Angon. 

Efte Eftado era de huma gente chamada 
Patane , que fenhoreava eftas montanhas; e 
como os que habitam nos confijs dos mon- 
tes Pyreneos , daquém , e dalém delles , são 
fenhores dos paífos perque paíTamos de Hcf- 
panha a França , e de lá para cá , aíli eftes 
povos Patanes são fenhores de duas entradas , 
que a índia tem , para aquelles que per ter- 
ra querem ir a ella ; porque os que vam da 
Perita do Reyno Horacam , de Bohára , e 
de todas as partes Occidentaes , caminham 
té a Cidade , a que os naturaes chamam Cor- 
ril- 
ho de Nino , como diz Suidas , porque Nino morreo no onno 
do Mundo 2048 e Tróia foi dejinuda 824. annos depois % 
no anno do Mundo 2872. 

a Ptolomeu na nona Tahoa da Ajia* 



6 ÁSIA de João de Barros 

ruptamcnte Candar , havendo de dizer Scan- 
dar , nome per que os Perlas chamam Alexan- 
dre , por elle (como eícreve Arriano a ) edi- 
ficar eífca Cidade , e do íc-u nome fe chamou 
Alexandria fituada ao longo do rio Ária. 
Efta Cidade he huma das mais illuítres , e 
célebres daquellas partes , por fer ponte , e 
porto per que fe caminha para a índia ; por- 
que as Serranias da Província Ciítou , que 
vem cortando para o Meiodia té os de- 
fertos de Mazeran , deixam no meio huma 
aberta , onde como porto eílá Scandar iltua- 
da. Nella fe tomam dous caminhos ; quem 
quer ir pelos defeitos de Mazeran , vai paf- 
far o rio Indo na Cidade Batcar fituada nas 
correntes delle , ( a qual por a íituaçao que 
tem , podemos dizer fer aquella a que Pto- 
lomeu chama Ariftobatia *•;■) e querendo dei- 
la ir ao Reyno de Cambava , tomam á mão 
direita pelo rio abaixo , e vem entrar nelle 
pelas Serranias dos Resbutos , e vam ter á 
grande Cidade delles chamada Patane , e da- 
hi a Lavaia. E querendo ir ao Reyno do 

De- 

o Arriano fax, menção de quatro Cidades , que Alexan- 
dre Magno fundou , e á que deo [eu nome. A primeira em 
Mgypto , na boca Occidental do rio Nilo. A fecunda nas fral- 
das do monte Caucafo , não longe da Cidade de Baãra. A 
terceira no rio Iaxartes , chamado de Arrume Tonais , [ou* 
tro do que divide Afia de Europa.) A quarta ao pê do 
monte Paropanifo , e ej/a parece que quer entender João 
de Barros que feja Scandar. 

b Na Taboa mna de Afia. 



Década IV. Liv. VI. Cap. I. 7 

Delij , vam pelo rio acima té a Cidade de 
Moltan Metropoli dos povos Moltanes. E 
deixando á efquerda o rio Indo , caminham 
per terra chã a mais povoada de toda a ín- 
dia , té chegar á Cidade de Delij , que lie 
a cabeça daquelle Reyno, que delia fe no- 
mea , íltuada nas correntes do rio Iamona , 
a que Ptolomeu chama Diamuna a , e Plinio 
Iomanes b . 

Eftes caminhos de que falíamos são as 
cftradas geraes das Cáfilas , que ás vezes são 
de três , e quatro mil homens ; porque a ter- 
ra além de fer deíerta , e em muitas partes 
montuofa , he de muito perigo , por caufa 
da gente montanhez , e campeftre 5 que vai 
bufcar as cftradas para roubar os caminhan- 
tes. O caminho de Candar a Batcar não o 
feguem as Cáfilas fenao em tempo de guer- 
ras , por fer muito deferto , e ter quatro , 
ou cinco jornadas fem agua , e de muita arêa , 
temendo que fe forem pelo de cima , que? 
eftá á parte do Norte , além dos montes An- 
gon dos Patanes , por fer per meio do Rey- 
no dos Mogoles , podem fer delles rouba- 
dos. Eíte caminho de cima , para quem quer 
ir ao Reyno de Delij , he mais breve , e po- 
voado , poíto que mui fragofo em partes ; 
c na Cidade de Candar põe o roílo quafi a 

Lef- 

a Na Taboa io. de Afia. 
h Liv. 6. cap. 17. 19. c 20, 



8 ÁSIA d e J o Â* o de Barros 

Leite , atraveflando toda a terra Hozara , e 
vai ter á antiquiflima Cidade Cazrij meia 
arruinada , e dahi á Cidade Cabol Metropo- 
li dos Mogoles. A qual também por caufa 
das montanhas , e ferranias he outra ponte 
que vam demandar , não fomente as Cáfi- 
las , que vem de Candar , mas ainda as de 
Camarcant , e de toda a Provineia de Tur- 
queílan , e Caxcar. E defta Cidade Cabol 
té outra por nome Ingoxan , em que haverá 
três dias de jornada , tem as Cáfilas bom ca- 
minho , mas como chegam a huma Villa 
chamada Haibar, dahi té a Cidade de Ni* 
lao , e delia té as portas per onde entram 
na índia , que fera caminho de cinco dias , 
he clle tão eftreito , e fragofo , que fe não 
pode ir por elle fenão a fio ? e olhar para o 
cume das Serranias , e pôr os olhos nas nu- 
vens. E chegando á porta per onde os Peiv 
ías dizem que entrou Alexandre Magno , a 
qual elles chamam Darbande , que quer di- 
zer porta fechada , e os índios com a mef- 
ma íignincam Dangalij , defcobre-fe o cam- 
po da Comarca chamada Guzar, onde eítá 
íituada a Cidade de Beera nas correntes do 
rio Bet ; eíla campina he já da terra da In^- 
dia. E como quando da aíTcmada de huma 
montanha fe vem grandes campinas , em que 
a vifta fe perde , aííi paliada efta porta , que 
fica foberba, apparecem a*quellas doReyno 

do 



Década IV. Liv. VI. Cap. I. o 

do Delij , povoadas de muitas Cidades , e 
lugares , lèm achar nem huma fó pedra em 
que tropecem. Eíta terra he em íl fértil , e 
gracioia áviíta, por fer regada deftes cinco 
notáveis rios , que fazem o corpo do Indo , 
Bet , Satinague , Chanao , Raué , e Bea. 

Defta porta té a Cidade deCandar, que 
fica atras , onde le eftremam os dous cami- 
nhos que dilTemos para a índia ? tudo sao 
Serranias , e terra afpera , parte da qual era 
do Eíta do dos Mogoles , principalmente a 
que eíta mais ao Ponente , e Norte , que he 
a menos fragofa. E a que eftá ao Sul dos 
montes Bagous , ou Parveri , como lhe Pto- 
lomeu chama , e a que eftá ao Oriente té a 
porta Darbande , que he dos povos Patanes , 
tudo sao ferranias afperas. E pofto que as 
Cáfilas, que pereítes dous povos paífavam , 
lhes pagavam feus direitos , fegundo leu coC- 
tume antigo , quando viam aquellas riquezas 
Orientaes que vinham da índia , e as Occi- 
dentaes que entravam nella , onde fe com- 
mutavam humas coufas por outras , fazia- 
Ihes grande cubica do Senhorio delia ; e por 
duas caufas crefeia a efperança que tinham 
de confeguir feu defejo : a primeira , por fe- 
rem elles Mouros , e os povos da índia Gen- 
tios , quafi té o maritimo da índia baixa , 
cuja coita nós navegamos , muita parte da 
qual lie já fujeita aos Mouros : a outra cau*- 

fa 



io ÁSIA de João de Barros 

fa era , ferem eJIes todos gente belicofa , e 
bem armada , e íòffredora de trabalho , eof- 
tumada a pelejar a cavallo por a grande 
cópia que delles tem. O que tudo viam pe- 
lo contrario nos Gentios da índia , por fer 
gente fraca , e imbelle , mais induítriofa , e 
inclinada ao ufo mecânico , e de commer- 
cio , que ao exercício das armas , e as de 
que ufam ferem fracas , e fem cavailos , e 
eiTes que tem de fua terra ferem fracos , e 
poucos , e os que vem de fora de tanto 
preço , que os não podem ter lcnão Senho- 
res , e peífoas de muita fazenda. 

Mas ao defejo deites dous povos havia 
dous inconvenientes que os impediam. Aos 
Patanes, que eram os mais vizinhos da por- 
ta Darbande , ter EIRey do Delij porto nel- 
la hum Capitão de inuita fidelidade com 
muita gente de armas para guarda delia , e 
afli para arrecadação dos direitos , que fe 
pagavam das mercadorias que per ella en- 
travam , e fahiam. E os Mogolcs , que eram 
mais conquiítadores que eítes Patanes , além' 
de terem o impedimento da entrada , tinham 
Cidades , Viilas , e Lugares dos mefmos Pa- 
tanes , que lhes convinha conquiftar primeiro 
que chegaílem ás portas Darbande. Por a 
qual caufa eram os Patanes mui ciofos deita 
entrada , e bem entendiam que todas as con- 
tendas y e guerras que os Mogoles com el- 

les 



Década IV. Liv. VI. Cap. I. u 

jes tinham , mais eram per fe fazerem fenho- 
res deíla entrada , que por terem cubica das 
luas terras , e Eftado , por fer mui frago- 
fo , e eíleril , e difFcrente do leu delles. Com 
efte receio que os Patanes tinham , quando 
das partes da Perfia , de Bohára , de Ca- 
marcante , e Caxcar vinha alguma grande 
Cáfila para entrar na índia , como era de 
quatro , ou cinco mil homens , não os dei- 
xavam entrar em fuás povoações , nem paf- 
far avante lem primeiro darem ar reféns , 
e outros fcguros , per que ficaflem delles fa- 
tisfeitos , e certos nao fer aquella gente al- 
gum artifício j e ardil dos Mogolcs. Outras 
taes cautelas tinha EIRey do Delij na en- 
trada da lua porta ; e por caufa deílas fuf- 
peitas , e vigias , e guerras em que os Mo- 
goles andavam com os Patanes , per que al- 
gumas vezes as Cáfilas eram roubadas , ou 
ao menos lhes faziam pagar direitos dobra- 
dos , como ellas chegavam á Cidade de Can- 
dar , deixavam efte caminho de cima , e to- 
mavam o de baixo , que era deferto , pofto 
que mais comprido, e eíleril foíle. 



CA- 



12 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO II. 

Dos cofiumes , e trajos dos Mogoles , e da 
feita que tem, e de fua língua. 

JÁ que tratamos da origem , e habitação 
dos Mogoles , pareceo-nos neceííario di- 
zer de íiias peííbas , de fua lei, e de feus 
coílumes , e trajos , e da ordem da fua mi- 
lícia. Os Mogoles são da lei de Mafame- 
de , fua lingua iie Turqueílan , por lá terem 
fua origem , c por a vizinhança que tem com 
os Perfas também faliam a fua lingua ; ge- 
ralmente são homens bem difpoftos , alvos ? 
e de olhos algum tanto pequenos , ao mo- 
do dos Tártaros , e Chijs : tratam-fe todos 
muito bem , veílindo-fe os nobres de fedas , 
brocadilhos , e lans finas , e o povo de al- 
godão , e no inverno de acolchoados , e de 
feltros para a chuva. A maneira de feus vef- 
tidos he femelhante á dos Perfas , que são 
faios compridos abertos por diante , de pou- 
ca fralda, cingidos por cima, como fe cin- 
gem os Venecianos. As barbas trazem com- 
pridas , e as cabeças rapadas , nellas trazem 
barretes altos de feltro tezo redondos , e não 
agudos , recheados de algodão , ou de ou- 
tra eoufa , com que anc!em fempre irtos , 
e ao redor das cabeças fobrc os barretes 
toucas de algodão brancas, aífi poítas, que 

do 



Década IV. Liv. VI. Cap. II. 13 

do meio para cima já fora do cafeo da ca- 
beça lhes fique o barrete defeuberto , por o 
qual trajo do barrete lhes chamam os vizi- 
nhos Cachabax , que quer dizer cabeça de 
feltro , como chamam mais propriamente aos 
que vivem na Comarca de Camarcant , na 
Cidade Metropolitana da região Caxcar , a 
que as outras nações chamam cabeça de fel- 
tro , porque o trazem na cabeça mais alto 
que o dos Mogoles. Os homens nobres íè 
tratam com muita policia , fervem-fe de ba- 
xellas de prata , alumiam-fe com velas de 
cera. Quando caminham levam o fato que 
tem em arcas erícouradas , malas , e almo- 
frexes cubertos com repoíleiros , ou alcati- 
fas , fobre Camelos , elevam mui boas ten- 
das para fe agazalharem no campo. Fora 
da guerra , em fuás terras são gente pacifi- 
ca , branda , e de bom gazalhado aos eílran- 
geiros , e verdadeiramente em feus negócios. 
As mulheres deíla nação são formoías , e 
para apparecerem em toda a parte. 

As armas de que ufam , aííi as oíFeníI- 
vas , como as defenfivas , coftumam de tra- 
zer mui ricas , principalmente os nobres 
trazem pelotes ferrados de laminas doura- 
das , que lhes dam por baixo do giolho hum 
palmo com cravações douradas , e muito 
bem guarnecidas , nas cabeças trazem cela- 
das, e capacetes guarnecidos de ouro com 

fuás 



14 ÁSIA de João de Barros 

fuás plumagens. As oífeníivas são lanças , 
terçados , maças de ferro , machadinhas , 
que levam penduradas nos arções das feiias , 
arcos 3 e frechas , que he a fira natural arma 
para pelejar; e tirando os Tártaros Uzbe- 
ques de Camarcant , e da Província Cax- 
car , e dahi para cima, té contra o Norte, 
nenhuma nação que á noíía noticia vieífe, 
chega aos arcos , e ao modo de tirar dos 
Mogolcs ; e quanta vantagem os Perfas fa- 
zem nefles arcos aos Turcos de Grécia , e 
da Natolia noíTos vizinhos , tanta fazem os 
Mogoles aos Perfas. Toda fua guerra fa- 
zem a cavalio , porque o eílilo , e curfo del- 
les não íbffre trazerem gente de pé , porque 
andam tanto , que anoitecendo aqui , ao 
outro dia amanhecem dahi a dez , e quinze 
léguas. Os cavallos são como quartaos , cor- 
rem pouco , mas andam muito , e pelejam 
com elles acubertados. Não he gente que 
íitne Cidades , e dcm combates com artilhe- 
ria , e artifícios , que cá uíamos neftas parles. 
Todo feu feito são corridas , talhando os 
frutos , e novidades dos campos , roubando 
povoações , e com aquelle furor do primeiro 
impero tudo accommettem , no que são tão 
preíles , que não dam lugar a algum aper- 
cebimento; e quando fe cuida que fe põem 
em fugida , muitas vezes ficam vitoriofos , 
porque aífi frecham fugindo como quando 

com- 



Década IV. Liv. VI. Cap. II. iy 

commetrem. Cofuimam fazer ciladas , c tem 
niíto grandes modos , e ardijs. E fazem 
mais conta de ferem fenhores do campo, 
que das povoações ; e efta fomente he a fua 
maneira de cerco , porque fabem que quem 
do campo for fenhor , que o fera do mais. 
Finalmente elles , e os cavallos em que an- 
dam são grandes aturadores , e foífredores 
do trabalho. Trazem artilheria em carretas , 
cada peça de comprimento de hum covado , 
as groífas tiram pelouros de tamanho dos 
de falcões , os das miúdas como nozes. 

Com efta gente anda muita de diverfas 
nações , como Tártaros , Turquhmaes , Co- 
raçoncs , e outros , aos quaes também cha- 
mam Mogoles por andarem com elles. O 
feu Rey trata- fe com muita mageítade , e 
deixa-fe ver poucas vezes , tem grande guar- 
da em fua peílba , aííl na paz 5 . como na 
guerra , na qual o guardam dous mil de ca- 
vallo a cada quarto , em que entram cera 
Senhores principaes , e todos comem de fua 
cozinha. Dos mais ufos , e abufos deita gen- 
te diremos em noífa Geografia , quando ef- 
crevermos de fua região , e das a ella vizi- 
nhas , baila o que aqui temos dito para fc 
íaber o valor deita gente, 



CA- 



i6 ÁSIA de JoXo de Barros 

CAPITULO III. 

Da caufa , que os Mogoles tiveram para 

entrar no Reyno do Delij : e como EIRey 

Babor fe fez Senhor delle , e do 

mais que nelle fuccedeo. 

EStando os Reys dos Mogoles , e Pata- 
ncs tão intentos em hum mefmo pen- 
famento de fe fazerem Senhores na índia , 
para gozarem as riquezas delia , como os 
eftados do Mundo eftam poftos em cafos que 
o tempo traz , aconteceo que hum Rey do 
Delij chamado Babul veio ater guerra com 
outro feu vizinho , contra o qual elle man- 
dou pedir ajuda de gente decavallo a Abra- 
hemo Rey dos Patanes , cuja Metropoli he 
Niláo , que diftará da porta Darbande quinze 
léguas. Abrahemo , como nenhuma coufa 
defejava mais que entrar naquelle Reyno do 
Delij , veio a elle o mais poderofamente 
que pode , c em lugar de foccorrer a Ba- 
bul , lhe tomou o Reyno ; e fazendo-fe Se- 
nhor delle , mandou vir do feu Reyno mui- 
ta mais gente , que foi depois caufa de o 
perder , como adiante diremos. 

Vindo efte a morrer ? deixou dous filhos , 
o maior que ficou por fucceíTor do Reyno 
fe dizia Eícandar , o menor Álamo Chan. 
Falecendo Efcandar, ficou o Reyno a feu 

fi- 



Década IV. Liv. VI. Cap. III. 17 

filho Abrahemo , efe por fer homem cruel , 
e de máo governo , fentindo Álamo feu tio 
que elle lhe procurava a morte , fugi o com 
lua mulher , e filhos para o Reyno do Gu- 
zarate , em tempo de Modafar Rey delle , 
que lhe fez muita honra , e lhe deo terras , 
e renda com que fe pudeííe fuítentar como 
filho de quem era. E depois de eftar em 
Cambava , não tardou muito que feu fobri- 
nho Abrahemo fez taes coufas , que muita 
parte dos Grandes eferevêram a Álamo, 
que fe tornaíTe ao Delij , que o queriam 
levantar por Rey ; porque ainda que nao 
houvera mais razão que as cruezas, e mal- 
dades que Abrahemo uíava , era bem que o 
depuzeíTem do Reyno , quanto mais fer el- 
le rilho legitimo de Abrahemo primeiro , a 
quem mais pertencia , que a Abrahemo le- 
gando , que tinham por certo fer aduiteri- 
110 , e nao filho de Efcandar. Álamo havi- 
das eftas cartas , as foi moftrar a Soltam 
Modafar, pedindo-lhe licença, e ajuda pa- 
ra ir cobrar aquelle Reyno , que com tão 
juftas caufas lhe offereciam per que fe via 
fer elle o verdadeiro fucceíTor. Modafar 
trabalhou muito por o defviar daquelle pro- 
pofito , dando-lhe para iílo muitas razoes ; 
mas quando vio que Álamo todavia fe de- 
terminava ir , por cada dia lhe virem reca- 
dos , e cartas dobradas , tornando elle Ala- 
Tem. IV. P. il. B mo 



18 ÁSIA de João de Barros 

mo a lhe dar conta da preíTa que os do 
Reyno lhe davam, confentio que fe foífe; 
mas uíou corn elle de huma cautela , acon- 
felhando-lhe que não levaíTe fua mulher, e 
filhos , dizendo , que o negocio a que hia 
citava mui incerto ; e como podia fueceder 
bem , podia fueceder ao contrario , como 
coufa que dependia da vontade da gente do 
povo , que íèmpre foi vária , e inconílante ; 
por iíTo feu parecer era , que deixaífe fua 
mulher , e feus filhos comendo as terras que 
lhe elle tinha dadas , e que quando eftiveíTe 
pacifico, elle lhe mandaria a mulher, e os 
filhos como quem eram. 

Efte confelho , poílo que foi proveitofo 
a Álamo , por os trabalhos em que fe vio , 
a tenção d'ElRey era , parecer-lhe que fe 
Álamo cobrava aquelle Reyno do Delij , 
por a vizinhança que tinha com elle, que 
era bom penhor ter-lhe a mulher, e os fi- 
lhos em poder para qualquer negocio , e 
com a licença lhe deo boa fomma de di- 
nheiro por não ir efeandalizado delle ; e 
quanto á gente que Álamo lhe pedia , dif- 
fe , que lha não dava por não romper as 
pazes , e amizade antiga que havia entre 
feu Reyno , e aquelle do Delij. Álamo fa- 
tisfeito d\ElRey com aquellas razoes , e com 
outras , deixando fua mulher, e filhos co- 
mo lhe aconfelhou } partio caminho do De- 

■Mi 



Década IV. Liv. VI. Cap. III. 10 

lij com ieus fervidores fomente ; mas com 
o dinheiro que levava fez hum bom exer- 
cito de gente folta do Guzarate , e Man- 
dou , e de outra que fe a elle ajuntou pe- 
las terras per onde paíTava. 

Os Grandes do Delij quando fouberam 
de fua ida , o vieram receber , e levantaram 
por Rey , intitulando- fe por efte nome de 
Soltam Laudij ; e accrefcentando mais feu 
exercito , começou fazer guerra a Abrahe- 
ino , o qual por algumas vezes que pelejou 
com o tio , fempre o venceo , té que na 
derradeira batalha vendo-fe Laudij defam- 
parado da maior parte da gente , que logo 
do princípio o feguia , com alguns poucos 
foi pedir foccorro a Babor Pvey dos Mo- 
goles por razão do parentefco que tinha 
com elle. O qual já a efte tempo tinha to- 
rnado parte do Reyno a Abrahemo ; por- 
que como eftes dous Príncipes , o dos Pa- 
tanes , e o dos Mogoles , defejavam de to- 
mar aquella porta Darbande para entrarem 
tio Reyno do Delij ; tanto que Abrahemo 
o velho o tomou pela traição que commet- 
teo contra EIRey Babur , defcêram os Mo- 
goles fobre as terras dos Patanes , e come- 
çaram de os conquiftar. Ejá no tempo que 
Soltam Laudij lhe foi pedir foccorro , lhes 
tinham tomado eftas Cidades , Ingoxauz , 
Haibar , Haibarij , Senará , e a fua Metro- 

B ii po- 



io ÁSIA de João de Barros 

poliNiláo, que eíhm no caminho das Cá- 
filas , que entram na índia por a porta Dar- 
bande , entrada táo deíejada delles. 

A caiifa por que cites Mogoles em tão 
breve tempo conquiftáram eftes , e outros 
lugares do Reyno dos Patanes , havendo 
tanto tempo que o defejavam , foi , que Sol- 
tam Abrahemo o velho, tanto que tomou 
a Cidade de Dciij , começou a dcfpejar o 
leu próprio Reyno de gente , por a neceííí- 
dade que tinha delia para a conquifta do 
outro , que elle mais eftimava , por a diffe- 
renea que havia de hum Eftado ao outro, 
com que ficou tão defpovoado , que tive- 
ram os Mogoles azo de entrar nelle , e em 
breve conquiftáram a maior parte das po- 
voações de baixo , porque as que eítam nas 
montanhas ainda hoje as não entram , mas 
fc defendem os Bagounes fortemente , e mui- 
tas vezes defeem do cume das ferras , e 
vem aos paífos fragofos per onde paliam as 
Cáfilas , as quaes não deixam paliar té que lhes 
dem hum tanto por iíío , como gente que 
não quer perder a poífe dos direitos , que 
lhe as Cáfilas pagavam daquella paífagem. 

BaborPatxiah vendo o requerimento de 
Laudij , por o defejo que tinha de entrar 
naquclle Reyno, depois de o receber cora 
muita honra , e gazalhado , como parente , 
em poucos dias le veio com elle , trazendo 

quin- 



Década IV. Liv. VI. Cap. III. 21 

quinze mil homens de cavallo , ao qual íe 
ajuntaram alguns Capitães que andavam com 
Laudij , e o deixaram no desbarato da der- 
radeira batalha. EIRey Abrahemo junta íiia 
gente , algumas vezes pelejou com íeu tio em 
lugares que delle fe podia ajudar , té que 
em huma batalha campal que ambos tive- 
ram , em que Abrahemo trazia dous mil ele- 
fantes 5 cuidando que elles bailavam para 
lhe darem vitoria , foi elle vencido , e mor- 
to dos mefmos feus elefantes. Porque que- 
rendo com elles romper a batalha dos Mo- 
goles , aífi como vinham furiofos para rom- 
per , aíli tornaram a virar tanto que fe fen- 
tíram feridos de huma chuva de frechas dos 
Mogoles , que os nao coníentíram chegar a 
éks. Com eíle ímpeto de fugida , e frecha- 
das com que os hiam períeguindo , trilha- 
ram , e romperam a batalha em que Abra- 
hemo vinha , com que puzeram tudo em 
desbarato. Efta vitoria confirmou a Laudij 
fer havido dos Patanes por feu Rey ; mas 
porque Abrahemo feu pai nao tinha pago 
a maldade . que commetteo contra Babul em 
lhe tomar o Reyno , chamando-o elle para 
o ajudar a defender, a juíHça Divina diííi- 
mulou com elle para o pagar efte feu filho por 
o niefmo modo, e ainda com maior damno. 
Porque Babor Patxiah como a maior 
parte de feu Eítado era montuofo, e afpe- 

ro 



22 ÁSIA de João de Barros [ 

ro de foíFrer nos temporaes do anno , e não 
tinha a fertilidade , ares , e riqueza , e tão 
grande número de povoações como o Rey- 
no do Delij , do qual boa parte elle vio , 
e paííeou naqueila guerra , quiz tomar por 
premio de feu trabalho o próprio Reyno. 
Para eíFecluar cfte propoíito , pegava-fe Ba- 
bor a três razoes que a iíío o moviam : a 
primeira , o exemplo de Abrahemo no que 
fez a Babul , a quem aquelle Reyno fora rou- 
bado , e não pertencia a quem o pofíliia : 
A outra razão era dizer, que fabia que os 
Capitães de Laudij lhe aconfelhavam que 
lançafle mão delie Babor antes que fefoiTe, 
té íhe entregar as Cidades que lhe tinha to- 
madas do Eítado de feu pai , que era a en- 
trada do Indoftan , de que eíhva em poíle , 
e que por efte modo ficaria feguro delle : a 
terceira, e principal razão , era dizer, Ba- 
bor ter mais direito no Reyno que o mef- 
mo Laudij ; porque dizia que o grande Ta- 
mur Lang natural Chacatai em fua vida 
dera o Reyno de Cabol , que elie conquií- 
tou té o rio indo a feu neto Pir Maha- 
med Janguir , e cfte caiara depois hum fi- 
lho feu com'huma filha d'EÍRey do Delij 
por a vizinhança que tinham , o qual foi 
avô ádk Babor Patxiali a . E huma das pet 

fo- 

a Fel o Tamur Lang; , o Lançar , ( como lhe chama 
Dio^o do Couto,) que qtlet di%er fclioe nfrtnco\ natural 
de Qtiex j Cidade vizinha a Samarchande y o qual depois 



Década IV. Liv. VI. Cap. III. 23 

foas que aBabor dco muito animo, c aju- 
da para totalmente fe fazer Senhor daquel- 
le Reyno , foi hum Mouro de nação Pata- 
ne , per nome Xer Chan , de que fazemos 
efta lembrança por o muito que nos livros 
feguintes delle hemos de dizer. 

Finalmente Babor per força de fuás ar- 
mas fe foi entregando do Reyno , té de 
todo fe fazer Senhor delle. Polo que ven- 
do-fe Laudij defpojado , e cativo , como 
homem abatido da fortuna , e defeonfiado 
do remédio , pedio a Babor ufaíle com elle 

de 

que com as armas fe fez Senhor das Províncias de Hora- 
can , ( ou Coraçone , ) Perfia , Arménia , e todas as mais 
que jazem perto do Mar Cafpio , ( a que es Turcos cha- 
mam Tanguis Xor , que quer dizer Mar Salgado , e os 
Arménios Xtir Guiían , Mar de Cuilan , Cidade filuada nas 
fias praias , ) fahio a conquifiar o Indoflnn , e do que ga- 
nhou nelle , com vitoria de hum ÍXey da Deli j t deixou por 
R.ey a Pir Mahamed feu neto , filho de Janguir feu filho 
mais velho y que já era morto , o qual po^ a fua Corte em 
Cabcl. Por morte de Tamur , que foi no anno de 140 j. 
Jhe ficaram três filhos ; Ornar Miruxiah com o Império de 
Sarna rcant , com tudo o que fe comprehende entre os rios 
Oxo , e Jaxartes , Miraxaroc com o Reyno de Coraçone-, 
e Ilaomar Xiab , a que chamaram Balobo , que ficou fem 
Mfiado. Efie fe pafjou ao Delij feito Calandar , matou ao 
"Rey daquellc Reyno , e apoderado do feu E fiado , Jahio a 
conquifiar outros do Indojlan. Herdou-os por fua morte Abuf- 
feir feu filho , a quem juceedeo Babor feu filho pai de Omaum 
Patxiah. E fecundo" efia relação de Dio?o do Couto , era 
Babor bifneto de Tamur Lang. Cap. 1. do ttv. 10, e no 
cap. 15. do liv. 1. da 5. Década > faz outra relação dos 
fuecefiores de Tamur Lang , que dlffere em alguma coufa 
dejla , como nella fe pôde ver. 



24 ÁSIA de JoÁo de Barros 

de clemência , pois o chamara para o aju- 
dar a cobrar o que reftava do Reyno , que 
fora de íeu pai , e não para lhe tomar o 
acquirido , e quizeíle dar-lhe liberdade , por 
quanto queria ir acabar o refle de fua vida 
na cafa de Meca 3 porque lhe parecia que 
por feus peccados o quizera Deos caítigar. 
Babor lho concedeo , refpeitando fer feu 
parente , e lhe mandou dar largamente o 
neceífario para feu caminho 3 e pôr nos con- 
fijs do Reyno de Guzarate , onde deixara 
fua mulher , e filhos em poder de Soltam 
Modafar , que naquelie tempo faleceo. E 
não querendo Laudij ir a Meca , fe deixou 
eítar no Guzarate em ferviço de Soltam Ba- 
dur, que a feu pai Modafar fuccedêra. 

Do exemplo deftes Principes , e de ou- 
tros que o tempo moílrou , fe pode ter quaíl 
por regra geral ? que os Principes que &* 
hem do feu Reyno por conquiftar o alheio , 
muitas vezes perderam o próprio , e o quç 
quizeram conquiftar ; e que todo o Princi- 
pe que mette em feu Reyno ajudas d'outro 
mais poderofo , em lugar de fe defender da- 
quelle contra quem pede o favor , vem fer 
vencido do que chamou para foccorro. 



CA- 



Década IV. Liv. VI. 25* 

CAPITULO IV. 

Como EIRcy Badur de Cambaya começou 

fazer guerra a EIRey Omaum dos Aío- 

goles , e a Rainha de Chitor lhe negou 

a obediência ^ e a deo a Omaum. 

OS Mogoles com eftas fuás vitorias , e 
conquiíias dos Reynos de Bagou , e 
DeJij foram terror áquelles povos da ín- 
dia não coftumados a guerra da gente do 
Norte dura , e animofa , e por eíla razão 
receava Babur Rey de Cambaya romper 
com Omaum Patxia filho de Babor, e aíli 
inflou muito na concórdia com elle , como 
atrás diífemos a , que não podendo confe- 
guir, e vindo a rompimento de guerra, a 
primeira couíâ,que ordenou contra Omaum , 
foi mandar hum Capitão feu per nome Ter- 
ça Chan com vime mil de cavallo , e mui- 
ta gente de pé > que entraííe nas terras do 
Mogol. 

A caufa , por que mandou efte Capitão , 
e não outro , fendo eile ainda muito mo- 
ço , era por fer hum dos filhos de Soltam 
Laudij , que eile deixou em Cambaya por 
confelho (FElRey Modaíkr, o qual deo a 
Laudij terras que comia , além das que lhe 
tinha dado , quando Babor o deixou em li- 
beis 

a L/v. 5. ca-p. 16. 



^6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

berdacle , c o mandou pôr nos confins do 
Guzarate , e nefte tempo ainda era vivo , e 
fervia a Soltam Badur. E por o direito que 
efle mancebo tinha ao Reyno do Deiij , o 
mandava Badur com aquelle poder a dous 
fins , afli para elle com maior animo pelejar 
com os Mogoles , que o deferdáram do feu , 
como porque a gente Patanc íua natural em 
o vendo com tanto poder o ajudaíle , rebel- 
lando-íe contra Omaum 3 pois era Senhor 
eftrangeiro , e não natural. 

El pedido eíle Capitão , efereveo Badur 
á Rainha Crementij mulher do Sanga ve- 
lho , mai do moço , que então reinava , que 
lho mandaíTe com a gente com que era 
obrigado villo fervir na guerra , porque en- 
tão tinha muita neceílidade delle , e de fua 
gente. A ifto reípondeo a Rainha , que de 
mui boa vontade , e que logo o fazia prcC- 
tes ; mas por não ficar orfa de dous filhos 
que tinha , lhe pedia por mercê , que para 
fua confolação lhe mandaíTe o outro que an- 
dava em fua Corte ; o que lhe Badur con- 
cedeo , e lho mandou a Chitor mui honra- 
damente per dous Capitães , dos quaes hum 
era Cuja Chan , e outro Mina Hocen. Apre- 
fentando elles efte Infante a fua mai , pe- 
díram-lhe que lhe entregaiíe o herdeiro San- 
ga , porque vinham para o levar , e que 
com clle também foííe Botiparao feu cunha- 
do 



Década IV. Liv. VI. Cap. IV. 27 

óo delle Sanga , que era filho do Salahedin. 
A Rainha mandou muito bem agazalhar os 
Capitães, e tratallos com muita honra, di- 
zcndo-lhes que repouíaífem , porque em bre- 
ve tempo acabaria de aperceber feu filho; 
e a grão prefla mandou fazer preftes muita 
gente de cavallo , e de pé , com todo o ap- 
parato de guerra , dando a entender que era 
para ir com EIRey feu filho a fervir a Sol- 
tam Badur. 

Entretanto teve a Rainha Cremcntij al- 
guns confelhos com os principaes Capitães , 
e com clles aííentou que muito mais pro- 
veitofa coufa lhe era obedecer a Omaum 
Patxiah Rey dos Mogoles , que a Soltam 
Badur , por muitas razoes que para ifiò fo- 
ram apontadas. E antes que fe determinai- 
fem a dar efte defengano a Badur , fecreta- 
mente mandou feu Embaixador a Omaum 
Patxiah , notiflcando-lhe faa tenção ; e que 
querendo acceitar a protecção , e defensão 
daquelle Reino de Chitor , feu filho lhe da- 
ria a obediência de vaííallo , como a Em- 
perador de todo o Indoftan , que elle era. 
Tanto que a Rainha teve certa a acceitação 
de Omaum , mandou dizer aos dous Capi- 
tães do Badur , que fe foíTem em boa ho- 
ra , que feu filho era moço , e mal difpof- 
to , e não podia por então fahir de feus 
braços para o curar , e como eftiveíTe em 

boa 



28 ÁSIA de João de Barros 

boa difpofiçao , cila faria niflb o que lhe 
bem pa receite. Os Capitães porque iníiíliam 
em nao fe partir fem levar EIRey , man- 
dou-lhes a Rainha dizer, que fe foíTem lo- 
go , fenao que os mandaria deitar fora do 
Reyno , o que elles fizeram fem efperar ou- 
tra reípoíta. Soltam Badur tanto que foube 
que a Rainha , e os do feu Confelho fica- 
vam naquelle propofito de Jhe nao obede- 
cer , e que mandava arrazar aquelle monte , 
de que a Cidade fora combatida , para del- 
le outra vez nao tornarem a receber damno , 
bem fentio que ifto era alguma confiança 
que tinha em Omaum Patxiah. 

PaíTado aquelle inverno , em fe Badur 
aperceber para ir bufcar eíte feu inimigo , 
tanto que foi tempo , fe poz em caminho. 
Mas Rume Chan o tirou de ir bufcar o 
Mogol , elhe aconfelhou que foflc primei- 
ro a Chitor , dando-lhe fuás razoes per que 
devia caíligar efta defobediencia , por lhe 
nao ficar nas coílas aquelle Reyno rebella- 
do j que lhe podia fazer damno fe algum 
trato tinha com Omaum Patxiah. Movido 
EIRey com as razões de Rume Chan , par- 
tio com cem mil de cavallo , e quinze mil 
efpingardeiros ; a gente de pé a que pagava 
foldo feriam quatrocentos mil homens. De 
artilheria levava mais de mil peças , delias 
groíTas de bateria ? em que entravam três 

ba- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. IV. e V. 29 

bafiíiícos , e três meios , e outros canhões 
groíibá , e outra leve de campo , e feiscen- 
tos elefantes , todos armados de laminas de 
aço com feus caílellos para de cima peleja- 
rem , e cm cada caílello quatro homens , e 
dous berços ; levava féis mil carretas , em 
que fomente hia a fardagem d'E!Rey , del- 
ias tiravam bois , e delias cavallos. Além 
deíía fardagem d'ElRey , hia a dos Capi- 
tães , que era outro grande número. Por 
ordenança dos que governavam aquelle exer- 
cito , no lugar onde fe cada Capitão aga- 
zaíhava , tinha própria praça ? a que acu- 
diam todos os mantimentos , que os feus re- 
gataes eram obrigados a trazer , e afli todo 
OrScial mecânico , fem o ir bufear a outra 
parte , a qual ordem era mais efpantofa , 
que o número da gente > e abundância de 
todas as coufas. 

CAPITULO V. 

Como Soltam Ba dur foi cercar a Cidade de 
Chitor , e de algumas vitorias que os Mo- 
goles houveram de feus Capitães , ten- 
do elle cercada a Cidade , que to- 
mou : e do que depois dijfo fez, 

APreíTou-feElRey no caminho de Chi- 
tor , por lhe vir nova que Terça Chan , 
que elle tinha enviado ao Reyno do Delij 

com 



go ÁSIA de João de Barros 

com vinte mil de cavallo , pelejara com os 5 
Mogoles , e em hum recontro que teve com 
elles , ficara no campo com a vitoria , pon- 
do-íe elles em fugida. Com cila nova , che- 
gando a Cliitor , a lituou com a mais da gen- 
te que levava , a outra mandou com Sol- 
tam Laudi 3 pai de Terça Chan , e com 
Mompalrao , e outros, com huma cópia de 
gente , ao extremo do Reyno do Delij , pa- 
ra que vindo os Mogoles per aquella par- 
te , que era mais fufpeitoía , os entretivef- 
fe , té per eiles ler avifado da vinda delies , 
por o não tomarem de improviío oceupa- 
do naquelle cerco. Pola qual razão , cerca- 
da a Cidade, começou a dar os combates 
tão apreíiados, com a muita gente que ti- 
nha , que dava muita opprefsao aos cerca- 
dos , que também com grande animo fe de- 
fendiam , no que elle perdia muita gente ; 
e foram-lhe mais trabalhofos eftes combates , 
que os da outra vez , por falta do monte 
Chitorij fronteiro da Cidade , que a Rainha 
mandou arrazar ; e também porella ter mui- 
ta artilheria queBadur lhe deixou, quando 
da outra vez combateo a Cidade para fe 
defender, fe os Mogoles a vieífem cercar. 
E como Badur era accelerado , e não tinha 
paciência para efperar o tempo , e conjun- 
ção das couílis , e diante dos feus olhos via 
que os cercados com eíla artilheria , e gran- 
des 



Década IV. Liv. VI. Cap. V. 31 

d es artifícios de fogo, matavam muita gen- 
te j e não confentiam chegarem a combater 
o muro , mandou perante íi pôr huma me- 
za com muito dinheiro em ouro , e lançar 
pregão , que por cada pedra do muro que 
lhe trouxeíTem daria hum tanto, com o qual 
partido a gente pobre íè aventurava de ma- 
neira , que de cento náo ganhava hum , fi- 
cando lá os outros mortos , e feridos. E 
com tudo vendo a gente logo o pagamen- 
to na mao , torna va-fe aventurar , com o 
que EIRey gaitava algumas mil peças d'ou- 
ro cada dia. 

Eftando nefte entretimento , por fer já 
hum pedaço do muro desfeito , por a ba- 
teria , e dei pejo das pedras que a gente ti- 
rava , vieram-lhe novas que Terça Chan, 
que elle mandara com vinte mil de cavai- 
lo j e houvera huma vitoria dos Mogoles , 
e com o favor delia , entrara tanto pela ter- 
ra das campinas do Delij , que hia já mui 
perto da Cidade de Agara , que era a mais 
notável do Reyno , como homem que fe 
faia empoííando daquelle Reyno , de que 
elle era Principe herdeiro , como filho de 
Soltam Laudij Rey defpojado delle; e ten- 
do já andado féis jornadas fem algum con- 
traíte , fe lhe aprefentáram té dous mil Mo- 
goles de cavallo , que comfigo traziam al- 
guma gente de pé da terra , os quaes fingin- 
do 



32 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

do temor de Terça Chan , começaram de fe 
recolher era huma batalha cerrada para hum 
certo lugar , em que fe pudeflem amparar. 
Terça Chan alvoroçado com a moílra de 
temor que nelles fentia , e com a vitoria 
que já de outros houvera , os rompeo. Mas 
elles não curando de lhe reíiftir , foram-lè 
recolhendo concertadamente , como gente 
deítra naquelle mefter , defendendo-fe fegun- 
do feu uío , tirando com feus arcos per ci- 
ma das ancas dos cavallos , té entrarem em 
huns valles de entre humas ferras. Os Gu- 
zarates como hiam naquelle alvoroço , fe- 
guíram fua corrida , té irem dar em duas 
ciladas que os imigos lhes tinham encuber- 
tas , nas quaes os Mogoles mataram tan- 
tos , que de vinte mil homens de cavallo , 
fomente eícapáram quatro mil. Nefte desba- 
rato morreo Terça Chan , não fugindo , 
mas pelejando como esforçado cavalleiro que 
elle era , com alguns que o quizeram feguir 
nas voltas que fez , e com elle muitos ho- 
mens nobres , e Capitães Guzarates. E por- 
que os Mogoles feguíram o alcance quatro 
dias 5 ainda eíTes poucos que efcapáram foi 
com favor de Soltam Laudij , o qual por 
eftar naquella parte por onde eítes fugiam , 
acudio com féis mil de cavallo aos recolher , 
e fe foi per huma ferra , que era de hum 
Príncipe Gentio, que o favoreceo, fem té 

en- 



Década IV. Liv. VI. Cap. V. 33 

então laber fe era feu filho morto. Mas de- 
pois que de ília morte foi certificado per 
pèflòas que o viram matar , mandou efta 
nova a Soltam Badur , per que elle íicou 
mui crifte , e receofo , aífi por a pcflba de 
Terça Chan , c por os Capitães conhecidos 5 
como porque neíie desbarato conheceo o po- 
der dos Mogoles. Logo mandou ceifar dos 
combates da Cidade, por entender nas exé- 
quias de Terça Chan , que mandou fazer 
mui folemnes por a nobreza de feu lan- 
gue , e amor grande que lhe tinha ; e não 
fomente elle , que de todos era amado por 
fuás boas qualidades 5 mas os outros que 
com elle pereceram , foram de todos mui 
chorados per todo o arraial , e fez mui gran- 
de efpanto a morte deita gente , e a perda 
da riqueza do arraial , que fegundo feu coí- 
tume foem levar os Guzarates , de que os 
Mogoles ficaram ricos. 

Os cercados quando viram que fe lhes 
não davam aquelles contínuos combates cios 
dias atrás , e ouviram o rumor dos pran- 
tos , que no arraial fe faziam , parecendo- 
Ihes por elles que feriam mortas algumas 
peífoas notáveis , defcêram abaixo á outra 
cerca onde eílavam os inimigos , e deram 
nelles com grande grita , em que fizeram 
muito eftrago , por citarem feguros daquelle 
íbbrefalto. Indignado difto Soltam Badur, 
Tom, IV. P. iL C man- 



34 ÁSIA de JoÃo de Barros 

mandou logo a grande preffa dar combates , 
como que nelles fe queria vingar da vitoria 
que os Mogoles houveram. Eftando neíta 
fúria , lhe veio outra nova , que Mompal- 
rao feu Capitão houvera outro recontro na 
parte onde eftava com os Mogoles , em que 
lhe mataram três mil homens , os mais dei- 
les Decanijs , que era a melhor gente que 
elle trazia daquellas partes, entre os quaes 
morrera hum Capitão Gentio daquella meí- 
ma gente chamado Bargi 3 que elle muito fen- 
tio , e aíli roda efta indignação que tinha con- 
tra os Mogoles , convertia contra os cerca- 
dos. E tanto fez com dadivas , e promeílas 
de rendas , e accrefcentamentos a quem o bem 
fizeííe , té que a Cidade foi pofta em feu po- 
der á cuíla das vidas de muita gente nobre , 
e Capitães de nome , em que entraram quatro 
Portuguezes. Nefte cerco morreram y fegundo 
diziam , quinze mil homens , dos quaes os 
quatro mil eram de cavallo. O Sanga , e fua 
mãi , com toda fuacafa, e família, e gente 
nobre que os quiz feguir, fe fahíram hum 
dia antes da entrada da Cidade per huma 
porta que nella ha da parte da ferra , pelo 
qual caminho eiles feguramente fe puzeram 
em falvo , deixando queimado quanto movei 
tinham , que não puderam levar a . Soltam 

Ba- 

o Nejía guerra de Chitor , efereve Diogo do Couto, 
que fe acharam Diogo de Aleft/uita , Lopo Fernandes Pin- 
to , Manoel Mendes , Buarte da Gama , c todos os mais 



Década IV. Liv. VI. Cap. V. tf 

Badur não entrou na Cidade com tenção de 
matar , e roubar a gente que nclla ticou , 
como vitoriofo , antes a mandou reformar 
logo de muros 5 e fegurar toda a gente que 
andava fugida pela ferra ? e na Cidade dei- 
xou per Capitão Minao Hocem com doze 
mil homens , a maior parte de cavalío. 

Acabadas todas as coufas que tocavam 
ao focego , e fegurança da Cidade , e fei- 
tas grandes exéquias por os que alli morre- 
ram , partio-fe EIRey dalli , levando íeu 
exercito repartido em três batalhas , como 
homem que a cada encuberta efperava de 
lhe fahir huma cilada dos Mogoles j porque 
EiRey aífi como para commetter qualquer 
coufa árdua , feu efpirito era audaz , e fem 
medo , aííi em recear vir-lhe algum mal era 
timido , como são os tyrannos. O temor 
dos imigos fe lhes dobrava cada dia , e já 
naquelle caminho que hia fazendo lhe che- 
gou outra nova , como os Mogoles tinham 
tornado a tomar a Cidade de Chandarij , 
que o Sanga velho cobrara delles , e def- 
truido muita parte do Reyno de Mandou, 
i Cu te 

Portugueses que Badur tinha cativos , aos quaes ãeo ar- 
mas , cava/los, e criados, e tudo o mais necejjario com 
largueza , e os fez. da guarda de ftla pejjoa , confando-a 
mais delleç , que de feus vaj/alíos. JS no cerco da Cidade 
de Chitor Diogo de Mejquita , e feus companheiros mojlrá- 
ram bem o cojlumado valor Portuguez. ; e que na tomada 
de Chitor foram cativadas a Rainha , e o Sanga feu filho* 
Cap. j. do liv. 9, 



36 ÁSIA de João de Barros 

te tomarem a Cidade deSârangue, quedií- 
ta quarenta léguas do Mandou , coulà mui 
notável. 

Indo fèn caminho com o exercito em 
boa ordem contra huma Comarca que cha- 
mam Doçor , por cauía de huma Cidade 
do meímo nome , alli aflentou feu arraial , 
fem querer ir mais avante, perconíelho de 
RumeChan, per quem então fe governava 
naquellas couías. Nefte lugar emqueEilley 
aíTentou feu arraial , de huma parte eílava 
hum rio grande , e da outra hum tanque 
d'agua 5 que elles coíiumam fazer naquellas 
partes j porque como ha poucas ribeiras pa- 
ra recolhimento das aguas do Inverno , fa- 
zem eíles tanques , (a que mais propriamen- 
te podiam chamar lagoas , ) todos empedra- 
dos. Eftes são tão grandes, que muitos dei- 
les paííam de légua em circuito , dos quaes 
beve a gente , e o gado , e cite que ElRey 
tomou para defenfa de feu arraial , era hum 
daquelles ; e da outra parte onde citava o 
rio obra de duas léguas e meia , per duas 
partes fez duas cavas per que mettia o rio té 
o levar ao tanque de maneira , que de todas 
as partes ficava cercado d'agua , que lhe fer- 
via de força , e provisão para o arraial : e per 
aquella parte per onde os Mogoles o pode- 
riam accommetter , fez hum baluarte , no 
qual mandou aflentar mui groíla artilhería. 

Ncfr 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. V. e VI. 37 

Neíle tempo os Mogoles tomada a Ci- 
dade de Neranguepor , e vindo caminho do 
Mandou , foi-lhes dada nova como Soltam 
Badnr tinha tomada a Cidade de Chítor ' ; , 
que muiro fentíram , porque vinham para 
aíbccorrerj c afll com eíla nova, deixando 
o caminho do Mandou que levavam , vie- 
ram-fe direitamente onde EIRey eílava , té 
aíTentarem feu arraial duas léguas dclle , á 
viíta hum do outro , por a terra ler chã. 

CAPITULO VI. 

Como Omaiim Patxiah teve por perdido a 

Soltam Badur , por a maneira em que 

tinha ajjentado feu arraial : e como 

foi morto o Capitão Coraçan Còan. 

TEndo Soltam Badur , e Omaum Patxiah 
aíTentados feus arraiaes hum. á viíta de 
outro , cada hum começou de entender co- 
mo feu inimigo eílava para fe melhorarem , 
e faberem per que modo melher poderiam 
accommetter. Omaum como vio que Badur 
eílava fortalecido em feu arraial , houve-o 
por perdido , vendo que fazia mais conta 
da fegurança de fer accommettido , que do 
campo , do qual elle fe fez fenhor a dous 

fins : 

a A efla Cidade diz Diogo do Couto que chegdra Omaum 
Patxiah , vindo em Çegui mento de Soltam Badur, a qual 
ÍOgá fe lhe entregou , e que delia paj/ára ao Keyno do Man- 
dou , vo qual nao achara ref.jlencia. Cap, 5. do liv. 9. 



38 ÁSIA de João de Barros 

fins : hum mandando ás vezes fua gente a 
efcaramuçar , e ver fe podia provocar os 
Guzarates a fahirem a batalha ; outro a lhes 
tolher que não lhes vieflem mantimentos de 
fora, entendendo que tanta gente havia de 
comer , e não fe havia de manter do vento , 
e que não podiam ter comíigo tanta provi- 
são que em poucos dias fe não gaílaíTe , na 
qual neceííidade Badur fe vio dentro de hum 
mez. E para remédio delia , mandou hum 
leu Capitão a hum Rao , que era Principe 
Gentio , que não reconhecia íuperior , e con- 
finava com as terras do Sanga , e de outra 
parte com o Reyno de Guzarate , que o 
proveííe de mantimentos , mandando-lhe hum 
prefente de cavallos , armas , e outras cou> 
fas. Alas como elle naquelle tempo tanto 
temia a Omaum , como a Badur, refpon- 
deo-lhe , que fe elle quizeíTe paíTar per luas 
terras , que o caminho aberto eftava , que 
elle o não podia tolher a hum tão grande 
Principe como dle era \ mas que ajudallo 
não podia , porque não comprava inimigos 
com fazer boas obras a outros ; e fem que- 
rer tomar alguma coufa , efpedio o menfagei- 
ro de Badur. Deita rcfpoíla ficou elle mui 
enfadado, por ver que já no feu arraial era 
tanta a falta dos mantimentos , que afli pa- 
ra a gente , como para as beítas , valia tudo 
ern muito grande preço > com que os po- 
bres 



Década IV. Liv. VI. Cap. VI. 39 

bres pereciam. E fe alguma pouquidade vi- 
nha para o arraial , era tomada pelos Mo- 
goles , os quaes por lhes eícaparcm dous 
Capitães que com huma pouca de vitualha 
entraram íeguros no arraial , trouxeram da- 
hi em diante melhor vigia , elles per huma 
parte, e o Sanga deChitor, que era vindo 
em ília ajuda contra Badur , per outra , de 
maneira , que té os homens que hiam fegar 
huma pouca de herva , eram logo tomados. 
EIRey Badur vendo a deftruiçao , e mor- 
tes de tanta gente 5 e alimárias daqueJle ar- 
raial , e que muitos defefperados fe fahiam 
delle a bufcar que comer, e fe podiam de 
noite , ou de dia fugiam, querendo antes 
cahir na mão dos inimigos , que morrer de 
fome , mandou lançar grandes pregoes , de- 
fendendo aos Capitães que não confentiífetn 
alguém de fua Capitania fahir do arraial fob 
pena de morte. E por animar a gente , e a 
não defefperar , mandou Coraçan Chan buf- 
car mantimentos a huma fortaleza que hi 
citava perto : era Coraçan Chan hum feu 
Capitão de muita authoridade , o qual ti- 
nha debaixo de fua bandeira todos os Co- 
raçones , Mogoles , e Perfas que em feu 
Reyno andavam ; e aíli gente da terra , com 
que fez dous mil de cavaiio. Partido de noi- 
te , foi fentido dos Mogoles , e deixaram-o 
caminhar té hum certo paílo , per onde en- 

ten- 



40 ÁSIA de João de Barros 

tendiam que cJle havia de ir , e alli lhe ar- 
maram huma cilada entre huns matos. E 
íahindo-íhe de roílo com té feiscentos ho- 
mens , foram-lhe alargando o campo té os 
metterem nella , onde lhe mataram a mais 
da gente , e clle muito ferido foi levado 
ante Omaum Patxiah , huns dizem que foi 
morto por não querer confeíTar o eftado em 
que Soltam Badur eílava , outros que por di- 
zer algumas palavras defeortezes a Omaum, 
o mataram , e lançaram feu corpo pelo rio 
abaixo 5 para ir ter onde os feus eftavam , 
e íér conhecido por o veftido que levava. 
Eíla morte de Coraçan Chan , e dos outros 
homens de preço que com elle foram , foi 
nuii íentida ; porque poíío que quanto á na- 
ção foífem eftrangeiros , eram já havidos por 
mturaes , e fendam a falta que fariam aoRey- 
no , por ferem muito cavalleiros , e valero- 
íbs. 

CAPITULO VIL 

Como Soltam Badur , por a morte de Cora- 
çan Chan , e outras perdas , def ampa- 
rou feu arraial , e fe poz em falvo , 
e o arraial foi f a que a dó \ e das ri- 
quezas que fe nelle acharam. 

SOltam Badur vendo as muitas vitorias 
que feus inimigos tinham havidas delle, 
e que o tinham em cerco com fome 3 e que 

de 



Década IV. Liv. VI. Cap. VIL 41 

de cem mil de cavalJo que trouxe, não ri- 
nha cincoenta mil , e para pelejarem riâa fe- 
riam quinze mil , e que de feiscentos Eie- 

2S nao teria já cento , e os bois eram 
mortos , e comidos , como homem defefpe- 
rado determinou de pôr fua peíTòa em íal- 
vo. Porque além de lhe faltarem tantas cou- 
fas como havia miíler para fua defensão , 
foi avifado , que alguns Capitães feus , of- 
fendidos delle , tinham ordenado de o en- 
tregarem aos Mogoles. E ou ifto foíTe ver- 
dade , ou temor delle , ou artifício para fe 
acolher , elle o poz em efreito 3 de que deo 
primeiro conta a Rume Chan , e a Frangue 
Chan , ordenando-lhes que logo aquella noi- 
te mandalTem carregar bem a artilheria grof- 
fa para arrebentar. E no tempo do eílron- 
do , por não fer fentido , fe íahio com al- 
guns do feu Confelho , o que foi a 2 c. de 
Abril de 1Ç35' ; e por fer grande eícuro , 
e nao fe poder Ver o caminho , levou ante 
íi huma tocha baixa , que o encaminhou té 
fahir de todo fora do arraial. 

Tanto que nelle houve rumor que Eír- 
Rey era ido , cada hum trabalhou de fe 
pôr em falvo. E alguns Portuguezes que ai- 
li andavam fe foram para os Mogoles , e 
alguns Guzarates , entre os quaes foi Me- 
iique Liaz , por defgoftos que tinha d'EI- 
Pvey; porque além de em fua pelloa rece- 
ber 



42 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

ber muito mal , e damno na fazenda , ma- 
tara-lhe com peçonha feu irmão Melique 
Saca, e a Melique Tocam mandara degol- 
lar per confelho de Rume Chan , que lhes 
queria grande mal. Foram nefta fugida to- 
mados muitos Capitães , e Senhores Guza- 
rates , e outros por fe disfarçarem em tra- 
jos pobres fe falváram , não fendo conhe- 
cidos dos Mogoles , que delles não faziam 
cafo. EIRey não parou menos de Mandou , 
levando em fua companhia Rume Chan , 
Frangtie Chan , e Duarte da Gama , e Fran- 
cifco Vaz Portuguezes. 

Omaum Patxiah tanto que foi avifado 
de noite , que EIRey era partido , por lhe 
parecer que fua ida feria para a ferra de 
Mandou , por fer acolheita que mais perto 
tinha , mandou apôs elle hum Capitão com 
dez mil de ca vai lo 3 que lhe foífe tomar a 
dianteira , o qual nefte caminho matou gran- 
de número de gente da que hia fugindo ; 
e quando foube que EIRey não era lá, dei- 
xou-fe eílar á vifta da Cidade , que eílá ao 
pé da ferra , o que deo grande trabalho a 
Badur , porque o fez rodear por outra par- 
te , e foi entrar na Cidade per hum poíligo 
■falíò encuberto aos Mogoles. E tanto que 
foi dentro na Cidade , mandou fazer á por- 
ta delia huma torre , de que fez Capitão a 
Rume Chan. Mir Mahamud Xiah p fobri- 

nho 



Década IV. Liv. VI. Cap. VIL 43 

nho cPElRey , não fabendo que caminho 
levava feu tio , foi-fe para a Cidade de 
Champanel , e nefte caminho foi roubado 
dos povos Collijs , e ferido hum feu Capi- 
tão per nome Suja Chan , e foi tão desba- 
ratado , que efcapou com cinco de cavallo 
fomente, com que chegou a Champanel. 

Omaum Patxiah quando veio a manhã, 
apôs a noite que Soltam Badur fugio , 
mandou entrar no arraial; e indo todos di- 
reitamente ás tendas d'E!Rey , que eram de 
riquiííímo brocado , e tamanhas que occu- 
pavam hum grande efpaço , onde efperavam 
de achar maior preza , acharam muitos Abe- 
xijs , e Arábios , os mais delles feus efcra- 
vos , os quaes fe puzeram em defenfa 3 não 
fe deixando entrar té todos morrerem , e 
com elies os Mogoles , que lhes deram a 
morte. Deita maneira o arraial de Soltam 
Badur foi pofto em poder dos Mogoles , 
os quaes por mandado de Omaum a todo 
Guzarate davam a vida , e nenhum outro 
algum damno lhe faziam , que rouballos , 
fe lhes achavam alguma ccufa de preço ; 
porque o arraial tinha tanto ouro, e prata 
em moeda , a fora as baixellas , e vafos de 
ferviço , e tanto movei , de que eílava cheio , 
affi dos que eram mortos á fome , como dos 
vivos que fugiram , e dos que ficavam , que 
gaitaram muitos dias em o faauear. E por 

fer 



44 ÁSIA de JoÃo de Barros 

fer^ coufa fem eílima , nem conto o que fe 
achou , não fe pode eferever , fomente fé 
pócie affirmar, que parecia fer igual ao def- 
pojo que havia no arraial de Dário , quan- 
do Alexandre o venceo , efte que Omaum 
Patxiah houve do Soltam Badur. E quando 
adiante dermos razão da riqueza , que efte 
Príncipe Badur tinha ao tempo que come- 
çou a reinar , c o que defpendeo , e perdeo 
neíie arraial , fe verá a íua potencia. 

CAPITULO VIII. 

Como Rume Chan temenâo-fe que Sol- 
tam Badur o queria matar , fe pajjbu a 
ElRey dos Mogoles : e EIRey Badur fendo 
lançado da ferra do Mandou , fez levar 
de Champanel fuás mulheres , e thefouro 
fará T)io+ 

HP Anto que Omaum Patxiah Rey dos 
JL Mogoles cevou os feus no dcfpojo do 
arraial de Soltam Badur , e foube que elle 
fe recolhera á ferra do Mandou, veio em 
bufea delle , e aíTentou feu arraial três lé- 
guas da Cidade em duas partes , onde con- 
corriam dous caminhos , por impedir algum 
foccorro do Guzarate , fe viefle a Badur. 
E fabendo elle como Omaum Patxiah affen- 
tára feu arraial tão perto , como homem 
que lhe tinham euftado caro os confelhos 

de 



Década IV. Liv. VI. Cap. VIII. 4? 

de Rume Chan , e eílava arrependido de 
ter mortos os filhos de Melique Az , que 
per leu coníèllio matara , e por também ter 
fufpeita que fe carteava com os Mogoles, 
determinou de o matar. A determinação dei- 
ta morte foi praticada com quem a havia 
de executar , que era hum Abexijs criado 
do meímo Badur. Efte vindo Rume Chan 
chamado d'ElRey para o mandar matar , 
o aviíbu no caminho por haver recebido 
delle boas obras. Rume Chan fem ir mais 
adiante 3 nem tornar a cafa , tomando com- 
íígo algumas peflbas a elle mais acceitas , 
diiíimuladamente deo comíigo no arraial de 
Omaum Patxiah , que o recebeo como a 
homem com quem já tinha prática íobre 
ília ida a . Soltam Badur quando o foube 
ficou mui anojado , porque quizera tomar 
vingança daquelle homem que lhe fora trai- 
dor. Além diíTo receava , que por o muito 
que fabia de feus fegredos , e coufas que 
com elle communicava , e das do Reyno , 
lh^ perjudicaíTe em algumas com feus ini- 
migos. 

E antes que Rume Chan proveííe em 
fuás mulheres , filha , e fazenda que tinha 
em a Cidade de Champanel, mandou Ba- 
dur a grande preíTa que fe recolhe íle tudo , 

e ef- 

a Efe revê Diogo do Couto , que antes da fugida de. 
Soltam Badur do feu arraiai, delle fe pafjára Rume Chan 
com oito mil de cavallo fará Omaum jfafâiaft. 



46 ÁSIA de J0Ã0 dk Barros 

e eftivefie a bom recado. Mas fe EIRey 
fe quiz vingar de Rume Chan, mais fe vin- 
gou elle d'ElRey , porque tanto andou in- 
duzindo por feus meios , e promelTas de 
Omaum Patxiah certos Capitães da ferra, 
que tinham de guarda ás portas principaes , 
que elles lhe abriram a entrada huma noi- 
te , e primeiro que pelos cercados fe fen- 
tiífe , eram já dentro dous mil homens. E 
acudindo Badur a iífo , matou a Botiparao 
filho de Salahedin , por lhe dizerem que 
elle fora naqueila traição , e aíli a Soltam 
Álamo que era Capitão de Raofinga ; mas 
entendeo-fe que nenhum delles teve culpa , 
e que EIRey, como fufpeitofo que era, e 
vingativo , e grande executor de Teus appe- 
tites , os matara. Outros affirmavam , que 
eíle Soltam Álamo morreo pelejando com 
os Mogoles , defendendo a entrada , e aífi 
morreo nella Recenai Maluco Capitão da 
rnefma Cidade de Mandou. A prefla d'El- 
Rey foi tanta neíb entrada dos inimigos, 
que fomente levou comíigo eftes cinco Se- 
nhores , Malu Chan , Baergij feu cunhado , 
irmão de fua mulher , Cancaná filho do gran- 
de Cancaná , o mór Senhor do Guzarate , 
que era já falecido de nojo das coufas d'El- 
Rey , e Somandar Chan , e hum feu filho 
naturaes do Mandou. 

Chegando com eftes Senhores a Cham- 

pa- 



Década IV. Liv. VI. Cap. VIII. 47 

panei a mata-cavallo , vieram depois Madre 
Maluco, Mujate Chan, e Alu Chan, ho- 
mens de grande caía , e renda , e outros , 
cada hum como íe podia acolher. Soltam 
Badur íem mais detença mandou logo ti- 
rar todo feu thefouro a , que na ferra ti- 
nha , e fua mãi , e mulheres , e as mandou 
com a fazenda caminho de Dio , e Sofá 
Chan com gente para fua guarda. Feito ef- 
te defpejo , fomente das mulheres , ouro , 
prata , e pedraria , por irem mais á ligeira , 
temendo o grande curfo dos Mogoles , co- 
meçou de ordenar para guarda da ferra , 
onde ainda deixava todo feu movei , a Tear 
Chan por principal Capitão , e outro que 
era Gentio chamado Rao Barfmga com cin- 
co mil de cavallo. Eftando neíle trabalho , 
lhe fobreveio nova 5 que os Mogoles efta- 
vam em hum lugar chamado Lunipor , que 
era de Champanel quatro léguas , com o 
qual avifo mandou arrebentar quanta arti- 
lheria grolTa tinha em baixo ao pé da fer- 
ra , 

a Efe thefouro era o que Badur tomara ao Madre Ma~ 
Juco y em que havia cento e vinte cofres de coire , cada 
hum delles com trezentos mil pardaos y que montavam trin- 
ta e féis milhões y e hum cofre com mil adagas d* ouro y e 
■pedraria , e outro que pecava quatro quintaes cheio de pe~ 
rolas , e aljôfar , a fora muito mais que fe não levou , por 
fer em moedas de prata , o que tudo o Madre Maluco ti* 
rara de hum thefouro ornais pequeno de três muito antigos 
aue havia noReyno. Franeifco de Andrade cap. .3. Ffirt* 
3. s Diogo do Couto Eec. 5. Usk x. 6. 11. 



48 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

ra , para que os Mogolcs a não levaíTcm 
acima , e fe aprovcitaííem delia. Também 
poz fogo a humas caías que tinha em bai- 
xo , e as mulheres velhas de íeu pai, que 
relias fe agazalhavam , e outras efcravas, 
foitou que fe foíTem onde quizeflem. 

Paliado hum quarto da noite , por nin- 
guém ver para onde hia , partio para a Ci- 
dade de Barodar a , que difta féis léguas de 
Champanel , onde chegou já alça noite com 
trezentos de cavallo , e ahi fe deteve té pe- 
la manha, que partio para Cambava , á qual 
chegou no mefmo dia , fendo treze leguâs 
de caminho; E porque ainda alli achou fuás 
mulheres com leu thefouro , logo as man- 
dou paliar hum rio , que eftá além de Cam- 
bava contra Dio , o qual de maré cheia fe 
não pode paliar , e tendo-o paliado , vindo 
os Mogoles eftariam em feguro , e clle dei- 
xou-fe ficar na Cidade. E por os inimigos 
fe não aproveitarem da Armada que alli ti- 
nha , a mandou queimar. 

No dia que Badur chegou a Cambava , 
chegaram os Mogoles á Cidade de Cham- 
panel. E como Rume Chan foube que Ba- 
dur lhe levava fuás mulheres, e filha, pe- 
dio a Omaum Patxiah que lhe déífe cinco 
mil de cavallo , porque com elles queria ir 

to- 

<i A e/la Cidade chamam os Põriugttezes corruptamente 
Berdorâ. Diogo <lo Couto cap. 5. de liv. 9. 



Década IV. Liv. VI. Cap. VIII. 49 

tomar fua mulher, o queOmaum lhe con- 
cedeo. Rume Chan feguindo a EIRey \ com 
o defejo de cobrar luas -mulheres, e filha, 
fendo já junto de Cambaya , achou muita 
gente que feguia a EIRey , com a qual pe- 
lejou , e entre outros foi morto Jamperus 
Rey do Sinde , que era logro d'ElRey Ba- 
dur. E por Rume Chan levar o tento nas 
mulheres , como fe defembaraçou defte im- 
pedimento que o entreteve , feguindo feu 
caminho tão apreíTado , que entrando a fua 
gente que hia na dianteira per huma porta 
de Cambaya , fahia EIRey per outra de 
maneira , que travaram alli os Mogoles com 
elle , e lhe conveio arrancar , e ferir , té 
que fe efpedio , e fe poz em corrida por 
alcançar íuas mulheres. E por efcapar , e 
íàlvar íua peífoa , mandou entreter as mu- 
lheres , e filha , e família de Rume Chan , 
porque feguindo elle o feu alcance ,. achan- 
do iílo que bufcava , o deixaíTe de feguir ; 
e a luas mulheres , e thefouro mandou ir 
per outro caminho defviado , e não pela 
eílrada deDio per onde hiam. E ainda por 
fe mais defpejar , mandou pôr fogo a duas , 
ou três carretas daquellas que diíTemos que 
cndavam muito , em que levava muitas 
jóias , e pedraria , por lhe não fer impe- 
dimento á fua corrida , e para que fe os 
.Mogoles chegaíTem , não tomaifem o que 
T0m.IKP.1L D vi- 



£o ÁSIA DE joÃo de Bauros 

vinha nellas , e deita maneira cfcapou erri 
Dio. Porque Rume Chan , tanto que chegou 
a fuás mulhei*es , e fazenda , nao curou de 
ir mais avante , e tornou-fc com a gente da 
ília guarda. E querendo os Capitães delia 
laquear a Cidade de Cambaya , os merca- 
dores que nella havia , por a nao metterem 
a faço 5 lhe deram quantidade de dinheiro ; 
mas recebido o preço , os Rumes começa- 
ram de a roubar, ao que Rume Chan acu- 
dio , moítrando fer defmando de gente 
de guerra. Dahi fe partio Rume Chan para 
Champanel , onde já eítava Omaum Patxiah 
com feu arraial aífentado ao pé da ferra , 
porque a feu parecer bailava a viíla delia 
para perder toda a efperança de a tomar, 
fenao foííe por algum ardil nao cuidado , 
ou traição \ mas determinou de acabar per 
dinheiro o que fe nao podia acabar per guer- 
ra , e affi o fez , peitando , e dando tanto 
ouro , e promeífas aos Capitães que guar- 
davam eíta ferra , que de alta , e afpera 
que era , a fizeram branda , e fácil de fu- 
bir , e deita maneira entrou nella Omaum 
Patxiah , e ficou efpantado de ver coufa 
tão inexpugnável. Alli foi cativo Francifco 
Chan , que antes fe chamava João de Sant- 
iago , e carregado bem de ferros. Omaum 
Patxiah neíta fegunda vitoria quiz ufar der 
liberalidade ; aíli do ganhado ? como do que 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. VIII. e IX. 5-r 

eílava por ganhar , e deo o Reyno do Man- 
dou a hum filho do Rey paflado, que an- 
dava com elle , e o Reyno de Cambaya 
deo a hum irmão feu , ao qual efpedio com 
quarenta mil de cavallo para ir invernar a 
Amadabad , e as terras de Baçaim deo a 
Melique Liaz , e a Rume Chan Surat, e 
Reyner ; e pedindo-lhe elle a Dio , fe ef- 
cufou , por o ter guardado para os Portu- 
guezes em fua vontade , como adiante fe ve- 

CAPITULO IX. 

Dos refpeitos per que EIRey de Cambayâ 

fe não defendeo ita ferra de Cbampanel 

d"* EIRey dos Mogoles : e do fitio y 

e fortaleza , e fumptuofidade 

dos edificios delia. 

SEndo natural dos Principes , que não tem 
clemência , temerem muitos i aíli coma 
elles são temidos de muitos , Soltam Badur 
por as obras que ufava > como temia todos , 
não achava de quem fe fiaíTe , nem lugar 
que lhe pareceífe feguro. Polo que fendo a 
ferra de Champanel lugar tão forte per na- 
tureza , e per arte , que nelle fe podia de- 
fender per muito tempo de todo o Mun- 
do , e muito mais dos Mogoles , que não 
fitiam Cidades , nem fe detém muito nos 
lugares a que vam , não fe fiou de ficar aili > 

D ii to- 



$-2 ÁSIA de João de Barros 

tomando mais defconfiança dos homens que 
comfigo trazia , que confiança naquelle lu- 
gar com quão inexpugnável era ; porque co- 
mo elíe tinha mortos tantos dos nobres, e 
efeandalizado tanta gente , temia-íe que fe 
os feus o viffem em algum aperto , ou ne- 
ceflidade , o defamparaíTcm , e a todos ti- 
nha por íiifpeitos , não íabendo de quem 
fe fiaffe; por tanto teve por mais feguro ir 
a Dio j porque alli tinha os pés em terra , 
e as mãos no mar , para fugir fe lhe cum- 
prifle. E para que fe faiba quanto enfraque- 
ce o medo que tem huma coníciencia cul- 
pada , e como eíle Príncipe citava feguro 
naquella ferra todo o tempo que fe quizera 
defender , defereveremos a forma delia , e 
também por ella em íi fer coufa mui notá- 
vel. 

Eíía ferra , por razão de huma Cidade Í2- 
tuada ao pé delia chamada Champanel , tem 
o mefmo nome , eftá em meio de humas 
campinas , e levanta-fe delias em tanta al- 
tura a , que de dezoito , e vinte léguas ao 
mar apparece aos navegantes , eftando ella 
trinta léguas afFaítada da coita. A maior 
parte delia he tão a pique , e de viva pe- 
nedia , que fó para aves he fubida. De ou^ 
tra parte, onde ha algumas quebradas, he 

cer- 

a A altura defla farra dt% Diogo do Couto, que hz 
de quatro léguas e mela de fubida. 



Década IV. Liv. VI. Cap. IX. 5*3 

cercada de muro , e perto delle efpaço de 
meia légua eítá fitiiada em hum lugar chão 
a Cidade de Champanel , cuja povoação fe- 
ra de vinte mil vizinhos , de edifícios mui 
nobres , em que ha grande tráfego de mer- 
cadores , e não he cercada de muro. Junto 
deíla Cidade corre hum rio , que fe vai met- 
ter no rioNarbanda, hum dos maiores que 
entram na enfeada de Cambava , e fe mette 
no mar na Cidade de Baroche. Sahindo de 
Champanel para ir ao pé da ferra , que he 
o lugar por onde fe a elia fobe , eftá hum 
templo grande , e fumptuofo , que foi de 
Gentios , e agora ferve de Mefquita aos 
Mouros. Defte templo fahe huma muralha 
de huma banda , e da outra , que ferve de 
rua para ir ter á primeira cerca que a ferra 
tem pelo pé. No qual lugar peia parte de 
dentro da primeira cerca efíá huma povoa- 
ção tamanha como huma honrada Villa y 
na qual eítam dous mil Soldados que guar- 
dam aquella entrada 5 e a vigiam de dia , e 
de noite ; e pelo muro defta primeira cerca , 
em lugares convenientes , eítam cem peças 
de artilheria groíTa , e duzentos bombardei- 
ros para ella , os mais delles eítrangeiros , 
es quaes tem fuás mulheres , e filhos em ci- 
ma na ferra , como em arrefens. Acima def- 
ta cerca , em outra parte , vai outra por no- 
me Reguiguir, onde ha outra povoação do 

ta- 



54 ASIxl de Joaò de Barros 

tamanho da outra Villa atrás , em que ha 
mil e quinhentos Soldados , e cincoenta pe- 
ças de artilheria , c vinte bombardeiros , que 
também tem mulheres , e filhos em cima. 
O muro delia tem três guaritas , e todo o 
modo de boa defensão com fua artilheria, 
e doze trabucos , e dous quartaos , porque 
o íitio o requer. Indo pela ferra mais aci- 
ma , ha outro muro cercado de huma cava 
aberta na viva pedra , a qual no inverno fe 
enche d'agua , e fobre eíta cava eftá huma 
ponte elevadiça de madeira , a qual colhem 
per cadeias com cabreítantes , e vai-fe reter 
em argolas groíías de latão , que eflam em- 
butidas nas< pedras do muro. A porta per 
onde entram , e fe fervem per efta parte, 
he tão grande , que cabe per ella hum ele- 
fante carregado com feu caftello , he for- 
rada de capas de cobre com grandes laça- 
rias de dentro , e de fora , fem apparecer o 
páo em que eílam pregadas. Nefte muro ha 
cinco cubellos grandes , em cada hum dos 
quaes ha fcis peças de artilheria do tama- 
nho das noífas esferas , e pelo muro vam 
portas outras peças pequenas , como os no£ 
fos falcões , e quatro quartaos grandes , e 
dezoito trabucos. Aqui ha de guarda três 
mil homens , em que entram quinhentos ef- 
pingardeiros , e cem bombardeiros , que to- 
dos sãp Rumes ? Mouros Garabijs deita 

Afri- 



Década IV. Liv. VI. Cap. IX. 57 

Africa noífa vizinha, cjaniçaros. Edcs tem 
feus apofentos cm caías baixas ao longo 
do muro. Pela maneira deftas três cercas pri- 
meiras vam mais outras três , huma acima 
da outra , com que fazem o número de íeis 
que ha neíla ferra , cuja fubida cada vez lie 
mais defenfavel , cada huma delias tem ca- 
vas , baluartes mui bem artilhados , bom- 
bardeiros , e gente ordenada para fua guar- 
da , e huma povoação com muira abundân- 
cia d'agua , e todas eftam providas de man- 
timentos para mais de três annos , fe hum 
cerco tanto duraíTe. Na ultima deftas féis 
cercas ha huma grande povoação , e a hu- 
ma parte os paços dos Reys , que occupam 
hum pedaço de terra tão grande , como o 
de huma boa Cidade, os quaes são riquif- 
fimamente lavrados de obras antigas de Mo- 
faico , e relevo , com muito ouro , e prata , 
e ladrilhadas muitas das cafas de azulejos 
de eftranhas pinturas , e cores. Neftes paços 
ha muitos banhos, e jardins , com toda di- 
verfidade de arvores , e plantas , hervas chei- 
rofas , e flores que no Mundo ha , e todo 
o modo de delicias , e paíTatempos ; a hu- 
ma parte ha eftrebarias , em°que tem muitos 
cavallos para EIRey , e os feus fe defenfa- 
darem quando lá vam , com mui ricas fd- 
las , e arreios para elles. Alli tem os Reys 
fuás mulheres , e feus thefouros , e os ar- 
ma- 



çó ÁSIA de Joio de Barros 

mazens das armas , e de ília artilhcria , e as 
çafas da fundição delia , e mantimentos em 
grande abundância. Deíles paços d'ElRcy 
vai huma íèrventia fecreta para o pico da 
ferra , fobre o qual pináculo eftá outra for- 
taleza grandemente artilhada , com todas as 
munições , e artifícios de guerra neceíTarios 
para fua defensão , e gente de guarnição , 
em que os Reys tem outros feus apofentos. 
Finalmente efte he hum dos mais fortes , 
defenfaveis, e deleitofos fitios do Mundo, 
aíí] per natureza , como per artificio , e ri- 
queza que nelle tem os Reys de Cambaya. 
Tudo ifto não bailou a Soltam Badur para 
fe aquietar 5 edefender-fe alli: tanta inquie- 
tação tem hum efpirito culpado , que não 
fem. razão o comparam as Santas Efcritu- 
ras a hum mar picado ; e aííi fe foi metter 
em Dio , onde já tinha mandado fuás mu- 
lheres. 

CAPITULO X. 

Do que fez Soltam Badur em Dio: e 
como Martim Affonfo de Soufa quizera ir 
ver-fe com elle , e Nuno da Cunha lho ef- 
torvou , e mandou Simão Ferreira ao mef 
yno Soltam fobre a fortaleza de Dio. 

fj^ LRey Badur , poflo que tão desbarata- 
is do , confolou-fe quando chegou a Dio 
com a vinda de fuás mulheres , e de feu 

the- 



Década IV. Liv. VI. Cap. X. 57 

thefouro , tomando efperança que ainda co- 
braria íea Eftado , coníiderada a condição , 
e coftumc dos Mogoles , que mais tratam 
de roubar as terras , andando em fuás cor- 
ridas , que de as poíTuirem , e guardarem 
habitando nellas. E para que fe o Mogol 
\ieíle o não pudeíTe entrar , mandou logo 
fortificar a Cidade, e fazer dous baluartes 
cm dous paííos da terra firme para a Ilha , 
que fe podiam paliar de maré vazia.' A Da- 
mam , e áquella Comarca que confina com 
Chauí a mandou feu fobrinho Mirao Muh- 
mald a fizer gente , e defendella do Niza- 
maluco , fe lhe quizeíle fazer guerra , or- 
denando-lhe que fe fe viífe cm algum aper- 
to j fe foíTe a Chaul , e fe entrega lte a Mar- 
tim AíFonfo de Soufa Capitão mor do mar , 
<jue fabia que invernava ahi. Mirao Muh- 
mald para faber o acolhimento que acharia 
em Martim AíFonfo de Soufa , tanto que 
chegou a Damam , lhe mandou pedir fegu- 
ro ; para fe lhe cumprifle ir a Chaul com 
fuás mulheres , e fazenda , fe fe viífe aper- 
tado dos Mogoles , ou do Nizamaluco. 
Martim AíFonfo de Soufi , e Simão Gue- 
des Capitão da fortaleza lho mandaram mui 
largo. E Martim AíFonfo lhe eícreveo hu- 
ma carta v de muitos cumprimentos , e fo- 

bre 

a Fernão Lopes de Cartanheda no cap. 98. do Uv. %. 
b Caílaiihèda no mefmo cap. 



çS ASIÀ de João de Barros 

bre elles , que feria EIRey de Cambaya bem 
aconfelhado em obrigar ao Governador Nu- 
no da Cunha para o ajudar na neceífidade 
em que eílava , com lhe dar huma fortale- 
za em Dio , e não ganharia pouco em ter 
tão boa amizade como a fua , e que de ou- 
tra maneira não havia o Governador de 
confiar nas pazes que fizeflem , pois tão mal 
cumprira a principal condição das que ti- 
nham feitas , que foi mandar-lhe logo os 
cativos que lá tinha , que não mandara. E 
que para desfazer fufpeitas , lhe devia dar 
a fortaleza 3 com que EIRey de Cambaya 
ficaria livre de feus inimigos. Tudo ifto ef- 
creveo lo^o Mirao Muhmaíd a feu tio, e 
as boas palavras , e vontade que achara em 
Marti m Affoníb de Soufa. 

Além deita carta 3 efcreveo Martim Af- 
fonfo outra a Soltam Badur de confolaçoes 
íbbre feus trabalhos , e oíFerecimentos de 
lua pefíba , e Armada para o que lhe cum- 
priíTe , e ao Governador efcreveo o eirado 
em que ficava Soltam Badur 5 e lhe pedio 
licença para ir com fua Armada a Dio na 
entrada de Agoílo , por a boa occafião que 
havia de impetrar a fortaleza, eílando EI- 
Rey aíli desbaratado , por o que folgaria 
com a amizade dos Portuguezes , e junta- 
mente recearia de fe ajuntarem com os Mo- 
goles feus inimigos , e por Dio eftar mui 

fal- 



Década IV. Liv. VI. Cap. X. $<) 

falto de gente , e artilhem. E que citando 
elle Martim Affonfo no mar , o poderia pôr 
em grande aperto , tolhendo-Ihc os manti- 
mentos , e vir-lhe foccorro do mar Roxo. 
Nuno da Cunha como de Portugal vie- 
ra encarregado de tomar Dio , ou haver 
relia huma fortaleza , e tinha já tomada fo- 
bre 11 efta obra , como de empreitada , a que 
EIRey per todas as Armadas que de Por- 
tugal vinham , o incitava , e que já lhe ti- 
nha cuftado tanto , não queria que ninguém 
niílb puzeíTe as mãos , nem ganhaíTe honra 
neíTa empreza , fenao elle. E quanto mais 
valor via em Martim ArTonfo , e mais au- 
thoridade tinha ante ElPvey de Cambaya , 
que lhe era mui affeiçoado , tanto mais fe 
ceava delle. Polo que o Governador mof- 
trou a carta de Martim Aífonfo a alguns 
Fidalgos feus parentes , e amigos , dando- 
]hes algumas razoes para EIRey de Cam- 
baya naquelle tempo mais que em outro ne^ 
gar a fortaleza , das quaes era huma, por 
íer Dio o lugar principal em que fe podia 
íalvar, e ter nelle fuás mulheres , e theíbu- 
ros. E que ainda que Badur lha quizeíTe 
dar, primeiro havia de fazer a fortaleza de 
Baçaim com que fe contentava , cuja fegu- 
rança era o maior proveito que queria das 
perdas que Soltam Badur houvera. Deite 
parecer foram todos aquelles Fidalgos ami- 
gos 



6o ÁSIA de JoÃo de Barros 

gos de Nuno da Cunha ; mas outros dos? 
quaes eram Aleixo de Soufa Cliichorro , 
Francifco de Souía Tavares , e alguns mais , 
votaram que Martim Afíbnfo de Soufa de- 
via de ir por a meíma razão , que o Go- 
vernador dava para o contrario , porque por 
não ter Soltam Badur outro lugar para fua 
íalvação mais conveniente que Dio , e nel- 
3e ter fuás mulheres , e theíouro , havia de 
querer confervallo , e tello feguro , o que 
não podia fer fem amizade dos Portugue- 
zes 5 e fem lhes dar a fortaleza que pediam 
nelJa para o defender dos Mogoles ; e fa- 
Lendo que pelo mar lhe podiam tolher os 
mantimentos , que lhe não vinham per ter- 
ra : e que em tempo eílava Badur para de 
feu offerecer a fortaleza , quanto mais fen- 
do-lhe pedida ; polo que a ida de Martim 
Arronfo lhe parecia de muito ferviço d'El- 
Rey de Portugal , e não ir o contrario. Co- 
mo os deite voto eram menos em número , 
aíTentou-fe , que Martim Arronfo não foíTe 
a Dio , e afli lho efereveo o Governador. 
Porém tanto que Agofto veio , e o 
tempo deo lugar á navegação daquella cof- 
ia , defpedio o Governador a Simão Fer- 
reira , que fora feu Secretario , para Dio em 
huma fufla , com três catures que o acom- 
panharam , com embaixada a EIRey Badur 5 
mandando-o vifitar, e oíterecer-lhe fua aju- 
da 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. X. e XI. 61 

da contra feus inimigos , com cfperança que 
EIRey lhe daria a fortaleza por a adver- 
fa fortuna em que fe achava. E a eííe fim 
dco procuração baílante a Simão Ferreira 
para fazer todos os concertos que cumprif- 
íem na acceitaçao da fortaleza : e com Si- 
mão Ferreira foi Coge Xacoez Embaixador 
de Soltam Badur , que andava em Goa. 



CAPITULO XI. 

Como Soltam Badur mandou pedir foc- 
corro ao Turco ; e fabendo da tomada de 
Champanel , fe quizera ir a Meca ; e mu- 
dado o conjelbo , efe revê o a Martim Ajfon- 
fo de Sou/à fe fojjè logo ver com elle : e co- 
vi o os Reys Badur , e Omaum eferevêram 
ao Governador , ojferecendo-lhe ambos Dio. 

VEndo-fe Soltam Badur em Dio fóra 
dos perigos , e medos de que efeapá- 
ra a , e que naquellas Comarcas nao havia 
movimentos alguns de guerra ; e o que Mar- 
tim Aífonfo de Soufa eferevêra a Mirao 
Muhmald , e depois a elle , tomou animo , 
e teve-fe por mais feguro do que cuidou 
que feria quando partio de Champanel fu- 
gindo. E por a certeza que tinha para fi de 
os Mogoles nao poderem entrar naquella 
ferra , parecia-lhe que tão impoílivel era to- 

ma- 

a Fernão Lopes de Caftanheda m cop. too, <fr liv.S. 



6i ÁSIA de JoXo de Barros 

marem ellcs Dio , c outros lugares que ti- 
nha fortes na coita de Cambaya , como era 
tomarem ChampaneL E affi íe perfuadia que 
bem fe poderia fuftentar contra o meímos 
Mogoles , íèm com os Portuguezes fundar 
novas amizades para lhes dar fortaleza em 
Dio , parecendo-ihc que aftas era ter-lhes da- 
da a de Baçaim , com que elles fe teriam 
por íàtisfeitos. Polo que para eíFeito de co- 
brar feu Reyno , fe determinou em mandar 
pedir foccorro ao Turco , tendo por certo 
que lho daria, e com elle cobraria feiíEP* 
tado , e deitaria os Portuguezes fora da ín- 
dia , e fe faria Senhor delia. E para pro- 
vocar ao Turco , que com melhor vonta- 
de , c brevidade o foccorreífe , lhe mandou 
hum prefente de jóias , armas , e roupas ri- 
cas , que dizem foi avaliado em feiscentos 
mil cruzados a . E para dez , ou doze mil 
homens que lhe mandava pedir ? affirmam 
que mandou mais de três milhões. líto tu- 
do entregou a. hum feu Capitão principal 

cha- 

a De muito maior preço foi efle prefente , fegundo a 
que efereveo Diogo do Couto no cap, n. do liv. i. da 
5. Década-, porque diz, que era huma cabaia de fio d'' ouro, 
lavrada ioda de pérolas de tanto preço , que a menor va- 
lia quinhentos par dá es d? ouro , e os loto es delia de diaman- 
tes do tamanho de iremoços. Huma cinta d? ouro t e pedra- 
ria , com hum terçado , e adaga do mefmo feitio , e rique- 
za que acabam, numa coroa imperial d 1 ouro , e pedraria , 
que diziam os que a viram , que valia mais de dons contos 
tfeuro. 



Década IV. Liv. VI. Cap. XI. 63 

chamado Saf Chan , cie quem confiou eíla 
embaixada , mandando-lhe que foffe per mar 
té Judá , e dahi per terra ao Cairo , e do 
Cairo fe iria aonde o Turco eíKveíTe , e pa- 
ra ir em lua companhia lhe deo hum Por- 
tuguez arrenegado , per nome Jorge , que 
era feu Patrão mor. E poíto que era ainda 
o tempo verde , quiz que partiffe Saf Chan 
na entrada de Setembro , porque houve me- 
do que partindo mais tarde, os encontraffe 
Martim Affonib de Soufa Capitão mor do 
mar, que corria a coíla com lua Armada, 
E porque as coufas que Saf Chan levava 
eram de tamanho preço , deo-lhe três ga- 
leões , em que dlc foíTe por Capitão de 
hum , e do outro Jorge o arrenegado , e em 
ília companhia duas caravellas , e duas fuí- 
tas , todas eftas velas mui bem artilhadas *. 
Enviada eíla embaixada , logo veio no- 
va a Soltam Badur como Omaum Patxiah 
eftava apoderado da ferra , e Cidade de 
Champanel , com a qual ficou muiconfufo, 
edefefperado de fe poder reftituir a feuEf- 
tado , porque para elle era cafo não imagi- 
nado tomar-fe a ferra , que por natureza ? 
e arte parecia inexpugnável. E por fe ver 
entalado entre feus inimigos , que eram de 
huma parte os Mogoles , e da outra os Por- 

tu- 

a Diogo do Couto , e Francifco de Andrade , efere* 
Vem , que mandou Badur a mais principal de Juas mulhe* 
( rts com Saf Chan , o que reprova Caftanheda. 



64 ÁSIA de JoÃo de Barros 

tuguezes , que c poriam per mar em cerco , 
em tempo de tanta falta como tinha de gen- 
te de artilheria , e de mantimentos , que lhe 
mo podiam vir fenao per mar , e que com 
fuás Armadas lhe poderiam tolher todo o 
foccorro que pelo mar Roxo lhe vieííe , fe 
determinou em fugir para Meca , e deixar 
feu Reyno , e tornar a elle , fe impetraífe o 
foccorro que mandara pedir ao Turco. Que- 
rendo por em eíFeito a partida , fua mai , 
Nina Rao Capitão de Dio feu tio , Coge 
Sofar , e outros lhe deram tantas razoes , 
que deixou de fazer jornada. E Coge Sofar 
lhe aconfelhou que déífe a fortaleza em Dio 
ao Governador , que o ajudaria , e que com 
fua ajuda fe poderia reftaurar ; e que depois 
que cobraífe feu Reyno , ahi lhe ficava po- 
der tomar a fortaleza , e lançar delia os Por- 
tuguezes , fe quizeííe. 

* Com efte propollto pareceo bem a El- 
Rcy dar a fortaleza , e logo efereveo a Mar- 
fim Affonfo de Soufa , que vifta fua carta , 
fe foííe a Dio para tratar com elle huma 
coufa de muito ferviço d'EiRey de Portu- 
gal , e lhe mandou outra carta para o Go- 
vernador Nuno da Cunha, em que lhe di- 
zia o mefmo , porque lhe queria dar a for- 
taleza. E com o Embaixador que levou e£ 
tas cartas , mandou a Martim Affonfo Dio- 
go 

<? Fernão Lopes de Caíhmheda no cap. ioi. do liv. ^ 



Década IV. Liv. VI. Cap. XI. íj» 

go de Mefquita , Lopo Fernandes Pinto , 
Diogo Mendes , que tivera prez-os em Cham- 
panel , c os mais cativos , que era obrigado 
a mandar pelas Capitulações pa fiadas. a 

Pouco tempo antes que o Embaixador 
çPElRey Badur chega (Te a Chaul , e défíb 
as cartas a Martim AfFonfo de Soufa , lho 
foi dada outra carta d'ElRey dos Mogoles 
para o Governador , em que lhe ofTerecia a 
fortaleza em Dio \ porque como Nuno da 
Cunha vio a EiRey dos Mogoles fazer guer- 
ra a EIRey de Cambaya , e o grande po- 
der que tinha, per que lhe parecia tomaria 
o Reyno de Cambaya , como já tinha to- 
mado o de Chitor , e o de Mandou , fecre- 
tamente lhe mandou pedir Dio. Polo que 
tanto que íe EIRey dos Mogoles vio fenhor 
da ferra de Champanel , eícreveo ao Go- 
vernador huma carta , que mandou a Mar- 
tim Affonfo , que elle logo enviou a Nuno 
da Cunha , antes de fe partir para Dio 5 per 
João de Mendoça , que também levou o 
Embaixador de Cambaya \ e ao Governa- 
Tom.IT. P.il. E dor 

a Eftes cativos , (fiz, Diogo do Couto , que os man-* 
dou Soltam Badur ao Governador Nuno da Cunha por Si- 
mão Ferreii a , quando foi a Cambaya a ver jurar as pazes 
p.ajjadas. Cap. 3. liv. 9. E Francifco de Andrade eferé- 
Vâ , ijue depois de desbaratado Badur , dera Uberdade a Dio* 
fj de Aíelquita , e a feus companheiros ; e que por Diogo 
de Me/quita ejerevêra ao Governador que o vieffe foccor* 
rer , ojferecer.dj-iue a fffriale%a em Dio. Cap. 3. da ft 
Pa'/.-. 



66 ÁSIA de JoÁo de Barros 

dor éfcreveo Martim AíFonfo de Soufa de 
lua ida a Dio. 

CAPITULO XII. 

Como Martim Affonjo de Soufa foi a 
Dio , e elle , e Simão Ferreira Procurador 
do Governador ajfentdram pazes com El- 
Rey deCambaya\ e lhe deo a fortaleza em 
Dio , entregando a Martim Ajjonfo o ba- 
luarte do mar, 

VEndo Martim AíFonfo de Soufa * a 
carta cFElRey de Cambava , e quanto 
importava ao ferviço d*ElRey ir elle a Dio, 
por não fe lhe ir das mãos tão boa occa- 
fião , que ás vezes depois de ida não fe co- 
bra , poílo que o Governador lho tiveffe de- 
fezo, e por o negocio citar em outros ter- 
mos , fendo elle á preffa chamado de Ba- 
dur , partio-fc logo com três catures , em 
que levou felfenta homens 5 em hum delles 
tia elle , em outro Simão Guedes Capitão 
de Chaul , deixando recado a Vafco Pires 
de Sampayo que fe foíTe apôs elle com a 
outra Armada. E profeguindo fua viagem , 
perto de Dio achou Simão Ferreira , de que 
ambos ficaram efpantados , Simão Ferreira 
de ver Martim AíFonfo de Soufa ir a Dio , 

or- 

a Efie capitulo , que em João de Barros lie hreve , 
fe acerefeentou com o que efcreve Fernão Lopes de Cafc 
tanheda no cap, 102. do Uv. 8, 



Dec\da IV. Liv. VI. Cap. XII. 6> 

ordcnando-lhe o Governador que nao fof- 
íe , que nao havia para que ; e Martim Af- 
fonib de ver Simão Ferreira , porque paflbu 
fem tomar Chaul , e de faber ao que hia ? 
por o pouco fundamento que Nuno da Cu- 
nha moftrava de fe lhe dar a fortaleza em 
Dio , na carta que lhe efcrevêra. Mas Mar- 
tim Affonfo diíFe a Simão Ferreira como 
hia chamado d-ElRey , e com efperanças 
de lhe dar a fortaleza , que fem ella nao 
aíTentaria nada com elle. 

Chegados ambos a Dio a , EIRey mof- 
trou grande gofío de ver Martim Affonfo , 
e lhe deo conta do eftado em que eílava , 
e que o que queria do Governador era , que 
o ajuda íTe contra léus inimigos , aííi para fe 
defender delles , como para lhes fazer guer- 
ra ; e que a maior ajuda que queria delle 
era , que elle Martim Affonfo foííe feu com- 
panheiro , por a confiança que em o valor 
de fua peílba tinha ; e que em recompenfa 
difto queria dar ao Governador huma for- 
taleza em Dio. E por o Governador eftar 
em Goa , que era lugar mais remoto , man- 
dara chamar a elle Martim Affonfo , aífi 
para o ajudar a defender , fe os Mogoles fof- 
fem contra elle , como para aíTentar com el- 
le a data da fortaleza, e Capitulações das 

E ii pa- 

a Chegaram a Dio a 11. de Setemh'9* Franciíco ue 
^.uuradc cap. 4. Part. 5. 



68 ÁSIA de João de Barros 
pazes, té o Governador as haver por boa?. 
E que pois Simão Ferreira trazia procura- 
ção para fazerem pazes em nome do Go- 
vernador , que logo as aíientaííem. E que 
a fortaleza fe faria da banda dos baluartes 
do mar, ou da terra, onde o Governador 
elegeffe , quão grande quizeíTe , porque em 
ambos os lugares lha daria , e na parte do 
mar lhe parecia melhor, porque era ornais 
forte da Cidade. E concertando EIRey com 
Martim Aífonfo com que condição fe as 
pazes haviam de fazer , o mandou logo met- 
rer de poíTe do baluarte do mar , e alli fe 
apofentou com os Portuguezes a . 

Os Capítulos foram eftes: Que EIRey 
de Cambaya era contente de dar lugar a 
EIRey de Portugal na Cidade de Bio pa- 
ra fazer huma fortaleza em qualquer lu- 
gar que o Governador quizeffe , da banda 
%s baluartes do mar , ou da terra , e da 

gran- 
ei Martim. Afonfo mandou cortar huma ponta tf ue fazia 
a Cidade defde "o rio ao mar , onde abri o huma cava de 
largura de duas traças , e huma de altura , recolhendo pa- 
ra 'dentro a pedra , e terra que da cava fe tirava , com 
que fe fez hum vallo afjás alto , c lançou foire ella huma 
pente de madeira. E per hum Judeo mercador do Cairá 
efereveo logo a EIRey D. João , que Badur dera em Bio 
ÍU S ar para fe fazer a fortaleza tanto de S- A. deje/ada. 
E pelo mefmo Judeo efereveo Badur a EIRey , dando-lhe 
conta de fuás defgraças , e pedindo-lhe foccorro-, e para af- 
fegurar a jornada , porque poderia morrer nella o Judeo , 
mandou Badur em fua companhia hum Arménio morador , 
e cafado em Pio. Franciíco de Andrade cap. 4. *«**• 5- 



<-••; 



Década IV. Liv. VI. Cap. XII. 69 
.■andeza que quizefje , e affi lhe dava o 
baluarte do mar. È que havia por bem de 
confirmar a doação que lhe fizera de Ba- 
çaim , com fuás "terras , e rendas , e t ana- 
farias , como tinham contratado. 

Com condição , que todas as nãos de Me- 
ca , que por virtude do contrato das pazes 
pafjado eram obrigadas ir a Baçaim , fof- 
fem a Dio ajji como de antes , fem lhes fer 
"feita forca alguma. E quando alguma per 
fica vontade quizejfe ir a Baçaim , o pu- 
deffè fazer , e as náos de outras partes , 
poderiam ir , e vir para onde quizejfem ; 
porém que humas , e outras navegariam 
com cartazes. 

Oue os cavallos de Ormuz , e de Ará- 
bia , que pelo contrato pajfado eram obri- 
gados ir a Baçaim, viejjèm a Dio, e pa- 
gariam os direitos a EIRey de Portugal 
fegundo o cofiume de Goa • e não os com- 
prando EIRey , feus donos os levariam aon- 
de quizejfem. Mas que os cavallos que fofi 
fem do Ejíreito para dentro , não pagariam 
direitos alguns. ' 

Outra condução era , que EIRey de Por- 
tugal não teria em Dio direitos , nem ren- 
das , nem mais que fá a dita fortaleza , e 
baluartes \ e todos 'os direitos , rendas , e 
juridição da gente da terra feria do Sol- 

tam Badur. 

Pu- 



jo ÁSIA de João de Barros 

Puzeram mais por condição , que E/- 
Rey de Portugal , nem Jèu Governador por 
f eu mandado , fariam guerra , nem damno 
no eftreito do mar Roxo, nem nos lugares 
da Arábia , nem fe tomaria ndo de preza , 
e todos navegariam feguramente. Porém 
que havendo no eftreito , ou em outra par- 
te Armada de Rumes , ou Turcos , pode- 
riayn ir pelejar com ella , e deftmilla. 

E que ÈlRey de Portugal , e Soltam 
Badur feriam amigos de amigos , e inimi- 
gos de inimigos , e fe ajudaria hum a ou- 
tro per mar , e terra com tudo o que pu- 
ãeffeyn com fuás gentes quando lhes cuni- 
priffè. 

A ultima condição foi , que fe alguma 
fejfoa , que deveffe dinheiro , ou fazenda a- 
EIRey de Portugal , fe pajfaffe ãs terras 
do Badur , elle os manda ffe entregar , e ou- 
tro tanto faria o Governador quando fe paf- 
fajfe aos Portuguezes alguém que deveffe 
a Soltam Badur. 

Feitas eftas Capitulações , e aíUgnadas por 
EIRey, Ma rtim Afro rifo as mandou ao Go- 
vernador por Diogo de Mefquita , e com 
elle mandou EIRey a Xacoez com hum a 
carta a ao Governador , em que lhe rogava 
que fe vieíTe logo a Dio. 

CA- 

a A copia âtfta carta efereve Fernão Lopes de Caf- 
tanheda no cap. xoj. do liv. 8. t Diogo do Couto no cqp, 

? !iv. 9. 



Década IV. Liv. VI. jt 

CAPITULO XIII. 

Como o Governador Nuno da Cunha foi cr. 
Dio ver-fe com EIRey de Cambaya. 

NUno da Cunha quando vio as cartas 
dos Reys de Cambaya , e dos Mo- 
goles a , nas quacs ambos lhe ofFereciam 
Dio , Badur porque receava de a perder , e 
Omauni porque eíperava de a ganhar , poí- 
to que o Mogol lhe fazia largas promeíías, 
páreceo-lhe melhor tomar a fortaleza da mão 
d'ElRey de Cambaya que tinha Dio , que 
d 5 E!Rey dos Mogoles que a efperava ter, 
e havendo-a , lha daria , ou hão ; e porque 
lhe vinha melhor a amizade d'E!Rey de 
Cambaya , por quão pouco podia , que a 
d'EíRey dos Mogoles, que andava tão po- 
der© lo , e pertendia conquiftar a índia > e 
daria mais que fazer aos Portuguezes , que 
nenhum Rey delia , e quanto menos elle 
pudeíTe, tanto o Eftado d'ElRey de Por- 
tugal na índia ficava mais feguro : por tan- 
to determinou de fe liar com EIRey de 
Cambaya , e ajudallo contra os Mogoles. 
Efem mais fe deter que o dia em que João 
de Mendoça chegou , fe partio ao outro 7j 

em 

a Fernão Lopes de Gadanhe d ti rio cov. 105. do !iv. 
8. onde efereve o copia da carta d 1 EIRey dos Magotes. 

b Frota da Lídia do anno de 1535. Antes do Gover- 
nador -partir de Goa, chegaram a cila fete nãos, que ejlc- 



72 ÁSIA de JoÃo de Barros 

em huma fuíla , levando fomente em outra 
Garcia de Sá , Francifco de Sou fa Tavares , 
Diogo Lopes de Soufa , e António Galvão , 
deixando recado a Manoel de Soufa que o 
feguifle com a Armada o mais preítes que 
pudeíTc a . Paliando porChaul, foi ter a Ba- 
çaim , onde achou Valco Pires de Sampayo 
com a Armada que levava a Martitn Affon- 
ío de Soufa , que trouxe comfigo. Dalli par- 
tio para Dio, onde chegou com novecentos 
homens , fendo já o mez de Outubro. Á 
barra o mandou EIRey receber per Nina 
Rao Capitão de Dio feu parente, acompa- 
nhado de muita gente nobre , que com eile 
hia em huma galé ; e depois de o viíitar 
da parte (PElRey, e lhe dar o parabém de 

fua 

cnno ãe i ç 5 ç. -partiram do Reyno , das quaes era Capitão 
pior Fernão Peres de Andrade , e os Capitães das outras 
nâcs eram Martitn de Freitas , IViomé de Soufa , Jorge 
Mafcarenhas , Luiz Alvares de Paiva , Fernão Camelo, e 
Fernão do Moraes : levaram e/las nãos multa , e boa gen- 
te , e multo cabedal. Fernão Lopes de Caftanheda cap. 
ioS. do Iiv. 8. e Diogo do Couto cap. 8. do liv. 9. Fran- 
cjfco de Andrade diz, que chegaram e/ias nãos a Goa , ef~ 
tando o Governador em Dio , onde lhe levaram a nova , 
c leiscentos Joldados delias. Cap. S. da j. Parte. 

a Efcreve Diogo do Couto , que o Governador par- 
tio de G-oa com cem navios , em que hia embarcada muita , 
e mui luflrofa gente , e todas as coufas que lhe parei eram 
necefjarias para a fabrica da fortaleza y e que parara em 
JSaçalm , aonde o foi encontrar Xacoez com huma carta 
do Badur , e com os Capitules do contrato <la fortaleza de 
JDio , com que o Governador fe partia logq para aqt(el!a 
Cidade. Cap. 8. do liv. 9. 



Década IV. Liv. VI. Cap. XIII. 73 

fua chegada , o acompanhou té onde EI- 
Rey o eíhva aguardando , que era em hu- 
ma caia íem armação alguma j parece que 
por a deígraça paliada. E elle jazia deitado 
em hum catle , que não tinha outro para- 
mento , nem riqueza mais que ferem os pés 
d'ouro , e veítido em hum a cabaia de ai- 
gudao branco. Com elle eítavam dez , ou 
doze Senhores , dos quacs hum, que parecia 
de idade de fetenta annos , fora irmão d'EI- 
Rey do Delij, e outro filho de outro Rey 
aflentados no chão alcatifado junto com o 
íãtle , e os outros em pé , porque diante 
d'ElRey de Cambaya fe não aíTentavam fe- 
não Reys, ou filhos de Reys. Com o Go- 
vernador entraram quarenta Fidalgos ; e tan- 
to que viò EIRey , lhe fez huma mezura, 
e outra entrando mais na caía , e aíli fize- 
ram os Fidalgos que com elle hiam. Açor- 
tezia que lhe EIRey fez , foi agazalhallo bem 
com os olhos , como a peílba que muito 
folgava de ver; e paííando entre elies pa- 
lavras geraes , Nuno da Cunha fe defpedio 
d'EiRey, efe foi apofentar no baluarte do 
mar, que citava apparelhad o de fefta , e em- 
bandeirado com as infignias de Portugal a . 
Depois deite dia fe vio o Governador com 

El- 

o Da ãef: mo ar cação do Governador , do veflido que 
Uvava , do recebimento que 1Ite fez Soltam Badur , e das 
falavras que lhe dijje , efereveo com particularidade Dio- 
go do ÇJovíto no cap. 9. do Uv, 9. JE que de novo foram 



74 ÁSIA de João de Barros 

EIRey algumas vezes, nas quaesElRey pe- 
dio ao Governador lhemandaíle per hum de 
íèus Capitães tomar huma fortaleza , que os 
Mogolcs lhe tomaram a elle no rio Indo , 
que íe chama Varivene. Para iífo mandou 
logo o Governador Vafco Pires deSampayo 
com huma Armada de doze fuítas , e alguns 
bargantijs , em que levou duzentos e íin- 
coenta Portuguezes , de que foram Capitães 
Miguel de Aiala , Rodrigo Alvares Voga- 
do , Aífonfo Figueira , e outros , cujos no- 
mes não vieram á noíTa noticia ; e em fua 
companhia , e debaixo de fua bandeira hia 
Coge Sofar Capitão d'E!Rey de Cambaya 
com trezentos Turcos. Também lhe pedio 
EIRey que mandafíe defender a Cidade de 
Baroche , que eftá dez léguas da Cidade de 
Cambaya, por quanto fe temia que os Mo- 
golcs fe apoderaílem delia ; para o que o 
Governador mandou logo fazer preftes Dom 
Gonçalo Coutinho com outra Armada para 
a defender. E eítando para partir , chegou 
Manoel de Macedo , a quem o Governador 
deo a capitania , ficando D. Gonçalo a . 

CA- 

renovados as Capitulações , e juradas as pajés por EIRey , 
e pelo Governador cem grande fotemnidade , e magejlade, 
a Manoeí de Macedo chegou a Baroche a tempo que 
Afcan Mirxa irmão de Omaum Patxiah , com de^ mil ca- 
vailos , entrara na rica Cidade de Barodar , que fetts vizi- 
nhos despejaram com medo dos Mogoles; e com o mefmo , 
jem os verem , fugiram os moradores de Baroche , e a 
deixarem deferia , pofto que Manoel de Macedo es anima- 



Década IV. Liv. VI. 75* 

CAPITULO XIV. 

Da notável façanha que fez Diogo Botelho 

em vir da Lídia a Portugal em httma 

fujla por mofirar pua lealdade a 

EIRey , ante quem fora caiu- 

mniado falfamente. 

DA nação dos Portuguezes a quão na- 
tural ícja , mais que de outras gentes , 
ferem leaes afeuRey, e quantos exemplos 
ha de muitos , que por guardar incorrupta 
lua lealdade , morreram , e paliaram traba- 
lhos incríveis , coufa notória he aos que de 
fuás coufas fabem ; mas o admirável 5 e au- 
daz feito que Diogo Botelho fez para mof- 
trar como falfamente o calumniáram ante 
EIRey, não fomente de commetter desleal- 
dade , mas de a imaginar , he digno que en- 
tre todas as gentes , e cm todos os tempos 
houveífe delle memoria. Sendo pois eíte Ca- 
valieiro filho baftardo de António Real , 
( Capitão que fora de Cochij em tempo do 
Vifo-Rey D. Francifco de Almeida ,) e de 

Iria 

va y e com eVes , e com os Voriugucx.es que tinha fe ofe- 
recia a defcndella ; pelo que vendo-Je já , deixou- fe ficar na 
Cidade tê opparecerem os inimigos -, e não a podendo de- 
fender com os poucos Portuguezes , pop ter mais de híima 
J.: circuito , fe embarcou , c Voltou a P/í». Dio->;o 
cio Couto cap. 9. do liv. 9 e Francifco de Andrade cap. 
1 0. ('.a 5. Varie. 

a ¥-9k íí ão Lopes de Cuítanheda noççp. 1.05. do liv. 8. 



76 ÁSIA de JoXo de Barros 

Iria Pereira mulher Portugueza , e fervindo 
dlc na índia , onde naíceo , a EIRey Dom 
Manuel nos primeiros annos de fua milí- 
cia , e depois a EIRey D. João feu filho , 
vindo a Portugal a requerer íatisfaçao de 
feus ferviços , por elle ler muito curiofo , 
e prático na Geografia , e faber fazer cartas 
demarcar, fez huma grande, em que def- 
ere veo tudo o que do Mundo era defeu- 
berto , e a apreíentou a EIRey D. João. 
Tendo-o EIRey em boa conta , e querendo- 
llvz fazer mercê , e fervi r-fe delle , como 
neíla terra fempre houve boa novidade de 
homens invejoíbs , e maldizentes , que a 
todos os bons efpiritos , e utiles á Republi- 
ca procuraram acanhar , e eftorvar-lhe o bem , 
e melhoramento , aos quaes parece doer mais 
o bem alheio , que o mal próprio , houve 
quem diífe a EIRey , que Diogo Botelho 
trazia penlamento de o defervir , e ir-fe a 
EIRey de França. Polo que movido EIRey 
per aquelles interpretes de penfamentos , na 
Armada em que Martim ArTonfo de Soufa 
foi o anno de 15*34. , o mandou degredado 
para a índia a . Diogo Botelho, que fentia 

por 

a Franclfco de Andrade efe revê , que "EIRey mandou 
prender Diogo Botelho , e que efieve prezo té que foi 4 
índia por Vifo-Key o Conde Almirante , que o pedio a EU 
2\ey para o levar comfigo , c S. A. lho concedeo , com que 
não tornafje mais a Portuga!. €ap. i 5 . da 3 . Parte. O mef 
moafinm Diogo do Couto cap.z. doliv.i. da $.J)ecada. 



Década IV. Liv. VL Cap. XIV. 77 
por maior aífronta a cauía do degredo , 
que omefmo degredo, como foi na índia, 
pedio ao Governador Nuno da Cunha li- 
cença para fazer huma fufta , para andar 
neiia fervindo a EIRey , com propofito de 
ie ir na meíma fufta a Portugal, para ma- 
aifeftar a EIRey fuainnecencia , e lealdade , 
e a maldade dos que ante elle o accufáram , 
e que como íe liia da índia para Portugal, 
fe pudera ir para França, ie quizera. Com 
eíia determinação fez huma fufta em CochiJ 
de vinte e dous palmos de comprido , doze 
de largo, cieis de pontal, que he da qui- 
lha té a primeira cuberta. Acabada a fufta, 
como também na índia havia Portuguezes , 
e os que andam as terras , e paíTam o mar 
não mudam por iíTo a condição , nem a na- 
tureza , que íêmpre levam comfigo , não 
faltaram na índia outros maldizentes , que 
afíírmavam que Diogo Botelho fizera aquei- 
la fufta para ir nella ao eftreito do mar Ro- 
xo , edahi ao Turco. Ouvindo ifto o Dou- 
tor' Pêro Vaz Veedor da Fazenda que então 
era , lhe tomou a fufta , do que Diogo Bo- 
telho fe queixou muito , e lhe difle , que 
attentafíe bem o que fazia , que aqmllo mon- 
tava mais , que tomar-lhe fua fufta ; porque 
fabendo EIRey que havia delle tão má fuf- 
peita , lhe mandaria cortar a cabeça. Pêro 
Vaz lhe tornou a fufta , com elle primeiro 



78 ÁSIA be JoXo de Barros 

jurar folemncmcnte , que íènão iria a parte 
alguma onde deferviííe a EIRey de Portu- 
gal. E por não efperar outro encontro, que 
ihe toJheífe effeétuar fua determinação , e 
por a boa òccafião de naquclles dias fe con- 
ceder a EIRey D.Joáo a fortaleza de Dio , 
c ( ue elle tanto defejava , de que lhe podia 
levar novas primeiro que outrem , íe foi a 
Dabul para dahi fazer fua viagem. E por 
elle entender mui bem a arte de marear, 
nao levou comíigo outro que delia íoubef- 
fe , por não haver entre elíes duas contra- 
dicções , que feria caufa de fe perder. Nem 
para marearem a fufta levou mais que feus 
eferavos , e cinco Portuguezes , três delíes 
criados feus , e o Comitre da fufta , e hum 
Manoel Moreno , e com boa provisão de 
mantimentos fe partio de Dabul o primeiro 
dia de Setembro doanno de 1535' % dizen- 
do 

a Efe revendo de Dio o Governador ao Veedor da Fa- 
zenda , que lhe mandafje navios , e gente , com efta occa- 
júo fez Diogo Botelho a fufta para vir nella a Portugal , 
publicando que era fará levar nella gente a Dio ; e reco- 
lhendo vinte foldados , e outros tantos eferavos feus , pai tio 
de Cochij y e chegou a Baqaim , onde deixou a fufta , fin- 
gindo que fazia muita agua , e em hum catur pafjoufó a Dio , 
onde foi bem recebido do Governador ; e tomando cor.i dijimu- 
Jaqão a planta da fortaleza que fe fundava , e a cópia das Ca- 
pitula coes das paz: s , para dar inteira relaqão em Portugal 
a EIRey , voltou efeendido a Baqaim , e di%endo ao Capitão 
fite o Governador o mandava com muita prefta a Chaul , fe 
embarcou na fua fufta , e partio para Portugal em Novembro 
de 15 jj. Francifco cleAndratle no cap. ij. da 5. Parte, 



Década IV. Liv. VI. Cap. XIV. 79 

do a todos que fe hia ajuntar com nofla 
Armada, que andava na coita deCambaya. 
E porque ao atraveilar do golfão fe hia 
affaftando muito da terra , e lhe aconfeiha- 
va o Comitre que o não rizeíie , lhe defeu- 
brio a elle , e aos outros Portuguezes fua 
determinação ; e receando que fe rebelaíTem 
quando o íbubeílem , levava veftida debai- 
xo huma faia de malha , e na cinta hutna 
efpada, E esforçou a todos para aquella via- 
gem 3 dizendo-lhes quanto lhe cumpria ra- 
zella, e promettendo-lhes grande fatisfaçao 
de feu trabalho ; e ao Comitre deo dinhei- 
ro , e pagou tudo o que na índia lhe fica- 
va. Contentes com iílo , e com verem que 
tomou terra na cofia de Arábia ao tempo 
que diíTe que a havia de tomar , fendo cou- 
fa em que os Pilotos que per alli navegam 
não atinam por caufa das grandes corren- 
tes , fe aquietaram. 

Feita a aguada, e carnes em hum por- 
to chamado Jubo , fe partio , e foi furgir 
no Cabo das Agulhas, duas léguas de ter- 
ra , onde lhe deo hum tão rijo temporal do 
Sul , que arribou duas vezes , e fe vio de 
todo perdido , por ferem os mares mui grof- 
fos , que entravam per huma parte da fuf- 
ta , e fahiam pela outra , e milagroíàmente 
efeapou. Com efte mcfmo temporal dobrou 
o Cabo de Boa Efperanca a 20 de Janeiro 

do 



8o ÁSIA de João de Barros 

do anno feguinte de i^ó. Depois paífou 
maiores trabalhes de tormentas , de fome , e 
de íede , por não poder tomar a Ilha de Santa 
Elcna com névoas a . Os Marinheiros não po- 
dendo já com tantos trabalhos , determina- 
ram de matar a Diogo Botelho , e aos ou- 
tros Portuguezes , e irem-fe a terra. Pelo 
que quando fe viram na coita de Guiné , 
levantárarn-fe huma noite d , huns com ma- 
chados , e outros com efpetos , e fifgas , e 
deram cm Diogo Botelho , e nos outros 
Portuguezes , de que logo morreo hum , e 
feriram mal a Diogo Botelho , e o Comi- 
tre , os quaes com os outros dous compa- 
nheiros de tal maneira apertaram com os 
Marinheiros , que fe lançaram ao mar , on- 
de alguns fe afogaram , e outros perdoados 
fe recolheram á fufía. A qual com efte le- 
vantamento ficou fem Marinheiros , fem Pi- 
loto j e fem Comitre , e fem terem os feri- 
dos com que fepudeífem curar. Diogo Bo- 
telho efteve quatorzedias fem poder fallar , 
e per eferito mandava governar, polo que 
muitas vezes eftiveram em rifeo de fe per- 
der , ao que fe ajuntou a falta da agua ; e 
por a eílreiteza da regra que era necelfario 

fa- 

a Diogo do Couto diz , que tomou a Ilha de Santa Ele- 
va , na qual varou a fujla t e a concertou, em que fe de- 
teve a'ç;uns dias. 

b Ejle levantamento di^ Francífco de Andrade, que 
foi antes dí çheçar (1Q fafo de Eça Efperanca. 



Década IV. Liv. VI. Cap. XIV. 8r 

fazer- fe , padeceram immenfo trabalho , com 
o qual chegaram á paragem das Ilhas Ter- 
ceiras , que Diogo Botelho não tomou , com 
medo de o prenderem. Mas com força de 
vento arribou á Ilha do Faial , onde acafo 
acertou de eftar o Corregedor das Ilhas, 
que Diogo Botelho teve por outro infor- 
túnio maior , por o perigo que corria fua 
vida , e fua honra , podendo-fe entáo aca- 
bar de ter por certo que vinha fugindo do 
degredo que lhe deram , com tenção de ir- 
fe a França, e ficar havido por traidor , e 
desleal, onde cuidava que fe falvava diíTo. 
E como fe não podia encubrir, defembar- 
cou, fingindo que levava a EIRey hum re- 
cado do Governador da índia de grande 
importância ; e para que fe lhe c refle y fez 
hum maço de cartas feitiço. 

Ao defembarcar o foi receber o Corre- 
gedor com toda a gente da terra , como 
coufa eftranha , e milagrofa , fabendo que 
vinha da índia em huma tão pequena em- 
barcação , e afli lhe fizeram fefra l e corre- 
ram touros. Eftando-os Diogo Botelho ven- 
do dehuma janella, foi conhecido do Cor- 
regedor que eftava com elle ; e porque fa- 
bia que Diogo Botelho fora degredado pa- 
ra a índia , pareceo-lhe que vinha fugindo, 
e que por iíTo fe aventurara a vir nàquella 
furta • e determinando de o prender , per- 
Tom.IV.P.iL F gun- 



82 ÁSIA de JoÂo de Barros 

guntou-lhe íè era elle parente de hum Bote- 
lho , que fora degredado para a índia , fingin- 
do que lhe nao íabia o nome j porque íe ne- 
gaííe que era aquelie, teria ília prefumpçao 
por verdadeira , e prendello-hia iogo. Dio- 
go Botelho íufpeitando a tenção do Cor- 
regedor , diiTe-lhe, que elle era o meímo 
Diogo Botelho que fora degredado , e que 
Nuno da Cunha por nao achar outrem que 
íe ollèreceife a tamanho perigo, o mandara, 
por nao eítar bem com elle , e que fizera 
aquella viagem por o recado que levava fer 
de grande importância , e de tanto fegredo , 
que de ninguém fiava as cartas, fenao de íi 
meímo , e moftrou-lhe o maço que comíigo 
trazia. O Corregedor crendo o que lhe di- 
zia , o não prendeo , mas rogo u-lhe lhedif- 
feííe que recado levava ; ao que elle refpon- 
cleo , que de nenhuma maneira lho podia 
dizer , porém que por amor delle , poílo 
qucfoíTe contra juramento , lhe deixaria hu- 
ma carta em que lho referiíTe , com tanto 
que lhe déíTe íua fé , que a não abriria fe- 
nao oito dias depois de lua partida, e aíli 
o fez. 

Na carta que lhe deixou , dizia o modo 
de que hia , com que o Corregedor ficou 
mui defgoíloío por o não prender, e mui- 
to mais o foi , quando no dia que abri o a 
carta chegou as Ilhas Simão Ferreira Secre- 
ta- 



Década IV. Liv. VI. Cap. XIV. 83 

tário da índia , que por mandado do Go- 
vernador trazia a nova a Eilley D. Joiío 
da fortaleza que Saltam Baduf dera em Dio. 
E poíio que Nuno da Cunha eípedio a Si- 
mão Ferreira eom grande preiTa cm hum 
navio ligeiro , logo apôs Diogo Botelho, 
quando foube que era partido , para que por 
elie nao íòubeíTe EIRey primeiro a nova da 
fortaleza que per Simão Ferreira : fuecedeo 
porém aíli, porque Diogo Botelho chegou 
em Maio a Lisboa muitos dias primeiro 
que Simão Ferreira , e fe aprelentou a EI- 
Rey , que eítava em Almeirim a , indo na 
fuíla pelo Tejo acima té Salvaterra , e lhe 
diíTe a caufa per que viera da índia daquel- 
la maneira para moílrar fua lealdade , e lhe 
deo as novas da fortaleza de Dio , que \\\z 
Soltam Badur dera. EIRey ie maravilhou 
daquelía viagem , e as novas feítejou mui- 
to , e íeu leal animo , e o tornou á fua gra- 
ça , mas nao com a fatisfaçao que aquella 
façanha merecia b • ( ao coítume da terra , 

F ii na 

a Francifco de Andrade efe revê , que EIRey ejlava 
em Évora , aonde fora logo Diogo Botelho. 

b Diogo do Couro diz , que Diogo Botelho efieve al- 
guns annos em Portugal, fem EIRey lhe fazer mercê , e 
a cabo delles lhe deo a capitania de S. Thomé , polo ter 
fora do Reyno , e depois o deípacliou para a índia com a 
de Cananor. Efcreve mais Diogo do Couto , que EIRey 
lo^o viandou fa^er folemnes ProcifsÕes por as novas de Dio , 
e as efereveo ao Summo Pontífice Paulo III. que as cele- 
írou com outra fokmnijjima Procifsiio , t AliJ/a Pontifical ', 



84 ASL\ de João de Barros 

na qual raras vezes fe pagaram bem fervi- 
dos aílignalados , ) e foi tamanho o efpanto 
delia , que muita gente , aíii naturaes , como 
eftrangeiros , foram ver aquella fuíta a Sal- 
vaterra , como coufa admirável , a qual de- 
pois foi levada a Sacavém , onde iè man- 
dou queimar ? por não fer viíta , e fe divul- 
gar pelo Mundo , que em tão pequeno na- 
vio íè podia navegar á índia. 

CAPITULO XV. 

Como o Governador Nuno da Cunha fundou 
a fortaleza de Dio : e como Vafco Vires 
de Sampayo tomou aos Mogoles a for- 
taleza de Varivene no rio Indo. 

TAnto que Nuno da Cunha fe vio en- 
tregue do baluarte , e do íitio em que 
fe havia de fundar a fortaleza , poz grande 
diligencia em ajuntar os materiaes para cila 
necefíarios , no que fe deteve té Novembro ; 
e hum Domingo 20 dias daquelle mez , aca- 
bando de ouvir MiíTa folemne , acompanha- 
do de todos os Capitães , e Fidalgos , c 
mais gente , com muita feita , deo elle a 
primeira enxadada nos aliceces que fe co- 
meçaram abrir 7 o que fe continuou com 

tan- 

na qual fez huma Oração Fr. Theofilo da Ordem de Santo 
Agojlinho em louvor d^ElRcy D. João , e da nação Por- 
tttf^tteyi , a qual traduzida em Português, refere Diogo do 
Couto nocap. a.doi.tiv. da $. Década , onde fe pôde Ur. 



Década IV. Liv. VI. Cap. XV. 8? 

tanta preíía , que quando foi aos 21 de De- 
zembro , ( dia do Apoftolo S. Thomé Pa- 
droeiro da índia , ) aflentou Nuno da Cu- 
nha a primeira pedra da fortaleza com mui- 
tas moedas d'ouro debaixo delia ; e por com- 
prazerem ao Governador , os Fidalgos lan- 
çaram outras muitas , no que todos moílra- 
vam contentamento , e alvoroço , e fe feííe- 
jou com grande eftrondo de artilheria , e de 
trombetas, atabales, e charamellas. Soltam 
Badur para moftrar que também lhe cabia 
a elle parte daquelle contentamento , e que 
a obra fe fazia por fua vontade , mandou 
logo a Nuno da Cunha quinze mil pardáos 
d'ouro em nome de aímorço para os íervi- 
dores da obra , dos quaes elle mandou mui- 
tos. Mas não menos trabalhavam os Fidal- 
gos que a outra gente , e todos eram re- 
partidos per quartos , e os Capitães delles 
andavam á inveja de quem daria melhor 
rneza aos do feu quarto ; e como cada hum 
lha dava , aíli fe lhe ajuntava a gente , e 
crefeia a obra. E por eíla caufa hum ba- 
luarte , que Garcia de Sá tinha a cargo , (que 
tem o feu nome 3 poílo que lhe puzeram o 
de Sant-Iago , ) crefceo mais que todos , 
porque o fez todo , e gaitou nelíe muito. 
E tanta preíía fe deo á obra , que antes de 
fe acabar o mez de Fevereiro , era a forta- 
leza acabada , á qual foi pofco o nome São 

Tho- 



26 ÁSIA de JoÃo de Barros 

Thomé ; e provcndo-a o Governador de 
muita artilheria , c munições , fez Capitão 
delia a Manuel de Souíà Fidalgo de íua 
peííoanvui valeroíb , e esforçado , como na 
vida , c morte moílrou , e lhe deo para guar- 
da delia novecentos homens Portuguezes. 
E porque Nuno da Cunha em tudo defeja- 
va de comprazer a Soltam Badur , e por 
lho elle rogar , mandou pedir ao Nizamalu- 
co què lhe hão fizeííe guerra, porque eílan- 
do íèguro de lha não fazer, tiraria da liia 
fronteira a Mirao Muhmald com a gente 
que nella tinha , que lhe era neceíTaria para 
outra parte. Com eíla embaixada mandou a 
Gafpar Preto, que era homem para muito, 
e de grande recado , o que negociou tam- 
bém , que nao fomente Badur ficou feguro 
doNizamaluco lhe fizer guerra, mas ainda 
deo gente a Mirao Muhmald para a fazer a 
outros. O que fabendo Badur do Governa- 
dor , ficou agradecido , e deíaíivado. 

* Entretanto Vafco Pires de Sampayo 
profeguindo íua viagem , também em fer vi- 
ço de Soltam Badur , chegou á foz do rio 
Indo , hum dos mais famofos da Afia. Sur- 
to aqui Vafco Pires , vafou a maré mais 
de meia légua , e ficaram es navios cm fec- 
co , pelo que foi avifado que os defpcjaf- 

íé, 

a Fernão Lojtei de Caftanheda fio cop. ror;, de íiv. 3, 
e Francifco de Andrade no cap. 16. da j. Parte. 



Década IV. Liv. VI. Cap. XV. 87 

fe , para que flcaíTem leves quando torr.aíTe 
a montante cPagua , porque fe eíliveífem car- 
regados , fe perderiam , por trazer grande 
força , enchendo com macareo ; e por tanto 
elle mandou aboiar a artilheria , para o que 
foram poftos íòbre ella os maííos , e vergas 
dos navios. E quando a maré tornou , vi- 
nha o macareo táo alto , e com tamanho 
impeto , e rugido , que os Portuguezes re- 
cearam que os foçobraífe , e aífi deram os 
navios tão grandes pancadas na praia , que 
parecia que fe efpedaçavam. PaíYada efta 
fúria, foi' recolhida a artilheria com ornais, 
e apparelhados os navios , entrou a Arma- 
da no rio , onde achou Vafco Pires o Ca- 
pitão d'ElRey de Cambava , a que os Mo- 
goles tomaram a fortaleza , o qual fabendo 
que Vafco Pires hia , o foi alli eíperar com 
agente que tinha embarcada, c lhe contou 
como os Mogoles fabendo de fua vinda, 
queimaram logo a povoação de Varivene , 
e fe recolheram na fortaleza , a qual era pe- 
quena, poíla aborda d'agua , com quatro, 
ou cinco berços : os Mogoles que nella eí- 
tavam eram cento e cincoenta. Vafco Pires , 
levando efte Capitão , foi pelo rio acima , 
e fendo já noite" chegou á fortaleza , e fem 
querer faber mais da difpofiçao delia , pela 
manha cedo começou de a combater , re- 
partindo o combate per três eítancias , hu- 

ma 



88 ÁSIA DE João DE B^KfcOS 

ma que elle tinha com os Portuguezes , ou- 
tra Coge Sofar com os Turcos , e a outra 
o Capitão d'ElRcy de Cambaya com os 
feus j que eram efpingardeiros , que não ha- 
viam de fazer mais que tirar aos Mogoles 
que appareceííem febre o muro para os Ca- 
pitães fubirem por efeadas. Os Mogoles , 
poílo que foliem tão poucos , fe defende- 
ram mui valentemente com effa pouca arti- 
lhcria que tinham, e com fua arca buzaria, 
e muitas frechas 3 com que feriram oitenta 
Portuguezes , que não puderam chegar as 
efeadas ao muro , falvo Miguel de Aiala , 
que foi o primeiro que fubio , e foi lança- 
do deííe com grande perigo feu ; e affi 
Marti m Affonfo de Mello o punho , Ma- 
nuel Machado , ejoão de Freitas, que hiam 
apôs elíe , que foram mal feridos , e João 
Ferreira que cahio abaixo morto de huma 
frechada. Vendo Vafco Pires o damno que 
os feus recebiam , mandou-cs affaítar, de- 
terminando de defeoroar as ameas do mu- 
ro , para a gente poder melhor fubir , e aíli 
fe fez logo com a artilheria que mandou 
tirar em terra , e por efta bateria fe acabar 
perto da noite , deixou de commetter a en- 
trada para o outro dia ; mas nao efperando 
por iíTò os Mogoles , fugiram aquella noi- 
te , e deiamparáram a fortaleza. E fendo 
Vafco Pires avifado de fua ida , defembar- 

cou , 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XV. e XVI. 89 

cou , e foi apôs elles , e matou os que al- 
cançou , c tomada a fortaleza a entregou 
ao Capitão d'ElRey de Cambaya ; e por 
riao ter mantimentos , e entre elle , e Coge 
Sofar haver alguma defavenea ? não fez mais 
guerra aos Mogoles , e fe tornou a Dio» 

CAPITULO XVI. 

Como querendo Soltam Badur ir vi/itar 
algumas partes defeu Reyno , pedio ao Go- 
vernador lhe dcjje por companheiro a Mar- 
fim ^Jjfonfo de Soufa : e como indo os Mo- 
goles J obre Baçaim , fe tornaram com te- 
mor dos Portugueses , e Mirao Muhmald 
os foi lançando de Cambaya. 

FAbricando-fe a fortaleza de Dio , vie- 
ram novas a Soltam Badur , que El- 
Rey dos Mogoles , depois de ter tomado 
Champanel , tomara Amadabad , Cidade 
principal de Cambaya , por lha entregar o 
Capitão delia , a qual elle pertendeo com 
tenção de ir logo tomar a Cidade de Dio , 
e dalla ao Governador Nuno da Cunha , 
por lha ter prornettida ; e por faber que já 
cílava neila fazendo a fortaleza , deixou de 
vir. Polo que conhecendo ElPvCy de Cam- 
baya o favor que já achava com a fortale- 
za , c que á fombra delia podia defender 
fua peflba ^ e èftado ? e muito mais com a 

af- 



oo ÁSIA de João de Barros 

aíMencia de Nuno da Cunha em Dio , de- 
terminou de ir dar huma vifta a algumas 
partes de íeu Reyno de Cambava , aíli por 
dar aos íeus moííra de fi que era vivo , e 
com efperança de os poder foccorrer com 
favor dos Portuguezes , e cobrar feu efta- 
do , como para laber as fortalezas , e luga- 
res que citavam de lua devoção. Para o que 
tomou confelho com o Governador , que 
lho approvou , e para eíía jornada lhe pe- 
dio houveííe por bem que Martim Aífonfo 
de Soufa foíle com elle y porque além do 
valor de Martim Aífonfo nas armas , e con- 
íclho na guerra , e aprazível converfaçao , 
e outras boas qualidades , era-lhe EIRey Ba- 
dur mui aífeiçoado , e dizia , que tanto ef- 
timaria levar comfigo Martim Aífonfo , co- 
mo levar mil Portuguezes. O Governador 
lho concedeo , c mandou mais alguns Fi- 
dalgos que o acompanhaífcm. a 

EÍRey fe partio , deixando encommenda- 
das ao Governador fuás mulheres ? e fua 

mai, 

a Efcreve Diogo do Couto, que os Portuguezes , <jue 
foram com Martim Affdnfo de Soufa, eram quinhentos. E 
es Fidalgos que o acompanharam foram Fernão de Soufa de 
Távora , Francifco de Sã dos óculos' , D. Diogo de Almei- 
da Freire , Martim Corrêa da Silva , Manoel de Soufa de 
Sepúlveda , António Moniz Barreto, e outros. Cap. 10. do 
liv. 9. Francifco de Andrade diz, que os foldados ejpin- 
gardeiros eram cento, e de cavallo cincoenta Fidalgos, e 
gente nobre, a que Badur mandou dar os cava/los. Cap. 11. 
da 5. Farte. 



Década IV. Liv. VI. Cap. XVI. 91 

mai , e família , c correo alguns lugares de 
fcu Rcvno , de que achou alguns ferem leaes, 
e citarem as fortalezas por elle ; e dos que 
eílavam pelos Mogoles foube , que tinhaiá 
mui fracos prefidics , e que os poderiam ia- 
cil mente cobrar. Porque como os Mogoles 
não fazem longa habitado nos lugares , aíli 
não occupam gente militar , de que tem ne- 
ceílidade, em prefídios , e os que deixaram 
eram de pouca gente , e eíía mal provida , 
por não ferem elles fenhores do campo , e 
terem longe o foccorro. Mas como EIRey 
não hia fazer guerra , nem a reftiruir-fe de 
alguma maneira , fenao a dar vifta de fi a 
feus vaíTallos , nem levava campo formado , 
e lhe deram novas que os M.ogoles abala- 
vam contra elle com grande exercito de pé , 
e de cavallo , nao lè atrevendo a pelejar 
com elles , determinou retirar- fe a Dio. Mas 
animado per Martim Aífonfo de Soufa a , 
com feu confelho fe fubio a hum monte 
vizinho , para onde fe recolhia grande mul- 
tidão de gente , que vinha fugindo dos Mo- 
goles , a qual Martim Aífonfo fez reter , e 
alojar ordenadamente, e no cume do mon- 
te mandou plantar as iníignias Reaes ; por- 
que vendo-as o inimigo , e cuidando que 
aquella gente era de guerra , não auferia 
commeíter o monte. Refpondep o fucceíTo 

ao 

a Diogo áo Couto no cap. 10. do ílv. 9. 



T?2 ÁSIA DE JOÃO DE BARBOS 

ao difcurfo de Martim AíFonfo , porque lo- 
go appareceo no campo hum irmáo d'El- 
Rey dos Mogoles com oito mil de cavai- 
lo , que citando cm Abmadabad , teve avi- 
íb de comoBadur andava pelo Reyno com 
pouco poder , e vinha com aqueJla gente 
efeolhida para o prender. E como chegou 
áquclle campo , e vio fobre o monte as in- 
íignias Reaes , e tanta multidão de gente, 
parecendo-lhe que toda era de guerra , foi 
ciando viíta pelo pé do monte , e fahindo- 
fe do campo. Martim AíFonfo contra von- 
tade cTElRey com os poucos da fua com- 
panhia defceo a baixo para reconhecer o 
caminho que levavam os inimigos , e os vio 
entrar per algumas Aldeãs , e queimallas ; 
e não podendo remediar aquelles damnos , 
por não ter gente , tornou-íè a EIRey , que 
ficou no monte aquella noite com grandes 
vigias. E íabendo que os Mogoles fe hiam 
recolhendo , mandou alguns Capitães que os 
fcguiíTem té de todo fe fahirem do Reyno. 
E receando-fe de outra volta , fe recolheo a 
Dio mui fatisfeito dos Portuguezes que o 
acompanharam , aos quaes fez muitas mercês. 
a Sabendo o Governador que os Mogo- 
les fe moviam , receou que foííem fobre Ba- 
çaim , c o tomafièm , pelo que mandou Gar- 
cia 

a Fernão Lopes deCaftanheda no rap. 122. do Iiv.%. 
e Franciíco de Andrade no cap. 12. da j . Parte. 



Década IV. Liv. VI. Cap. XVI. 93 

cia de Sá que foífe para lá , e lhe deo qua- 
trocentos Portuguezes que foíTem com elle , 
e afli lhe mandou , que entretanto ajuntaíTe 
os materiaes neceífarios para dk ir fazer 
naquelle lugar huma fortaleza como fe aca- 
bado- a de Dia. Eftando Garcia de Sá em 
Baçaim , chegou Gafpar Preto que vinha do 
Nizamnluco fobre deixar a guerra de Cam- 
bava , o qual lhe deo novas, que vindo de 
lá 'para Dio , foubera que hia hum Capitão 
d'EíRey dos Mogoles íòbre Baçaim com 
vmte mil de cavallo , e gente de pé fem 
conto para o tomar , e dallo a Melique 
Liaz , que fe lançou com EIRey dos Mo- 
goles , como fica dito atrás. E que os cor- 
redores deita gente chegaram tão perto del- 
le , que lhe cativaram algumas peífoas de 
fua companhia, peio que lhe fora forcado 
deixar o caminho que levava , e ir a Da- 
mam , edalli viera per mar a Baçaim. Gar- 
cia de Sá , que já ouvira efta nova , ficou 
mui trifte quando vio que a confirmava Gaf- 
par Preto , com cujo parecer , e de outros 
muitos determinou de náo efperar os Mo- 
goles , vindo já tão perto , porque lhes pa- 
recia temeridade , não fendo mais de qua- 
trocentos , e os inimigos fem CGnto , efpe- 
rallos em campo, polo que fe apercebeo pa- 
ra embarcar-fe , e ir-fe. A gente da terra , 
e os mercadores eítrangeiros que ahi refi- 

di- 



94 ÁSIA de JoÃo de Barros 

diam , e fe tinham por feguros com a pre- 
fença de Garcia de Si , fe deram por per- 
didos , e tudo eram lamentações , e alaridos 
das mulheres , e meninos quando viam en- 
trouxar os Portuguezes. 

António Galvão que alli eílava , vendo 
a grande quebra, e dcícredito que era pa- 
ra os Portuguezes irem-fe daquella manei- 
ra , principalmente em tempo em que toda 
a confiança d'E!Rey de Cambava eílava nel- 
les , parecendo-lhe mal aquella determina- 
ção , fez huma falia a Garcia de Sá , dizen- 
do-lhe , que não lhe podia negar , que quan- 
do alli veio para defender Baçaim dosMo- 
goles , não fabia que os homens que trazia 
não eram mais dos que agora eram em res- 
peito dos inimigos. Eque nefle tempo ima- 
ginara mui bem quantos haviam de íer , pois 
queriam tomar aquella terra , a que o Go- 
vernador o mandara para lhes refiílir. Eque 
também lhe não negaria , que bem fabia 
quando alli o mandaram , que não tinha on- 
de fe defendeííe , fenao no campo pelejando. 
E que pois fe então não efcufára de accei- 
tar eíTa empreza , podendo-o fazer fem âcC- 
honra , pois ninguém o fabia , que não era 
decente efcufar-íe agora com ficar deshon- 
rando a fi , e aos Portuguezes com tamanho 
defcredito , pois era em público ; e que por 
fuílentar o credito que feus paliados tinham 



Década IV. Liv. VI. Caí, XVI. 9? 

ganhado na índia ácufta do langue de tan- 
tos , cumpria a ferviço de Deos , e d'EI- 
lley , e da lua Pátria não degenerar dei- 
les', e alli perder as vidas, que duram tão 
pouco , e que aíli lho requeria o fizeflem : 
quanto mais , que fem as perder , fe pode- 
riam defender com a artilheria, e efpingar- 
daria que tinham , que lhe defenderiam % 
dianteira , e as coftas o mar , e brevemente 
fariam huma tranqueira da muita madeira 
eme alii tinham, que com huma cava fica- 
ria foi iiílima. A gente plebea não approva- 
va o que António Galvão dizia ; mas pri- 
meiro que Garcia de Sá lhe refpondcfle, 
começaram de dizer , que o que António 
Galvão dizia eraefeufado, o que elle fendo 
muito , vendo que fe não punha em práti- 
ca o que havia propoílo. Mas Garcia de 
Sá , a quem aquelle confeiho pareceo bem , 
lhe louvou as razoes que deo , elhe . pedio 
tomafle a feu cargo fazer ametade da tran- 
queira , e afíi a fez. A gente da terra , e os 
eftrangeiros fe ajuntaram com Garcia de Sá, 
e o ajudaram. O Capitão dos AXogoIes fa- 
bendo quão fortalecidos os Portuguezes es- 
tavam , deixou a ida deBaçaim, e tornou- 
fe , no que os Portuguezes ganharam mui- 
to credito, e honra , a qual toda fe attribu- 
hio a António Galvão , que deo o confeiho. 
Vindo á noticia de Mirao Muhmald fo- 

bri- 



96 ÁSIA de JoÃo de Barros 

brinho d'ElRey de Cambaya , que os Mo- 
goles não ou firam ir a Baçaim , e que elíe 
não tinha já que fazer na fronteria de Da- 
mam , eílando amigo com o Kizamaluco, 
e que EIRey dos Mogoles era ido cami- 
nho de Bengala , e a gente que deixava em 
algumas forças de Cambaya não era bas- 
tante para lhe impedirem andar pelo Rey- 
no com a que elle tinha, e com outra que 
ihe Soltam Badur mandou , e com a que 
lhe Nizamaíuco deo , lhes fez logo guerra, 
e lhes tolheo os mantimentos , de que tinham 
muita falta ; por não eftarem ienhores do 
campo , de maneira , que foram alargando 
as fortalezas , e fe foram huns para fuás 
terras , outros para Emirzaman cunhado de 
feu Rey, que íe paíTou a EIRey de Cam- 
baya ; e acudindo-ihe dahi adiante mais gen- 
te , poz a coufa em eftado 9 com que Badur 
depois cobrou todos os feus fenhorios. 

CAPITULO XVII. 

Como Soltam Badur fe arrependeo de 
dar a fortaleza de Dio aos Portuguezes , 
e quizera fazer entre ella , e a Cidade 
hum muro , com que a cegara : e como o 
Governador o pacificou , e fe foi a Goa. 

SEndo Soltam Badur naturalmente de ília 
condição inquieto , e inconftante , que 
lhe não durava inuito huma vontade > eeíla- 

va 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XVII. 97 

va já defapreflado do Nizamaluco , e em e£ 
peranças de o fer dos Mogoles , quando vio 
a fortaleza de Dio acabada , arrependeo-fe em 
grande maneira de a ter concedida aos Portu- 
guezes ; e já que a não podia desfazer , deter- 
minou de a cegar , com mandar fazer hum 
muro entre cila , e a Cidade de maneira , que 
a Cidade não ficafle fubjugada da fortaleza , 
com tenção que, ido Nuno da Cunha , faria 
no muro baluartes , com que pudeíTe bater a 
fortaleza , e tomalla. Com efta determinação 
mandou dizer ao Governador por Nina Rao 
Capitão de Dio , que havia de fazer o mu- 
ro. O Governador , havendo confelho com 
feus Capitães , a Sen taram , que Fernão Ro- 
drigues de Caftello-branco lhe folTe dizer, 
que a fortaleza era fua , e elles feus , que 
por iíío era efcufada aquella parede. EÍRey 
lhe refpondeo , que aquella parede queria 
fazer para evitar efcandalos entre os feus , 
e os Portuguezes , e não fe quebrar a ami- 
zade que tinha com EÍRey de Portugal. E 
paliando alguns recados de parte a parte , 
mandou dizer ao Governador , que e.lle não 
fe obrigara pelo contrato das pazes a fer 
fujeito a Portuguezes , fenão a dar-lhe lu- 
gar para huma fortaleza , e que elles o que- 
riam forçar a que não fizeííe huma parede 
em fua terra ; e porque Fernão Rodrigues 
levava ordem do Governador , que iníiftin- 
Tom.ir.P.iI. G do 



98 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

do EiRey em fazer a parede , o defenga- 
naíTe , que o Governador lho nao havia de 
confentir , clle o fez affi , de que Badur fi- 
cou mui refentido , parecendo-lhe que era 
grande quebra fua tão feceo deíèngano , 
e bem fe entendeo dclle , que fe pudera , lo- 
go fe vingara do Governador. Mas como 
tinha pouco poder , e ainda os Mogoles an- 
davam em Cambava , diffimulou efte ódio , 
determinando de tomar-lhes a fortaleza a 
feu tempo. 

Eftando alguns dias , que de arrufado fe 
nao vira com o Governador , lhe mandou 
dizer por Nina Rao , que lhe déííe a gente 
que lhe promettèra para ir contra os Mogo- 
les ; e efeufando-fe elle difío , por fer inver- 
no , e dilatando-o para o verão feguinte , 
com receio que dando-lha , a mataífe á trai- 
ção: queixou- feElRey muito de lhe o Go- 
vernador nao cumprir o contrato , dizen- 
do , que elle bu içaria feu remédio ; e fez 
com Nina Rao que diííeíTe ao Governador 
cm fegredo , como de feu , que EIRey Ba- 
dur queria ir-íe para Meca , para que cn- 
tendefíe o Governador que fua ida leria pa- 
ra trazer foccorro do Turco. E poíto iíto 
em confelho, crendo todos que feria affi, 
fegundo EIRey era voluntário, e determi- 
nado , aíTcntáram , que convinha detello por 
a divisão que havia em Cambaya. E fazen- 
do 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XVII. 99 

do o Governador que íe viflem ambos , por 
EIRey eítar na quinta de Meliquc Az , vi- 
ram-fc na ponta de Dio , aonde o Gover- 
nador foi em huma fuíta , e com elleMar- 
tim AíFonfo de Soufa , Manoel de Soufa , 
D. Gonçalo Coutinho , Fernão Rodrigues 
de Caíteilo-branco , e João da Coita Secre- 
tario do Governador. EIRey efperou em 
outra fuíta , acompanhado de quatro , ou 
cinco Senhores grandes de feu Reyno. 

O Governador fe metteo na fuíta d'El- 
Rey , e ambos na popa , ficando os Fidal- 
gos ? e Senhores de fora. Aili fez EIRey 
huma longa prática ao Governador toda de 
queixumes de lhe não cumprir o contrato , 
como elJe cumprio. E por o Governador 
eftar doente , pedio a EIRey que permittif- 
fe refponder por elle Fernão Rodrigues , que 
fabia bem daquelie negocio ; o qual lhe 
dilTe , que S. A. era o que não cumpria o 
contrato , porque lhe concedera huma for- 
taleza , e a vira fazer , e agora lhe tirava 
os olhos , e a viíta , pois com a parede fi- 
cava cega , e imperfeita , e differente das ou- 
tras fortalezas ; e que as doações , que os 
Principes faziam, fe entendia per direito de 
todas as gentes , que haviam de fer largas 9 
e liberacs , e não diminutas , e inutiles , que 
não honraíTem a quem as dava , nem apro- 
veita ffem a quem as recebia. E que a for- 
G ii ta- 



ioo ÁSIA de João de Barros 

taleza era para S. A. tão proveitofa , como 
para os Portuguczcs , que já eram feus, e 
eftavam alli para o íervir , e morrer em ília 
defensão quando cumpriíTe. E que a gente 
que lhe pedia , que ainda que lha agora 
déíle , não podia fazer com ella coufa al- 
guma , porque por fer inverno não podia 
citar em campanha, que no verão, quando 
lhe poderia fervir , lha daria quanta quizef- 
fe. E que o mefmo fizera , ainda que não 
eítivera capitulado no contrato , por a von- 
tade que tinha de o fervir, e que não cui- 
daíTe outra coufa. Com aquellas razoes, e 
outras fe abandonou EIRey , e prometteo 
de fe vir para a Cidade , dizendo, que não 
Ília logo , porque não cuidaíTem os Mouros 
que o levavam forçado. E o Governador 
fe tornou, e ao outro dia fe foi EIRey pa- 
ra a Cidade como tinha promettido , e fe 
reconciliou com o Governador , ainda que 
não de coração , porque determinava de lhe 
tomar a fortaleza como viíTe tempo. 

Havendo pois o Governador fundada a 
fortaleza , e citando de acordo com Soltam 
Badur , e deixando Manoel de Soufa bem 
provido de gente , mantimentos , e muni- 
ções , e do mais que cumpria para fua de- 
fenfa a , antes de fe partir para Goa , teve 

com 

a Deixou o Governador por CapitTio do baluarte do mar 
c hionel de Sõuja de Lima com trinta efpingarãeíros, Fe^ 
a António da Veiga Feitor , e Alcaide mév* A Pedralva- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XVII. ioi 

com EIRey todos os cumprimentos devi- 
dos , dizendo-lhe , que alli deixava Manuel 
de Soufa com toda aquella gente, e armas, 
mais para o fervir , que para guarda da for- 
taleza , e que iflb era o que lhe deixava 
mais encarregado ; e que todas as vezes que 
fbíTe ncceíYario acudir elle Nuno da Cunha 
em peflba com todo o Eftado da índia, o 
faria por o fervir. E que hia contente de 
íl , por ver que já tinha cobrado parte de 
Teu Reyno ; e que efperava em Deos , que 
por aquelle ferviço que fizera a EIRey feu 
Senhor , em lhe dar lugar para aquella for- 
taleza em Dio , feria caufa para elle Soltam 
Badur ter mais feguro, e mais quieto dahi 
em diante o feu Eftado. Com eíles offere- 
cimentos , e outros neceífarios ao tempo , 
fe defpcdio d'ElRey , ficando ambos muito 
amigos. Nina Rao o tio d'ElRey Capitão 
de Dio , receando- fe que não faltaíTe hum 
achaque, com que EIRey hum dia oman- 
daífe matar , como tinha feito a muitos, 

pe- 

res de A meida Ouvidor. No rio deixou duas albetoças , 
huma caravella , liuma galé , e quatro catures para o fer- 
viço: e na fortaleza fefjenta peças de artilheria , a melhor 
que então havia na índia. Na Igreja , ( que fe fez no al- 
to da fortaleza , e tão forte , que delia podia jogar a arti- 
Iheria , fendo necefjario , ) poz Vigário com féis Sacerdo- 
tes. Fez pagamento a toda a gente de féis mezes , e entre- 
gou ao Feitor dez mil pardáos para o que fojje necefjario , 
e para fe continuar com as obras da fortaleza. Françifco 
de Andrade cap. 17. da 3. Parte. 



102 ÁSIA de João de Barros 

pcdio a Nuno da Cunha em muito fegre- 
do , que deixalTe dito a Manoel de Soufa , 
que , fendo-Jhe neceííario , o recolhefle a elle 
com fua mulher , e filhos 3 e famiiia na for- 
taleza , porque fe temia da inconítancia d'El- 
Rey , e que elle o ferviria. Nuno da Cu- 
nha o deixou mui encarregado a Manoel 
de Soufa , folgando muito de ter por ami- 
go hum homem tão principal como aquelle. 
Ordenadas todas eílas coufas , partio Nuno 
da Cunha de Dio a 20. de Março do anno 
de 153 6. , e foi a Baçaim , onde chegou 
com toda fua Armada ; e vendo a tranquei- 
ra que fe fez por confelho de António Gal- 
vão , gabou-a muito , e foi ver o íitio onde 
fe havia de fazer a fortaleza , a qual come- 
çou logo , e por fazer honra a António 
Galvão , quando fe abriram os aliceces , man- 
dou-lhe que déíTe elle as primeiras enxada- 
das , e que puzeíTe a primeira pedra , e dei- 
xando Garcia de Sá para acabar a obra , 
partio-fe para Goa , onde foi recebido com 
muita alegria , por deixar mais duas forta- 
lezas de huma viagem , tão importantes co- 
mo a de Dio , e a de Baçaim ? accrefcenta- 
das ao eílado da índia. 



CA- 



Década IV. Liv. VI. 103 
CAPITULO XVIII. 

Como Garcia de Sá Capitão de Malaca , 
por engano éTElRey de Achem , lhe man- 
dou Manoel Pacheco em hum galeão á 
boa fé : e elle , e os que levava 
foram mortos d traição. 

GUardando a ordem , com que começá- 
mos de tratar das couias de Malaca , 
e Maluco apôs as da índia , das quaes por 
as não interromper , ha muito que não fal- 
íamos , he tempo de relatarmos o que na- 
quellas partes íuecedeo. Dito temos atras , 
como em tempo de Lopo Vaz de^Sampayo 
foi morto Simão de Soufa Galvão , indo 
para fervir de Capitão mor do mar de Ma- 
luco , com a maior parte dos que levava, 
e outros ficaram cativos , e entre elles Jor- 
ge de Abreu , e António Caldeira. Feita 
aquella maldade por EIRey de Achem , 
e fingindo elle que lhe pezava daquelle 
fucceííb , não fatisfeito com tão pequena 
preza, mandou dos cativos três a Pêro de 
Faria Capitão que então era de Malaca, 
dizendo , que elle folgaria de ter paz com 
Malaca , e queria tornar-lhe a galé , e os 
cativos que lá tinha , para o que lhe en- 
viaíTe alguma peffoa para affentar efta paz 
com elle , e lhe então fazer entrega de 

tu- 



io4 ÁSIA de João de Barros 

tudo a . Pêro de Faria vendo quanto impor- 
tava á navegação de Malaca ter paz com 
aquelle Rey , que hia creícendo em poder , 
e que não lhe faltava mais para fazer- fe Se- 
nhor da maior parte de Samatra , que to- 
mar o Reyno de Arú vizinho de Malaca, 
com o qual elle então eftava de guerra , 
houve que Deos lhe movia o animo para 
noíTo beneficio na paz que commettia , e lo- 
go mandou armar huma lanchara com al- 
guns Portuguezes fomente para faber fe era 
verdadeira aquella fua tenção , para niílb 
prover conforme ao que achaííe nelle. Os 
Portuguezes foram mui bem tratados delle ; 

e lhe 

a Tendo o Achem ovifo que em Malaca e/lava hum Em- 
laixador d^ElRey de Arú , amigo dos Portuguex.es , que 
vinha pedir foccorro contra elle ao Capitão Pêro de Fa- 
ria ; e fabendo que fe apre/lava o foccorro , receando que 
com elle lhe faria muita guerra EIRey de Arú , para o 
ejlorvar mandou António Caldeira , oferecendo a paz , com 
ns condições referidas , que parecendo-lhe a Pêro de Fa- 
ria que delias canhava mais que no foccorro d^ElRey de 
Arú , deixou de lho dar , vo/lo que com grande contradicqão 
de Martim Corrêa , que conhecendo as traições do Achem , 
The aconfelhava que não deixaf/e de dar foccorro ao Arú 
■pelas falfas promefjas do Achem. Mas perfuadido Peio de 
Faria de António Caldeira , efpedio ao Embaixador d?El- 
Jiey de Arú fem foccorro , e mandou dous homens a Ma- 
laca a tratar das pazes , que aportaram a huma Ilha na 
cofia do Achem , onde foram mortos. E ao Arú mandou 
Fernão de Moraes em hum galeão a dar-lbe fatisfaqoes de 
o não ajudar naquella occafião contra o Achem , que foram 
d"* EIRey mal recebidas. Fernão Lopes de Caftanheda cap. 
Sj. do liv. 7. Dio^o do Couto Dec. 4, Uv, 5. cap. S. 
Fraacifco de Andrade 2. Parte cap. }j. 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XVIII. iojT 
e lhe cico grandes dadivas , que confirma- 
vam o que elle mandara dizer a Pêro de 
Faria. Mas como elle era traidor , e em 
fé , mandou fritar com elíes ao caminho , 
e foram todos mortos , e a lanchara metti- 
da no fundo , porque não appareceíle. > 
E havendo féis mezes que tinha lito rei- 
to, fendo já Garcia de Sá Capitão de Ma- 
laca, que fuccedeo a Pêro de Fana eícre- 
veo-lhe efte Mouro huma carta com íoDre- 
fcrito para Pêro de Faria, em que lhe di- 
zia , que havendo tanto tempo que la man- 
dara huma lanchara com certos homens io- 
bre o negocio da paz que queria ter corri 
dle , citando efperando por fua reipolta te 
então não vira feu recado. E porque elle 
eftava na mefma vontade , lhe pedia man- 
drile lá alguma peíTòa notável paraiífo, por 
não irem , e virem recados , e fez elcrever 
a Jorge de Abreu , e aos outros Portugue- 



zes 

am 



a Efles Portucruezes diz Diogo do Couto , que fot 
mandados por Garcia de Sá em companhia de hum hm. 
laixaior do Achem , per quem elle maudoupcd.r pazes a 
Garcia de Sd , com as condições que oferecera a Pêro de 
Faria. qual Embaixador entrou com grande apparato em 
Malaca , Cobre hum elefante , com hum prato d ouro nas 
mães , em 'que levava a carta JElRey do Achem para o 
Capitão , e diante de lie hia hum homem como Key d ar- 
mas , que ao fom de alguns injlrumentos pubhcava em alta 
ver fie EIRey do Achem mandava commetter pazes , e 
amizades aos Portugueses. Diogo do Couto cap. 9 d, 
liv. 5. Francifco de Andrade cap. 46. da 2. Parte, bet- 
r\ÍO Lopes de Caíianheda cap. 99. do liv. 7- 



io6 ÁSIA de João de Barros 

zcs que lá tinha cativos , quanto ellc defe- 
java a paz ? e que logo os foltaria. E que 
a caufa principal por que a defejava era 
por ter guerra com EiRey de Arú , e que- 
ria favorecer-fe com Malaca 5 e ter os Por- 
tuguezes por amigos. E como homem fal- 
fo que era , neíte tempo tratava eítes cati- 
vos com muito mimo , para elles efcreve- 
rem a Garcia de Sá eíle bom tratamento , 
e debaixo deita íimulação armava a traição 
mais a feu propofito , como aconteceo , pof- 
to que o cafo mais foi deícuido , e íimpli- 
cidade dos noffos , que aítucia fua. 

Porque vendo Garcia de Sá eíle recado , 
parecendo-lhe que náo havia outra maior ver- 
dade , fegundo lhe os noffos efcreviam , 
mandou apparelhar o galeão S. Jorge , que 
era de duzentos toneis , armado com fete 
bombardas groíTas , três falcões , e vinte 
berços , e muitas panellas de pólvora , com 
oitenta e cinco Portuguezes , os principaes 
de Malaca , ordenado tudo com cautela de 
as lancharas deite tyranno lhe não poderem 
fazer damno. Deite galeão mandou Garcia 
de Sá por Capitão a Manuel Pacheco, que 
era mui bom cavalleiro , o qual com feu def- 
cuido o foi entregar ás lancharas de Achem, 
afli como hia armado. Porque chegado ao 
porto de Achem , hum pouco ao mar , por 
lhe calmar o vento 3 vieram logo a elle al- 

gu- 



Dec. IV. Liv. VI. Cai-. XVIII. 107 
-mas lancharas da parte d'ElRey fabef 
quem oram, e o que queriam. Ao que elle 
relpondeo o a que vinha , e que ao outro 
dia fenão ventáflè , lhe mandaííe lancharas 
para o rebocarem , e metterem no porto. 
EIRey como ifto lhe vinha a popa do que 
tinha ordenado , mandou logo foltar luas 
lancharas , com alguns bailéus altos , que 
andam no meio delias , donde pelejam a 
maneira das redes que cá ulamos , e os re- 
meiros ficam per baixo , e todos com gran- 
des feitas , moítrando que o faziam por hon- 
ra dos noílòs. Muitos que não eram acol- 
tumados á guerra das lancharas, quando as 
viram , efpertáram os Capitães, dizendo, 
que lhes não parecia bem aquelle modo de 
feita , que por qualquer maneira que rolle , 
os deviam de receber armados , e^ coitos 
em ordem de peleja. O Capitão Manuel 
Pacheco , a quem parece que fua hora o en- 
ganava , e affi a de muitos que alh eram , 
começou a bradar que fe não armaflem , que 
damnavam todo o concerto, e ordem que 
levava deaffentar a paz , que o nao deshem- 
raílem , e fe deixaffem eítar , nem fizeííem 
alvoroço , porque na defeonfiança que mof- 
travam, damnavam o a que vinham.^ co- 
mo homem que recebia irmãos , e nao ini- 
migos , deixou-fe eftar cego, e contumaz 
naquella perfia de maneira , que o ' 



craieao 

o 



108 ÁSIA de JoÃo de Barros 

ficou per todas partes cercado , e dos bai- 
léus faltaram os Mouros dentro , ferindo al- 
guma gente : quando Manuel Pacheco acor- 
dou daquella modorra que tinha , foi o pri- 
meiro que os Mouros mataram ás frecha- 
das , fcm elle ter arma na mão com que 
fe defender. O mefmo aconteceo aos ou- 
tros , que eftavam na própria cegueira. Os 
que fe puzeram em defensão , eram tão pou- 
cos em refpeito do grande número dos ini- 
migos , que quafi todos morreram a . O ga- 
leão foi aprefentado a EIRey com muita 
feita , que para os cativos que eftavam ef- 
perando lua redempçao foi a mefma mor- 
te , e então entenderam que o bom trata- 
mento que lhes dantes fizeram era para 
aquelle fim. 

O tyranno como vio que por fabricar 
aquella maldade havia de ficar perpetuamen- 
te em noílb ódio , affentou pazes com EI- 
Rey de Aní , com fundamento que com 
feu favor, e com ajuda de outros Mouros 
vizinhos , com que naquelle tempo eftava- 
mos de guerra , podia tomar Malaca. Efta 
pertençao lhe facilitava hum Mouro honra- 
do de Malaca , por nome Sinaia Raja , que 
acerca dos Malaios tinha muita authorida- 

de , 

a Os que efeapáram vivos foram levados cem o galeão 
a E/Rcy , que os mandou matar, e aos outros Portugue* 
zes da galé âe Simão de Sottfa , que tinha cativos. Fernão 
Lopes de Caítanbeda cap. 99. do tiv. 7. 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XVIII. 109 

de , com quem efte Rey de Achem fe car- 
teava 3 e por cujo confelho , e inftrucçao 
tomou o galeão per aquelle engano ; o qual 
lhe mandou dizer , que bufeava tempo pa- 
ra lhe dar nas mãos a fortaleza de Mala- 
ca , como lhe dera o galeão , e a galé. E 
correo muito rifeo de fer aíH , fe a couía 
fenao deícubríra por os mefmos Malaios. 
Porque andando muitos Mouros de Achem 
de Armada ao longo da coita de Malaca a , 
ajuntáram-fe alguns Malaios com os Achens, 
onde chamam o Tanque , e alli fizeram Iium 
banquete , em que os Achens > depois de fe 
efquentarem com o vinho , contaram aos 
Malaios como por inftrucçao de Sinaia , El- 
Rey de Achem tomara o galeão , e como 
mandara matar no mar fecretamente o Em- 
baixador de Pêro de Faria para mais diffi- 
mulaçao , e tinham concertado de tomar a 
fortaleza em hum certo dia , ao tempo que 
Garcia de Sá eíliveíle na Igreja com toda 
a gente. Difto foi logo avifado Garcia de 
Sá per alguns daquelles Malaios , que eram 
feus amigos , e aííentou de matar Sinaia 
com o menos alvoroço que pudeíTe fer. Po- 
lo que logo o mandou chamar , e vindo 
com hum leu enteado por nome Tuam Ma- 
hamed > e dando-lhe razão do que tinha fa- 

bi- 

a Fernão Lopes de Caftanheda no cap. 10. ão 1iv. 7. 
e Diogo do Couto no cap. 7. do Uv. 5. 



no ÁSIA de Joi\o de Barros 

bido da fua traição , lhe mandou atar as 
mãos atnís, c lancallo da torre de homena- 
gem abaixo , e affi foi morto. A Tuam 
Mahamed quenáo tinha culpa coníblou , e 
acompanhado o mandou para fua cafa , o 
cjual com fua mái , e com toda ília fazenda 
o mais fecretamente que pode fe fahio de 
Malaca , e fe foi para EIRey de Ujantana. 
Os Malaios ficaram efpantados , e compa- 
ravam aquelle caio ao de Utirnuta Kaja , 
em tempo de ArFonfo d'Alboquerque , e di- 
ziam , que os Portuguezes fabiam muito , 
que não fe lhes efeondia nada. Edeíla mor- 
te de Sinaia Raja ficou EiRey de Achem 
muito triíte , por fe defeubrir o que tinha 
feito j e o que pertendia fazer. 

CAPITULO XIX. 
Como Gonçalo Pereira indo a Maluco 
viandou vi fitar a EIRey de Borne o : e co- 
rno chegando a Ternate , a Rainha lhe man- 
dou pedir juftica de D. Jorge de Mene- 
zes , e que foltajjè feu filho. 

GOnçalo Pereira ", que EIRey D. João 
mandou deite Rcyno provido da capi- 
tania de Maluco , havendo de fazer fua via- 
gem , o Governador Nuno da Cunha lhe 

deo 

a EJle Capitulo , e os dons feguintes , e o Capitulo vin- 
te e quatro , fe ampliaram quanto pareceo necejjario , por 
deixar ,João de Barros ejerita a fubjiamia deUes em mui 
poucas regras* 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XIX. iir 

dco regimento , que de Malaca fizeííe íeu 
caminho pela Ilha de Bornco , para de fua 
parte vifitar a EIRey, e tomar alli alguma 
mercadoria neceíTaria para Maluco. E par- 
tindo cllc de Malaca em Ágofío de IJ30, 
e fazendo teu caminho per entre muitas 
Ilhas , chegou ao porto da Cidade de Bor- 
neo , da qual como mais principal íe deno- 
mea toda a Ilha , e logo mandou hum pre- 
iente a EIRey per Luiz de Andrade , -que 
hia por Alcaide mór da fortaleza de Ter- 
nate 3 e dizer-lhe , que EIRey de Portugal, 
e o íeu Governador da índia o manda- 
va alli para o fervir no que lhe mandaííe , 
porque defejava muito fua amizade, e que 
feus vaíTallos foílem tratar a Malaca , co- 
mo hiam d'antes , onde feriam mui bem re- 
cebidos , e tratados , e que os Portuguezcs 
foíTem a feus portos , e tiveflem nelíes com- 
niercio. Com o recado do Governador mof- 
trou EIRey muito goílo , e refpondeo a el- 
le com muitas palavras de agradecimentos , 
e oferecimentos de fua amizade , e de fazer 
tudo o que fe lhe pedia ; e defpachado em 
breve Luiz de Andrade , mandou, com elle 
dous Mandarijs viíitar a Gonçalo Pereira , 
e levar-lhe hum prefente. 

Era efte Rey de Borneo na feita Mou- 
ro , como também eram os feus , rico , e 
poderofo, e que fe fervia com grande eira- 
do ^ 



ii2 ÁSIA de João de Barros 

do ; tinha hum Governador , que por elle 
regia o Reyno , a que em fua lingua cha- 
mam Xabandar. Sao os daquclla Ilha gente 
baça, mas bem diipoftos , no trajo dos vef- 
tidos , e lingua são como os Malaios. He 
terra mui abadada de carnes , arroz , e ou- 
tros muitos mantimentos , e de mercadorias 
da terra de muito preço. Nafcem nella pe- 
las praias do mar junto da Cidade de Tan- 
japitra diamantes mais finos , e de maior va- 
lia que os da índia A , e per toda ella naf- 
ce a verdadeira cânfora em arvores , como 
na Europa nafce a refina , e eíla he a que 
na índia tem grande preço , que a que lá 
vai âà Períia he falfifícada *. A Cidade de 

Bor- 

a Em duas partes da Judia fe acham "Diamantes , em 
Bifnagã , e no Decan na terra de hum Senhor Gentio , 
perto do Eftado do Madre Maluco. Em Bifrmgà ha duas , 
cu trcs rocas , ou minas deííes , e no Decan huma t que 
chamam a Roca velha , cujos diamantes são melhores , pojlo 
que tia o tão grandes como os de Bifnagã. Efes de Tanja- 
pttra na Ilha de Bomeo são de muita e/lima por fua per- 
feição , como diz. João de Banos , mas pézão muito. Criam- 
Je nejlas rocas os diamantes em efp.aço de três ânuos. Os 
Arábios , e Mouros lhe chamam Almaz ■ os Gentios de Bif- 
tutgâ , e Decan , Irá: e os Malaios, Itam. Não fe ah r an- 
da , nem fe lavra o diamante com fatigue de cab'ão , não 
tira a virtude á pedra de Cevar , com qualquer martello , 
e pouca força fe quebra , e os fcus pôs não são peçonha , 
nem matam, contra o que efcrevem Authores graves, e a 
vulgar opinião. Garcia ifOrta no livro dos Jimples , e dro- 
gas da índia , Col/oquid 43. 

b A Cânfora , a que chamam es Arábios Capur , e Ca- 
fur , he huma goma de arvores grandes , altas , e efpaçofas 
da feição da Nogueira , que tem a folha branca como a d<t 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XIX. 113 

Borneo hc grande , cercada de muro de la- 
drilho , de nobres edifícios , onde os Reys 
refidem , e tem huns paços fumptuofos. Ha- 
bitam cm Borneo, Lave, Tanjapura , Mo- 
duró , Cerava portos principaes defta Ilha , 
muitos , e mui ricos mercadores , que tratam 
em Malaca , Samatra , Sião na China , c 
outras partes , a que levam diamantes , cân- 
fora , páo de aguila , e mantimentos , e hum 
vinho que chamam Tampor , que he o me- 
lhor que ha entre os artificiaes. 

Daquella Cidade partio Gonçalo Perei- 
ra , deixando EIRey muito amigo , e che- 
gou a Ternate em Outubro do anno de 
ijjo. D. Jorge de Menezes quando foube 
que Gonçalo Pereira hia provido da capita- 
nia de Ternate por EIRey , e que levava 
comíigo Lionel de Lima , que era feu ini- 
migo , temeo que per elle feria mexericado 
com o Governador , e fe deo por prezo ; 
e para não ficar tão aífrontado , fe o foífe , 
Tom.IF.P.iL H fa- 

Salgueiro , e a madeira como a da Faia. Acha-Jè na Chi' 
na , e em Borneo : ejia não fe traz á Europa por haver 
delia mui pouca y e Jer dos Borneos tão eftimada , que vai 
huma libra delia quanto vai hum quintal da Cânfora da 
China. EJla vem á Europa em pães , que péza cada hum 
delles quatro onças , e a de Boi neo he toda em grãos apar-> 
tados por huma jueira de cobre , per que fe jueira 0. Aijo* 
far , e o maior delles pha hum adarme. Também fe acha 
Cânfora em Pacem , e em Bairros perto de Malaca. Gar- 
cia ifOrta Colloquio 11, e Chriftovão d 7 Acoíla no tratada 
das Drogas , cap. 3 j . 



H4 ÁSIA de JoÃo de Barros 

falando receber a Gonçalo Pereira , depois 
de lhe entregar a fortaleza , e as chaves 
delia , e a EIRey Cachil Daialo , tomou 
na mão huns guiihóes , que lhe levava hum 
criado debaixo da capa, e diííe a Gonçalo 
Pereira , que íe tinha neceíTidade daquelles 
ferros para lhos lançar, alli os trazia , eef- 
taria mui obediente para os receber. Ao 
que refpondeo Gonçalo Pereira , que dlQ 
não vinha para o anojar, fenao para o fer- 
vir no que pudeííe , cumprindo a obrigação 
de feu cargo. Com ifto entraram na forta- 
leza , onde D. Jorge banqueteou a Gonça- 
lo Pereira , e deixando-o nella , fe foi para lua 
poufada , que já tinha fora delia. 

Tanto que a Rainha foube da vinda de 
Gonçalo Pereira , ella , e os Mandarijs que 
com ella fe fahírarn da Cidade , lhe man- 
daram hum Mandarin , homem prudente, 
e que bem fallava a língua Portugueza , o 
qual lhe fez hum grave razoamento fobre 
as grandes injurias que os Portuguezcs lhe 
fizeram , recontando juntamente os benefí- 
cios que dos Ternates receberam , recolhen- 
do-os elles com muito favor , e amizade 
por a fama que delles havia de esforço , e 
juftiça ; pelo que EIRey Boleife lhe deo fi« 
tio para fazerem fua fortaleza , fem outro 
intereííe mais que o goíto da fua amizade. 
E que em pago deitas boas obras , a mu- 
lher , 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XIX. ny 

lher , c filhos do mefmo Rey , e feus va£ 
iallos , vieram fer tão perfeguidos dos mef- 
mos Portuguezes , que deixadas fuás cafas 5 
e a terra em que nafcêram , foram bufear 
outras ; de maneira , que cuidando que met- 
tiam amigos comíigo , fe acharam com ini- 
migos , e como taes os trataram. Porque 
aEIReyBohaat filho maior do mefmo Rey* 
Boleife , que os agazalhou , contra direito 
da hofpitalidade, que todas as gentes, por 
feras , e barbaras que fejam , reconhecem , 
fendo moço , e innocente , o prendeo An- 
tónio de Brito fem caufa ; e depois fuece- 
dendo D. Garcia Henriques , não o quiz fol- 
tar , e D. Jorge de Menezes profeguio na 
prizão do dito Rey té que morreo nella. 
E para que fempre tiveífe prezo hum Rey 
de Ternate, morto Bohaat, prendeo a EI- 
Rey Cachil Daialo feu irmão , íèm mais 
culpa que haverem agazalhado os Portugue- 
zes. Do qual D.Jorge receberam tantas in- 
jurias , que não as podendo foffrer, muda- 
ram a terra , e o eílado , porque a Cachil 
Vaidua tio d'ElRey , e Caciz mor, depois 
de D.Jorge o prender por huma coufa tão 
vil como he huma porca , fendo do fangue 
Real , e de tanta dignidade , por menos pre- 
ço de fua peífoa lhe untaram feu rofto 
com huma pofta de toucinho , por fer car- 
ne entre elles abominável, o que foi injúria 

H ii qpra- 



u6 ÁSIA de João de Barros 

commutn de todo o povo , por fer contra 
os preceitos de fua Jei , e para lhe nao fal- 
tar género de crueza , que nao fízefTe , íèn- 
do o Regedor de Tauona homem de tanta 
eftima , e authoridade , o mandara o mefmo 
D.Jorge com as mãos atadas deitar a feus 
cães , que com efpanto dos que o viram 
morrer a huma morte cruel , e para magoar 
a feus mcfmos inimigos. E que fobre efte > 
e outros muitos excellbs que fizera, matara 
a Cachil Daroez irmão d'ElRey , e Gover- 
nador do Reyno , e a peílòa principal del- 
le , que tanto fizera por os Portuguezes fe 
confervarem em Ternate , donde per mui- 
tas vezes foram lançados fe os elle não de- 
fendera. E que temendo a Rainha , e os 
nobres do Reyno , que também mataíle a. 
clles , fe aufe.ntáram da terra. Polo que a 
Rainha , e os Mandarijs fe mandavam quei- 
xar a elle Gonçalo Pereira , e pedir-lhe lhes 
fizefle juftiça de D. Jorge de Menezes , e 
lhes déífe Teu Rey para os governar 7 e man- 
ter em juftiça , e para o cafarem , e haver 
filhos que lhe fuccedeíTem. E a Rainha par- 
ticularmente lhe pedia com grande inftancia 
lhe deixaíTe lograr feu filho eífes poucos dias 
que havia de viver , pois não tinha outro , 
e o maior lhe tiveram na prizão té á mor- 
te ; fem haver delinquido. 

Ouvido o Embaixador , Gonçalo Perei- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XIX. 117 

ra poz em confelho a íbltura d'EiRey , em 
que houve diíFerentes pareceres. Huns ti- 
nham , que lhes não cumpria íbltallo , por- 
que a Rainha , e os Mandarijs íentíram mui- 
to a prizao d'ElRey , a fora os mais aggra- 
vos que lhes eram feitos , de que muito fe 
efcandalizáram ; e que como tiveflem folto 
EIRey , fe levantariam para fe vingarem 
dos aggravos paliados , e evitarem outros 
de futuro. Outros difleram , que antes para 
os delaggravar , e apaziguar fe devia fol- 
tar EIRey, porque fe Gonçalo Pereira con- 
tinuaííe na prizao d'ElRey , cuidariam que 
todos os Capitães lhes prenderiam feus Reys , 
e os haviam fempre de aggravar, e como 
defefDerados trabalhariam de lançar fóra os 

1 o 

Portuguezcs , que eram tão poucos , que nao 
poderiam reliílir aos Mouros fe fe ajuntal- 
íem em huma vontade , o que eftava certo 
fer , ainda que entre íi eíliveíTem difcordes , 
por fer contra Chriftãos inimigos de fua lei , 
que os queriam dominar , e opprimir , e que 
em fim nenhum Império violento era mui- 
to durável , e a longa paciência dos males , 
que aquelles padeciam , tantas vezes offendi- 
da , fe lhes tornaria em furor. E que fe vif- 
íem que elle Gonçalo Pereira lhes foltava 
feu Rey , e não perfeveravam nas fem ra- 
zões dos Capitães paliados , creriam que en- 
tre os Portuguezes havia homens humanos , 

e cle~ 



n8 ÁSIA de JoXo de Barros 

e clementes , de quem podiam efperar boa 
vizinhança , e bom tratamento , e aíli lhes 
ganhariam as vontades , e teriam a terra pa- 
cifica , e quieta. Efte parecer contentou a 
Gonçalo Pereira ; mas aífentou-fe , que a fol- 
tura d'ElRey íè dilatalTe com algum pretex- 
to honeílo té fe acabar a fortaleza para 
fegurança dos Portuguezes. E aíli a refpof- 
ta que o Capitão deo ao Embaixador da 
Rainha , foi , que era contente de foltar a 
EIRey feu filho , e lho entregar, e fazer- 
lhe a vontade em tudo o poííivel , que aíli 
o queria EIRey de Portugal , e lho manda- 
va o Governador , e que lhe pedia muito , 
que logo fe tornaíTe com feus Mandarijs 
a Ternate , e que eíliveíTe na amizade que 
antes tinham. 

A Rainha não fe aquietou com efta ref- 
pofta , mas replicou que lhe déííe primeiro 
feu filho , e então fe iria para a Cidade. E 
havendo fobreifto muitas altercações de par- 
te a parte , por remate delias fe afíentou , 
que EIRey fe entregaíTe como os navios par- 
tiíTem para a índia , e que Gonçalo Pereira 
juraíTe de o cumprir aíli , o que fez nas 
mãos do Vigário fobre huma Cruz, fendo 
prefentes osOfficiaes da fortaleza, eosprin- 
cipaes Mandarijs de Ternate. Com efta pro- 
meíía , e juramento fizeram os Ternates gran- 
de feíla por a efperança da liberdade de 

feu 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XIX. 119 
feu Rey , e a Rainha com feus Mandarijs 
fe tornou logo á Cidade. Gonçalo Pereira 
mandou vifitar a Rainha com hum bom prc- 
fente , e os Mandarijs principaes com ou- 
tros , e recado que folgaria de os conhecer ? 
e fervir , pedindo-lhes que o foliem ver a 
fortaleza. Aos quaes indo lá fez muita hon- 
ra, egazalhado, e por contentar a Rainha , 
veítio a EIRey de veludo de cores á Por- 
tugueza , e com certos Portuguezes que lhe 
ordenou para fua guarda ,Jezrque o levaf- 
fem pela Cidade a fe defenfadar , do que 
todos fe alegraram , parecendo-lhes que Gon- 
çalo Pereira cumpriria feu juramento , a quem 
moítravam ter amor. A efte contentamento 
fe accrefcentou fazer-lhes Gonçalo Pereira 
hum Governador do Reyno á vontade da 
Rainha , e dos Mandarijs , que fe chamava 
Cachil Ato , da geração dos Reys. Nefte 
mefmo tempo ,' por fe queixar EIRey de 
Tidore , que não podia pagar as páreas do 
cravo que lhe D. Jorge de Menezes ímpu- 
zera , porque não lhe ficava de que fe man- 
ter ] lhas' levantou Gonçalo Pereira té vir 
recado de Nuno da Cunha , por o que fi- 
cou muito feu amigo , e também ratificou 
as pazes com Fernando de la Torre Ca- 
pitão mor dos Caftelhanos , mandando-o el- 
le vifitar da boa vinda. 

CA- 



120 ÁSIA DE JoÁO DE BARROS 

CAPITULO XX, 

Como Gonçalo Pereira prendeo a Dom 
'Jorge de Menezes , e o mandou prezo d 
índia , e executou hum regimento que o Go- 
vernador lhe deo fobre a compra , e venda 
do cravo : e como a Rainha de Ternate o 
mandou matar. 

\7"Endo Gonçalo Pereira a terra aflbce- 
gada , e em paz, moftrando huma car- 
ta do Governador a D. Jorge, em que man- 
dava lhe tomaíTe a homenagem , e prezo fo- 
bre ella fe foíTe aprefentar ante elle na ín- 
dia , e tirafle devaffa do tempo que fora 
Capitão de Maluco , lhe tomou a homena- 
gem perante os Officiaes da fortaleza , pe- 
dindo-ihe perdão , e defculpando-fe de não 
poder ai fazer , por lhe fer mandado. Quan- 
do os Portuguezes viram a- prizao de Dom 
Jorge , feita com tanta quietação , e filencio , 
os que de íi iàbiam culpas , recearam de fe 
tratar delles , e muito mais quando ao Fei- 
tor, e a outros Officiaes paliados recenleá- 
ram fuás contas. E per eíla viíita que fe 
fez dos Officiaes , fe vio quão diííipada an- 
dava a fazenda d'ElRey ; mas Gonçalo Pe- 
reira diííimulou então com tudo , por não 
haver outra gente para guarda da fortaleza. 
E como eíles foram defenganados que aquel- 

le 



Década IV. Liv. VI. Cap. XX. 121 

lc anno não haviam de ir á índia , mandou 
apregoar o regimento que levava de Nuno 
da Cunha íbbre o cravo, que na fubftancia 
era o mefmò que D. Jorge de Menezes le- 
vava quando foi a Ternate , do que fe cau- 
fou grande efcandalo nos Portuguezes , e 
nos Mouros ; neftes por fe lhes tirar a li- 
berdade de venderem fuás novidades , co- 
mo , e a quem quizeílem ; e nos Portugue- 
zes , por lhes defender comprar aos Mou- 
ros , e ficarem neceílitados comprarem da 
mão dos Offieiaes d'ElRey per certo pre- 
ço , fem lhes ficar o ganho que antes ti- 
nham. Mas como per a difeordia que fem- 
pre havia entre o Capitão que entrava , e 
o que fahia , fe tratavam as coufas de ma- 
neira , que eíle regimento fe não executava , 
vendo elles que por efta caufa fe não dei- 
xaria de executar pela amizade , e confor- 
midade que havia entre Gonçalo Pereira , e 
D. Jorge , determinaram de metter entre el- 
les tal zizania , que entendendo em íi , fe 
defcuidaíTem dos outros , e da execução do 
regimento. Affi o fizeram , e com tanto ar- 
tificio tramaram efta tea , que vieram Gon- 
çalo Pereira , e D. Jorge a grande ódio , e 
a temer- fe cada hum do outro. Polo que 
quando veio Fevereiro de 153 1 , tempo pa- 
ra partir para a índia , entregou Gonçalo 
Pereira prezo D. Jorge de Menezes a Lio- 

nel 



122 ÁSIA de João de Barros 

nel de Lima , a quem deo as devaíTas que 
tirou , e carta para Nuno da Cunha , a quem 
também a Rainha de Ternate efcreveo per 
dous criados que a iflb mandou , pedindo- 
lhe juítiça de D. Jorge. Elle foi ter á ín- 
dia , e Nuno da Cunha o mandou a Por- 
tugal , onde foi condemnado em degredo 
para oBraíil, enellemorreo pelejando con- 
tra o Gentio. E efte foi o primeiro caftigo 
dado per culpas daquellas partes , fendo efte 
Fidalgo hum dos principaes que na índia 
mercceo outro galardão. 

Gonçalo Pereira como fe vio defemba- 
raçado com a partida de D. Jorge de Me- 
nezes , entendeo com muita diligencia em 
acabar a obra da fortaleza , de que os Ca- 
pitães paliados fe defcuidáram *. Também 
executava a pragmática do cravo com mais 
rigor, do que demandava tão pouco núme- 
ro de Portuguezes em terra tão remota , 
poílos entre tantos inimigos , para o que ha- 
via mifter tellos contentes , e concordes. Po- 
lo 

a Para ejla obra mandou Gonçalo Pereira Luiz de 
Andrade pedir madeira a E/Rey de Tidore , que elle lhe 
deo com boa vontade. E porq-.ie o Regedor de Mequiem ef- 
tava levantado , e não queria pagar as páreas que D. Jor- 
ge lhe pudera , mandou Gonçalo Pereira contra elle Vicen- 
te da Fonjeca , e Cachil Ato com armas , e gente. Re- 
gedor fugio para Geilolo , cujo Rey , e Fernão de la Tor- 
re o reconciliaram com o Capitão ; e tornando a [eu Ejla- 
do , pagou as páreas que devia. Francifco de Andrade cap- 
72. da 2. Parte* 



Década IV. Liv. VI. Cap. XX. 123 

Io que indignados com cíles rigores, e inf- 
igados de leu intereíTc , e ganho , que per 
tantos perigos , e tão longa peregrinação 
foram bufear , não fomente defamavam ao 
Capitão, e lhe defejavam a morte, mas lha 
procuravam , para o que perfuadíram á Rai- 
nha , e aos Mandarijs , que fe não mataf- 
fem a Gonçalo Pereira , elle tinha em ten- 
ção deftruir a todos , e que fora eftava de 
foltar a EIRey. 

A Rainha vendo que Gonçalo Pereira 
lhe não foltava feu filho como havia jura- 
do , (o que elle deixava de fazer, por não 
ter acabada a obra da fortaleza , e receava 
que a eílorvaífe a foltura d'EíRey , e que 
tendo-o prezo o ajudariam os Ternates , ) 
creo o que os Portuguezes lhe diziam , e 
determinou de mandar matar a Gonçalo Pe- 
reira. Para ifto lhe pareceo boa occafulo 
eílar EIRey feu filho na fortaleza , e com 
elle feus irmãos , e muitos Mandarijs mana 
cebos que hiam a folgar com dle , e o Go- 
vernador Cachil Ato , aos quaes , pola con- 
tinuação de irem , e eflarem , não bufeavam 
fe levavam armas , polo que as poderiam 
levar fecretas. Vindo o dia da vefpora de 
Pentecoíie daquelle anno de 153 1, em que 
citava aíTentado de matarem a Gonçalo Pe- 
reira , e a todos os Portuguezes , para fe li- 
vrarem do feu jugo, que lhes era mui pe- 

za- 



124 ÁSIA de João de Barros 

zado ; fendo horas de feita , e Gonçalo Pe- 
reira recolhido na fua camará a repoufar , 
Cachil Aro fe foi á fortaleza com Cachil 
Cabalou leu fobrinho , e outros nove man- 
cebos conjurados para aquelle feito. O por- 
teiro conhecendo a Cachil Ato , e fabendo 
que hia muitas vezes áquellas horas a fal- 
lar a Gonçalo Pereira , o deixou entrar , fem 
o bufcar fe levava armas , nem a algum dos 
outros. 

Neíte tempo hia da fortaleza para a Ci- 
dade hum Portuguez , o qual vendo na Mef- 
quita junto da fortaleza gente de armas , 
que alli eítava recolhida para acudir a Ca- 
chil Ato 3 e feus companheiros , parecendo- 
lhe que não era fem algum myíterio , fez 
volta á fortaleza. Os Mouros temendo que 
foíTem per elle defeuberto , fahíram alguns 
ao matar , e andando com elle ás cutiladas , 
huma eferava do Capitão que aílbmou a 
huma janella , e o vio, bradou que mata- 
vam os Mouros a hum Portuguez. Aos bra- 
dos acordou Gonçalo Pereira , e com huma 
eípada , e adarga abrio a porta da camará 
para íàhir fora , e achou Cachil Ato , e os 
mais companheiros com feus crifes arranca- 
dos para o matar j e pofto que Gonçalo Pe- 
reira defendeo a entrada mui esforcadamen- 
te y os Mouros entraram pelo repartimento 
da camará que derrubaram , e com muitas 

fe- 



Década IV. Liv. VI. Cap. XX. 12? 

feridas mataram ao Capitão. Aos mefmos 
brados da cfcrava acudiram feus criados , 
dos quaes hum per nome Diniz de Araújo 
deo com huma chuça pelos peitos aCaclui 
Cabalou , que afli fendo , e atraveffado o 
ferio de maneira , que ambos cahíram mor- 
tos a hum tempo. Iílo fe fez tão de repen- 
te , que os Mouros não tiveram tempo de 
fazer o fignal que eílava entre elles ordena- 
do aos que eftavam eícondidos na Mefqui- 
ta , e nos matos que cercam a povoação 
dos Portuguezes , que foi caufa de fe elles 
falvarem , e a fortaleza , e de ferem mortos 
todos os Mouros que fe acharam dentro, 
tirando EIRey , e três irmãos feus , e Ca- 
chil Ato , para fe faber por elles como fo- 
ra a morte de Gonçalo Pereira , e ficarem 
em arrefens , para os Mouros não fazerem 
guerra á fortaleza , da qual logo Luiz de 
Andrade tomou as chaves , e fe metteo em 
poífe por fer Alcaide mor delia. 



CA- 



I2Ó ÁSIA de JoÂo de Barros 

CAPITULO XXI. 

Como Vicente da Fonfeca foi feito Ca* 
pitão de Tema te pelos inimigos de Gonça- 
lo Pereira ; e por a neceffidade de manti- 
mentos em que o poz a Rainha de Terna- 
te , veio a foltar-lhe feu filho EIRey Ca- 
chil Daialo. 

Ç^ Endo Luiz de Andrade Alcaide mor , e 
O Feitor da fortaleza de Ternate , e tendo 
as chaves , e poíTe delia , e Braz Pereira Ca- 
pitão mor do mar , e parente do Capitão 
Gonçalo Pereira 3 contenderam ambos aquel- 
Je dia do iníulto qual havia de ficar com 
a capitania , allegando cada hum fuás ra- 
zoes. Mas como homens fezudos , que pro- 
curavam o ferviço d'ElRey , concertáram- 
fe , que delles dous foíle Capitão qual per 
mais votos foíle elegido , o que íè deter- 
minaria o dia feguinte , que era do Eípiri- 
to Santo. Tanto que os inimigos de Gon- 
çalo Pereira fouberam da eleição que fe ha- 
via de fazer , ajuntáram-íe aquella noite com 
o Vigai ro da fortaleza , chamado Fernão 
Lopes , que era homem inquieto , e atrevi- 
do , e determinaram de elegerem por feu 
Capitão a Vicente da Fonfeca , que era hum 
delles ; porque fe faziam Luiz de Andrade , 
que era grande amigo de Gonçalo Pereira , 

e exe- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXI. 127 

e executor da pragmática do cravo , fica- 
riam perdidos , pobres , e deílruidos ; e íe 
elegiam Braz Pereira , era peor , por fer pa- 
rente mui chegado de Gonçalo Pereira , que 
havia de querer vingar fua morte , e devaf- 
fã delia , no que elles pa fiariam mal , por 
ferem os que incitavam a Rainha a que o 
mandaíTe matar. Polo que nao tinham ou- 
trem que mais proveitofo Capitão lhes foi- 
fe , que Vicente da Fonfeca , por elle fer o 
principal que contradizia a pragmática do 
cravo 3 e que na morte de Gonçalo Pereira 
fora mais parte que elles. Com a qual elei- 
ção ficariam feguros de devalTas daquella 
morte , e do proveito , e ganho do cravo 
que pertendiam , e elegendo algum dos dous 
oppofitores , eílava certo feu damno , e o 
rifeo de fuás peííoas. 

Juntos ao outro dia Luiz de Andrade, 
e Braz Pereira , e jurado nas mãos do Vi- 
gairo de obedecer cada hum delles ao que 
dos dous foíTe eleito ; e começando o Ou- 
vidor Pêro Moreira tomar os votos , por 
haver alguns a que parecia que a capitania 
per direito era de Luiz de Andrade , por 
fer Alcaide mor , o Vigairo , e os do ban- 
do de Vicente da Fonfeca , temendo que íe 
acabafTe de votar, Luiz de Andrade fahiria 
por Capitão , mettêram a coufa a vozes. Im- 
pedido o Ouvidor com eíte tumulto , fem 

lhe 



128 ÁSIA de João de Barros 

lhe valer muitos proteílos , e requerimentos, 
não defiftfram , e fem deixar ir a eleição ao 
cabo , nomearam Vicente da Fonfcca , e 
todos em hum corpo abriram as portas da 
fortaleza com grande arroido de trombetas , 
e vozes , que diziam : Viva , viva Vicente 
da Foitfcca. O qual depois de hum banque- 
te que deo aos da lua facção , pedio a Luiz 
de Andrade as chaves da fortaleza , que lhe 
elle não quiz dar; e não havendo daquella 
parcialidade quem fe atreveíTe tomar-lhas , 
o Vigairo remetteo a Luiz de Andrade , e 
ajudado de outros homens, e per força lhas 
tomaram, fem o Ouvidor oufar bulir com- 
igo, líto commettêram aquelles Portugue- 
ses , por os mais delles ferem homens ple- 
beos , que áquellas partes tão remotas leva 
o intereíle de trazerem delias aquelle ganho 
do cravo , que fe lhes tirava com o have- 
rem de comprar aos Officiaes d'ElRey , e 
por o preço que ellcs queriam. A eftes def- 
concertos , e outros femelhantes dam cau- 
fa os Miniftros dos Reys mais zelofos de 
fua fazenda , que de ília honra , não en- 
tendendo quanto mais ganham os Prínci- 
pes quando a feus fubditos alargam , e qui- 
tam os tributos , que quando lhos im- 
põem ; e de quantos trabalhos , e rebel- 
lióes foi caufa não lançarem conta qual 
importa mais , fe a receita dos dinheiros, 

ou 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXI. 129 

ou a perda dos corações , e das vontades 
dos vaiTallos. 

A Rainha , que eílava com grandes ef- 
peranças da liberdade de feu filho , e de íua 
Cidade , e ver-fe izenta da fujeição dos Por- 
tuguezes com a rnorte de Gonçalo Perei- 
ra , ficou mui anojada vendo feus intentos 
fruftraçjos , e ÍÒ a confoíou a efperança que 
tinha em Vicente da Fonfeca , que lhe pro- 
mettêra , íe fe viííe Capitão daquella fortale- 
za , lhe entregaria feu rilho. E para fe mais 
fcgurar , mandou logo recado ás Ilhas de 
Moutel 5 e Maquiem , que lhe prendeífem 
todos os Portuguezes que lá citavam. Mas 
quando lá foi feu recado, já os Mouros, 
por terem fabido da morte de Gonçalo Pe- 
reira , fe haviam levantado contra os Portu- 
guezes que lá andavam negociando cravo > 
e mataram alguns , dos quaes o primeiro foi 
aquellc , que no tempo de D. Jorge fez a 
injúria a Cachil Vaidua. E chegado o re- 
cado da Rainha , ceifaram de os matar, e 
prenderam os que acharam , elhos levaram. 
Per hum deíles mandou a Rainha viíitar a 
Vicente da Fonfeca , fignificando o conten- 
tamento que tinha de elle fer Capitão , por 
entender que fempre fora feu amigo, edos 
Mouros , e confiar delle fe haveria melhor 
com fuás coufas do que os Capitães paffa- 
dos o fizeram , e pedindo-lhe cumpriíTe fua 
Tom AV. P.iL I pa- 



130 ASÍ A de João de Barros 

palavra, entregai! d o-lhe feu filho 3 e offere- 
çendo-lhe lua paz, c amizade. Vicente da 
Fonfeca refpondeo a Rainha , que déffe el- 
la primeiro os Portuguezes que tinlia pre- 
zos , e pagaíle a perda que os Mouros ihè 
deram na no fia povoação quando mataram 
Gonçalo Pereira , e que elie lhe daria íèu 
filho. A Pvainha que efpcrava outra refpof- 
ra de Vicente da Fonfeca , por a promefía 
que lhe fizera , ficou mui eícandalizada , e 
foltando hum Portuguez , lhe mandou por 
elle dizer , que fem aquelias condições lhe 
devera elle logo foltar leu filho , porque 
maiores penhores eram para aquelias perdas 
três irmãos cPElRey , e Cachil Ato , que 
lhe ficavam prezos em feu poder ; e que fe 
aquillo lhe mandava dizer com tenção de 
lhe não dar EIRey , lhe não mandaííe mais 
recado algum , e anojada íepaíTòu com feus 
Mandarijs a huma Villa que chamam Li- 
matao , e defendeo com grandes penas que 
não ievaffem mantimentos a Cidade. Com 
a falta de mantimentos que começou haver, 
fe vio Vicente da Fonfeca mui atribulado, 
não achando remédio , fó tinha efpe rança 
em hum junco , que havia de vir de Banda 
com roupa , e mantimentos. Mas hum Fran- 
çifco de Sá , que delle era Capitão, che- 
gando a Ternate , e ouvindo a maneira per 
cjue Gonçalo Pereira fora morto, parecen- 
do- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXI. 131 

do-lhe que Vicente da Fonfeca era levanta- 
do , nao quiz ir á fortaleza , temendo-fe 
que lhe tomafle o junco , polo que fe foi 
a Tidore para vender , e fazer emprego 
do que levava. Eíhndo naquelle porto, a 
Rainha de Ternate mandou pedir a ElRey 
de Tidore feu fohrinho , que fizeffe repreza 
naquelle navio , e na fazenda delle , e nas 
peíToas dos Portuguezes que nelle vinham , 
parccendo-lhe que poraquella preza, epor 
os Portuguezes que ella tinha , lhe daria feu 
filho Vicente da Fonfeca , a quem mandou 
dizer a razão por que fizera tomar aquelie 
navio , e gente. Mas Vicente da Fonfeca 
a reípoíta que a iílo deo , foi prender a El- 
Rey , e mtetello em hum fotao per ante o 
meífageiro da Rainha , e com elle feus ir- 
mãos , e em ferros os mancebos Fidalgos 
que com ElRey eftavam , e as mulheres que 
os ferviam. E confrangido da muita necef- 
íidade que a gente padecia , mandou pedir 
a ElRey de Geilolo que por feu dinheiro 
mandaíTe que em fua terra lhe deffem man- 
timentos. Com eíla occaíião ElRey de Gei- 
lolo , e Fernão de la Torre que lá eftava, 
acabaram com Vicente da Fonfeca que dé£ 
fe á Rainha feu filho , e com a Rainha que 
foltaíTe os Portuguezes , e déíTe arrefens a 
Vicente da Fonfeca té lhe fatisfazer os da- 
■mnos , que eram feitos aos Portuguezes 5 

I ii pa- 



igi ÁSIA de JoÁo de Barros 
para o que deo quatro Mandarijs dos prin- 
cipacs de Ternate. EIRey de Tidore man- 
dou iòltar Franciíco de Sá, e os mais Por- 
tuguezes , e rcftituir-lhe o feu junco. E na 
Villa deLimatao, onde a Rainha eítava , íe 
ajuntaram Fernão de Ja Torre, e o Gover- 
nador de Geilolo , e Vicente da Fonieca , 
que levou EIRey para o entregar a fua 
mái , depois de jurarem de cumprir o que 
tinham aflentado , e logo EIRey foi (oito 
com grande prazer de todos , e afíi ficaram 
em paz. 

CAPITULO XXII. 

Como Patê Saravgue Regedor de Ter- 
nate , com ajuda de Vicente da Fonfeca , 
fez que Cachil Balaio fojfe defpojado de feu 
Reyno , e pofio em feu lugar Tabarija feu 
irmão : e como fizeram que a mai de Ta- 
larija cafafe com Patê Sarangue , e a mu- 
lher de Cachil Daialo fugijje ao marido 
para cafar com Tabarija. 

A Grande foltura que os Mouros viam 
naquelies poucos Portuguezes que na 
Ilha de Ternate eítavam , e quão pouco caf- 
tigo haviam por os excedes que faziam, e 
a pouca reputação em que os Reys eítavam , 
lhes deo caufa de tentarem coufas novas , 
mormente na capitania de Vicente da Fon- 

íe- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXII. T35 

fica, homem audaz, que não receava di- 
zer, e fazer o que queria. Polo que fe or- 
denou outra rebelliao contra a pefToa d'El- 
Rey , como a que fe fez contra Gonçalo Pe- 
reira. Havia em Ternate hum Mandarim 
per nome Patê Sarangue , homem velho, e 
iabedor , e que acerca do povo tinha mui- 
ta authoridade , a que Vicente da Fonfeca 
fez Regedor do Reyno , por o ter de fua 
mão em quanto EIRey Cachil Daialo não 
governava por fua menor idade. Efte por 
ver que EIRey fe hia chegando a fua legi- 
tima idade para governar feu Reyno , e que 
feu cargo de Regedor expirava , como ho- 
mem ambiciofo que era , determinou de ti- 
rar o Reyno a Cachil Daialo , e dallo a 
hum feu irmão bafíardo per nome Cachil 
Tabarija a , moço de quatorze annos , para 
elle entretanto governar por elle té fer de 
idade devida. Dando conta defte penfamen- 
to a Vicente da Fonfeca , e propondo-lhe 
os proveitos que fe \1\q fegu iriam , e quão 
mais abfoluto feria no que quizeífe , não 

ícn- 

a Tabarija era filho legitimo d^ElRev Boleife t irmão 
inteiro dos Reys Bohaat , e Daialo , e filhos todos três da 
Rainha Neachile Poça ruga filha d 1 EIRey Almanfor de 
Tidere , como confia do tefiamento de Tabarija , que efid 
regi fiado nos contos de Goa. A(fi o efereve o P. João de 
Lucena no cap. 6. doliv. 4. donde trata da conversão defie 
Rainha Neachile mui de Tabarija per meio da doutrina , 
£ orações do B. P. AI. Francifco , a que no Baptifino elle 
poz, nome ljabel f 



T34 ÁSIA de João de Barros 

fendo CachilDaialo Rey , não houve mui- 
to que fazer em Vicente da Fonfeca appro- 
var o coníelho iníligado de avareza , e am- 
bição , e do ódio que elJe tinha áquelle Rey , 
ou receio que ElRey lho tiveííe a elle por 
o haver prezo , c maltratado. Havido eíts 
confentimento , com ajuda de hum Trava- 
ndo , homem velho , aviíado , e de muita 
authoridade , começou Patê Sarangue a or- 
dir a traição , defacreditando primeiramente 
a peíToa d'E!Rey , e difFamando delíe , não 
fomente em Ternate , mas em os outros lu- 
gares de feu Eítado , que era homem no 
faber mui fraco , e na condição mui forte , 
e não para governar , affacando-lhe além 
diíTo outras muitas faltas , per que fizeram 
crer a muitos que não era hábil para Rey , 
e que deviam privallo do Reyno 5 e levan- 
tar em feu lugar a Tabarija feu irmão. 

Não parando aqui , foram grandes as 
perfecuçoes que Patê Sarangue , e Vicente 
da Fonfeca faziam a ElRey , e os fallbs 
tefiemunhos que lhe levantavam. E qualquer 
homicidio 3 ou delido de que fe não fabia 
author % que foífe feito contra Portugue- 
zes 3 tudo carregavam fobre ElRey, e lho 
davam em culpa , fendo diíTo innocente. Po^ 
Io que Vicente da Fonfeca defejava de tor- 
nar ElRey á prizão , e o fizera y fe ElRey 

não 

a Fernão Lopes de Caíhnheda cap. 56. do íiv. 8. 
•4 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXII. 13? 

nao fe guardara de ir á fortaleza. E vendo 
que o nao podia prender , determinou de 
o matar com confelho de Patê Sarangue; 
o que lendo dcícuberto a EIRey , por fur- 
tar o corpo a tantos trabalhos , fe foi com 
lua mai a Turutó meia légua da Cidade. 
E fabendo que Vicente da Fonfeca nao de- 
finia de feu máo propofito, fefoi mais lon- 
ge onde chamam a Terra alta. Vicente da 
Fonfeca fazendo difto culpa , e publicando 
que ElPvey fe fora á Terra alta para dalli 
fazer guerra á fortaleza , o foi bufear com 
muita gente ; c podendo- fe EIRey defen- 
der , por nao fer oífenfa a Portuguezes , com 
quem fe creára , e a que era mui arfeiçoa- 
do , e mui leal a EIRey de Portugal , lhes 
fugio , pondo a cura deites males nas mãos 
do tempo , e efperando que fe acabaífe a 
fúria a Vicente da Fonfeca , ou o tempo da 
fua capitania , e aííi fe paífou a Tidore com 
fua mai , onde EIRey feu primo , e já cu- 
nhado 5 o confolou , e prometteo de traba- 
lhar por o reconciliar com Vicente da Fon- 
feca ; e que também efereveria aos Reys de 
Bacham , e Geilolo que o ajudaflem niíTo , 
com as quaes palavras , e promeífas ficou 
com alguma efpe rança. 

Mas feus inimigos nao quizeram mais 
que vello fora da Ilha , para levantarem por 
Rey a Tabarija. E para mais confirmação 

da- 



136 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

daquelle levantamento , andaram com Ta- 
barija ao Jongo da coita pelos lugares del- 
ia, publicando-o porRcy levantado, e por 
deporto a Cachil Daialo , dando por cauia 
daquelle levantamento fer Cachil Daialo com 
a Rainha íuamãi culpado na morte de Gon- 
çalo Pereira , e não ter qualidades de íua 
peíTba para fer Rey. E receando Patê Sa- 
rangue que , com o favor d'ElRey de Ti- 
áore , Cachil Daialo tornaífe a cobrar feu 
Reyno , fez com Vicente da Fonfeca que 
com huma groíTa Armada folie íobre EI- 
Rey de Tidore, o que elle mui em breve 
fez ; e chegado a Tidore , mandou dizer a 
EIRey as caufas acima ditas , porque elle , 
e os feus privaram do Reyno a Cachil Daia- 
lo , e levantara por Rey a Tabarija ; e que 
por Daialo fer inimigo dos Portuguezes , 
era elle Vicente da Fonfeca vindo alli a re- 
querer-lhe que lho entregafle , e o thefouro 
que levava comíigo , que era do que foííe 
Rey , e não feu ; e que não o fazendo , o 
havia por inimigo d'E!Rey de Portugal , 
pois lhe agazalhava , e favorecia feus ini- 
migos. EIRey de Tidore que era moço , 
lhe refpondeo , que fe aconfelharia com os 
feus , e lhe daria a refpoíla. Vicente da Fon- 
feca fem efperar por ella , com a fúria que 
levava , fahio em terra fobre a Cidade de 
Tidore , e fez nella grande deítruiçao , ma- 

tan- 



Dec. IV. Liv. VI. Cpa. XXII. 137 

tando muita gente, com queElRey, eCa- 
chil Daialo fe acolheram a huma ferra que 
eftava ibbre a Cidade , e com efta vitoria 
de pouca honra fua fe tornou Vicente da 
Fonfeca a Ternate. 

Eftava nefte tempo prezo na fortaleza 
de Ternate hum Mouro principal Regedor 
de Toloco , o qual vendo as grandes lem 
razoes que íe faziam a Cachil Daialo , e 
quão injuftamente pela maldade daquelles 
homens era defpojado do Reyno , deíejan- 
do de vingar o mal que lhe era feito , de- 
terminou de matar a Tabarija que eílava na 
mefma fortaleza , a quem arremettendo com 
hum cutello que trazia cícondido , efcapou 
Tabarija fugindo ; e não o podendo alcançar 
o Regedor, por eftar carregado de groílòs 
ferros , alcançou hum filho de Vicente da 
Fonfeca , moço de fete annos , e o degol- 
lou , vendo que fe não podia vingar de quem 
quizera , e acudindo gente , o mataram. Vi- 
cente da Fonfeca que com a morte de feu 
filho ficou mais encruado , e indignado con- 
tra Cachil Daialo , e porque muitos dos 
principaes de Ternate não queriam obede- 
cer a Tabarija , e por defprezo lhe chama- 
vam o Rey de Vicente da Fonfeca , fez ou- 
tra Armada , e Capitão mor delia a Patê 
Sarangue , com que todos lhe obedeceram , 
e houve o thefouro de Cachil Daialo, que 

et 



138 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

eílava cm mão de Ourobachela feuThefou- 
reiro , o qual foi entregue a Tabarija. 

Finalmente tanta vexação foi a que fize- 
ram a Cachil Daialo, que té EIRey deTi- 
dore feu primo , vendo fuás coufas irem de 
mal em pcior , e as de Tabarija ferem cada 
vez mais profperas , e que Vicente da Fon- 
feca também o perfeguia em ódio de feu 
primo , veio affentar paz com elle. Mas ven- 
do Cachil Daialo que efta paz lhe era a elh 
íufpeitofa , e pouco fegura , por a conver- 
lação que os Portuguezes com EIRey de 
Tidore haviam deter, dos quaes fe não fla- 
va por o que nelles vira os dias paliados , 
que tomava pormcítres dos prefentes , e fu- 
turos , determinou de viver em Geiloio. E 
antes que para lá fe fofle , foi EIRey com- 
mettido de Vicente da Fonfeca , que lhe en- 
tre gaíTe Cachil Daialo. E por não commet- 
ter tão grande traição , e entregar feu pri- 
mo , e hum Rey que fe acolheo á ília caía 
para lhe valer , concedendo-lhe todavia per 
importunação dar-lhe a mãi de Tabarija , 
que andava com a mãi de Cachil Daialo 
para caiar com Patê Sarangue; Não conten- 
te com ifto Vicente da Fonfeca, tratou com 
a Rainha mulher de Cachil Daialo , que 
era irmã d'ElRey de Tidore , que fugiífe 
ao marido , e lhe levaífe o dinheiro que ti- 
nha , e. fe foífe a Ternate , e cafaria com 

El- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXII. 139 

EIRcy Tabarija , e feria Rainha , o que 
nunca havia de íer fendo mulher de Daia- 
lo , que já mais feria Rcy. A Rainha guar- 
dando pouca fé a feu marido , fe foi iecre- 
tamente a Ternate , levando-! he a maior 
parte do thefouro que lhe ficava; e chegan- 
do a Ternate 3 a cafou Vicente da Fonfeca 
com EIRey Tabarija. Alguns diziam , que 
neíle concerto confentio EIRey deTidore, 
por ver lua irmã Rainha , e crer que Ca- 
chil Daialo já não cobraria o Reyno. O 
qual fentio menos perder o Reyno , que a 
mulher, por o amor que lhe tinha: e tam- 
bém fentio levar-lhe o thefouro , porque fi- 
cava vivendo do que pediíTe a outros , ha- 
vendo fido Rey , e rico , que a outros da- 
va , e fem ter com que íiiftentar aquelies 
que o acompanhavam. E como de fua na- 
tureza era magnânimo , não defmaiou coin 
todos feus infortúnios ? nem fe mudou cia 
determinação de ir viver a Geiíolo. E por- 
que fua mãi havia de ficar em Tidore , dei- 
xou com ella aquelies que o acompanha- 
vam , encommendando-lhos muito , e pe- 
dindo-lhes a elles perdão de os não levar 
comfigo , e de lhes não poder fazer mer- 
cês como comi ma v a. E fazendo aíli EIRey , 
como elles grande pranto por o apartamen- 
to , elíe fe partio para Geilolo fó , c tão po- 
bre , que não tinha mais do que lhe EIRey 

da- 



140 ÁSIA de J0X0 de Barros 

dava para comer , onde eíleve , té que tor- 
nou outro tempo , como fc dirá adiante. 

CAPITULO XXIII. 

Como Viceitte da Fonfeca wanâou á In- 
ala prezo a Braz Pereira , e de lá veio 
por Capitão de Maluco Trijlao de Taíde , 
o qual mandou prezo d índia a Vicente da 
Fonfeca : e como Fernão de la Torre , e os 
Caftelhanos fe vieram para os Portugue- 
zes : e da morte d'ElRey de Geilolo. 

SEndo Braz Pereira homem Fidalgo a , e 
parente do Capitão Gonçalo Pereira 5 e 
Capitão mór do mar , como pertendêra a 
capitania da fortaleza de Ternate , que fe 
deo a Vicente da Fonfeca per mera força , 
e não per juftiça , eftava em ódio com elle , 
ao que fe ajuntou pedir-lhe Braz Pereira a 
capitania de hum junco que havia de ir pa- 
ra Malaca , e elle negar-lha por a dar a 
AfFonfo Pires feu amigo. Polo que foffren- 
do Braz Pereira mal não lhe dar Vicente 
da Fonfeca tão pequena capitania , tendo 
ufurpada a da fortaleza, que a elle Braz Pe- 
reira era mais devida , além do efcandalo 
de fer cllc grande parte na morte de feu 
parente Gonçalo Pereira , dalli por diante 
náo fe falláram mais. E de tal maneira fe 

ac- 

a Fernão Lopes de Caítanheda no cap. 5 5. do Uv. 8. 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXIII. 141 

acccndeo o ódio entre elJes, que Braz Pe- 
reira loirou muitas palavras contra Vicente 
da Foníeca , e fez requerimentos que o pren- 
delTem por traidor , por aconfelhar aos Mou- 
ros que mataífem o Capitão Gonçalo Perei- 
ra , eque como a Capitão não legitimo lhe 
não obedecia. Polo que Vicente da Foníe- 
ca prendeo a Braz Pereira , e alguns outros 
da fua valia ; e por fe não haver feguro 
delles, os entregou prezos a Gafpar Velo- 
fo , que hia por Capitão do bargantim pa- 
ra Malaca , para dahi os levarem á índia. 
Os quaes partiram de Maluco no anno de 
15*32, e per elles foube Nuno da Cunha os 
deiconcertos que hiam em Maluco , polo 
que mandou logo por Capitão a Trilião de 
Taíde , filho bailardo de Álvaro de Taíde , 
que chegou em Outubro de 1533 , e d'El- 
ReyTabarija, e de Vicente da Fonfeca foi 
recebido com muito prazer , e muito mais 
de Vicente da Fonfeca , per o aperto em 
que andava em caía com os Portuguezcs, 
e fora com os Geilolos , que lhe faziam guer- 
ra. Mas como elle era malquifto de mui- 
tos , logo foi mexericado delles a Triílão 
de Taíde , dizendo-lhe , que como Vicente 
da Fonfeca foubera que clle chegara , reco- 
lhera em fua cafa quanta fazenda d ? E!Rey 
havia na Feitoria , para fe pagar a fí , e a 
feus amigos de feus ordenados. Por a qual 

no- 



142 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

nova Triftao de Taíde lhe mandou bufcar 
a caia , onde íe achou fer verdade o que 
lhe diííeram , e por iííb o mandou prender, 
e a fazenda foi tomada á Feitoria. Sobre 
efta culpa , e íbbre a morte de Gonçalo Pe- 
reira , e fobre defpojar do Reyno a Cachil 
Daialo, e outros cafos, em que os mais dos 
Portoguezes o culparam , começou Triftao 
de Taíde a devaflar , e pela reíldencia o 
prendeo , e prezo o mandou entregar ao Go- 
vernador da índia por Jordão de Freitas. a 

Efi 

a No principio do governo de Triãão de Taíde duas 
corneóras de Mouros faqueáram , e dejlruíram numa Cida- 
de da Ilha do Moro , chamada Mamo} a. indo de Ter na te , 
•pouco depois dejle ftteceflo , áquella Cidade hum Portuguez, 
chamado Gonçalo Velojo , o Sangag.e delia, [que era Gen- 
tio , como todos Cens vafjalios , ) fe lhe queixou daquelles 
Mouros (eus vizinhos , pedindo-lhe confelho , e ajuda para 
a vingança. Para o que Gonçalo Velojo lhe offereceo a ami- 
zade dos Portuguez.es , com que feguraria jeu E/lado , e o 
peifuadio a que fe fizefje Chriflão. Determinado o Sangage 
de o fer , por as razoes de Gonçalo Velofo , com que Deos 
o move o , embarcoufe em algumas cor ac oras com os princi- 
paes da Cidade , e foi a Ternate , onde Trijiào de Taíde 
lhe fez, hum grande recebimento , e o entregou a hum vir- 
tuojo Sacerdote chamado Simão Vaz para o catechizar , e a 
lodos os fetis ; e como ejiiveram ivflruidos nos Artigos de 
vo(Ja Senta Fé , foram com grande folcmnidade baptizados , 
/ ao Sangage foi pojio nome D. João , e mui contente fe 
tornou para Momoja , levando comfigo alguns Portuguezes , 
aueTriJlão de Taíde lhe de o para o acompanharem y e guar- 
da de fita Cidade , e ao Sacerdote Simão Vaz , que viveo 
vavicíla Cidade algum tempo , exercitando com grande ca- 
ridade o oficio de bom Pajíor daquellas novas ovelhas. K 
porque cilas crefeiam em número , e elle era fá , e não po- 
dia acudtr aos muitos Gentios que pediam o Baptijmo t man- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXIII. 143 

Eftava neíle tempo EIRcy de Geilolo 
de guerra com a fortaleza de Ternate , em 
quemoflrou querer perleverar; porque fen- 
do coftume entre aquelles Príncipes , queefr 
tam de paz com os Portuguezes , quando 
chega algum novo Capitão mandar-lhe os 
parabéns da vinda , e mandando viíitar a 
Triftao deTaíde os Reys de Tidore , e de 
Bacham , e outros , o de Geilolo o nao fez* 
E porque Fernão de la Torre Capitão dos 
Caftelhanos que em Geilolo eftavam , man- 
dara pedir a Nuno da Cunha per hum Pê- 
ro de Montemaior , embarcação para . fe 
irem á índia, edabi para Portugal nas náos 
da carreira, eNuno da Cunha mandara Pê- 
ro de Monte maior com Trilião de Taíde , 
e o encarregara que tiraííe os Caftelhanos 
de Geilolo , e os embarcaffe , e elle fe te- 
mia que-ElRey os não deixaria vir porcau- 
ía da guerra , para o ajudar neila , e lhes 
não cenfentiria tirar fua artilheria , nem lhes 
daria as armas que tinham empenhadas a 
EIRey , por lhes dar que comeíTem ; foi ne- 

cef- 

dou-lhe Triflão de Taíde o Padre Francifco Alvares para 
o ajudar , e ambos em poucos dias acaháram de fazer Cliri- 
Jlãns todos os moradores de Momoja , e de outros lugares , 
derribando os pagodes , e purificando os principais , faxen- 
do das cafas de abominação Templos, em que Deos come- 
çou n fer venerado , e louvado. EJle foi o principio , e 
primeiro fundamento da Fé naquellas Ilhas. Diogo do Cou- 
to cap. 15. do liv. 8. e Francifco de Andrade cap. 7. da 
}. Farte , t Fernão Lopes de Caftanheda cap. 9 }. ífo liv. 8» 



144 ÁSIA de JoÁo de Barros 

ceííario ufar de manha , que communicou 
com o Pcro de Momemaior, para a dizer 
a Fernão de la Torre, que eítiveífe avifa- 
do , c foi efte o ardil. Mandou pedir. fegu- 
ro a EIRey para lhe mandar hum recado , 
o que EIRey lhe concedeo , c per António 
de Teive , com quem foi o Pêro de Mon- 
temaior , mandou dizer publicamente a 
Fernão de la Torre da parte do Governa- 
dor Nuno da Cunha , que EIRey de Por- 
tugal , e o Emperador eram concertados fo- 
bre a poíTe daquellas Ilhas a ; e que o Em- 
perador mandara pedir a EIRey de Portu- 
gal que déííe embarcação aos Caílelhanos , 
que naqueilas partes eftiveíTem , para virem 
a Portugal , e dahi fe virem a Caftella , e 
que o Governador da índia per feu man- 
dado eílava preftes para lha dar ; e que a 
elle Triílao de Taíde fora mandado , que 
quando per lua vontade não quizefíem ir, 
os fizeíTe ir per força : por tanto lhe notifi- 
cava da parte do Governador , que logo fe 
paflafle a Ternate para dahi fe embarca- 
rem. 

Com efte recado fingio moftrar-fe Fer- 
não de la Torre mui queixo fo a EIRey de 
Geilolo , dizendo, que não fe havia de ir 
para os Portuguezes , e que antes fe deixa- 
ria 

a A cópia do contrato , que EIRey D. João fe^ com 9 
Emperador fobre as Ilhas de Maluco , efereve Diogo do 
Couto no cap, i. do Uv> 7. 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXIII. 145- 

ria matar , quanto mais que com o favor 
cPEIRey fc efpcrava defender. EIRey , e os 
de leu confelho lhe diííeram , que não fe 
agaftaiTem , que elle os ajudaria a defender. 
Com efta determinação appellidou Triftao 
de Taíde aos Rcys de Ternate , e de Ti- 
dore , e de Bacham , para todos irem com 
huma grande Armada a Geilolo tirar os Caf- 
telhanos que Já eítavam. E foi a coufa tão 
bem ordenada , que quando fe elles haviam 
de defender dos noííos , fe recolheram , e 
embarcaram com elle, com toda a fua ar- 
tilheria , e armas que tinham a ; e quando 
foi para entrarem em a Cidade de Geilolo , 
acharam que EIRey , e a gente a defpejá- 
ram toda com temor , e entrada por Trif- 
tao de Taíde, a mandou queimar. Alíi dei- 
xou Triííão de Taíde a Diogo Sardinha Ca- 
pitão mor do mar com huma Armada , e 
António deTeive com té fe (Tenta Por tugue- 
zes , e muitos Mouros Ternates, e elle fe 
partio com efta vitoria para a fortaleza, 
donde Fernão de la Torre , e os Caftelha- 
nos partiram para a índia com Jordão de 
Freitas , que levava Vicente da Fonfeca. 

Diogo Sardinha , e António de Teive 
afli fizeram guerra aos de Geilolo , aue lhe 
Tom. TF. P.il. K ti- 

a O modo que tiveram os Cajlelhanos para fe ajunta- 
rem com os Portuguezesy efereve particularmente Fernão 
Lopes de Caftanheda no cap. 7 i. do liv. $. e Francifço 
de Andrade no cap. 94 . da 2. Parte, 



146 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 
tiravam o feu principal mantimento , que 
era ir peícar ao mar. Polo que Cachil Ca- 
tabruno Regedor de Geilolo per confelho 
dos do Reyno pedio paz a Diogo Sardi- 
nha. Para efta paz foi o mefmo Catabruno 
fallar a Triftão de Taíde , e á tornada a 
Geilolo deo peçonha a feu próprio Rey ; 
mas de maneira que durafle alguns dias , o 
que dizem que tinha aílentado com Cachil 
Daroez em tempo de D. Jorge de Mene- 
zes. E alguns diziam , que deita morte fo- 
ra fabedor Triftão de Taíde , por Catabru- 
no commerter ifto logo quando foi deTer- 
nate. E por efts Rey fer muito moço , e 
não ter filhos , nem outros herdeiros , Cata- 
bruno fe metteo de poíTe do Reyno. 

CAPITULO XXIV. 

Como Triftão de Taíde per calumnias 
de Samarao prendeo a ElRey Tabarija , e 
/ a fua mai , e outros , e os enviou prezos 
d índia ao Governador , que os mandou pa- 
ra Maluco faltos , e livres : e como Taba- 
rija fe fez Chrijlão em Goa , e morrendo 
em Malaca , deixou o Reyno a ElRey de 
Portugal 

NEfte tempo contra vontade d'ElRey 
de Ternate , e de Pare Sarangue feu 
Governador , e dos de feu confelho > levan- 
tou 



De o. IV. Liv. VI. Cap. XXIV. 147 

tou Triftao de Taíde o degredo a Sarna- 
rao , que fora criado de Cachil Daroez , e 
Almirante domar, o qual D.Jorge degre- 
dou por dizer que fora participante nas cul- 
pas , per que Cachil Daroez íèu amo fora 
degollado. Dcfte perdão do degredo , a El- 
Rey Tabarija , e ao Patê Sarangue muito 
pezou , por fer homem de máo animo , e 
íe temerem que por elle lhes vieííe algum 
mal , como depois veio. E como efte Sa- 
marao era muito fagaz , aíli fe metteo na 
benevolência , e familiaridade de Triftao de 
Taíde , cuja feitura confeflava fer , e tantos 
ardijs lhe dava para accrefcentar fazenda , 
que elle lhe dava muito credito. E para el- 
le ter juntamente o favor d'E!Rey deTer- 
nare , como tinha o do Capitão , imaginou 
de fazer tirar o Rey no a Tabarija , como 
fe tirou a Cachil Daialo , e que fe Jevan- 
taíTe por Rey Cachil Aeiro feu irmão mais 
moço deidade de quatorze annos , confian- 
do da amizade de Triftao de Taíde , que 
o faria a elle Regedor do Reyno , té Ca- 
chil Aeiro fer de idade para governar. Po- 
lo que aftacou a Tabarija , que elle per con- 
felho de fua mai , e Patê Sarangue feu pa- 
drafto , c de Regabao Juftiça mór dó Rey- 
no , tratavam de matar a Triftao de Taí- 
de , e a todos os Portuguezes , e tomar a 
fortaleza. Perfuadido difto Triftao de Taí- 
K ii ctej 



148 ÁSIA de João de Barros 

de , d indo conta a alguns Portuguezes , de- 
terminou de prender EIRey ; e para que 
em lua prizáo não houveíTe alvoroço , or- 
denou que dous Portuguezes fizeíTem hum 
arroido feitiço , e que mandando-os elle pren- 
der , pediriam a EIRey rogaífe por elles a 
Trilião de Taíde que os lbltaffe ; e que in- 
do EIRey íbbrc iílo á fortaleza, o prende- 
ria com a mai , e os outros. Aífi o fez 
1 rida o de Taíde, e per confelho de Sama- 
rao levantou logo por Rey a Cachil Aei- 
ro , filho baftardo cf EIRey Boleife , irmão 
de Taba rija. a 

Como a prizao d'E!Rey , e daquellas 
peflbas tão principaes fe foube , muitos fu- 
giram da Cidade , e entre elles os do Con- 
felho d'E!Rey , cuidando que também fe- 
riam prezos , ou mortos. E foi coufa lafti- 
mofa ver naquelle fubito rebate a preíTa , e 
defatino com que fugiam , e como os fe- 
guiam as mulheres , filhos , e criados , def- 
amparando fuás cafas , que deixavam aber- 
tas , 

a Mandou Trifiuo de Taíde huns criados feus a cafa 
da mui de Cachil Aeiro a pedir que lho entregafje para 
o levantarem por Rey. Vendo ella o infelice fim , que os 
pajjados Keys tiveram , depois pie os Portuouezes 4nt> aram 
naqnella Ilha , com muitas lagrimas , e lajiimas não alar- 
gava o filho , querendo-o antes feguro em humilde efiado 9 
que arrifeado no Real. Os Portugueses lho tiraram com 
forca dos braços , e a ella com deshumanidade de feras , 
lançaram per Tiuma janelía fora , do que logo nwrreo. Dio- 
gQ do Couto çap. i}, do liv. 9. 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXIV. 149 

tas , e os gritos da gente popular quando 
via fugir os maiores. Ouro Bachela The- 
ibureiro que fora d'ElRey Daialo , por fer 
do Confclho , querendo-fe ir defculpar a 
Trilião de Taíde , o mataram á porta da 
fortaleza , o que foi caufa de a Cidade fe 
defpovoar mais. Defte cafo fe defculpou 
Triílao de Taíde de palavra com os pre- 
fentes , e per cartas com os Reys vizinhos , 
os quaes refpondèram , que lá fe avieífem 
os Ternates , pois per fua vontade quizeram 
receber Portuguezes , e entregar-lhes fua ter- 
ra , e ajudallos contra elles feus parentes, 
e naturaes , e de fua lei. Dada efta deícul- 
pa , publicou Triílao de Taíde o levanta- 
mento de Cachil Aeiro , e o teve na forta- 
leza , donde não fahia em figura de hum 
cativo mimofo , porque era fervido dos feus , 
e tratado em tudo como Rey , mas fem 
juridição alguma , nem liberdade , e os Of- 
íiciaes todos d'ElRey proveo de novo , e 
ao Samarao deo o officio de Regedor do 
Rey no , por cuja pertenção elle ordio efta 
maldade. 

Quando veio o tempo de haverem de 
ir navios a Malaca , e dahi para a índia • 
de que hia por Capitão Lionel de Lima , 
Triílao de Taíde lhe entregou EIRey Ta- 
barija , e fua mãi , e a Patê Sarangue , e 
Regabao prezos , com os autos que man- 
dou 



iyo ÁSIA de JoXo de Barros 

dou fazer de fuás culpas. Os quaes vendo- 
íe tirar da prizão para os levarem de lua 
terra para outra tão remota , donde não es- 
peravam tornar , fendo innocentes da culpa 
que lhe impunham , faziam grande pranto , 
e diziam muitas mágoas. Então conheceo 
Patê Sarangue que pagava a maldade que 
commettêra em fazer tirar o Reyno a feu 
Rey Cachil Daiaío injuftamente. Sendo ef- 
tes prezos na índia , Nuno da Cunha vio 
as devaíTas que contra elles foram 3 e os 
achou fem culpa , polo que os deo por li- 
vres , e julgou que o Reyno de Ternate íe 
reftituiíTe a Tabarija , o qual converteo a 
injúria que lhe foi feita em maior bem que 
tornarem-lhe feu Reyno , porque na demo- 
ra que fez em Goa , Deos infpirou nelle, 
e de fua própria vontade fe tornou Chri- 
ftão , e no Baptifmo tomou o nome de Ma- 
noel , em memoria d'E!Rey D. Manoel , 
que as Ilhas de Maluco mandou defcubrir , 
e que foi caufa de fua conversão. Tornan- 
do para feu Reyno , adoeceo , e falleceo 
em Malaca a 30 de Junho do anno de i^f, 
onde fez feu teftamento , e ndlc , por não ter 
herdeiros , deixou per herdeiro de feu Rey- 
no de Ternate a EIRey D. João de Por- 
tugal, como diffemos na terceira Década, * 

CA- 

ã Liv. j. cap. 6» 



Década IV. Liv. VI. 15T 

CAPITULO XXV. 

Como Triftao de Taíde fem caufa fez guer- 
ra a ÉlRey de Bacham : e como os Reys 
de Maluco fe conjuraram contra el- 
le j e do que fobre ijjo fuccedeo. 

TRiftão de Taíde como vio que tinha 
a EIRey Cachil Aeiro como feu cati- 
vo , e ao Regedor de Ternate por tão fa- 
miliar , determinou de haver para íi todo o 
cravo que houveífe na terra por o preço da 
Feitoria , que era a mil reaes o bahar , que 
he hum pezo de quatro quintaes , para o 
que o Samarao mandou pregoar per todo 
o Reyno de Ternate fob graves penas , que 
nenhum Mouro , nem Gentio vendeííe cra- 
vo fenao a Triftao de Taíde , ou a quem 
elle ordenaííe. Com efte pregão creíceo o 
preço do cravo a tanto que chegou a valer 
hum bahar cincoenta , e feííenta cruzados ; 
porque como os Portuguezes tinham muita 
fazenda para empregar, e viam o Maluco 
em rifco de fe perder por as defordens dos 
Capitães , todos compravam cravo ; e como 
os Mouros de Ternate fe aventuravam a 
grandes penas , fe Triftao de Taíde o fou- 
befle , vendiam o rifco que niflb corriam por 
grande preço. Por rogos de Triftao de Taí- 
de mandaram pregoar a mefma defeza em 

fuás 



IÇt ÁSIA de JoÃo de Barros 

fuás terras os Reys de Tidore , c de Gei- 
loJo , o que EIRey de Bacham , fendo reque- 
rido por elle , não quiz fazer , pofto que 
era mui leal fervidor d'E!Rey de Portugal , 
e amigo antigo de Portuguezes , e que pa- 
ra acudir a luas neceífidades nunca aguar- 
dou fer rogado ; porém parecia-lhe injufta 
a poítura do cravo, e muito mais a prizão 
d'ElRey Tabarija ; e por cilas , e outras 
deibrdens havia dias que não hia á forta- 
leza de Ternate como de antes fazia ; mas 
Trilião de Taíde eícandalizado de lhe não 
fazer a vontade no negocio do cravo , ten- 
tou fazer-lhe guerra , e mandou huma Ar- 
mada contra elle , a cujos Capitães EIRey 
fez muitos requerimentos , que lhe não íi- 
zeíTem guerra , pois fempre fora , e era leal 
fervidor d'E!Rey de Portugal , e não com- 
mettêra coufa porque lha fizeíTem ; porém 
não querendo elles fenão iníiítir , o que nif- 
fo ganharam foi morrerem alguns Portugue- 
zes , e os outros tornaram com pouca honra. 
Indignado difto Triftão de Taíde, quiz 
ir elle em peííoa , e levar comfigo em feu 
favor os Reys de Ternate , e de Tidore a , 
e foi com huma groíía Armada , de que 
hiam por Capitães Diogo Sardinha Capitão 
mór domar, António de Teive , Balthazar 

Vo- 

a Fernão Lopes de Caftanheda no cap. 95. do liv. S. 
Francifco de Andrade no cap. 7. da j. Parte. 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXV. 15-3 

Vogado, António Pereira, Balthazar Velo- 
fo , Liliiarte Caeiro , Fernão Henriques , Jor- 
ge Gotcrres , Affbniò Pires , e outros , e 
aíli aquelles Reys , e léus Regedores , e San- 
gages. Como os de Bacham íbuberam que 
os Portuguezes hiam contra elles , lhe ato- 
píram o rio com muita madeira , e defato- 
pindo-o os noílos , os Bachoes lhe muda- 
ram a corrente per huma madre antiga per 
que já correra , e aíli ficaram os navios dos 
Portuguezes em fecco ; mas mandando Trif- 
tao de Taíde dar nos que trabalhavam no 
rio , deixaram a obra , e tornou a correr 
por onde antes hia. Defconfiado EIRey de 
poder refiôir a Trilião de Taíde , defpejou 
a Cidade de todo , de gente , e fazenda , 
e foi-fe para o íertão. Os Portuguezes por- 
que não acharam vivos com que pelejar, 
pelejaram com os mortos , quebrando as 
fepulturas dos Reys Mouros que alii havia , 
e a tudo puzeram o fogo. E querendo Trif- 
tão de Taíde entrar pela Ilha , o não fez , 
por a terra íer alagadiça, e íè tornou para 
Ternate , deixando Diogo Sardinha com 
parte da Armada , e com eile o Samarao 
com a de Ternate , para lhe tolher o fer- 
viço do mar , polo que EIRey de Bacham 
lhe commetfeo paz com dar cada anno du- 
zentos bahares de cravo a EIRey. 

Mas poíto que eile fez efta paz , ficou 

em 



/ 



1^4 ÁSIA de João de Barros 

cm feu animo em viva guerra , e mui es- 
candalizado da má paga que houve por a 
grande lealdade que íòmpre revê a EIRey 
de Portugal , e pelos benefícios que fizera 
a Portuguezes , a que tão affeiçoado era. 
Polo que fabendo cllc como os outros Reys 
de Maluco eftavam efcandalizados de Trif- 
rão de Taíde , e dos Portuguezes , poílo 
que o diílimulavam , per cartas , e menía- 
geiros fe vieram a concordar que fe viífem , 
e em cafa de Cachil Mir Rey de Tidore 
fe ajuntaram /-EIRey Cachil Daialo que fo- 
ra de Ternate , EIRey Cachil Catabruno 
de Geilolo , e EIRey de Bacham , onde ca- 
da hum em particular recontou as coufas do 
ódio que tinha , para procurar a total des- 
truição de Triílao de Taíde , e dos Portu- 
guezes ; e ali i juraram todos fobre hum Mo- 
ca fo , que he o livro de íua lei , de faze- 
rem guerra á fortaleza de Ternate té a to- 
marem , e matarem a Trilião de Taíde , e 
a todos os Portuguezes. A eíle juramento , 
e viílas deites Reys não foi prefente o Sa- 
rna rao Regedor de Ternate ; mas fendo o 
principal dos conjurados , com fimulada ami- 
zade que monrava ter a Triítão de Taíde , 
ficava fazendo maior guerra . fabendo feus 
difenhos todos , e fecretos para avifar del- 
les aos Reys. Naquellas viílas aíTentáram 
duas coufas: hunia, que a guerra havia de 

co- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXV. re- 
começar em Ternate , e que té não irem 
bem com elia por diante , os Reys a não 
haviam de mover; a outra foi, que o Sa- 
marao com fcu confelho , e induílria fízeíTe 
divertir aTriftao deTaíde com mandar Ar- 
madas a outras partes , para aíii fe gaitar , 
e ficar com menos gente. 

A primeira coufa que o Samarao nifTo 
fez , foi fazer crer a Triítão de Taíde que 
nas Ilhas dos Celebes , e dos Macaçares , 
e na de Mindanao havia muito ouro , para 
que com a cubica delle mandaífe alguns na- 
vios a eíte defcubrimento para aíli ficar com 
menos gente. E como o cubiçofo , eotram- 
pofo , (como diz o provérbio , ) fe concer- 
tam facilmente, com eíte confelho do Sama- 
rao , e por lhe dizerem que a Geilolo chega- 
ram certas coracóras que vinham de Minda- 
nao j per que fe foube que lá havia muito ou- 
ro , mandou logo armar hum navio , de que 
fez Capitão a hum João de Canha Pinto , o 
qual nao achou o ouro que lua buícar, mas 
hum perigo , em que fe elle por fua culpa 
quiz metter de querer cativar huns Mou- 
ros na Ilha de Seriago , que como amigos 
vieram a feu navio , tendo feito paz com 
elle. Polo que os da terra correram apôs 
elle , e alli com hum temporal que lhe deo 
lhe foi neceíTario lançar a artilheria ao mar, 
€ fem fazer outra coufa tornou a Ternate, 

Quan- 



1^6 ÁSIA de João de Barros 

Quando os Reys conjurados viram quão 
poucos Portuguczes foram a Mindanao , or- 
denaram outro modo , e foi , que EIRey 
de Geilolo concertou com huns povos que 
chamam Tanares que fizeffem guerra ao Se- 
nhor de Bonacora , e ao Moro por an- 
darem lá muitos Portuguezes , ao que cita- 
va certo que Triftao de Taíde havia de acu- 
dir , como logo acudio . mandando a Bo- 
nacora huma Armada, e por Capitão delia 
a Jorge de Taíde feu fobrinho, e outra ao 
Moro, de que hia por Capitão Diogo Sar- 
dinha. Com eíta defpedida de gente , alguns 
dos Ternates fccretamente le foram em feus 
navios a Batochina do Moro , junto de Gei- 
lolo , onde alguns Portuguezes andavam 
com Vicente Corrêa Meftre de náos cortan- 
do madeira para navios que Triftao de Taí- 
de mandava fazer. E mandando elle hum 
batel carregado daquclla madeira para a for- 
taleza , eftes Ternates mataram a gente do 
batel , de que não efcapou mais que hum 
Arábio a nado , que levou a nova a Vicen- 
te Corrêa , o qual com temor fe acolbeo 
em outro batel para Ternate , e achou no 
caminho os mefmos Ternates que mataram 
os que elle mandara ; mas clles diííimulá- 
ram , e paíTáram a Geilolo. EIRey Catabru- 
no fabendo perelles o que deixavam feito, 
por mais íegurar a Triftao de Taíde na 

fua 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXV. 157 

fua amizade fingida, mandou-lhe logo hum 
recado , per que lhe fazia a faber como en- 
tendera que os Ternates fizeram aquelle in- 
fulto , para que nao cuidaííe que coufa fua 
fora nilTo. E por moftrar mais amizade , 
mandou certas coracóras apôs Vicente Cor- 
rêa , para que o acompanhafíem , elevaíTem 
feguro dos Ternates. Nao fabendo Triftao 
de Taíde defte conluio , mandou agradecer 
a EIRey o que fizera , e ficou mui confu- 
fo por nao faber a caufa que moveo aos 
Ternates fazer aquella traição. 

Mas muito mais ficou , quando dahi a 
poucos dias a Cidade de Ternate foi def- 
pejada de todos feus moradores fubitamente 
em hum fó dia , tendo já tirado delia fuás 
fazendas , e quando acudio achou já mui 
poucos , aos quaes rogando que fenao fof- 
fem , e fe tinham aggravos lhos emenda- 
ria , o nao quizeram ouvir • e por os não 
efcandalizar , nao lhes quiz fazer força. Co- 
mo a Cidade fe defpejou , o Samarao feu 
Governador , que era ido fora com grande 
Armada , veio ; e tanto que defembarcou 
com os de fua cafa , os Mouros que fica- 
vam nos navios , como gente queeftava fal- 
lada , viraram as proas , e foram-fe. Che- 
gado o Samarao á noíTa fortaleza , moftrou- 
fe mui efpantado a Triftao de Taíde do 
levantamento da gente da Cidade de Ter- 
na- 



158 ÁSIA de João de Barros 

nate \ e como homem que fingia não faber 
parte deite cafo , começou de lhe contar os 
medos rjue tivera daquelJes que té alli o 
trouxeram , dizendo que o queriam matar , 
como gente indignada delle, e que cria, que 
fe o deixaram de fazer , fora porque feu ri- 
lho fe fora com elles. E per taes termos fal- 
lou com Triílão de Taíde , que fe enganou 
com elle , e parecia-lhe ter nelle hum gran- 
de amigo , e como tal per feu confelho fez 
huma Armada de quantas velas eftavarn no 
porto , e das d'ElRey de Geilolo , que ain- 
da eílavam nelle como efpia do que Trif- 
tao de Taíde fazia ; na qual Armada leva- 
vam a EIRey Cacliil Aeiro , para que ven- 
do os Mouros dos lugares maritimos feu 
Rey , fe moveífem ao obedecer , e fe tor- 
na ÍTem a povoar a Cidade. Mas elles eíla- 
vam tão indignados contra Triílão de Taí- 
de , que quando lhes diziam que obedecei- 
fem a feu Rey , e que fe tinham queixas 
do Capitão , fe remediariam a feu conten- 
tamento , rcfpondiam todos , que não ti- 
nham , nem conheciam tal Rey; e fe algu- 
ma hora lhe obedeceram , fora per força , 
e não per vontade, que feu Rey natural era 
Cachil Daialo , e que quanto ã amizade com 
os Portuguezes a tinham como d'antes , e 
que fe clks mataífem a Triílão de Taíde, 
fe ajuntariam com elles , e fem iíTo não. 

Fi- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXV. j;o 

Finalmente não fez outro effeito a Ar- 
mada ; e os Ternates que fugiram da Cida- 
de fizeram hum a povoação afFaílada donde 
os Portuguezes pudeíTem ir , e de noite vi- 
nham dar rebates na noíTa povoação ; e an- 
davam tão frequentes neíles aííaltos , que 
cumprio a Triílao de Taíde fazer repairos , 
e vigias para fua íegurança. Acabado de fe 
divulgar per outras partes efte levantamen- 
to dos Ternates contra a noíTa fortaleza, 
onde havia Portuguezes , es cativavam , e 
matavam , e aífi foi morto o Vigairo Simão 
Vaz ", que na Ilha de Chião y principal do 
Moro , eílava fazendo alguns Chriflaos , e 
com elle os que o acompanhavam , e os 
novamente bautizados , e outros em batéis 
que hiam bulcar mantimentos. 

Em quanto cilas coufas fe faziam , Ca- 
chil DaiaJo tinha já quaíi toda a Ilha de 
Ternate por íi , e o reconheciam por Rey , 
e tinha mandado fazer gente a Banda con- 
tra os Portuguezes. Com efta nova 5 em hum 
junco que ai li foi ter de Portuguezes fazer 

nós, 

a Hum Mouro dos que mataram Simão Vaz , e aos 
novos Chriflaos , quebrou em pedaços hum retábulo de N.Se» 
tihora , que o Vigairo tinha-, e não foffrendo Deos efla of» 
fenfa feita a fua fagrada Alai , fubítamente fe lhe aleija» 
ram as mãos ao Mouro , e morreo brevemente , e dentro 
de hum anno toda a fua geração de defaflres ; e o lugar 
que era mui g/ande, em poucos annos fe confumio per guer- 
ras de maneira , que delle não ha memoria alguma, D ioga 
<k> Couto cap, 4. do liv, 9. 



i6o ÁSIA de João de Barros 

nós , de que era Capitão Lopo Alvares , fo- 
ram mortos elle , e a gente toda , e toma- 
do o junco , e a artilheria delle levada a 
Cachil Daialo. O qual indo a requerimento 
d'EUley do Geilolo a fazer-lhe entregar 
certos lugares que tinha perdidos no Mo- 
ro a , em tomando o primeiro lugar , logo 
os moradores de Sugalla o mandaram cha- 
mar para lhe entregar hum Clérigo per no- 
me Franciíco Alvares , que alli bautizára 

al- 

a Tomados efes lugares , foi Cachil D a ia lo fobre a Ci- 
dade de Momo j a , de que era Senhor Z>. João y [como atrás 
dijjemos , ) o qual determinou, de fe defender com os Por- 
tugueses que tinha em fua companhia , para o que ordenou 
huma forte tranqueira , que fendo commettida poios inimi- 
gos , os Portuguezes fem refiftencia fe pajjáram a elles , 
defamparando com grande infidelidade a D. João , que os 
■perfuadia que quizejjem antes morrer como Chrijlãos , que 
entregar-fe a Mouros ; e com ajuda de alguns poucos dos 
feus defendeo a tranqueira todo hum dia ; e fahindo da bri- 
ga com muitas feridas , e fem ejperança de foccorro , de- 
terminou de perder antes a vida , que a liberdade ; e por- 
que fua mulher , e filhos , que eram Chrijiãos , depois de 
Jua morte não viefjem ao poder dos Mouros , que os con- 
vertejjem como fracos á jua perverfa feita , lhes deo a to- 
dos a morte. Os feus o entregaram a Cachil Daialo , e foi 
levado a ElRey de Geilolo , que fabendo o que D. João 
fizera , e perguniando-lhe a caufa porque matara fua mu- 
Vier, e feus filhos , lhe refpondeo com ejhemado valor , que 
lhe dera a morte , porque melhor era que f o ff em reinar 
com Chri/lo morrendo , que não fervirem vivendo a Mafa- 
mede , e que elle não havia de deixar a Fé de Chrijlo por 
todas as fuás ameaças , e tormentos. Efpantado ElRey de 
huma tão rara conjlancia , o deixou livre fem ca/ligo. Fian- 
çifco de Andrade cap. 29. Parte 5. Padre João de 
Lucena no cap. 16. e ij. do liv, 5. 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXV. 1.61 

alguns Gentios , c aíli alguns Portuguezes 
que alu citavam fazendo hum junco. O que 
entendendo Francifco Alvares fugio em h ti- 
ni a coracòra , levando comfigo os ornamen- 
tos com que dizia MiíTa. Mas como a Ar- 
mada cTEiRey de Geilolo que alli eílava o 
fentio , foi trás elle , e o alcançaram , e na 
revolta que houveram lhe deram dezefete 
cutiladas , pelejando elle , e os companhei- 
ros mui valentemente ; e o que os falvoa 
foram os ornamentos que o Clérigo alijou 
ao mar , na preza dos quaes os inimigos fe 
detiveram, eneíTe tempo por fer já de noi- 
te fe falváram na nolTa fortaleza. 

Sabendo defte fucceíTò Triílao de Taíde 
ficou mui triíle , e agaftado em perder a 
amizade d'ElRey de Geilolo , que fempre 
o achara mui leal ? e logo entendeo que os 
outros Reys feus amigos fe haviam rebel- 
lado. Os quaes vendo como EIRey Cachil 
Daialo fe hia apoderando do Reyno , e que 
EIRey de. Geilolo fe havia defeuberto , os 
Reys de Tidore , de Bacham , de Maquiem , 
e de Moutel fe declararam com Trilião de 
Taíde , que lhe queriam fazer guerra , lan- 
çando fora os Portuguezes , que em feus Rey- 
nos andavam. E íabendo os Ternates eíta 
defpedida que os Reys davam aos Portu- 
guezes , os laíteáram , e mataram todos. Em 
vingança difto foi logo Triílao de Taíde 
Tam.IF.P.iL L fo- 



IÓ2 ÁSIA de João de Barros 

ibbre hum lugar chamado Mongue , perto 
da fortaleza , e o tomou ; mas lènão foram 
António de í eive , Jorge deTaíde , e Bal- 
thazar Vogado , e outros , houvera de cuí- 
tar a vida a muitos Portuguezes , e foram 
mal feridos Jorge de Brito , Henrique Jor- 
ge , Affonfo Teixeira , e André Pinto. 

Nefte tempo chegou de Malaca Simão 
Sodré em hum navio , o qual mandou Dom 
Ertevao da Gama , que lá eftava por Capi- 
tão , que animou muito a Triftão de Taíde 
por a gente frefca que trazia , e logo per 
Simão Sodré mandou fazer guerra aos Ter- 
nates , a que tomou Turutó , Palacia , Ca- 
lamata , Gico , e outros lugares , cujos mo- 
radores fe hiam ajuntar com outros mais 
longe ; e alguns deJles foram fazer huma 
povoação em íirio affaít.ado , e aípero , que 
Trilião de Taíde não podia ir a elle , té 
que houve cativos a mão , que lhe eníiná- 
ram o caminho , e dando no lugar per duas 
parles , foi entrado , e queimado , e muitos 
Jvlouros mortos. A tomada defte lugar , por 
fua aípereza , fentíram os inimigos muito , 
polo que delpovoáram todos os lugares vi- 
zinhos da fortaleza , e foram fazer outros 
longe delia da banda de Levante , com que 
a fortaleza ficou algum tanto defapreííada 
de rebates ; mas a maior guerra que os Mou- 
ros faziam , era tolher os mantimentos , pa- 
ra 



Dec. IV. Lív. VI. Cap. XXV. 163 

ra o que os Reys conjurados mandaram 
luas Armadas , com que os Portuguezes le 
não atreviam íahir a bufcallos , principal- 
mente depois que os Mouros houveram á 
mão hum paráo , de que ficaram mui or- 
gulho los por fer a primeira vitoria que con- 
tra Portuguezes houveram no mar. 

Trilião de Taíde por ifto fer coufa tão 
nova , quiz logo vingalla , e fe embarcou 
em huma Armada , e foi-fe a Tidore com 
propoíico de deftruir a Cidade. Os Mouros 
confiados na vitoria que houveram , o vie- 
ram receber , de que os Portuguezes fe ef- 
pantáram ; porém poílo que o número dei- 
íes era grande , e com lua artilheria > que 
era pouca , refpondêram á dos Portuguezes , 
que era mais , deixaram de abalroar com 
os noílbs por fuás embarcações ferem mui 
leves , e temeram ferem mettidos no fundo» 
Mas como eram muitos , andaram esbombar- 
deando com os Portuguezes tanto tempo, 
que vendo Triftão de Taíde que lhe falta-* 
va a pólvora, começou de fe recolher, e 
os Mouros também mui contentes , porque 
não ficaram vencidos como fohiam a fer ; 
pofto que foram bem efcalavrados* 



u 



CA* 



164 ÁSIA deJoao de Barros 

CAPITULO XXVI. 

Como Triftão de Taíâe profeguio a guerra 

com os Reys do Maluco com vários fuc- 

cejjos , té a vinda de António Galvão y 

que vinha por Capitão de Ternate. 

EStava per aquelle tempo no porto de 
Talangame , que he da Ilha de Ter- 
na te , huma náo de Francifco de Soufa , 
que também andava com Triftão de Taíde 
ncíles trabalhos de guerra , e em terra fe 
acabava hum junco de Francifco Henriques , 
os quaes navios eftavam naquelle porto , por- 
que nelle podiam eftar velas grandes , e não 
em o de Ternate , por caufa do recife , co- 
mo já diíTemos. E por eftes navios terem 
mui pouca guarda , determinaram os Mou- 
ros de os queimar com jangadas de fogo , 
entremettido pela madeira , breu , e alcatrão , 
cem quanto aperceberam eftas coufas , cei- 
faram da guerra como homens que efta- 
vam ca nfados delia. E como tiveram tudo 
apercebido , fubitamente appareceo fobre o 
porto de Talangame huma Armada de tre- 
zentas velas, que cubria o mar, coufa não 
efperada dos noílos , nem parecia que en- 
tre Mouros podia haver tanto navio. Tam- 
bém per terra appareceo muita gente de guer- 
ra 3 com propofito , que em quanto os do 

mar 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXVI. 16? 

mar queimaíTem a náo , elles romperiam a 
tranqueira , e dariam fobre o junco , a que 
também poriam fogo. Francifco de Soufa 
vendo tanto apparato de velas , e hum car- 
dume delias mui efpéflb , onde vinham jan- 
gadas , como era Toldado prático , entendeo 
o caio , e em continente cercou íua náo de 
vigas lançadas na agua de maneira , que 
as jangadas tivellem impedimento para não 
chegar á náo , e nifto gaitou a maior parte 
do dia , em que fè os Mouros detiveram 
em chegar ao porto. Como foi noite , man- 
dou Francifco de Soufa recado a Triílao de 
Taíde , fazendo-lhe faber o eílado em que 
eílava , pedindo-lhe que lhe acudiíTe. Trif- 
tão de Taíde mandou logo por Capitão 
mor de hum navio , e de outras embarca- 
ções a Eítevao de Chaves , hum Fidalgo 
de authoridade , e idade , e com elle eftes 
Capitães : António de Teive , António Pe- 
reira , Jorge de Brito , João Figueira , Bal- 
thazar Vogado , Balthazar Veloío , e Jorge 
Goterres , que como foi noite partiram , e 
em chegando a tiro de berço , começaram 
a varejar naquelle cardume de velas. Fran- 
cifco de Soufa com a gente que tinha , e 
feus paráos ajudou aos outros; e como as 
jangadas dos Mouros com a maré ficaram 
em fecco , os Portuguezes lhe puzeram o 
fogo , e elles fe defenderam de maneira, 

que 



i66 ASIÀ de JoXo de Barros 

que entre todos houve huma grande requef- 
ta. Por derradeiro os Mouros defefperando 
de fazer algum dam no , e vendo que o re- 
cebiam , fe foram recolhendo para luas cab- 
ias, e os Portuguezes para a fortaleza. 

Triílao de Taíde vendo que a fortaleza 
eftava em tanta neceííidade , que vieram os 
noíTos a comer cães , gatos , e bogios , e va^ 
ler hum alqueire de arroz cinco cruzados , 
e huma jarra de fagú mantimento da terra 
vinte e cinco , e trinta cruzados , huma ca- 
bra vinte cruzados , hum porco cincoenta , 
huma gaílinha quatro , hum ovo trinta reaes , 
eaíTi de todas as outras coufas era tamanho 
o preço , que não havia homem que tiveíTe 
cabedal para comprar o comer , pareceo-lhe 
que como os Mouros do recontro paliado 
ficaram quebrados de fua opinião , era boa 
conjunção para lhe commetter paz , que el- 
le antes tão pouco procurava , e que então 
lhe convinha mais que a guerra. O media- 
neiro que nifto metteo foi o traidor Sama- 
rao , que era o que mais impedia a paz ; e 
aífi como os inimigos per elle fabiam o ef- 
tado de Trilião de Taíde , não lha conce- 
deram , e ficaram na inimizade em que ef- 
tavam. 

Nefta neceffidade dos noflbs veio de 
Banda em foccorro D. Fernando de Mon- 
roi Fidalgo Caflelhano , que o Capitão Hen- 

ri- 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXVI. 167 

rique de Vafconcellos mandou em hum jun- 
co , e Luiz Froez Piloto em outro , em que 
trouxeram mantimentos , e gente , e outras 
provisões , que Triítão de Taíde mandara 
buícar. Com efte foccorro renovou a guer- 
ra com os Mouros , e lhes tomou dos por- 
tos os melhores que tinham , que eram To- 
loco , e Tabanga. E porque os Mouros 
mudaram a Cidade de Tolocq de junto do 
mar para dentro do íertão pegada a huma 
ferra , eíle foi a ella per mar , e Francifco 
de Soufa per terra , e lhe deo nas coitas tão 
fubitamente , que tomaram a Cidade , e hou- 
veram os mantimentos delia , que foi o me- 
lhor defpojo que então defejavam. Depois 
mandou Triítão de Taíde a Geilolo , e o 
mais que alli fizeram foi queimar humaMef- 
quita -y e querendo ir mais adiante a hum 
lugar , não puderam por acudir tanta gente , 
que caufou embarcarem-fe de prefla. 

Os Mouros , porque defejavam de def- 
pejar de todo a Ilha de Tern3te , e irem-fe 
para Geilolo , e não o podiam fazer fem 
grande perigo feu , por Triítão de Taíde 
lhe ter pejado com feus navios os portos 
onde haviam de embarcar , lhe mandaram 
commetter pazes pelo Samarao , moítrando 
eítarem canfados de continuar a guerra , e 
que lhes convinha juntarem-fe por andarem 
todos derramados. Triíláo de Taíde foidif- 

fo 



i68 ÁSIA de João de Barros 

fo contente , não advertindo o engano , e 
defembaraçados os portos , poucos , e pou- 
cos fe recolheram nas embarcações que Jhe 
levavam os de Geilolo , e fomente fe deixou 
ficar Poio rilho de Samarao com alguns de 
fua valia , moítrando que queria rlcàr com 
os Portuguezes. E para melhor ordenar , e 
curar fua maldade , mandou pedir a Triítao 
de Taíde , que para fe virem para a Cida- 
de de Ternate , lhe mandaííe alguns Capi- 
tães feus que \\iq deílem guarda. Para iito 
lhe mandou Triítao de Taíde dous bargan- 
tijs 3 e por Capitães delles Francifco de Sou- 
fa , e Balthazar Vogado , os quaes foram 
em tal hora , que a Armada d'ElRey de Gei- 
lolo que eílava em cilada , faltou de fubito 
com clles , e foi tomado o bargantim de 
Balthazar Vogado , que hia diante , e mor- 
to elle , e quantos levava comíigo. Fran- 
cifco de Soufa vendo que lhe não podia 
valer , e que fe oíferecia á morte fem fru- 
to , fe tornou para a fortaleza. Deite luc- 
ceíío ficaram os Mouros tão foberbos , e 
atrevidos , por ferem os primeiros que ou- 
iaram abalroar navio Portuguez , que leva- 
ram o bargantim a EIRey de Geilolo. Os 
de Tidore tendo grande inveja deita vito- 
ria , foram tomar hum navio de remo , em 
que hia Francifco Henriques de Talangame 
bufcar hum leme • e como eílavam em cila- 
da, 



Dec. IV. Liv. VI. Cap. XXVI. 169 

da , fali iram a elie , ematáram-lhe logo dez 
Porruguezes , e quarenta efcravos ; e íe a 
lua tranqueira não fora tão perto , onde fe 
acolheo a mais gente, toda perecera. Trif- 
tão de Taíde fahio fomente a faber defte 
defaftre de Francifco Henriques , e huma Ar- 
mada de Tidore o veio efperar ao cami- 
nho , da qual elle metteo no fundo hum 
navio , e recolhido, não quiz mais fahir , 
iiem mandar fora da fortaleza peflba algu- 
ma , efe deixou eílar, té que veio António 
Galvão fucceílbr no cargo, que o tirou da- 
quclles trabalhos. 




DE- 






DÉCADA QUARTA. 
LIVRO VIL 

Governava a índia Nuno da Cunha. 

CAPITULO I. 

Dos Príncipes , que ficar ayn no Rey?io do De* 

can per morte tPElRey Mamud Xiah : e 

das guerras que entre elles houve. 



E 



M quanto paliavam no Rcyno de 
Cambava , e nos a elle comarcãos , 
* as coufas que atrás efcrevemos , hou- 
ve outras entre os Príncipes do Decan , em 
que também interveio íuor , e fangue dos 
Portuguezes ; o que querendo nós eícrever , 
convém repetir algumas de longe para en- 
tender as que liiccedêram , té chegar ao tem- 
po de Nuno da Cunha , que he o fim de 
noíío intento. Efcrevendo nós na fegunda 
Década deítes Livros rt , como o Reyrio de 
Decan, per morte d'EIRey ?vtamud'Xiah , 
ficou repartido em fete Capitães feus , con- 
ta- 

a No cap, 1. do fiv, 5. 



Década IV. Liv. VII. Cap. I. 171 

tamos como todos fc fizeram tyrannos das 
terras , e comarcas que tinham a leu car- 
go r e não fomente conquiítáram dos Gen- 
tios outras , mas ainda huns com outros con- 
tenderam quem fe faria maior de maneira, que 
de fete ficaram em cinco , cujos nomes , e 
Ethdos são eítes. OHidalchan filho de Sa- 
baio , que morreo quando Affoníb d'Albo- 
querque tomou Goa , eíte foi fempre o prin- 
cipal deites fatrapas , porque fe fez tyran- 
no da peííoa d'ÈIRey , que per morte de 
feu pai Mamud Xiah ficou moço de doze 
annos , poíto que no acatamento , e reve- 
rencia o Hidalchan o tratava como a feu 
Rey , e Senhor. E para fe fazer maior , e 
ter mais authoridade , e auçao para o que 
pertendia , tomou por mulher huma fua ir- 
mã , para que falecendo elle , moítraffe que 
per ella lhe pertencia o Rey no , e a heran- 
ça. E tendo elle nas ceremonias apparentes 
poíto em muita mageftade a EIRey para 
enfrear os outros , lhe deo peçonha , mas 
de tal maneira , que de vagar o foiTe con- 
fumindo , e que pareceíTe doença , da qual 
veio a morrer , e aífi lhe fuccedeo no Eíta- 
do , o qual he ao longo da coita do mar 3 
que corre de Norte a Sul , e começa no rio 
Domei , que fica oito léguas de Dabul , e 
acaba emCintácola abaixo de Goa onze lé- 
guas , em que haverá feffenta léguas pouco 

mais , 



172 ÁSIA de João de Barros 

mais , ou menos de difhmcia , e na maior 
largura cincoenta. Da parte do Norte con- 
fina com o Nizamaluco , que hc o fegundo 
Capitão , cujo Eítado era de coita maritima 
quinze léguas. , começando no mefmo rio 
Domei , e acabando para o Norte no de 
Nagotana , termo commum íeu , e do Rey- 
110 do Guzarate. Da parte do Sul vai en- 
teftar o Hidalchan com o Reyno de Cana- 
rá , que he d'E!Rey de Narílnga , com quem 
a maior parte do tempo anda em guerra ; 
e pela de Levante cercam ao Hidalchan , e 
ao Nizamaluco os outros três Capitães Ma- 
dre Maluco , Melique Verido , que fica em 
meio , e Cota Maluco mais ao Sul. Efte 
por ter tomado muitas terras ao Rey de 
Orixá fcu vizinho , e por a fua terra fer 
mais montuofa , e afpera que a dos outros , 
c ter de leu muitos elefantes , he muito te- 
mido , e quer competir em poder com o 
Nizamaluco. Aíli que de dezoito Capitães 
per que Mamud Xiah tinha repartido o go- 
verno , e defensão de feu Reyno , quando 
elle profperava , veio a ficar em íete , té 
que per morte de huns , e per violência de 
outros , que fe fizeram mais poderofos , fi- 
caram eítes cinco de que falíamos , cujos 
ânimos , e ódios veremos no que fe íegueJ 
Efles todos em alguma maneira fempre 
tiveram algum reconhecimento de íuperio- 

ri- 



Década IV. Liv. VIL Cap. I. 173 

ridade ao Hidalchan , o qual também tinha 
alguma reverencia , e rcfpeito ao Nizama- 
luco , como rico que era , por caufa da nof- 
fa fortaleza de Chaul , per onde tinha en- 
trada de çavallos, e de noíías mercadorias, 
e por effa caufa lhe dera a irmã por mu- 
lher. O Madre Maluco era cafado com a 
irmã do Hidalchan , o qual tratava a eíle 
feu cunhado , e a Melique Virido como a 
feus vafTailos , principalmente ao Virido , a 
que dera algumas terras por vaidade de vaf- 
lallagem. Efte ao tempo que faleceo EIRey 
Mamud Xiah era guarda , e governador 
de fuás mulheres , e eftava fempre com el- 
las na Cidade de Bider 5 onde as tinha El- 
Psey. Morto Mamud Xiah , e feu filho, que 
em poder do Hidalcan eílava , ufava delias 
como Mamud Xiah fazia. O Cota Maluco 
vindo ter diíferenças com elle , como com 
vizinho com quem partia fuás terras , defc- 
jando de lhas tomar , per cartas lhe eílra- 
nhou muito a traição que naquillo fizera a 
feu Senhor , e lhe efcreveo , que não fem 
razão fe diífera , que elle por ficar a fua 
vontade com fuás mulheres , e o Hidalchan 
por lhe ufurpar , e íyrannizar feu Eílado , 
mataram com peçonha a ElP^ey Mamud 
Xiah , e outras palavras , com que culpava 
ambos de traidores , e por ellas fe lhe tor- 
naram ambos inimigos , e com a refpoíla 

que 



174 ÁSIA de João de Barros 

que o Virido mandou ao Cota Maluco , 
vieram romper em guerra , em que o Cota 
Maluco perdeo muita gente , e desbaratado 
ie tornou para luas terras , tendo entrado 
pelas do Virido , pofto que ajudado do Hi* 
dalchan , que o íoccorreo com gente , como 
a vaíTallo feu ; mas a principal caufa era 
para fe vingar das palavras do Cota Ma- 
luco j que o infamava de traidor. 

CAPITULO II. 

Como o Hi 'dalchan foi cercar a Cidade 
de Goulacondá do Cota Maluco , que a de- 
fendeo com grande ejirago da gente do Hi* 
dalchan , per confelho , e ajuda de doze Por- 
tuguezes feus cativos : e da morte do Hi- 
dalchan > eprizao de Abrahemo feu filho fe- 
gundo 5 quefe queria levantar com o Eftado. 

^T Efte tempo que Cota Maluco provo* 
S cara com palavras ao Hidalchan , acer- 
tou clk de adoecer, cuja doença diziam íer 
peçonha , induftriada per Juima de três pef- 
loas , pelo Açadachan feu Capitão , e vizi- 
nho noíTò de Goa , ou per Cota Maluco , 
ou per Melique Abrahemo filho do mefmo 
Hidalchan , mancebo oufado , e temerário , 
ao qual o Cota Maluco dizem corromper 
com promeílas , que matando a feu pai com 
peçonha , o calaria com huma fua neta , in- 
do- 



Década IV. Liv. VIL Cap. II. 17? 

do-fe para elle , e o metteria em poíle do 
Eftado de feu pai. O Hidalchan entenden- 
do íua doença , e fendo cerro que hum a 
deitas três peílbas lhe dera a peçonha por 
o ódio que tinha ao Cota Maluco , creo 
mais que elle feria o author. E tanto que 
foi são , por lhe acudirem logo , fem mais 
eíperar , com todo feu poder foi pôr cer- 
co a Cota Maluco na fua Cidade de Gou- 
lacondá , que he huma das Cidades mais 
inexpugnáveis de todo o Reyno do Decan , 
por razão do lítio , citando aíTentada no al- 
to de huma ferra mui ingrime , e afpera , 
onde em hum pico tem huma fortaleza cer- 
cada de três cercas , em que fe podem aga- 
fcalhar quatro mil homens , que fica como 
torre de homenagem da Cidade , que eítá 
ao pé da fortaleza , e he de grande povoa- 
ção. E além da defensão natural que tinha 
por caula do Utio , era ainda mais defenfa- 
vel , por a muita artilheria 5 e munições de 
guerra que nella havia. 

O poder que o Hidalchan ajuntava era 
tão grande , que o Cota Maluco fenao ef- 
perava defender , porque fegundo fama , ti- 
nha cem mil de cavallo , e quatrocentos mil 
de pé. E por fer ajudado de Madre Ma- 
luco , e de Melique Virido , e do Açada- 
chan , que eram tão poderofos , tinham mui- 
tos para fi , que aquelle apparato era para 

ir 



i?6 ÁSIA de JoÂo de Barros 

ir contra EIRey de Bifnagá , poíto que com 
elle eftava então de paz. Mas EIRey de 
Bifnagá por a grande amizade, e vizinhan- 
ça que tinha com Cota Maluco , lhe man- 
dou muita gente , por fe dizer , que o Hi- 
dalchan não hia com tão grande exercito 
para fomente lhe tomar aquella Cidade , que 
era cabeça de feu eftado , mas toda a mais 
terra que tinha , o que não podia fer fem 
grande perjuizo do Reyno de Bifnagá. O 
Cota Maluco vendo fua peiToa , e eftado 
em tanto perigo , bufcava todos os meios 
para fe defender ; e porque elle tinha doze 
Portuguezes cativos , que comprara a EI- 
Rey de Orixá , mandou-os fazer ante íl , 
e fe aconfelhou com elles , que modo teria 
para defender aquella Cidade , em que con- 
íiftia fua honra , e feu eftado. Elles lhe de- 
ram taes modos , e traças para aíTcgurar a 
Cidade , que Cota Maluco lha entregou , 
moftrando ter mais fé em fua lealdade , e 
esforço , que nos feus Capitães ; mas os Por- 
tuguezes a nao quizeram acceitar fem lhes 
dar Capitão para mandar a gente , porque 
a elles que viram , havia tão pouco, em ef- 
tado fervi! , não haviam de obedecer, po- 
lo que Cota Maluco lhes deo hum Capitão 
de que mais fe fiava. Vindo o Hidalchan 
com todo o feu exercito , poz cerco á Ci- 
dade , e a começou a combater y mas os de 

dcn- 



Década IV. Liv. VIL Cap. II. 177 

dentro fe defenderam de tal maneira , que 
nos primeiros três combates lhe mataram 
mais de vinte mil homens , do que o Hi- 
dalchan ficou tão indignado , que determi- 
nou de fe nao mover dalli fem tomar a 
Cidade , em cuja defensão os doze Portu- 
guezes fizeram coufas maravilhofas ; e entre 
elles acertou de eftar hum daquelles , a que 
AíFonfo d' Alboquerque em Goa mandou cor- 
tar os narizes , e orelhas por fe lançar com 
os Mouros , que era grande artilheiro, e 
andava ganhando foldo com o Cota Moluco. 
Em quanto a Cidade fe combatia, an- 
dava o Cota Maluco no campo tomando 
todos os mantimentos que ao Hidalchan vi- 
nham , com que o poz em tanta neceílida- 
de , que de fome , e do trabalho dos com- 
bates que fe deram , lhe morreram mais de 
cem mil peílbas , em que entraram quinze 
mil de cavallo ; e no arraial andavam mais 
de dez mil homens fem orelhas , e fem na- 
rizes , daquelles que hiam bufear mantimen- 
tos , e os mais delles eram de Melique Vi- 
rido , aos quaes o Cota Maluco mandava 
foltar , e que fe foííem aprefentar de fua 
parte ao Hidalchan , e lhe diíTeíTem que man- 
daíTe a Melique Virido que lhe puzeíTe ou- 
tras orelhas , e outros narizes , dos que elle 
mandara cortar aos feus quando com elle 
tivera guerra. 
Tom AV. P.iL M Nef- 



178 ÁSIA de João de Barros 

Nefte tempo do nojo que o Hidalchan 

trazia do máo iiicceflb daquella guerra, que 
elle não efperava , e de indifpofições luas , 
lhe veio nafcer huraa apoftema de que mor- 
reo. Sua morte dous mezes eíteve encubcr- 
ta, fem ninguém do arraial o entender. A 
caufa de fe encubrir era ter elle dous fi- 
lhos , hum mais velho chamado Mal uchan, 
que houvera de Aresbabá fua primeira mu- 
lher filha d'ElRey Mamudí Xiah ; e outro 
menor por nome Melique Abrahemo , de 
outra fua mulher Chandebibij , irmã doNi- 
zamaluco , mancebo atrevido , e leve, e 
apparelhado para commetter qualquer feito 
por traveíTo que foíle , e com iíTo mui a- 
prazivel ao povo , cujas mais de ambos ef- 
tiveram á morte do Hidalchan leu marido. 
E porque na morte dos Reys , e Principes 
daquelfe Oriente he coufa mui commum 
haver alevantamentos de gente , que anda 
a roubar a terra do Senhor morto , per tem- 
po de três mezes , e mais , fe lhe não aco- 
dem , por terem por opinião , que naquillo 
moftram a dor , e fentimento que tem de 
feu Rey , para que todos faibam que per- 
deram nelle o amparo de fuás comas , e a 
paz da terra: naquelle arraial não fe atre- 
veram os filhos denunciar a morte de feu 
pai, por eílar tanta gente junta , e a tive- 
ram aquelles dous mezes encuberta. Os ir- 
mãos 



Década IV. Liv. VIL Cap. II. 179 

mãos entre fi citavam tão receofos hum do 
outro , que nem da tenda de feu pai oufa- 
vam fahir , por caufa de algum thefouro 
que feu pai tinha comfigo , porque o mais 
groíTo tinha elle na Cidade deBifapor , que 
era a cabeça de feu Eftado. 

Finalmente fabendo Maluchan de fua 
mai , como leu pai o deixava por herdeiro 
de feu Eftado , e ao Açadachan por feu 
Governador , elle em fegredo o defeubrio 
ao Açadachan ; e depois de algumas dili- 
gencias' que fe fizeram para evitarem o ale- 
vantamento , de que a principal foi fegurar 
o thefouro que eftava no arraial , e a Cida- 
de de Bifa por com algumas forças princi- 
paes , foram todos os Capitães chamados á 
tenda , onde lhe foi denunciada a morte do 
Hidalchan. E fendo aberto o tefta mento , 
per que fe vio como o Açadachan a ficava 
M ii por 

a cargo de Açadachan corre/ponde em dignidade ao 
de Condeftabre , e he de tamanha preeminência no Reyno 
do Hidalchan , que quem o tem fe ajjenta â Jua mão direi' 
ta m cima de todos os Senhores , e Capitães do Reyno , aos 
ijuaes precede em tudo , e com diferença notável faz. a cor- 
tesia , (ít que elles chamam Sumbaia , ) a EIRey , porque 
es outros Capitães a fazem todas as Luas novas em hum 
campo grande , pondo a mão direita no chão , e depois fo- 
ire fuás cabeças , jignificando que fobre ellas põe a terra 
que EíRey pi~a , o qual efiá em huma varanda vendo ejla 
ceremonia , e pafar cada hum ãelles com feus Camelos , e 
Elefantes , e com as infignias , e infírumentos de guerra, 
E o Açadachan em dias ajinalados chega com dez, ou do- 
ze mil cavallos , que jujlenta , a huma ceja de prazer fora 



1S0 ÁSIA de João de Barros 

por Governador , houve em todos muita 
indignação , dizendo , que como podia fer 
que hum cícravo os havia de governar , ha- 
vendo tantos homens notáveis , e de limpo 
fangue ? Todavia a caufa fe diíTimulou por 
medo do Açadachan , c clle fez logo que 
antes que dalli fahiflem , foíTe obedecido Ma- 
luchan por Senhor do Eftado de feu pai. 
E fegundo feu coítume , os mais lhe vie- 
ram fazer fua calema , que he como entre 
nós beijar a mão ao Rey per reconhecimen- 
to de Senhorio. 

Quando Melique Abrahemo vio o tes- 
tamento de feu pai , e que feu irmão ficava 
Senhor de feu Eftado , como elle era pou- 
co prudente, e impaciente em feus defejos, 
e achou difpoíiçao , começou logo a met- 
ter o arraial em revolta , bufeando valias , 
e ajudas para romper em guerra com feu 
irmão , aproveitando-fe então do que lhe 
euftava pouco 3 que eram palavras , e prO- 
mef- 
ífa Cidade , onde E/Key vai, e all\ lhe fax. ff Açadachan 
a fumbaia a cavallo , ou a pé , como E/Key ejliver. pró- 
prio nome ãejle Açadachan era Cufo , [a que João de Bar- 
ros chama Safo ; e por fer natural do Reyno de Lara vi- 
zinho ao de Ormuz , fe chamava Cufo Larim. Sendo man- 
cebo f veio ao Reyno do Hidalchan , a quem fervio com tan- 
to valor nas guerras contra os Portuguezes , que vagando 
naquelle tempo o cargo de Açadachan do Reyno , lho deo 
o Hidalchan , e o governo do Conca n , onde elle para fua 
ejlancia fe^ a fortaleza de Pondâ. Dio^o do Couto cap % 
6» do liv. 7. da 4# Década. 



Década IV. Liv. VII. Cap. II. 181 

meíías que fazia da governança que tinha 
Açadachan , a qual promettia a cada hum 
que o ajudado , como fazem homens que 
pertendem haver Reynos , ou Eftados que 
lhes não pertencem , os quaes fe alcançam , 
ficam malquiftos de muitos , porque não po- 
dem dividir o Eítado , ou officio que pro- 
mettêram a todos. Andando Abrahemo nes- 
tes fubornos , lhe eíereveo o Cota Maluco 
huma carta , em que lhe dizia , que fe lan- 
çaíle com elle , como lhe já outras vezes 
commettêra , e que o cafaria com fua neta , 
e lhe faria haver o Reyno do Decan. E 
que o que elle vira naquelle cerco , lhe da- 
va por fiador, e as perdas de gente, e de 
fazenda que feu pai o KidaJchan recebera 
delle , e que trabalhaíTe por grangear alguns 
Capitães, e havellos de fua parte, e logo 
alli commetteífe o negocio. Melique Abra- 
liemo , como não defejava outra coufa , não 
houve para elle neceííidade de mais efpo- 
ras , e avocando a íi dous principaes Capi- 
tães Albocane , e Melique Cuf Sarandiná * , 
começou ajuntar hum grande número de 
gente de cavallo. Porém fabendo Açadachan 
do levantamento que elle intentava , antes 
que a mais procedeífe, foi Melique Abra- 
hemo prezo cm ferros , e os dous Capitães 
Albocane , e Melique Cuf, e foram logo 

en- 

a Xanáivar lhe chama Diogo do Couto. 



182 ÁSIA de João de Barros 
entregues a hum Capitão dos principaes cha- 
mado Corgetechan, o qual com vinte mil 
homens os levou á Cidade de Panella , que 
tem hum mui forte caílello , onde os met- 
teo , ficando elle em fua guarda. ' 

a Diogo do Couto trata do principio , e fuccejsão dos 
Reys do Decan , e da rebellião dos Capitães daquelle Rey- 
no mui diferente do que João de Banos efireve nejles ca- 
pítulos primeiro , e fegundo , e no fegundo do livro quinto 
da fegunda Década , porque diz, Couto no cap. 4. ào lh>- 
10! da 4. Década , Que pelos annos de 1 ji 2 houve hum 
Rey do Deli) , que com grande exercito baixou á índia , 
e conquifiou a maior parte do Canará , povoado naquelle 
tempo de Gentios ; e tornando vitorio/o para feu Reyno , 
deixou na que lia Provinda que ganhara hum parente jeu, 
cujo nome foi Thogalaca , primeiro Rey delia da feita de 
Mafamede. EJle ajjentou fua Corte na Cidade de UJtadab , 
c por fua morte lhe fuecedeo feu filho Soltam Singabupa , 
o qual poí o nome de Decan dquelle Reyno , de que, os na- 
turaes de lie fe chamaram Decanijs. Soltam Peru fiiho de 
Singabupa mudou a Corte para a Cidade de Cabun Bar- 
gui , onde refiâiram fete Rey s f eus dêfcendentes , Singa , 
Mahamed , Muge r dar > Daul , Mahamed II , Xadom , e 
Di lagar. Morreo elle cerca dos annos de 141 5 , e fuece- 
deo- lhe feu filho Soltam Piros , que foi Rey moralmente 
virtuofo : fundou duas Cidades , huma chamada Pirojzcbat , 
(que ha hoje das principaes do Reyno do Idalxiah , ) e ou- 
tra Xar Bedar , ou Bider , para a qual mudou fua Corte. 
A efie Kev fuecedéram outros fete Reys , Mahamed III , 
fíomahã ,' Hamed\ Homem, Mahamed IV j Valebar , e 
Datulir , homem faço , e de pouco governo , que repartjo 
o Befno do Decan em capitanias, huma deo a Adelcan , 
(a quem chamamos Hidalchan ,) que era Jnfíica maior de 
feus Reynos , cuja capitania fe eftendia pola cofia do mar 
quafi fefienta léguas, defde Àngediva té Cif ar dam. De Ci- 
fardam ti Nogotana , que s7w pouco ma>s de dote léguas 
de cofia, deo a Ni^aman Moluc , [que he o Nzama/uco , ) 



Década IV. Liv. VIL 183 

CAPITULO IIL 

Como levando Maluchan o corpo de feu 
pai ajhpultar, lhe veio ao caminho Cota. 
Maluco , e houve batalha com Melique Vi- 
vido : e como Abrahemo foi foi to por Coger- 
techan , efoccorrendo-o Nizamalucofeu tio , 
foi prezo Maluchan. 

TAnto que a Maluchan veio nova como 
Abrahemo , e os Capitães Albocane , 
e Melique Cuf eram prezos em Panella , 

par- 

pagem da fua lança. Na terra , que fica ao Levante de/las 
duas capitanias , na Comarca dos Talingas , que confina com 
o Reyno de Canora polo Norte , e polo Oriente com o de 
Orixá y poz Soltam Daudar a Coth Moluc feu JViefoureiro 
mor , a que erradamente chamamos Cota Maluco. E aquel- 
7a parte de Hadaverar , (que quer di%er terra de caf a men- 
tos , porque alii vam todos os Gentios do Decan fazer fuás 
vodas , ) que fica ao Noroejle do Ejlado do Cota Maluco , 
e confina com o do Miram , e Virgi , que já são de Cam- 
íaya , deo a Idmad Moluc Condeflabre mór do Reyno , 
que com a mefma corrupção chamamos Madre Maluco. Rey- 
nou Soltam Daudar fete annos , ficou-lhe hum fiiho de pou- 
ca idade debaixo da tutoria de hum Capitão chamado Vi- 
ndo , Ungaro de nação y Amieiro mór d J ElRey\ Em tempo 
defie , nos annos de 144° > fe levantaram os quatro Capitães 
cada hum com as terras que governava , e o Vir ido fe en- 
tregou do mico Rey , e da pequena parte do Reyno de De- 
can , que lhe deixaram os Capitães rebelfados , na qual fi- 
cou a Cidade de Xarbedar. E como efle Rey teve idade, 
Virido o ca/ou com huma filha fua , de que houve hum fi- 
lho , que depois foi cafado com huma filha do Idalxiah , » 
lie o verdadeiro herdeiro de todos efes Efiados ufur pados , 
dos quiws pojjue o menor quinhão. 



184 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

partio com o corpo de feu pai para lhe dar 
fepultura na Villa de Gogij , oiro léguas de 
Bifapor , contra as terras do Cota Maluco , 
onde tinha feu jazigo. E porque o corpo 
havia depaflar neceíTariamente per hum pal- 
io entre numas ferras tão afpero , que fe 
i]ão podia ir per elle fenão a fio , alli veio 
Cota Maluco efperar a Maluchan ; e como 

na 

O Hidakhan poz a fua Corte na Cidade de Bifapor , 
andava nella hum Turco chamado Cufo , que em tempo de 
Soltam Daudar foi ter a Xarbedar , mancebo , e pobre em 
huma cáfila de mercadores -, e quando fe levantaram os Ca- 
pitães , fe pafiou Cufo para o Hidakhan , que fe lhe afei- 
çoou tanto y que era por elle governado. Mataram ao Hi- 
dalchan feus vafjallos , jujlo cajligo de fua traição , como o 
tiveram os outros Capitães , cujos EJiados não lograram 
feus herdeiros , e vieram a poder de outros t\rannos. Dei- 
xou o Hidakhan hum filho de poucos annos , apoderou fe 
Cufo delle , e do Eftado per fua morte , que fuccedeo hum 
anno depois que mataram ao Hidakhan. Efle titulo tomou 
também Cufo : ejlendeo os limites de feu Senhorio , e con- 
quifiou a ílha de Goa , que pofjuia hum Senhor Canarà 
chamado Savay , vaQallo d^ElRey de Canará- E por não 
fer verdadeira a informação que dejlas coufas deram a João 
de Barros , confundia o nome do Gentio Savay com o de 
Cufo Hidakhan , que era já Senhor de Goa quando as 
armas Portuguesas entraram na índia. Viveo Cufo tê o 
anno de 1 jo j : ficâram-lhe dous filhos . Ifmael , e Meale , 
Ifmael como maior herdou o Eftado , e titulo de Hidakhan , 
a quem o grande Atfonfo d^A/boquerque tomou Goa. Mor- 
reo Ifmael Hidakhan no anno de 1554: fuccedêram-lhe dous 
filhos , Maluchan , e Abrahemo , que são ejles dous , de que 
trata João de Barros nos dous capítulos pagados. 

Afirma Diogo do Couto , que tiiou efla relação das 
Chronicas dos Reys do Decan , e o foube per informação f 
que lhe deram Embaixadores dejles Príncipes , e Meale- 
chan filho de Cufo Hidakhan. 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. III. i8y 

na avanguarda do exercito h ia Mc li que Ve- 
rido , e no corpo da batalha Maluchan com 
o corpo de feu pai , e luas mulheres , e fa- 
mília , e o Açadachan na retaguarda , deo 
Cota Maluco na avanguarda com quatro 
mil homens efcolhidos para efte feito ; e co- 
nhecendo a diyiíà que era de Melique Ve~ 
rido feu grande inimigo , com maior impor- 
to rompeo a gente , e foi de maneira , que 
logo ferio a Verido de huma frechada em 
hum braço , e com hum zarguncho lhe paf- 
fáram hum ombro. Tanto que cita nova 
veio ter ao Açadachan , ainda que vinha 
longe , acudio , e querendo-o as mulheres 
do Hidalchan entreter 3 pedindo-lhe que não 
paííaíTe adiante , e que foliem rodear per 
outra parte , elle refpondeo : Nunca Deos 
queira , que levando eu aqui o corpo de meu 
Senhor y e fuás mulheres , que he a minha 
honra , deixaffe de ir avante \ porque , que 
maior gloria pojjò eu defejar , que morrer 
diante delias , por defender o corpo de meu 
Senhor , efuas peffoas ? E não fe detendo , 
paíFou adiante , e a revolta fe acabou com 
o Cota Maluco perder mil homens , em que 
entraram quatro Capitães , hum era feu gen- 
ro , e hum Abexij feu Capitão geral 5 e elle 
foi ferido levemente. Com eíle dam no fe 
retirou Cota Maluco pela efpéíTura das ma- 
tas ; que per alli ha mui grandes , como 

quem 



i86 ÁSIA de João de Barros 

?|uem fabia as veredas delia , por ferem em 
ua terra , e ou para o não bu içarem , ou 
para alguma eítratagema que determinava 
ordenar , fez que lançaíTem os feus fama, 
que naquclle recontro fora morto ; e maior 
foi o damno que alli recebeo , que o que 
teve na Cidade Goulaconda , que lhe de- 
fenderam os Portuguezes ; mas elle também 
fe vingou , matando da gente do Verido , 
e do Açadachan três mil e quinhentos ho- 
mens , a fora os feridos , em que também 
o Açadachan entrou. 

Tornando- fe ajuntar , e ordenar o exer- 
cito , quizera Maluchan com aquelia nova 
da morte do Cota Maluco , que antes que 
foliem mais adiante , tornalTem á Cidade , 
que tiveram cercada para lha tomar, e aíil 
todo o Eílado. Mas efte confelho não ap- 
provou o Açadachan , porque como fagaz 
que era , e tinha tratado o Cota Maluco 
muito tempo , e íabia fer manhofo , e cheio 
de aílucias , diífe que fua morte era fingi- 
mento , que foffem em boa hora feu cami- 
nho , e aíli fe fez , deixando aquelia em- 
preza para outro tempo mais conveniente , 
porque naquelle primeiro anno alTás tinha 
que fazer Maluchan em aíTentar as coufas 
de feu Eftado. Chegados a Gogij , onde 
fepultáram ao Hidalchan , e lhe fizeram fuás 
exéquias fegundo feu ufo , foi-fe Maluchan 

á Ci- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. III. 187 

Cidade de Bifapor , e dalli defpedio a 

Madre Maluco , e Melique Verido para 
irem pôr cobro em fuás terras. E porque 
com os alevantamentos que em as próprias 
havia , andava tudo revolto , e não ouíava 
ninguém caminhar , mandou a Açadachan 
com hum groíío exercito a pacificar os le- 
vantados. 

Neíte tempo Melique Abrahemo , que 
eílava prezo , começou a cartear-fe com feu 
tio o Nizamaluco ; e lua mái Chandebibij , 
que com elle eílava , fazia o mefmo , cho- 
rando com muitos queixumes a prizao de 
feu filho , pedindo-lhe como a bom irmão 
que o vieíTe tirar delia , dizendo , que não 
faltava para fer livre mais que mover-íe 
elle a iííò , fegundo o tinha entendido de 
Cogertechan , que fó com quatrocentos ho- 
mens de armas eílava em guarda de feu fi- 
lho. O Nizamaluco, que defejava fueceder. 
cafo para fe fazer Senhor do Eirado que 
Abrahemo pertendia , fe fez preíles com 
pretexto que o queria ir livrar da prizao 
em que eílava ; mas quando chegou , já Co- 
gertechan o tinha folto , com as promeífas 
que lhe Abrahemo fez de lhe dar o gover- 
no do Eílado , e outras coufas , a fora o 
que a mai de Abrahemo lhe deo em di- 
nheiro, e jóias, como mulher rica que era. 
E ao tempo que o Nizamaluco chegou á 

Ci- 



1 88 ÁSIA de JoXo de Barros 

Cidade de Panclla , já Abrahemo tinha mais 
de quatro mil homens tomados a íoldo , 
com o dinheiro que lhe a mãi dera , c ou- 
tra mais gente que Corgetechan ajuntou , 
deila a foldo , e delia que vinha a feguir a 
ventura daquelle Principe , por fer conheci- 
do por benigno , e liberal , partes que mais 
ganham os corações dos homens , e per que 
muitos Principes de pequenos principios vie- 
ram a fer mui grandes , e celebrados. A 
caufa por que Cogertechan foltou a Abrahe- 
mo , e aos dous Capitães que com elle ef- 
tavam , alem das dadivas , e promeffas que 
lhe foram feitas , foi , porque receava que o 
Nizamaluco lho tomaria per forças , e per- 
deria elle o beneficio de o foltar , além de 
perder na defenfa o Eftado > e a vida 3 po- 
lo que fe quiz anticipar. 

O Nizamaluco chegou com grande exer- 
cito junto á Cidade de Bifapor , onde Ma- 
luchan eílava , cujos Capitães o entregaram 
prezo ao Nizamaluco , por temerem o gran- 
de poder com que vinha , o qual logo fez 
levantar por Senhor a feu fobrinho Abra- 
hemo , com as ceremonias que entre elles 
ufam ; e em pago da prizao de Cuf , que por 
amor delle Abrahemo teve , lhe entregou a 
feu irmão Maluchan prezo em ferros , para 
que ficaífe com elle alii em Bifapor , e o 
guardafle com três mil homens de armas. 

Mc- 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. III. 189 

Mclique Verido como íbube que o Ni- 
zamaluco foltára leu fobrinho Abrahemo , 
e o mettéra em poííe do Eílado , parecen- 
do-lhe que aíli o tio , como o iòbrinho 
poderiam ter neceílidade delle , por as cou- 
ias fe armarem de maneira , que fe podia 
eíperar guerra , efcreveo ao Nizamaluco , 
que elle feria em feu favor , quando lhe 
cumpriífe , e ajudaria com todo feu poder 
a Melique Abrahemo , com tanto que lhe 
défle lua irmã Chandebibij por mulher. 
Quando Chandebibij foube da carta de Me- 
lique Verido , ficou tão indignada por aquel- 
le atrevimento de hum vaíJallo de feu ma- 
rido , e ao prefente de feu filho , a pedir 
per mulher ? que pondo-fe ante feu irmão , 
e feu filho , com muitas lagrimas lhes pe- 
dio ambos juntamente foífem logo vingar 
aquella grande injúria. O Nizamaluco , que 
(como diíTemos ) mais fe moveo a vir fol- 
iar feu íobrinho para tomar para íi oEíla- 
de do Hidalchan , que para o pôr nelle , 
apazigou a irmã com palavras , dizendo- 
lhe , que tudo tinha feu tempo , e que aífi 
o haveria para aquelle caítigo tão bem me- 
recido ; mas que o que cumpria então era 
diflimular todas as offenfas , té fegurar feu 
filho naquclle Eílado. E por não defefperar 
da pretenção a Melique Verido , lhe re- 
fpondeo brandamente, dando-lhe efperança 

de 



ioo ÁSIA de João de Barros 

de o contentar no que fofle nelle ; e que 
ília irmã não tinha ainda enxugado as la- 
grimas pola morte do Hidalchan íeu mari- 
do , e poios trabalhos em que vira , e via 
a íeu filho , que por iíTo a deixava fatisfa- 
zer a feus nojos té paíTar algum tempo , 
que cura todas as paixões daquella qualida- 
de , e que entretanto elle acceitava feu oíFe- 
recimento , e o punha á fua conta para o 
pagar quando lhe cumpriíTe. 

CAPITULO IV. 

Como indo o Açadachan a Bifapor li- 
vrar da prizão a Maluchan 5 Melique Cuf \ 
que o guardava , lhe arrancou os olhos , e 
com elle , e com o thefouro fe foi para 
Ahrahemo : e das differenças que trouxe- 
ram muitos Capitães do Decan : e da mor- 
te de Melique Cuffo Cocheca. 

OAçadachan antes que partiíTe para ir 
aíTentar os levantamentos do Reyno 
do Decan , tirou do thefouro do Hidalchan 
quatrocentos mil pardáos d'ouro , dizendo 
ferem neceííarios para defpeza da guerra 
que hia fazer. E o primeiro caminho que 
fez , foi para as fralda., da ferra de Gate , 
(que he aquelle grande ei^ : nhaço, e corda 
de ferranias , que vai do Norte para o Sul , 
té acabar no cabo deComorij 3 ) quecahem 

pa- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. IV. 191 

para o mar , nas terras de Curale , Saiíim , 
Parvolide , e Banda , que ficam acima de 
Goa. Neítas terras andam falteando trcs Ca- 
pitães Gentios , Bcrugij , Verugij , e Ramu- 
gij , que eram da geração daquelle Como- 
gij , que antigamente fera Senhor delias , 
como na terceira Década diflemos * , quan- 
do Ruy de Mello Capitão de Goa as to- 
mou ao Gentio deita linhagem. Eíles tra- 
ziam quinze mil homens de pé , e por a ter- 
ra íer mui afpera , e de ferrania , íe embor- 
cavam de maneira , que o Açadachan anda- 
va em buíca delles , como quem andava 
monteando , dando ora em huns , ora em 
outros. 

Andando nefte trabalho , lhe deram no- 
vas de como Melique Abrahemo era folto , 
e levantado por Senhor do Decan , e pre- 
zo Maluchan , e pofto em guarda de Meli- 
que Cuf. A qual nova o intrifteceo tanto , 
que deixada a montaria em que andava , 
partio logo caminho de Bifapor a foltar 
Maluchan, para o que ajuntou amais gen- 
te de cavallo que pode. Melique Cuf que 
o tinha em guarda , temendo efta ida do 
Açadachan , e que lhe podia tomar Malu- 
chan , por o muito poder que levava , com 
tamanho atrevimento, como crueldade , lhe 
arrancou os olhos , e tomando-o a elle , e 

ao 

a Capitulo 5. do livro 4. 



lyz ÁSIA de Jov\o de Barros 

ao thelburo que tinha comfigo , foi-íc ter 
com Melique Abrahemo á Cidade de Cal- 
berga. O Açadachan como teve nova que 
Maluchan eftava cego, eelle, e o dinheiro 
em poder de Abrahemo , deixado o cami- 
nho de Bifapor , tomou o de Calbcrga. 

Sabendo Abrahemo da ida de Açada- 
chan , e parecendo-lhe que por haver fido 
feitura do Hidalchan feu pai , folgaria de 
o fervir, já que a Maluchan o não podia 
fazer , lhe mandou ao caminho muitas car- 
tas com todos os mimos , e branduras com 
que podia aplacar- fe , dizendo-lhe , que pois 
Deos aquillo ordenara per mão daquelle 
máo homem , cegando feu irmão , engana- 
do por lhe parecer que com aquelle feito 
íe efeufavam muitas mortes de entre elles , 
houveíTe por bem de lhe ir obedecer , por- 
que d\e lhe promettia de o fazer feu Go- 
vernador , como era de feu irmão , com 
mais acerefeentamento de honra , e eftado 
do que elle tinha j dizendo mais , que fe- 
não caftigára logo a Melique Cuf , por o 
grande crime que commetteo , era porque 
andavam as coufas tão revoltas como elle 
fabia , polo que não cumpria bufear novos 
ódios , fenao paz , e concórdia ; mas que 
elle lha tinha guardada para feu tempo , co- 
mo veria. O Açadachan , como homem que 
fe não fiava de tantos mimos , e cumpri- 

meo- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. IV. 193 

mentos , tanto que chegou á Calberga , af- 
íentou leu arraial , fegundo o ufo que el- 
les tem afli na paz , como na guerra ; por- 
que como os tyrannos todo o tempo , e 
lugar , e peíToas lhes são fufpeitas , tinha 
Açadachan fua tenda fó no meio de huma 
grande praça , defpejada ao redor hum bom 
efpaço de todas as outras tendas ; em tor- 
no delia em modo de cerca eílava toda a 
gente de cavallo , e eíla também apartada 
de toda a outra gente outro efpaço ; e além 
deite, citavam os elefantes pela mefm a ma- 
neira de cerca ; e na mefma ordem , e dis- 
tancia ficava a gente de pé de maneira , 
que quem quizeíle ir fallar ao Açadachan 
na tenda , havia de paífar por todos eíles 
muros , e efeampados para iér viílo de to- 
dos. 

Tendo o Açadachan alojado o feu ar- 
raial neíla ordem , cinco léguas do de Abra- 
hemo , mandou per hum feu criado cha- 
mado Cacem pedir-lhe hum feguro para 
ir a elle , ao qual Melique Abrahemo re- 
cebeo com muita honra , e gazalhado. E 
paiTadas muitas coufas entre elles , por Abra- 
hemo achar difpofiçao em Cacem , lhecom- 
metteo que mataíTe ao Açadachan , e que 
elle lhe promettia de lhe dar todo o feu 
Eftado , além de outras mercês , e que per 
cíle modo ficava livre de fer eferavo de 
T0m.lKP.1L N hum 



194 ÁSIA de Joiío de Barros 

hum efcravo. Acceitado o partido , e torna- 
do Cacem ao Açadachan , dcfpejou a ten- 
da por íct de noite , e ficou fó com elle 
ouvindo o que paíTára com Abrahemo , e 
o contentamento que irsoílrára ter delJe , e 
deíejo de íe verem ambos. Huns* dizem , 
que o Açadachan foi avifado per via de 
algum amigo , que tinha no Coníelho de 
Abrahemo , com quem elle communicou 
efle cafo ; outros , que o Açadachan era tão 
agudo de engenho, efufpeitofo de fua con- 
dição , que nos meneos , e prática de Ca- 
cem entendeo que trazia o animo damna- 
do ; e como era já alta noite , o matou 
com fuás mãos com hum punhal ; e ao ou- 
tro dia , fem diíío dar conta a ninguém , 
deixando feu arraial aífentado como eftava, 
fe partio a grande preífa fó com doze de 
cavallo , que levou para guarda de fua pef- 
foa. E fendo já alongado do arraial efpa- 
ço de huma légua , mandou ao Capitão , 
que tinha cargo de o aífentar 5 o levantaf- 
fe , e o feguiífe com boa ordem caminho 
de Bilgan , onde tinha feu aiTcnto. Meli- 
que Abrahemo como teve nova , que o ar- 
raial era levantado , e o Açadachan defappa- 
recido , e que Cacem fora achado em fua 
tenda morto , entendeo que o que com cll^ 
paliara fora fabido pelo Açadachan , e man- 
dou alguma gente que folie em feu fegui- 

men- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. IV. 19? 

mento , a qual nao o podendo alcançar, 
degollou alguma da retaguarda. 

Melique Abrahemo com a partida do 
Açaddchan íe foi aBider, que era de Me- 
lique Virido , para o caftigar da oufadia , 
que tivera em mandar commetter ao Ni- 
zamaluco , que lhe déíTe por mulher a mai 
delle Abrahemo. Para efta guerra o vieram 
ajudar o Madre Maluco , e Cota Maluco , 
que era o que mais defejava deftruir a Ve- 
rido , por ferem inimigos antigos , e vinha 
também por a pretensão de ter Abrahemo 
por genro. Melique Verido fabendo que 
eftes dous Capitães vinham em companhia 
de Abrahemo , e que o Nizamaluco fe fo- 
ra fingindo huma neceílidade fubita , enten- 
deo que o nao queria defender ; e nao fe 
atrevendo efperar o Ímpeto daquelles feus 
contrários , defamparou a Cidade de Bider , 
e fugio fó , levando o mais dinheiro que 
pode haver. Abrahemo foi o primeiro que 
chegou a Bider , e tomou poíte delia , on- 
de achou muitos cavallos , e elefantes , de 
que fe forneceo , tendo delles neceíTidade. 
Havendo já três dias que eítava na Cidade , 
chegou Madre Maluco , e Cota Maluco , 
e aííentáram feus arraiaes duas léguas da Ci- 
dade , por faberem ter já tomado Abrahe- 
mo poíte delia fem peleja , e que o Verido 
defapparecêra. Eítes Principes ambos per- 

N ii ten- 



iqó ÁSIA de João de Barros 

tendiam ter por genro a Melique Abrahe- 
rno , querendo Cora Maluco dar-Ihc huma 
neta, e o Madre Maluco huma filha; mas 
Madre Maluco fe anticipou ; e quando o 
outro o íbube , calou-fe íem fallar nifib a 
Abrahemo, tendo-lhe já fallado havia dias, 
como temos dito atrás. Porém Abrahcmo 
quando vio que lhe não fallava Cota Ma- 
luco , o commetteo ; mas elle fe efeufou 
dizendo , que ília neta çra menina mais pa- 
ra crear, que para cafar, que elle para iflb 
a creava , que entretanto bailava a filha de 
Madre Maluco , e que por eíta cauíá , e 
fer feu amigo deixara de lhe fallar niflb. 
Melique Abrahemo , porque dtíejava de fe 
liar com eftes dons homens per cafamen- 
tos , por lhe cumprir aííi para fuás coufas , 
tanto apertou com Cota Maluco , que lhe 
prometteo fua neta , como tornatle para feu 
Eftado. Acabados eftes concertos, Melique 
Abrahemo fe partio para Bifa por; mas não 
quiz alíi citar mais que em quanto deo or- 
dem para deixar naquella Cidade feu irmão 
prezo , aííi cego como citava , onde lhe 
deixou guardas de fua peífoa , e o neceíTa- 
rio em abundância para feu fuftcnto , c da- 
quclles que o ferviítem , e dahi fe tornou 
a Calberga , e o Madre Maluco, e Cota 
Maluco para fuás terras. 

Cogertechan per o beneficio que a Me- 

li- 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. IV. 197 

liquc Abrahemo fizera de o foltar , e lhe 
dar o Ter que tinha , efperava que fízeíle 
delle muita conta , e lhe déíTe o governo 
de feu Eítado , como lhe promettéra. Polo 
que vendo que o fazia ao contrario, indi- 
gnado daquella ingratidão , fecretamente fc 
foi para o Açadachan , e fe confederou com 
elle em ódio de Abrahemo , e fe foram 
contra a Cidade de Calaça. Era ainda vi- 
vo hum irmão do Hidalchan a , e tio de 
Melique Abrahemo , ao qual eferevêram 
ambos , animando-o que fe quizeíTe levan- 
tar , e vir para elles , que o fariam Senhor 
do Eítado que fora de leu irmão , de que 
elle era mais digno que feu fobrinho , que 
per tão máo titulo o houvera. Mas como 
elle fempre fora de fraco animo, e froxo, 
não reípondeo ao propoíito delles. Polo 
que declarados o Açadachan , e Cogerte- 
chan por inimigos de Abrahemo , determi- 
naram de metter em íua liga a Melique 
Cuífo Cochcca , e para iíTo foram bufcallo 
á Cidade de Calará , de que era Senhor , 
e achando nova que era ido contra a parte 
da ferra de Gate , que cahe fobre Dabul , 
com propoíito de ir roubar aquellas terras , 
folgaram muito , por fer elle também le- 
vantado , e fora da obediência de Abrahe- 
mo. E logo ambos eítes novos amigos lhe 

a EJU era Mtalechan* 



198 ÁSIA de João de Barros 

efcrevêram , que o vieram bufear para tra- 
tarem algumas couías , que lhe a elle rele- 
varam , que aflignalafle o lugar onde que- 
riam que ib viíTem ambos. O fundamento 
com que Melique CuíFo fahio de Calará , 
foi efeorchar Mujatechan Tanadar de Da- 
bul de algum dinheiro. Ao qual de cima 
da ferra mandou dizer , como andava na 
guerra fervindo o Hidalchan , e que elle 
Mujate era rendeiro , que eftava mui def- 
cançado em Dabul enchendo-fe de dinhei- 
ro , que lhe mandaífe logo huma certa quan- 
tidade para pagar o foldo a quatro mil 
homens que trazia comfigo. Mujatechan fa- 
bendo que fahia elle de Calará para o vir 
deftruir , fe lhe não refpondeíTe á fua von- 
tade no que lhe pedia , e que também vi- 
nha em propofito de ir tomar as terras de 
Parvolide, que entáo eram de Aga Mufta- 
fá , mandou-lhe avifo da determinação de 
Melique Cuífo , e que fe fízeíTe preftes. E 
poíto que antes náo eítavam correntes na 
amizade , fe fizeram então amigos na com- 
mum defensão , e em ódio de Curro , e íe 
viram na terra de Chaporan ; e jurada fua 
amizade , com dez mil homens íe foram 
ao cume da ferra do Gate em bufea de feu 
inimigo. Melique CuíFo ou porque os te- 
meo , ou porque naquelle tempo lhe deram 
o recado que diffemos do Açadachan , e 

de 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. IV. 199 

de Cogcrtechan , deixou-os com feus aper- 
cebimentos , e foi-íe ver com o Açada- 
chan , e com Cogertechan ; e indo primei- 
ro ao arraial de Cogertechan , elle lhe fa- 
hio ao caminho , e encontrando-fe ambos , 
e abraçando-fe , Cogertechan arrancou de 
huma adaga , e lhe deo duas adagadas , 
de que logo lhe cahio aos pés morto ; e 
fem mais eíperar , nem o fazer faber a Aça- 
dachan , a grande preíía fe foi metter de 
poífe da Cidade , e de quanta fazenda Me*- 
Jique CurFo tinha. O Açadachan , que com 
elle eílava contratado , que o ganho que 
naquelia empreza a que hiam houveíTem , 
foíte repartido entre elles igualmente , por 
Cogertechan o não querer cumprir , e fe 
efeufar dizendo , que como lhe havia de 
dar parte do que elle por fi íó ganhara , 
fem ajuda fua ? fe anojou muito delle , mas 
fofiYeo a indignação daquelle cafo por não 
haver tempo para fe vingar , e deixando 
o caminho que levava > íè tornou ás fral- 
das do mar. 



CA- 



200 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO V. 

Como o Açaâachan fez que o Achandegij 

viejje a tomar as terras , que foram de 

Jeus avós , dando-lhe para ijfo favor , 

e ajuda : e do que elle fez com 

outros Capitães. 

IOgo que o Açadachan foi da outra par- 
j te da ferra , mandou recado a Achan- 
degij , que fora filho do Senhor de Parvo- 
lide , e andava em Cambava , que vieífe 
tomar as terras que foram de feu pai , e 
avós , e que elle o favorecia com gente , e 
dinheiro para as cobrar; o que logo Achar,- 
degij fez , e chegado áqueílas terras , achou 
recado do Açadachan , e dinheiro , com 
que logo fez dous mil homens , com os 
quaes começou de roubar as Tanadarias dos 
Mouros. E por elle fer natural Senhor da 
terra , o Gentio fe ajuntou a elle de manei- 
ra , que em pouco tempo lhe vieram mais 
de outros mil homens. Aga Muftafá , que 
era Capitão daquellas terras por o Hidal- 
chan , acudio com gente grofTa a efte da- 
mno ; mas nao pode dar batalha a Achan- 
degij , por lhe andar fugindo por lugares 
afperos , e montuofos , na qual retirada hia 
roubando , e deílruindo a terra , e per efte 
modo matou a Muftafá mais de dez mil 

ho~ 



Década IV. Liv. VIL Cap. V. 201 

homens. E foi correndo do Norte para o 
Sul per toda aquella fralda do mar até as 
terras de Curai , e Antruz , que são já das 
terras firmes de Goa. Aqui fe ajuntou com 
os outros Capitães Gentios Berugij , Veru- 
gij , e Ramugij , que também per aquellas 
partes andavam fazendo outro tanto damno. 
Nefte tempo citava já Açadachan reco- 
lhido na íua Cidade de Bilgan , e daíli ef- 
creveo muitas vezes a Mujatechan Tanadar 
de Dabul , que entrafle na fua liga , fazen- 
do guerra per aquella parte , e clle faria 
per baixo outro tanto , e ficariam ambos 
Senhores dos portos do mar , e dando obe- 
diência ao Governador da índia , ficariam 
feguros , do qual não feriam tão refpeita- 
dos como eram de Melique Abrahemo, e 
que fazia fundamento de lhe entregar as 
terras firmes de Goa. Deita confederação 
fe efeufou Mujatechan dizendo , que o Go- 
vernador Nuno da Cunha não havia de 
acceitar tal coufa , por ter aíTentadas pazes 
com o Hidalchan , nem elle havia de des- 
obedecer a feu Senhor , por não fer ha- 
vido por traidor. Vendo Açadachan efte dei- 
engano , o fez logo faber a Cogertechan , 
que eítava na Cidade de Calará , tornando- 
fe a reconciliar com elle , provocando-o 
que foíTe fobre Mujatechan. O que elle lo- 
go determinou fazer ^ mas primeiro man- 
dou 



202 ÁSIA de João de Barros 

dou dizer a Mujatechan , que bem fabia 
ecrao lhe dera a vida em o livrar de Me- 
lique CuíFo Cocheca , que dÍQ matara ; e 
pois com aquella morte tudo o que tinha 
ellc lho dera , lhe mandaífe os íeus elefan- 
tes , e alguns bons cavallos Arábios , e al- 
guma ajuda de dinheiro para pagar a gente 
que trazia , com que fe haveria por latis— 
feito , íènão que fe apercebeífe ao caíligo , 
que lhe logo iria dar , como a homem in- 
grato. Cogertechan não contente da refpof- 
ta de Mujatechan , mandou dizer a João 
Criado Feitor d'ElRey de Portugal em Da- 
bui , que poílo que lhe diíTeflcm que elle 
liia fobre Dabul , que não temefle , por 
quanto elle não havia de tocar em peiToa 
alguma , nem coufa d ? ElRey de Portugal , 
e fomente hia a caíligar ao Tanadar Muja- 
techan. João Criado lhe refpondeo , que 
não fizeíTe tal caminho , porque elle havia 
de defender o Tanadar de quem mal , ou 
damno lhequizeíle fazer, como fefoíle na- 
tural Portuguez. E porque entre elles hou- 
ve outros mais recados , mandou João Cria- 
do pedir foccorro a Chaul , que eftá dallí 
dezoito léguas , com que ajuntou vinte bar- 
gantijs , e algumas fuftas , que Nuno da Cu- 
nha lhe mandou de Goa para aquelle cafo. 
Com efte favor Mujatechan foi efperar Co- 
gertechan no lugar onde elle efperava a Me- 



Década IV. Liv. VIL Cap. V. 203 

liqoe CufFo ; mas Cogertechan não oufou 
vir bufcaiio , por iaber que citava favore- 
cido do Feitor. 

PaíTados alguns dias , e partido João 
Criado , por acabar feu tempo da Feitoria , 
tornou Cogertechan repetir a mefma con- 
tenda , até que vieram a batalhar no lugar 
onde Mujatechan o foi bufcar da outra vez. 
Neile rompimento perdeo Mujatechan qua- 
trocentos homens de cinco mil que levou , 
e outros favoreceram o vencedor , lançan- 
do-fe com elle, que eíte he o coftume da- 
quellas gentes , por a pouca lealdade que 
nelles ha ; e o vencido fe acolheo a unha 
de cavalío á fua fortaleza de Chaporan leis 
léguas de Chaul , onde tinha a maior parte 
de fua fazenda. Cogertechan com eíla vito- 
ria fe foi logo caminho de Dabul , man- 
dando dizer diante que ninguém fugiífe, 
porque elle não hia mais que a tomar a fa- 
zenda do Tanadar, por os roubos que fa- 
zia na terra ; mas não querendo experimen- 
tar fua verdade os Guzarates , e outros mer- 
cadores ricos , fe recolheram , e Cogerte- 
chan o cumprio também , que não fez no- 
jo a pefToa alguma , fomente fe contentou 
com tomar a fazenda de Mujatechan, além 
do mais que trazia do feu arraial , que eram 
elefantes , e cavallos. E por affi entrar íèm 
offenfa de alguém , e ufar de muita tem- 

pe- 



104 ÁSIA de João de Barros 

pcrança , foi recebido de todos de boa von- 
tade , a qual elíes nao tinham a Mujate- 
chan por os defpeitar mui cruamente. O 
qual desbaratado , e recolhido na tua forta- 
leza de Chaporan , eíleve nella todo o in- 
verno, fem ouíar de ir a Mclique Abrahe- 
mo , que fe já chamava Hidalchan como 
feu pai , porque lho era forçado palTar por 
as terras de feu inimigo Cogertechan. Nem 
também oufava ir per mar bufear o Gover- 
nador Nuno da Cunha , em que eíle tinha 
muita confiança , por caufa do inverno , em 
que fe não podia navegar. 

Cogertechan , paíTados alguns dias , de- 
pois defta vitoria , foi-fe para a Cidade de 
Calará , e fegundo diziam , já perdoado da 
morte de Mclique Curfo Cocheca. O qual 
CuíFo tinha hum filho , e vendo que por 
duas peitas , que eíle matador de feu pai 
deo , o Hidalchan o tornou em fua graça , 
andou hum dia ao redor de Calará vendo 
fe achava azo de o matar , e quando não 
pode , com alguma gente que ajuntou an- 
dou a roubar as terras , como os outros 
faziam. Cogertechan tomada polfe de Ca- 
lará , e de todas fuás rendas^ e perdoado 
do Hidalchan dos males que tinha feitos , 
determinou de com grande apparato de ca- 
ft , e ^ente ir a Bifa por a fazer calema ao 
Hidalchan ; e ao fervir. Mas porque ao 

tem- 



Década IV. Liv. VIL Cap. V. 205- 

tcmpo que chegou foube que havia dous 
dias que elle mandara cortar as orelhas a 
Melique Cuf Sanadiná , que era àquelle , que 
cuidando que niíTò o fervia , arrancara os 
olhos a Maluchan , não quiz experimentar 
em fua peííoa outro tal galardão , como o 
que o Hidalcan deo a quem lhe deo a vi- 
da , e o Eftado ; e dahi a poucos dias, 
fingindo certa neeeífidade , fe tornou a Ca- 
lará , lembrando-lhe o que tinha feito. Co- 
mo foi em Calará , fe carteou com o Ni- 
zamaluco , commettendo-lhe que o reco- 
lhefle em fcu ferviço ; e como teve feu re- 
cado , com toda fua fazenda fe foi para 
elle. O Nizamaluco com a lealdade , e fé 
que naquella nação ha , como com elle foi , 
lhe tomou quarenta elefantes , que levava , 
e duzentos cavaílos, e grande movei de ca- 
fa , e muito dinheiro , fem lhe deixar mais 
que quanto tinha veílido. Outros dizem , 
que alguma coufa lhe deo por o que lhe 
tomou , principalmente por os elefantes, 
e cavaílos , dizendo que os havia meíler, 
mas que foi tão pouco , que elle o não 
quiz acceitar. E porque Cogertechan com 
temor pedio ao Nizamaluco licença para fe 
embarcar para Meca , o Nizamaluco man- 
dou com elle hum feu Capitão per no- 
me Cofcam com quatrocentos de cavallo a 
Chaul para ahi fe embarcar , mandando 

áquel- 



2o6 ÁSIA de João de Barros 

áquelle Capitão que fe não viclíc fem o 
deixar embarcado. 

Simão Guedes , que citava por Capitão 
da fortaleza de Chaul , como foube que 
elle eílava no Argao , que fera da fortaleza 
huma légua , por a informação da peíToa , 
e qualidade de Cogertechan , lhe mandou 
dizer , que fe houvefie por bem de fe re- 
colher naquella fortaleza , que elle o aga- 
zalharia nella de boa vontade , até fe de- 
terminar no que queria fazer de íi. Elle com 
palavras de homem , que vinha em tão trif- 
te eftado , lhe mandou agradecer muito aquel- 
la ofFerta 3 e a acceitou , e Simão Guedes 
per ília peílba o foi bufear , e o trouxe á 
fortaleza , onde lhe mandou dar o melhor 
apofento que havia , com todo o neceífa- 
rio para feu ferviço. E tendo Nuno da Cu- 
nha , que então eftava em Dio , recado de 
Simão Guedes , do eftado em que Coger- 
techan alli chegara , e quem era, o man- 
dou levar a Dio para lhe fazer algum bem , 
como fez , provendo-o do neceífario. E por- 
que elle eftava de caminho para Goa , e 
Soltam Badur era ido a vifítar algumas par- 
tes de feu Reino , como atrás diííemos , a 
•lhe efereveo fobre Cogertechan , pedindo- 
Ihe houvefle efte homem por hum dos feus 
acceitos , por quem eíle era 3 e por lhe fa- 
zer 

a No Cap. i6. do Liv. 6, 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. V. e VI. 207 

zcr a elle mercê, e aíTi o encommcndou a 
Manoel de Soufa Capitão da fortaleza de 
Dio , e ao Rao Capitão da Cidade. E quan- 
do ÉlRey veio por a recommendaçao que 
lhe fez Nuno da Cunha, e por iaber quem 
era Cogertechan , o recolhco por feu Ca- 
pitão , como os outros mais principaes. E 
como naturalmente era magnífico , e libe- 
ral , logo de boa entrada lhe mandou dar 
para fe aperceber do neceíTario vinte e fete 
mil pardáos d'ouro , e elle foi depois hum 
dos principaes Capitães de Cambaya, 

CAPITULO VI. 

Como o Hidalchan mandou rogar ao Aça- 

dachan que fe fojje para elle : e como o 

Acadachan trabalhou porque Nuno 

da Cunha tomajje as terras 

firmes de Goa, 

\Ndavam nefte tempo os três Capitães 
Gentios que diíTemos , Berugij , Veru- 
gij , e Ra mugij nas terras de Goa mui prof- 
peros , deiTruindo , e roubando as coufas 
dos Mouros , fem perdoar a alguma , com 
cujo temor os Ta nadares Mouros deixavam 
as terras , recolhendo- fe em Goa. Os Mou- 
ros Naiteas , que são os naturaes da terra , 
fugiam com fuás mulheres , e filhos para 
as terras de Goa , fomente ficou na forta- 

le~ 



2o8 ÁSIA de João de Barros 

leza de Pondá hum Tanadar por nome Ge- 
netechan , homem principal , e bom caval- 
leiro , ao qual puzcram cerco ; e tão aper- 
tado foi delles , que cfteve para deixar a 
fortaleza , como elles fazem quando fe vem 
em algum aperto deites ladroes , ou para 
melhor dizer , deites íeus Senhores naturaes , 
e antigos daquellas terras. Neíte cerco não 
fomente Genetechan perdeo gente , mas os 
agreííores muita mais. E porque em huma 
cilada , que Genetechan lhes armou , mor- 
reram alguns dos principaes , elles fe foram 
a outras partes , onde não efperavam achar 
tanta refiítencia , fazendo muito damno por 
o muito que receberam em Pondá ; e com 
defejo de fe vingarem, tornaram fobre Ge- 
netechan , o qual fe vio tão apreíTado del- 
les , que lhe veio a mover concerto , que 
deixaííem elles as terras de Pondá , e Sal- 
íète , e fe foífem para as terras de Singui- 
çar , Cacorá , e Baiiim , e as tomaíTem com 
a Tanadaria de Cintacora , e as comeííem 
livremente para fempre , com o qual parti- 
do fe foram contentes. Genetechan , e os 
Mouros, que eítavam recolhidos nas Ilhas, 
rornáram-fe para fuás cafas , o que não ou- 
fáram fazer os Tanadares , temendo que 
como agenteeítava levantada, por fer toda 
quafi Gentia , não lhe quizeííem obedecer. 
Os Gançares delias , que são as cabeceiras 

obri- 

\ 



Década IV. Liv. VII. Cap. VI. 209 

obrigados aos pagamentos das rendas das 
Tanadarias , vendo que as terras ficavam 
afíi deíamparadas de Tanadares , enviaram 
muitos recados ao Governador Nuno da 
Cunha , que mandalTe tomar poííe delias, 
porque elles as queriam entregar antes a el- 
le , que aos Mouros , por ferem delles mais 
vexados , e roubados. Nuno da Cunha dif- 
limulou com eíle requerimento , não o ac- 
ceitando , nem engeitando a ofíerta , efpe- 
rando vir occaíião para as elle haver com 
mais ca ufa , por não romper a paz, que ti- 
nha aífentada com o Hidalchan. 

O Açadachan , como quem de algum 
lugar alto , e feguro eílá olhando algum 
grande fogo , que anda nos campos alheios , 
aíTi elle cia lua fortaleza de Bilgan eftava 
olhando em que haviam de parar todas ef- 
tas coufas , que ardiam per tantas partes, 
cujo fogo elle accendéra , até que o nego- 
cio veio a parar no termo que elle mais de- 
fejava , que foi , eferever-lhe o Hidalchan 
cartas mui mimoías , rogando-lhe nellas mui- 
to que fe foííe para elle , porque com feu 
coníelho , e prudência efperava governar 
melhor aquelíe Eftado - y que lhe pedia por 
a obrigação que tinha aos oífos de feu pai , 
folgafle de lhe fazer aquelle prazer, e que 
elle lhe promettia moftrar-lhe logo per obras 
quanto ifb eftimaria. O Açadachan , que 
TomAV.P.iI. O era 



2io ÁSIA de João de Barros 

era mui aítuto , e diflimulado, toda a ília 
reípofta foi , pedir ao Hidakhan o houvef- 
fe por efcuíb , por fer já mui canfado dos 
trabalhos da vida; eefla que tinha porpaf- 
far ? que feria mui pouca , fegundo fua ida- 
de , queria defpender em fe encommendar a 
Deos , fem entender em cutro negocio , e 
mais que elle tinha promettido de ir mor- 
rer a Meca , para lá fazer penitencia de feus 
peccados ; que lhe pedia por mercê hou- 
veííe por bem não lhe eftorvar cite cami- 
nho de fua falvaçao ; e para o melhor po- 
der fazer , lhe fizeíle mercê de huma carta 
para o Governador da índia o recolher em 
Goa , para ahi embarcar para Meca ; e que 
efta licença haveria por maior mercê que 
quantas delle tinha recebidas; por tanto, 
que mandaíTe tomar poííe das terras que feu 
pai lhe dera , porque elle com efta fua ida 
as defpejava. O Hidalchan o tornou outrr.s 
vezes apertar , fem poder delle tirar outra 
coufa , de que indignado determinou de o 
ir dedruir. Aviiado o Açndachan per al- 
guma peífoa 5 com quem o Hidalchan com- 
municou o cafo , efereveo logo a Nuno da 
Cunha 3 fazendo-fe grande feu amigo ; e 
por lhe Nuno da Cunha ter eferito antes 
difto fobre as terras firmes ; e como os Guan- 
çares o importunavam que mandaíTe tomar 
poífe delias, por eítarem devolutas ,'e per- 
di- 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. VI. 211 

didas , o que elle deixava de fazer por amor 
delie Açadachan , e por a amizade que ti- 
nha com o Hidalchan. Neíta carta lhe re- 
lpondco , que elle as devia tomar, porque 
o Hidalchan níío eílava em tempo que as 
pudeíTe defender do Gentio j e porque me- 
lhor feria ter EIRey de Portugal o rendi- 
mento daquellas terras , que eílarem em po- 
der de quem as tinha. Nuno da Cunha ven- 
do eíla conjunção , que era a principal caufa , 
com que fe podia defculpar com o Hidal- 
chan , que nao mandara tomar aquellas ter- 
ras por cubica de feu rendimento , mas por 
eílarem dela m paradas : para atar bem eíle ne- 
gocio , e mais a feu propoíito , mandou ao 
Açadechan Chriílovão de Figueiredo, que 
era hum Cavalleiro da cafa d'ElRey mo- 
rador em Goa , de que já falíamos , por 
ler mui conhecido , e amigo do Açada- 
chan, e mui acceito de todos os Senhores 
do Balagate ; ao qual o Açadachan entre 
outras coufas lhe defeubrio , que o Hidal- 
chan , como homem ingrato , e vário que 
era , eílava mal com elle , carregando fo- 
bre elle muitas culpas , e que por iífo fazia 
muito fundamento da amizade de Nuno da 
Cunha : que lhe diíTeíTe de fua parte , que 
lhe pedia por mercê, que fendo-lhe necef- 
fario recolher- fe a Goa, o quizeíTe receber 
como amigo , e fervidor feu , porque elle 

O ii fe 



212 ÁSIA DE JOÁO DE BARROS 

fe achava mui velho , e canfado , e não que- 
ria experimentar condição de novo Senhor, * 
que logo começou iéu reinado tirando os 
olhos a feu irmão , e depois matou o au- 
thor diiTo , e fazendo outras coufas de man- 
cebo cruel , e de pouco governo. E quan- 
to ás terras , fe o Governador Nuno da Cu- 
nha quizelfe delle alguma ajuda para as to- 
mar , elle a daria ; e para mais confirmação 
da amizade com Nuno da Cunha , fez logo 
voto que fempre feria em favor dos Portu- 
guezes , e nunca per modo algum confen- 
tiria ferem aquellas terras tiradas a Goa , 
por ferem erança da mefma Cidade. Ulti- 
mamente indo 5 e vindo Chriftovao de Fi- 
gueiredo com recados , aííentou com o Aça- 
dachan per eferitura , que viílo o eftado em 
que aquellas terras eítavam , e a grande def- 
truiçao , que os Gentios nellas tinham fei- 
ta , fem o Hidalchan a iffo acudir , por ter 
ínuitas oceupaçoes , e trabalhos ; que o Aça- 
dachan , como vizinho mais chegado , a 
quem competia defendelias , per muitas ra- 
zoes que o moviam , defiftia delias. Pelo 
que o Governador as podia tomar , e que 
em elle as acceitar fazia huma grande ami- 
zade ao Hidalchan ; porque mais lhe im- 
portava o favor, e boas obras que recebia 
cTEiRey "de Portugal , que o rendimento 
daqucllas terras 3 que não era igual á def- 

pe- 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. VI. e VII. 213 

peza, que oHidalchan fazia em as defender 
dos ladrões; e que por eftc ferviço , que elle 
Açadachan fazia ao Hidalchan feu Senhor , 
era digno de o tornar á fua graça, da qual 
ao prelente eftava fora , por lè querer aquie- 
tar na velhice , e náo o poder ir fervir á 
fua Corte em cargos, e officios , que reque- 
riam forças de homem mancebo , e mais 
são do que elle era. AlTentado ifto aífi , 
Nuno da Cunha mandou tomar as terras , * 
como lhas também osGançares oífereciam. 

CAPITULO VII. 

Como o Açadachan fe fui para EIRey de 
Bifnagd por defeontentar ao Hidal- 
chan , e Melique Ver ido foi 
perdoado, 

SEndo a natureza , e eftudo do Açada- 
chan inventar enganos , e bufear efeapu- 
las de humas culpas com a fabrica de ou- 
tras , tratou de iníinuar-fe na benevolência 
d'ElRey de Bifnagá , a fim de metter o Hi- 
dalchan em grandes neceííidades , e fazer 

que 

a E/í as terras firmes de Goa foram já áo E fiado em 
tempo do Governador Diogo Lopes de Sequeira , e de Ruy 
de Mello Capitão de Goa , que as tomou, e os Mouros as 
coifaram , governando a índia D. Duarte de Meneses, 
fendo Capitão de Goa Franc/fco Pereira Peflana. João de 
Barros na 3. Década no Cap. 5. do Livro 4. e no Cap. 
10. do Livro 7. 



214 ÁSIA de João de Barros 

que o temefle a elle. Para o que mandou 
hum meilageiro com cartas a EIRey de Bif- 
nagá , perque lhe pedia feguro para íc ir 
ver com elle fobre coufas que importavam 
muito a feuEítado. E para metter mais em 
íhfpeita de fua lealdade ao Hidalchan , e 
lhe dar mais cm que cuidar , efperou a me- 
lhor occaíiao que podia íer. Efta era hum 
ajuntamento que EIRey deBiínagá faz mui 
grande em cada hum anno , levando hum 
feu ídolo principal com muita folemnida- 
de , com o qual corre com aquelle leu gran- 
de exercito por as partes principaes do Rei- 
no. A eíle ídolo fe ajuntam todos os ou- 
tros do Reyno , e feitas fuás ceremonias , 
deixando o ídolo principal em feu templo , 
os outros fe tornam para feus pagodes. E 
porque efte anno quiz EIRey celebrar efta 
fefta com maior exercito , do que levava 
quando hia á guerra , dizia o povo , que 
efta fua ida fob efpecie de fella , era para 
tomar a Cidade de Rachol , que o Hidal- 
chan lhe tinha tomada , tendo-a o de Bif- 
nagá ganhada ao Hidalchan , como na ter- 
ceira Década diíTemos ". O Acadachan co- 
mo teve o feguro d'ElRey , e cartas de 
muito contentamento de fua ida, partio de 
Bilgan com treze mil homens , de que os 
três mil eram de cavallo 3 e duzentos ele- 

fan- 

a Liv. 4. Cap. ;. 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. VII. 215 

fantes. E ainda neíle caminho quiz enganar 
a Nuno da Cunha , a que mandou dizer , 
que enviaiTe com elle Chriílovao de Figuei- 
redo , porque faria com EIRey de Biíha- 
gá , que por razão do Senhorio que tinha 
antigamente nas terras de Goa , fizefle doa- 
ção delias a EIRey de Portugal. Nuno da 
Cunha , poílo que o direito delias fe fun- 
dava no poder das armas contra os Mou- 
ros , quiz comprazer ao Açadachan ; e pa- 
ra ao diante ter mais huma caufa , ainda 
que fraca , mandou com elle Chriílovao 
de Figueiredo. 

O Açadachan como não queria perder 
aquella conjunção da oíferta d'E!Rcy de Bif- 
nagá , e para dar mais fufpeita de íi ao 
Hidalchan , apreílbu-fe tanto , que quando 
Chriílovao de Figueiredo chegou a Bilgan , 
era já partido , e o foi tomar ao arraial 
d'ElRey de Bifnagá , de quem o Açada- 
chan foi recebido com grande honra , e de 
boa entrada lhe deo logo duas Cidades , 
Tungé , e Turugel , vizinhas huma da ou- 
tra , e pegadas no eftremo da fua Cidade 
de Bilgan , e lhe fez prefente de cem mil 
pardáos d'ouro , e peças que valiam outros 
tantos. Além diílb lhe fez a maior honra 
que elle foe fazer aos mais principaes feus 
acceitos , que he dar-!hes a primeira entra- 
da 5 quando pela manhã lhe vam fazer ca- 
le- 



n6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

lema , que he a adoração que fazem a feus 
Reys, e o antepoz nefta honra a rodos os 
feus , do que os Senhores da Corte muito 
lè anojaram por elle fer Mouro, e que fo- 
ra efcravo do Hidalchan , c determinaram 
de o matar. Mas EIRey fe achou grande 
com fua vinda , e fe havia por o maior 
Rey do Mundo em o Açadachan o vir 
fervir , deixando o Hidalchan , porque en- 
tendeo delle , que por caufa deaggravos o 
fazia , e efperava que com a indignação 
que trazia o ferviria lealmente na guerra. 
Também o Açadachan fez prefente a EI- 
Rey de cavallos Arábios mui formofos , e 
de elefantes. 

O Hidalchan como foube da ida do Aça- 
dachan a Bifnagá , fe deo por morto , e 
fem Eftado ; e chamados com diligencia o 
Madre Maluco , c Cota Maluco , ajuntou 
quatrocentos mil homens , em que entra- 
vam nove mil de cavallo , e fetecentos 
elefantes , e foi ter a hum lugar doze lé- 
guas donde eftava EIRey de Bifnagá , o 
qual tinha comíigo quinhentos mil homens , 
dos quaes os doze mil eram de cavallo, 
e mil e fetecentos e trinta elefantes , e o 
Açadachan com feu arraial eftava apartado 
do d'ElRey , mas perto delle. O Hidalchan 
enviou hum meíTageiro a EIRey, que a el- 
le lhe foi dito , que o Açadachan feu ef- 

cra* 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. VII. 217 

cravo era fugido para íua Corte ; c porque 
nas pazes que tinham aiíentadas íe conti- 
nha , que todo o eícravo , 011 devedor, que 
fugiíFe de Reyno a Reyno , fe reftituifle , 
lhe pedia lho mandaíFe reítituir , e entregar. 
EIRey fem refpondcr ao rncíFageiro o man- 
dou ao Àçadachan , para que clle déílè a 
reípoila , e que eíFa haveria por íua. O Àça- 
dachan o reteve como prezo , e pa (Fados 
alguns dias o defpachou , fem fe faber o 
que por elle mandou dizer ao Hidalchan-, 
e enganou a EIRey , dizendo-lhe o recado 
que deo ao contrario do que o mandou, 
do que EIRey ficou mui contente. 

Por eíle me fino tempo Melique Veri- 
do , como fugio de Bidcr á fúria do Hi- 
dalchan , per confeiho que lhe deram o 
Madre Maluco , e o Cota Maluco , citan- 
do ambos com o Hidalchan , fe veio met- 
ter em luas mãos. E entrando na fua ten- 
da em habito vil , com huma machadinha 
ao pefcoço , fe lançou aos feus pés, e em 
voz alta , que todos ouviam , diíFe : Vês aqui : , 
Senhor , o teu e/cravo Verido , a quem o De- 
mónio enganou em fatiar coufa , que quan- 
do agora , que eftou em meu Jtzo , caio nel- 
la , me foge a terra debaixo dos pés. Mas 
pois eftou ante os teus confeffando meupec- 
cado , aqui trago nefte ferro o algoz dei- 
le , que me pôde tirar a cabeça fora dos 

om- 



2i8 ÁSIA de João de Barros 

ombros. E fe eu não fou digno de tão hon- 
rada morte , feja qual tu mandares , que 
-para ifo ejlou aqui apresentado , porque 
nunca Deos queira que eu uiva , fe minha 
vida te dej aprouver , que a mim não feria 
vida a que eu tiveffe , ejianão fora de tua 
graça. E ajfi a não tenho cu , pois ojfendi 
tuas orelhas com minha oufadia de pala- 
vras , porque de então para cá ando con- 
verfando com as alimárias , comendo , be- 
bendo , e dormindo nos campos , fem oufar 
de apparecer entre a gente. O Madre Ma- 
luco , e Cota Maluco, ainda que feu ini- 
migo , interrompendo eítas palavras , que já 
vinham com muitas lagrimas , intercederam 
por elle com o Hidalchan de maneira , que 
lhe não foube rcíponder , fenão : A bom 
tempo veio pedir perdão. Per eítc modo foi 
Melique Verido perdoado do Hidalchan , 
e logo fe começou a fer vir dclle naquelle 
arraial por fer havido por cavalleiro , e in- 
duítrioíò. Mas não viveo muitos dias de 
paixão , fegundo diziam , de fe ver defer- 
dado do feu ; e o Hidalchan por comprazer 
nos Capitães que com elle o ferviam , deo 
■a feu filho , que era menino de quatro an- 
nos , o feu Eílado , de que mandava reco- 
lher os rendimentos para lhos ter em depo- 
fito, até fer de idade para fe governar. 

CA- 



Década IV. Liv. VII. 219 

CAPITULO VIII. 

Do engano que o Açadachan fez a EIRey 
de Bifnagá , e a Chriftovao de Figueire- 
do : e como fe veio fugindo para o Hi- 
dalchan , que por outros taes en- 
ganos o defejava matar, 

TAnto que EIRey de Bifnagá aflentou 
feu arraial ao longo do grande rio Na- 
gundin , vendo que o Cota Maluco fe vie- 
ra para o Hidalchan , fendo elie antes gran- 
de inimigo de feu pai , por lhe querer to- 
mar o Eilado , e elle Rey o favorecera co- 
mo amigo , lhe mandou dizer , que huma 
das cautas per que fe deixava de chegar 
mais ao Hidalchan , e aprefentar batalha , 
era por faber que elle ahi citava para o aju- 
dar naquella guerra , o que elle não acaba- 
va de crer por duas razoes : a primeira 
por fer filho de feu pai , que em quanto 
vivera fora fempre períeguido do Hidalchan 
paliado , e que o prefente , depois que viera 
ao Eílado que tinha por tão máos meios , 
ainda não fabia fe lhe faria outra tal per- 
feguiçao. A outra razão era , por elle Rey 
de Bifnagá fer tanto feu amigo , e mais cer- 
to que o Hidalchan , como tinha experi- 
mentado ; e que do que mais fe efpantava , 
era dar-lhe fua neta por mulher 3 fendo ain- 
da 



220 ÁSIA de João de Barros 

da criança , c que fe temia de a não poder 
cafar por falta de dote , que elle lhe pro- 
mcttia tal ajuda , com que a cafaíTe honra- 
damente. Sobre eítas razoes lhe mandou di- 
zer outras , para o tirar dalli, e o mettcr 
em ódio com o Hidalchan. A efte recado 
rcfpondco Cota Maluco em poucas pala- 
vras , dizendo, que citava em outro tempo , 
e que elle mudava as coufas. Como EIRey 
ouvio efte defengano , e foube que do Aça- 
dachan hiam , e vinham, recados ao Hidal- 
chan , houve-o logo por íiifpéitb , não que 
lhe tirafle a entrada honrofa que tinha , mas 
mandou a hum feu Capitão que tivcíle olho 
nelle. 

Nefte tempo o Açadachan pedia a EI- 
Rey, que da muita gente que alli tinha lhe 
déíTe alguma eícolhida , porque com ella , 
e com a fua fe atrevia tomar todo o Efta- 
do do Hidalchan, cm quanto o elle entre- 
tinha alli. EIRey lha não deo , c fe poz em 
caminho para a Cidade de Rachol a lhe 
pôr cerco , como já fizera outra vez , quan- 
do a tomou ao Hidalchan velho ; e indo 
já duas jornadas , e o Açadachan com el- 
le , quando veio á terceira , que EIRey le- 
vantou feu arraial , dahi a duas horas le- 
vantou o Açadachan o feu. E como já ti- 
nha mandado ver o lugar per onde o rio 
Nagundin fe podia vadear , chegou-fe a el- 
le 3 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. VIII. 221 

]e , c mandou paííar a ília gente da outra 
banda para ir ter com oHidalchan. Vendo 
iílo o Capitão , que o trazia em olho , foi 
a grande prefla avifar EIRey, que Jogo fez 
volta , cuidando que o pudeíie alcançar ; mas 
como o Açadachan levava grande vantagem 
de tempo , era já mui alongado do váo. 
Com tudo mandou EIRey alguns Capitães 
que o ieguiffem , como fizeram per efpaço 
de algumas léguas , em que lhe mataram , 
e cativaram muita gente , e tomaram gran- 
de parte de lua recovagem , e o Açadachan 
fe vio em tanta preza , que á unha de feu 
cavalio eícapou , ao qual elle depois teve 
tão mimoío , por o perigo de que o livrou , 
que lhe mandava fazer acama de colchões. 
Quando determinou de fugir , três dias an- 
tes defpedio a Chriftovão de Figueiredo , a 
quem trazia enganado , detendo-o em pala- 
vras fobre o negocio das terras firmes de 
Goa , que havia de tratar com EIRey de 
Biinagá, como promettèra a Nuno da Cu- 
nha. Per cila maneira fe falvou o Açada- 
chan no arraial do Hidalchan , que logo em 
chegando lhe fez mercê das terras de Cu- 
rale , e Salíete , que começam em Banda, 
e chegam até as de Ceptapor , e Sarapa- 
tam , com que lhe ficavam terras , que pe- 
la coita do rnar tomavam vinte e oito lé- 
guas. 

El- 



222 ÁSIA de João de Barros 

EIRcy de Bifnagá tornado do caminho 
que levava contra o Açadachan , encami- 
nhou feu exercito para Rachol , e mandou 
dizer ao Açadachan , que eflava trifte por 
haver dado gloria a feus Capitães de fica- 
rem verdadeiros , e elle Rey enganado ; por- 
que quando o recolhco o aviíáram , que fe 
não fíaíTe delle , porque homem que não ti- 
nha fé com o Senhor , cujo eícravo era , 
menos a teria com elle ; mas que a defcul- 
pa que tinha era , que como elle vinha fu- 
gido , e bufeava amparo de fua vida , c era 
próprio dos Príncipes foccorrerem a peífoas 
miferaveis , e condoerem-fe dos neceííitados , 
quanto lhe diziam feus Capitães contraria- 
va 'j e que nenhuns homens são mais faciles 
de enganar que os Reys , e homens de cf- 
piritos generofos , porque as vilezas , e af- 
tucias de que não ufam , não as entendem 
quando outros lhas fabricam. E que fe fua 
vinda a elle fora para provar o feu dinhei- 
ro , mais honefto lhe fora mandar-lhe pe- 
dir mercê , e q\\q lha fizera maior, e não 
per aquelle modo de traição. O Açadachan 
lhe reípondeo , que não havia Deos de per- 
mittir pollo em tanta neceííidade , que foíTe 
fervir a quem não tinha conhecimento do 
mefmo Deos. E que quanto ao dinheiro , 
que muito mais lhe devia do que lhe dera , 
por fazer com o Hidalchan paífado feu Se- 
nhor 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. VIII. 223 

nhor que fe tornaífe do cerco que lhe Jiia 
pôr á íua Cidade de Bifnagá , onde houve- 
ra de gaitar a vida , quanto mais táo pou- 
co dinheiro , e aíli iria huma couía per ou- 
tra. 

O Cota Maluco , porque queria grande 
mal ao Açadachan , vendo que fendo tan- 
tas vezes traidor ao Hidalchan , em che- 
gando donde o fora ofender , lhe fazia mer- 
cê de terras , que podia dar a hum filho , 
fingindo ter recado , que EIRey de Bifna- 
gá lhe mandava entrar em fuás terras , fe 
defpedio do Hidalchan , dando-lhe ainda 
líum remoque fobre as mercês, que fazia ao 
Açadachan , dizendo , que não queria per- 
der o que tinha ganhado com tanto fan- 
gue , pois até aquelle tempo não tinha me- 
drado mais que o que elle ganhara pela 
lança. EIRey de Bifnagá como foube que 
o Cota Maluco era partido para fuás ter- 
ras , pareccndo-lhe que o fizera por razão 
do recado que lhe mandara , enviou-lhe cem 
mil pardáos d'ouro , com os quaes elle fez 
gente , e foi pôr cerco á Cidade de Naite- 
guir , que era do Hidalchan. 

Neíte tempo abalou o Hidalchan do lu- 
gar onde eítava j e tanto que chegou ao rio 
Nagundin , não oufou de padar , nem me- 
nos tornar atrás , fabendo que EIRey tinha 
poíto em grande aperto a Cidade de Ra- 

chol, 



224 ÁSIA de JoÃo de Barros 

chol , porque concorriam duas coufas , que 
o faziam nao íe mover dalJi , íaber queEl- 
Rey eílava mais poderofo que elie , e ter 
experiência do que acontecera naquelle mef- 
mo caio , e lugar , quando lhe tomaram 
aquella Cidade de Rachol ; e o principal 
era ver o Cota Maluco partido , e não íe 
fiar ellc do Açadachan per fuás malícias , 
e artifícios. E temia que hum , e outro ti- 
vcíTem ordenado alguma coufa comElRey, 
de que tinham recebido dinheiro , e boas 
obras , com que perdeíTe o Eítado , e a vi- 
da. Pola qual razão le concertou com El- 
Rcy per efta maneira , que a Cidade de 
Rachol eíliveíTe por elle Hidalchan como 
eílava , e tivefle todas as terras que lhe per- 
tenciam da parte de Oefte até Sudueftc , e 
que EIRey de Biíhagá as de Leite até Suef- 
te, que eram de maior rendimento, em re- 
compenfação do corpo da Cidade, que fica- 
va com elle Hidalchan. E com eíle con- 
certo ficaram em paz; , e cada hum fe foi 
para fua parte. 

O Açadachan , porque nao oufava de 
ficar com o Hidalchan ociofo , temendo que 
o mataííe , por quantas maldades tinha com- 
mettidas contra elíe , andava fempre ao lonr 
ge , e offereceo-fe que queria ir contra o 
Cota Maluco ; que além de ter tomada a 
Cidade deNaiteguir, por cerco que lhe pu- 

ze- 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. VIII. 22? 

zera , andava dcítruindo outras Cidades , 
que nao eílavam providas. O Hidalchan lha 
agradeceo , elhe mandou que foííe diante, 
que elle em pellba queria ir íbbre a Cida- 
de de Bichocondá. E como o Açadachan 
hia a efte negocio de boa vontade , apertou 
tanto com o Cota Maluco , que o fez fa- 
hir logo da Cidade; e aíli como o Hidal- 
chan íiia de caminho , o Cota Maluco fe 
foi mctter em fuás mãos , levando comfigo 
fua neta, que lhe tinha promettida por mu- 
lher , e aífi mcfmo feu filho maior para 
cafar com huma irmã do Hidalchan. Com 
eftes caiamentos ceifou toda a fúria da guer- 
ra , e ficaram em paz ; mas com todo eííe 
parcnteíco , em hum paífo de lerras , per on- 
de fe entra no Eílado do Cota Maluco, 
mandou o Hidalchan da parte das fuás ter- 
ras fazer huma fortaleza , como freio con- 
tra o Cota Maluco. 



Tom. IV. P.il P CA- 



22Ó ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO IX. 

Como FJRey de Camhaya mandou ao Hi- 
âalchan as inf/gnias Reaes , para que fe 
intitula IJe Rcy , e lhe déjjè obediência , e 
como não quiz> tal tituo : e das inquieta- 
ções , em que andou o Açadachan , até que 
com medo do Hidalchan fe lhe veio metter 
nas mãos com hum grande prefente de di- 
nheiro. 

T Eíte tempo , que por os cafamentos , 
N e amizades corn os Príncipes vizinhos , 
o Hidalchan eílava quieto na fua Cidade de 
Bifapor , Soltam Badur Rey de Cambava , 
que como altivo , e ambiciofo fe prezava 
de ter grandes Senhores por vaflallos , c o 
Hidalchan era tao grande em citado , e ri- 
queza , defejava de o trazer á fua amiza- 
de , c obediência. Pelo que para o provo- 
car mais a iíTo, o tentou com lhe oferecer 
titulo de Pvcy , que o Badur como maior 
Rey do Indoflan dizia poder dar. Para ef- 
te efFcito lhe mancou huma embaixada per 
Xacoez , (que já a Nuno da Cunha man- 
dara por Embaixador, ) mandando-lhe por cl- 
le huma cabaia , huma touca , e hum íbm- 
breiro de Sol , vermelho , que são iníignias 
Reaes , pedindo-lhe que por amor delle, 
como de amigo 7 acceitaíTe aquellas peças , 

pois 



Década IV. Liv. VII, Cap. IX. 227 

pois com elJas ficava intitulado Rey , por 
o poder que elle como Rey de Cambaya 
tinha , íègundo o coftume do Indoílan. E 
também lhe pedia quizeíTe chamar-fe Ba- 
dur , em memoria de receber de íua mão 
o titulo de Rey , e que com iíto ficariam 
todos liados , e para fempre amigos , pois 
feu tio o Nizamaiuco , e Madre Maluco 
tinham acceitado fua amizade , e lhe déíTe 
também íua obediência , como elles de- 
ram. Ao Embaixador fez o Hidalchan mui- 
ta honra , e lhe deo grandes dadivas , e da- 
quelias peças tomou a cabaia , e a touca > 
e nao o fombreiro , por não ficar com ti- 
tulo de Rey , refpondendo a Soltam Ba- 
dur , que elle íe contentava com o nome 
de feu pai , que era o de Hidalchan , e ac- 
ceitava as outras peças como feu fervidor, 
e amigo , em cuja amizade , e graça que- 
ria , e defejava eftar, com outras palavras 
de grande agradecimento. Procurava Soltam 
Badur efta nova amizade do Hidalchan em 
ódio dos Portuguezes , como adiante fe ve- 
rá , e logo aproveitou ao Hidalchan , por- 
que o Nizamaiuco eftava para lhe fazer guer- 
ra , de que ceifou por efta nova liança. E 
o indicio difto foi, que naquella conjunção 
o Nizamaiuco mandara dizer a Nuno da 
Cunha , que lhe pedia por mercê lhe déíTe 
licença para tomar a Cidade de Dabul, 
P ii man- 



228 ÁSIA de João de Barros 

mandando fahir delia feu Feitor , e como 
a tomafle , o mandafle eítar outra vez de 
alíento nella como eílava , e ficariam na 
meíma Cidade as páreas , que de antes pa- 
gava 5 e tudo o mais que elle ordenaííe íè 
faria. Nuno da Cunha lhe refpcndeo , que 
v\\c não coníèntiria tal , por icr amigo do 
Hidalchan, e que por nenhum intereíle que- 
braria a paz , e amizade que com elle ti- 
nha , antes o ajudaria muito como bom ami- 
go , e que outro tanto faria por elle Niza- 
ínaluco 5 mas não em offenía , e damno do 
Hidalchan , nem de qualquer outra peífoa 
a que eftiveíle obrigado por lei de paz , e 
amizade , por a natureza dos Portuguezes 
fer guardar verdade a quem o promettem. 
Com a qual refpoíta , e com alinça de 
Soltam Badur , o Nizamaluco não procedeo 
em feu propoíito. 

Entretanto o Açadachan , como fe não 
fegurava em feu animo , com aquella in- 
quietação , que os homens , que não feguem 
virtude , comíigo tem , trazia fempre diante 
as teftemunhas de fua- coníciencia , que são 
os maiores algozes que huma alma pode 
ter. E como tal , temia que o Hidalchan 
tomaífe vingança de feus feitos , como fe 
vifle íem neceííklade delle. Pelo que per- 
fuadio ao Cota Maluco que fe foífe para 
fuás terras ; e começaífe fazer guerra ao Hi- 

dal- 



Década IV. Liv. VIL Cap. IX. 220 

dalchan , em pagamento de quanto mal lhe 
tinha feito , e que elle faria outro tanto per 
fua parte , e afli haveriam fatisfação de fuás 
perdas. Cota Maluco aífi o fez ; e o Hi- 
palchan entendendo que tudo procedia da 
maldade do Açadachan , e nao o podendo 
acolher para o matar , como defejava , te- 
ve confelho com alguns feus privados , que 
remédio teria para iífo , propondo-lhes as ef~ 
capulas que o Açadachan buícava para o 
nao acolherem , porque era tão manhoío , 
que quando lhe havia de ir fazer a calema , 
ninguém fabia a hora , por variar eile os 
tempos , e fempre havia de fèr quando elle 
Hidalchan eíKveíTe íb , e a ida , e a vinda 
era com muita gente 3 como quem fe te- 
mia , e que nao íè podia commetter deícu- 
bertamente , porque era mui poderofo em 
gente , e não era bem que por caítigarem 
hum homem ruim , pereceíTem muitos bons , 
e a gente de cavallo que trazia era melhor 
que a delle Hidalchan , porque como cita- 
va em Bilgan , vizinho de Goa 5 eícolhia 
os melhores cavallos que vinham de Ará- 
bia. Finalmente apontando outras muitas 
coufas , veio alfentar com o parecer daqueí- 
les feus confeiheiros , que devia defpachar 
ao Açadachan para ir defender dos ladroes 
as terras , que lhe tinha dadas Genetechan a 
£ as que o Governador da índia tinha to- 
ma- 



230 ÁSIA de João de Barros 

macias. E que antes que o Açadachan par- 
tiíTe , mandaffe ao Capitão de Meriche , que 
era íeu criado , e tinha aquella Cidade por 
elJe defde o tempo que Jha dera Maluchan , 
que quando o Açadachan per hi paíTafTe , 
(o que de neceífidade havia de íer , ) o prcn- 
defle ; e quando o não pudefle fazer, lhe 
não obedeceíle , poílo que íeu Senhor foí- 
fe. E que tanto que o Açadachan pailaíTe 
a ferra , e andaiTe na fralda do mar occu- 
pado na guerra com os Portuguezes , ello 
Hidalchan fofle com todo leu poder , e lhe 
tomaffe Bilgan fua acolheita , e depois os 
paíTos da ferra , para não poder tornar af- 
fima; e que per eíla maneira huma de duas 
coufas o haviam de matar , ou á fome , 
porque lhe não iriam do Baluarte manti- 
mentos , ou morreria em alguma batalha , 
fe com os Portuguezes peleja (Te. Para me- j 
lhor corar efta partida , depois que o Hi- ! 
dalchan teve efte confelho particular, e fe» 
creto, teve outro geral, para que mandou ■ 
chamar ao Açadachan , e diante delle prc- 
poz a todos , como elle tinha feito mercê i 
ao Açadachan da maior parre das terras fir- 
mes de Goa , e por iíTo a elle pertencia rej 
cuperallas de qualquer mão em que eítivef- 
fern , c que ifto era para que os mandara 
chamar, e M íli a elle Açadachan , para lo- 
go ordenar de fe partir antes que mais da- 

nino, 



Década IV. Liv. VIL Cap. IX. 231 

mno fe fizeíle. Approvada de todos eíta 
propoíta do Hidalchan , ficou o Açadachan 
mui contente por fe alongar delle , cuja pre- 
fcnça muito receava ; e como homem que 
havia de fazer a guerra per aquella fralda 
do mar, e havia de pelejar com os Portu- 
guezes , quiz levar dalii alguma gente a fol- 
do , para que mandou pedir algum dinhei- 
ro ao Capitão de Meriche feu criado. O 
qual como eílava já amoedado do Hidal- 
chan , não refpondeo ao Açadachan ao que 
pedia, dando por efcufa , que nas obras da 
fortaleza , que lhe mandara fazer , tinha 
gaílado muito. No modo defta refpoíla , o 
Açadachan como era fufpeitofo , e aítuto , 
pareceo-lhe que fallar eíle feu criado tão 
feccamente , vinha de alguma confiança que 
rinha em outrem , que o podia livrar do 
caftigo. Com efta fufpeita tanto trabalhou , 
que os privados cio Hidalchan , a que dava 
parte de feus fegredos , a quem elle grof- 
iamente peitava , lhe vieram a defeubrir , que 
o Hidalchan defejava de o acolher para o 
caftigar ; mas não lhe differam quando , nem 
o modo , fomente que fe guardaííe. E pa- 
ra defeubrir mais a vontade do Hidalchan , 
hum dia pela íèfta, íabendo que eílava fó , 
entrou com elle , e com duzentos mil par- 
daos que levava , fe lançou a feus pés , di- 
zendo : Senhor y dizem-me que me queres 

pren- 



2$1 ÁSIA DE JoÂO DE BARKOS 

frender , e matar : não fei porque ! Se meus t 
inimigos to aconfclham , tjjb fera por inve~ t 
ja dos fervi f os que te faço , e verem que 
710 tempo que efiás mais efcandalizado de f 
mim , me vou eu ojferecer com a pejfoa , e ti 
fazenda ; e tem razão , porque outro tan- 
to não fazem elles. Se me tens algum ódio 
for canjas que paffáram depois do fallecu f 
mento de teu pai , e diferenças entre ti , k 
e Mãluchan teu irmão , tirado opezar que 
então tivefte , por iffo fou eu digno de mer- 
cê , por comprir o teftamento de teu pai , 
e querer ter mais conta com fua alma ? 
que com teu contentamento. Depois que 
quiz Deos que fie afies no F fiado que ora 
tens , fcmpre te fervi. Verdade he que ai- I í 
gumas coufas commetti por me afiombra- I 
rem homens , que defejavam ver-me pofio em 
ódio comtigo ; e eu por fugir a tua indi~ j \ 
gnaçao , ^bufcava todo o modo , e cautela 
f ara f alvar minha feffòa , mais que per te y 
defervir , porque coufa natural he aos fi- \í 
lhos fugirem a indignação dos pais , e aos \ ' 
Jèrvos a dos Senhores , porque o temor efte ; l 
fé amparo , e refugio tem de aufentarfe t, 
do lugar do perigo. Porém fempre com ef \\ 
tas mudanças que fazia , fempre perfeve- j i 
rei em te fervir com toda a lealdade , obc- \ t 
diencia , e fé. Se te diziam que tinha mui^ 
Íq dinheiro 5 e que vendo-te em necejfidades I , 

não 



Década IV. Liv. VIL Cap. IX. 233 

nao te fervia como era obrigado , eu não 
tenho filhos , nem parentes para quem o 
haja de cnthej ourar , ejfa pouquidade que 
poffuo tua he , pois fou teu efcravo. E o 
engano que tinha feito a EIRey de Bifna- 
gd , moftrando que o hia fervir , acabou 
em tirar-lhe da mão efes duzentos mil 
pardaos agouro , que te aqui aprefento , dei- 
les em moeda , e de lies cm jóias, O Hidaí- 
chau em quanto lhe o Açadachan dizia ef- 
tas couías , lançado a íeus pés , efteve fem- 
pre mui prompto ao ouvir ; e tanto que 
vio o preíente , o levantou nos braços , di- 
zendo : Açadachan , eu tenho ouvido voffàs 
razoes , e verdadeiramente que eu as re- 
cebo em meu animo por juftas 5 e honeftas. 
Verdade he que com algumas coufas que 
commettejies , depois que eu ejlou nefte ef- 
tado , mais accidental que prudentemente 
me efcandalizafles , lembrando-me vojfo fa- 
ber , e idade ; mas no fim delias , como vós 
dizeis , entendi , e vi que podia mais em 
vos a lealdade , que a paixão , por me acu- 
dirdes no tempo , em que maior neceffidade 
tinha de voffa pejfoa. Terdes inimigos , não 
vos ejpanteis , porque coufa he mui coftu- 
mada aos homens que tem voffas qualida- 
des , moverem d inveja os que nao s ao taes. 
Tende bom animo , e nao vos agafleis , cer- 
tificando-vos que nunca poderei crer de vás 



234 ÁSIA de João de Barros 

Jènao muita lealdade. E pqfto que também 
de mim vos vão dizer alguma atufa que 
zws affòmbre ? fera per boca de homens , 
que defejam de vos pôr em ódio comigo : 
por tanto ivos em boa hora , onde vos Deos 
dará tantas vitorias , per quê vos eu fa- 
ça mais mercê do que importam as terras 
que is conquiflar. Com iíto o defpedio. 

CAPITULO X. 

Como o Hidalchan mandou hum nieffa- 
geiro ao Governador ? que lhe alargajfe as 
terras firmes , a quem dilatou a refpqfta 
fará Dio , para onde eftava de caminho : 
E como Soleimao Agá per mandado do Hi- 
dalchan as veio correr , e cobrar , e lhe foi 
refiftido. 

OAçadachan , como de íua natureza era 
inquieto , e infiel a todos , tendo antes 
tramado com Nuno da Cunha , como atrás 
diíTemos , que houvefíe as terras firmes de 
Goa , lá negoceou com o Hidalchan que 
as cobraíTe ? e impedifle haverem-as os Por- 
tuguezes , ^parecendo-lhe que ficava defcul- 
pado com elle do que com Nuno da Cu- 
nha tratara. E do que aíli com o Hidal- 
chan ordenou 5 procedeo enviar logo o Hi- 
dalchan hum Mouro por nome Suzaga a 
Nuno da Cunha ? citando em Goa , no mez 

de 



Década IV. Liv. VIL Cap. X. 23^ 

cie Setembro do armo de 1J35'. , per quem 
lhe mandou luima carta de crença , e di- 
zer-lhe de íua parte , que Genetechan íeu 
Capitão , que eftava em Pondá , lhe efere- 
vêra , como as terras firmes de Goa elíe 
Nuno da Cunha as acceitára dos ladroes , 
que lhas tinham tomadas ; e que Genete- 
chan lhas pedira da íua parte , a que elle 
rcfpondêra , que nao via recado delle Hi- 
dalchan , que quando o viííe , então refpon- 
deria , e que para iíío mandava Suzaga a 
pedir-lhe que as mandaffe entregar. E que 
também lhe pedia que défle entrada aos ca- 
vallos para os levarem á ília Corte, por a 
neceílidade que tinha delles. Nuno da Cu- 
nha , que áquelle tempo era chamado á prem- 
ia d'ElRcy de Cambava , e eílava já quaíl 
embarcado , refpondeo ao Mouro , que el- 
le fe partia para Dio , por a neceílidade 
que de íua prefença tinha Soltam Badur, 
para negocio que não Ibffria dilação, pelo 
que não podia então refponder , que fe po- 
dia ir em boa hora ? e que de Dio manda- 
ria feu meíTaíreiro ao Hidalchan. 

Defpedido elle Suzaga , nao tardou mui- 
to, que hum Soleimão Aga , Turco de nação , 
Capitão dos Pages do Hidalchan , (que he 
officio como acerca de nós Capitão dos Gi- 
netes , ) arrendou ao Hidalchan as terras de 
Goa , dizendo , que á fua cuíla as queria ir 

to- 



236 AS1A de J0Â0 de Barros 

tomar das mãos dos Portuguczes , pois o 
Governador da índia as não queria íòltar. 
O Hidalchan lhas concedeo , e Jhe deo co- 
miísão para prender Genetechan , por quão 
mal o tinha feito em nao defender aqueW 
Ias terras aos ladroes , e confentir que os 
Portuguczes as tomaíTem. Partido eíle So- 
Jeimao da Corte do Hidalchan , trouxe com- 
ílgo cem Turcos , e tornou com eíle a Su- 
zaga que diflbmos , e pelo caminho veio 
ajuntando gente até chegar á fortaleza de 
Pondá , onde eftava Genetechan , ao qual 
logo prendeo cm ferros , e a feus Officiaes , 
ealém de o aíTi ter prezo, o vituperava ca- 
da óiâ de fraqueza , e covardia , que nao 
fora para defender aquelías terras. Ao que 
refpondeo Genetechan , que o tempo dava 
por teftemunha fe o fizera bem , ou mal 
depois que clle tiveííe algum recontro com 
os Portuguezes , que eíle falia va como ho- 
mem que os nao experimentara. A gente 
vulgar como vio Capitão novo , e que fe 
jactava de lhas valentias , começou de fe 
chegar a elle , parecendo-lhes terem nelle 
boa comedia. Com ifto ajuntou quatro mií 
homens , a fora mil que eftava m em Pondá , 
e quinhentos que trazia em lua companhia 
com os Turcos. 

Dom João Pereira Capitão de Goa , por 
Nuno da Cunha fer ido a Dio , per hum 

Ca- 



Década IV.Liv. VII. Cap. X. 237 

Capitão Gentio , ( a que ellcs chamam cm 
ília língua Naiquc , ) mandou viíitar a So-» 
Ieimao , como a homem vindo de novo a 
fer feu vizinho três léguas de Goa. Solei- 
mao lhe não quiz refponder, antes quizera 
prender ao mcílagciro , mas depois per in- 
tercelsao de Suzaga o defpedio íem refpofta 
alguma. E logo mandou lançar pregoes , 
que fob pena de morte ninguém levaííc man- 
timentos a Goa , nem lenha , nem outra 
coufa alguma ; e com quatro mil Soldados , 
de que cento e cincocnto eram de cavallo , 
fe partio logo , e foi correr as terras de 
Cocorá , que os Gentios comiam 3 por lhas 
Genetcchan ter dado pelo concerto que atrás 
eícrcvemos. O primeiro lugar que tomou 
foi huma Aldeã chamada Curturij , depois 
tomou Margam , que lie hum templo , e 
pagode de Gentios cercado á maneira de 
fortaleza. 

Neíle tempo mandou Chriftovao de Fi- 
gueiredo , que era Tanadar mór , e eílava 
no pagode de Mardor , recado a Dom João 
Pereira , como eram entrados Mouros nas 
terras firmes , e que parecia que não vinham 
a pelejar : mas tanto que foram na Aldeã 
de Verná meia légua de Mardor, mandou 
a Dom João outro recado já mais apreíía- 
do , como homem que fabia a tenção da 
vinda dos Mouros. Com eíle recado man- 
dou 



238 ÁSIA de João de Barros 

dou logo Dom João o Feitor Miguel Froes , 
genro de Ch riflo vão de Figueiredo , com 
íeis de cavallo , e alguns peaes , e dizer a 
Soleimao que íe fahifle daquellas terras, 
pois não moílrava eícritura do Hidalchan , 
perque pcdiíTe a Nuno da Cunha que lhe 
íoltaííe as terras que tinha tomadas ao Gen- 
tio , polo que lhe amoeftava , que íe não 
metteífe na conquiíla delias , por não dizer 
depois o Hidalchan , que o Governador que- 
brara as pazes em pelejar com íeus vaílal- 
los. Chegado Miguel Froes a Mardor , acer- 
tou de ir a Aldeã Verná hum homem da 
terra , já feito Chriftão , que por amor de 
Nuno da Cunha tomou íeu appellido , e íe 
chamou Manoel da Cunha , e era tão fiel , 
€ tão cavalíeiro de fua pefTòa , que íervia 
de Capitão. Eíle indo com alguma gente 
a Verná , ( que antigamente fora huma Ci- 
dade de Gentios,) citava nella gente de So- 
leimao Agá , que como houve vifta delle , 
o foi commetter. Manoel da Cunha como 
homem prudente íe fez em hum corpo , e 
defpedio logo hum peão a grande prefla a 
Chriítovão de Figueiredo , que qUq ficava 

Íelejando com aquelia gente. Chriílovão de 
'igueiredo acudio com brevidade , mandou 
íeu genro Miguel Froes com íeis de cavai- 
lo , e vinte homens de pé ; e por a gente 
que acudia fobre elle fer muita , o mais que 

Mi- • 



Década IV. Liv. VIL Cap. X. 239 

Miguel Frocs pode fazer , foi recolher a 
Manoel da Cunha , antes que o mataiTem , 
fi acs que com elJe hiam , e todos em hum 
corpo com boa ordem fe foram retirando 
para o pagode Mardor , onde efeava Chri- 
DtoYâO de Figueiredo. E porém eram já tão 
apertados dos Mouros , por ferem muitos , 
que fe Chriftovao de Figueiredo lhes não 
acudira ao caminho com cem homens , alli 
pereceram todos. E neíte tempo tinha já 
Miguel Froes duas frechadas , e feu cavai- 
lo muitas : eram feridos Thomé Velloíb 
Efe ri vão do Tanadar mor y e muita gente 
de pé. Finalmente primeiro qne todos fe- 
recolheílem , nas^voltas que Miguel Froes 
fez com Amador Monteiro , e Franeifco 
Monteiro , (que eram as principaes peíTòas 
que moílráram valor naquclle feito , ) ma- 
taram os Mouros oito Portuguezcs , e en- 
tre eiles António Cardoíb , e hum Naique 
da terra. Também dos Mouros ficaram mui- 
tos no campo , e Soleimão Agá também 
fora morto de huma efpingardada que \\iq 
deo na cabeça , fe as voltas da touca que 
trazia o não falváram. 

Tanto que os Portuguezes fe recolhe- 
ram em Mardor , Chriftovao de Figueiredo 
mandou Diogo Gonçalves de Figueiredo, 
e hum feu Meirinho , a Soleimão Agá per 
modo de trégua , noúficandoJhe o que Dom 

João 



240 ÁSIA deJoXo de Barros 

João Pereira mandou dizer. Mas o Mouro 
como quem fazia pouca conta diíTo , virou 
as cortas , levando eftes dous homens com- 
íigo , c foi-íe alojar perto dalli como em 
cilada , para que lê os noílos com temor fe 
quizeíTem ir para Goa , lhes déíTe aquelle 
fôlego , e depois dando fobre eiles , lho ti- 
ra ííe com a vida. Mas Chriftovao de Fi- 
gueiredo , que efperava fer logo cercado 
per elle , eípedio hum homem de pé com 
recado a Dom João Pereira , fazendo-lhe 
faber o cftado em que ficava , e o que ti- 
nha paliado com Soleimão Agá. Com eíle 
recado que a Dom João foi , á noite fe- 
guinte dos dezoito dias de Novembro , man- 
dou lançar pregões, que pela manha todos, 
aíii de pé , como de cavallo , com íuas ar- 
mas fe foííem ajuntar no paíTo de Agacim. 
Nefte lugar fe ajuntaram duzentos homens 
de cavallo , e aos trinta delles mandou que 
fe paílaílem logo além do rio com Jordão 
de Freitas , que era Tanadar mor de Goa , 
para foccorrer a Chriftovao de Figueiredo , 
antes que recebeíTe algum damno maior. 
Os Mouros como fabiam que o foccorro 
havia de vir , eftavam poftos em atalaia; 
e havendo vifta de Jordão de Freitas , por- 
que para ir a Mardor havia de fer per hum 
paíTò eftreito , foram a elle. Mas entendei 
do Jordão de Freitas o que elles haviam de 

fa- 



Década IV. Liv. VII. Cap. X. 241 

fazer , deixem alguns dos que levava com 
a fardagem de pé , ordena ndo-lhes que co- 
mo elle deícefle ao baixo , íe moftraffem to- 
dos em huma alforriada em maneira que pa- 
recefle muita genro ; o que vendo os Mou- 
ros do lugar do paiTo , ondeeítavam efpian- 
do aos noflbs , temendo que vinha muita 
gente , o dcíamparáram 5 e foram dar nova 
a Soleimao Agá , o qual a eíle tempo ef- 
tava com a mais gente fua ao redor deMar- 
dor, como quem fazia fundamento de os 
não deixar fahir dalli. Mas tanto que lhe 
deram a nova , diílimulando a caufa por- 
que o fazia , poz-fe a fallar com Chriílo- 
vão de Figueiredo , dizendo , que não que- 
ria pelejar com elle ; mas a fua tenção era 
afTentar paz com o Capitão de Goa , e que 
aíTi lho podia mandar dizer, e com ifto fe 
defpedio , levando ainda comíigo Diogo 
Gonçalves de Figueiredo , e o Meirinho. 
E levava tanto o olho fobre o hombro , 
receando que a gente que viram foíTe trás 
elies j que como defapparecêram de huma 
afíbmada , donde podiam ferviftos dosnof- 
fos , indo até alli leu paífo cheio , deram os 
mais delles a correr , e tanto , que alguns 
de temor , por não rodearem alguns cami- 
nhos , fe mettiam per lagoas d'agua , que ha- 
via na terra do tempo do inverno , e não 
pararam daquella corrida menos do pagode 
Tom AV. P.iL a de 



24^ ÁSIA DE JOÁO DE BARROS 

de Margam , onde dormiram eíía noite, 
e llies morreram alguns homens dos que 
levavam feridos do dia paííado. 

CAPITULO XI. 

De algumas dúvidas que houve entre os 

. Portugueses , que eftavam com Chrifiovao 

de Figueiredo , que cejjaram com a vinda de 

Dom João Pereira , o qual feguio a Solei- 

mão Âgd , até fe lhe acolher desbaratado. 

JOrdao de Freitas chegando onde Ch ri- 
flo vão de Figueiredo citava , houve gran- 
de contenda entre os moradores de Goa ca- 
iados , com a outra gente de armas. Os ca- 
iados queriam que Chriítovão de Figueire- 
do fe recolheíTe com toda a gente , e fe fof- 
ie para Goa , e deixaífe aquellas terras ; por- 
que eííarem com ellas de guerra, era gran- 
de opprefsão da mefma Cidade , e não fe 
podiam manter. E porque Jordão de Frei- 
tas tinha fabido de Dom João Pereira, que 
logo liia trás elle aos foccorrer , e também 
a dar de íi moftra áquelles Mouros , def- 
viou eíla prática por tirar períias , dizendo 
que efperaíTem recado de Dom João Perei- 
ra , que elle determinaria o que deviam fa- 
zer , que entretanto elle fe não havia de 
mover dalli. A eíte tempo Bade , hum Gen- 
tio, que era hum dos Capitães , que comiam 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XI. 243 

as terras de Cacorá , e Bailin , mandou hu- 
nia carta a Jordão de Freitas , dizendo fe 
queria dar nos Mouros , que elle os iria 
elperar em bum paíTo , em que lhe podia 
fazer muito damno. Ao que lherefpondeo, 
que eftava efperando por Dom João Perei- 
ra , que como vieíTe lhe mandaria arefpof- 
ta , agradecendo-lhe a offerta. 

Ao outro dia á noite , que Soleimãa 
Agi dormio em Margan , mandou Diogo 
Gonçalves de Figueiredo , e o Meirinho, 
que tinha reteudos , com recado , que elle- 
não queria outra coufa fenao paz 3 e ifto 
podiam affirmar ao Capitão , antes que en- 
tre elles houveíle algum damno demais fan- 
gue. E defpedidos os dous Portuguezes , 
entre os íeus começou a dizer grandes fe- 
ros , que não fomente nos havia de lançar 
das terras firmes , mas de Goa , no primei- 
ro dia que lhe viflem o roíto; e que o fi- 
nal que para iíTò dava, era ter-nos alli en- 
cerrados entre quatro paredes do pagode, 
com morte de muitos , que os Portuguezes 
tinham perdido , fem oufar fahir dalli. E 
que o recado que mandara per aquelles ho- 
mens que foltára , era para melhor os en- 
ganar. Jordão de Freitas refpondeo a feu 
recado , que fe paz queria , que o efperaf- 
fe, que o iria bufear, e então alternariam 
as condições delia. 

QJi A 



244 ÁSIA de João de Barros 

A cíle tempo chegou Fernão de Lemos , 
Eícriváo da Matricula de Goa , com recado 
de Dom João Pereira a Jordão de Freitas , 
que o efperaíle , porque o havia de ter com- 
íigo por hoípede , e afli o fez. Eílando os 
noíTos armados no campo para o receber, 
canto que elle appareceo a huma adornada 
perto donde ellcs eítavam com huma gran- 
de grita de prazer , arremetteo com cento 
c cincoenta de cavallo que levava,- e ajuri- 
tando-fe com os outros , começaram todos 
de eícaramuçar , chegando-fe ao pagode. 
Apeado Dom João , aíTcntou-íc em hum poial 
ao pé de huma grande arvore , pofta em 
lium largo, c limpo terreiro , como tem os 
Gentios ante léus pagodes para fazerem 
fombra a gente que vem a celebrar luas fei- 
tas , nos quaes ha algumas arvores tão gran- 
des , que fe podem agazalhar debaixo qui- 
nhentos homens de cavallo , porque com 
artificio eftendem os braços delias para fa- 
zerem grande copa. Soleimao Agá , que 
parece tinha atalaia fobre o que os n o lios 
faziam , quando íòube da muita gente de 
cavallo que era vinda , entendeo que era o 
Capitão de Goa. E apenas Dom João tinha 
deícançado da feila , e eícaramuça em que 
andara , quando chegou hum mefiageiro de 
Soleimao , perque lhe mandou dizer , que 
o Hidalchan feu Senhor mandara dizer ao 

Go- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XI. 24? 

Governador Nuno da Cunha perSuzaga feu 
criado , que lhe entregaiTe aquellas terras , 
que tomara das mãos dos ladroes Gentios , 
por ficarem deíamparadas da gente que alli 
tinha , ao que ellc per fuás oceupaçóes não 
pudera foccorrer naqucllc tempo ; equeNu~ 
no da Cunha reípondera a Suzaga , que lhe 
não refpondia por eílar embarcado para Dio , 
que de lá lhe refponderia , o que até en- 
tão não tinha feito , por a qual razão o Hi- 
dalchan dera a elle Soleimao Agá aquellas 
terras de arrendamento , e que por iííò era 
vindo arrecadar o que delias era devido , 
o que elle Senhor D. João não havia de 
impedir por razão da paz que o Governa- 
dor tinha aflfentada com oHidalchan. A i£ 
to reipondeo D. João , que ao tempo que 
o Governador Nuno d.a Cunha fe partira 
para Dio , nenhuma coufa lhe mais encom- 
mendára que a guarda , e defensão daquela 
ks terras ; e pois o Governador não era 
prefente , e elle Soleimao entrara nellas com 
mão armada , havendo paz entre elles , que 
Uie requeria que dentro de huma hora e. 
meia fe fofle ; e não o querendo fazer , el- 
le o iria Jogo lançar. O raeíTageiro vendo 
tão eílreito termo , lhe replicou , que dava 
mui breve efpaço , fendo já paliado a maior 
parte do dia. D. João o defpedio , e quail 
uas fuás coitas fe poz a cavallo com fua 

gen^ 



i<\6 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

gente ; e quando chegou junto de Marga m , 
iòube que Soleimao era já partido , lendo 
Sol pofto , é mui allongado dalli ; c fegun- 
do a nova que lhe a gente da terra deo do 
caminho que levava ler mui aípero , e fra- 
gofo , per que não podia ir fenão a fio , era 
íignal do temor com que partira , e levava. 
Por a qual razão hum Henrique de Mene- 
zes Gentio, que fe fez Chriftão em tempo 
do Governador D. Henrique de Menezes, 
foi dar na retro guarda de Solei máo Agá , 
110 eftreito do paíto , por faber bem a ter- 
ra y e depois de fozer grande eftrago nos 
Mouros, que hiam a grande preíTa fugin- 
do , tornou com a lança quebrada , e o ca-* 
vallo ferido ; mas D. João bradou muito 
comelle, e o quizera caftigar , dizendo, que 
em quanto Soleimao Agá , e os feus ca- 
minhavam , hiam feguros delle , pois cum- 
priram o que lhes mandara. 

Soleimao , afli por o damno que \\\q 
efte fez , como porque foube que huns Nai- 
quês Gentios fe adiantaram para lhe ir to- 
mar outro paífo eftreito , onde poderia re- 
ceber muito damno , mandou dizer a Dom 
João Pereira , que para que era perfeguir 
a hum caminhante, que não podia ir mais 
depreíTa , que lhe pedia por mercê mandaf- 
fe dizer ao Bada Naique o deixaífe paliar 
feguro : o que D. João fez , e não fe par- 

tio 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XI. e XII. 247 

tio para Goa , íenao depois que íbube que 
Soleimao Agá citava em Penda com me- 
nos cem homens dos que levara dalli , (de 
que os dezefeis eram de cavaJlo , ) e outros 
feridos. Deíle damno , que Soleimao rece- 
beo , houve grande prazer Geneteehan ? por 
as cruezas que com eile tinha ufado , por- 
que não fora homem para lançar os Portu- 
guezes fora da terra ; ao que elle refpon- 
dia , que outra coufa fentiria , quando tiveíTe 
experiência dos Portuguezes ; e com cila tor- 
nou Soleimao mais manfo do que veio. 

CAPITULO XII. 

Como Soleimao Agá, 'vindo a Ponâd , fez 

algumas coufas em rompimento da paz , 

que o Governador tinha com. o Hidal- 

chan ; e D. João Pereira lhe deo 

batalha , e o venceo. 

TAnto que Soleimao Agá foi em Pon- 
dá j mandou dizer a D. João Pereira , 
que clíe tinha cumprido com o que lhe man- 
dara dizer , e que agora ffzeíTe elle outro 
tanto , que lhe mandaífe defpejar as terras 
dos Portuguezes, que eftavam nas Tanada- 
rias , cujo rendimento era do Hidalchan feu 
Senhor , proteítando fe o não fízeíTe , de ha- 
ver por rompida a paz. Ao que D. João 
refpondeo , que elle o não havia por Capi- 
tão 



248 ÁSIA de João de Barros 

tão do Hidalchan , antes o tinha per hum 
homem alevantado , por não moftrar chapa 
fua , nem carta para o Governador Nuno 
da Cunha , em que o Hidalchan lhe eícrcr 
veíTe , que o enviava áquelle negocio ; e que 
elle efereveria logo a Nuno da Cunha , que 
íizcííe íaber ao Hidalchan o modo que elle 
Soleimao Agd tivera na entrada daquelias 
terras , para o caftigar por iíío. Soleimao 
Agá vendo eíla rcfpofta , mandou pregoar 
íòb graves penas , que ninguém levaíTe a venr 
der a Goa mantimentos , ou outra couíh a!r 
guma. Defte mandado o reprendeo Gcnete- 
chan , que clh tinha prezo , dizendo : Eu 
?mo tenho razão de te amoefiar ijlo , pois 
?no não mereces , tendo-me fem caufa de (ta 
maneira ha tantos dias , pojto que jd deves 
ejlar certificado d tua eufia , quanto mais 
duro he o ferro dos Portuguezes do que tu 
cuidavas , como te eu dijje. Mas por fer- 
iu iço do Hidakhan meu Senhor , não cala-* 
rei o que me parecer dejla defeza que fi- 
g&efte. Quem te aconfelha tolheres que naa 
levem a Goa coifa alguma ? Tu fabes qut 
de fias terras o Hidalchan não teria ren- 
dimento algum , fe Goa não foffe. Que ha 
Goa mefier delias mais que huma pouca de 
lenha , e b et ele , de que os Portuguezes não 
íifam ? Porque arroz , e trigo , e outras 
coufas de que cila he abaflada , lhe *vpn 

de 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XII. 249 

de Ancola , Bati cala , Banda , <r ^ Chaul ; 
^ #j* moradores dejlas terras a troco de le-t 
nha , ^ bervas , trazem de lá oitro , prata , 
^ r^r^ , r <w/ <^ pagam ao Hidalchan ; *? 
/>£/# mefma Goa lhe vem os cava/los , ^z/tf 
^ /W2 fl/âif governo da guerra. Soleimao 
por nao dar gloria a Genetechan , que apon- 
tava bem o que cumpria ao ferviço do Hi- 
dalchan , o defviou com palavras em con- 
trario , dizendo , que bem parecia ler amb- 
gò dos Portuguezes , pois com razoes ap- 
parentes , que pareciam fer em proveito do 
Hidalchan , queria que foíTem providos do 
que haviam meílcr. 

D. João comofoube deíla prohibiçao de 
í Soleimao , mandou que andaílem alguns ca- 
tures per os paíTos per onde coííumava 
da terra firme trazer o Gentio algumas coiir 
ías a Goa , para que o defendeíTem. Os Gan^ 
çares da terra, tanto que viram que Solei- 
Imao Agá íe acolhera a Pondá com temor 
1 dos Portuguezes , enviaram logo pedir a 
D. João , que mandafle Tanadares para re-? 
colher a renda, antes que os Mouros lhes 
deííem alguma crefta contra fua vontade , 
como coftumavam fazer. Somente os de 
Margam , que fempre foram reveis , não 
mandaram recado algum. Para aqueíía re^ 
cadaçao , mandou D. João o Feitor Miguel 
Frocs com quarenta de cavallo pela femana 

de 






■iço ÁSIA de João de Barros 

de Natal. E como Soleimao Agá não vio 
correr o commercio , e quão direitamente 
D. João defendia a paííagem dos Portos, 
houve por melhor confelho o que lhe dava 
Genetechan , e mandou-lhe pedir tregoas 
até o mez de Abril , que efperava recado 
do Hidalchan , a quem tinha eícrito , as 
quaes lhe D. João concedeo por aquelle 
tempo fomente \ porque teve recado de Nu- 
no da Cunha , depois que lbube daquella 
revolta de Mardor , que lhe fizeífe guerra. 
a fogo , e a fangue. E vendo D. João co- 
mo o Governador por aquelle recado que- 
ria fuíter aquellas terras , teve confelho fe 
feria bom fazer huma força na boca de hum 
rio , em huma ponta da terra , a qual cor- 
tada ficafle em Ilha , porque aréalli podiam 
ir os noílbs por mar , c era o caminho mais 
breve , e feguro para as Tanadarias , em 
que os Portuguezes haviam de reíldir. A 
qual obra fendo approvada per todos , fe 
começou , e crefceo de maneira , que ficou 
com quatro baluartes de pedra , e cal", e fe 
chamou a fortaleza de S.Joao deRachol a ' y 

mas 

a Efcreve Diogo do Couto , que D. Gonçalo Couti- 
nho [que fuecedeo a D. João Pereira na Capitania de Goa) 
desfez, a tranqueira de Mardor , a que fe deo fogo ; e fo* 
ire hum tejo , que cahiafohre o rio , fundou de madeira grof- 
fa de duas faces , terra plenada , e-jla fortaleza de Rochol ', 
da qual o Governador fe%\ Capitão Álvaro de Caminha 9 
cap. 5. do liv. 10. Fernão Lopes de Cuíbnheda diz t que 
D. João fez & fortaleza , e que a fundou no Rio di £«/« 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XII. 25- r 

mas a obriçacao de a defender enfiou de- 
pois caro , como adiante diremos. Solei- 
mao Agá vendo o muito que importava 
não fer alli feita aquella força, mandou de- 
fronte , ficando o rio em meio , fazer huma 
parede em modo de amparo , para que cíli-r 
veííe fua gente eícudada , e com tiros im* 
pediífem os noííos no ferviço da obra , e os 
barcos que hiam , e vinham de huma , e ou- 
tra parte. Efta parede lhe foi logo desfeita 
com huma peça de artilheria , com que 
lhe mataram alguns homens , e com os nof- 
fos faltarem em terra , defpejáram os mais: 
Neíle tempo, fendo quatro dias de Janei- 
ro do anno de 1536. chegou hum Coge 
Hamed criado do Hidalchan a D. João , e 
lhe diflè , que elle era vindo a Soleimao 
lAgá com recado de feu Senhor , em que 
\lhQ mandava dizer, que não íizefie guerra , 
e deixaífe eílar aquellas terras no eftado em 
que eftavam , até vir o Governador a Goa \ 
por razão das pazes que com elle tinha a£ 
Tentadas. Ao que D.João refpondeo , que 
por a mefma razão de pazes não fizera el- 
le guerra , fomente acudira á ouíadia de So- 
lei- 

fete féis léguas de Goa , e huma de pafjo de BoriJ fobre 
hum morro grande pegado quaji com terra firme , a quat 
era de forma triangular , com três baluartes entulhado? 
até o andar das ameas do muro , no meio huma torre de 
homenagem , e que a acabou em efpaco de três mex.es> e 
deixou nella por Capitão a Miguel Fr o es. Cap. loZ.doliv. 8, 



i$z ÁSIA de João de Barros 

leimao, c que fempre lhe pareceo que cite 
leu atrevimento não procedia da vontade 
doKidalchan. O Mouro lhe diíTe, que So- 
leimao Agá ficava já amoeftado per elle , 
e feguro de fe mais mover dalli, O meílá- 
ge defte Mouro foi fingido per Soleimao , 
para quedando-lhe credito, porvir doH> 
dalchan , íè defcuidaíTem os noífos da obra , 
e elle entretanto fe aperceber do que lhe 
convinha , como logo moítrou. E para maior 
diílimulaçao , mandou lançar grandes pre- 
goes per toda a terra , que foliem a Goa 
como folgam a comprar , e vender. Tam- 
bém mandou alguns Capitães com gente 
que foflem ás terras de Bailin ? e Gingue 
çar, onde andavam Verugij , e Berugij. Os 
quaes Gentios , com ajuda de duzentos pe- 
aes Portuguezcs , de que era Capitão Fran- 
çifco Falleiro , em hum lugar onde os fo- 
ram cfperar, mataram mais de três mil ho^ 
xnens a Soleimao , e glorioíos com a vi- 
éloria , lhe mandaram dizer , que vieííe el- 
le em peíToa a elles , e não lhe mandaíle 
outrem por fi. Ao que o Agá refpondeo , que 
fe elle tivera licença do Hidalchan não ef- 
perára efte recado. Mas por lhe elle man- 
dar que não fahifle de Pondá , nao tinham 
elles razão de fe gloriar. Outros quinhenr- 
tos homens mandou Soleimao Agá ás ter- 
ras de Bardes , de que hia por Capitão hum 

Tui> 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XII. 253 

Turco chamado Sarnabote , contra os quaes 
foi Jordão de Freitas Tanadar mor de Goa , 
com cincoenta homens fomente ; e fahindo 
cm terra de huns bargantijs , em que foi 
per hum rio dentro , lhe queimou humas 
tranqueiras , que tinha feitas , e matou , e 
ferio , c cativou muitos delles , e quebrou 
hum vallos , com que a maré lhe alagou 
muita parte das femcnteiras de arroz em 
huma varfia. Manoel de Vafconcellos tam- 
bém per outra parte lhe foi desfazer hum 
baluarte , que começava fazer no paííò do 
Borij , queimando algumas caías que efta- 
vam ao redor com morte de alguns delles* 
Soíeimao Agá por moftrar á gente da 
terra que elic náo efrava encurralado dentro 
em Pondá com temor dos Portuguezes , ven- 
do que a gente começava de o não efti- 
mar, por levar fempre na cabeça i ajuntou 
a mais gente que pode , e fez feu caminho 
a Marga m , e per outra parte mandou a 
Sarnabote com outros quinhentos homens, 
.que foíTem a Bardes. D. João Pereira ven- 
do que Soíeimao começava deícubrir a frau- 
de de fua fingida paz , com a mais gente 
que pode íe paliou alem das terras firmes, 
contra aquella parte onde Soíeimao fazia 
feu caminho, e mandou a Jordão de Frei- 
tas com vinte de cavallo , e oitenta de pé, 
que fofle lançar a Sarnabote das terras de 

Bar- 



2^4 ÁSIA de João de Barros 

Bardes , cm quanto clle hia bufear a Solei- 
mão Agá. Mas Samabote como trazia vi- 
gia em íi , tanto que íòube da paíTagem de 
Jordão de Freitas , fc poz em falvo , não 
ouíàndo de o efperar , com a qual fugida 
foi Jordão de Freitas cm bufea de D.João, 
que achou já no pagode de Margam , com 
toda a gente que levava, e com a que ti- 
nha Chriítovão de Figueiredo , no qual ajun- 
tamento havia quinhentos Portuguezes , de 
que os cento e cincoenta eram de cavallo , 
e fetecentos Canarijs da terra , em que en- 
travam duzentos efpingardeiros. Eílando 
D.João duvidofo do que faria, chegou de 
Bailin o Capitão Gentio Verugij , e lhe deo 
nova como Soleimão Agá eilava em pro- 
poíito de vir queimar o pagode de Mar- 
gam , para os Portuguezes perderem aquel- 
la acolheita ; e que quando foubera que elle 
D. João alli citava tão perto , fe tornara pa- 
ra outra parte. 

Andando aíli em mudanças Soleimão, 
e não aíTenrando em hum lugar certo , com 
medo dos Portuguezes , tornou o Capitão 
Verugij , que andava por mandado de Dom 
João trás o raftro de Agá a lhe dizer , que 
o tinha amainado ao pé de hum a ferra , 
que com dous braços que fahíam delia , fa- 
zia hum ceo á maneira de Lua cm hum 
campo chão muidifpofto para pelejar. Dom 

João 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XII. 2^5- 

João informado daquelle íitio , concertou 
com Vcrugij , (que a iffo fe oíFereceo , ) que 
fe foífe a hum paflb , per onde Soleimao 
havia de paííar quando fugiffe . e clle fe foi 
a eítc lugar onde citava Soleimao ; o qual 
como homem que receava aquelle dia , ti- 
nha as coitas na ferra que difíemos. E quan- 
do foube que os noífos eram tão perto , 
que não tinha tempo para fe dalli fahir, 
começou logo de fe ordenar, fe lhe quizef- 
fem dar batalha. D. João como foube da 
gente da terra que Soleimao eílava já pof- 
to em ordem de fe defender , ordenou a 
gente que levava per eíta maneira. Á Jor- 
dão de Freitas Tanadar mor deo a gente 
Canarij da terra , e os efpingardeiros a Gal- 
vão Viegas , e mais a gente da terra que 
comfigo tinha ; e Chriítovao de Figueire- 
ído , e D. João ficaram na retro guarda com 
a maior parte da gente de cavallo, e de pé. 
[Soleimao Agá tinha também repartida fua 
gente em três batalhas , huma era de du- 
zentos de cavallo , de que os quarenta eram 
acubertados , e entre hum \ e outro , ao feti 
Imodo , cinco homens de pé frecheiros : ou- 
tra parte era gente de cavallo , que tomou 
ipara fi ; e a outra era de pé. Tanto que lhe 
os Portuguezes deram vifta , por o fc não to- 
|marem entallado , quando chegaram a tiro 
de efpingarda , Soleimao arremetteo , na 

qual 



256 ÁSIA de João dk Barros 

qual faria os peãcs de D. Jcao , que erarn 
da terra , começaram a remuinhar , e pór-íe 
em fugida , coula que entre elles fe não tem 
por infâmia. Os efpingardeiros de Galvão 
Viegas, porque elle fe poz acavallo, tam- 
bém fe delbrdenáram de maneira , que pou* 
cos acertaram tiro. E o que a huns , e ou* 
tros mais defordenou foram foguetes , e 
bombas de fogo , que os Turcos uíam no 
primeiro rompimento , com que embaraça- 
ram a gente , e os cavai los não acoftuma- 
dos a iífo fugiam com feus Senhores , fem 
darem por freio. Quando D. João vio que 
cites fe retiravam, arremetteo não como Ca- 
pitão , mas como cavalleiro , de huma lan- 
ça , que queria ganhar honra , dizendo : *5V- 
ga-ftte quem quizer , que eu com vitoria 
efpero em Deos de lançar eftes inimigos da* 
qui. Com as quaes palavras affi ofeguíram 
todos , que naquella primeira arrcmettida 
começaram logo os acubertados alijar as pe- 
ças dos cavallos para ficarem mais leves. 
E quem fazia maravilhas com os inítrumen* 
tos de fogo , era huma feiticeira em trajos 
de homem , a quem mataram feu marido 
os Portuguezes , quando correram os Mou- 
ros a Chriílovão de Figueiredo em Mar- 
gam , e tinha dito a Soleimao Agá , que 
confiadamente podia accommetter aos Por- 
tuguezes 3 porque ella com íêus encanta- 

men- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XII. 157 

mentos lhes ataria as mãos, e os pés, com 
que elle íicaile fenhor delles , e de fuás fa- 
zendas. Mas cila ficou mentiroía , porque 
parece que Deos deo dobradas , e mais def- 
impedidas mãos aos noílbs ; porque fegun- 
do no primeiro accommettimento o temor 
os encolhia , aíli fe houveram depois que 
D. João começou a pelejar , que logo So- 
leimão Agá foi de repente desbaratado , e 
deíamparoLi feu arraial como eflava inteiro, 
e fe poz em laivo. E não fomente o def- 
Ipojáram os que o venceram , mas os Gen- 
tios moradores da terra fe carregaram bem 
de fazenda. Ncfte defpojo fe houveram duas 
[lendas mui ricas, huma de Soleimao Agá, 
ie outra de Abedcchan Tanadar mor das ter- 
iras de Pangij , que o veio ajudar, que com 
ia tenda também perdeo a vida. Dos feus 
ficaram alli mortos paílante de cincoenta , to- 
ldos homens principaes , e outros tantos ca- 
'tivos da gente commum. E Fernão de Le- 
ímos , Diogo Mendes , AfFonfo Pico , e Crif- 
,ná hum Gentio honrado , que foram no al- 
cance quaíi légua e meia , á paíTagem de 
ihum rio, e pelo caminho mataram mais de 
cento e cincoenta , a fora mais de trezentos 
que fe arrogaram mettendo-fe pela agua , 
ique por fer o lugar eílreito , e a maré cheia ? 
.não fe puderam falvar. Além deíle damno , 
que aqui receberam os dous Naiques de 
Tam.IT. P.iL R Bai- 



258 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

BaiJin , no paflo onde os foram efperar , lhes 
tomaram cincoenta cavallos , porque nelle 
hum homem de pé podia desbaratar quatro 
de cavaJJo. Finalmente Soleimao Agá che- 
gou a Pondá com perda de hum íbbrinho 
que lhe mataram, e mais de oitocentos ho- 
mens , em que entrou muita gente nobre. 
Dos noíTos foram feridos dez , ou doze, 
iem morrer algum ; e os principaes que na- 
quelle feito fe moftráram bem delatados dos 
ligamentos da feiticeira , foram Jordão de 
Freitas Tanadar mor , Fernão Ferreira , Paio 
Rodrigues de Araújo , Miguel Froes , Baf- 
tião Lopes Lobato , João Rapofo , Belchior 
Botelho , Fernão de Lemos , Vaíco Fernan- 
des , Galvão Viegas , Bartholomeu Bifpo , 
Mattheus Fernandes. a Alcançou-fe cita ví- 
étoúâ a 7. dias de Fevereiro daquelle anno 
de 1536. * efoi a mais notável que até ef- 
íe tempo os nollòs houveram naqucllas ter- 
ras firmes , fem perigo áclks , e tanta mor- 
te 

a De mais dos nomeados fe acharam nefta latalha f 
Vicente Cohiço . e Jorre Garccs Vereadores de Goa da- 
que 1 :? anno , Galas Viegas irmão de Ga/vã-o Viegas , Pe~ 
10 Preto [ogro de D. Diogo de Almeida Freire , Sefaf- 
tiao da Vcnfeca , Gregório Alartins , Franeifco de Jíicn- 
doca, Manoel 'de Vajconcellos , Ajfonjo Pires doVolle. Dio- 
go tio G uro cap. 5. do liv. 10. 

b Antes defia viâoria , efereve Francifco de Andrade, 
que alcançojl outra D. João Pereira do mefmo Solcimam 
Agá , de- que nenhum outro Aut/ior fax, menc-ao. Cap. 9. 
da j. Parte. 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XII. ^9 

te de feus inimigos. E dos Canarijs foi ce- 
lebrada com grande feita , por Soleimão 
Agá fer hum homem de fua condição cruel , 
c tyranno. O qual iobre feguro , vindo-lhe 
fellar vinte c cinco Naiques das aldeãs de 
Bailin j os mandou enforcar cada hum em. 
jfua arvore , com que eícandalizou todo o 
jGentio da terra. Outra coufa mui mal re- 
Icebida de todos , foi tomar toda a fazenda 
jde Abedechan , que per o ajudar morreo 
no arraial , dizendo que eJle o desbarata- 
ra , porque a primeira gente que fugira fo- 
ra a lua , e mandou que feu corpo não fof- 
fe enterrado , e que ficaíTe no campo para 
fer comido dos cães , não lhe lembrando 
que Abedechan morreo pelejando por elle 
como cavaileiro , e elle fe falvou fugindo 
:omo covarde. Por os quaes feitos , e por 
3Utros 3 alguns homens principaes fe ajun- 
áram , e foram a Bilgan a fazer queixume 
lelle a Mir Mujale Capitão do Açadachan 
3or cllc não fer prefente , pedindo-lhe que 
nandaíTe aquelle homem que não fízefle guer- 
a aos Portuguezes , porque a terra fe per- 
lia , e não tinha a gente com que pagar os 
lireitos , o que logo Mujale fez per hum 
equerimento , que mandou fazer a Solei- 
não j ameaçande-o com o Hidalchan , e 
trai o Açadachan , fe, ate o Governador 
l\ T uno da Cunha vir, elle buliíTe comíígo, 
R ii Ao 



i6o ÁSIA de João de Barros 

Ao que clle cbcdcceo , c como anojado fe 
iàhio de Pondá , e fe foi mctter em huma 
Mefquita , onde cíleve até a vinda do Aca- 
dachan , de que agora tornaremos a fallar. 

CAPITULO XIII. 

Corno o Acadachan fe partio per mandado 

do Hidalchan cobrar as terras firmes de 

Goa : e o que pajjou nefte caminho , 

e depois com Nuno da Cunha. 

O Acadachan partido do Hidalchan para 
ir conquiítar as terras firmes de Goa, 
foi-íe direitamente á Cidade de Meriche, £ 
onde Mahamed Barin Capitão delia , que 
fora íèu criado , o não quiz acolher por as 
•razoes que atrás diflemos. E paliadas fobti 
iíib muitas práticas , reípondeo por derra- 
deiro , que tinha recado do Hidalchan que 
o não recolheííe , nem obecleceííe. Difto fi- 
cou o Acadachan mui indignado , e bem 
entendeo , que os recados que elíe tinha do c 
Hidalchan não eram ícm cauía , pois aquei- 
le íeu criado , e feitura , que dlc alli puzera , 
lhe falia va tão íbltamente. E defejando to- 
mar vingança delle , mandou logo trazer de cl 
Bilgan muita artilheria para combater a Ci- fe 
ílade , como fez, de que derribou hum lan- 
ço do muro. Mas quando quiz commetrer 
a fortaleza, como elle mcímo a tinha for- 

ta- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XIII. 261 

talecido pouco tempo havia , deteve-íc mui* 
to oiílb. E antes que começaíle a bateria, 
efpedio agra prçíía hum mcílageiro ao Cc- 
ta Maluco, fazendo-lhe faber o que achara 
em Mcriche , c o engano que lhe o Hidaí- 
chan fizera no feu defpacho , que lhe pedia 
muito que apertáfie com ellc pela entrada 
de luas terras, que então tinha tempo, por- 
que eíie peia £ua parte lhe daria bem que. 
fazer , e outro tanto fez ao Nizamaluco. 
O feu criado Earin como vio ília determi- 
nação , e o querer entrar per combate , fez 
faber ao Hidalchan o eílado em que ficava , 
e o que mandava que fizcflè. O Kidalchan 
como eftava apercebido para efte cafo , ef- 
pedio a grã preíla hum feu Capitão capado 
com dez mii de cavalío, e muita peonage , 
que fe vicíle lançar á viíla do arraial do 
Açadachan , mas que não pelejaíTe cem elie 
até ver recado feu. O Açadachan tinha corn^ 
figo três mil decavallo, e nove mil de pé, 
e como vio vir eíla gente tão preftes , enten- 
deo que o Hidnlchan não tardaria muito, 
e logo lhe veio recado da Corte pelas in-^ 
telligencias que nella tinha, como o Hidal- 
chan ficava de caminho. Com çfta nova dif- 
fe o Açadachan publicamente : Se querem 
que me vá daqui fem primeira tomar vin-. 
gane a de fie traidor , eu o farei , mas não 
para mecter-me dentro em Bilgan , porque. 

IlílQ 



262 ÁSIA de João de Barros 

mo fou eu o homem , que ha de morrer en- 
cerrado em cafa , fenao no campo. Mas com 
todas eílas razões ditas em público , como 
era manhoíb , e cheio de artifícios, faltou 
em outro propoíito , dizendo , que pois o 
Hidalchan íeu Senhor lhe eferevia que def- 
cercaíTe Meriche , e fe foíTe para Bilgand 
e dahi para onde o mandava , que queria 
mais cumprir feu mandado , que leu pró- 
prio defejo 5 que era caftigar aquelle trai- 
dor, erevel criado. Mas elle não fez mais 
caminho que defabafar Meriche , e poz-ie 
entre ella , e Bilgan , efperando a mudança 
que o Hidalchan fazia. Dahi mandou reca- 
do a Soleimao Agá Capitão de Pondá , 
que em nenhuma maneira fizeííe guerra aos 
Portuguezes , antes deixaííe correr livremen^ 
te o commercio de todas as coufas para 
Goa , porque aquelle negocio eile o havia 
de acabar per cartas fuás com o Governa- 
dor Nuno da Cunha , e não per o modo 
que elle até então tivera. 

Não feria o Açadachan apofentado no 
lugar , que tomou para efperar o que o Hi- 
dalchan fazia de íl , que eram fete léguas 
de Meriche , quando o Hidalchan per ou- 
tro recado , que lhe o Capitão cercado man- 
dou , partio fomente com duzentos de ca- 
vallo , como pela polia , e em dous dias an- 
dou vinte e oito léguas, que são da Cida- 
de 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XIII. z6" 3 

de de Bilàpor a Meriche , e quando che- 
gou fe foi apofentar no arraial do feu Ca- 
pitão capado , não fe fiando de entrar na 
Cidade. Da qual mandou fahir ao Capitão 
Barin, e o levou comíigo, tornando-ie pa- 
ra Biíapor com todo o exercito. Dalii man- 
dou recado ao Açadachan que mandaíTe pôr 
cobro na Cidade , porq-ae elle lha deixava 
livre, e levava comíigo Mahamed por lhe 
nao fazer mal com a indignação que delle 
tinha , ao qual nao devia de culpar, por- 
que tudo o que fizera fora por feu manda- 
do ; e que a cauía de elle lho mandar fa- 
zer foram mexericos , que delle Açadachan 
lhe diííeram nas coitas da prática que com 
elle tivera. O que elle tinha labido ferem 
coufas de homens , que lhe tinham inveja á 
mercê , que lhe fizera das terras firmes que 
lhe mandeára conquiftar j mas como foubera 
a verdade , fizera aquelle caminho tão apreí- 
fado a fim de o vir metter em poíle do feu , 
que fe foífe em boa hora a fazer o que lhe 
mandava , por quanto lhe era dito que os 
Portuguezes tinham tratado mal a Soleimao 
Agá. O Açadachan porefte recado lhe man- 
dou beijar os pés , e dizer , que elle fe par- 
tia logo a fazer o que lhe mandava ; mas 
nao fe fiava delle, nem o Hidalchan det 
cançava cm fuás coufas , porque per huma 
parte era hum eferavo feu muito lujeito , e 

hu- 



264 ÁSIA de J0X0 de Barros 

humilde , e per outra via eram tudo trai- 
ções , e maldades não pen fadas , portas em 
eríeito , como logo vio , tanto que chegou a 
Bifapor , onde lhe veio recado que o Cota 
Maluco entrava per fuás terras , o que cn- 
tendeo ler per incitamento do Açadachan ; 
o qual fendo tornado a Meriche , fe poz a 
reformar o damno que lhe fizera , e dabj 
fe veio a Bilgan prover do neceííario para 
a conquiíla das terras firmes , o que fazia 
algum tanto de vagar. 

Neíle tempo feita feira antes de Pvamos 
chegou o Governador Nuno da Cunha a 
Goa , deixando as couíàs de Dio no citado 
quediíTemos, quando tratámos d'ElRey de 
Cambava , e logo mandou dizer ao Açada- 
chan da lua vinda , e que citava efpantado 
das coufas que achava feitas nas terras fir- 
mes , das quaes ainda que foubera em Bio 
per cartas , que lhe efereveo o Capitão de 
Goa , não lhe parecia ler tanto o mal , co- 
mo fendo prefente via : que fe maravilhava 
muito deelle coníèntir que andaíTem aquel- 
las terras tão revoltas , e tão deltruidas com 
os damnos que a gente tinha recebido, que 
antes de muitos dias não haveria quem as 
cultivaífe , nem habitaííe. E que legundo 
tinha fabido , a maior parte deite mal pror 
cedera de hum homem tão cruel como era 
Soleimão Agá , que fez muitas cruezas á 

gen- 



6 



Dec. IV. Lrv. VIL Ca?. XIII. 26? 

lente mefquinha. E o de que mais le ef- 
pantava cm de lhe dizerem , (o que não 
cria , ) que elle em peíToa vinha novamen- 
te (obre aquellas terras , que não iabia a 
que , por citarem tão enfermas , e fendas 
dos dam nos paffàdos , que nem para paftar 
as berras o podiam fofirer , tanto mais as 
obras que fazem os loldados por mui co- 
medidos que íejam , porque naturalmente he 
gente que vive do fangue dos lavradores. 
Eque a lhe dizer verdade, a elle lhe fazia 
pouca cubica a*queilas terras , fomente as 
queria para que a fua gente dermas tiveíTe 
onde ir montear , porque com as couías de 
Cambajra , ( como elle fabia , ) ficava tao 
ociofa , que era neceíTario para ie não amo- 
lecerem , e corromperem com o ócio, dar- 
lhes alguma honefta oceupação como he a 
caça. E que íe de Dio efereveo ao Capitão 
que as não foltaífe , era a efte fim , e por 
o concerto que com elle íe fez , como fa- 
bia. Por tanto lhe pedia , e rogava , que a 
amizade, e paz que entre eíles era aíTenta- 
da , não íe rompeíle , pois de a ter o Hidal- 
chan com os Porruguezes , recebia mais pro- 
veito do que a elles lhe vinha. E bailava pa- 
ra faber quaoproveitofos amigos eram os Por- 
tuguezes em o negocio prefente , que ora eíta- 
va avilta de toda a índia , nao achar Soltam 
Badur outro amparo, efegurança fenao nelles. 

O 



266 ÁSIA de João de Barros 

O Açadachan como fora o author de 
Nano da Cunha mandar tomar as terras pe- 
lo modo que atrás fe vio , não fe quiz deí- 
cuberíamente moftrar culpado na fua vinda , 
nem menos eícuíò delia , e mandou-lhe con- 
fefíar o que tinha dito \ mas que bem via 
elle quantos trabalhos tinha até então paf- 
fados com o Hidalchan por inimigos íeus , 
que lhe andavam á orelha , e que alli onde 
eltava o não deixavam aílbcegar, e que elle 
muitas coufas lhe concedia , e cm muitas 
lhe obedecia , não por lhe parecer bem , 
mas por fer homem mancebo , appetitoío , 
edeíconfíado ; e contrariar-lhe qualquer cou- 
Sà , em que elle moílrava goíto , era total 
deftruição fua. E que como o Hidalchan 
neíla vinda íbbre as terras firmes , era a em 
que ao preíente mais appetite tinha , não 
podia elle tão deícubertamente deixar de ir 
avante , c cumprir fua vontade ; mas que 
faria cite caminho de vagar , porque por 
ventura nefte meio tempo lhe veria outra 
vontade. E aíli o moítrou o Açadachan lo- 
go nos apercebimentos da guerra , indo 
mui vagaroíb nelles. Mas tudo iíto era ar- 
tificio para fazer com o Hidalchan íeus ne- 
gócios melhor , e não por refpeito de Nu- 
no da Cunha , porque a verdade deite va- 
gar era , que entendia per avifos de feus 
amigos , que trazia em cafa do Hidalchan , 

que 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XIII. 267 

que como andafle envolto na guerra com 
os Portuguezes , lhe havia de ir tomar Bii- 
gan , que era o feu coração , por ter aili 
lua fazenda , e fegurança de todo feu fer. 
O Hidalchan lhe dava ainda maior fufpei- 
ta , porque o apertava muito com cartas 
que fofie avante , e ainda lhe conveio ef- 
crever-lhe muitas palavras de mimo , e fe- 
gurailo j até lhe mandar hum Capitão Abe- 
xij chamado Rahen , dizendo , que fe o dei- 
xava de fazer , porque não tinha tanta gen- 
te como queria para accommetter aquelle 
feito , elle lhe mandava aquclle feu Capi- 
tão com quatro mil homens , e com elle 
mandou também Genetcchan , que citava 
prezo em Pondá , a quem elle dava aquella 
Tanadaria , e mandava que fe foífe delia 
Solei mão Agá feu inimigo , por a má in- 
formação que tinha de como aili fe houve- 
ra. Com eftes quatro mil homens que de 
novo vieram ao Acadachan , ajuntou elle 
em Bilgan doze mil , em que entravam qua- 
tro mil de cavallo , e duzentos efpingar- 
deiros. 

Eítando aili alguns dias levando as cou- 
|fas devagar, veio-lhe recado como os Mo- 
í goles entravam pelas terras de Madre Ma- 
luco , o qual o mandou ao Hidalchan , di- 
zendo , que fe fizeíTem ambos em hum cor- 
po para Lhe defender a entrada. Com efta 

no- 



zá$ ÁSIA de João de Barros 

nova , dizem que o Hidalchan mandou ao 
Açadachan que não paílailè abaixo ás ter- 
ras firmes , até íaber em que parava efte avi- 
fo dos Mogoies. Outros dizem , que o Aça- 
dachan fazia nova mais verdadeira do que 
era , por ter efeufa no vagir que levava ; 
porque tendo elle já mandado fazer largos 
caminhos nos paítos de Gate até Pondá , 
por fer coufa mui trabalhola de paíTar hum 
rao grande exercito como elle trazia por 
elles , e muitas peças de artilheria , que era 
já poda em caminho para eftar na fortale- 
za de Pondá , mandou que nao foííe por 
diante. E elle também eftando no campo 
fora de Bilgan com fuás tendas armadas , 
e o arraial allentado , tornou-fe a recolher 
á Cidade , e ao Genetechan que tinha efpe- 
dido para Pondá , e eftava já em hum lu- 
gar chamado Chocoíá , que lie no Gate , 
mandou-lhe que fe detiveííe , e nao paííaf- 
ie avante. Finalmente com grandes inter- 
vallos , fingindo ora huma coufa , ora ou- 
tra , chegou a Pondá com vinte mil ho- 
mens a 17. de Maio daquelleanno de 1536. 



CA^ 



Década IV. Livro VII. 269 

CAPITULO XIV. 

Como chegando o Açadachan a Pondd , vian- 
dou huma carta do Hidalchan a Nuno 
da Cu; :ha , e da refpofla que a cila 
deo : c do que mais fuccedeo 
entre el/es. 

TAnto que o Açadachan chegou a Pon- 
dá , Jogo aos 20. dias do mez de Maio 
mandou a Nuno da Cunha huma carta do 
Hidalchan com o mcílageiro que trazia, 
cuja íubflancia era , que eJle mandava o Aça- 
dachan com vinte mil homens a cobrar as 
terras firmes , que eiJe tinha ufurpadas ; c 
queaquella carta náo era para mais que dar 
crença ao que lhe mandava dizer per aquel- 
Jc meíTageiro. Nuno da Cunha o mandou 
receber, e depois de ter lida acarta, ouvio 
o que da parte de íeu Senhor lho dizia , 
que foi huma grande arenga , começando 
do tempo de Arroníb de Albuquerque , e 
das pazes que fizeram com oSabaio íeu 
avô t , e a continuação daquella amizade 
entre feu pai , e todos os Capitães que go- 
vernaram a índia , ate elle Nuno da Cu- 
nha. E que elle como herdeiro de feu pai 
queria continuar efta paz pela maneira que 

fem- 

n Seçunio o çttZ eferive Diogo do Couto , houvera d& 
dha cem o Cujo Hidalchan jeu avo. 



270 ÁSIA de J0X0 de Barros 

fempre tiveram , enao queria que houveíTe 
couía entre elles para fe quebrar. E (obre 
iilo outras muitas palavras , cuja conclusão 
era , que lhe foltaite as terras , e pagaíTe os 
rendimentos que tinha recebido dos Gança- 
res. Nuno da Cunha , como já com todos 
os Capitães, e pefíbas notáveis do coníçlho 
da governança da índia tinha affentado a 
íubftancia da refpoíla que havia de dar , por 
ter fabido a que o meíTageiro vinha , logo 
em público , onde elle fez fua falia , lhe dii- 
íe , que elle não queria dilatar refpoftas , 
como outros ufavam , trazendo os meíTagei- 
ros em dilações y nem traria razoes dos tem- 
pos tão atrás , como era o de Affonlb de 
Albuquerque , mas fomente do prefente , de- 
pois que o Hidalchan fora mettido em poi- 
fe de feuEítado. E que a refpoíla feria pa- 
ra a elle dar ao Açadachan , que eftava em 
Pondá , como elle dizia , com vinte mil ho- 
mens , o quaj fe vinha com defejo de pele- 
jar com os Portuguezes , clles eram homens 
que não haviam de negar a luta 5 e que [fi- 
to diíTeííe ao Açadachan. E que quanto ao 
Hidalchan , elle lhe eferevia largamente fo- 
bre o negocio; e com iílo ocfpedio. A fub- 
fíancia da carta para o Hidalchan foi , que 
quando fe tomaram aquellas terras dos Gen- 
tios que as roubavam , foi per confelho do 
Açadachan, cujas cartas tinha, por elle Hi- 

dal-. 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XIV. 271 

dalchan eflar naquelle tempo mui oceupado 
em coufas do feu Eftado , a que lhe convi- 
nha primeiro acudir; e como coiiía que ef- 
tava devoluta , e vaga , lançara mão delias. 
E que como marco , e padrão da poíle 
mandara fazer aquella força , íobre o qual 
negocio eferevêra a EIRey feu Senhor, e 
por iíTo elle nao podia fem feu mandado 
loirar o que huma vez tomara. Antes lhe 
parecia que elle Eidalchan como peflba, 
que novamente fuecedia no Efiado de feu 
pai , que fora tão grande amigo d'E!Rey 
ièu Senhor, como elle dizia, devera de fol- 
gar de o ter por efie , porque os Eftados 
da índia nao eílavam tao fegures que não 
houvcíTcm meíler por amigo hum tal Prín- 
cipe como EIRey de Portugal ; e que bem 
prefente eílava nos olhos de todos a pros- 
peridade d'E!Rey deCambaya, o qual vin- 
do a cahir delia , nem em vailailos , nem 
em vizinhos de fua feita achou ajuda , e 
amparo , fcnào em feu Governador da ín- 
dia , contra o qual antes fe mcftrava tao 
izento , que pedindo-lhe as terras de Ba- 
çaim , nao lhas quiz dar, e depois nao fo- 
mente lhas deo íem requerimento , ( o ren- 
dimento das quaes he dobrado do das ter- 
ras firmes de Goa , ) mas ainda huma for- 
taleza na Cidade de Dio , que elle tanto 
tempo negou 3 fomente por ter o favor dos 

Por- 



272 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

Portuguczcs , e não outro mais certo reme- 
dio j c amparo cm fua preíente neccífidade. 
Tanto poder tinha a fortuna varia dos ho- 
mens , que dos inimigos faz amigos , c cm 
os acharem íe tem por bem a ventura d os ; e 
que quanto ao desfazer da fortaleza , fobre 
que lhe leu meílageiro fallára , eJla tinha 
cuítado tanto trabalho , e iàngue aos Portu- 
guczcs , que antes todos morreriam fobre 
ella , que tal confentir. Quando o incííagei- 
ro veio bufear cila carta , e defpedir-fc cio 
Governador , Jhe pedio que lhe fizeíTe hu- 
ina mercê y que elle teria por mui grande , 
que era mandar que nao fizeflem guerra até 
elle ir , e vir do Hidalchan , o que' lhe o 
Governador prometteo. Mas como elle co- 
nhecia as aílucias do Hidalchan , por o nao 
tomar defeuidado , mandou armar certos 
catures , e batéis , que andaíTcm cm capita- 
nias per todos os rios , e cíleiros que vem 
ter a Goa , vigiando o que fe fazia em 
terra , e fe ordenavam os Mouros algumas 
jangadas de madeiras , cm que cllcs coítu- 
mavam a paliar gente á Ilha. 

O Açadachan paílados alguns dias que 
diílimulou eíle cafo , por caufa da vinda do 
meílageiro do Hidalchan , quando veio a 
iéte de Junho, defpedio dous Capitães , Ra- 
hen que lhe mandara o Hidalchan com qua- 
tro mil homens , e Solcimao Agá Capitão 

paí- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XIV. 273 

paíTado com outros quatro mil , e que fe 
roflèai as terras de Saliete. Nuno da' Cu- 
nha , porque iilo não reípondia ao petitó- 
rio do melTageiro do Hiaalchan , que lhe 

pedio não fizeíTe guerra até fua tornada com 
reípoíla , mandou hum Naique Capitão da 
terra denunciar ao Açadachan a guerra , o 
qual o reteve prezo. Como Nuno da Cu- 
nha foube que o Naique era reteudo , man- 
dou a Ruy Dias Pereira Capitão mor dos 
navios de remo , fazer entradas pelos rios , 
e eíteiros da Ilha de Goa , e em terra fazer 
todo o dam no que pudefle nas aldeãs , e 
lugares , o que elle fez, matando, e cati- 
vando muitos moradores das Tanadarias, 
principalmente em hum pagode , onde tomou 
trinta e tantas peífoas , e os mais fe foram 
lamentar ao Açadachan deite damno , com 
a qual nova elle mandou logo foltar o Nai- 
que que tinha prezo , defeulpando-fe a Nu- 
no da Cunha , que a caufa de o deter tan- 
tos dias fora. por fer homem, com que fol- 
gava de fallar, por o achar peíToa de fub- 
flancia em fua prática , como por elle po- 
dia faber. E porque elle tinha mandado aos 
dous Capitães que levaíTem certas peças de 
artilheria groífa para pôr contra a noíía for- 
taleza , onde elle efperava de fazer huma 
defensão , tornou-lhes a mandar dizer que 
a não levaíTem adiante , e cada dia fazia 
Tom. IV. P. il S hu- 



174 ÁSIA dk joAo de Barros 

jiuma mudança , c mil artifícios , para que 
Nuno cia Cunha perdeííe o raílro do que 
elle queria fazer. Mas elle entendia bem 
que tudo era ter o Açadachan mais o lcn- 
tido no que fazia o Hidaicjlan , temendo 
que lhe vieíTe tomar Bilgaii , que vontade 
de nos fazer então guerra. E a tanto che- 
gou efte ieu temor , que algumas vezes fe 
fazia doente na fortaleza de Pondá, e não 
fe deixava ver , e de noite como pela pof* 
ta com cavallos em paradas , per fua pef- 
foa , fendo homem de muita idade , dava 
huma vifta a Bilgan , e dahi a Biíàpor , cn- 
de eftava o Hidalchan , e onde também ti- 
nha os que lhe davam os avifos do que fe 
pa/Tava fobre elle. Com eíles temores não 
aííòcegava , nem fe Jabia determinar , por- 
que ás vezes partia de Pondá para as terras 
de Salfete , e no caminho fingia enfermida- 
de , ou impedimento de maneira, que dle 
mcímo fe não entendia. Os feus Capitães o 
mais que faziam era dar huma vífta á nof* 
fa fortaleza , fem os noífos fahirem , por 
aííi lho ter mandado Nuno da Cunha , até 
que eiles fe enfadaífem. E aífi foi , porque 
as terras per que elles andavam ferem ala- 
gadiças , e não as poderem andar fenao 
com muito trabalho , a gente enfermava , 
além da fome que paliavam , por não acha- 
rem que comer y porque os lavradores com 

a con- 



Dec. IV. Liv. Vil. Cap. XIV. e XV. 27J 

a continuação da guerra foram-fe recolhen- 
do para cinpa concra o Cate , e deixaram 
de cultivar as terras, e além da gente, lhe 
adoeciam , e morriam os cavallos , e ele- 
fantes , que eíle muito eftimava. E temendo 
perder mais cavallos , mandou alguns , que 
elle tinha mais mimoíòs , a Bilgan. Nelte 
tempo em algumas entradas que os Portu- 
guezes fizeram pelos rios , mataram muita 
gente da terra ; e por deíaftre de hum ca- 
tur dos Portuguezes ficar em fecco com gen- 
itc , carregaram alli tantos Mouros , que ma- 
taram os mais delles , de que os principaes 
foram Henrique Ribeiro , Vaíco de Mou-* 
ra ? Lopo Bugalho , e Jorge de Lemos. 

CAPITULO XV. 

'\Das coufas que fucceâêram na guerra das 

terras firmes de Goa : e âa entrada que 

nellas fez D. João Pereira : e do 

bom fuccejjò que teve. 

FAzia oAçadachan a guerra remiíTamen- 
te com o tento que tinha no Hidalchan , 
)ccupando-fe em fazer caminhos largos pa- 
a feu exercito , e ameaçando ora aqui , ora 
|.lli , como quem efgrime em vão. Nuno da 
Zunha pelo mefmo modo , como quem en- 
endia os receios do Açadachan , também o 
■ntretinha com alguns faltos per eíTes rios , 

S ii ora 



276 ÁSIA de João de Barros 

ora em huma parte , ora em outra , fazen- 
do o damno que podia , até que o Hidal- 
chan lhe mandou refpoíta da carta que lhe 
eferevêra. A íubítancia delia era remetter 
ao Açadachan todos aquelles negócios , pois 
Nuno da Cunha dizia íer elie muita parte 
de tomar aqueilas terras , e que haveria por 
bem tudo o que elle fizeííe. Sobre iílo hou- 
ve muitos recados entre Nuno da Cunha , 
e o Açadachan ; mas tudo fe vinha refolver 
em cada hum querer ficar com as terras , e 
não deíifcir da conquifta , e polTe delias. Nef- 
te tempo veio nova ao Açadachan, que o 
Hidalchan eílava emBifapor, fem ouíar de 
fe mover dalli , por ter novas que huns 
Mogoles que andavam em Cambava tinham 
concertado com o Madre Maluco , que lhe 
déíTe paífagem per fuás terras para ir ás del- 
le Hidalchan , e dahi fe paíTarem a Nanln- 
ga , onde çlles muito defejavam entrar , por 
a fama das grandes riquezas que naquelle 
Reino havia. Eftas novas tinha o Açada- 
chan per fufpeitas , e pareciam-lhe fingidas 
pelo Hidalchan para diffimular com elle. E 
com ellas também lhe vinham outras , que 
era ler muito culpado ante o Hidalchan , e 
feus Capitães , por quão pouco tinha feito 
depois que viera áquella empreza , promet- 
tendo dle quando da Corte partio, que as 
fuás barbas brancas havia de levar verme- 
lhas 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XV. 277 

lhas do fangue dos Portuguezcs , em que 
as havia de tingir , e que até então mais às 
tinha cheias de injuria , que do fangue que 
dizia. 

Nuno da Cunha per efte tempo hia ce- 
vando a fortaleza deRachol, mandando em 
modo de Capitanias alguns Fidalgos , e 
gente nobre , como foi Manoel de Mace- 
do , e Joanne Mendes feu irmão 5 com trin- 
ta homens per huma vez , e per outra a 
Fernão de Lima , e Paio Rodrigues de Araú- 
jo com muitos efpingardeiros , e depois Gon- 
çalo Vaz Coutinho. A caufa de Nuno da 
Cunha ir cevando efta fortaleza com gente , 
era , porque os Mouros cada dia davam mof- 
tra de fi fem commetterem , e receava que 
hum dia com grande ímpeto deíTem nella 
de fubito. E principalmente fe temia , por- 
que foi aquelle anno o inverno tão grande 
em dous mezes delle , que andavam os ho- 
mens mortos , e não podiam aturar o tra- 
balho por os mãos gazalhados que tinham , 
e aífi fe perderam com as muitas chuvas to- 
das as novidades , e fementeiras da terra , 
e em Goa cahíram muitas caías. E porque 
na outra parte onde eftava Vafco Fernan- 
des por Tanadar , hum Capitão do Açada- 
chan o vinha muitas vezes commetter , man- 
dou Nuno da Cunha a António Corrêa com 
alguns navios de remo 3 e vieram-fe a re- 

vol- 



2j2 ÁSIA de João de Barros 

volver com os Mouros de maneira ? que 
lhe mataram os noííos muita gente , e o 
Capitão deJIes efcapou a pé , perdendo o 
cavallo em hum lamaçal per onde fe foi 
metter com preífa de fugida. 

Depois por vir nova a Nuno da Cunha 
per eípias que lá trazia , como fe ajuntava 
no me Imo lugar muita gente em damno 
noíTo , a 10. de Agofto , dia de S. Lou- 
renço , fez pairar áquella parte D. João Pe- 
reira Capitão da Cidade com cento e trin- 
ta de cavallo a , e feiscentos Portuguezes de 
pé , de que foi Capitão Gonçalo Vaz Cou- 
tinho , e mil peaes Canarijs da terra , de 
que era Capitão Grifiiá Gentio honrado. 
Os Mouros quando fouberam que efta gen- 
te entrava meia légua pelo fertão , recolhê- 
ram-fe mais ao pé de huma ferra , e fize- 
ra m-fe fortes em hum tefo , por eítarem mais 
feguros , onde D.João os foi bufear. E co- 
mo per Galvão Viegas , que levava diante 
por adail , foubc do cílado em que eflavam , 

or- 

a Acompanharam a D. João nefta jornada "D. Pedro 
de Meneies , João de Mendoça , Chrijtovao de Soul~a , Li- 
fuarte de Andrade , Marfim Corrêa da Silva , João Ju- 
farte Tição y Manoel de Se ufa de Sepúlveda , Francifco de 
Gouvéa , Voo da Cunha , Manoel de Vafconcellos , Gal- 
víío Viegas , António de Keboreda , e hum filho Jeu , Pê- 
ro Godinho , Dio^o Fernandes o Adail , Paio Rodrigues 
de Araújo , Rny Dias da Silveira Fernão Lopes de Caf- 
tinlieda cap. 1 5 S . do liv. 8. e Francifco de Andrade cap. 
%i. da 3. Parte» 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XV. 279 

ordenou fua gente per efta maneira. Os Gen- 
tios , de que era Capitão Crifhá , por le- 
rem mais ligeiros , coftumados á terra , hiara 
na dianteira , trás elles hia logo Gonçalo 
Vaz Coutinho com a pionage Portugueza. 
A gente de cavallo foi repartida em duas 
partes , huma levava o Adail , e a mais prin- 
cipal ficou com D. João. Indo neíla ordem , 
porque o monte onde os Mouros eftavam 
era hum pouco efpelTo com arvoredo , e fa- 
zia hum palio eílreito , que lhe podia pre- 
judicar vindo por alli alguns Mouros a 
lhe dar nas coitas com alguma cilada de 
que não foubeílem , mandou D. João que 
ficaíTe alli Manoel de Vaíconcellos com al- 
guma gente de cavallo , e de pé. Chegados 
os noíTos tão perto , que eram viftos dos 
Mouros , em lugar de a gente Canarij que 
levava Criíhá haver de fubir pelo tefo aííi- 
ma a dar nos Mouros , começou a recear , 
até que fem vergonha tornaram para trás , 
e foram dar com Ímpeto em João Rodri- 
gues Homem , o qual por fe querer mof- 
trar que o era no animo , como no nome , 
com feu cavallo fe metteo tão defenfreada- 
mente entre os Mouros , que logo foi mor- 
to. E com a fúria delia perda , D. João 
chamando por Sant-Iago , rompeo os Mou- 
ros com tanto Ímpeto , que começaram a 
fugir , e defecr a humas íémeadas de arro- 
zes , 



230 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

zcs , que eílavam ao pé do teíb da outra 
parte. E como citavam cheias d'agua , on- 
de os noííos não oufavam entrar , repartí- 
ram-fe em duas partes , huns tinham aquel- 
la entrada , tomando o caminho aos Mou- 
ros para não fahirem 3 outros foram rodear 
a tomarem huma ponte de hum efteiro per- 
que fe acolhiam , na qual mataram muitos 
delles s e com o temor do noflb ferro ficaram 
enterrados naquelle tremedal dos arrozes, 
entre os quaes foi o feu Capitão Janebec , 
que já levava duas lançadas. Finalmente dos 
Mouros de cavallo ficaram alli vinte , e mui- 
tos de pé: os cativos foram cincoenta , en- 
tre os quaes foi Sarnabote , que era Adail 
de Janebec. Dos noííos morreram quatro , 
além de João Rodrigues Homem , e alguns 
feridos , de que os principaes foram Pêro 
da Cunha , e Diogo Vaz de Aragão. E os 
peior tratados foram os Gentios da terra , 
por fer gente mal armada. Per eíla maneira 
ficaram os Mouros que andavam naquellas 
terras de Bardes tão amedrentados , que fe 
quizeram parlar ás terras de Caporá ; mas 
os moradores delias os não confentíram, 
dizendo , que temiam que os Portuguezes 
os foíTem deílruir , polo que fe alongaram 
mais para as terras de Banda. 



CA- 



Década IV. Liv. VIL 281 

CAPITULO XVI. 

Como o Açaâachan anâou em requeri- 
mento com Nuno da Cunha fobre ajjento 
de pazes , e de fe verem ambos , o que não 
houve effeito: edasviclorias que houveram 
António da Silveira nas terras firmes > e 
Gonçalo Vaz Coutinho na cofia. 

NÃo tardaram muitos dias depois que 
D.João Pereira Capitão de Goa hou- 
ve aquelle bom íucceíío nas terras firmes , 
que o Açadachan efereveífe ao Governador 
Nuno da Cunha , pedindo-lhe por não an- 
darem em ir , e vir cora recados , e refpof- 
tas , que lhe mandaífe alguma peííba para 
praticar com elle algumas coufas , que con- 
vinha a ambos , e o Governador lhe man- 
dou Chriítovao de Figueiredo , com quem 
o Açadachan fe defen volvia bem , e entre 
ambos fe concertou que o Açadachan , e 
Nuno da Cunha fe viffem. Mas ifto não 
houve effeito , porque o Açadachan hum 
dia fe fez doente , outro anojado , dizendo , 
que lhe viera nova que os Mogoles mata- 
ram hum filho do Madre Maluco em hum 
recontro que teve com elles , querendo en- 
trar nas terras de feu pai ; e fegundo fe de- 
pois foube , o Açadachan queria ganhar a 
vontade a Nuno da Cunha cm lhe defeu- 

brir 



282 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

brir per meio de Chriítovao de Figueire- 
do o que EIRey de Cambaya andava or- 
denando com o Hidalchan , e com os' Ca- 
pitães do Reyno do Decan , e todos os ou- 
tros Príncipes da índia contra Portuguezes , 
como adiante diremos. Todavia paílados oi- 
to dias , o Açadachan veio a hum outeiro 
do paíTo de Beneílarin , e per derradeiro 
mo foram mais asviftas, que ir Chriítovao 
de Figueiredo ao Açadachan , e Aga Ma- 
mud criado do Hidalchan vir a Nuno da 
Cunha ; e por remate do negocio ficaram 
no eftado em que antes eftavam , e Nuno 
da Cunha com maior efcandalo , o qual por 
fejá defpedir o inverno , mandou lançar ao 
mar todas as velas. O Açadachan também 
por a mcíma cauía , antes que as armadas 
dos Portuguezes navegaífem , e foííem fa- 
zer algum darrrno pelos feus portos de mar, 
queria tomar mais alguma conclusão fobre 
a fortaleza que elles tinham feita , e man- 
dou-lhe dar algumas vidas , com grande 
número de gente tão perto delia , efca- 
ramuçando em hum campo a modo de 
defprezo , que indignados os noíTos , lá 
os foram peícar com duas , ou três peças 
de artilheria , com que ficaram no cam- 
po vinte. Os Mouros efcandaiizados dif- 
to , foram dar no paílb que chamam Ca- 
rambolij , e apertaram tanto com o Tana- 

dar 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XVI. 283 

dar Luiz Caílanho, que o fizeram recolher 
a Goa. 

Nuno da Cunha a primeira Armada que 
lançou ao mar foi de duas fufías , e três 
catures , cuja Capitania deo a Gonçalo Vaz 
Coutinho, que fez muito damno por rodos 
os portos em que entrou. E tendo Nuno 
da Cunha confelho para em peííòa paliar a 
Salfete , chegaram cartas d'E!Rey de Co- 
chij , e do Doutor Pêro Vaz Veedor da fa- 
zenda , dizendo , que importava muito fua 
ida a Cochij , por as guerras que os Reys 
de Cochij , e Calecut entre fi tinham áçíÓQ 
o principio do inverno ; e como Fernan- 
D'eancs de Sotomaior Capitão de Cananor 
por eílar perto dalli tinha foccorrido com 
dez velas de remo , e duzentos homens , 
que aproveitaram muito. Também lhe ef- 
crevia o Veedor da fazenda , que per terra 
lhe vieram novas que em Choromandel fe 
levantava gente da terra contra os Portu- 
guezes que lá eftavam , por razão de huma 
náo que António -da Silva tomara parlando 
para Bengala com fua Armada. Com eíla 
neceilidade , aos 19, de Setembro defpachou 
Nuno da Cunha a Martim AíFonfo de Sou- 
fa Capitão mor do mar com onze navios, 
para ir concertar eftes dous Reys de Cale- 
cut , e de Cochij , e fazer niíTo o que lhe 
pareceíTe > ate lhe mandar recado do efta- 

do, 



284 ÁSIA de J0X0 de Barros 

do , e propoílto com que os achava. Par- 
tido Martim Affbnío , (do qual adiante ef- 
creveremos,) Nuno da Cunha por medrar 
aoAçadachan, que queria tomar conclusão 
com elle , e não andar perdendo tempo , 
como até então tinha feito por caula do 
inverno , no mefmo dia que Martim Aííbn- 
fo partio , mandou lançar pregões , que to- 
da a gente de cavallo , e de pé fe aperce- 
beííe para paíTar ás terras firmes com An- 
tónio da Silveira de Menezes , o qual paf 
fou com duzentos de cavallo a , e fetecen- 
tos de pé Portuguezes ; e do Gentio da ter- 
ra mil , e não fe contentou com entrar pela 
terra firme menos de três léguas. Na qual 
ida houve tal viíloria dos Mouros , que 

ma- 

ti Foram com António da Silveira João de Mendoca y 
Francifco de Mendoca , João Jufarte Tição , António da 
Lemos y Manoel de Macedo , Francifco de Gouvea, Li- 
fuarte de Andrade , Pêro da Cunha , Joanne Mendes de 
Macedo , Manoel de Vafconcellos , Francifco da Silva de 
Alcobaça , D. João Lobo , Ruv Dias Pereira , Diogo Bo- 
telho de Andrade , Chrijlovão de Sou/a de Lamego, Per o 
Rodrigues Porres , Manoel de Azambuja , António Cabral 
de Santarém , Jorge de Mello Punho , A/varo de Mendo- 
ca , Luiz. Coutinho , Pêro Barriga , Francifco Pacheco , 
Diogo Pereira, António da Fonfeca , Diogo Lobato, Ruy 
Dias da Silveira , Chrijtovão Pereira , Duarte de Soufa , 
António Caldeira , Álvaro de Figueiredo , Duarte Rodri- 
gues Moufinho , Francifco de Soufa , Galvão Viegas , Dio- 
fp Fernanda Adail , António de Freitas , João Gomes, 
Duarte de Taíde , e outros. Fernão Lopes de Caíbnheda 
cap. 159. do Uv. 8. e Francifco de Andrade càp. 22. da 
j, Parte. 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XVI. 28? 

matou trezentos , em que entravam dons 
Capitães do Açadachan ■ , e Coge Mugor 
íeu eftribeiro , que elle muito fentio , e de 
feridos foi hum grande número. Dos Por- 
tuguezes foram mortos oito , de que os prin- 
cipaes foram Francifco da Silva , Belchior 
Velho , Baitiao Paes , Diogo Zambujo , Pê- 
ro Chamiço ; e feridos cincoenta , os mais 
âdl^s homens nobres , porque a peleja foi 
em lugar que os Mouros lht tinham muita 
vemagem. E em hum certo paíTo , onde ef- 
tava por Tanadar Vafco Fernandes , man- 
dou Nuno da Cunha fazer hum forte 5 o 
qual íitío elle per fua peflba foi ver , e em 
quanto fe fazia eííava António da Silveira 
em lua guarda. 

Sobre efta viítoria chegou huma náo 
de preza , que Gonçalo Vaz Coutinho to- 
mou no mar de Dabui , a qual por ler da 
mãi do Hidalchan, fegundo Nuno da Cu- 
nha foi certificado , mandou foltar o Capi- 
tão delia , e pôr a fazenda em boa recada- 
çao para lha entregar, como elle trouxefíe 
carta do Hidalchan , a quem Nuno da Cu^ 
jiha o mandou com fua carta , dando-lhe 
conta particularmente daquella guerra das 

ter- 

a Capitão çrey aí dos Mouros fe chamava CarnaVeqae , 
homem de grandes forças , como fe viram nos golpes que 
deo nejia batalha , em que foi morto , a qual efe revê com 
particularidade Castanheda, e Francifco de Andrade nffS 
Capítulos acima rejeiidçs. 



286 ÁSIA de João de Barros 

terras firmes , e como o Açadachan o de- 
movera a illb , por as haver tomadas dos 
Gentios , fetn culpar ao Açadachan nos ar- 
tifícios que tinha uiado , edito contra elle , 
por o não tnetíer em ódio com o Hidal- 
chan. E porque lhe pareceo que o Açada- 
chan podia entreter efte homem , fe foubeíTe 
que Jevava cartas fuás , o mandou per mar 
para entrar per Dabul , o que aproveitou 
muito , porque achou lá nova dos damnos 
que Gonçalo Vaz alli tinha feito , tudo por 
caufa delta guerra que o Açadachan fazia, 
porque Gonçalo Vaz tinha entrado pelo rio 
acima , queimando todos os navios que 
achou , e lugares , de que trouxe muita ar- 
tilheria ; e quando entrou em Goa foi com 
mais de trezentas peflbas cativas , e muitos 
mantimentos que tomou per efles rios , de 
que em Goa havia muita neceílidade. E pa- 
rece que com aquelle damno que Gonçalo 
Vaz lhe fez , e cartas de Nuno da Cunha , 
que levou o Mouro , e principalmente por- 
que os Tanadares dos portos do mar fo- 
ram nefte tempo encampar as Tanadarias, 
clamando tanta perda de mulheres, filhos, 
e parentes , huns mortos , e outros cativos ; 
teve o Hidalchan confelho com os feus Ca- 
pitães , os quaes todos culparam ao Açada- 
chan daquclles damno? caufados da fu a con- 
tumácia y com que tinha indignado o Go- 

ver- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XVI. 287 

vernador da índia , icm lhe fazer guerra , 
mas levando boa vida na fortaleza aePon- 
ád , aonde nao oufava íahir, com o qual 
procedimento tinha feiro mais perda que 
proveito ; e lançada bem a conta , mais im- 
portavam as entradas , e rendimentos dos 
portos do mar , que o Governador podia 
impedir , que quanto valiam as terras íbbre 
que ie contendia. A cilas queixas fe ajun- 
tou vir o próprio Tanadar de Dabul en- 
campar a Cidade ao Hidalchan , e contar 
particularmente quanto damno Gonçalo Vaz 
deixava feito, dando muitas razoes quanto 
importava a leu Eftado , e rendimentos efiar 
com os Portuguezes em paz. Para iílo dava 
por exemplo o que os Portuguezes fizeram 
a hum Reino tão poderofo como o de Cam- 
bava 3 que em menos de cinco annos lhe ti- 
nham queimados quaíi todos os feus portos 
de mar , até EIRey com feus trabalhos fe 
vir a entregar nas mãos do Governador. E 
que tão grandes coufas como eftas eram , 
nao as havia de deixar no parecer, e von- 
tade do Açadachan , cujo officio eram mo- 
dos , e artifícios de enriquecer , e fazer-fe 
temido. E que quando o Governador fol- 
talTe as terras , que nao era de crer haviam 
de ficar na mão do Açadachan , fem elle 
Hidalchan ter algum proveito. 

CA* 



288 ASIA.de João de Barros 

CAPITULO XVII. 

Como o Hiâalchan mandou ao Açada- 
chan que dejijiijjè da guerra com os Por- 
tugueses , e elle fe efcufou : e como D Gon^ 
calo Coutinho foi desbaratado no pafjo do 
Borij , e o Açadachan veio ajfentar pazes 
com Nuno da Cunha , por evitar os da- 
mnos que recebia. 

AS queixas dos Tanadares , e a carta 
de Nuno da Cunha obraram tanto an- 
te o Hidalchan , que fem dilação alguma 
mandou recado ao Açadachan , que deixaf- 
fe de fazer guerra , e fe foíTe a elle , por 
eftar de caminho para as terras do Cota Ma- 
luco. Diílo fe efcufou Açadachan , dizendo , 
que tamanha empreza como elle tinha to- 
mado , e em que tinha gaitado mais de tre- 
zentos mil pardaos , e pofto nella fua hon- 
ra , não era para deixar. E que elle era ve- 
lho , e ufado na guerra, e que aquelle po- 
mar em que ellt cavava era delle Hidal- 
chan , e para elle o queria , que deixafle 
pollo no eílado que deíejava , e então faria 
o que foíTe feu ferviço. Sobre eíle recado 
mandou ao Hidalchan duas peças mui for- 
mofas á viíla , hum cavallo , e hum terçado 
guarnecido d'ouro , e pedraria; o qual fen- 
do-lhe aprefjntado , e querendo elle defen- 

vol- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap, XVII. 289 

volver de huns pannos de feda , em que 
hia , não o conientio ília mai , que citava 
preíente , e mandou que o defenvolvefle 
hum moço 5 que em acabando de o tirar 
dos pannos cahio morto. Polo qual caio o 
Hidalchan nao quiz fubir no cavallo , fera 
primeiro outrem tomar a falva , e também 
morreram dous que fizeram a experiência. 
Vendo a mai do Hidalchan eíles dous fu- 
biros cafos de morte , difle : Aqui vejo eu y 
filho , fer verdade , que efie traidor matou 
vojjò pai , como eu fempre tive para mim. 

Por efte tempo , como Nuno da Cunha 
foube que o Açadachan fizera pouca conta 
do que o Hidalchan mandara, fobre deíiílir 
da guerra mandou Gonçalo Vaz Coutinho 
com trinta navios de remo , e trezentos ho- 
mens Portuguezes 3 e outros tantos Canarijs 
da terra , e foi queimar o lugar de Banda , cu- 
ja fumaça fe via de Goa , em que ardeo mui- 
ta fazenda , que elle não qurz recolher , por 
lhe nao acontecer algum perigo á embarca- 
ção. E aíli mefmo queimou quantos navios 
achou , e fez todo o damno que pode , de 
que trouxe mais de trezentas peíToas cativas. 

O Açadachan como homem indignado 
por os damnos que tinha recebidos , e fu- 
riofo de fuás coufas lhe não fuecederem co- 
mo elle defejava , e também por acudir á 
fua honra , por o que diziam delle ante o 
Tom. TV. P. //. T Hi- 



soo ÁSIA de João de Barros 

Hidalchan os outros Capitães , que nao ou- 
íava lahir de Pòndá , paíTou-fe as terras de 
Sallete , onde tínhamos noíía fortaleza de 
Rachol 5 de que naqueíle tempo era Capi- 
tão Jordão de Freitas , e da qual cada vez 
que os Mouros lhe davam viiia , hiam es- 
calavrados. E vendo o Açadachan que lhe 
convinha tolher a ferventia , que cila forta- 
leza tinha pelo rio acima , mandou em hum 
lugar delle mais eftreito fazer huma força , 
e pôr nella artilheria , para com cila tolher 
a paífagem dos batéis. a Sobre cila força 
houveram tanta contenda os Mouros em a 
querer fazer , Nuno da Cunha em lha im- 
pedir, que paliaram aíTi os Mouros , como 
os Portuguezes grande trabalho. Nefte tem- 
po veio hum Mouro principal do Hidal- 

- chan , 

e Efia força fe fez cm hum Vejfc do rio , que fe cha- 
ma Borij, -fobre hum grande penedo, que pendia fobre a 
tigua , o qual com huma ponta de ai éa da outra landa cha- 
mada Lotilin efireitava de maneira o rio , que nao havia 
•pajjagem das nofjas embarcações para Rachol , faia o ao 
longo do penedo, fs porque com todo o rijeo da ar tilheria , 
e arcabuzaria da força pajjavam es no fios , atravefúram 
es inimigos aqueV.e pequeno ejpaco com fortes cadeias de fer- 
ro , pregas em g>cfcs traves mettidas na vaffa , com que 
íi pnfiagem , e Jcc coiros de Rachol ficaram de iodo impe- 
didos. Polo que o Governador mandou D. Gonçalo Couti- 
nho a cortar a ponta de Lolelin , o que fe fez com im- 
menfo trabalho , e perigo , e ficou aberto hum canal , per- 
eue de maré chea podiam pafiar embarcações pequenas, 
aue todo aquelle inverno joccorreram Rachol cem grande 
rifeo. Diogo do Couto cap.y. do Uv. 10. da 4. Década. 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XVII. 291 

chan , por nome Sangerichan ; e o que a 

fama de lua vinda publicava era a tratar 
, e que iíto queria leu Senhor. Mas tu- 
do ifto eram ardijs do Açadachan , para em 
quanto foffem , e vieílem recados a Nuno 
da Cunha , elle ir com lua obra por dian- 
te. A qual era tal , que foi neceflario acu- 
dir Nuno da Cunha com mais defensão, 
mandando Manoel de Vafconcellos com ba- 
téis , e navios , quc podiam tirar com peças 
de artilheria groíia. Mas como na obra an- 
dava muita gente, crefceo tanto a pezar dos 
Portuguezes , que mandou Nuno da Cunha 
a D. Gonçalo Coutinho , Capitão que en- 
tão era de Goa , que a foíTe desfazer. E 
porque os mais dos homens andavam já 
muito enfadados dos rebates de cada dia , 
de que não tinham mais premio, que o tra- 
balho grande que paliaram aquelie inverno, 
e os moradores , e caiados da Cidade eram 
os que mais contrariavam efta guerra , por- 
que nao tinham vida fem as terras firmes , e 
a clles era cila guerra mui damnofa ; foi-fe 
Nuno da Cunha pôr em o palTo de Aga- 
íim , e dalli fazia embarcar todos os homens , 
quafi em modo de repique , e foccorro. Os 
principaes deua ida , e que primeiro chega- 
ram á tranqueira , foram D. Gonçalo Cou- 
tinho com gente que o feguio , Gonçalo 
Vaz Coutinho , D.João Lobo, Martim de 
T ii Caf- 



HÇ2 ÁSIA de João de Barros 

Caftro , LioncI de Lima , Manoel de Vaf- 
concellcs , Ga I par Paes. Eftes com roda a 
gente que levavam , onde lhe tomou a for- 
te , lahíram em terra , huns abaixo , e ou- 
tros acima , e aííi deíembarcáram , mais fu- 
riofos que ordenados , fubindo por a ri- 
banceira do rio á força que os Mouros ti- 
nham feita. O primeiro final deita defor- 
dem foi quebrarem hum braço ao Capitão 
D. Gonçalo Coutinho com hum cfpingardao ; 
c a voz da gente miúda foi logo que era 
morto. Com o qual rumor os nobres qui- 
zeram moítrar tanto de fuás peíToas contra 
o gr?.nde número dos Mouros, que de ci- 
ma fe defendiam , que cahíram logo em 
baixo Lionel de Lima , c Simão de Lima 
íeu irmão , ambos tão mal feridos , que le- 
vados dalli foram morrer a Goa , e alli fi- 
caram mortos D. Franciíco de Lima , Dom 
Luiz , Gonçalo Vaz de Moura , Diogo Bo- 
telho de Andrade , Pêro de Lemos , Joan- 
ne Mendes de Macedo , Jeronymo de Mel- 
lo , Thomé de Brito, Franciíco Aires , Vi- 
cente Pires , João Carvalho , Lopo Sarrao y 
e outros homens nobres , que por todos fo- 
ram trinta , e da gente pequena morreram 
muitos. E os que ei caparam defte furor , 
embarcaram-ie quafi a nado , per que com 
o alvoroço de fubir pelas tranqueiras, e ca- 
da hum fe moítrar fer dos primeiros, def- 

am- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XVII. 293 

ampararam os bateis em que fahíram , e 
como nao tinham quem os governafTe , an- 
davam i vontade da agua de maneira , que 
quando os tornaram a bufear eíhvam no 
meio do rio. Dos Mouros foram mortos 
paquelle accommettimento quatrocentos , em 
que entraram quatro Capitães. a 

Nuno da Cunha , pofto que cila era hu- 

ma 

a penedo em que v flava a força dos Mouros , como 
I a pela agua , fatia nella diteis calhetas , nas quaes 
podiam entrar embarcações , c lançar gente em terra ; e 
: por eílas temi um os inimigos ferem accommettides y 
em hnma abriram na terra grandes cavas , que taparam 
por Lima com canas, palha , e terra f e tia outra enfevás 
ram httma ponte , em que fe havia de def embarcar , e em 
ambas puteram nmitoê arcabuzeiros , e frecheiros. 

D. Gcnçalo levava féis centos Soldados em muitos navios 
grandes , e pequenos -. chegando coBo'-ij, ordenou que Li e- 
nel de Lima , e Diogo de Azambuja com trezentos homens 
arcafjem na calheta da ponte , e elle na outra com 
■ da gente. 2£ depois que ao outro dia fe deo das 
barcaças httma grande bateria â fortaleza dos Mouros , 
Lionel de Lima , e Diogo da Azambuja accommet leram 
de falto o ponte, que como efiava enfevada, efeorregando 
iella cahíram ao mar , onde fe afogaram com o pezo das 
armas-, e pelo mefmo modo, e ás arcabuzadas , e fecha- 
das foram mortos outros cenlo e cincoenta Soldados , que. 
desembarcaram no mefmo pofto. D. Gonçalo Coutinho paf- 
f?:i adiante d outra calheta , ende tias covas pereceram du- 
zentos homens , e D. Gonçalo que não cahio nelias , com 
- que ofegniram foi cercado dos Mouros , e pofto que 
iram todos vale r ofamente , foram mortos, e D. Gon- 
çalo com trabalho recolhido com hum braço quebrado. E afi 
lejgra ciada /ornada acabaram quaji quatrocentos lio- 
r.-.:ns , muitos de lies Fidalgas , e foram cativos mais de 
quarenta. Diogo do Couto cap. 8. do liv. i^. Feri. To 
Lopes de Caftanheda cap. 152. do liv. 8. e Franciico Í9 



294 ÁSIA de João de Barros 

ma grande perda de gente nobre , não po- 
dia deixar aquella fortaleza que citava fei- 
ta ; e temendo que com efta victoria o Aça* 
dachan puzeífe todo feu poder para a to- 
mar , e que para a poder defender , e fuf- 
tentar convinha fazer outra no meio do rio , 
mandou alguns Capitães , e peífoas intelJi- 
gentes que lhe foíTem ver o íitio para efta 
obra , de que foi defenganado , que fe nao 
podia fazer. O Açadachan aíll por o gran- 
de eílrago da fua gente , que nefte combate 
os Portuguezes lhe fizeram , como porque 
fentia que Nuno da Cunha tomava já cfte 
negocio a peito , mandou-lhe commeuer pa- 
zes per vezes , até eferever fobre iíTo aos 
Capitães , que elle fabia lerem contra efta 
fortaleza eftar alli feita , e principalmente a 
Pêro de Faria, que já fora Capitão de Goa, 
e feu amigo , e á Camará da Cidade . o 
que lhe Nuno da Cunha não concedeo , até 
que elle per íi mefmo , fem fer conftrangi- 
do de alguém , a mandou derribar a cinco 
dias de Janeiro do anno de 1^38. a Etarnjj 
bem por meio de Pêro de Faria , qué~foi 
algumas vezes ao Açadachan , aííéntáram 
pazes , ficando porém no mefmo eftado em 

que 

Andrade cap. 35. da 3. Parte, referem efe fuecefo do 
Borij diferentemente. 

a O modo í/ne teve Pêro de Parla em derribar e/Ia for' 
tahmde Rache/, efereve Fernão Lopes de Caftanheda cap. 
i\\.do hv. S. e Fnnciíco de Andrade cap. 3 $. da 3 . Parte. 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XVII. 29 jr 

que citavam antes que começaiTem a guer- 
ra , íem mais acerefeentar , nem diminuir 
çoufa alguma, por entender o Governador 
quanto lhe eumprio acudir a Dio , e o pe- 
rigo cm que ficava Goa , citando de guerra 
com o Açadachan* E ifto fe fez em nome 
de Nuno da Cunha, e não d'ElRey , por- 
que tinha o Governador eferito a S. A. co- 
mo fizera aquella guerra ás terras firmes , e 
tomara poíTe delias , e não íabia fe EIRcy 
fena contente de defiítir delias , e approvar 
as pazes. Com eíte concerto o Açadachan 
fe foi de Pondá contente , e por a Cidade 
de Goa eítar desfalecida de mantimentos , 
mandou a Nuno da Cunha para a feita de 
Natal cem vacas , trezentos carneiros , e 
grande número degallinhas, arroz, e man- 
teiga. E neíta paz acabaram os trabalhos 
da guerra de todo aquelle inverno. 

CAPITULO XVIII. 

Como g Qamorij de Calecut ã injlancia d'El- 

Rey de Cambaya veio com muita gente 

a Cranganor , fingindo huma certa 

vifitacão por ter azo de fazer 

guerra aos Portuguezes. 

ACabados a os trabalhos , que aquelle in- 
verno Nuno da Cunha paííou em Goa , 

co- 

a Sendo os Chijs antigamente fenhores de todo o maríti- 
mo do Malavar , por onde fundaram povoações , de que 



soo* ÁSIA deJoÁo df Bakrgs 

começaram em Cochij outros , por razão 
de outro vizinho tao períèguidor das cou- 
fas dos Portuguezes como o Açadachan. 
Efte era o Çamorij de Calecut , o qual 
por a preeminência que tem entre os Reys 
do Malavar , que he (como já diflemos) 
Emperador entre elles , queria ter íupcrio- 
ridade fobre todos , principalmente fobre 

El- 

ainda hoje ha alguma memoria , reduziram o governo , e 
fenhorio daquelle Ejiado a duas cabeças , huma com todo 
o poder temporal com titulo de Samnorij t que quer dizer 
imperar fobre todos ■, e outra com toda a jv.rdiçõo efviri- 
tual com titulo de Brâmane mor , cujo aflento puderam 
fis Chijs na Cidade de Cochij , deixando por lei , que to- 
dos os Emperadores do Malavar fofjem tomar a invejlidn- 
ra do Império em Cochij da mão do Brâmane mor , para 
o que deixaram naquella Cidade huma pedra , com obri- 
gação que nella aquelíes Emperadores fe coroafjem. EJia 
ceremonia fe foi guardando, e continuando muitos anãos , 
até que o Rey de Calecut , ( o qual entre es Reys do Ma- 
iavar ficou com a dignidade de Çamorij , quando Perima! 
Rey de todo Malavar repartia jeus Reinos , e fe embar- 
cou para Meca , ) que dejhuio ao de Cochij , por a amfr 
^qde que tinha com os Portuguezes , ( como efereve João 
de Barros na primeira "Década , ) lhe tomou a pedra da 
coroação , e a levou a Repeli m- 

Çamorij prefente {uccejjor de feu tio , que morreo na 
anno de f}]6. querendo-fe ir coroar fobre aquella pedra t 
porque não podia pafjar á Ilha de Repelim fem confenti- 
tnento d?ElRey delia, confederou-fe com elle ; o que J abe n- 
do EIRev de Cochij , receando que daquelia liga refultaj- 
fe fua ruina , pedio a Vero Vaz do Amaral Veedor da fa- 
zenda , e Capitão de Cochij , que o ajuda (Je a defender os 
'paffos y de que fe feguio a guerra , que nefles Capitulas fe- 
guintes efereve João de Barros. Diogo do Couto cap. i* 
livro i. da 5. D ceada. 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XVIII. 297 

EIRey de Cochij, por caufa da nolTa ami- 
zade' Polo que naquelle inverno, por hu- 
ma coula leve , quiz paíTar pelas terras de 
Cochij , dizendo , que havia muitos annos 
que não eram viíitadas , e queria elle em 
peíToa ir fazer correição , como era obriga- 
do por antigo coílume. A voz da fua jor- 
nada era efta ; mas a principal caufa era fer 
^lle incitado per cartas d'ElRey de Cam- 
bava , que andava armando o laço , em que 
depois cahio , e pela mefma maneira era o 
Açadachan convidado. Eftes Mouros , e Gen- 
tios, quando hão demover alguma guerra 
contra os Portuguezes , o fazem mais no 
inverno que no verão , porque no inverno 
não fe pode navegar toda a coita da índia , 
afíi por os mares ferem mui grandes , co- 
mo porque fe cerram as barras dos rios , 
com que as noiTas fortalezas fe não podem 
ajudar humas das outras , e aíli ficam quaíi 
em cerco todo aquelle tempo , como fevio 
pelo decurfo deíla hiíloria. Pelo que o Ça- 
morij favorecido da conjunção do tempo , 
e movido per aquelíes noífos inimigos , par- 
tio de Calecut com muitos mil Naires , e 
veio aííentar-fe na Ilha de Cranganor , fron- 
teira á outra chamada Vaipim , que era d'EI- 
Rey de Cochij , as quaes Ilhas não são 
mais que as que acerca de nós fe chamam 

Le- 



ap3 ÁSIA de João de Barros 

Leíiras, que são humas terras baixas repar- 
tidas com efteiros do mar , e rios d'agua 
doce que vem da ferra , com que toda a 
terra do Malavar he retalhada, e eílá divi- 
dida em três Senhorios , como já eícreve- 
mos. E porque os Rcys daquellas partes 
tem por grandeza , e decoro de fuás pef- 
íoas caminharem pelas cifradas Reaes , leni 
por cato algum deixar feu caminho , fob 
pena de ferem havidos por covardos , e com- 
metterem coufa indigna da MngcftadeReal , 
porque em tornarem atrás , confeflam fer 
outro mais poderofo que clles , determinou 
o Çamorij de levar aquelle caminho , e ir 
pôr a mão em huma pedra , per coílume 
mui antigo de feus paliados , em que clles 
põem fua religião, e honra. Com efíe funda- 
mento chegado a Cranganor quizera paíTar 
a Vaipim , ao que acudio Pêro Vaz Veedor 
da Fazenda , que era Capitão de Cocliij , 
para iho impedir , provocando também a 
EIRey deCochij a iíTo, E por elle fer ho- 
mem avaro , e que não queria defpender feu 
dinheiro, por faber queefte negocio impor- 
tava tanto aos Portuguezes , como a cllc , 
queria que o cuílo daquella defensão ficaífe 
á cuíla delles , e de fua Feitoria ; natural 
aleijão de avarentos , que fempre tem mais 
conta com a fazenda ? que com a honra , 

e a 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XVIII. 209 

e a vida. Mas todavia movido pelos feus , 
e pelo Vecdor da Fazenda , mandou pôr 
nos lugares onde os noffos ordenavam effa 
gente que tinha. E porque todo aqueíle in- 
verno íe paliou em fazer huma força de 
madeira com fua artilheria no lugar per on- 
de o Çamorij havia de paliar , na fabrica 
deitas defensões levaram os homens mais 
trabalho , c na invernada grande que fuc- 
cedeo, do que puderam levar pelejando. E 
como le temiam , fegundo andava fama , 
que EIRey de Calecut mandafle vir huma 
Armada groíTa per dentro do rio Chatuá , 
que era coufa mui perigofa para defensão 
dos noíTos , mandou Pêro Vaz a Vicente 
da Fonfeca , (que já eílivera por Capitão 
cm Maluco , ) com leis catures , e hum ba- 
tel grande com groíía artilheria a impedir 
eíta paííagem do rio. E para defender a bar- 
ra delle , le a Armada vieífe de mar em 
fora, mandou armar huma caravclla. e hu- 
ma barcaça grande também com artilheria 
groffa , das quaes deo a Capitania a Fran- 
cilco de Soufa , que fe aífaílou meia légua 
abaixo do palio perque o Çamorij havia 
de paliar. 

E porque huma das coufas de que fe 
Pêro Vaz mais guardava, era romper guer- 
ra com o Çamorij , por razão da paz que 
com elle tinha aílentada , fempre neítes aper- 

ce- 



300 ÁSIA de João de Barros 

cebimentos mais tratava de íè defender , 
que de ofTénder. E ainda para o Çamorij 
não tomar algum achaque , mandou a elle 
Gomes Carvalho , pedindo-lhe nao quizeííe 
fazer aquelle caminho , c lhe Icmbrafle a 
paz que tinha affentada com Nuno da Cu- 
nha, e que nao era muito efperar por elle 
até a lua vinda , que feria acabado o in- 
verno , pois havia vinte annos , fegundo di- 
zia, que aqueilas terras não eram viíitadas. 
Mas como elk nao refpondeo a propoíito , 
mandou Pêro Vaz a Pêro Frocs com huma 
galé , e dous catures a fe pôr no rio de 
Chatuá a impedir também íe alguém qui- 
zeííe vir por alli de Cranganor. E aíli man- 
dou fazer em modo de baluartes humas de- 
fensões de palmeiras onde puzeram artilhe- 
ria. 

Neíle tempo Fernand'eanes de Soto- 
maior Capitão de Cananor, fabendo haver 
neceílidade de foccorro , o mandou com 
ièu filho António de Sctomaior em féis ca- 
tures , por ferem navios futijs , para pode- 
rem andar poios rios , ao qual Pêro Vaz 
defpedio por não fer néceífario ao prefen- 
te , porque (como diflemos) feu intento era 
entreter ElPvey , o qual por fua parte tam- 
bém com induftria dos Mouros , defronte 
donde eítavarn os noflbs baluartes , e fott 
-ças, mandou fazer outros com fua artilhe- 

ria. 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XVIII. 301 

ria. Era ifto hum pouco affaítado da cafa 
do bemaventurado S. Thomé , e quaíi ao 
amparo delia eftava hum feu Capitão cha- 
mado Pare Marcar com dezefete velas de 
remo , e doze dos CoJamures , a fora ou- 
tras que andavam pelo rio. E porque os 
noíTbs lhes faziam damno com a artilheria 
groffa , a qual dando nas palmeiras com as 
rachas que eícodeava os matava , am paran- 
do- fc ellcs detrás dos pés delias , arromba- 
ram a caía do Apoílolo Santo , e outra Igre- 
ja junto delia da invocação de Sant-Ingo , 
e puzeram-lhe o fogo; mas os meímos San- 
tos tiveram cuidado de fua defensão , por- 
que nunca fc pode accender. E podo que 
os Mouros viram aquella impotência de fo- 
go , não deixaram de ir avante com fua 
obra , tirando telha , e telha , páo , e páo , 
até a defeubrirem , o que foi para feu da- 
mno , porque acudindo os Portuguezcs a lho 
defender , houve entre elíes hum jogo de 
tiros de pólvora , e de frechas , em que os 
nolíos não receberam ofFenfa , e ellcs hou- 
veram o pago de fua infidelidade. Final- 
mente toda a peleja do inverno acabou 
aqui a , fem haver outro fangue 3 c tudo fo- 
ram 

a Fiancifco de Andrade efereve no cap. 21. ãa 5. 
Vtrte , Que querendo o Çamorij pajjar á Ilha onde ejiava 
ti rente d^ElRey de Cochij , mandara embarcar mais de 
der, mil homens em jangadas , toais , e almadias , amp a ra- 
iei da nojja artilharia , ççm vinte fujlas 4c Vate Mar* 



302 ÁSIA de João de Barros 

ram commettimentos , que os noíTòs não 
queriam prolcguir por caufa da paz. E os 
que á eufta de íuas peíloas , e fazenda de- 
fenderam todo o inverno com grande tra- 
balho as eftancias que lhes couberam per 
forte , foram Lopo de Almeida Feitor de 
Cochij , Simão Botelho , Bartholomeu Dias , 
João Pereira , António Carvalho , António 
Chanoca , e Franciico Rodrigues. 

Vendo o Çamorij que fe vinha o ve- 
rão , em que o Governador podia acudir, 
converteo ília indignação em damnar-lhe a 
carga da pimenta ; e o modo que para ilTo 
teve foi induzir para efte eífeito aos Rcys 
de Paraú , e de Viamper , e a outros , os 
quaes temendo a potencia do Çamorij , em 
quanto o negocio não veio a mais rompi- 
mento , eftiveram neutraes. Sendo já fim de 

Agof- 

car ; e fendo já defembarcados na Ilha mais de três m/l, 
Vicente da Fonfeca fez. com a artílheria das fitas embar- 
cações tal ejlrago na gente que já eflava em terra , e nas 
jangadas de que o rio afiava cuberto , que ficaram alli mor- 
tos mais de mil homens , e outros muitos feridos , e três 
das fiifias mettidas no fundo. E o Príncipe de Cochij com 
tlous mi! Naires , e oitenta Portuguesas , deram na gente 
áefembarcada com tanto ímpeto , que a fizeram fugir , e 
embarcar tanto fem ordem, que fe afogou hum grande nú- 
mero delles , fem os que mataram em terra -. e que o Ça- 
morij commetteo a pajfagem aquelle inverno algumas ve- 
zes , em que fempre foi desbaratado. 

E no cap. 24. trata da morte da mai d 1 E!Rey de Co- 
chij , e das ceremonias dojeti enterramento , pela qual can- 
ja EtRey foi a Cochij , e fepultada ftia mai , tomou con- 
tinuar a guerra. 



Dec. IV. L. VII. Cap. XVIII. e XIX. 303 

Agoíto , que o mar deo lugar, veio Fer- 
naiid'eanes de Sotomaior Capitão de Cana- 
nor com dezeieis furtas , e catures , cm que 
trazia duzentos homens , de que os cento 
e cincoenta eram cfpingardeiros , com que 
pela coíla de Calecut veio fazendo algum 
damno. E porque Vicente da Fonfeca ha- 
via muito tempo que ertava no lugar que 
diilemos , foi repoular do trabalho do in- 
verno , e ficou alli Fernnnd'eancs , até que 
veio Martim AfFonib de Sou la , que ( co- 
mo atrás fica dito) Nuno da Cunha delpe- 
díra de Goa para vir remediar efte negocio» 

CAPITULO XIX. 

Como Martim Ajfonfo de Sou [a , indo- 
acudir a Cocbij , desbaratou os Colemules y 
e lhes queimou o lugar \ e defendendo cFEl- 
Rey de Calecut o pajjò do vao , EIRey fe 
foi , e'o não efperou : e do caftigo que deo 
a EIRey de Repelira. 

ADezenove de Setembro de 1^3 6. fè 
partio de Goa Martim Affonfo de Sou- 
fa com cento e cincoenta homens cm quin- 
ze velas , elle hia em huma caravella , e 
dos outros navios eram Capitães Vafco Pi- 
res de Sampaio , D. Diogo de Almeida 
Freire , Francifco Pereira do Porto, Ma- 
noel de Souía de Sepúlveda 7 Fernão de Sou- 

fa 



304 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

ia de Távora , Martim Corrêa da Silva , 
Gafpar de Lemos , D. Pedro de Menezes , 
Francifco de Sá , Francifco de Barros , 
Francifco de Mello Pereira , Jorge Barro- 
fc de Almeida , Jorge de Figueiredo , João 
de Soufa Rates , e Diogo de Reinofo , 
Francifeo de Reinofo , e António de So- 
tomaior , filhos de Fernand'eanes de Soto- 
ínaior Capitão de Cananor , que eftavam 
com feu pai naquella eftancia que di liemos , 
e fe ajuntaram a Martim Affonfo. E antes 
que elle chegaífe a Cochij , de paliada deo 
hum a vifta ao lugar de Calamute , onde 
achou dous mil Naires , que lhe quizeram 
defender a fahida j mas elle á ponta de fer- 
ro fe vingou delles com morte de muitos , 
ie lhe queimou o lugar , e lhe tomou fete 
furtas. Chegando Martim Affonfo de Sou- 
ía a Cochij com o bom fucceíTo do caíligo 
que deo aos de Calamute , foi mui bem re- 
cebido d'ElRey, e do Veedor da Fazenda 
Pêro Vaz , e de Jorge Cabral Capitão da 
Armada , de cinco annos que então fora de 
Portugal , em que hiam por Capitães das 
outras náos Duarte Barreto , Ambroíio do 
Rego, Gafpar de Azevedo, e Vicente GiL a 
Vendo EIRey de Cochij os muitos Por- 

tu- 

a Frota da índia do anuo de 1556. Aos 4. de Setem- 
ho chegou á barra de Goa a náo de Ambrojio do Rega , 
a que em Guiné quebrara omafio grande , e tomara á Ca- 
riaria a conca taifa t e partindo delia , depois de tantas de» 



Dec. IV. Ltv. VIL CAr. XIX. 305' 

tuguczcs que alli eftavam , iníiftio muito que 
Maruim Affonlo de Soufa foffe per terra á 
tranqueira que EIRey de Calecut tinha fei- 
ta , para lha desfazer, e defender que não 
paifalfe o paíTo do váo. Ifto pareceo bem 
a todos ; e fendo afli aílentado , Martim Af- 
fbnfo partio para iá com perto de mil ho- 
mens , em que entravam todos os Fidal- 
gos , e pcíToas principaes que em Cochij fe 
acharam. E o Mangate de Caimal , que he 
hum dos principaes Senhores do Reyno , e 
o Regedor delle hiam por Capitães da gen- 
te da terra , que feriam mais de dous mil. 
Tanto que EíRey de Calecut foube que 
Martim Affonfo de Soufa hia , não fe atre- 
veo a pelejar , e deíàmparou a tranqueira , 
e fe foi. Sabido ifto per Martim Affonfo > 
caminhou per terra na ordem que levava 
a dar hum caftigo a EIRey de Repelim , 
por comprazer a EIRey de Cochij , que 
muito lho pedio , e por ver fe lhe podia 
cobrar delle certa pedra de fua religião, 
que lhe tinha tomada. E para iífo mandou 
com Martim Affonfo ao Principe de Co- 
chij , que o acompanhalTe com todos os 
Naires que havia na terra. Entrou Martim 
Affonfo pelo Reyno de Repelim , que he 
huma Ilha , ou Lezira das que temos dito 
Tom. ir. P.il. V que 

tenças, chegou d Índia primeiro que as outras quatro náosi 
Francifco de Andrade cap. 32. da j. Parte. 



30Ó ÁSIA de João de Barros 

que ha no Malavar , toda cercada de ca- 
naveaes das cannas que dá aguella terra , 
que sao mui grofías , e por íerem bailas, 
criavam tecidas de maneira , que fazia hu- 
ma cerca , e muro mui defenfavel \ e em 
algumas partes per onde fe entrava citaram 
feitas tranqueiras de cannas , e madeira , e 
terra , c eftancias com mu ira artiiheria , e 
acompanhadas de muita gente de guerra , 
que as defendia. 

Martim Aífonfo ordenou que António 
de Brito foííe diante com trezentos efpin- 
gardeiros , e eiie ficou na retaguarda com 
teda agente. Chegando António de Brito a 
huma tranqueira daquellas , o vieram rece- 
ber muitos Na ires , que pelejaram per hum 
efpaço mui esforçadamente. Mas as efpin- 
gardas dos Portuguezes os fizeram recolher 
a eftancia , onde de novo fe tornou a tra- 
var a peleja , que durou até a chegada de . 
Martim ÀfForrfo de Souía , com que todos 
foram acabados de desbaratar ; c os que fi- 
caram fe puzerarn em fugida para a parte 
do mar , onde eftavam outras duas eftan- 
cias , fobre que Jorge Cabral a eíle tempo 
eftava acabando de as desbaratar. O que 
fabido perEIRey deRepelim, mandou que 
dcixaífem as eílancias , e fe recolheíícm na 
Cidade, em que haveria féis. mil homens de 
peleja., de que muitos eram efpingardeiros. 

Sen- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XIX. 307 

Sendo desbaratadas as tranqueiras, aquel^ 
le dia quiz Martim Affoníò defeançar , e ao 
outro fe par rio para a Cidade , levando 
diante Franciíco de Barros de Paiva com 
perto de duzentos eípingardeiros , que hia 
defendendo que os inimigos que detrás dos 
vai! os vinham atirar , não fízeííem mal aos 
noíTos , apôs elle hia António de Brito 
com outros , e detrás Martim Affonfo com 
toda a mais gente. Com cila ordem chega- 
ram perto da Cidade , onde acharam hum 
Capitão com muita gente ; e por o lugar 
fer de caminhos eftreitos , e cercados de 
vallos , donde os Naires tiravam muitos ti- 
res , recebiam os no fios muito damno , fem 
íe poderem ajudar bem das armas. Nefte 
lugar foi todo o trabalho da peleja que os 
noíTos tiveram; mas Deos os ajudou de ma- 
neira , que os inimigos fe desbarataram , e 
começaram a fugir para a Cidade. Os que 
eíravam nella fizeram o mefrno , fem El- 
Rey os poder deter por mais que os re- 
prendia , e ameaçava. Em rim elles defam- 
paráram de rodo a Cidade , e as cafas d'El- 
Rey , o qual foi dos derradeiros que delia 
fahíram , e logo foi dos noíTos entrada.. 
Franciíco de Barros de Paiva íèguio o al- 
cance d'ElRey com os feus , ferindo , e ma- 
tando nelles. EIRey fe vio tao apertado , 
que cahindo-lhe o iòmbreiro, (que fe tem 
V ii por 



308 ASTA de JoXo de Barros 

por grande affroilta perdello na guerra, por 
ier iníignia Real , ) n3o o pode eobrar com 
a prelía de íalvar lua peífoa em huma al- 
inadia , em que íe embarcou com poucos. 
Martim Affonío chegando a huma Mefqui- 
ta , veio a elle hum tropel de Mouros , que 
neÍJa citavam , determinados de o matar , iè- 
gundo hum dellcs com grande fúria , e oufa- 
dia arremetteo a elle com huma cutilada , que 
Martim AfFoníb tomou na rodela , e lhe pa- 
gou a vontade que trazia , com o paliar de 
huma parte a outra com hum zarguncho , 
com que o derribou a íèus pés, e os léus o 
acabaram de matar, e a ííi morreram os mais 
companheiros, pelejando como muito valentes 
homens. Na peleja morreram muitos Mou- 
ros . e feridos foram tantos, que felhe nao 
íòube o número. Dos nôffos morreram pele- 
jando fomente Duarte de Miranda , e Eftevão 
Gago , e dez , ou doze homens plebeos , que 
fe deímandáram a roubar pela Cidade. 

Desbaratados os inimigos , e fugidos , 
foi laqueada a Cidade , e as cafas cTElRey-j 
em que foi achada a relíquia d'ElRey de 
Chchij , que era huma pedra branca como 
outra qualquer commum , da feição , e tama- 
nho de huma meia mó de atafona , na qual 
citavam abertas humas letras Malavares. " 

Tam- 

a Éfía pedra era de mármore tranco f roliça , de gro,- 
fiii-à de hum homem , e de altura de huma braça. Ejiava 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XIX. e XX. 309 

Também foram achadas humas tavoas de 
metal com humas ierpes efculpidas nellas , 
e humas letras dos Chijs , que EIRey de 
Repelim tinha em grande veneração. De- 
pois que a Cidade fe laqueou , e foi quei- 
mada toda , fe tornou Martim Affbníò a 
Cochij , onde foi recebido com grande fcC- 
ta , e muito mais d'EiRey , por a pedra 
que lhe reftiruio , e por o prefente das ta- 
voas , e fombreiro cTElRey de Repelim , 
que era tanto como trazer-lhe a coroa de 
fua cabeça , além da vingança que delle 
lhe deo. 

CAPITULO XX. 

Como Marthn Ajfonjp de Soufa foi ao pajjò 

do vdo defender que EIRey de Calecut 

o não pajfajjè : e como pelejou com 

elle , e o desbaratou , e £/- 

Rey lhe fugio. 

H Ávida aquelía victoria em tempo que 
ainda a gente não defeançára , veio 
recado a EIRey de Cochij , que EIRey de 
Calecut vinha com todo feu poder para paf- 
íàr peio paífo do váo de Cam baião , que 

he 

eu? fí yo/ln feire huma lagoa. As !*tras nelía entalhadas 
diriam o tempo em que atli fora pojla , que fecundo a fua 
conta t pafjava de doas mil e oitocentos annos , e e-flavan/% 
rulla eleritoi os nomes dos Ç amor i/s , que ml .1 fe coroa* 
ram. Francifco de Andrade cap. 37. da 3. Farte. 



310 ÁSIA de JoXo de Barros 

he nas terras do Mangate Caimal , que eíhí 
duas léguas acima do outro palio de Cran- 
ganor. E porque por o palio de Carnbalao 
ao vaíànte da maré podia paííar, como já 
tentara o Camorij antcceíTbr dcfle em tem- 
po de Duarte Pacheco , que Ihodefendeo a , 
Martim Affonfo de Soufa não efperando 
mais , fe embarcou á preíla ? e com elle per- 
to de cem Portuguezes , de que os mais 
eram Fidalgos , e Capitães ; e a António 
de Brito mandou que o feguiíTe com a mais 
gente que pudeíle , com o qual foi logo o 
Regedor de Cochij com alguns Naires ; e 
a Francifco de Barros de Paiva mandou 
que com huma galé , e dous bargantijs fe 
foííe a guardar o paíTo do rio de Cranga- 
iior, para que nao entraíTem per elle as fuf- 
tas d'ElRey de Calecut , que fe dizia man- 
dara ir áquelle lugar , para que os caturei 
não levaffem foccorro aos noíTos. A qual 
lembrança , e providencia fe Martim AP/on- 
íb nao tivera , de nenhuma maneira fe pu- 
dera tolher a pafiagem a EIRcy de Cale* 
cut. 

Ao outro dia pola manhã fe achou Mar- 
tim Affonfo nas terras do Mangate Cai- 
mal , o qual não tinha comíigo mais de três 
mil Naires , e delle foube que EIRcy de 

Ca- 

a Conto efe revê João de Barros nos capítulos j. 6. 7» 
$. do liv, 7. da primeira D ceada. 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XX. 311 

Calecut com quarenta mil homens cftava 
dahi a duas léguas, c que dahi a três dias 
daria batalha , fegundo feu coftume , que 

era quando chegava á terra do inimigo dar 
batalha ao terceiro dia, no ultimo dos quaes 
mandava -tocar hum atambor de tão exceí- 
fiva grandeza , que quatro homens o não 
podiam abalar , cujo ibm fe ouvia duas lé- 
guas , fem o qual final nunca dava batalha. 
Marti m Affonfo não curando d 5 eíTas abu- 
sões , como Capitão prudente que fe não 
queria deícuidar , foi-fe logo ao paíío , e 
nelle dei embarcou ; e por os tones em que 
Lia nao ficarem em fecco , mandou-os af- 
faílar para o rio , e elle fe poz no campo 
com íua gente. E eftando-lhe o Mangate, 
e o Regedor dizendo que íè canfava debal- 
de , que EtRey não daria a batalha fetti 
aquelle coftumado final , nem antes do ter- 
ceiro dia , começou apparecer hum corpo 
de gente dos inimigos , que feriam cinco 
mil homens, que com grandes gritas remet- 
tèram ao pafíb , e começaram de paílar. A- 
pôs ifto começou apparecer o exercito d'Ei- 
Rey , e fiia bandeira Real , perque fe rnoi- 
trava vir elle alli. E a razão por que não 
ufou de luas ceremonias , e ílgnaes que cof- 
fumava mandar fazer com aquelle grande 
atambor , foi por tomar os Portuguezes de 
fubito 5 e desbaratallos logo j o que na ver- 

da- 



312 ÁSIA de João de Barros 

dade fizera , fe Martim AfFoníb com fua vi- 
gilância , c bom avifo o não dcfviára. 
Quando a bandeira , e iníignias d'ElRey 
de Calecut foram viíbs dos Naires de Co- 
chij , foi tanto feu pavor , que fe aíraítárain 
Jium pedaço de Martim Afíònfo , para fu- 
girem , fe videm que os Portuguezes leva- 
vam o peor. O que fentindo Martim AíFon- 
Jb , os entreteve por fazer corpo com el- 
les , e não dar animo aos inimigos vendo 
tão poucos Portuguezes , dizendo-lhes , que 
não bouveífem medo, qucelle efpcrava em 
Deos com aquelles poucos que tinha , que 
não feriam mais de feífenta , desbaratar aquel- 
la multidão que viam dos d'ElRey de Ca- 
lecut ; mas alguns dos noííòs defeonfíados 
daquillo poder ler , lhe aconfelháram que 
fe recolheíTc ás embarcações , porque era 
temeridade efperar tão groíTa gente. Porém 
ellc , porque já grande número dos inimi- 
gos tinham paliado o váo , e fegundo eram 
ligeiros, antes de os noífos chegarem ás em- 
barcações os matariam todos \ e além dif- 
to , porque Gafpar de Lemos ( a que elle 
mandou com trinta efpingardeiros , fc pu^ 
zeífe detrás de hum vallo , que eílava per- 
to do váo , para dalli fazer roítro aos ini- 
migos ) eílava já cercado deiles , e em eíla- 
do de perecerem todos , fem mais efperar 
razoes , deo Sant-Iago nelles , os quaes fe-» 

rio 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XX. 313 

-rio de maneira , que lendo cinco mil , que 
todos tinham paíTado o váo , os fez retirar, 
e tornar pairar per onde vieram com gran- 
de lua arlronta , e morte de trezentos ho- 
mens que ficaram no campo , e os mais que 
faiam feridos , ao que ajudaram huns três 
berços , que de dous batéis os varejavam. 
Quando o Mangate , e o Regedor, e os 
ieus Naires viram feito de tanto esforço , 
que clles chamavam milagre, afFrontados da 
covardia que moílráram , remettêram tam- 
bém com grande grita onde era a batalha , 
em que já acharam pouco que fazer por 
os inimigos ferem paiTados. 

EIRey de Calecut com efte deferedito 
íeu fe tornou a feu arraial mui anojado , 
e os d'ElRey de Cochij fe esforçaram tan- 
to , que por a nova que correo acudiram 
logo aquella noite ao Mangate mais de qua- 
tro mil Naires ; e ao outro dia feguinte da 
batalha chegou António de Brito com qua- 
trocentos Portuguezes , o qual veio a tem- 
po que os d'EÍRey de Calecut tornavam 
a provar paliar o váo , para o que dando 
Martim Aífonfo a dianteira a António de 
Brito , pelejou com elles , e os fez tomar 
com maior preíía , e afFronta que da outra 
vez , e lhes matou muita mais gente. E por- 
que o Principe de Cochij era chegado com 
vinte mil Naires } de que muitos eram e£ 

pir> 



314 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

pingardeiros , vendo Martim AfFonfo a mul- 
ta gente que alli citava junta , e quanto im- 
portava acudir elle á Armada d'ElRey de 
Calecut que andava no mar, deixou aguar- 
da daquelle paíío a António de Brito com 
os quatrocentos Portuguezes que comfigo 
trouxera, e os vinte milNaires. O qual em 
vinte dias que alli ficou, veio ábataiha féis 
vezes com a gente d 5 ElRey de Calecut , e 
de todas os venceo, e desbaratou , fazendo 
nelíes grande eftrago. Polo que EIRey le- 
vantou feu arraial , e com menos gente , e 
menos honra fe tornou para fuás terras , e 
com grande prazer d'E!Rey de Cochij. 

CAPITULO XXI. 

Como Martim Affonfo de Soufa desba- 
ratou a Cutiale Marcar Capitão mor da 
Armada d^ElRey de Calecut : e como foi 
ao paffò do vão para pelejar com EIRey , 
e elle fe recolheo , e desfez, feu exercito. 

TAnto que Martim Altbnfo de Soufa 
chegou a Cochij a , com muita brevi- 
dade fe embarcou para ir cm bufea da Ar- 
mada de Calecut com trezentos Portugue- 
zes. Dos navios que levava eram Capitães 
Vafco Pires de Sampaio , D. Diogo de Al- 
meida 3 Manoel de Soufa de Sepúlveda, 

Fer- 

A Fernão Lopes de CailanheUa no cap. 148. do tfv. S # 



De o IV. Liv. VIL Cap. XXL 31? 

Fernão de Soufa de Távora, Martim Cor- 
rêa , Francilco de Barros de Paiva , Jorge 
Barrofo de Almeida, Franciíco Pereira, 
Gafpar de Lemos , Jeronymo de Figueire- 
do j Franciíco de Sa' , e outros ; e corren- 
do a cofta achou em Chnle Diogo de Rei- 
nofo com cinco fuftas , que fe recolhera al- 
li , fugindo de Cutiaie Capitão mor da Ar- 
mada de Calecut, com quem pelejou, e eí- 
teve em termos de fe perder , e lhe foi to- 
mada huma fulva das que trazia , e os ini- 
migos o íeguíram até aquclle porto. Re- 
colhido Diogo de Reinofo á coníerva de 
Martim Affoníò , ao outro dia indo a nof- 
iâ Armada a la mar com as galés , e fuftas 
maiores , e as ligeiras ao longo da terra , 
appareeeo a frota de Cutiaie também ao 
longo da terra da parte de Calecut , a quai 
era de vinte e cinco fuftas , em que anda- 
vam mil e quinhentos homens , muitos del- 
Jes efpingardeiros. E como apparecêram de 
fubito 3 e os nofíbs hiarn deíejofos de os 
achar , remettêram a elles Diogo de Rei- 
nofo , e António de Lima , e António de 
Sotomaior Capitães de fuftas , e outros 
que hiam em navios ligeiros , e deram com 
elles entre os Ilheos de Pandarane , tiran- 
do-lhes com muitas bombardadas. Cutiaie 
fabendo que Martim Affonfo andava já no 
mar, e que elle devia de vir alli, e da vi- 
do- 



316 ÁSIA de João de Barros 

dória que houvera cTElRey de Calecut*, 
receou-o muito, e nao o querendo efperar, 
determinou-fe em fc ir á vela , e a remo 
ornais que pudeífe para dobrar a ponta de 
Coulete. Martim Alíbnfo que vinha mais 
ao mar com os navios de alto bordo , ti- 
rou-fe de hum galeão em que vinha, emet- 
teo-fe em huma fuíta ligeira , e a íua gen- 
te mandou metter na fuíta de Jcronymo de 
Figueiredo , e tomar a dianteira aos inimi- 
gos , para que nao dobrafíem a ponta , e 
comfigo levou Francifco de Barros de Pai- 
va , por a íiia fuíta fer das mais pequenas. 
Diogo de Reinofo , e António de Lima 
alcançaram huma fuíta dos inimigos , e af- 
ferrando-a faltaram dentro com tanto esfor- 
ço , que nenhum dos inimigos ficou vivo, 
mas dos nofíbs foram muitos feridos , e cin- 
co mortos. Cutiale vendo-iè cercado , por- 
que Martim AíFonfo lhe tinha tomada a 
dianteira , e as outras fuítas lhe hiam nas 
coitas , e as galés lhe faziam roítro , e que 
nao podia efeapar , antes de o cercarem de 
todo , poz a proa em Tiracole , lugar da- 
quella corta , que tem hum arrecife de pe^ 
nedos diante do porto com duas entradas , 
e os feus feguíram apôs eile , e enfeccan- 
do as furtas quanto puderam , faltaram em 
terra. Martim AfFonfo entrou no porto com 
Francifco de Barros, e jcronymo deFiguei^ 

rç- 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XXI. 317 

redo pela entrada da parte do Sul , por não 
caberem todos dentro , e começaram a pe- 
lejar com os inimigos ; e querendo-íè che- 
gar Martim Affoníò muito a elíes , ficou 
em (ceco no rolo do mar , o que vendo 09 
inimigos , remettêram alguns á lua fuíla com 
grandes gritas de prazer , por lhes parecer 
que a tinham tomada ; e tanto fe chegaram 
a cila j que lhe lançaram mao da appelia- 
çao , querendo-a enfeccar de todo , íobre 
que houve huma grande peleja , de que fi- 
caram muitos Na ires mortos, e a fuíla em 
nado. E tanto fe chegaram Franciíco de 
Barros , e Jeronymo de Figueiredo ás fuf- 
tas dos inimigos , que lhes queimaram al- 
gumas com panclías de pólvora , e das três 
horas do dia em que começaram até á noi- 
te lempre pelejá r am , em que fizeram gran- 
de dam no nos inimigos , e nollo' muito 
pouco. 

Sendo noite repartio Martim Affonfo a 
Armada em duas partes, e com huma man- 
dou a Manoel de Soufa de Sepúlveda que 
guardaíTe a entrada do arrecife da banda do 
Norte i e a Francifco de Barros com a ou- 
tra parte da frota que guardaíTe a outra bo- 
ca do Sul, porque receava que, poraquel- 
le arrecife ter duas entradas, por huma del- 
ias íe lhe acolhelTem os inimigos , com ten- 
ção de dar nelles pela manha. Mas elles 

com 



318 ÁSIA de JoÃo de Barros 

com eííe receio , temendo- íè que lhe quei- 
maíTem as fuílas , vigiaram roda a noite, 
e fortalecêram-fe com eívancias , cm que pu- 
zeram a artilheria , e na mcíma noite acu- 
diram os de Coulete , Ter mapa tão , e de 
outros lugares da coíla , com que fe ajun- 
taram mais de féis mil homens. O que vií- 
to dos noflbs , tratou Martim AfFonfo em 
confelho do modo que teria em os com- 
inetter ; e confiderando-le a diípoíiçao do 
porto, que não dava lugar para toda a nof- 
fa Armada poder entrar dentro , e porto 
que todos foíTem juntos , eram muito pou- 
cos para pelejarem com tanta gente também 
fortificada. E por a efle tempo chegar h li- 
ma carta cPElRey de Cochij , perque pe- 
dia muito a Martim AfFonfo que lhe acu- 
d i ti e fem dilação, porque EIRey de Cale- 
cut tornava a commerter o paíío do váo , 
c que fem dúvida não vindo ellc o pa fia- 
ria , porque trazia todo feu poder ; aíTen- 
tou-fe no confelho que deixaíTem Cutiale , 
e foíTem foccorrer EIRey de Cochij. Polo 
que mandou logo Martim AfFonfo dar á 
vela ; e entrando cem toda a Armada per 
o rio de Cranganor , achou ahi António de 
Brito com os mais que com elle citavam 
guardando o paíío , os quaes feílejáram mui- 
to a fua vinda , porque cada hora eípera- 
vam porEIRcy de Calecut. O qual faben- 

áo 



Dec.IV. L. VIL Cap. XXL e XXII. 319 

do que Martim Affbnfo era chegado , que 

illc cuidou nao podia vir tilo a prefla , e 
por iflb tornara ao pafib , ficou ta o dei- 
goftofo , e quebrado do animo , que nao 
eommetteo mais pafiar a Repelim ; e reco* 
lhendo-fe para dentro da terra , desfez o 
campo defpedindo a gente. O que enten- 
dido por Martim Aftbníb , fe tornou outra 
vez a correr s coíla , onde também nao 
achou a Armada , que com medo delle fe 
recoiheo, e ficou a coíla aquell: anno deí- 
pejada , polo que neJle nao foi cípeciaria 
poEftreito. E no Maio feguinte fe foi Mar- 
ítim AíFonfo para Cochij a invernar , no 
que EIRey levou muito godo 3 e fe rnof- 
trou muito obrigado. 

CAPITULO XXII. 

Como Madune T? andar Rây de Ceita- 
vaca , com ajuda de huma Armada de Ma- 
r avares cercou a EIRey Boenegobago feu 
\rmao na Cidade da Cota , e Martim Af- 
fynfo o foi foc correr , e pelejou com a Ar- 
jicâa , e a desbaratou, 

NAo deixaram as coufas de Ceilão deP 
cançar Martim Affonfo de Sou ia rotu- 
lo tempo em Cochij a , porque perfeveran- 
io Madune Pandar Rey de Ceitavaca em 

fuás, 

a Diogo do Couto cap. 6. do íiv. i. da j. Vacada. 



320 ÁSIA de João de Barros 

fuás imaginações , e continuando na pcr- 
tenção do Senhorio de toda a Ilha de Cei- 
lão , (como atrás diílemos , ) fuccedeo irem 
em Agofto deite anno de 1^36. hunsfetepa- 
ráos de Mala vares a Columbo , a tempo que 
Nuno Freire de Andrade Alcaide mòr , e 
Feitor daquelle porto eftava na Cidade da 
Cota com fete , ou oito Portuguezes. Os 
Mouros dos paráos mandaram pedir a El- 
Rey Boenegobago Pandar que lhes enviaf- 
fe logo aquelles Portuguezes : reíentido EI- 
Pvey de tamanho atrevimento , determinou 
de o caftigar , de que dco conta a Nuno 
Freire , que polo que lhe tocava pedio a 
EIRey aquella jornada , e elle lha concedeo, 
e feiscentos homens com Samlupur Arache 
feu Capitão , que o acompanhaítem. Partio 
de noite Nuno Freire com elles , e com os 
oito Portuguezes , e foi amanhecer a Co- 
lumbo , onde tomando os Malavares em 
terra defeuidados , os desbaratou , matou 
muitos , e os que puderam efeapar , huns 
fe mettéram pelos matos , e foram parar a 
Ceitavaca , e outros fc lançaram ao mar ? 
e fe acolheram cm três paráos , ficando os 
quatro em poder dos noíibs. 

Madune Pandar pezarofo do fucceílo, 
recolheo , eagazalhou os Malavares que fu- 
giram para Ceitavaca , os quaes tendo no- 
ticia de feus intentos , lhe aconfclháram , que 

mau- 



Dec. IV. Liv. VII. Cap. XXII. 321 

mandaífe pedir foccorro ao Çamoríj , com 
que confeguíra facilmente lua pretenção , e 
lhe ofFerecèram encaminhar, e acompanhar 
feus Embaixadores. Madune approvou o 
coníelho ? eícolheo entre os feus os Embai- 
xadores , e os eípedio logo com hum rico 
prefente para o Çamorij , e peças para feus 
Regedores , pedindo-lhe huma boa Arma- 
da , cuja defpeza pagaria largamente. 

Recebeo bem o Çamorij os Embaixa- 
dores de Madune ; e perfuadido dos Mou- 
ros , e vencido do intereíTe , mandou logo 
recolher os navios que andavam fora , e ar- 
mar outros , e com muita preíía apercebeo 
huma Armada de quarenta e cinco navios, 
em que mandou embarcar dons mil homens , 
e por Capitão delia Ali Abrahem Marca 
Mouro grande coííairo , e muito cavalleiro. 
Chegou eíta Armada a Columbo na entra- 
da de Outubro ; e como Madune citava já 
no campo com hum grande exercito , ajun- 
tando-fe com elle os Mouros , foram todos 
pôr cerco á Cidade da Cota. Eíta Cidade 
èítá íituada em meio de huma grande ala- 
goa , e per hum paííb eftreito perque íe fer- 
ve , fe ajunta com a terra. Eíle paíTo forti- 
ficou Nuno Freire com hum baluarte , e 
tranqueira , cm que poz a artilheria que 
ie tomou nos quatro paráos dos Malava- 
j-es , e ordenou que houveíTe embarcações 
Tom. IF. P.iL X pa- 



322 ÁSIA DE JoÁO DE BARROS 

para defender a paíFagem aos inimigos , 
íe em outras , ou em jangadas a intentaf- 
fem. 

EIRey Boenegobago defpedio logo hum 
meflageiro ao Governador , pedindo-lhe o 
mandaíFe foccorrer naquelle aperto em que 
rifava , pois era vaííailo d'ElRey de Portu- 
gal ; e outro ( mandou a Martim AfFonfo 
de Soufa , que fabia eftava em Cochij , ro- 
gando-lhe que com a Armada viâoriofa da 
empreza de Repelim o vieíle livrar daquel- 
les inimigos communs. Madune entretanto 
continuou o cerco , dando grandes aíFaltos , 
ecommettendo ospaíTos muitas vezes, que 
lhe foram com muito valor defendidos , 
fendo os poucos Portuguezes que alli ha- 
via os primeiros nos perigos , de que fahí- 
ram muitas vezes feridos , os quaes EIRey 
mandava curar com grande cuidado , por- 
que neJles tinha a fua maior defensão , e 
aíli fe foi o cerco dilatando por efpaço de 
três mezes. 

O inviado que hia ao Governador che- 
gou a Cochij , onde achou Martim AfFonfo 
de Soufa , a quem deo a carta d'ElRey, 
e outra de Nuno Freire , e reprefentou o 
aperto em que EIRey ficava. Conhecendo 
Martim AfFonfo a obrigação que lhe cor- 
ria de foccorrer aquelle Rey vaíFallo da Co- 
roa de Portugal , apreftou-fe com diligen- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XXII. 323 

cia ; e deixando as gales da fua Armada 
na cofia do Malavar para guarda delia, 
com as fuftas fe fez na volta do Cabo de 
■Comorij , o qual paliado , e correndo a coi- 
ta até os baixos de Manar , delles atravef- 
fou a Ceilão , e foi demandar Columbo, 
donde quando chegou já eram idos os Ma- 
lavares ; porque rendo elles avifo da parti- 
da de Cochij da nofla Armada , temendo 
perder os navios , fe defpedíram de Madu- 
nePandar, e embarcados fe paíTáram á ou- 
tra coita , e Madune levantou também o 
cerco da Cidade primeiro que Martim Af- 
fonfo chegaíTe , e fe reconciliou com El* 
Rey leu irmão. 

Vendo Martim Affonfo , que fem elle ar- 
rancar a efpada defeercáram os inimigos a 
EIRey , pareceo-lhe conveniente , e de- 
vida cortezia viíitallo : polo que defembar- 
cando, partio para a Cota, onde EIRey o 
recebeo* com grandes moítras de agradeci- 
mento daquelle foccorro. Martim Affonfo 
lho offereceo por parte d'ElRey de Portu- 
gal , e do feu Governador da índia , fem- 
pre que lhe fofle necelTario , o que EIRey 
eftimou muito , entendendo quão certo ti- 
nha o favor dos Portuguezes , e conhecen- 
do a vontade , e diligencia com que acu- 
diam á fua defensão. 

Defpedio-fe Martim Affonfo d'E!Rey 
X ii por 



324 ÁSIA de João de Barros 

por nao haver alJi occafiao de mais deten- 
ça , e embarcado , fe paííou á outra coita , 
e em breves dias chegou ao Malavar , on- 
de íòube que nao eram ainda recolhidos 
os paráos de Ali Abrahem. E porque duas 
fuftas da noíTa Armada , de que eram Ca- 
pitães Franciico de Mello Pereira , e João 
de Soufa Rates , tomaram na paragem de 
Monte Delij hum paráo de Malavares , e 
delles fouberam que a Armada de Ali ef- 
tava em Mangalor , com eíla nova voltou 
Martim AfFonfo em bufca do inimigo ; e 
indo hum pouco affaílado da terra , houve 
vifta dclle perto de Coulete. Os Mourcs 
tanto que conheceram a noíTa Armada , vol- 
taram para terra , com tenção de fe falva- 
rem nella ', mas os noflbs navios ligeiros 
apertando o remo os atalharam ; e aíFer- 
rando com os paráos dos inimigos , os em- 
baraçaram , e entretiveram em quanto che- 
gou toda a nofla Armada , que mettendo- 
lhes logo alguns navios no fundo , e def- 
apparelhando outros , depois de huma por- 
fiada peleja 5 os desbarataram de todo 3 e 
renderam a maior parte , com perda de 
mais de mil e duzentos Mouros , e muito 
pouca nofla , com que ficou a vicloria mais 
gloriofa. O Çamorij ficou com a perda def- 
ta Armada mui quebrantado , e os Mou- 
ros de Calecut mui pobres ? porque ellcs 

fo- 



Dec. IV. Liv. VIL Cap. XXII. 325- 

foram os armadores da maior parte deites 
navios ; e Marti m Affoníb de Soufa andou 
na cofta todo o refto do veram y até fer 
tempo de fe recolher. 




DE- 



[f llxxxxíxxxxxxíxxxxxxí^xxr ^} 

DÉCADA QUARTA. 
LIVRO VIU. 

Governava a índia Nuno da Cunha. 

CAPITULO I. 

Como o Governador Nuno da Cunha foi avi- 

fado per muitas vias do que EIRey de 

Cambaya movia contra os Portugue- 

zes , para lhes tomar a fortaleza 

de Dio , e o lançar da índia : 

e do que f obre ij/bfez. 

NAo eftava ainda Nuno da Cunha def- 
cançado cm Goa dos trabaihos que 
paííou fobre a defensão das terras fir- 
mes , quando teve novas de coufas que o 
Soltam Badur Rey de Cambaya movia , pa- 
ra reftituir-fe da fortaleza de Dio , e lançar 
os Portuguezes de feu Reino , e de toda a 
índia , íè pudeííe. E como os meios que 
para iíTo bufcava eram muitos , c os nego- 
ciava com muitos, vieram facilmente adef- 

cu- 



De o IV. Liv. VIII. Cap. I. 327 

cubrir-fe , c ter Nuno da Cunha por cer- 
to o de que antes eftava duvidofo. Porque 
poílo que quando o Açadachan lhe man- 
dou pedir as pazes que aflentáram , para o 
mais mover a cilas , o avifou dos intentos 
d'ElRey de Cambava , que o incitava a fa- 
zer guerra aos Portuguezes , como a outros 
potentados da índia , e o meímo foubera 
o Governador do Hidalchan ; ainda lhe pa- 
recia que feriam artifícios , e invenção do 
Açadachan para lhe outorgar a paz que pe- 
dia , ou que EJRey de Cambava mudaria 
a vontade , e propoíito que então tinha , 
porque poderia fer que (como muitas ve- 
zes acontece ) com indignação , ou efean- 
dalo que tiveíTe , como homem voluntario- 
fo , e mudável que era , accommetteria o 
que depois não traria a effeito. Mas toda- 
via como elle conhecia bem a pouca cons- 
tância d'E!Rey, e fer homem mui audaz, e 
que (como dizem) vivia de prefía , metten- 
do-fe fempre nos perigos , até que acabou 
nelles ; temia-fe delle como de Príncipe que 
era tão poderofo , e rico de tantos thefou- 
ros , que são o nervo da guerra , e que 
bufeava ajuda de tantos Príncipes Mouros , 
cuja caufa ficava commum a todos 3 por 
fer contra Chriílãos , que os queriam do- 
minar , começou também prover-fe para o 
não tomarem defapercebido. 

Ef- 



328 ÁSIA de João de Barros 

a Elbndo o Governador ncíhs dúvidas , 
deo EIRey huma inconfiderada moftra do 
que determinava em feu animo , per que 
pudera correr perigo de Tua peílba , queren- 
do fegurar a Manoel de Soufa Capitão da 
fortaleza de Dio ; e foi , que vindo elle 
áquella Cidade depois de dar fim a fuás 
guerras , a 10. de Outubro daquelle anno 
de 1536. logo no meímo dia á noite hum 
Mouro fe foi á porta da fortaleza , dizen- 
do , que queria dar huma palavra ao Ca- 
Eitão que importava. E eílando elle fó da 
anda de dentro a portas fechadas , e o 
Mouro de fora , lhe diíTe , que fe ao ou- 
tro dia EIRey o mandafle chamar , não fof- 
fe , porque o havia de matar ; e que por- 
que não tiveíTe para íi que lhe dizia ifto 
por algum intereíTe , não fe nomeava quem 
era. Ifto não defcubrio Manoel de Soufa a 
peiToa alguma , are ver em que parava. Ao 
outro dia feguinte o mandou EIRey cha- 
mar , e não embargante o que o Mouro 
lhe diiTera , determinou de ir , lançando con- 
ta , que fe fecfcufaííe, EIRey tomaria acha- 
que para romper em guerra , o que elle 
muito queria evitar, e que oavifo do Mou- 
ro poderia fer falfo, porque EIRey por ó 

ma- 

a Diogo do Couto na ç. Década tiv.i. cap. 8. Fer- 
não Lopes de Caftanheda no cap. i ç ç . âo íiv. %. * Fian- 
cifeo de Andrade no cap. 34. da 3. Farte. 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. I. 329 

matar a elle não ganhava a fortaleza. Polo 
que encommendando a guarda , e defensão 
delia ao Alcaide mor , e deixando toda a 
gente armada , e a artilheria poíta em or- 
dem , fe foi a EIRey , não levando comil- 
go mais que os de lua guarda, efeus cria- 
dos. EIRey recebeo a Manoel de Soufa 
com muito gazalhado; e depois de lhe per- 
guntar como citava , em íignal de honra , 
e amizade ao feu coftume , lhe mandou dar 
huma cabaia rica , e Manoel de Soufa lhe 
deo de prefeme hum montante bem guar- 
necido , e huns eftribos , e efporas do mei- 
xno theor. E por íèr a primeira vez que 
via a EIRey , não lhe tocou na morte de 
alguns Portuguezes , que os Mouros na Ci- 
dade fem razão tinham morto , e fe tor- 
nou á fortaleza , moftrando EIRey que fi- 
cava feu amigo. 

Mas EIRey , cuja natureza era não ef- 
tar ociofo , nem quieto em huma vonta- 
de , determinando-fe em tomar a fortaleza , 
o poz em cenfelho com os feus , os quaes 
todos foram de parecer que o não fizeíTe ; 
e lua mai , que era mulher prudente , lho 
rogou muito , impoílibilitando-lhe aquelle 
negocio, e moítrando-lhe que o que ganha- 
ria dahi feria ter os Portuguezes por inimi- 
gos , que lhe deftruiriam a Cidade , e lhe 
fariam outros damnos , como já fizeram a 

el- 



3jo ÁSIA de JoÃo de Barros 

ellc , e a outros Reys , de que receberam 
oífenfas. O confelho de João de Sant-Ia- 
go , que já fc chamava Rumechan , de quem 
EIRey fazia muita conta, foi, que fe def- 
cnganaíTe de tomar a fortaleza , por fcr tão 
forte , e bem provida d'artilheria , e muni- 
ções ; e que os Portuguezes eram taes , que 
primeiro todos haviam de morrer , que a 
perdeíTem. Que o remédio para a toma? fe- 
ria fazer-fe mui amigo com Manoel de Sou- 
fa , e com efte pretexto illo ver algumas ve- 
zes á fortaleza , para o tirar de fufpeitas ; 
e que vindo o Governador a Dio , com 
efta mefma amizade , e converfaçao conti- 
nusíTe ir á fortaleza , e que aífí poderia ma- 
tar nella o Governador , e que morto elle , 
os Portuguezes não teriam animo para fe 
defenderem. 

Efte parecer contentou a EIRey; e co- 
mo elle era precipitado , e impaciente em 
feus appetites , quando veio aos 13. de No- 
vembro , fendo já oito horas da noite , fem 
nenhum propofito , e fem ter mandado re- 
cado a Manoel de Soufa , bateo á porta 
da fortaleza. E fabcndo Manoel de Soufa 
como era EIRey , mandou tocar as trom- 
betas y e os Portuguezes como andavam re- 
ceofos da guerra , e dos movimentos que 
fe fentiam em EIRey , em hum momento 
foram todos armados , os quaes faziam nu- 
me- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. I. 331 

mero de novecentos ; e portos no terreiro 
da fortaleza cm huma rua com muitas to- 
chas entrcíachadas , faziam huma formofa 
vifra com o refplendor das armas. Abrindo 
Manoel de Soufa o poítigo da fortaleza , 
entrou EIRey fó com o Ráo , e dous gran- 
des Senhores , mandando á outra gente to- 
da ficar de fora , c logo diíle , que fe fe- 
chaíTe o poítigo , por Manoel de Soufa não 
ter algum receio. E vendo tantos armados 
tão de fubito , perguntou a que fim fe ar- 
mavam , fendo e\ÍQ tão amigo d'EJRey de 
Portugal , e dos Portuguezes ? Manoel de 
Soula lhe refpondeo , que aquillo era cof- 
tume dos Portuguezes , quando os feus Rcys 
entravam nas fortalezas de Portugal. Quan- 
do EIRey entrou no apofento de Manoel 
de Soufa , porque o Ráo lhe tinha defcu- 
berto o ódio que EIRey tinha aos Portu- 
guezes , receando-fe que hi o mataíTe , em 
voz baixa lhe diíle : Capitão , prende , e não 
mates. Ao que Manoel de Soula refpon- 
deo , que não faria huma coufa , nem ou- 
tra. E eílando EIRey em praticas com Ma- 
noel de Soufa , lhe gabou aquellas cafas ; 
e dizendo-lhe eíle , que as cafas , e a for- 
taleza eram de S. A. diíTe EIRey: As ca- 
fas são tuas , e a fortaleza he d^ElRey teu 
Senhor. E detendo-fe com elle efpaço de 
meia hora , fe fahio 3 levando-o per huma 

mão 



33^ ÁSIA de JoÃo de Barros 

mão Manoel de Soufa , e pela outra o Rão , 
e le foi para ília caía , cuidando que dei- 
xava Manoel de Souía fora de íu (peitas. 
Mas como elle conhecia a condição d'El- 
Rey , nunca fe tanto temeo delle. 

Succedendo depois algumas coufas , per- 
que Manoel de Soufa entendeo o animo 
damnado que EIRey trazia contra os Por- 
tuguezes , efereveo tudo ao Governador , e 
como EIRey fora á fortaleza , onde o não 
prendeo , por não faber fua vontade ; e co- 
mo íòubera do Ráo que EIRey determina- 
va de tomar a fortaleza , e que com brevi- 
dade acudiííe a Dio , porque efperava fer 
cercado. a O Governador lhe efereveo lo- 
go de fua mão , eítranhando-lhe não pren- 
der EIRey , tendo-o na fortaleza íó , e def- 
acompanhado , e que elle iria mui em bre- 
ve; mas que fe entretanto EIRey tornaíle, 
o prendeííe. Efta carta mandou Nuno da Cu- 
nha per hum Pêro de Chaves criado feu de 
confiança , que a levava comíigo no gibão , 
e foi em hum catur efquipado. E como Nu- 
no da Cunha era mui prudente , e citava 
nefee tempo em concerto de pazes com o 
Açadachan , as quaes fazia de má vontade, 
fó por receio da guerra com EIRey de 
Cambaya , e dos Príncipes dó Decan , que 
o haviam de ajudar, quiz com mais funda- 

men- 

a Fernão Lopes de Caílanheda no cep. 156. do fiv. 8. 



Dec. IV. Liv. VIII. Ca?. I. 333 

mento fnber de feus propofitos. E porque 
íabia que EIRcy era cm fuás acções mal 
attentado , e que com peíToas que o apra- 
ziam era mui defeuberto , mandou diante a 
Dio Manoel de Macedo a com alguma gen- 
te ( o qual íabia que era mui acceito a El- 
Rey ) para o tirar de algumas paixões , e 
ver fc podia deícubrir feu.s .intentos , por- 
que cria que íe abriria com elle. Mandou- 
lhe que diíTeíTe a Manoel de Souía , que 
como eile chegaíTe a Dio , fizeíle deíparar 
toda a artilhena , e moílraííe grande fefta , 
dizendo , que chegaram quatorze ndos de 
Portugal com muitos mil homens ; e aill 
foi feito, perqueElRey mudou o confelho 
de tomar a fortaleza per outra maneira ? e 
não per prizão do Governador. 

Indo Manoel de Macedo- ver EIRey, 
na primeira prática entendeo delle deíejar 
muito de fe ver livre da fujeiçao dos Por- 
tuguezes , e ver-fe Senhor inteiro de Dio ; 
e entre muitas coufas , em que fe defeubrio 
com Manoel de Macedo , foi , fazer-] he 
queixume de Manoel de Soufa de quão mal 
fe havia com elle , porque chegando elle a 
Dio para ir contra Ramugij , que fe lho 
alevantára , e fe acolhera aos Resbutos , pa- 
ra que havia mefter toda lua Armada 3 que 

ti- 
1 

a Ou Dioço âe Mefquita , como diz Diogo do Cou« 
to , e Fiancifco de Andrade, 



334 ÁSIA de JoÁo de Barros 

tinha em Dio , na qual quizera mandar Co- 
ge Sofar feu Capitão mór , e ir elle per 
terra , Manoel de Soufa lho impedira, e 
fomente' lhe concedera tirar dezoito fuftas , 
e bargantijs , como fe elle não fora Rev , 
e Senhor de Dio , fendo elle o que deo lu- 
gar para fe a fortaleza fazer , e ajuda, e 
dinheiro para ella , e dera Baçaim , e fuás 
terras por a amizade d'E!Rey de Portugal. 
E que fazendo com Nuno da Cunha pazes 
com condições de fe ajudar hum ao ou- 
tro , e com efpecial promeífa do mefmo 
Nuno da Cunha lhe dar ajuda contra os 
Mogoles , nunca lha dera , e agora era im- 
pedido per Manoel de Soufa ir caftigar hum 
feu vaífallo rebelde , o que elle não cria 
que vinha de Nuno da Cunha , que tinha 
por feu amigo , e por homem agradecido , 
e Capitão prudente. Além diílo lbube mais 
Manoel de Macedo, como fora certo que 
EIRey de Cambava fora a principal caufa , 
perque EIRey' de Calecut movera guerra 
no Malavar contra EIRey de Cochij , (por 
a amizade que tinha com os Portuguezes ,) 
e o Hidalchan , e Açadachan nas terras fir- 
mes de Goa. E que o mefmo Rey de Cam- 
bava efcrevera a EIRey de Xael em ódio 
dos Portuguezes , perque fe elle atreveo 
prender a D. Manoel de Menezes , de que 
adiante diremos. Tornando Manoel de Ma- 
ce- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. I. e II. 33? 

cedo em fim de Dezembro daquelle anno 
de i5'3ò. , c contando ao Governador o que 
com ÊlRey de Cambava paílara , fe rcíbl- 
veo em fazer paz com o Açadachan com 
as condições que diíTemos ; e para fe me- 
lhor certificar , determinou ir a Dio , e náo 
íe fiar de juízos alheios , fenão do feu em 
julgar as coulas d'ElRey de Cambaya , cu- 
ja paz , e guerra tanto importavam ao Et- 
tado dos Portuguezes na índia , e ver o 
procedimento que com elle havia de ter. 

CAPITULO II. 

Da embaixada , que Soltam Badur Rey 
de Cambaya mandou ao Governador , pe- 
dindo-lhe fe fojje ver com elle ; e como fa- 
bendo elle da traição , que lhe EIRey orde- 
nava y partio logo : e do que mais fucceâeo* 

EStando Nuno da Cunha tão informa- 
do dos movimentos d'ElRey de Cam- 
baya J e em propoíito de ir a Dio , che- 
gou a Goa hum feu Embaixador por nome 
Mur Mahamed filho de Luchan Senhor 
principal do Reino de Guzarate , e homem 
de grande authoridade , com que EIRey 
communicava feus confeihos mais fecretos , 
e que íabia a traição que EIRey ordenava, 
com o qual vinha Xacoez , que já EIRey 
mandara a Nuno da Cunha com outra em- 
bai- 



33<5 ÁSIA de João de Barros 

baixada. Os quacs elle recebeo com muita 
honra , e gazalhado , e para os acompanhar 
lhes deo por companheiro hum Perfiano , 
que havia muitos annos que eítava em Goa , 
per nome Coge Percoli , homem honrado , 
de que Nuno da Cunha fiava muito por fer 
amigo leal dos Portuguezes. A íubftancia 
da embaixada era, mandar EIRey dizer ao 
Governador , que por quanto elle eítava de 
caminho para huma comprida jornada , e 
não fabia o tempo da íua detença , defeja- 
va muito communicar com eile algumas cou- 
fas , que lhe importavam muito ã feguran- 
ça de feu Eítado : que lhe pedia muito por 
amor delle o quizefle ir a ver, e que rece- 
beria muito prazer em fer o mais em bre- 
ve que fer pudeííe. a Agazalhados os Em- 
baixadores , Nuno da Cunha rogou a Coge 
Percoli , que foubeífe per algum modo do 
Embaixador Mur Mahamed a determinação 
d'EIRey; c da mefma maneira rogou a Xa- 
coez , que tinha por amigo , e lhe tinha 
defeuberto como EIRey tratava de comprar 
todo o arroz , e mantimentos que houveífe 
em Baçaim , e em fua Comarca , para que 
os Portuguezes os não achaffem , c que nif- 
ío lhe parecia que EIRey pretendia fazer 
guerra á fortaleza de Dio. Elles fe deram 
inflo tão boa manha , que dando hum dia 

hum 

á Fernão Lopes de Caftanheda no cap. ítf.ão liv. 8. 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. II. 337 

hum banquete com bons vinhos ao Embai- 
xador, depois de ficarem todos três íos fo- 
bremeza , Percolim , e Xacoez começaram 
de praguejar dos Portuguezes , por as lem 
juftiç/as , e males que faziam aos Mouros ; 
e para aíTegurarcm mais ao Embaixador > 
e tirarem deile o que fabia , culpavam a 
fraqueza de animo de Soltam Badur , que 
fendo tão grande Senhor , e tão rico , os 
náo deitava da índia , e que em huma ho- 
ra acabaria EIRey tudo , fe prendefle ao Go- 
vernador, porque prezo , elle facilmente lhe 
podia tomar a Armada, e a fortaleza ; e 
que havendo o Governador ás mãos pre- 
zo , o devia mandar ao Turco mettido em 
huma gaiola para fua fama. le eftender per 
todo o Mundo, e que efta feria mor hon- 
ra , que fer Senhor do Guzarate. Como ef- 
tes rodos eram Mouros , e pela converfa- 
çao da poufada, e meza já amigos, o Em- 
baixador quente , e alegre com o que ha- 
via bebido , rindo-fe para elíes , lhes diííe , 
que EIRey o tinha aíli determinado 5 e que 
para iííb havia de dar hum banquete ao Go- 
vernador , c a feus Capitães na quinta de 
Melique , cm huma horta que tinha cerca- 
da de forte muro, e hi prendellos ; e que 
quando não pudeíTe fer , o mataria na Cida- 
de cm íèus paços. Eílas palavras do Em- 
baixador ouvio hum Portuguez, que fabia 
Tom.lKP.iL Y alin- 



338 ÁSIA de João de Barros 

a lingua , que citava cm huma camará pe- 
gada com a do banquete, o qual eícreveo 
tudo o que ai li paflbu , e o dco a ISIuno 
da Cunha. Quando o Governador acabou 
de certificar-fe daquillo que não acabava de 
crer , determinou comíigo de fazer todo 
o poílivel por prender a EIRey , ou na for- 
taleza , ou em feus próprios paiTos , levan- 
do comíigo alguns Fidalgos , homens de fei- 
to , armados fecretamente. Tendo em fe- 
gredo o que fabia , e o que determinava , 
propoz em confelho , que íbbre iflb teve 
com os Capitães , e peíTcas notáveis que ef- 
tavam em Goa , algumas razões geraes que 
havia para ir a Dio , e muito mais ao pre- 
fente , fendo chamado , e rogado por EI- 
Rey. Mas não declarou o modo que com 
eile havia de ter, fe lhe achaííe o animo 
damnado , nem que fabia delle alguma cou- 
ía mais que o que fe dizia geralmente , 
porque entendia quão perigofo era tratar 
com muitos o que fe requeria fer poílo 
em eíxeito per poucos. E o que mais mo- 
via ao Governador abbreviar fua ida , era 
por não deixar a EIRey crear mais forças 
no mar das que tinha , porque cada dia 
mandava fazer mais navios de remo; e tar- 
dando qIIg , podia vir alguma Armada de 
Rumes, para o que diziam EIRey manda- 
ra muito dinheiro a Meca, como fe depois 

vio. 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. II. 339 

vio. Polo que a refpofta que deo aos Em- 
baixadores de Cambaya , foi, que por fer- 
vir , e comprazer a EIRey fe faria logo 
preíles , e partiria o mais cm breve que pu- 
deífe , fem embargo de fua enfermidade , e 
lhe fer a Cidade de Dio mui contraria a 
ella , por ícr terra de campina defabrigada , 
e mui ventofa. Os Embaixadores fe quize- 
ram deter para ir em fua companhia ; mas 
Nuno da Cunha os efpedio com dadivas, 
e não confentio que fe detiveflem mais por 
eílar aviíado per carta de Manoel de Sou- 
fa , que elies haviam de commetter ir em 
fua companhia a fim de notar todas as cou- 
fas , que fízefle naquelle caminho , e avifar 
diíío a EIRey. Partidos os Embaixadores, 
Nuno da Cunha ordenou huma Armada de 
quarenta velas a , de que muitas eram náos 
groífas , galeões , e galés \ e mandou reca- 
do a Martim AfToníb de Soufa , que an- 
dava no Maíavar , que logo á prelía par- 
tiíTe para Dio , porque importava fer aílí , 
o que elle logo fez. Nuno da Cunha par- 
tio de Goa a 9. de Janeiro de 1537.; mas 

Y ii co- 

a A Armada , diz Diogo do Couto , que era de cinco 
juncos grandes de Malaca carregados de mantimentos , 
oito náos do Reino , quator\e galeões , duas galeaças , do- 
ze galés Keaes , dezefeis galeotas , e mais de duzentas e 
Vinte fujlas , catures , e hargantijs ; efem e/Ias vilas hiam 
náos , zambucos , e cotias de taverneiros da gente da ter- 
ra , reprefentando huma grande povoação. Cap. 9. livro I» 
Leça da 5. 



34o ÁSIA de João de Barros 

como a Armada era grande , c não pode 
toda fahir aquelle dia , deixou Manoel de 
Macedo para levar os navios que ficavam , 
e o íegu ir com elles. Os Capitães das ve- 
las groíías eram Liíuarte de Andrade filho 
de Simão de Andrade do galeão S. Mat- 
theus , em que Nuno da Cunha hia. Os 
mais eram D. João Lobo , Ruy Vaz Pe- 
reira , Henrique de Mello , Fernão de Sou- 
fa , Anronio da Cunha , António da Fon- 
feca , Manoel Ribeiro , António de Sá, 
Manoel de Macedo , Anronio Cardo fo , 
António Corrêa , Diogo de Lemos, Ro- 
drigo do Couto j António de Figueiredo , 
Gil Pinto , Gonçalo Martis , Francifco Ro- 
drigues , Lourenço Botelho , Baílião Nunes , 
Gaípar Rodrigues , Diogo Paes , Garcia Al- 
vares , Garcia Anes Patrão mor , Aíceníio 
Fernandes , Affoníb Bernaldes , Aleixo do 
Monte , Vicente Fernandes , Francifco Gon- 
çalves , AíFonfo Fialho , e Lopo Pinto, que 
com quatro catures hia ordenado para en- 
trar no eílreito íaber novas dos Rumes i 
mas íuecedeo de outra maneira por efta 
ida com o Governador. 



CA- 



Década IV. Liv. VIII. 341 

CAPITULO III. 

Do que o Nizamaluco tinha paffado com 
Simão Guedes em Chaul , atites que Nu- 
no da Cunha alli cbegaffè: e dos in- 
dicio s que achou dos propofitos 
(T EIRey de Cambaya. 

TEndo Simão Guedes nova , no mez de 
Abril do anno paliado de 153 6. , que 
o Nizamaluco vinha com exercito a Chaul , 

Êofto que a terra , e comarca fbíTe de feu 
atado , tomou delle má prefumpçao , por 
fercoufa que nunca fazia, eparecia-lhe que 
feria fobre alguns recados que entre elle, 
e Nuno da Cunha houve , querendo o Ni- 
zamaiuco tomar as duas fortalezas Car- 
ná , e Sanguefá, que EIRey de Cambaya 
tinha dadas aos Portuguezes quando deo 
Eaçaim , as quaes haviam fido do Nizama- 
luco , e EIRey de Cambaya lhas tomara , 
quando com elle teve guerra , fobre o qual 
negocio Nuno da Cunha chegou a tanto , 
que lhe queria mandar queimar a fua po- 
voação de Chaul , que eftá acima da noffa 
fortaleza. Polo que o Nizamaluco fe def- 
eco diíío ; mas como elle era o mais maíi- 
ciofo daquelles Capitães do Dccan , Simão 
Guedes fe proveo de maneira, que quando 
elle chegou a Chaul no fim dç Maio , ti- 



34^ ÁSIA de João de Bakros 

nha pouco temor delle , poílo que eítiveíTe 
acompanhado de três mil homens de cavai- 
lo , c cinco mil de pé. E como íbube que 
elle eftava junto da povoação da Cidade , 
o mandou viíitar per Fernão Mendes Fei- 
tor d'E!Rey , fazendo-Ihe os geraes oífere- 
cimentos. Ao que elle refpondeo com pa- 
lavras de agradecimento ; e por lhe dize- 
rem que Simão Guedes fe acautelava de Tua 
vinda, como de inimigo, lhe mandou di- 
zer , que não tinha razão de o fazer , por- 
que elle era grande amigo , e fervidor d'EI- 
Rcy de Portugal , e por folgar de ter fua 
amizade confentíra de fe fazer a fortaleza , 
que alli tinha feita ; e que fua vinda não 
fora mais que a folgar, e querer compra- 
zer a fuás mulheres , que defejavam ver o 
mar, eque lho vinha moítrar, que lhe pe- 
dia lhe mandaífe dar alguma embarcação 
para andarem folgando pelo rio. Simão Gue- 
des neftas duas coufas fe houve mui bem , 
porque per huma parte fem algum alvoro- 
ço fegurou a fortaleza , e per outra , aíli no 
mar , como na terra , o fcítejou muito , até 
lhe mandar jogar cannas ao longo da ri- 
beira , que elle , e fuás mulheres as eftavam 
vendo do mar nos catures , e navios de re- 
mo , que lhe Simáo Guedes mandou con- 
certar , como para ferviço de hum grande 
Príncipe. Mas não lhe confentio com toda 

a ami- 



Dec. IV. Liv. VIU. Cap. III. 343 

a amizade que elle entraíle na fortaleza co- 
mo elle quizera, fenão com cinco, ou féis 
de feua Capitães. E como iílo foube , não 
quiz ir a ella , dizendo , que por não des- 
contentar os feus , cm deixar fora huns , e 
levar outros , o não (azia , e então deo li- 
cença que feus Capitães de dons em dous , 
e de três em três entraílem na fortaleza pa- 
ra verem como eílava provida , e para mais 
fegurança de Simão Guedes , mandou qua- 
tro mulheres luas que a foliem ver , a qual 
eílava de maneira , que fe o Nizamaluco 
trazia algum ,mdo peníamento , elle fe lhe 
tirou y e por derradeiro fe foi com os feus 
oito mil homens , que aíTi no raílro que de 
íl deixaram , como em não reítituirem to- 
dos os eferavos que para elles fugiram da 
fortaleza , fe houveram tão vilmente , que 
Simão Guedes ficou defavindo com o Ni- 
zam.iluco. 

Mo tudo era paflado , quando Nuno da 
Cunha chegou a Chaul , a quem Simão Gue- 
des o contou por extenfo , poílo que per 
Patamares , que são correios de pé , lho ti- 
nha efe rito , e como o Nizamaluco eílava 
dalii doze léguas dentro pelo ferrão com 
gente d'armas. Quando o Nizamaluco fou- 
be eílar Nuno da Cunha em Chaul , por 
encubrir fua eílada tão perto , e não dar 
má fufpeita de fi , por o que já tinha paf- 

ia- 



344 ÁSIA de JoXo de Barros 

fado , mandou-o vifitar, c dizer-lhe , que 
elle viera contra aquella parte por razão da 
fortaleza de Galeana , e outras terras 5 que 
lhe Soltam Badur tinha tomadas nas dife- 
renças pafladas que com elle tivera , para 
com eíle fingimento moftrar que não eftava 
tão corrente com Soltam Badur como cui- 
davam. E a verdade era , que elle eftava 
alli efperando feu recado , por o que am- 
bos tinham concertado de virem fobre Chaul. 
Nuno da Cunha não lhe querendo dar a 
entender a má íufpeita que delle tinha , lhe 
refpondeo palavras de agradecimento da vi- 
iltação , e outras geraes. 

Partido Nuno da Cunha de Chaul , che- 
gou a Baçaim , onde eftava por Capitão An- 
tónio da Silveira feu cunhado , que poucos 
dias havia alli mandara em lugar de Gar- 
cia de Sá , que aquellc anno havia de ir a 
Portugal , por EIRcy aíli o mandar por 
informação falfa , que delle lhe deram ho- 
mens de animo damnado , fendo elle hum 
Fidalgo , em que concorriam grandes , e 
honrados ferviços , e muita bondade , e li- 
beralidade exercitada no ferviço d^ElRey, 
perque não faltaram outros homens mais 
verdadeiros , que informaram a EIRey do 
contrario , com que elle ficou na índia , e 
depois a governou per fuccefsao de D.João 
de Caftro Vifo-Rey delia. E como Nuno 

da 



Dec. IV. Liv. VIIL Cap. III. 34? 

da Cunha afli por o que Manoel de Sou- 
ía lhe eícrevêra , como por a eílada do Ni- 
za maluco tão perto áèChauí, e per outros 
muitos indicies hia achando finaes da má 
vontade cPElRey de Cambava , quiz levar 
comfigo hum homem de tanta importância 
como era António da Silveira , para o que 
lhe podia acontecer, e principalmente para 
fervir de Capitão da fortaleza de Dio , e 
tirar delia a Manoel de Soiifa para Capitão 
de Ormuz , em lugar de D. Pedro de Caf- 
tello-branco , por algumas culpas que lhe 
davam , e por fentir que entre Manoel de 
Souiá , e Soltam Badur havia alguns quei- 
xumes, que elle queria evitar ; e António 
da Silveira , quando Nuno da Cunha che- 
gou a Baçaim , como já tinha íeu recado, 
cila v a preíles. 

Eftando Nuno da Cunha em Bacaim , 
onde fe deteve cinco dias , provendo a Ar- 
mada de algumas coufas , veio alli ter hum 
Capitão d'ElRey de Cambava com dezefe- 
te fuítas , e outros navios de remo ; e vin- 
do elle a ver Nuno da Cunha , lhe pergun- 
tou mui diíTimuladamente , a que era lua vin- 
da com aqucíia Armada ; ao que elle rc- 
fpondeo , que EIRey lhe mandara dar hu- 
ma vida áquella enfeada , por ter nova que 
andavam alli alguns ladroes deOnor, eem 
Baroche alguns Mogoles. Nuno da Cunha 

dif- 



34^ ÁSIA de João de Barros 

diílimulando o que entendia daquella fua 
vinda , (da qual conheceo mais defeuber- 
ta mente a tenção d'E!Rey de Cambaya , ) 
offercceo-lhc qualquer couía que houveíTe 
mefter para ferviço d'E!Rey acerca da fua 
vinda. E provida a fortaleza , íègundo a 
fufpeita que lheeítas coulas davam, deixou 
por Capitão delia a Ruy Vaz Pereira , e 
partio-fe a féis de Fevereiro , e cm fita com- 
panhia o Capitão d'ElRey de Cambayacom 
luas ftiíías. E fendo tanto avante como a 
Maij , que he féis léguas acima deBaçaim, 
efpedio-fe eíle Capitão de Nuno da Cunha, 
dizendo , que hia a terra fazer aguada , e 
clle foi-fe á enfeada de Cambaiet efperar 
recado de Coge Sòfar , cujo Capitão era , 
fegundo fe depois foube. 

CAPITULO IV. 

Como ~ElRey de Cambaya mandou vi fitar a 

Nuno da Cunha ao caminho : e como por 

vir doente o foi ver ao galeão 

chegando a Dio. 

SAbendo Nuno da Cunha , antes que par- 
tiífe de Baçaim , como EIRey Badur an- 
dava á caça ao redor de Dio , mandou vi- 
fitallo per Diogo de Mefquita ; mas EIRey 
fe anticipou , mandando-o primeiro viíltar 
per feu privado João de Sant-Iago , o qual 

quan- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. IV. 347 

quando chegou a Baçaim , íbube que era 
já Nuno da Cunha partido ; polo que veio 
trás elle até o tomar em Madrefabat. Nu- 
no da Cunha quando íbube da vinda de 
Sant-Iago, fe fez ainda mais doente do que 
vinha , vindo-o elle muito , e deitou-fc em 
cama , parcccndo-lhe que com efta nova de 
lua enfermidade remetteria EIRey algumas 
coufas de feu furor, e elle teria tempo de 
praticar primeiro com Manoel de Soufa , e 
António da Silveira , por quem efperava , 
que tardava já , por vir em hum galeão mui 
mao de vela. E por João de Sant-Iago ler 
Chriítao , e haver tido muita communica- 
çao Nuno da Cunha com elle , lhe fez gran- 
de gazalhado , epor fer tão grande a valia 
que tinha com EIRey. E tratando com el- 
le muitas matérias , aíll de graças , e boa 
converfaçao , como de coufas d'ÈJRcy , pa- 
ra o tirar a terreiro , Sant-Iago lhe diíle : 
-Senhor , EIRey não tem ainda unha ; mas 
como as elle tiver , crede que vos ha de 
arranhar. Deita palavra , e de outras que 
elle foltou , acabou Nuno da Cunha de af- 
fentar que EIRey tinha o animo mais da- 
mnado do que elle cuidava , porto que já 
o conhecia por homem não são , e mui vá- 
rio , e inconftante em feus ditos , e feitos. 

Defpedido Sant-Iago , veio aquclla noi- 
te Manoel de Soufa fallar com Nuno da 

Cu- 



34<3 ÁSIA de João de Barros 

Cunha , fem alguém faber que eftava fora 
da fortaleza ; e entre muitas couias que lhe 
contou doqueElRey dizia, foi, que quan- 
do o prcndeíle o havia de mandar de pre- 
fente ao Turco , e que ifto foubera do Ráo 
Capitão da Cidade de Dio , que era mui- 
to feu amigo.. Ao da prizao diífe Nuno 
da Cunha rindo : Efpernnça tenho eu em 
Dccs , que dar d ejja fentença ao contra- 
rio , equcfeus ynáos penf amentos lhe fiquem 
quebrados em fita cabeça, E poíto que Ma- 
noel de Soufa moveo algumas couias , que 
cjuizera que Nuno da Cunha Jogo determi- 
nara , clie eípaçou a rcfoluçao para depois 
que fbíTe em Dio , e vieíTe António da Sil- 
veira , por quem eíperava , e com i?:o del- 
pedio a Manoel de Soufa. 

Ao outro dia , que eram quatorze de Fe- 
vereiro , quarta feira de Cinza , Nuno da 
Cunha fe fez á vela de vagar, por efperar 
por António da Silveira , que ainda não 
viera , e chegou ante a Cidade de Dio ás 
duas horas depois de meio dia, E ainda 
não era furto , quando veio huma fufta d'El- 
Rey com hum prefente , que elle lhe man- 
dou a Madrcfabat; e quando o mcíTageiro 
achou fer partido Nuno da Cunha, o veio 
alii tomar. O prefente eram vinte c tantos 
viados j e gazéllas com eíle recado. Que 
elle andara monteando odiapaífado, eque 

na 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. IV. 349 

na boa dita da fua vinda fizera aquella con- 
teria , que lha mandava 5 porque os homens 
que andam no mar folgam com carne fref- 
ca. Chegado Nuno da Cunha a bordo do 
galeão ver o preíente , vio a veaçao alaf- 
trada per toda a fulta , esfarrapada das unhas , 
e dentes das onças que a tomaram , porque 
como sao feras na maneira de prear , nao 
deixam a caça inteira , e alli não dava de- 
leitação á viita. Nelíe tempo citava João de 
Paiva Feitor da Armada com Nuno da Cu- 
nha , a que era mui acceito , e fem faber 
o que dizia, lhe diíTe : Prazerá a Deos , 
que ajjl ver d V, S. cedo feus inimigos mor- 
tos , como efld aquella t rifle veaçao. As quaes 
palavras foram huma profecia , que antes 
de duas horas fe cumprio na própria fufta 
em que vinha a caça. E no recado queEl- 
Rcy mandava dizer da monteria que fize- 
ra , dizia verdade ; porque como Nuno da 
Cunha chegou a Chaul , pelas efpias que EI- 
Rey trazia no mar, depois que dalíi partio 
para Baçaim , e dahi para Dio , cada hora lhe 
levavam nova de quantas voltas dava. No 
qual tempo EIRey andava ao longo da coita 
monteando com fuás onças , de que os Prín- 
cipes daquellas partes muito ufam. E a noite 
que Nuno da Cunha chegou a Madrefabat , 
veio EIRey dormir a Novanaguer quinta de 
Mcliquc, que eílá cinco milhas de Dio. 

Aca- 



35'o ÁSIA de João de Barros 

Acabando Nuno da Cunha de defpedir 
o meífageiro d'ElRey , que lhe levou o 
prefente , a que fez mercê, chegou Manoel 
de Soufa em hum catur , e diífe-lhe como 
EiRey viera á quinta de Melique mui al- 
voroçado com fua vinda , e a Manoel de 
Soufa mandou Nuno da Cunha , que tanto 
que EIRey entraífe na Cidade o foffe viíi- 
tar de fua parte, e dizer-ihe, que por vir 
mui doente de enfermidade , que não era 
para eftar entre Príncipes , não defembarca- 
va logo , que ao outro dia trabalharia de 
o fazer , dando-lhe ella lugar para iífo. Não 
feria partido Manoel de Soufa quando veio 
Cogc Sofar , e hum filho de hum dos prin- 
cipaes Capitães de Soltam Badur , que da 
fua parte o vieram viíitar ? aos quaes elle 
fc moítrou doente ; e dando-lhe graças da 
viíitação , mandou per elles dizer a EIRey 
o que tinha dito a Manoel de Soufa. E pa- 
receo que aífi o tinha Deos ordenado , que 
vindo EIRey da quinta de Melique , e que- 
rendo pa{Tar o braço da agua , que fe met- 
tc entre a Cidade , e a terra firme , chegou 
a fufta que trouxe a veação a Nuno da Cu- 
nha , e juntamente Manoel de Soufa , e os 
dous viíitadores ; e dando-lhe nova como 
o Governador vinha mal difpoflo , e a def* 
culpa de logo não fahir em terra , diííe EI- 
Rey a Manoel de Soufa : Com os amigos 

quan- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. IV. 35*1 

quando sao doentes , em quanto os homem 
não ré , mo cumpre com fita amizade , eu 
quero ir ver o Governador : e deixando a 
embarcação que lhe traziam para fua paíTa- 
gem , fe inetteo na fufta da Teaçôo com oi- 
to , ou nove Capitães a , e íos dous pa- 
gens , hum que lhe levava o terçado, e ou- 
tro o arco , e as fettas. Manoel de Soufa 
quando vio aquelle fubito não pode mais 
fazer que metter-fe com EIRey , c dizer a 
hum pagem feu que foíTe correndo naquel- 
le catur, c difleíTe ao Governador que EI- 
Rey o hia ver. EIRey foi tão a preíTa , 
que apenas o recado era chegado quando 
elle chegava, que não houve tempo para o 
Governador communicar coufa alguma , nem 
I haver confelho fobre o que fe havia de fa- 
! zer , nem mais efpaço que para alcatifar o 
lugar da náo per onde EIRey havia de paf- 
jfar, e deitar ibbre a cama de Nuno da Cu- 
nha hum cobertor de cetim avellutado car- 
meíim , e clle tomar huma loba aberta de 
chamelote. Tanto que EIRey começou a 
! chegar- fe , foi o eftrondo das charamellas , 
| trombetas , e atabales tamanho , que fe não 
ouviam. Nuno da Cunha o veio receber ao 
bordo do galeão l ; e como era homem 

gran- 

a Os Capitães, eue hiam com EIRey eram x^.e todos gran" 

ies Senhores. Lopo de Soufa Cout. no trat. do cerco de Dio. 

b EfcreVe Diogo do Couto , que o Governador aguai" 

iou a Soltam Badur na camará do feu galeão , deitado em 



35^ ÁSIA de João de Barros 

grande de corpo , e a enfermidade o tinha 
debilitado, em o EIRey vendo tão desfigu- 
rado, lhe difle: Se eu foubera que tão mal 
tratado o tinha a enfermidade , eu lhe man- 
dara dizer que fe não levantara da ca- 
ma \ mas já que ajji foi , vamo-nos ajfentar 
na vojfa camará. E tomando-o pelo bra- 
ço o levou a cila , fem entrarem mais que 
os feus Capitães , nem com Nuno da Cu- 
nha mais que dous pagens feus , e João de 
Paiva , que fechou a porta lbbre fi. AlTen- 
tado EIRey em huma cadeira , que para 
elle eílava pofta , e Nuno da Cunha em hu- 
mas almofadas de feda , e os Capitães em 
alcatifas , começou EIRey de lhe perguntar 
per lua difpoíição , e viagem que trouxera , 
e outras coufas geraes , em que ambos gaf- 
táram hum bom efpaço. 

Manoel de Soufa por o animo damna- 
do que conhecia d'ElRey , c que também 
fabia de Nuno da Cunha que determinava 
prendelio , começou agaftar-fe fobre a re- 
íòluçao que fe havia de ter cem EIRey na- 
quella conjunção de o terem na náo , e tão 
íb \ e porque lhe paiecco neceíTario fazer- 
Ihe lembrança , mandou Jorge Barbofa pa- 
gem de Nuno da Cunha , que per fora da 

náo 

huma camilha , armado fecretamente , e com huma efpada 
(io longo de fi , c que alli o rectheo acompanhado de An- 
tónio da Silveira , Gonçalo Vaz, Coutinho , Antomo de Sá 
o Rume , João Jufarte Tição , e D. Manoel dt Lima* 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. IV. 35-3 

náo pela exarcea fofle a varanda delia , e 
entraÍTe onde eíbva Nuno da Cunha , e Jhe 
dilTeííe á orelha defua parte, que Jhe man- 
dava quefizeífe. Entretanto efte pagem che- 
gou-fe em giolhos a Nuno da Cunha, que 
citava mais perto da varanda , para lhe dar 
o recado , e em lho querendo dar á ore- 
lha , EíRey , como o leu animo culpado tu- 
do o que via fazer lhe parecia íuipeitoíò , 
e cm feu dam no , começou de fe confran- 
ger , e acudio com a mão a huma adaga, 
e a poz mais adiante do lugar onde a tra- 
zia. João de Saot-Jago , que fervia de lín- 
gua , e fabia a tenção d'ElRey , ciiíTe apref- 
fàdamente a Nuno da Cunha: Senhor , não 
ou cais recado algum , olhai para EIRey , 
que vos falia. Polo que Nuno da Cunha 
deo de mão ao moço , e o não quiz ou- 
vir ; e voltando-fe para EIRey , tornou a en- 
fiar fua prática, por aíTentar-ihe a alteração 
que lhe vio , e mui bem entendeo , como 
quem eítava prompto nos géftos que EIRey 
fazia. O qual não fe detendo muito , levan- 
tou-fe , e chegando á porta , como de ou- 
tras náos eram vindos os Capitães , e Fi- 
dalgos , e elle conhecia alguns , em os ven- 
do lhes failou , e agazalhou a íèu modo. 
Levantado EIRey , Nuno* da Cunha cha- 
mou a João de Paiva ; e como que fe aju- 
dava a levantar ao hombro delle ; indo aíli 
Tom.IF.P.iL Z ar- 



35'4 ÁSIA de João de Barbos 

arrimado , lhe diíTc : Dizei logo a Manoel 
de Soufa , que fe vá apôs EIRey , e que 
trabalhe muito por o levar d fortaleza pa- 
ra lha 7J! o /Irar como a tem apercebida pa- 
ra feu fervi ç o ; e que eu mando todos os 
Capitães trás e lie para o feguirem , e que 
o não deixe fahir até eu ir , nem entrar 
mais gente que a que leva ; e quando não 
quizer , que no mar o entretenha : e dizei 
aos Capitães , que lhes mando que acoi7i- 
panhem a EIRey com feus catures , e ba- 
teis 3 e a Manuel de Soufa até a fortale- 
za. Ditas eiras palavras , deixou Nuno da 
Cunha o hombto de João de Paiva , efoi-;e 
trás EIRey , até que a bordo fe defpedio 
deile, E deixou- fe alli eftar fempre com os 
olhos em fua peflba porcortezia, e também 
por o íegurar , que não tinha que mandar 
em a náo , nem fallava com alguém. 

Em quanto fe EIRey embarcou per ef- 
te bordo , em que Nuno da Cunha citava , 
íê embarcou Manoel de Soufa pelo outro 
bo feu catur , por o recado que lhe João 
de Paiva deo ; e dande-lhe a mao ao def- 
cer , fentio que as tinha frias , e lhe diífe : 
Qw he ifto , Senhor , á coufa tão quente , 
corno levais as ínãos tão frias ? Ao que 
Manoel de Soufl »refpondeo -í. São mãos de 
homem , que ha oito dias que come dieta ; 
mas eu efpero em Deos que hoje vos pare- 
ce- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. IV. 35$ 

cerdo bem quentes. As quaes dahi a pouco 
cipaço de hora fe tornaram de todo frias , 
com a morre que lhe fobreveio. Tão igno- 
rante he a mente humana doscafos que lhe 
eílam por vir. Nuno da Cunha depois que 
EIRey dcfappareceo de íua vifta , e olhou 
para trás , e vio os Fidalgos, e Capitães, 
que eftavam ao redor delle^ difle : Senho- 
res , que fadeis , que não is acompanhar a 
E/Rey como mandei ? embarcai-vos , e ide 
trás Manoel de Soufa ; o que cada hum fez 
a grande preíía. 

Quando os Fidalgos , que citavam nos 
navios, vieram ao galeão do Governador, 
por ie acharem preientes á viílta d'E!Rey , 
tendo ouvido geralmente dizer que elle de- 
íèjava tomar a fortaleza de Dio , e fazer to- 
do o mal que pudefle aos Portuguezes , pa- 
recia-lhes que cumpria prendei Io , ou ma- 
tallo , c que nenhuma occaíião havia me- 
lhor que tello o Governador cm feu poder 
tão fó como veio ao galeão. E aíll foram 
de parecer com Manoel de Soufa , que 
mandaííem perguntar ao Governador por 
aquelle feu pagem , que ordenava que fizef- 
fem. E á fahida d 3 EÍRey também pazeram 
os olhos nelie , dando-lhe a entender que 
citavam preítes para o que lhes mandaífe. 
| Mas a Nuno da Cunha não pareceo tem- 
po , nem conjunção de executar então feu 

Z ii pro- 



3JÓ ÁSIA de João de Barros 

propoíito \ ou porque lhe não parecia lion- 
10 íb feito , nem fidalguia , prender hum tão 
grande Pvey , não declarado por iniaiigo , 
vindo-o viilrar como amigo a íeu galeão , 
e affaftado Jiuma légua de lua Cidade , acom- 
panhado fomente de nove homens , fiando- 
íe delle , e dos Portuguezes ; ou porque lhe 
parecia que couía de tanta importância , e 
perigo não fe havia de executar fem con- 
jeiho dos principaes Capitães, aíli dos que 
cfperava cada hora, que eram António da 
Silveira, c Martim ArTonío de Soufa, co- 
mo dos que alii tinha , a c\uc , por a filhi- 
ta , e não cuidada vinda d'ElRey , não te- 
ve tempo de falíar , porque a ninguém ti- 
nha defeuberta ília tenção íenão a Manoel 
de Souía , com o qual ainda não tinha af- 
lentado o modo perque havia de prender 
aEIRcy; ou perque lhe não parecco fegu- 
ro prcndelío no mar, polo que podia acon- 
tecer antes que chega fle á Cidade , onde 
EIRey tinha cincoenta mil homens d'ar- 
rnas , e Jiuma tão grande Armada, deixan- 
do a execução do que determinava para a 
fortaleza de Dio , onde tinha por certo que 
EIRey o foílc viíitar eftando doente , pois 
a ella hia ver ao Capitão Manoel de Sou- 
ía fendo são ; ou também íè dilatou aquel- 
la obra , (o que he mais de crer , ) porque 
quiz Deos que EIRey não fofle prezo , co- 
mo 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. IV. e V. §ff 

mo Nuno da Cunha determinava , fenão* 
morto , por o que a íerviço feu , e a falva- 
dos Portuguezes cumpria , que não ef- 
tava fegura com fua prizao. 

CAPITULO V. 

Como foram mortos Soltam Badur Rey de 

Cambaya , e os Senhores que com 

elle hiam , e Manoel de Soufa 

Capitão de Dio. 

DO galeão de Nuno da Cunha , donde 
El Rey falua , havia huma légua á Ci- 
dade ; e como a fuíla d'ElKey hia melhor 
remada que o catur de Manoel de Souià , 
já quando elle chegou onde podia fer co- 
nhecido de longe, começou acenar, como 
que levava algum recado a EIRcy. O qual 
entendendo que Manoel de Soufa hia a el- 
le , mandou entreter o remo , até que o pu- 
defle ouvir ; e elle tomando com a mão hu- 
ma ponta de huma alcatifa , como quem a 
queria concertar, diíle em alta voz a João 
de Sant-Iago , que era o interprete : Dizei 
a EIRey , que fe queira paffar a efte meu 
catur , que uai mais limpo de fangue , e 
de caminho lhe irei moftrar como tenho aper- 
cebido a fortaleza para feu fervi ç o , por- 
que affi me manda o Governador que o fa- 
ça. ,Quando Sant-Iago ouvio eílas palavras , 

• não 



3j8 ÁSIA de João de Barbos 

não ficou contente , e rcfpondeo : Nao he 
ijjo coufa para eu dizer a EIRey , molhan- 
do indignação por ouvir aqutllas palavras , 
e entendendo ferem peiores do que eram. Ao 
que EIRcy perguntou , que dizia o Capi- 
tão ? e iabendo que palavras eram, como 
coufa de que não fazia muita conta , como 
João de Sant-Iago , nem tinha dúvida de ir 
á fortaleza , difle : Porque nao irei lá ? Sa- 
beis, Senhor, por que} (diííe Sant-Ingo)/w^'<? 
me parece que vos querem prender. Pren- 
der} (difle EIRcy) dize ao Capitão que en- 
tre cá dentro nefta minha fujla. Em che- 
gando Manoel de Soufa á fuíla d'ElRcy, 
deo de pancada com feu catur nella , e co- 
mo eftava no bordo para faltar, foram-fe- 
Ihe os- pés , e cahio ao mar , trás o qual 
íe lançou hum pagem feu , e tomando a fur- 
dir acima , o pagem , e Diogo de Mei qui- 
ta , que hia no mefmo catur , o mettêram 
dentro da fuíla d'EiRey , como ellc man- 
dava • eafli molhado como eftava foi leva- 
do per feus Capitães ante elle. Naquellc 
inftante acertou de chegar hum a fuíla , cm 
que hia Lopo de Soufa Coutinho , Pedr' Al- 
vares de Almeida Ouvidor geral, e Antó- 
nio Corrêa , que vendo a cahida de Manoel 
de Soufa , por lhe foccorrerem , per cima 
do feu catur , de que fizeram ponte , paira- 
ram adiante , e com aquella prefla entraram 
• na 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. V. 3?9 

na fufta cPEIRey. O qual quando os alli 
vio entrar afli com impeto , ( porque ília 
confeiencia lhe fazia temer tudo , ) diífe aos 
léus Capitães", que citavam mais junto dei- 
le, que levaram Manoel de Soufa , que o 
mataíTem. Dioço de Mel quita entendendo 
cita palavra, por aprender alguma couía da 
lingua no tempo que foi cativo em poder 
do rneímo Soltam Badur , e vendo que Xa- 
bardin Agar *, genro de Coge Sofar, pu- 
nha o ferro em Manoel de Soufa , com 
que o matou J , arretnetfeo a EIRey ; e to- 
niando-o pelos peitos , lhe deo huma feri- 
da , a que cile bradou : Matem-o , matem-o. 
Por eftes brados d'ElRey houve hum bra- 
vo jogo de cutiladas entre os Capitães d'EI- 
Rey , e os nofíòs , dos quaes o primeiro 
morto foi o Ouvidor geral Pedr' Al vares de 
Almeida , defendendo-fe mui esforcadamen- 
te em quanto a vida lhe durou , cujo corpo 
lançaram ao mar com o de Manoel de Sou- 
fa. Os outros três que ficavam , que eram 
Lopo de Soufa Coutinho , Diogo de Mef- 
quita , e António Corrêa , fomente com as 
efpadas andavam entre aquelles Capitães com 
tanto esforço ., quanto era o perigo em que 

et 

a Afetchan lhe chama Diogo do Couto. 

b Vejia maneira foi morto Manoel de So'<fa Fidalgo 
de grande valor , e esforço , como mollrou nefla occafião , 
e r\a pajfaâa quando foi a cajá de Soltam Badur , ejiando 
avljúdo que o chamava para o matar. 



360 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

citavam pofíos. E poílo que o animo lhes 
jião faltava , tendo já mortos fete dos Mou- 
ros , como clles eram muitos , os lançaram 
a braços no mar mal feridos ; mas pelos 
noíTos , que em fuás fuftas , e catures che- 
garam , foram falvos. 

EIRey nefte tempo aííi eftava cortado 
com temor da morte , que cemo atónito não 
fazia mais que olhar a peleja. O pagem 
que lhe trazia o arco , c frechas , que era 
hum moço de dezoito annos Abexij , de 
grande animo , quando o vio aíii palmado , 
tirando com o arco tão a miude, que pa- 
recia que punha as frechas de duas em duas , 
matou logo António Cardofo , e AíFoníb 
Fialho , e ao pagem de Manoel de Soufa , 
e ferio a João Jufarte Tição , e a Martim 
de Caílro , e outros dez , ou doze , e ma- 
tara todos , fe o não acertara de matar com 
huma cfpingardada , do qual aííi haviam 
medo os remeiros dos catures , em que os 
Fidalgos vinham, que não ouíavam chegar 
á fufta d'ElRey. A maior coufa que eíle 
fez , foi mandar aos feus que remaflem pa- 
ra a Cidade. 

No meio deita revolta acertaram de vir 
três navios de remo de gente d'armas da que 
EIRey tinha em Mangalor •, e quando vi- 
ram a requeíta dos noííos fobre lua fuíta , 
que conheceram ; e ouviram a grita da gen- 
te 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. V. 361 

te da Cidade , que citava poda íbbre os mu- 
ros , e lugares altos, a grande preíía rernet- 
têram aos noíTos , e como era gente alar- 
mas , e vinha bem apercebida delias, prin- 
cipalmente de eípingardas , e frechas , tra- 
varam com elles outra nova , e mais peri- 
gofa peleja. Mas Deos ajudou os noflbs de 
maneira , abalroando com elles , que não 
tiveram eípaço de armarem os arcos , e ce- 
varem as eípingardas , e em breve efpaço 
mataram hum bom número de Turcos , e 
os outros fe lançaram no mar para eícapa- 
rem , no qual tempo por os noíTos andarem , 
envoltos com elles , fe alargaram da fufla 
d'EiRey. O qual vendo- fe defabafack) , 
apreflava aos remeiros da fuíla para fe aco- 
lher á Cidade , e fe íalvar nella. Mas atra- 
velTou-fe diante nefte tempo hum impedi- 
mento que o entreteve , que foi hum catar 
que vinha da nofla fortaleza a grande pref- 
fâ , como quem acode a arruido , de que 
era Capitão Baílião Nunes , a que chama- 
vam Pantafaful. O qual com hum berço que 
trazia fez hum tiro á fufta d'ElRey , que 
fe hia acolhendo , e levou-lhe três , ou qua- 
tro remeiros , com que a fufta fe eftorceo ; 
e ficando atraveffada , e impedida, fem ir 
mais por diante, amare que vaiava lançou 
a fuíla ibbre os noíTos , que fe hiam defem- 
baraçando dos Mouros á cuíla do feu fan- 

gue. 



362 ÁSIA de J0Ã0 ide Barros 

guc. ElRcy quando fcvio naquelle eíhdo , 
confiando que a nado íè poderia melhor fal- ' 
var que na fufta , porque acudiam dos nof- 
fos muitos batéis , c catures a cila , lançou- 
fe ao mar , e outros que com elie hiam ; 
mas o pezo da agua que o impedia furdir , 
o detinha , e já de caníado começou de fe 
nomear , dizendo : Badur , Eadur , parecen- 
do-Ihe que quem o ouviffe o falvaria. Trifc 
táo de Paiva , hum cavalleiro de Santarém , 
quando o conheceo , fez chegar a fua fuf- 
ta a eile ; c dando-lhe hum remo para fe 
pegar, e o recolher, veio hum homem da 
mefma fufta, executor da Divina juftiça , e 
deo-lhe com huma chuça pelo roftio , e ío- 
bre efte vieram outros que o acabaram de 
matar , ficando fobre a agua hum bom eí- 
paço , até que foi ao fundo , fem mais ap- 
parecer ellc , nem o corpo de Manoel de 
Soufa, por muita diligencia que Nuno da 
Cunha íobre iílb mandou fazer per toda 
aquella coita , para dar a cada hum fua de- 
vida fcpultura , e também por memoria da- 
quelle feito. 

João de Sant-Iago , que foi author de 
toda aquella tragedia, também nadando foi 
ter ao noíTo baluarte , que eftá na boca da 
barra , onde bradou que o recoihefíem \ mas 
como elie não merecia tornar mais aterra, 
naquelle mar o mataram. Somente dos ho- 
mens 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. V. 363 

mcns de nome que hiam com EIRey efea- 
pou Coge SofAr , o qual andando também 

ando foi rer a huma fufta , em que hiam 
António de Soto-maior , Franciíco de Bar- 
ros de Paiva , e António Mendes de Vai- 
concellos ; e por fer conhecido de António 
de Soto-maior , lhe deo a mão , e recolheo , 
já com huma cutilada que lhe deram na fuf- 
ta , com que fe clle lançou ao mar ; e quan- 
to proveitoía foi fua vida naquelles dias pa- 
ra dar luz a algumas coufas das d'ElRey 
de Cambava , tanto trabalho deo depois aos 
Portuguezes , como fe ao diante verá. 

Finalmente cila revolta cuílou as vidas 
das peflbas notáveis dos noííos 3 que já dif- 
femes , e aíli a de Álvaro Mendes hum ca- 
valleiro mancebo , que por fe moftrar quem 
era entrou em huma fufta de Mouros , on- 
de com outros dous companheiros que o 
feguiam , pelejou tao valcrofamente , que ma- 
tou os mais ádks , e outros fez faltar ao 
mar , e foi morto de huma frechada pelo 
eftomago , e em todos os catures , e fuftas 
houve muitos feridos. Dos Mouros, fegun- 
do fe depois foube , morreram mais de cen- 
to e quarenta , dos quaes alguns corpos vie- 
ram ter á praia da coda com a maré, mas 
não de pelloas notáveis. Dos Capitães da 
fufta d'E]Rey que morreram 3 que todos 
eram grandes Senhores , foram os principaes 

dei- 



364 ASIx\ de J0Ã0 de Barros 

dclles Efcandarchan natural do Rcyno de 
Mandou , Langucrchan filho de Maluchan , 
Xabardin Agar genro de Cogc Sofar , que 
chamavam por íiia valentia Tigre do Mun- 
do , Minacem Camareiro mor d'ElRey , 
Gulpao Rao Gentio irmão de Nina Rao 
Capitão de Dio , c tio d'EÍRey , e outros 
Senhores de grandes èftados , e rendas. 

Eíle foi o fim daquelle Rey tão pode- 
rofo em Eílado , em terras , em gente , e 
em theíburos , com que podia competir com 
Dário , e com os maiores Príncipes que hou- 
ve naquelle Oriente. Mas como a proípe- 
ra fortuna que em feus negócios tivera o 
embebedara , e U\q faltou a prudência para 
fe bem governar nella , veio a nao íbifrer 
a boa , como foffria a má , quando feito 
Calandar andava peregrinando pelo Mundo. 
Era Soltam Badur de ília condição homem 
fraguei ro , e que foffria bem os trabalhos 
da guerra , para que teve excellcntcs Capi- 
tães , perque viera ter ainda maiores Eíía- 
dos dos que teve , fe íêguíra o parecer dos 
bons conlelheiros ; mas os de que fe con- 
tentava eram os que tinham mais vícios que 
virtudes , mais jactância que animo, mais 
aftucia que verdade , e dos em que achava 
mais lifonjas que defenganos , como foram 
Rumechan , e Franguechan , que antes íe 
chamava Joio de Sant-Iago , que o puze- 

ram 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. V. 3Í5 

ram no eftado de íua perdição , e eíle no 
artigo da morre. Foi Soltam Badur de inca 
gftatura ; e por ler de largos , egreflbs mem- 
bros parecia mais pequeno do çuc era , da 
cor era baço por ília mai ler Resbuta da 
nação do Gentio da terra , que geralmen- 
te cao baços. Tinha o roílo largo, es olhos 
grandes , e esbugalhados , e fempre inquie- 
tos , mas cm íua acatadura nao era mal af- 
fombrado. Foi mui ligeiro em faltar , e cor- 
rer, e prezava-le muito de huma levianda- 
de , que nem cm peiToa particular merecia 
louvor, que era correr com grande ligeire- 
za per cima das ameas de altos muros , e 
s , e convidando a iíTò outros , a que , 
porque o nao faziam , chamava covardos. 
Falhava mui bem três , ou quatro linguas. 
De iua condição foi liberaliílimo , e que 
nao fabia dar pouco , e aíli tinha alguns 
Capitães , e homens nobres eílrangeiros em 
leu ferviço , a que deo grandes terras , e 
Eílados ', e a outros de mui baixa condição 
fez muito grandes. Era tão vão , que lhe pe- 
zava de gabarem em fua preíença a Ale- 
xandre Magno ; e na verdade os efpirkos 
tinha mui grandíofos , fe ufára bem delles» 
Por fe moftrar magnânimo , a primeira vez; 
que Nuno da Cunha fe vio com eile , que- 
rendo-o confolar de feu desbarato com os 
Mcgoles, refpondeo-lhe , que a guerra era 

jo- 



366 ÁSIA de João de Barros 

Jogo , que fem cabedal ás vezes hum ho- 
mem per huma boa forte ficava rico de Ef- 
tados , e ás vezes perdia os que tinha , e 
depois os tornava a cobrar com dobrado 
ganho ; e dizia que naquella ília defgraça 
lo per huma coufa era triíte , e o feria to- 
da fua vida , que foi perder hum muílco , 
que era todo feu gofto , que íenao podia 
cobrar como os Eftados , que a fortuna tra- 
zia em almoeda. E depois vindo-lhe nova 
que efte feu muíieo era vivo , alegrou-fe 
com Nuno da Cunha , dizendo , que fol- 
gaífe com feu bem , que era vivo o feu mu- 
ílco. Tudo ifto era pormoftrar que não fa- 
zia conta de perder, ou ganhar Pveinos. Fi- 
nalmente pezando bem fuás obras , nelle ha- 
via mais audácia que fortaleza , mais teme- 
ridade que audácia , e íaffi fe mettia muitas 
vezes nos perigos fem caufa . nem fruto , 
como foi ir ver á fortaleza de Dio a Ma- 
noel de Soufa de noite , e defacompanha- 
do , onde arrifeou fua liberdade , e a Nuno 
da Cunha ao galeão, acompanhado fomente 
de nove homens ? per onde perdeo a vida. 



CA- 



Década IV. Liv. VIII. 367 

CAPITULO VI. 

Do que fe fez na Cidade de Dio com a 

morte dt feu Rey : e do que Nuno da Cu- 

7iha ordenou para confervar a me/ma 

Cidade em paz ^ e quietação dos 

moradores delia. 

AO tempo que a peleja que diffemos foi 
no mar, toda a gente da Cidade ef- 
tava pofía nos muros , e lugares altos , de 
que iè podia ver a noffa Armada , e tam- 
bém o feu Rey ; e antes diííò quando fou- 
beram queElíiey era ido ao galeão do Go- 
vernador , e viram a íua tornada , o fim da 
peleja , e ouviram a morte d'E!Rey , foi 
tamanho o terror na gente , que todo feu 
intento era em fiilvar fuás vidas , fem o ma- 
rido ter conta com a mulher , nem as mais 
com os filhos , todo o parenteíco , e toda 
a razão fcefquecia , fomente nos pés tinham 
toda a lembrança. Tanta era a preíla com 
que fugiam , que por não caber o concur- 
íb da gente pelas portas da Cidade, muita 
fe afogou , principalmente a que era fraca , 
como velhos , meninos , e mulheres , com 
que obrigaram a outros lançar-fe per cor- 
das per cima dos muros. E porque o Ca- 
pitão da Cidade mandou logo tomar todas 
as embarcações para a mai d*ElRey , e pa- 
ra 



368 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

ra íí , c os principaes da Cidade faziam ou- 
tro tanto , huns caminhavam para certos 
paflbs que tem a Ilha , perque fe paíTa á 
terra firme de maré vaíla ; outros fe lança- 
vam a nado, paííando para aVilla dos Ru- 
mes , dos quaes com prefla aiguns fe afo- 
garam. Tanto poder tem o temor, que ti- 
ra a efperança de falvaçao onde a pode ter , 
e vai pelos perigos da morte. Finalmente 
como na imaginação de todos era cuidar 
que tanto que vieíTe a manhã Nuno da Cu- 
nha havia de entrar na Cidade , e não ha- 
via de perdoar a ninguém , e dar faço nas 
fazendas , ninguém levava mais pezo que 
quanto lhe podia caber na mão. Os prezos 
foram foltos , porque para fugir todos eram 
defembaraçados ; mas a gente d'armas como 
era mais odiofa aos Portuguezes , receando 
que por eíle ódio haviam defazer-lhe mais 
cruezas , paíTáram-fe á terra firme , fugindo 
para os lugares mais longe da Cidade. Nu- 
no da Cunha , porque emendeo quanto deí- 
mancho fe havia de fazer na Cidade com 
a morte d 5 ElRey , per meio de Coge So- 
far , que elle recebeo com muitas palavras 
de efperança de lhe fazer bem, mandou lan- 
çar pregão per todas as náos, que eílavam 
no porto , que feriam cinecenta velas , que 
elle fegurava a todos , enão lhes feria feito 
aggravo., antes haveriam bom deípacho , e 

lhes 



Dec IV. Liv. VIII. Cap. VI. 369 

lhe dariam íèus cartazes quando fe foíTeni , 
fendo certo que partindo-íe fem licença, os 
mandaria tomar por cativos , e perderiam 
luas fazendas. 

Quando veio pela manhã, permeio do 
mefmo Coge Sofar mandou lançar outros 
pregoes na Cidade , que cada hum eítivef- 
íe em fua cafa , e fe não foíle , nem temef- 
fe j e fe alguns moradores naturaes da ter- 
ra , ou mercadores , que alli eram vindos 
por razão de fazer feus commercios , aquel- 
la noite eram idos para a terra firme, po- 
diam tornar a fuás caías, e pôr cobro fo- 
bre fua fazenda , porque por ferviço d'El- 
Rey D. João feu Senhor, e em feu nome 
ellc os havia a todos por feguros ; mas a 
gente cParmas , cujo officio era viver da 
guerra , elle os amoeílava que dentro de 
dous dias fefahiílem da Cidade, e que fen- 
do depois achados , a pena feria perderem 
as vidas. Outros pregoes mandou também 
lançar , que nenhum Portuguez , de qual- 
quer qualidade , e condição que foííe , ou 
peífoa , que venceífe foldo d^EÍRey de Por- 
tugal , entraífe na Cidade , nem fizeíTc mal , 
edamno aos moradores delia, nem lhe fof- 
fe tomado o feu , per qualquer via que fof- 
fe , fob pena de morte. Com eíles pregoes 
ficou tudo tão aífocegado, que dahi a três, 
ou quatro dias a mais da gente fe tornou 
Tom. IV. P.iL ' Aa a fuás 



370 ÁSIA de João de Barros 

a fuás cafas. E pofto que alguns acharam 
muitas coufas menos , e afíi do que lhe ca- 
hia pelas ruas com preíía da fugida , foram 
furtos dos próprios feus , fomente hum bom- 
bardeiro dos noíTos , Framengo , por tomar 
hum pedaço d'ouro per força a hum Gu- 
zaratc , o mandou Nuno da Cunha enfor- 
car , e tornar o ouro a feu dono , o que 
fez aífocegar a gente , vendo o caftigo que 
elJe mandava dar áquelles , que oífendiam 
aos naturacs da terra. Tito foi muito lou- 
vado dos Mouros , e Gentios da Cidade , 
e dahi notaram que z morte de Soltam Ba- 
dur mais fora culpa fua , que cubica noíía , 
pois tanta juftiça , e moderação fe teve cm 
Jiuma Cidade orfa de feu Rey , e cheia de 
todo o thefouro que havia em Cambava , 
porque por razão da guerra dos Mogoles , 
e de fe EIRey alli recolher, e os Capitães 
que andavam com elle , tinham recolhido 
no mefmo lugar o melhor de fua fazenda. 
E para Nuno da Cunha moílrar a pouca cu- 
bica que havia nelle para tomar a fazenda 
d ? EiRey , e que fua morte não foi induf- 
triada a eíTe fim , fomente caufada por fua 
pouca prudência , logo ao dia feguinte fa- 
hio em terra cm três catures , fem eírron- 
do de gente d"armas , mandando-a ficar toda 
nas náos , por não afiòmbrar a gente da Ci- 
dade > e fc i-fe metter na fortaleza 3 onde 

ha- 



Dec.IV. Liy.VIII. Cap.VI. eVII. 371 

liavia mil e duzentos homens , que eram da 
guarda delia , á cuja porta , e á da Cidade 
mandou pôr guarda, por ninguém entrar, 
e íahir , e não haver alguma coufa de et- 
candalo. 

CAPITULO VIL 

Do r azo amento , que Nuno da Cunha 
fez aos Capitães , e pejfcas principaes da 
Armada : e do comprimento que teve com 
a Rainha mai d^ElRey Badur : e como man- 
dou por cobro na fazenda d^ElRey : e do 
que fe lhe achou per fua morte em feu the- 
fouro , e armazém. 

A Queila manhã, que o Governador Nu- 
no da Cunha fe metreo na fortaleza , 
depois de ouvir Mifla , mandou chamar to- 
dos os Capitães , e principaes peflbas da Ar- 
mada , a que propoz eftas palavras : 

Ouerer-vos , Senhores , repetir o que he 
feito fpbre efta Cidade de Dio , que ora te- 
mos em nojfo poder pola morte defeu Rey , 
não Jervird de mais , que para vos trazer 
á memoria vojfos trabalhos , pois quantos 
aqui eflais prefentes , per elles , e per o 
fuor de vojfo roflro , até derramar vojfo fan- 
gue , o tendes em lembrança , que a todos 
deve fer doce , e deleitofa , pois tudo o que 
fizefles foi per honra , e gloria de Deos , 
Aa ii ac- 



37* ÁSIA de João de Barros 

ãccrefcent amento do EJlado de noffo Rey , 
e louvor do nome Portvgvez ; porque fe ve- 
mos tanto número de efcritores porem tan- 
to ejludo , e trabalho em efcrevcr a expe- 
dição de Alexandre , que partindo de Gré- 
cia , vizinha a ejla Afia , com tão alto ef 
tilo celebraram a guerra , que teve com 
Dário Rey de Ter fia , e com Toro Rey de 
hum a parte do Delij , e encarecem tanto 
a navegação de feu Capitão Nearcho a por 
ir pelo rio Indo abaixo até as fuás fozes , 
que aqui temos por vizinhas , e paffar pe- 
lo nojjò Eftreito de Ormuz , e entrar pelas 
boccas dos rios Ti gr is , e Eufrates > até 
Babylonia , cujas hiftotias nos deleitam , que 
poderão eferever de 7tós , que vindo de tão 
remotas regiões , per mares nunca viftos y 
nem navegados , nos fizemos Jenhores def 
fes me f ?ws mares , e da navegação , con- 
quifta , e commercio delles , e contendemos 
per mar , e per terra com tantos Reys , e 
Príncipes , de que houvemos tão ajjijptala- 
das vi florias 7 e entre elles com Soltam Ba- 
dur , mais poder o fo cm gente , e em armas , 
e artilheria , e elefantes , e mais rico em 
ouro , prata , <? pedraria ? í 1 /W^j* ^.r de- 
licias Orientaes ? *fo que eram Dário , e 
Poro ? Gr//? ^//t7 7? os efcritores diferem 
verdade 9 contarão , que não fendo nos Gre- 
gos 

ít Ejui navegação ejereve Aniano no livro 8. 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. VII. 3-3 

gos vizinhos da Afia , mas Portugueses* 
mais remotos de todas as gentes ri/idos do 
ultimo do Mundo , donde o Mar , e a Ter- 
ra , e o Ar fazem fua demarcação , não 
peregrinando per terra , como os Gregos > 
gozando dos refrefcos , e delicias delia , re- 
poufando em partes , onde os homens tem 
paciência para foffrer o frio , e a calma , 
e alterações dos tempos , mas que navega- 
mos per mares de climas diferentes , atra- 
vejfando toda a grandeza do mar Oceano , 
comendo o duro , e podre bif couto , e Julga- 
da carne , bebendo agua corrupta , e mal 
cheiro fa , com 'mais frio , e ardor do Sol , 
do que a natureza dos homens pode fof- 
frer \ e para a 11 i vi o dejlas coufas , pade- 
cendo ajfombr amentos de tempeftades , que 
não obedecem aos homens , nem tenmn fuás 
armas , e ardijs , nem algum artificio hu- 
mano , a que fe não pode fugir , nem bufe ar 
acolheita. Chegados a ejie Oriente , acha- 
mos os inimigos mui mais contrários , e 
infeftos do que os acharam os Gregos , que 
adorando Júpiter , Apollo , ou Baccho , acha- 
vam os inimigos que adoravam os mefmos , 
e aff eram todos confrades de huma feita. 
E confeffando nós hum Creador do Ceo , e 
da terra , achamos Gentios remotos do co- 
nhecimento defle mofino Deos , em todas as 
fuás opiniões contrários , e nas vontades 

mui-* 



'374 ÁSIA de João de Bakkos 

muito mais. Achamos Mouros profe [fores 
da torpe , e abominável feita de Mafame- 
de , cujo preceito he perfeguir com armas 
os fervos de Chrijlo , e morrer por os ex- 
tinguir. Achamos Judeos , que blasfemo o [eu 
fanto Nome , per cuja Fé nos oferecemos a pa- 
decer martyrio \ pois fe fomente a ef per an- 
ca , que pomos na mifericordia de Deos , nos 
falva de tantos perigos , e 720 s fez poder 0- 
fos para amancar tão foberbo inimigo , como 
era Soltam Badur Rey de tantos Reynos , 
mais poderofo , mais cavalleiro , e mais ri- 
co que todos os Reys do Oriente \ devemos 
dar muitas graças a Deos vermos fua mor- 
te per permifsao Divina , mais ordenada 
for ella , que procurada per nós , com que 
ficamos vencedores de fua fortuna , que foi 
a maior que fe vio em Principe algum , em 
tao breve tempo ; porque fendo hum filho 
menor defprezado defeu pai , e por ijfo def- 
terrad) , e feito Calandar , lhe matou Deos 
a feu pai , e elle a [eus irmãos maiores , 
e herdeiros da cafa Real , per que em mais 
breve tempo , que elle defejou , veio fer her- 
deiro do Rey no de feu pai , e de [eus gran- 
des thefouros , juntos per tantos Reys paf- 
fados. E não contente com tão opulento Rey- 
710 , como he o de Guzarate , conquijlou , e 
ganhou os grandes Reynos do Mandou , e 
de Chitor. E fe tivera governo em fua pefi 

foa, 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. VII. 375- 

foa , como tinha bons Governadores , e Ca- 
pitães , vencera a Omaum Patxiah Rey do 
Delij , e dos Mogoles , que era hum gran- 
de Emperador. Mas como a juftiça de Deos 
multas vezes per algum tempo difjimula 
com as culpas dos mãos , e os deixa glo- 
riar dos triunfos de fcus defejos , para os 
caftigar no maior prazer delles , e fenti- 
rem mais o cafligo , ajji ejie Rey tão glo- 
riofo de fuás vitorias , no primeiro encon- 
tro com Omaum Patxiah tão quebrantado 
ficou defua foberba , que veio bufe ar nofjb 
amparo , e fazendo-lhe nós tanto beneficio , 
por fua inquieta natureza , e inconjtancia 
ordio huma têa , e armou laços , em que elle 
em fim veio a cahir , per que ficamos fenho- 
res dejla Cidade requeflada de tantos an- 
nos , da qual fe fua morte não fora , não 
fomente fôramos lançados , mas de toda a 
Índia , por eftar concertado com os mais dos 
Potentados delia , onde tínhamos noffas for- 
talezas , que contra nós , por feu refpeito > 
e/lavam conjurados. Polo que a Deos mais 
que d nojfu induflria devemos o inteiro do- 
mínio , que agora temos nefia Cidade tão 
defejada d^ElRey Noffo Senhor. E os que 
ni fio fomos o inftrumento per que Deos nos 
entrega delia , devemos efperar de S. 
A. aquella mercê , que de fua grandeza fe 
efpera > e elle cofiuma fazer. Quiz , Senho- 
res * 



376 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

res , propor-vos eftas coufas para delias ti- 
rarmos hum novo confelho fobre o que de- 
vemos fazer dcfia Cidade 5 que nos NoJJò 
Senhor tem dado , porque nao merece me- 
nos quem bem , e fielmente aconfelha , que 
quem animofamente peleja. 

Acabando Nuno da Cunha de fazer ef- 
ta prática a feus Capitães , entrou cm ou- 
tra acerca do governo da Cidade ? e cou- 
ias que convinha ferem logo providas. E 
fobre diverfos pareceres vieram os mais dos 
Capitães a concordar com o de Nuno da 
Cunha. A caufa em que primeiro entendeo , 
foi entregar a Capitania daqueila fortaleza 
a António da Silveira de Menezes , não 
tanto por fer feu cunhado , como por com- 
mum voto de todos , por as qualidades de 
fua peífoa ? de cuja eleição fe depois não 
acharam enganados , como adiante veremos. 
Apôs o Capitão nomeou logo por Alcaide 
mor dãrfòrtaleza a hum Fidalgo havido por 
mui bom cavalleiro , per nome Paio Ro- 
drigues de Araújo , por Juiz da balança a 
Manoel de Vafconcellos , que era o officio 
mais proveitofo , e honrado da Cidade , a 
Francifco Henriques de Aguiar Thefourei- 
ro , a Jorge Barbofa Efcrivão. E para des- 
pacho das náos que ai li citavam com mer- 
cadorias , fez Gafpar Paes Juiz da Alfande- 
ga da Cidade 3 e na da Villa dos Rumes 

poz 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. VII. 377 

poz Gafpar Preto para recadação dos direi- 
tos dos mantimentos : fez Juiz , e Thefou- 
reiro Diogo Rodrigues de Azevedo 5 e Ef- 
criváo Ruy Lopes ; e das couías que vi- 
nham da terra firme, poz por Juiz, eThc- 
foureiro Francifco Pacheco , e Efcrivão An- 
dré Villela. 

Ordenados os officios , quiz logo fazer 
comprimento com a Rainha mai d'ElRey ? 
que eftava em Novanaguer , e com o Rio 
Capitão de Dio y que eftava com ella , e 
mandou-a vifitar , defcuJpando-fe da morte 
de feu filho, que fora mais culpa delle mef- 
mo , e accidcnte , por caufa da morte de 
Manoel de Soufa, que induftriada per elle 
Governador - y porque fe elle tivera tenção 
de o matar , na camera do feu galeão o ti- 
nha mais á fua vontade , pedindo-lhe que 
fe não movefle donde eílava , em quanto o 
Reino não tomava algum aíTento ; e que 
querendo-fe ella vir para a Cidade á fua ca- 
ía , elle a teria em fua guarda com aquella 
lealdade , e refpeito , como a huma Princcza 
mui conjunta per parentefeo d'ElRey Dom 
João feu Senhor. A Rainha não quiz ou- 
vir o recado , do que- o Ráo a mandou dei- 
culpar, que com o grande nojo que tinha 
o não ouvira. 

Paliado aquelle dia , tendo já Nuno da 
Cunha mandado lançar cadeados > e fellos 

nas 



378 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

nas cafas d'ElRey , e aífi nas cafas da Rai- 
nha , além dos que já tinha , ao outro dia 
feguinte mandou António da Silveira , Fer- 
não de Soufa de Távora , o Secretario Jcáo 
da Coita, e Eíteváo Tofcano Feitor da Ar- 
mada com íeus Efcrivaes fazer inventario 
de toda a fazenda, queeítava nas cafas d'El- 
Rey , e da Rainlia , a qual toda fe entre- 
gou ao Feitor António da Veiga. O que fe 
em cafa d'E!Rey , e da Rainha achou em 
moeda d'ouro , e prata , e algum metal por 
lavrar, dizem que feriam duzentos mil par- 
dáos , a fora algumas jóias , e pannos de 
brocado , e feda. Mas os que fabiam os 
grandes thefouros d'ouro , prata , e pedra- 
ria , baixellas , arreios de cavallos d'ouro , 
e pedraria, e outras riquezas, que ficaram 
de feu pai na ferra de Champanel , a fora 
o que o mefmo Badur acquirio nas con- 
quiftas dos Reynos de Mandou , e Chitor , 
e de outras partes , efpantavam-fe do pou- 
co que íè lhe achou. E como os homens 
naturalmente são pronos ao mal , e como 
dizem dos máos vizinhos , fabiam o que 
entrou em poder d'E!Rey Badur , e não in- 
quiriram o que fahio , attribuíram fer mui- 
ta parte de feu dinheiro , e móveis roubada 
pelos miniítros que lhe fizeram o inventa- 
rio , e tomaram entrega do que fe achou , 
até não perdoarem á peíToa de Nuno da 

Cu- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. VIL 379 

Cunha. Porem os que viram feu teítamen- 
to , e fua fazenda depois de fua morre , e 
o pouco que em léus herdeiros fe enxerga- 
va , e outros muitos íignaes de lua limpe- 
za , tinham aquillo por calumnia ; mas a 
verdade era que nao tinham achado mais , 
porque EIRey veio afforrado a Dio , e mui- 
ta parte do que tinha deixou em Manga- 
lor , e per algumas addiçóes dos livros de 
fua defpeza fe ibube per informação defeus 
Officiaes , que nas guerras que fez no De- 
can , e quando foi ao P.eino de Mandou , 
gaitou cinco contos d'ouro. Os Mogoles 
lhe tomaram no arraial que defamparou , três 
contos e meio d'ouro , a fora muita pedra- 
ria , e toda fua recamara de jóias , e movei 
de grande preço. Seu tio Nina Ráo quan- 
do !he foi fazer gente em Chitor contra os 
Mogoles , lhe gaitou hum conto e meio 
«Touro. Outro Capitão , perque mandou fa- 
zer gente aos Resbutos , lhe defpendeo hum 
conto d'ouro. Para lhe trazer gente de guer- 
ra, mandou perSafchan ao Cairo três con- 
tos d'ouro , e fegundo outros quatro e meio , 
a fora jóias d'ouro , e pedraria , que valiam 
feiscentos mil cruzados em prefente ao Tur- 
co. Fugindo de Champanel , no caminho, 
além de muitas jóias , perdeo hum conto e 
meio. A Mãi quando fe foi de Dio para 
Novanaguer, levou (fegundo fe dizia) dous 

con- 



380 ÁSIA de João de Barros 

contos (Touro , a fora muitas jóias. Deitas 
poucas addições , que montão de* enove con- 
tos d'ouro , fe pode colligir o que gaitaria 
em outras guerras , e em dadivas exceíli- 
vas , e mercês que cada dia fazia , que era 
couía inextimavel. a 

Mas o que per morte d'ElRey Badur 
fe achou em fcus armazéns de pólvora , ma- 
teriacs para fazer outra , muitos artifícios 
de fogo , efpingardas , arcos , e frechas fem 
conto , e todas outras munições , grande nú- 
mero de fellas , e ricas cubertas de cavai- 
los , e armas de todo género, e tantos man- 
timentos de toda forte , foi coufa maravi- 
ihofa, eque em vinte annos parecia fe não 
poderiam gaitar. A Armada que fe achou 
era de cento e feííenra vçlas , em que ha- 
via muitas , e formofas galés , galeões , e 
náos de carga , e f aftas todas mui bem appa- 
reinadas. b A artilhem , afli dos navios , 
como dos armazéns , era de grande núme- 
ro de peças de metal mui grandes , em que 
havia três baíilifcos de admirável grande- 
za , dos quaes hum que fora do Soltam de 

Ba- 

a Pelo que fe rcfer'10 do thejburo de Soltam Badur na 

no {a do cap. £. do livro 6. e do fr ej ente que eíle mandou,. 

ao Turco ver Safchan , cimo fe efçreve na nota do cap. 

11. domefmo livro , fe poderá colligir agrandeja dos the~ 

f euros dejle Rey. 

h 1 Eram dezoito galés , e galeotas , trinta fuflas , e cap- 
tures , três galeões , quatro náos de carga , e quatro ta» 
fo,reãs* Francifço de Andrade cap. 42. da 3. Parte. 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. VII. e VIII. 381 

Babylonra , que Rumechan trouxe quando 
veio a Dio , por ler peça notável , Nuno 
da Cunha mandou a EIRey de Portugal % 
e as peças de ferro eram icm número , e 
delias mui formofas , e grandes. 

CAPITULO VIII. 

Da jujiificaçao , que Nuno da Cunha mof- 

trou aos Mouros , e Gentios Acerca 

da morte de Soltam Badur, 

AO tempo , que fe fez inventario da fa- 
zenda d'E!Rey Badur , entre papeis , 
e cartas que fe acharam em fua caia , e em 
caía de Abdelcader feu Thefoureiro mor, 
fe acharam algumas cartas , em que o Saf- 
chan , que era irmão do Thefoureiro , ef- 
crevia a Soltam Badur o que Já cm Meca, 
onde citava , negociava , fobre os Turcos 
que mandava bufear para a guerra contra 
Portuguezes > e outras que eram refpofta das 
que o mefmo Soltam eferevia aos Reys de 
Adem , e de Xael em damno dos Portu- 
guezes , e o que ordenava fobre iíío. As 
quaes cartas , e huma inquirição que Nuno 
da Cunha mandou tirar per Jacome Pires 
Ouvidor de Baçaim , teftemunhada per Mou- 
ros , e Chriítãos , jurando cada hum fobre 

fua 

a He o que hoje ejlá no Cafiel/o de Lisfoa , a que cha* 
ruam Tiro de Dio 



382 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

fua lei, lhe deram motivo para por abono, 
e honra fua , e lealdade dos Portuguezes , 
mandar chamar Coge Sofar , de que naquel- 
le tempo ufou como de hum inítrumento 
neceíTario para aíTentar as coufas daquella 
Cidade , por a muita authoridade que tinha 
entre Mouros , e Gentios , e per feu meio 
fe ajuntaram os principaes mercadores , Ca- 
cizes da Cidade ; a que o povo dá grande 
credito por lhe adminiítrar os preceitos 3 e 
ritos de fua feita. 

A eftes todos fez Nuno da Cunha hum 
razoamento , dizendo , que elle mandava lo- 
go defpachar toda a mercadoria que eílava 
na Alfandega , aííl dos naturaes , como es- 
trangeiros , para fe irem em boa hora com 
feus retornos , com todo favor , e juíliça , 
fem lhe fer feito aggravo algum ; e que a 
caufa porque mandara lançar pregões , que 
ninguém fe foíTe fem feu mandado , fora 
por não levarem as orelhas , e os olhos 
cheios de efcandalo , do que era paliado na- 
quelle defaftre da morte de Soltam Badur, 
nem irem denunciando mal dos Portuguezes 
injuftamente ; e que como elle era Gover- 
nador daquellas partes da índia ? por o mais 
Chriílão , e virtuofo Príncipe da C h rifla n- 
dade , e que nenhuma couía mais encom- 
mendava em feus regimentos aos Governa- 
dores , que verdade , e fé no promettido , e 

leal- 



Dec. IV. Liv. VIII. Ca p. VIII. 383 

lealdade na communicaçao que tiveílem com 
todo género de homens , do mais pequeno 
mercador até o mais alto Principe da ín- 
dia ; elle fe queria juftiricar de fuás obras, 
e que tinha cumprido com o que Jhe El- 
Rey feu Senhor mandava , principalmente 
nas coufas que tocavam a Soltam Badur. 
Sobre o qual S. A. particularmente efere- 
via , mandando-lhe que trabalhaíTe per to- 
do modo , e arte de aífentar paz com elle , 
e nunca dar caufa de fe quebrar ; e que 
quando elle foíTe tão duro, e mal attenta- 
do que não quizefle ter efia paz , e aecei- 
taííe antes a dos Turcos , e Rumes feus 
inimigos, e competidores nas coufas da ín- 
dia , em tal caio lhe fizeíTe guerra a fogo , 
e a langue, porque ifto era o que convinha 
ao Rey que tiveííe alma, e honra, e nunca 
commetteíTe coufa contra alguém per mo- 
do de traição ; e aos feus amigos , e alia- 
dos ajudaíie quando de fuás Armadas , e 
gente tiveílem neceílidade. As quaes coufas, 
depois que elle entrara na índia no anno 
de 1529 , até o prefente de 1^37 , tinha u fa- 
do com Soltam Badur , primeiramente fa- 
zendo muitos comprimentos para tratar com 
elle paz , fem o poder chegar á conclusão 
delia , do que fe caufou fazer per muitos 
annos guerra pública, e defeuberta , como 
lhe EIRey feu Senhor mandara P fem nun- 
ca 



384 ASIÀ de João de Barros 

ca per medo algum lhe armar traição , ou 
engano, até que luas fortunas o trataram de 
maneira com traição de hum Turco de que 
clle confiava , que foi Rumechan , (como 
a todos era notório , ) que veio EIRey Ba- 
dur a dar Baçaim , e aquella fortaleza de 
Dio , em que criavam , a qual omefmoBa- 
dur tomou por abrigo , e amparo de feus 
trabalhos ; e que todos íabiam , que fe EI- 
Rey Badur não confiara lua peílba daquel- 
Ia fortaleza , e dos que nella eflavam , elle 
fe fahíra fora do feu Reyno para Meca , e 
não fomente com ella ficou feguro de não 
perder a poíTe de feu Reyno , mas ainda 
por efta paz concorreram áquella Cidade de 
Dio tantas nãos , e mercadorias , que fe tor- 
nou a reftaurar todo o Reyno de Guzara- 
te com os rendimentos das entradas , e fa- 
hidas delias, de quão perdido, e deílruido 
cftava das guerras dos Mogoles. E com to- 
dos eítes benefícios , e proveitos tão mani- 
festos , que Soltam Badur via , como homem 
inimigo de feus próprios naturaes , e por 
leu pouco difeurfo , movido de feus Ímpe- 
tos , e não per confelho de homens no- 
bres , e que amafíem feu Eílado , mas per 
gente baixa , e vil, fempre com elle Nuno 
da Cunha andou em manhas , e cautelas , 
defejando quebrar a paz que com elle tinha 
aflentada, e (o que peior era) movendo a 

to- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. VIII. 38? 

todos os Príncipes do Decan , e a EIRcy 
de Calecut , e aos Reys da cofta da Ará- 
bia , que cada hum no que pudeííe fe le- 
vantafle contra os Portuguezcs , porque el- 
le ordenava de os lançar fora da índia ; e 
por nao parecer a elle Coge Sofar , e aos 
mais , que citavam preíentes , que iílo era af- 
íacado , lhe moftrava alli aquellas cartas, 
cujos íignaes conheciam , que fe acharam 
entre os papeis de Soltam Badur, e de Ab- 
delcader , e aífi naquella inquirição , que man- 
dara tirar, do que Soltam Badur tinha or- 
denado; e que fomente a fim de prender, 
ou matar a elle Nuno da Cunha , e a quan- 
tos Capitães pudeífe em hum banquete que 
lhe havia de dar , o mandara chamar aCo- 
chij. E labendo cIIq muita parte deílas cou- 
ías , quando foi ao galeão vifíiallo , onde 
pudera fazer ao Soltam , e aos Capitães 
que comíigo levava , o que dlQ efperava de 
lhe fazer , tudo foffrêra por cumprir com 
os mandados d'ElRey feu Senhor , que era 
nao fazer contra elle coufa alguma per en- 
gano , ou má fé ; mas parece que permittio 
Deos de matar elle a Manoel de Soufa da 
maneira que elle Coge Sofar vira , para que 
fe armaUe o arruido ,. em que foi morto, 
para fe cumprir a juftiça de Deos. E por- 
que elle queria dar boa conta de fi a El- 
Rey D. João feu Senhor, e aíli denunciai 
Tom. IV, P. il Bb a to- 



386 ÁSIA de João de Barros 

a todos os Príncipes Mouros , e Gentios 
daquellas partes Orientaes , com que os Por- 
riiguezes tinham communicaçao , que a mor- 
te de Soltam Badur foi mais accidente de 
Culpa lua , e juizo de Dcos , que induftria 
delíe Nuno da Cunha , pois fem morte de 
Capitães o pudera elle prender no feu ga- 
leão , elle os mandara chamar como a tefte- 
munhas de vifta , para lhes moftrar aquellas 
cartas 3 e a inquirição , que per mãos de 
Mouros , e Chriítãos tão honrados eítava 
aííignada , e jurada , para que do que El- 
Rey ordenava fazer lhe deflem inítrumen- 
ío ; e como depois de elle vir do feu ga- 
leão , aonde o foi ver , tornando para a Ci- 
dade , mandando-1 he elle Nuno da Cunha 
recado per Manoel de Soufa Capitão da 
fortaleza , elle o mandara matar ante íi , 
iem ter caufa para iflb , antes muita para 
lhe fazer muitas mercês , por a verdade , e 
lealdade que lhe Manoel de Soufa tinha 
guardado , por as vezes que Soltam Badur 
o foi ver á fortaleza , e encoítado na fua 
cama, lhe dizer: Capitães, agora tens El- 
Rey em teu poder , jaze o que quizeres. 
Da morte do qual Manoel de Soufa fe le-» 
vantou o arroido entre quatro' Fidalgos, 
que com elle hiam , e os Capitães d elle Ba- 
dur , no qual elle fe metteo , e foi ferido , 
e per ii mefmo fe lançou no mar , onde fe 

afo- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. VIII. 387 

afogou. As quaes certidões que pedia per 
muitas vias allignadas per elles , e pelos Ca- 
cizes , havia de mandar a Portugal , e aos 
Príncipes Mouros , e Gentios , para fer a 
todos notório , que os Portupuezes ainda 
que faziam crua guerra a léus inimigos , nao 
eram commettedorcs de traição , mas mui 
leacs em feus feitos , e cita fama tinham em 
toda a Chriftandade onde eram conheci- 
dos , e que com cilas certidões queria man- 
dar pelas mefmas nãos eftrangeiras , que hi 
aoi , denunciar a todos os que com fuás 

cadorias quizefièm vir áquella Cidade de 
Dio , que o podiam fazer, onde lhe feria 
guardada lua juftiça tão inteiramente como 
em vida de Soltam Badur ; e que os que 
vieííem direitos para aquella Cidade , poílo 
que não trouxeíTem cartazes , nao lhes feria 
feito damno algum per as Armadas dosPor- 
tuguezes ; porém que quando tornaíTem os 
levariam , para laber como vinham alli co- 
mo mercadores , e nao como gente der- 
mas , de que os Turcos ufavam por caute- 
la íua. 

Deita maneira juftirTcou Nuno da Cunha 
entre aquelles Mouros a caufa da morte 
cTElRey Badur fcr por fua culpa , e nao 
ordenada per eile ; e nas linguas Arábica , 
e Perfiana houve muitas cartas, como tefte- 
aiunhaveis , legundo as elíe pedio > allignadas 
Bb ii per 



308 ÁSIA de João de Barros 

per Coge Sofar , e per os principaes mer- 
cadores , e pelos CacizeSj das quaes huma 
mandou aos Príncipes do Decair, a EIRey 
de Na.ii nga , e ao de Ormuz, e outras á 
cofta de Arábia , aré a EIRey de Adem; e 
além defta juftificàçao que Nuno da Cunha 
cjuiz moftrar de fua peíloa , e da verdade 
dos Poruiguezes acerca da morte d'ElRcy 
de Cambaya , também o fez por quebrar 
o animo daquelles , que com Soltam Badur 
eftavam confederados em damno dos Por- 
tuguézes , principalmente por desfazer al- 
gum fundamento , que as galés de Suez te- 
riam no favor de Badur , e fe ver como 
aquelles , que armando laços de morte aos 
Portuguezes , vinham a cahir nelles por 
juizo de Deos , com mais favor feu do que 
eíperavam. 

CAPITULO IX. 

Do mais que ordenou Nuno da Cunha 
para bom governo , e quietação do povo : e 
como mandou a Portugal a nova da morte 
de Soltam Badur: e da vinda de Mir Ma- 
li ame d Zaman ao Reyno de Cambaya. 

EM quanto Nuno da Cunha ordenava 
i as coufas do affenío , e governo da Ci- 
dade , e dava ordem para delpacho dos ne- 
gócios correntes ; também entendia em ou- 
tros 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. IX. 389 

íros a que convinha logo acudir por aquie- 
tar , e alegrar os ânimos dos Guzarates da 
terra , e o principal que fez 5 foi mandar 
que todas as coufas ordenadas per Soltam 
Badur na Cidade coirelTem como d'antes , 
como foi acudir com mantimento ás peííoas 
a que o EIRey dava , e que fe alumiaífem 
as alampadas das Mefquitas , prover de eí- 
mola aos pobres , como EIRey fazia , e 
pela ordem que ejle ordenara , e que tudo 
fe pagafle das rendas da Cidade, por quan- 
to ellé havia por ferviço d'E!Rey de Por- 
tugal , c coníervação daqueila Cidade não 
fe mudar coufa alguma das que fe faziam 
antes da morte de feu Rey , e tinha mui- 
to tento em nao eícandalizar os ânimos dos 
Mouros. E entre outros que ante Nuno da 
Cunha vieram a requerer confirmação das 
tenças , ou mantenças que Soltam Badur lhes 
dava , foi hum homem monítruofo de idade 
de trezentos e trinta annos , fegundo aífir- 
am tocios os principaes d£ Cidade, e o 
mefmo Badur, que como coufa rara o fez 
vir ante fi , e moílrára a Nuno da Cunha 
quando o foi ver a Dio. Lembrava-fe efte 
homem ler toda Cambava de Gentios , e 
nao haver povoação em Dio. A prova que 
havia de clle fer de tanta idade , era dize- 
rem homens muito velhos moradores de 
Dio, que ouviram afeus pais, que ouviram 

a feus 



39^ ÁSIA de João de Barros 

a feus avôs , que já em feu tempo efie ho- 
mem era havido por muito velho ; e nao 
fabendo ler y nem efcrever , contava couias 
mui antigas de Dio , que havia efcritas , 
dizendo haver íido preíente a ellas , e afli 
as relatava como teftemunha de viíta , e não 
como quem as ouvira. Tinha hum filho de 
noventa annos , c outro de doze : dizia que 
quatro , ou cinco vezes lhe cahíram os den- 
tes , e lhe tornaram a nafcer , e outras tan- 
tas vezes lhe cahíram as cans , e lhe nafcé- 
ram cabellos pretos de novo. Em feu afpe- 
cto parecia homem de fetenta annos. Era de 

Eequena eítatura , magro , e de pouca bar- 
a , de nação Bengala , e homem íimples 
naturalmente , a que os longos annos não 
fizeram fabedor. De Gentio que era fe fize- 
ra Mouro havia pouco tempo. O Governa- 
dor lhe mandou ver o pulíb per hum Me- 
dico , que lho achou mui esforçado , e lhe 
confirmou a tença que o Soltam lhe dava. * 
Deita maneira compria o Governador com 
as obrigações d'EÍRey Badur ; c quanto á 
juítiça , e demandas que os Mouros tinham 
entre íi , mandou que elles mefirtos elegef- 
fem juizes , fegundo leu coílume ; mas que 
nao julgaflem á morte peífoa alguma fem 

da- 

a Era vivo ejle homem no anno de 1 $47. , -porque de- 
fois do fegundo cerco de Dio , em tempo do Vijo-Rey 
D. João de Co/iro , o viram naquella Ilha , e tuio fe fouls 
de fia morte, Diogo do Couto cap. 12. liv. 1. Década 5. 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. IX. 391 

darem razão do delicio aclleNuno da Cu- 
nha ; e para ifto melhor ler, mandou que 
os Juizes fcílem confultar íbbre eíles taes 
cafos com a Rainha mai de Soltam Batiur, 
e com o Ráo Capitão de Dio, que eftava 
cm Novanaguer ; mas a Rainha eftava tal , 
que nunca acudio aos comprimentos de Nu- 
no da Cunha , antes entendendo que elle 
eftaria efeandalizado delia, por não refpon- 
der a feus recados , e offerecimentos , temeo 
fua indignação , e que foíle a cila , e lhe 
tomaííe o que levou quando fe fahio de 
Dio. Pelo que fe foi de Novanaguer para 
huma fortaleza chamada Talajá , do que fe 
elía depois arrependeo , como fe ao diante 
ira. 

Nefte mefmo tempo foubeNuno da Cu- 
nha , que as vinte fuftas que achou em Ba- 
çaim , quando elle per hi paíTou , que o Ca- 
pitão delias era criado de Coge Sofar, pe- 
lo que fez com o mefmo Sofar , que lhe 
eferevefle huma carta que cntregaífe as fuf- 
tas a Gonçalo Fernandes ; e Nuno da Cu- 
nha lhe efereveo outras. Mas o Mouro, que 
naquelle tempo eftava em Surat , como fa- 
gaz que era , beijou as cartas , dizendo, que 
obedecia a ellas , e que o notificaria á gen^ 
te. Porém com a nova da morte d'E!Rey 
Badur , que então fouberam , fe alvoroçaram 
de maneira, que lhe não quizeram obede- 



'392 ÁSIA de JoÃo de Barros 

cer \ e quando Gonçalo Fernandes le vio íal- 
vo do alvoroço , c no fcu catur em que hia , 
houve que efcapára de hum grande perigo , 
e tornou dar recado a Nuno da Cunha do que 
achara , o qual mandou lá 'f home Gonçalves 
da Frota com três caturcs , e dinheiro para j 
tomar gente que remaffc as fuftas ; mas os 
Mouros as tinham já mettidas tanto pelo | 
rio adentro , e a terra citava tão levantada | 
com a morte d'ElRey Badur , que não ou- 
fou metter o negocio á força por não levar 
poder para iíTo , e tornou-íe para Dio. Nu- | 
no da Cunha não quiz perfíar , efperando j 
que paflafle aquelle Ímpeto do nojo da mor- 1 
te d 5 ElRey , e de as haver depois á mão a | 
pouco cufto 3 como houve ; e mandou per 
terra a efte Reino hum Judeo per nome 
Ifac do Cairo , com nova aElRey da mor- 1 
te de Soltam Badur , ao qual EIRey deo 
dealviceras huma groíTa tença em fua vida. 
Antes que efta nova da morte d^lReyj 
Badur foíTe ter ao Reino de Mandou a: 
Mirhan Mahamed Xiah íeu fobrinho filho! 
de fua irmã , era partido de lá para Dioi 
Mir Mahamed Zaman cunhado de Omaumi 
Patxiah Rey dos Mogoles , o qual trazia! 
cartas d efte Mahamed Xiah de rogo para 
EIRey Badur feu tio, em que lhe encom-j 
mendava efte Zaman, que o favoreceííe , e 
fuftentaffc com a honra que o fohia tratar^ 

por- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. IX. 393 

porque poflo que clle o tinha fervido bem ; 
e lealmente contra Omaum Patxiah feu cu- 
nhado , depois que Badur foi por elle dd- 
baratado , e que a principal caufa da- guer- 
ra que entre elle, e Omaum fe fez, fora o 
meimo Zaman , tinha-Ihe Badur tanto abor- 
recimento , que o nao podia ver. E fentin- 
do Zaman efte defgoílo em Soltam Badur , 
foi-fè a Mandou , onde andava feu fobri- 
nho Mirhan Mahamcd , parecendo-lhe que 
com os ferviços que lhe lá fizeíTe tornaria 
reftituir-fe em fua graça. E achando elíe no 
caminho nova da morte d'E!Rey , e que 
fua Mai , e o Capitão Nina Ráo eram fa- 
Jiidos de Novanaguer para a fortaleza de 
Talajá , fez para lá feu caminho. E como 
elle levava dous mil homens decavallo, 
que o feguiam naquella guerra , como a hum 
principal Capitão , e cavalleiro de fua pef- 
íòa , o Ráo que eílava com a Rainha o não 
quiz recolher dentro , e veio-lhe fallar fora 
da fortaleza. Elíe diffe ao Ráo a caufa de 
lua vinda ; e que fabendo no caminho a 
nova da defaílrada morte d'EiRey , que pa- 
ra clle fora a mais triíle que na vida fe lhe 
pudera dar , fe vinha aprefentar á Rainha 
para faber delia que mandava que elle fízef- 
1 e , porque fua vontade era offerecer. a vida 
em vingança da morte d'E!Rcy feu Senhor 
por tal traição. O Ráo lhe agradeceo os 

of- 



394 ÁSIA deJoao de Barros 

oferecimentos, elhe diiTe daria diíTo conta 
á Rainha fua Senhora ; e deixando-o no 
campo , lhe tornou dar as graças da parte 
da Rainha do que dizia , mas que cila ao 
pre lente não entendia em mais que em la- 
grimas por feufiiho, que elle fe podia tor- 
nar em boa hora para Mandou donde vie- 

CAPITULO X. 

Como Mir Mahamed Zaman foi nomeado 

por Rey do Guzarate com favor de 

Nuno da Cunha. 

INdignado Zaman por a fequidão com 
que a Rainha o tratou , e lhe reípondeo 
a feus offerecimentos , não lhequcierdo dar 
entrada para lhe fallar , nem a ver , defcon- 
fiando delle , começou a imaginar como del- 
ia tomaria vingança. Polo que fingindo que 
fe tornava para o Mandou , fe foi lançar 
em hum paíTo per onde íoube que a Rai- 
nha havia de paíTar para outro lugar maior, 
não fe tendo por fegura naquelle em que 
eftava , no qual paflb Zaman a esbulhou de 
quanto ella falvou quando fe foi de Dio , 
que dizem feria em dinheiro , e ouro por 
lavrar , a fóra jóias, dous contos d'ouro, 
deixa ndo-lhe fomente o movei , por fe não 
embaraçar com elle. A mais da gente que 
fria em companhia da Rainha eram Perfas , 

Ara- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. X. 395- 

Arábios , Abexijs , e outnis nações , que fe- 
guem mais o foldo que lhes dão , que o Se- 
nhor a quem fervem. Zaman conhecendo a 
natureza daquella gente , denunciou foldo 
dobrado, com que todos o feguíram , que 
faziam número de cinco mil homens , os 
quaes movidos da utilidade prefente , e da 
que efperavam , intitularam logo a Zaman 
por Rey do Guzarate. Com aquelle nome 
ie veio metter em Novanaguer ; e por lhe 
parecer que proceder em tamanha empre- 
za não poderia íer fem favor dos Portugue- 
zes , e que delles fe podia muito aprovei- 
tar , mandou hum mcííageiro a Nuno da 
Cunha , pedindo-lhe pois já com ícu cunha- 
do Omaum Patxiah tivera prática fobre as 
coufas de Soltam Badur , e viera a partido 
com elle de lhe pedir certos portos de mar 
do Reyno de Guzarate , e elle eftava inti- 
tulado por Rey delle , per confentimenro de 
mais de féis mil homens , e EIRey Badur 
nao tinha filhos ; e podo que os tivera , era 
tão grande o ódio que todos tinham aos de 
fua linhagem , por luas cruezas , que antes 
tomariam por íenhor que os governaííe a 
hum eílrangeiro , que a algum de feu fati- 
gue : Que o quizefle acceitar por amigo , e 
favorecer naquelle nome que lhe deram , 
quanto mais , que per juftiça a elle perten- 
cia a fuccefsão daquelle Reyno ; por fer da 

Co- 



396 ÁSIA de JoÃo de Barros 

Coroa do Reyno de Dclij , e elle defeen- 
der dos Rcys delle , pola qual razão ( co- 
mo elle Governador fabia ) Omaum Patxiah 
íeu cunhado pertendeo haver aquelle Rei- 
no. Mas como elle não queria perfeverar 
na pode cm que eílava , íem vontade delle 
Governador , e o queria tornar niílo por fa- 
vorecedor , lhe pedia que na Mefquira da 
Cidade mandaíTe que fèu nome foíle encom- 
niendado com titulo de Rey do Guzarate , 
e elle lhe faria qualquer partido dos que 
queria fazer com Omaum Patxiah. Nuno da 
Cunha tendo recebido eíle meíTageiro hon- 
radamente , lhe refpondeo com palavras de 
feu contentamento. E travada mais prática 
fobre eíle negocio, per recados que hiam , 
e vinham entre Zaman , eNuno da Cunha, 
com confelho que elle teve com feus Ca- 
pitães , em que fe examinaram muitas ra- 
zões , que per huma parte ; e outra fe de- 
ram , alTentou com Zaman cites Capítulos. 
Que elle Mir Mabamed Zaman Rey 
do Guzarate dava a EIRey de Portugal 
todas as terras da cofia do Reyno de Gu- 
zarate , começando da Cidade de Manga- 
lor até d Ilha de Beth , com todos os por- 
tos , e povoações que nellas houve (fe , e en- 
trando pelo Jer tão duas léguas. Epelo mef- 
mo modo lhe dava a Villa de Damam na 
enfeuda de Cambaya até Baçaim , com to- 
das 



ú 






Dec. IV. Liv. VIII. Cap. X. 397 

das as terras , e paraganas , com toda a 
jur dição , e rendimentos , ajji como ejlavam 
encabeçadas > fegundo fe continha ?ws fo- 
racs delias. 

Que fe EIRey de Portugal quizeffe na- 

les lagares mandar bater moeda , pa- 
ra correr entre os Guzarates , foffe o pro- 
veito feu , mas o cunho feria com a chapa , 
e Jignal delle Mir Zaman. 

Que todos os navios de guerra de Sol- 
tam Badur , e ajji os de carga , com fa- 
zenda , ou fem ella , onde quer que fojjem 
achados , ou vindo de jura , os mandaria 
entregar. 

Que era nenhum de feus portos confen- 
tiria fazer navios de guerra , fomente fe 
fariam nãos de carga para mercadoria. 

Que os cavallos que viejfem per mar 
pagariam os direitos que pagavam em Goa , 
e os direitos delle s feriam para EIRey de 
Portugal, 

Que os ef cr avos dos Portuguezes , que 
fugiljem para terra firme aos Mouros , e 
ajji os que já lá eftavam , os mandajfe en- 
tregar. 

Que qualquer Portuguez , que lá andaf- 
fe fem licença do Governador da índia , ou 
do Capitão de Dio , ou Baçaim ? o mandaf 
Je entregar prezo. 

Que os viercadores não fojjem impedi* 

dos 



39<J ÁSIA de João de Barros 

dos de ir , e vir com fuás mercadorias , 
ainda que houvejfe guerra entre os Portu- 
gueses , e Guzarates , antes haveriam to- 
do favor , e ajuda , nem lhes feriam levan- 
tados os direitos que ordinariamente -pa- 
gavam. 

E que Mir Zaman daria a EIRey de 
Portugal a quinta de Melique , que eftá 
em Novanaguer. 

Eftes apontamentos feitos em lingna Por- 
tugueza , e na Perfea , foram aflignados , 
e lèllados com o fello de Zaman , icgundo 
nós vimos donde tirámos eftes Capítulos. E 
para confirmação de tudo , deo logo de boa 
entrada cincoenta mil pardáos d'ouro para 
pagamento dos foldos da gente d'armas, 
que Nuno da Cunha mandou entregar ao 
Secretario João da Cofia , e da fua mão fe 
defpendêram em foldos da mefma gente , e 
compra de pimenta. 

Por efta amizade , e paz que aíTentáram 
Nuno da Cunha, e Zaman, fe atreveo elle 
confiadamente mandar pedir confelho a Nu- 
no da Cunha fobre o que faria para levar 
avante eíla fua pretençao , e ficar obedecido 
pelos Guzarates. Ao que Nuno da Cunha 
refpondeo , que por a morte de Soltam Ba- 
dur , a primeira coufa em que os grandes 
do Reino haviam de entender , era elege- 
rem Rey para terem cabeça a que feguir. 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. X. 399 

E que fegundo lhe tinham dito , todos os 
principaes do Reyno eram já para iílb jun- 
tos , e queriam levantar por Rey hum mo- 
ço de doze annos fobrinho de Badur, per 
nome Mamud , como feu pai Soltam Ma- 
mud , que Badur matou , como elle tinha 
fabido , e ilto por fe dizer que era falecido 
Mirhan fobrinho d'ElRey , que elle deixou 
no Mandou : Que feu parecer era adi como 
eftava, antes que eftes grandes levantaíTem 
Rey , ir elle dar nelles , e os efpalhar de 
maneira , que lhe não déíTe repoufo , nem 
tempo para fe ajuntarem. E per efra ma- 
neira , como a gente fegue a quem tem 
poíle , e elle ao p relente era Senhor das ar- 
ma? , com que fe a guerra faz , que he Q 
dinheiro , facilmente levaria os ânimos dá 
gente trás íl ; e que não perdeíTe a conjun- 
ção do tempo , porque quem lábia lííaí dei-» 
la , tinha a fortuna de ília parte. Mir Za- 
man , pofto que eíte confelho de Nuno da 
Cunha IhQ pareceo bem , alguns lho inter- 
pretaram mal , e deixou-fe eílar em Nova- 
naguer , no qual tempo os Príncipes do Rei- 
no levantaram por Rey o moço Mamud, 
<]ue diíTemos , nomeando por Governador 
do Reino Madre Maluco , Luchan , e Dria- 
chan , que naquelle tempo eram os mais 
principaes homens do Reino de Guzarate. 
Eíles fouberam logo do titulo que Mir Ma- 

ha- 



400 ÁSIA de JoÂo de Barbos 

liara ed Zaman tomara de Rey do Guz a ra- 
te , e que com o favor de Nuno da Cu- 
nha ? na Mefquita de Dio era nomeado por 
efle , mas que elle como homem que não 
íabia fahir de feu abrigo , fe deixava eítar 
em Novanaguer j e pofto que determinaram 
de ir íbbre clIq , não quizeram logo enten- 
der niíTo , temendo que eftando Nuno da 
Cunha em Dio , dalli lhe podia mandar aju- 
da , com que eJIes não pudeííem confeguir 
feu propofíto , e determinaram de efpcrar, 
até ver ie o Governador hia invernar a Goa. 
Nuno da Cunha poílo que por o cafo 
da morte d'EIRey de Cambava quizera in- 
vernar em Dio , com a flor da gente da 
índia , por ter bem providas as coufas do' 
Malavar com Martim Áfronfo de Soufa Ca- 
pitão mor do mar , todavia fua doença aper- 
tou de maneira , que per confelho de Fvíi- 
cos , e requerimento de Capitães , e Fidal- 
gos , lhe foi neceíTario ir-fe para Goa , por 
íer terra mais quente , e appropriada para 
fua enfermidade , que Dio , a qual he mui 
fria , e fujeita a ventos Nortes , pelo que no 
inverno eílava em rifeo de perder a vida ; 
mas primeiro que partiííe , mandou diante 
Martim Affonfo de Soufa com alguns na- 
vios de remo dos que foram de Soltam Ba- 
dur , e lhe deo dinheiro para pagamento da 
gente d'armas , que havia de trazer nelles. 

Tam- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. X. 401 

Também efpedio a Fernão Rodrigues de 
Caítello- branco Veedor da Fazenda , os 
quaes juntos eram vindos a Dio , ( por Nu- 
no da Cunha lhes efcrever quando partio 
de Goa , que fe foflem ambos trás elle , ) 
onde chegaram depois da morte de Soltam 
Badur cinco dias. E aííi mandou Maneei 
de Macedo a fervir de Capitão da fortale- 
za de Baçaim , e a Ruy Vaz Pereira , que 
fe vieíTe a Dio , a que mandou dar duzen- 
tos homens , e que tiveíle na Cidade cui- 
dado dos Mouros. 

Nefte anno de 1^37* partio deite Rei- 
no huma Armada de cinco náos a , que hia 
para trazer a carga de elpeciaria , das quaes 
eram Capitães D. Pedro da Silva filho do 
Conde Almirante para Capitão de Mala- 
ca , Jorge de Lima para Capitão de Chauí y 
Tom. IF. P.il. Ce Lo- 

a Frota da índia do anno de i Ç J7« F)ix> Diogo. do Cou- 
to , que as náos eram cinco , das quaes hia for Capitlio 
mor Jorge de Lima ; e o CapitTw que João de Barros não 
nome a era D. Fernando de Lima. Efias duas náos , e a 
de Lopo Vaz. Vogado chegaram juntas a Goa ■. as outras 
duas de D. Pedro da Silva , e de Martlm de Freitas fo- 
ram tomar Dio , como lhe E/Rey mandara , onde deixa- 
ram a gente , e munições que levavam para provimento 
daqtieV.a fortaleza : de Dio partiram para Goa. D. Fedro 
chegou a ella no fim de Setembro , e Martim de Freitas 
Joi demandar á cofia de D amam ; furgio defronte delia , e 
embarcado no batel , com huma fomma de veludos , e da- 
mafeos , para os ir vender a Surat , defappareceo nefle ca- 
minhtt de que fe não foah nunca couja alguma. Cap. i}% 
livro 2. Década 5. 



402 ÁSIA de JoXo ue Barros 

Lopo Vaz Vogado , c Marfim de Freitas , 
que todos chegaram a falvamento á índia. 
Martim de Freitas com Diogo da Silva fi- 
lho de Franciíco de Faria , e outro Diogo 
da Silva íèu primo , e outros Fidalgos , e 
peílbas nobres , com delejo de fe ir a Ba- 
faitn ver nuns amigos feus , deixando a náo . 
íc metteram em huma fúfta , e tiveram na- 
ouella pequena traveíTa tal tempo , que fo 
ram ter á Villa de Damam j e com necef- 
íidade de fazer aguada , fahindo no rio , fo- 
ram os mais delles mortos , e os outros ca- 
tivos em huma cilada que lhe os Mouro: 
armaram. Do qual dcfaííre fe mandou def 
culpar o Tanadar da Villa a Manoel d< 
Macedo Capitão de Baçaim , que não foíf 
caufa de fe quebrarem as tréguas que o Ca 
pitão de Dio tinha aífentado com os Gover 
nadores do Reino , e que rnandaííe pelo 
cativos. Manoel de Macedo mandou log< 
hum bargantim armado com cincoenta hc 
mens , que tornou fem elles , por os terer 
já mandados a Corte d^iRey. Neílas qud 
iro náos tornaram Lopo Vaz Vogado , Ar 
roiíio de Brito , Manoel de Caílro ; e na d 
Martim de Freitas 5 que foi hum dos moi 
tos , veio D. João Pereira. 



CA- 



Década IV*. Livro VIIL 403 

CAPITULO XI. 

Como ido Nuno da Cunha para Goa , os Ca* 
pitííes dos Guzarates deram batalha a. 
Mir Mahamed Zaman : e do mais que 
fizeram depois de elle fer ido ao 
Cinde : e como Nuno da Cu- 
nha tornou a Dio. 

Vindo o mez de Abril , em que Madre 
Maluco , e Luchan Príncipes dos Gu-« 
za rates íbubcram que Nuno da Cunha fora 
invernar a Goa , ajuntaram mais de feííenta 
mil homens de cavallo , e de pé , e vieram 
bufcar a Mir Mahamed Zaman , e fizeram 
[ feu aflento em Una , que fera huma légua 
de Novanaguer onde elle eílava. Os Capi- 
tães do exercito eram Luchan , e Mujate- 
chan , homens de muita prudência , e autho- 
ridade, os quaes vendo que Mir Zaman ti- 
nha comíígo a flor da gente de guerra , de 
que Soltam Badur fe fervia 5 que eram da- 
qucllas nações que nomeámos , e alli os Mo- 
goles exercitados em pelejar com Guzara- 
tes , de que faziam pouca conta , e que os 
feus féis mil homens valiam mais que 05 
léus feííenta mil que traziam , temeram de 
o commetter 5 e determinaram de corrom- 
per com dadivas os Capitães daquella gen- 
te eftrangeira que Zaman trazia, para que 

Ce ii no 



404 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

no tempo que déífem batalha, elles não pe- 
lejafTem , e fe deixaífem eftar quedos. Nefle 
negocio fe detiveram mais de cincoenta dias 
fem o poderem acabar ; mas como o di- 
nheiro vence toda lealdade de Mouros , lhe 
foi concedido. 

Mir Zaman , que era homem prudente , 
e muito ca vali eiró , e que fabia de ardijs 
de guerra , vendo que os inimigos eftavam 
huma légua , e com íeíTenta mil homens, 
pofto que conhecia a differença dos feus 
poucos em comparação dos muitos , fufpei- 
tou que a detença que faziam era algum 
modo de engano ; e como homem que fe. 
começava já a temer da gente eílrangeira , 
que comíigo trazia , fer corrompida pelos 
inimigos , teve confelho fecreto com os feus , 
e determinou-fe de não efperar mais tem- 
po , e dar batalha ; e para animar os feus 
Mogoles , que eram mil e quinhentos , re- 
partio o dinheiro , e ouro que tinha havi- 
do , que cada hum levaíTe aquella fomma 
derredor de íi que pudeífe , porque não fa- 
tiam a ventura da batalha ; e fazendo-lhcs 
huma prática para os animar , diífe , que 
elle faria duas batalhas delles , e de tocos 
oseftrangeiros huma, nos quaes tinha pou- 
ca confiança, que cada hum trabalhaíTe por 
o feguir, porque o animo determinado era 
o que rompia todos temores, e paliava le- 
ve* 



Dec. IV. Liv. VIIL Cap. XI. 40? 

vemente os perigos , e vinha a fim viélo- 
riofo. Alguns de fcus principaes 3 cujo ani- 
mo nao era tão confiado , vendo o grande 
número dos inimigos , eram de parecer que 
fe foíTem metter em Dio , e fe abrigaflem 
ao favor dos Portuguezcs , até que o tempo 
lhes moftrafie outro caminho para proiegui- 
rem lua empreza. Ao que elle refpondeo, 
que nao queria experimentar novos amigos, 
e que para a opinião que a gente tinha del- 
le , em fazendo ifib , ninguém o feguiria , 
e perderia quanto até então havia ganhado. 
Finalmente cllc fe poz no campo , e foi 
bufear os inimigos para lhes dar batalha , 
para ifio dividio os ieus Mogoles em dous 
efquadrões , elle tomou hum de oitocentos 
homens ; e outro de fetecentos deo a hum 
feu Capitão , e da gente eftrangeira toda fez 
hum batalhão. Eítes como eftavam corrom- 
pidos com dinheiro , quando veio o tempo 
de romper , não quizeram pelejar , e fe dei- 
xaram eílar quedos. Zaman com feus oito- 
centos de cavallo todos carregados d'ouro , 
e no meio delles hum elefante , que não le- 
vava outra coufa , rompeo hum efquadrao 
da mais limpa gente dos contrários , tão 
furiofa mente , que deixou per onde foi fei- 
ta huma eítrada de corpos mortos , como 
que dera nelles algum curifeo. Mas foi lo- 
go tão fechado do grande número da gen- 
te , 



406 ÁSIA de JoXo de Barros 

te , o lugar entre elle, e feu Capitão dos 
fetecentos , que cuidou aquelle Capitão que 
Zaman íeu Senhor era íiunido entre os ini- 
migos ; e como homem defefperado de o 
mais poder ver, tomou por remédio irbuf- 
car o abrigo dos Portuguezes na Vil la dos 
Rumes defronte de Dio , onde eílava João 
de Mendoça por Capitão. Os Guzaratcs fe- 
guíram a eiles de vencida , deixando a Mir 
Zaman , parecendo-lhe fer ardil delle , fu- 
girem huns para huma parte , e elle para 
outra , e temiam que c\\q os hia a metter 
em alguma cilada , de que não íabiam par- 
te , por ferem eíles Mogoles grandes ho- 
mens de ardijs nefte feu modo de fugir. 
Todavia eftes que feguíram os Mogoles , 
cjue fe vinham acolhendo á Villa dos Ru- 
mes , não deixaram de os perfeguir até que 
a artilheria da mefma Villa os entreteve 
que não chegaíTem ao muro, onde ficavam 
abrigados os que até alíi chegaram com vi- 
da , porque no caminho , e no campo fica- 
ram grande parte deiles ; e fenao fora que 
os Guzarates achavam nelles que roubar, 
e faziam nifíb detença , por ventura não che^ 
gáram tantos em falvo. 

João de Mendoça , porque não tinha or- 
dem de António da Silveira Capitão de 
Dio para recolher efta gente na Villa vin- 
do armada ; poíío que de Mir Zaman fo£ 

fe, 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XI. 407 

fe , mnndou-lhe dizer o que paíTava ; ao 
que António da Silveira refpondco , que 
recolheíTe alguns , entregando primeiro as ar- 
mas , e os outros íicailem de fora ampara- 
dos ao muro. Em quanto eítes recados fo- 
ram , e vieram, alguns deites Mogolcs que 
traziam fuás mulheres fegundo feu ufo , e 
outros fem cilas , a que o temor da morte 
muito apertou , vieram a comprar a entrada 
a pezo cTouro , do que tinham havido de 
Mir Zaman , e roubado na guerra ; e hum 
cafado que entre elles vinha , porque o por- 
teiro de hum poíligo , que vendia eílas en- 
tradas , como homem pouco caridofo , lhe 
pedia por deixar entrar aclle 5 e a lua mu- 
lher mais do que elle tinha , vendo-fe na- 
quelie aperto , difle que recolheíTe a mu- 
lher , que elle queria ficar de fora. Quando 
fe ella vio dentro fem feu marido, tornou 
muito de preíTa a elle para fora , e com hum 
amor honefto lhe lançou os braços , dizen- 
do : O lugar de minha falvaçao he ejlar 
comvofco , e não dos muros adentro fem vós > 
e aífi ficou com elle. Vindo ordem de An- 
tónio da Silveira , foram todos recolhidos , 
e os que vinham feridos bem curados , co- 
mo fe foram noífos naturaes , e a todos fez 
João deMendoça muito gazalhado , e lhes 
deo embarcação para Goa, Chaul,.e Or- 
muz, como lha pediram. 

Mir 



408 ASIÀ de João de Barros 

Mir Mahamed Zaman naquellc furioíb 
rompimento da batalha perdeo fomente trin- 
ta dos íeus ; e quando fe achou íb , e en- 
tendeo que os outros o não quizeram fe- 
guir , com os que lhe ficaram poz o roftro 
na terra do Cinde , que he além dos Res- 
butos. E ainda que o caminho era compri- 
do , e havia de paliar por as terras delles , 
que he gente bellicoía , q\\q fe governou 
com tanta prudência , e esforço , e a fortu- 
na o favoreceo de maneira , que com todos 
os feus falvos chegou ao Cinde. Depois de 
lá fer ? efereveo a Nuno da Cunha , mof- 
trando efperança de tornar cedo poderofa- 
mente a cumprir o que lhe tinha prometti- 
do ; mas o amor da mulher, e filhos que 
tinha no Delij , o defviáram deita empre- 
za , principalmente Omaum Patxiah feu cu- 
nhado 5 o qual movido das lagrymas defua 
irmã , de que Zaman tinha dous filhos , lhe 
efereveo que foíTe fazer vida com ella , 
que elle lhe perdoava o paffado. Depois o 
fez Rcy de Bengala , mas no Eftado du- 
rou pouco , como adiante diremos. 

Os Capitães Guzarates que houveram 
aquella victoria de Zaman , per corrupção 
de peitas , e não per armas , aíli como cita- 
vam com feu exercito , fe vieram apofentar 
em Novanagucr , e dalli mandaram recado 
a António da Silveira > perguntando-lhe que 

cau- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XI. 409 

cauia tiveram os Portuguczes para matarem 
feu Rey ? Áo que clle refpondeo , que feus 
peccados o mataram , e por elle o ter me- 
recido por a morte de Manoel de Soufa , 
que elle matou fem caufa , fendo Capitão 
daquella fortaleza. Depois trataram de ou- 
tras coufas , até virem afallar em paz , pois 
havia tantos annos que tinham guerra ; ao 
que dl^ refpondeo , que nao tinha para iíío 
co.mmifsao do Governador; porém , que dan- 
do-lhe elles deMangalor atéDio, edeDa- 
mam até Baçaim , como Mir Zaman , que 
fe intitulava Rey do Guzarate , tinha dado 
ao Governador , com outras coufas que fe 
continham em hum contrato que ambos fi- 
zeram , elle efereveria ao Governador , e 
fem iíío nao entenderia nas pazes. Com ef- 
ta refpoíta nao tornaram mais fallar em ne- 
gocio de paz , e aquelle grande exercito fe 
desfez , ficando alli em Novanaguer Luchan 
com dez , ou doze mil homens , como em 
fronteira , e guarnição. O qual para obrigar 
ao Governador a concerto de pazes , come- 
çou de tolher os mantimentos a Cidade , 
que eram carnes , e frutas > porque o mais 
vinha de Chaul , e Baçaim. E como entrou 
a força do inverno , que impedio nao virem 
daquellas partes, houve entre os Portuguc- 
zes tanta falta , que valia hum a gallinha dez 
tangas , que são feiscentos reaes da moeda 

de 



4io ÁSIA de JoXo de Barros 

de Portugal. Iílo durou até o mez de Ju- 
lho , em que António da Silveira fez tré- 
guas com Luchan , até a vinda de Nuno 
da Cunha , que aviíado das couías de Dio , 
entendendo que o novo Rey Mamud nao 
havia de querer perder hutna Ilha tao rica , 
e tao importante ao feu Eftado como era 
a de Dio ; e tendo novas da Armada que 
aprcítavam os Rumes em Suez para irem á 
índia , pareceo-lhe neceííario acudir em pef- 
foa a prover muitas coufas , de que aquel- 
la fortaleza , e as de Chaul , e Baçaim ti- 
nham neceííidade , porque pordefcuido nao 
aconteceíle alguma defgraça. Polo que deí- 
pachou as náos do Reino para irem tomar 
carga a Cochij , e efpedio Martim Aííbníb 
de Soufa com quatro galés , e trinta e féis 
navios, para guardar acoita doMalavar, e 
tendo huma Armada preiTes de oitenta ve- 
las , nelía fe embarcou para Dio , onde che- 
gou em Fevereiro do anno de 1538. 



CA- 



Década IV. Liv. VIII. 411 

CAPITULO XII. 

Do que fiz Marfim Áffonfo de Soufa Ca-* 

pitão mor do mar , indo em bufca de hu- 

ma Armada d^ElRey de Calecut P 

de que era Capitão mor 

Patê Marcar. 

OS maiores inimigos que na índia tem 
os Portuguezes , e com que mais fe 
illuítra a noíía conquifta naquellas partes , são 
os Mouros , que povoam a coita da índia 
àc^àz Chaul até o Cabo de Comorij , que 
fera de cento e noventa Jeguas , c neíta fral- 
da do mar ha mais Mouros para nos da- 
mnar, e orfender, aííi per terra, como per 
mar , do que ha defde a Cidade de Cepta 
no Eítreito de Gibraltar até a Cidade de 
Damiata íltuada na mais Oriental foz do 
rio Niio , e principalmente em Cananor, 
e Calecut ; porque como a eítes dous por- 
tos 3 antes que nós entraílemos na índia, 
concorriam as náos do Eítreito de Meca a 
bufear efpeciaria , parece que deite com- 
mercio de Mouros eítrangeiros vieram a 
multiplicar tanto , que nefte efpaço de coita 
de cento e noventa léguas haveria mais de 
feíTenta mil homens de guerra, todos gente 
esforçada , a quem a prática da noíía guer- 
ja os tem feito mais oufados ; e mais def» 

tros 



412 ASTA de João de Barbos 

tros nella. Também na coita de Calle , e 
Callecaré , que lie além do Cabo deComo- 
rij , na pefcaria do aljôfar, por caula del- 
ia , concorreo alli outro grande número del- 
les •, e fe os Portuguezes nao entraram na 
índia , já foram fenhores de toda a lua cof- 
ta , e de Ceilão , mas á cuíta do nofío fan- 
gue temos deíiníado muita parte deita má 
femente ; e tem cites Mouros ( principalmen- 
re os de Cananor) huma ventagem aos de 
Barberia , que eítes nao tem de pobres hum 
alquice para fe cubrir , nem oufadia para 
navegar , e vivem das creaçòes , e agricul- 
tura , e os daquella parte de Cananor são 
muitos delles coflaircs tão poderoíbs , que 
fazem Armadas, e tem animo de competir 
com os noíios navios , principalmente quan- 
do no verão navegam aquella coita de for- 
taleza a fortaleza , de maneira , que fempre 
cm Cananor os houve , como no decurfo 
deita hiítoria fe pode ver. E porque neíte 
tempo íiorecia muito hum Mouro por no- 
me Patê Marcar a , que poderoíamente an- 
dava efpancando aquelles mares , e fazen- 
do-nos alguns dam nos , fera neceíTario tra- 
tar hum pouco delle. 

Vivia eíte Mouro em Cochij , e com 
duas náos que tinha tratava groíTamente em 

mui- 

<* [eu próprio nome diz Diogo do Couto , que erA 
Paichi Marca , cap. 4. do liv. 2. da Dec. 5. 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XII. 413 

Xnuitas mercadorias que carregava para Cam- 
bava , com cartazes de falvoconduto dos 
Capitães de Cochij. Eítas náos lhe foram 
tomadas per Portuguezes , femlhes valer os 
cartazes que trazia. E porque deita perda 
não foi reftituido , querendo-fe reftituir del- 
ia , como homem efeandalizado que eftava ? 
fe çafibu a Calecut com fua cafa , e íè fez 
coflairo; para o que EIRey de Calecut ven- 
do que os negócios de Cambava ainda nos 
oceupavam , lhe armou navios , além dos 
que clle tinha ; e com ajuda de outros Mou- 
ros ricos , que defejavam de ofrender aos 
Portuguezes , fez huma Armada de quaren- 
ta e lete navios de v remo, para ir ajuntar a 
Madune Pandar contra íèu irmão EIRey de 
Ceilão. Com eíle Rey tinham os Portugue- 
zes grande amizade, e pagava a EIRey de 
Portugal o tributo , que já eferevemos nas 
coufas do tempo de Lopo Soares , quando 
governava a índia , e fez fortaleza naquel- 
la Ilha. E como Madune Pandar vio que 
além do grande poder que tinha feu irmão , 
noíía amizade lhe dava grande ajuda , por- 
que fempre em Columbo, onde cIIg refidia , 
tinham os Portuguezes fua Feitoria por a 
canella que daquella Ilha vinha, e também 
fabia a guerra que tinhamos com EIRey de 
Calecut , e que Patê Marcar naquelle tem- 
po andava poderofo , mandando-lhe fecre- 

ta* 



414 ÁSIA de J0X0 de Barros 

tamcnte recado que o fofle ajudar contra 
íeu irmão ; e o concerto que fizeram 3 foi , 
que elle não queria mais que ficar com o 
titulo de Rey , e livre de dar canella aos 
Portuguezes ; e que todo o thefouro de feu 
irmão lhe daria , de que havia fama fermui 
grande. Ifto obrigou a El Rey de Calecut a 
mandar lá Patê Marcar com a frota das 
quarenta e fete velas a que diíTemos , em 
que levaria mais de dous mil homens , com 
grande numero de peças d'artilheria , tão 
apercebido em tudo , e com a gente tão 
defira , e esforçada , que lhe nao chegavam 
os Turcos do mar de Levante em concer- 
to ? e animo de pelejar. 

Nefie tempo Martim Affonfo de Scu- 
la Capitão mor do mar andava com qua- 
renta velas guardando a cofia do Malavar. 
E como a ordem de a guardar he fazer hu- 
ma volta ao Norte até Baticalá , e outra ao 
Sul até Coulam , fazendo volta ao Norte , 
quando tornou 5 foube que Patê Marcar era 
íahido de Panane com fua Armada , de que 

era 
- 

a Ejla Armada era de cincoenta vilas , das cuaes cin- 
co eram galeotas latinas de coxia , pie joçavam por proa 
meias efperas i levava mais de quatrocentas pecas tfarti* 
1/ieria, a maior parte delias de brome. Os toldados dejia 
^Armada eram oito mil , mui bem armados com efpin gar- 
rias , arcos , e lanças , e todos os remeiros levavam arcos % 
e frechas debaixo dos bancos para pelejar guando fojje nc» 
{{ejjario. Diogo ào Couto cap. 4. liv. 2. Dec, 5. 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XII. 415- 

! fera Capitão mor , c levava feu irmão Cu-» 
I tiale Marcar " por fegunda pcfíba , c por 
terceira Ali Abrahem hum valente Capitão 
d 5 ElRey cie Calecut natural de Panane. 

Patê Marcar com grande confiança do 
poder que levava , paíTou por Cochij 5 ef- 
> tandò as noíias náos tomando carga , com 
! tenção que le pudeíle commetter alguma , 
i de o fazer ; mas ellas foram logo providas 
de maneira , que não ouíbu de chegar a ti- 
ro de bombarda delias. E feguindo feu ca- 
| minho para Coulam , achou na fua barra 
huma náo nofTa b á carga de pimenta. Patê 
í Marcar a commetteo , e rodeando-a com a 
I fua Armada , a começou a bater. Nicoláo 
Juíarte , que eítava por Capitão delia , a de- 
fendeo mui esforçadamente , defapparelhou 
muitos navios dos inimigos ; e por remate 
da peleja foi elle morto de huma boinbar- 
j dada , c Patê Marcar ie afaílou da náo po- 
| lo damno que recebia , e foi continuando 
j fua viagem ; e indo adiante tomou hum na- 
vio noílb que vinha de Ceilam com a car- 
! ga de canella para as náos que haviam de 

ir 

a CunhflU. Marca lhe chama Diogo do Couto. 

b EjL: náo p chamava S. Pedro y aquelle anuo fe fez 
'em Cochij porá vir ao Re/no , e andou na carreira da 
Judia vime e dons ânuos , e acabou na ribeira de Lisboa fer» 
ie cábrea-, c agora não jaz huma não três viagens \ 
ta! lie a madeira , tal a fábrica , e taes os Ofjicia.es. Dia* 
go do Couto cap. 4. do tív. 2. da j. Década* 



'416 ÁSIA de João de Barros 

ir ao Reino. Deite navio era Capitão , e> 
Feitor António Barreto , que na peleja mor-* 
reo , e todos os noíTos que nelle vinham. 
Além do Cabo de Comorij deo Patê Mar- 
car em hum lugar dos Chriítãos da terra 
chamado Tucucurij , que tomou , e def- 
truio , matando muita gente. Finalmente 
correndo aquella coita de paífagern , foi fa- 
zendo eítas obras , de que Martim AíFonfo 
de Soufa , que lhe hia no alcance, foube, 
ao qual não pode alcançar áquem do Ca- 
bo Comorij. Antes tanto que alli chegou , 
por fer no tempo em que naquella paragem 
curfam os ventos , a que elles chamam Va- 
ra de Choromandel , que são contrários , e 
mui ferçofos a quem quer ir adiante , foi- 
Ihe necefíario deixar as íeis galés , e ir nas 
fuftas , e catures , a que os Capitães das ga- 
lés fe pairaram , por ferem com Martim 
AíFonfo naquelle feito , que hia commetter. 
Mas não houve então efFeito , porque Mar- 
tim AíFonfo como teve o tempo contrario , 
e foube que Patê Marcar não era paífado 
a Ceilam , determinou de ir avante até dar 
com eíle , .e á força de remo quafi debaixo 
da agua correo a coita até chegar ao por- 
to de Càlle já noite , onde dormio. 

Naquelle tempo acertou Patê Marcar 
de eítar mettido em hum rio detrás de Caí- 
-'£, e parece que foi Jogo avifado da che- 
ga- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XII. 417 

gada de Martim Affoníò , porque quando 
veio pela manha , como tinha o vento em 
feu favor , ie fez á vela fomente com os 
traquetes. Martim Affònfo também como 
foube de fuá vinda , com as fuás dezenove 
velas a remo , quanto os homens podiam , 
por o vento lhe fer contrario, o foi rece- 
ber. E fendo huns dos outros obra de meia 
légua , abaixaram os Mouros os traquetes 
que traziam , e fe deixaram eftar , o que pa- 
rece fizeram para ver o que os noffos fa- 
ziam. Mas como Martim Affoníò defejava 
de IhQ chegar, mandou que foíTem avante. 
E vendo Patê Marcar que o hiam deman- 
dar , virou as cofias , e á força de remo, 
como que algumas couías lhe eram impe- 
dimento , começou alijar ao mar para fe 
acolher melhor. Martim AfFonío não dei- 
xando o feu curfo , remou quatro léguas ; 
e fendo iá noite , tanto avante como o lu- 
gar de Tucucurij , o perdeo de vifta , e aili 
parou, onde teve confelho fobre o que fa- 
riam. E vifto como deixavam as galés no 
Cabo de Comorij , e quão mal apercebidos 
hiam do necefTario para pelejar , e faltos de 
mantimentos , e que fobre tudo as galés cor- 
riam rifeo de ferem tomadas , por a pouca 
gente que nellas ficava , fe Patê Marcar com 
o bom tempo que tinha vieíTe dar fobre el- 
las aquella noite, acordaram que fetornaf* 
Tem. IV. P. iL Dd fe 



418 ÁSIA de João de Barros 

fe para as aííegurar, e dahi irem a Cochij 
a aperceber-fe do que haviam mefter , para 
tornar iobre Patc Marcar, e aíli fe fez. 

CAPITULO XIII. 

Como Martlm Affonfo de Soufa com qua- 
trocentos Portugueses pelejou com Patê 
Marcar , e fiando em terra com fete mil 
homens de peleja , e o vence o , e desbara- 
tou , e lhe tomou a Armada , com morte 
de muitos Mouros. 

APercebido Martim Affonfo , tornou 
com vinte e três navios de remo , de 
que eram Capitães elJe , Manoel de Sou ia 
de Sepúlveda , Martim Corrêa da Silva , 
D. Diogo de Almeida , Fernão de Soufa 
de Távora , Vaíco Pires de Sampaio , Jor- 
ge Barrofo de Almeida , Franciíco de Sá , 
Francifco Pereira , Gafpar de Lemos , João 
de Mendoça , Jeronymo de Figueiredo , Si- 
mão Rangel , António de Lima , António 
de Soufa , Miguel de Aiala , João de Sou- 
fa Rates , Diogo de Mello , Francifco de 
Barros , António Mendes de Vafconcellos , 
Simão Gallego , Gomes Carvalho , Ruy de 
Moraes , Ruy Lobo , Francifco Fernandes 
o Moricale , Francifco de Sequeira Mala- 
var , Diogo de Reinofo ; e pofto que de 
Cochij partio com algumas galés, foi por- 
que 



Dec. IV. Liv. VIIL Cap. XIII. 419 

que temia que foííe recado por terra a Pa- 
tê Marear das pequenas embarcações que 
levava , mas chegado a Coulam as deixou. 
Em quanto Martim Affoníb foi a Cochij 
a le aperceber, Patê Marcar parecendo-lhe 
que fe fora por razão do máo tempo , ou 
porque temia pelejar , foi-fe metter em hum 
porto que chamam Beadalá. A terra deite 
lugar quer parecer hum dedo pollegar , por- 
que na banda de fora delle , quaíi na pri- 
meira juntura , onde elle fe adjunta á mão , 
cftá a povoação , e da outra parte de den- 
tro fe faz huma enfeada grande , como a 
pode figurar quem apertar todos os outros 
quatro dedos deite pollegar , os quaes fa- 
zem a coita que vai ter á ponta , e cabo, 
a que chamam Canhameira. No fim deite 
pollegar fobre a unha eítá fundado hum 
fumpiuofo templo de Gentios , per nome 
Ramanancor; ehetao delgada a terra def- 
re mar de fora ao de dentro da enfeada , 
onde eítá Beadalá, que João Fernandes Cor- 
rêa Capitão que foi da pefcaria do aljôfar , 
que fe pefca naquella paragem , eíteve para 
cortar aquella terra. E o proveito deite rom- 
pimento era fer aquella paíTagem dalli até 
Canhameira cheia de muitas ilhetas , reítin- 
gas , e baixos ; e no tempo do vento para 
a navegação he mui perigo fa A E panando 
por eíte rompimento que elle queria fazer, 
Dd ii en- 



42o ÁSIA deJoão de Barros 

entravam os navios na enleada grande , e 
com aterra firme que tinha da parte deci- 
ma , ficavam mais abrigados , e era melhor 
navegação , e também feria proveitoíò para 
os Capitães da peitaria , que ai li and a item. 
Patc Marcar , como homem que dalli 
havia de atraveííar á Ilha de Ceilam , que 
tinha defronte , eílava alimpando luas ruf- 
ias , e as que já tinha efpalmado com as 
popas em terra 5 e as proas ao mar , entre 
as quaes le metíia huma corda de baixos ao 
longo do dedo , que figuramos , de manei- 
ra , que nao as podiam 'entrar de mar em 
fora íenao per huma calheta pegada á po- 
voação , e elle eílava apofentado em terra 
em hum palmar , que corria ao longo do 
dedo contra o pagode de Ramanancor , e 
tinha huma tenda armada , e apparato de 
Principe cm íeu arraial , em que teria fete 
mil homens , porque como elle Ília áquelle 
feito de metter de poife do Reino de Cei- 
lam a Madune Pandar , ajuntou todos os 
Mouros que por aquella coita viviam, que 
he hum grande formigueiro delles , por ra- 
zão da pefearia do aljôfar, como atrás ef- 
cre vemos. Martim Aífcnfo com cita Arma- 
da ligeira , em que nao levava mais que 
quatrocentos homens d\armas , paliou o Ca- 
bo de Comorij , fabendo que os inimigos 
citavam em Beadalá , chegou huma tarde i 

en- 



Dec IV. Liv. VIII. Cap. XIII. 421 

entrada de fua barra , onde íiirgio ; e por 
razão dos baixos que diíTemos , e alli não 
haver Pilotos delles , erraram o eana! , e fi- 
caram muitos navios em fecco , que foi 
grande prazer para os Mouros , porque em 
tornar a íaiiir tiveram os noflbs grande tra- 
balho , por a artilheria que os Mouros ti- 
nham em terra , com que os varejavam de 
maneira , que mataram hum marinheiro ha 
fuíla de Martim Affonfo. 

Sahidos todos dos bnixos , ordenou elle 
com confcJho dos Capitães de ir pelejar com 
os Mouros em terra dentro do palmar on- 
de citavam alojados , e o accommettimento 
havia de fer ante manhã , e o caminhar com 
as fuftas , e catures havia de fer de noite , 
que o nao fentiílem os Mouros. E porque 
os defcuidaílem deílc lugar, deixou Gafpar 
de Lemos , e António de Soufa com íctQ 
catares no lugar de Beadalá , ( por onde el- 
les intentaram a entrada quando encalha- 
ram , ) e que commeíteíTe entrar por alli 
com grande eftrondo ao tempo que elle 
mandaífe fazer hum final per hum tiro de 
berço. Dada efta ordem a Gafpar de Le- 
mos , e a António de Soufa , como haviam 
de accommetter cila entrada , para que , acu- 
dindo os Mouros aquella parte , Martim 
Affonfo com o pezo da gente lhe déífe nas 
cotias pela outra parte da terra j fez elle feu 

ca- 



422 ÀSIÀ de JoÃo de Barros 

caminho com as fuftas até o lugar ordena- 
do , e aconteceo , que por defaílre , ou des- 
cuido de hum bombardeiro , foi tirar com 
hum berço , que ouvio Gafpar de Lemos , 
como quem tinha o tento nefte final , que 
eíperava, o qual foi de fua morte, porque 
fendo mais temporão do que devera fer, 
por ainda não fer chegado Marti m Affonfo 
ao lugar donde o havia de mandar fazer , 
commetteo a entrada Gafpar de Lemos , fo- 
bre o qual acudiram os Mouros , parecen- 
do-lhcs que per alli os queriam entrar ; e 
como eram muitos , e Gafpar de Lemos era 
cavalleiro de fua peííoa , e os que com elie 
hiam eram defejofos de ganhar honra , quan- 
do Martim Affonfo já dco per fua morte, 
era elle morto , e António de Soufa , e feh , 
ou fete Portuguezes ; mas Martim Affonfo 
vingou bem a morte delles , ferindo , e ma- 
tando os Mouros per tão grande efpaço , 
que era já alta manha , e os Mouros como 
eram muitos pelejavam valentemente fem 
mover pé. Franciíco de Sequeira , de nação 
Malavar, Capitão de hum dos catures , co- 
mo era natural da terra , e cavalleiro de 
fua peííoa , e homem prudente , e fabia a 
condição daquclla gente, e o modo de fua 
peleja , quando vio que os Mouros não dei- 
xavam o campo por mais que ataífalha- 
vam nelles, dilfe a Martim Affonfo : Sei 

nhor y 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XIII. 423 

nhor , fe quereis vifioria deftes Mouros , 
mandai-lhes pôr fogo ás embarcações , que 
em quanto as virem . leram efperança de fe 
f alvar nellas. Tomando Martim Affoníò 
eíle confelho , e mandando-o executar, ar- 
deram algumas embarcações , e os Mouros 
começaram de fugir pela terra dentro , e os 
noflos a feguir feu alcance , até que de to- 
do deixaram o campo , com que ficou Mar- 
tim Affoníò fenhor delle, e da tenda de Pa- 
tê Marcar , e de tudo o mais que em feu 
arraial havia. a Morreram dos Mouros, 
que logo ficaram cítirados naquelle fitio, 
mais de feiscentos , a fora os feridos , que 
foram morrer entre os feus. Dos noífos fe- 
riam mortos trinta , entre os que morreram 
com Gafpar de Lemos , e António de Sou* 
íà , fem muitos feridos , por a batalha fer 

em 

a Nejle arraial de Píite Marcar fe acharam ires Por- 
tugue7.es carregados de ferros , e muitos efcravos de ou- 
tros Portuguezes , que foram catives, e hnma mulher foi* 
teira , que cativaram os Mouros em hama champana com 
hum feu amigo-, e parque era de hm parecer , Patê Mar- 
car trabalhou pola tornar Moura com todas as promefas , 
e ameaças que pode , ate lhe pôr a efpada na garganta 
para a degollar , e mandar arrafíar diante delia a feu ami- 
go : mas nada bailou para acabar com ella o que defejava , 
polo que a trazia carregada de ferros , com es quaes an- 
dava elh contente , e exhoríava de contíno aos Chnjiaos ca- 
tivos a morrer confiantemente pola Pé Santa , que profeffa- 
vam ; exemvlo raro da feminil conjlancia , digno de tant» 
maior louvor , qunnto fe efperava menos do mão eflado em 
que e'<a mulher andava. Franciíco tle Andutfe cap. 48. 
(fa 3. Parte, 



4^4 ÁSIA de João de Barros 

em terra , e os Mouros ferem fere mil, e 
os Portuguezes fomente quatrocentos. a Eí- 
ta batalha foi huma das mais bem peleja- 
das que fe deram na índia , a qual fuece- 
deo a i$. de Fevereiro do anno de 1538. 
Como o fogo chegou a queimar vinte e cin- 
co paráos , mandou Martim Affonlb apa- 
gallo , e foram tomados vinte etres. Daar- 
tilhcria fe houveram mais de quatrocentas 
peças , de que as fetenta eram de metal , e 
mil e quinhentas efpingardas ; e porque ef- 
te feito foi mui honrado , armou alli Mar- 
tim AíFonfo muitos cavalleiros. 

* Aconteceo neíta jornada hum cafo di- 
gno de fe notar , e foi , que indo-fe em- 
barcar Martim Affoafo em Cochij para vir 
em bufea de Patê Marcar , atraveíTou-fe 
diante delle com muitas lagrimas huma mu- 
lher , dizendo : Senhor , por amor de Deos 
que me tragais meu filho moço de doze an- 
vos , per nome Marcos , que eftá cativo em 
poder cV a que lie que vós is bufe ar. Ao que 
Martim AíFonfo reípondeo : Eu efpero em 
Deos de o achar vivo , e também de nos 
dar vicioria para vo-lo trazer. E aconteceo 
que citava eíle moço na tenda de Patê Mar- 
car, 

a Patê Marcar , e feu irmão , e AU Abrahem vendo 
tudo perdido , fe metteram em dons navios iigeiros , em que 
fe Raivaram. Diogo do Couto no cap. 4. do ih: 2. da j. 
Década. 

b Diogo do Couto nos cap. 4. e 5. do mefvio livro* 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XIII. 425- 

car , e o trouxe Martim Affbnfo , c o en- 
tregou depois pela mão a fua inãi em Co- 
chij. 

Entre os defpojos deita batalha íè to- 
mou hum fombreiro , que o Çamorij man- 
dava ao Madunc , o qual Martim Ãffonfo 
enviou de preíente a EIRey de Cochij per 
Miguel de Aiala , a quem ordenou que de 
Cochij paíTafle a Dio com cartas para o Go- 
vernador, em que lhe dava relação daquel- 
la vicloria. Miguel de Aiala chegou a Co- 
chij , apreíentou a EIRey o fombreiro , que 
eítimou muito , e muito mais as novas da 
vidtoria , que tanto foi feftejada naquclla Ci- 
dade , quanto lamentada no Malavar. Par- 
tio logo Miguel de Aiala de Cochij para 
Dio , e perto de Challe encontrou hum a 
galeota de Malavares , que o inveílíram , 
Jançando-lhe gente no feu catur , em que 
i?ao levava mais que quinze foldados , os 
quaes de tal maneira pelejaram com os Mou- 
ros , que fendo elles mais de duzentos , de- 
pois de durar a briga todo o dia , houve 
tamanho eítrago de ambas as partes , que 
huns , e outros ficaram eftirados nos navios , 
ou mortos ? ou feridos. Os marinheiros do 
noíTo catur deram á vela , tomaram Cana- 
nor , onde defembarcáram os mortos para 
lhe darem fepultura , e os vivos , que não 
eram mais de cinco , com Miguel de Aia- 
la, 



426 ÁSIA de JoÃo de Barros 

la , para os curarem. O Capitão de Cana- 
nor cfpedio o catur com as cartas de Mar- 
tim AfFonfo para o Governador , que fef» 
tejou muito as novas delia , e pelo meímo 
catur efcreveo a Martim Affbnfo , e aos 
Fidalgos da lua companhia , dando-lhes os 
parabéns da vidloria , e os louvores que el- 
la merecia. 

CAPITULO XIV. 

De outras vi florias , que Martim Affonfo 
de Soufa houvera na cqfta do Ma lavar. 

Vlftoriofo Martim Affbnfo de Soufa , 
pardo daquelle lugar de Bcadalá , e 
veio a Tucucurij , onde eílava o Feitor Por- 
tuguez da Feitoria do aljôfar, e dalli man- 
dou a Cochij a maior parte dos navios que 
tomou com o defpojo que houve da arti- 
lheria , munições, e cativos ; e elle com a 
mais gente íe paliou á Ilha deCcilam, que 
fera de traveíTa vinte e quatro léguas, tudo 
per baixo , onde fe faz a pefearia. Chega- 
do ao porto de Columbo , achou Ellley 
com o noíío Feitor , e Portuguczes • na fua 
fortaleza , a que elles chamam Cota , cer- 
cado de Madune Pandar irmão d'ElRey, 
que eítava efperando a Patê Marcar , e to- 
dos com grande alvoroço , quando viram 
noílas velas , cuidando ferem as fuás -, mas 

ce:- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XIV. 427 

certificados da verdade, deixaram logo o cer- 
co que tinham porto , e fe recolheram para 
huma ferra, onde fe Madune fez forte, temen- 
do que os Portuguezes o foílem bufear. * 
EIRey com muito prazer recebeo os nof- 
fos , quando conheceo que hiam em fua aju- 
da , o que logo fc vio no gazalhado que 
moítrou a todos , e no recebimento que fez 
a Martim Affonfo. Os dias que o alli te- 
ve , o banqueteou per hum novo modo fe- 
gundo fua ufança , que foi fervir-fe a meza 
de mulheres derreadas todas pelos lombos , 
para que andando aíli mais baixas pareçam 
mais humildes , e reverentes em íinal decor- 
tezia ; a tanto chega a ambição de hum ho- 
mem , que fe honra de males alheios. Mar- 
tim AíFonfo oíFereceo fua Armada a EI- 
Rey, e lho deo conta da deítruição de Pa- 
tê Marcar , e que a nenhuma outra coufa 
partio de Cochij , fenao a tirar-lhe aquelle 
trabalho , em que o tinham pofto naquelle 
cerco. EIRey por moítrar o contentamento 
que tinha daquelle fueceflb , que Martim Af- 
fonfo por o ajudar tivera , lhe deo peças , 
e jóias , e a todos os Capitães , e lhe man- 
dou dar vinte mil cruzados * empreitados, 

pa- 

ã Efcreve Diogo do Couto , que f atendo Madune Pan- 
àar do desharato de Patê Marcar , e chegada da nojja Ar- 
mada a Columho , mandara -pedir fax.es a EIRey feti ir* 
mão , que lhas concedeo. 

h Quarenta mil , dia Diogo do Couto. 



4^3 ÁSIA de João de Barros 

para ajuda de pagar o foldo á gente que 
levava , e com muitas palavras de grande 
obrigação. Martim AíFonfo fe dcfpcdio del- 
le , e partio para Cochij , onde chegou , 
com haver dado tão glorioíb fim áquella 
empreza. 

E por ter nova , que muitos paráos de 
Calecut eram idos a carregar de mantimen- 
tos a Mangalor , eBraçalor, determinou de 
nao defcançar até ir acabar de delinear aquel- 
Ia ladroeira de paráos, e totalmente lhes to- 
lher a navegação ; e por náo fer vifto dos 
da terra , que podiam dar avifo aos que 
Iiia bufcar , paíTou per Chalé, e Cananor 
ao mar delles ; e fendo tanto avante como 
entre o monte Delij , e Formofo , appare- 
cèram féis paráos , de que tomou quatro , 
ehum dos dous que efcapáram foi dar com 
Joáo de Soufa , que vinha detrás cm huma 
furta , o qual também foi poíto no eftado 
dos outros. A maior parte dos Mouros mor- 
reram á ponta da efpada , e outros fe lan- 
çaram ao mar , e delles fe entregaram a ca- 
tiveiro. Seguindo mais adiante , ao outro 
dia em amanhecendo ao monte Delij , vie- 
ram dar com elle dezefete paráos , os quaes 
enganados com alguns dos ieus paráos , que 
Martim Aííònfb tomou , parecendo-lhe que 
eram de fua gente , foram-fè metter entre 
elles y mas como fentíram o engano , em pe- 
ga- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XIV. 429 

gáram-fe no mar , por Martim AfTonfo fe 
me trcr entre ellcs , e a terra , por fe não aco- 
lherem a ella ; mas iílo lhes nao vateo, 
antes foi cauía de maior dçftruicao lua . 
poílo que com algum fangue dos nof- 
íbs ; porque vendo elles que o íeu braço 
os havia de falvar, e nao tinham modo pa- 
ra fe acolherem , *e vararem cm terra , pe- 
lejaram tão valentemente , que morreram al- 
guns dos noífos , e foram muitos feridos ; 
mas elles foram quafi todos perdidos , huns 
mortos a ferro , outros affogados no mar, 
onde fe lançaram, e muitos foram cativos. 
E ao outro dia pelo mefmo modo romou 
féis, e huma nao carregada de mantimen- 
tos , cm que matou grande numero daquefe 
les Mouros, per caftigo dos de Cananor, 
que favoreciam eíles , e armavam com el- 
les. E por os mais aílombrar , lendo toma- 
do hum Alouro honrado naquella peleja > 
que era mui aparentado , e davam por dlo 
leis mil pardáos , nao os quiz acecitar Mar- 
tim A fFonfo , e o mandou enforcar, haven- 
do que a f?rviço d 5 E!Rey , e honra de Por- 
tuguezes convinha mais o caftigo de hum 
mao liomem , que todo o dinheiro que po- 
dia dar por íi. 

Em Cananor fe deteve Martim Affon- 
fo de Soufa alguns dias , por nao ter no- 
vas de inais parios inimigos 9 c tanto que 

ai- 



4;o ÁSIA de João de Barros 

alguns dos feus Toldados feridos foram sãos, 
partio dalli para ir invernar a Cochij , e no 
caminho lhe foi dada huma carta do Go- 
vernador Nuno da Cunha , ( que já citava 
em Goa , da volta de Dio , ) perque lhe fa- 
zia faber , que eram chegados Turcos com 
huma groíTa Armada áquella Cidade. Com 
eíta nova deixou Martirtf Affonfo hum ga- 
leão , em que hia , (que clle mandara fazer 
para ir nelle efperar as náos de Meca , ) e 
íe metteo em hum catur do Meirinho da 
fua Armada , e com os navios de remo , com 
toda a diligencia que lhe foi poílivel , a ve- 
la , e remo tomou o caminho para Goa , 
no qual encontrou hum galeão da Armada 
dos Turcos , ( que fe apartou delia com o 
temporal , com que fc apartaram outros na- 
vios , ) fobre o qual arribou Martim ArTòn- 
fo , e de tal maneira fe vio acoíTado o ga- 
leão daquclla cachorrada de catures , que 
ainda que parecia hum leão bravo entre el- 
ies , em artilhe ria , armas , e número de gen- 
te, foi tamanho o temor nos Turcos, que 
deram com o galeão á coita , e fe acolhe- 
ram aterra, e dellc fe carregaram os catu- 
res , e navios de remo de muita fazenda , 
que lhe acharam. Eftas viclorias que neftcs 
annos houve Martim "Âffonfo de Soufa , ain- 
da que então foram grandes , pareceram ao 
diante muito maior, por deftruir com cilas 

as 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XIV. e XV. 43 1 

as Armadas de Calecut , em que fe mata- 
ram tantos dos inimigos , que fe foram cres- 
cendo pelo tempo , ou eítiveram inteiros 
quando os Turcos vieram a Dio , ellas fi- 
zeram tanto damno aos Portuguczcs , que 
a coda doMalavar fe não pudera navegar, 
e as noffas náos correram muito rifco de fe- 
rem tomadas ; e ainda que não fizeram mais 
que ajuntar-fe aquellas Armadas á do Tur- 
co , fora muito grande damno para os nof- 

CAPITULO XV. 

Como D. \ Manoel de Menezes foi prezo em 

Xael , e da caufa porque EIRey o pren- 

deo : e do mais que fuecedeo em 

feu livramento. 

ANtes que Nuno da Cunha partifle de 
Goa para Dio ? veio alli hum Mouro 
chamado AbedeJá meíTageiro d'EIRey de 
Xael , que trazia dous Portuguezes dos que 
eftavam cativos em feu poder com D. Ma- 
noel de Menezes filho baítardo de D. Tel- 
]o , ao qual Abedelá Nuno da Cunha levou 
comíigo até Dio para odefpachar. Eíle mef- 
fageiro veio a pedir pazes da parte de feu 
Rey , e defculpallo do cativeiro , em que 
tinha a D. Manoel , de cuja prizão foi eíle 
o fundamento. 

Como todos os annos os Mouros da 

In- 



43^ ÁSIA de João de Barros 

índia cm noflb ódio levantam hurra nova 
com que nos ameaçam , que he fazer-fe Ar- 
mada de Rumes no mar Roxo; os Gover- 
nadores ordinariamente , além de outras in- 
teligências que tem per pelToas particula- 
res , íempre mandam , ora Armadas groílas 
como as paíladas que efcre vemos , ora dous , 
ou três navios de remo , como» efpias para 
entrarem dentro das portas do Eltreito , e 
tomarem alguém per quem faibam o que lá 
vai ; e a fim de ter noticia deitas coufas , 
mandou Nuno da Cunha a Manoel Rodri- 
gues Coutinho no anno de 1535. com três 
catures, dando-lhe por regimento o que ha- 
via de fazer ; e que da coita de Fartaque 
efpediífe hum dos catures , de que era Ca- 
pitão hum que fe chamava de alcunha o 
Artilheiro , o qual foííe ao Xeque de Ço- 
cotorá , e lhe pediííe o que devia de huma 
náo que fe hi perdera ; e que também lhe 
encommendaííe os Chriítios da Ilha, por- 
que EIRey D. Joíío de Portugal feu Se- 
nho lhe efcre vera febre ifío , e que o me A 
mo efereveífe aEIRcy de Fartaque, que o 
mandafle aífi áquelle feu Xeque , pois mos- 
trava querer amizade com os Portuguezes. 
1 ornando Manoel Rodrigues doEílreito já 
no fim de Maio daquelle anno, por os tem- 
pos ferem mui verdes , e não poder ir in- 
yernar a Ormuz, como lhe ordenara qGo- 

ver- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XV. 433 

vernador , ficou cm Xacl , onde recebeo cTEl- 
Rcy muita honra , porque não fomente á 
iua pefíba , mas ainda a todos, que foram 
com elle , fez gazalhado , e lhe mandou va- 
rar os catures cm terra , e ferem vigiados , 
temendo que de noite os Mouros Baduijs , 
que he gente vil do campo , lhe vieíTem, 
pôr fogo ; e paífados dons mezes e meio 
já meado de Agoílo , Manoel Rodrigues fe 
partio , mandando EIRey com elle hum mef- 
làgeiro , e hum prefente de féis cavallos , 
e outras coufas da terra a Nuno da Cunha, 
pedindo-lhe houveíTe por bem de lhe dar 
paz , porque defejava muito de a ter com 
elle , e com todos os Portuguezes , e que 
para alTentar efta paz mandaíTe lá huma 
peílba honrada com feu poder para a jurar 
com elle. 

Chegado á índia Manoel Rodrigues com 
efte meítageiro em Novembro , foi logo fa- 
bido da vinda delle , e do Embaixador que 
levava , e o que EIRey de Xael pedia, e 
defejava • e porque os homens eftavam de- 
fejofos de navegar contra aquellas partes 
porrazáo de fazerem feus proveitos, fem li- 
cença do Governador , mas efeondidamen- 
te , como cada hum podia , foram-fe alguns 
áquelle porto de Xael mais a damnar a 
íi , e a outros , que a fazer feu proveito ; 
porque nos homens, que per cubica entra a 
' tom AV. P.iL Ee * def- 



434 ÁSIA de João de Barros 

deíbbediencia de ícu Capitão , c que tem 
mais rclpcito a cila , que á verdade, e fé 
que devem , logo ficam poítos cm caminho 
de commetter toda maldade ; e o primeiro 
que a commetteo , e errou contra ElRey 
de Xael , foi o -Capitão artilheiro, por lhe 
pagar o bom gazalhado que delle recebe- 
ra. O qual efpedido de Manoel Rodrigues 
Coutinho , foi-íe lançarem huns ilheos , que 
são de Xael obra de doze léguas, a efperal 
os navios que fahiam do Eftreito , e fazer 
nclles preza , deixando o caminho de Ço- 
cotorá , onde Manoel Rodrigues o manda- 
va , ao que aílima diíTemos. Eftando elle hi 
efperando a preza , veio ter com elle huma 
galveta , em que vinha hum primo d'E!Rey 
de Xael , e hum íeu Feitor , e outro Mou- 
ro honrado , aos quaes o Artilheiro rou- 
bou , e deo tormentos fortes , pendurando-os 
per partes deshoncílas a fim que moítraiTem 
o que traziam ; e depois de roubados , e 
atormentados , os veio lançar em terra jun- 
to de Xael , os quacs fe foram aprefentar 
& ElRey com os finaes de feus tormentos , 
do que elle ficou mui efeandalizado , mais 
por as injurias que fizeram aos feus , que 
por a quantia da fazenda perdida, efe quei- 
xou muito de Manoel .Rodrigues cumprir 
com elle tão mal fua palavra ; porque fa- 
bendo elle como dalli havia de defpedir 

aquel- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XV. 43? 

nquelle catur piara ir a Cocotorá , temendo 
que cite catur quizeiíe fazer algumas prezas , 
pedindo-lhe que não foiíe na iua coita , e 
também que não foiíe naquelles ilheos , 
porque cfperava aquella galveta , que tinha 
mandado ao Eílreito , por ler lugar que to- 
dos os que vem daquellas partes o vem de- 
mandar, por eftarem íeguros de boa nave- 
gação. 

A eííc queixume fuccedeo logo occa- 
íiao de outro , caufado per hum navio de 
Gonçalo Vaz , que partio de Baticalá fur- 
tado do Governador, e (fegundo diziam) 
com alguma pimenta , o qual não fe con- 
tentando de ir com fuás mercadorias junto 
de Xael , topou huma náo carregada de ou- 
tras , dasquaes a maior parte eram de Mou- 
ros de Fartaque , e de Xael 5 e tomada , veio 
ai li a vender tudo , o que EIRey foííreo 
com paciência per ter Embaixador feu com 
Nuno da Cunha, e também porque já aef- 
te tempo eram tantos os Portuguezes em 
feu porto, e importavam-lhe tanto os direi- 
tos que pagavam de fuás mercadorias , que 
diífimulava a injúria , e damno , que rece- 
biam feus vaflallos , pofto que fe queixavam 
a elle. Sobre tudo ifto , hum Álvaro Ma- 
deira , que andava levantado no rio Sinde 
com alguns companheiros, vindo alli ter, 
foi apoíentado em cala de hum Mouro hon- 

Ee ii ra- 



43^ ÁSIA de João de Barros 

rado , e enfado ; c parece que não fe con- 
tentando de entender com huma manceba 
cio Mouro , e depois com fua mulher , ain- 
da íbbrc iíTo o eípancou , por fe ir quei- 
xar a EÍRcy ; e vendo o Mouro como Ei- 
Rey ifto diíhmulava , deixou a cafa de to- 
do a Álvaro Madeira. Accrefcentou-fe mais 
a eítas oífenfas , que indo hum dia EÍRcy 
folgar em cafa de hum fuao Godinho Por- 
tuguez , por fer homem dado a prazer, e 
a banquetes , entre algumas palavras , que 
fobre cèa teve com EÍRcy , lhe chamou 
bêbado. E pofto que EiRey algum tanto 
eftivefle alegre com o vinho , não efíava 
tao fora de juízo , que nao íbubeíTe conhe- 
cei 4 , e diílimular aquella offenfa ; e deípe- 
dido delíe fe foi para fua cafa com a pa- 
lavra injuriofa no peito. Succedeo além de 
tudo ifto , que huns quatorze Portuguezes , 
que andavam levantados na coíla do Cabo 
de Guardafú , tomaram huma não de gen- 
te conhecida domefmoRey, e vieram ven- 
der a náo com toda a mercadoria ao por- 
to de Xael ; c andando em pregão , lançou 
EiRey nella , e fobre eíle lançou hum A- 
raujo Portuguez , que aíli eftava havia mui- 
tos dias. Eíle tinha tanto credito entre os 
Portuguezes , que per fua mão faziam mui- 
ta fazenda , e era entre elles , e os Mou- 
ros chamado Feitor. EiRey parcccndc-lhe 

aquil- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XV. 437 

aquillo defacato íèu , difle ao Araújo , que 

cllc era fenhor daquclla terra, e quando elle 
entendia em alguma coufa , que ninguém 
oulaVa de olhar para cila , e que fua ten- 
ção em lançar em aquella náo não era pa- 
ra fazer fazenda , mas ganhar amigos , por- 
que a queria comprar para a reftituir a feus 
domnos por aqueJIe preço , por ferem ho- 
mens de que tinha conhecimento ; e que 
pois elle Araújo pretendia ganhar , lhe da- 
ria quinhentos cruzados , que lhe logo man- 
dou dar em ouro de moeda Veneciana , pa- 
ra que defiftifle da náo. Outras muitas cou- 
fas efcandalofas fizeram alguns Portuguezes , 
que alli andavam, as quaes EIRey, como 
homem mais prudente que accelerado , guar- 
dava em feu peito até vir refpofta do que 
per feu meiTageiro mandara dizer a Nuno 
da Cunha. 

Não tardou a refpoíta muito tempo , por- 
que logo com o mefmo meiTageiro mandou 
o Governador em hum galeão D. Manoel 
de Menezes com fetenta homens , ao qual 
deo commifsao para aífentar pazes com EI- 
Rey D. Manoel , que eílava innocente do 
que os Portuguezes tinham feito em oífenfa 
d'EiRey , folgou muito de achar naquella 
terra eílranha feílenta feus naturaes , que 
nella andavam com muita liberdade , pare- 
cendo-lhe que com elles ficava mais íegu- 

ro. 



'43^ ÁSIA de João de Barros 

ro. Com a chegada de D. Manoel fe mof- 
trou EIRey mui contente, e o mandou vi- 
fitar ao galeão com muitos carneiros , e fru- 
tas da terra. Ao fegundo dia , para afien- 
tarem as capitulações , e concerto das pa- 
zes , fahio D. Manoel em terra , c foi apo- 
fentado em humas cafas das melhores da 
Cidade , e dahi a três dias fez com EIRey 
feu aíTento fegundo os apontamentos que 
trazia. Feito rito , hum Domingo pela ma- 
nhã , querendo-íe D. Manoel recolher ao 
feu galeão , mandou-lhe EIRey dizer , que 
elle tinha informação que alguns Mouros 
Baduijs do campo eftavam para entrar nos 
arrabaldes da Cidade , e roubar huma cáfi- 
la que alli era vinda; que lhe pedia muito 
que dos Portuguezes que tinha comíigo ilie 
mandaflè lá vinte efpingardeiros para defen- 
derem aquella cáfila. D. Manoel, como ef- 
tava para fe embarcar , e também porque 
lhe diííeram os feus , que ao redor de fuás 
cafas fe ajuntavam mais Mouros que os ou- 
tros dias , efcuíbu-fe dos efpingardeiros , e 
mui á preíía mandou que lhe trouxeíTem o 
batel do galeão , e que não vieíTem nelle 
marinheiros Arábios , fcnao todos Portugue- 
zes. Mas como a malicia eílava já determi- 
nada , a primeira couía que os Mouros fi- 
zeram , foi acudir á praia a tomar o batel , 
e hum bargantim que hi eftava dos alevan- 

ta- 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XV. 439 

tados , e depois deram na Cidade pelas ca- 
ías , e pelas ruas, onde achavam Portugue- 
zes matando nelles d lua vontade, no qual 
infulto morreram trinta e cinco. D. Manoel 
ouvindo a revolta, querendo fahir , era já 
cercado , e começaram de o combater , e 
pelejaram defde pela manha até huma hora 
de Sol , em que mataram cinco Portugucv 
zes ; e porque os Mouros os achavam du- 
ros de entrar , trouxeram certas peças de ar- 
tilheria para atirar á caía , na qual havia 
pouca defensão , porque as caías eram de 
adobes. Em toda cila revolta nunca EIRey 
appareceo , e o afie/lar das bombardas mais 
parece que foi para terror dos noííos , para 
que cedeflem , que para outro fim , porque 
a vontade d'EIRey não era fenáo havellos 
vivos á mão , porque logo a efte tempo 
mandou dizer ao Capitão que lhe foíTe fal- 
lar , porque queria praticar com elle algu- 
mas coufas íobre a paz que 'tinha aflenta- 
da ; e que para íeguramente o poder fazer , 
lhe mandaria duas, ou três peííoas das prin- 
cipaes , que eítiveífem em arrefens com os 
feus , até elle vir á Meíquita onde o eípe- 
rava. Havendo precedido íobre iíto muitos 
recados de parte a parte , trouxeram os Mou- 
ros , e entregues aos Portuguczes : Foi Dom 
Manoel á Meíquita onde EIRey eílava , o 
qual fe começou de defeulpar , dizendo , que 

aquel- 



440 ÁSIA de JoÃo de Barros 

aquelle caio fora fúria do povo , por quan- 
to nellc havia muita gente , que tinha rece- 
bidas muitas injúrias , e damnos d'algúns 
Portuguezes que ai li cílavam ; e para mais 
juftificaçao lua , começou a propor , e con- 
tar as coufas de que atrás rizemos menção ; 
e diííe , que pois já o máo recado era fei- 
to , e que os mortos que houvera de parte 
a parte parecia fatisfazerem parte das cul- 
pas comrnettidas , que elle nao queria que 
hum bem tão principal , como era a paz, 
e amizade que citava contratada , ficaííe que- 
brada , mas que outra vez de novo fe tor- 
naíTe a ratificar , e reformar ; porque elle 
jurava por o Moçafo da fua lei , em que 
punha as manos 5 que nenhuma coufa mais 
defejava que a paz dos Portuguezes ; e que 
ifto era o que queria , e outra coufa nao. 
D. Manoel lhe refpondeo , que elk era igno- 
rante de todas aquellas coufas que lhe con- 
tara , e que* na verdade fe as dle íoubera y 
antes que com elle trataíTe a paz a que era 
vindo , primeiro houvera de tratar do caf- 
tigo , que havia de dar áquelles "culpados , 
porque elle trazia poderes do Governador 
para caítigar malfeitores ; e em quanto ifto 
nao fizera 5 nao ou fira de confiar lua peí- 
foa de gente efcandalizada , e defejofa de 
vingança ; mas que como vio os culpados 
de que fe elles queixavam eílarem na mef- 

ma 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XV. 441 

Ria terra , de quem podiam tomar vingan- 
ça antes de ília vinda, que temor podia el- 
ie ter , pois era chamado a bem de paz , 
e nao de guerra? E pois o negocio eítava 
naquelle eitado , elle nao íabia mais que 110- 
tificar-lhe , que a Nação Portugueza muito 
mais temia fazer huma couía contra fua 
honra , que contra a vida ; e que fe lhe a 
elle parecia , que por os ter cercados , e 
poftos em perigo , havia com elles detratar 
de pazes menos do que tinha aífentado , 
podia eftar íeguro que elle o nao faria ; e 
que havia de eítar em fua liberdade para as 
poder fazer, e nao da maneira que elle ef- 
tava. EIRey lhe refpondeo , que eile dizia 
mui bem , e que aífi queria que fofie , e 
elle fe tornaífe para onde eítavam os feus, 
e praticaíTe com elles niílo que lhe dizia , 
porque por ília livre vontade queria que de 
novo aífentaíTem as pazes , pois as paliadas 
poraquelies infultos dos feus eram quebra- 
das. 

Defpedido D. Manoel d'E!Rey , e os 
feus , que eftavam cm arrefens tornados , hou- 
ve grande confusão entre os Portuguezes , 
porque D. Manoel temendo o que depois 
fuecedeo , dizia, que ou pelejando livraíTern 
fuás peflbas , ou acabaífem de todo. Os mais 
daquelles , que eram aili vindos bufear fa- 
zenda, e nao honra > diziam que o melhor 

era 



44 2 ÁSIA de João de Barros 

era íal varem Jiuma vez as vidas , que o 
mais era trato de mercadoria , que em Jiu- 
ma parte fe perde , e em outra fe ganha • 
e quando ElRey lhe mantivefle tao pouca 
fé , que os cativaíTe , que parentes , e ami- 
gos tinham na índia para os refgatarem ; 
e os que mais iníiftiam em não pelejar , eram 
os caiados na índia. Finalmente D.Manoel 
confentio no que lhe ElRey mandou dizer, 
que elle com todos os Portuguezes fofíe aos 
feus paços, para de novo publicamente af- 
fentarem as pazes , onde elle mandava , que 
os principaes f o fiem prefentes para íatisfa- 
zer a feu povo , e o aquietar daquella in- 
dignação que tinham. Vindo D. Manoel , 
tanto que entrou em hum grande terreiro 
das caías d'EiRcy , com a gente que leva- 
va , que feriam fetenta homens , ElRey lhe 
mandou dizer, que elle fomente com huma 
peílba , que elle quizeífe, fubiile a huma 
cafa , onde o efperava , e que os outros 
aguardaíTem até elle os mandar ir. Ao que 
D. Manoel íatisfez , fubindo a huma cafa, 
em que ElRey eílava ; e elle mandou levan- 
tar hum feu parente que tinha acerca de II , 
e em feu lugar fez adernar a D. Manoel ; 
e praticando com elle o damno que os Por- 
tuguezes tinham feito , lhe moftrou o feu 
parente , e criado a que o Artilheiro rou- 
bara , e atormentara , dizendo , que fazer pa- 
zes 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XV. 443 

zcs verdadeiramente ellc o defejava , porém 
que não fabia fe o Governador haveria por 
firme o que alli trataflem , porque por elle 
D. Manoel eftar em citado de earivo mais 
que de livre , nao pareciam valioías as pa- 
zes , polo que era neceíFario que elle, e to- 
dos os feus eftiveflem alli , até elle mandar 
notificar ao Governador a cauía de os re- 
ter ; c por quanto os que eftavam no ga- 
leão , e nos navios dosCnatijs que alli eram 
vindos , podiam fazer algum nojo á Cida- 
de com ília artilheria , íabendo como elles 
eftavam reteudos , lhe rogava , que lhes eí- 
ereveffe , que fe foliem em boa hora , feni 
atirar com a artilheria á Cidade , e que na 
lua coita não fizeíTem algum damno. Ao 
que D. Manuel rcípondeo , que elle cm fua 
liberdade era Capitão daquella gente , c lhe 
obedecia; mas que no eítado de cativo, em 
que o çllc tinha , nao creíle que elles fa- 
riam ienáo o que quizeííem , e nao o que 
lhes elle mandafle ; porém pois alli eftava 
faria o que lhe mandava , e pedio papel , 
e tinta , e fez duas cartas , huma para a 
gente do mar do galeão , e dos outros na- 
vios , e outra para Nuno da Cunha , dan- 
do-lhe conta do eítado em que ficava, e das 
caufas per onde a elle viera , as quaes car- 
tas EIRey mandou que lhe JeíTem. Gs que 
ficaram em baixo no pátio, quando viram 

D. 



444 ÁSIA de João de Barros 

D. Manoel prezo , por o que elles tinham 
feito , e que o tempo não dava á outra 
couía remédio , entregáram-fe com efperan- 
ça de ia h irem dalli com eile , osíquaes pou- 
cos , e poucos foram logo poílos a bom re- 
cado. A gente do galeão , e dos outros na- 
vios vendo a carta de D. Manoel , por não 
íèrem cauíà de maior mal , pacificamente 
fe partiram caminho da índia. EIRey por- 
que de nenhum dos cativos eítava mais ef- 
candalizado que do Godinho, que lhe cha- 
mou bêbado , ante fi o mandou defcabéçar 
per hum leu eferavo. Dos outros que fica- 
ram , os trinta c quatro mandou de prefen- 
te ao Turco com offerta de íua peíTòa , por 
a nova de íua Armada que fe razia em 
Suez , vendo que por o que fizera a Dom 
Manoel ficava podo em ódio com os Por- 
tuguezes . e com o preíente ficaria mettido 
na graça do Turco. Entre eftes cativos que 
mandou foi o Álvaro Madeira , o qual fu- 
gio de Conítantinopla , e veio a efte Reino 
no anno de 1^3 6. , e deo a EIRey nova 
da Armada que o Turco fazia em Suez pa- 
ra mandar á índia , como adiante diremos. 



CA- 



Década IV. Livro VIII. 445: 

CAPITULO XVI. 

Do que Nuno da Cunha affentou com o 
meffageiro d" EIRey de Xael fobre as pazes 
que fedia : e como mandou a D. Fernando 
de Lima , que hia per Capitão a Ormuz 3 
que foffe por Xael tirar a J). Manoel de 
Menezes do cativeiro. 

DE todas cilas coufas , que eram paíTa- 
das cm Xael , Nuno da Cunha tinha 
informação ; e porque a prizao de D. Ma- 
noel procedeo delias , as difllmulou , e co- 
mo foi em Dio , aonde trouxe o rneíTagei- 
ro d'ElRey de Xael , aíTentou com dlc pa- 
zes^com elfos condições : 

Que EIRey de Xael entregaria logo 
D. Manoel , e os Portuguezes que com elle 
ejlavam , e todos os feus ef cr avos ; e pa- 
garia a perda de fua fazenda per efta ma- 
neira. Que Nuno da Cunha mandaria a 
Xael hum Feitor , e hum Efcrivão ; e os 
direitos que as partes houveffem de pagar 
72a alfandega fe fariam em três terços , 
hum de lies para pagamento de fias fazen- 
das , outro para EIRey de Portugal, e o 
outro para EIRey de Xael', e que efle Fei- 
tor , e Efcrivão dariam cartazes para na- 
vegarem as nãos feguramente com fuás 
mercadorias • e que em fignal de páreas , £/- 

Rey 



446 ASTA de João de Barros 

Rey de Xael daria em cada hum anno a 
EIRcy de Portugal cem quintaes de Cif a , 
{que he azeite de feixe ,) para os feus ar- 
wiazens da índia ; e que Nuno da Cunha 
lhe mandaria entregar dous Mouros hon- 
rados naturaes de Xael , que foram pre- 
zo s em Ormuz , como repre fatia , por cau- 
fa de D. Manoel ; e ajji daria favor , ejè- 
guro aos navios , quefofjèm achados na cof- 
ia do feu Rey no dentro dos limites nomea- 
dos. 

Feito efte contrato , porque D. Fernan- 
do de Lima filho de Diogo Lopes de Li- 
ma , que ahi citava , e viera de Portugal na 
Armada do anno paliado , hia para Ormuz 
a fervir de Capitão daqueíla fortaleza * , 
ordenou Nuno da Cunha , que foíle por 
Xael a ver jurar EIRey eíle aííento cias pa- 
zes , e receber entrega de D. Manoel de 
Menezes , e dos outros Portuguezes. Che- 
gai*- 

a E/lava nefle tempo D. Fedro de Caflello-branco por 
Capitão de Ormur , donde mandai ora a Dio ao Governa- 
dor Capítulos de grandes queixas- contra D. Pedro , as 
qiiaes eram de qualidade , que pareceo Keceflario a Nuno 
da Cunha para quietação da terra mandai 'o tirar da for- 
taleza , ao que enviou a Ormuz o Doutor Pêro Fernandes 
Ouvidor geral , que o fufpendco do cargo , e o mandou pre- 
zo á Índia ; e com ejla occajiuo deo o Governador a Capi- 
tania de Ormuz a D. Fernando , que e!/e nlio pcfjulo mais 
de três mezes , falecendo nel/a de liumas febres , com grani» 
de fentimento de todos , pelas muitas partes de que D. Fer- 
vando era ornado. Diogo do Couto capítulos 6. e S. dê 
Jiv. 2, da j. Década. 



Dec. IV. Liv. VIII. Cap. XVI. 447 

gando D. Fernando a Xacl , foi recebido 
cPElRcy com muita honra , e cumprio com 
clle tudo o «que ícn Embaixador contratou , 
e deo-lhe dous cavallos ; e além de entre- 
gar D. Manoel , e todos os que com clle 
eftavam , que em hum navio fe foram para 
a índia, entregou-lhe certa fazenda que hi 
tinha João de Sant-Iago , a que chamavam 
Franguechan , por laber que já era morto. 
E paliando D.Fernando perCaxen, lhe en- 
tregou também EIRey outra pouca de fa- 
zenda do meímo Sant-Iago , que ahi fora 
ter em hum zambuco , tudo por aprazer 
a Nuno da Cunha , e defejar fua amizade, 
e dos Portuguezes , e aílentou também pa- 
zes com D. Fernando. E por eítes Reys 
comprazerem a Nuno da Cunha , lhe man- 
daram novas , como não havia entre elles 
noticia alguma dos Rumes virem á índia 
aquelle anno. 

Chegado D. Fernando de Lima a Or- 
muz , eícreveo a Nuno da Cunha o fuecef- 
fo de fua viagem , e como de Bafçorá ha- 
via vinte e três dias que era chegado hum 
Bartholomeu Rodrigues , que lá mandara 
D. Pedro de Caííello-branco a faber novas 
dos Rumes , c conformava o que dizia com 
o que lhe diíferam os Reys de Xael , e de 
Caxen ; e a fora os avifos que eftes Reys 
mandaram a Nuno da Cunha , os teve de 

ou- 



448 ÁSIA de João de Barros 

outros muitos , como foi cPEIRey de Do- 
far , os quaes todos tratavam de o gran- 
gear ; porque como viam EIRey de Cam- 
baya morto , e Dio em poder de Portugue- 
zes , e todos os Arábios viviam do trato, 
que naquelJa Cidade tinham , competiam 
huns com outros d qual o obrigaria com 
maiores benefícios , por o favor que preten- 
diam para fuás navegações ; mas Nuno da 
Cunha , ainda que aquella nova vinha per 
tantas vias , e não fó per Mouros , mas per 
alguns Portuguczes , e lhe parecia que aquel- 
le anno não viriam Rumes, com tudo pa- 
ra fegurança da fortaleza , deixou começa- 
da a grande ciílerna que nella ha rf , e man- 
dou fundar hum baluarte na Villa dos Ru- 
mes b , e derribar a maior parte delia , por 

fer 

a E/la cijleinn lie de três naves , tem vinte e cinco 
palmos de alto , e tão capaz y que cada palmo da ftia al- 
tura recolhe mil pipas d* agua. Diogo do Couto cap. j. 
Viv. 2. Dec. 5'. 

b Defle baluarte deo o Governador a Capitania a Fran- 
cijco Pacheco. 

baluarte do mar proveo de artilheria , e munições , 
e nelle po? por Capitão a António de Souja Coutinho com 
trinta fo' dados. 

A Capitania mrr da Armada , que deixava no rio , deo 
a Francijco de Gouvca , e Alcaidaria mór da for tal eia a 
Paio Rodrigues de Araújo , e a Feitoria a António da 
Veiga ; e os Fidalgos , e Capitães , que deixou com António 
da Silveira, foram Lopo de Souja Coutinho, Gonçalo Fal- 
cão , Luiz Rodrigues de Carvalho , Ga/par de Sou'a , Ma* 
noel de Vafconcellos , e Rodrigo de Proença, Diogo dò 
Couto cap. 6. 



Dec. IV. liy, VIII. C Ar. XVI. 449 

íer mui perigoía ácjuella povoação , c fo- 
mente deixou algumas calas para os Oríi- 
ciaes que hi haviam de reíidir , c aili orde- 
nou outras couías para a defensão da for- 
taleza , no qual negoeio elle levou maior 
trabalho que no governo , e foraes da ter- 
ra ; e deixando provido tudo o que era ne- 
ceííario , quando veio o mez de Março , 
que he o principio do inverno , fc recolheo 
para Goa. 

Partido Nuno da Cunha , chegou a Dio 
jhum navio, de que era Capitão Fernão de 
(Moraes , que partio deite Reino em No- 
j vembro em companhia de outros dous na- 
jvios, de que eram Capitães Fernão deCaf- 
;tro para ir a Ormuz , e Diogo Lopes de 
jSoufa o Traquinas a Goa, indo aíli orde- 
nados para eftas fortalezas íe proverem, por 
|o avilb que EIRey D. João tinha da Ar- 
mada do Turco , que eftava feita em Suez ; 
la qual nova fe foube não fomente poraquel- 
'le Álvaro Madeira , que diiTemos fugira 
ipara Portugal de Conftantinopla , aonde El- 
iRey de Xael o mandara com outros cati- 
vos , mas de outras pelToas de credito ; do 
jque EIRey avifava a Nuno da Cunha por 
eftes três Capitães , e que logo para Março 
.jmandava fazer huma groíía Armada ; e no 
imefmo mez de Novembro , em que elles 
partiram, partiram também para aludia em 
Tom.IF.P.iL Ff dous 



* 



4?0 ÁSIA de JoÃo de Barros 

dous navios Aleixo de Soufa , e Henrique 
de Soufa Chichorro feu irmão , filhos de 
Garcia de Soufa , os quaes foram a Mo- 
çambique , de cuja Capitania hia provido 
Aleixo de Soufa, porque fe receou EIRcy 
que foífem ter a ella algumas galés dos Tur- 
cos , e per eíle modo quiz ter provido tu- 
do y e porque das coufas do Reino de Ben- 
gala , fendo de nós mui frequentado , até 
agora não temos dado noticia , nem do fuc- 
ceífo de duas Armadas , que Nuno da Cu- 
nha mandou áqucllas partes , deixando com 
o fim deite livro as coufas da índia , come- 
çando no feguinte com as de Bengala , co- 
mo mais vizinhas que as de Malaca , e Ma- 
luco , de que também nelle havemos de ef- 
crever, por irmos profeguindo noífa natu- 
ral ordem, e caminho de Oriente. 



DE- 









*Hí*í*.'T' mino 

/3^ sTunW^REIJyTO SJROTF. X: 'i>- 




^rrw T.I^JPJfyaa, 45L 



V •r-f-i- + + -V + -?- + + + + f -t+ + + -»-l- + 4-.I- + -í--»- + + V + + + + + +"i- + ++++ *^ 



DÉCADA QUARTA. 
LIVRO IX. 

Governava a índia Nuno da Cunha. 

CAPITULO I. 

Da defcripçao do Reino de Bengala ; e 
dos cojiumes da gente de lie. 

POrque na geral defcripçao , que em 
íumma fizemos da coíía da índia na 
nofla primeira Década a , não demos 
mais noticia do Reino de Bengala , que da 
dimensão da lua enfeada , e da entrada nel- 
la do Rio Ganges , ( a que os naturaes cha- 
mam Ganga , ) pareceo-nos que aqui onde 
havíamos de tratar do que aos noílbs acon- 
íeceo naquelle Reino , deviamos dar maior 
noticia delle , e dos coílumes das gentes que 
o habitam. * A fituaçao pois do Reino de 
Bengala he naquella parte , onde o rio Gan- 

Ff ii ges 

a Liv. 9. cap. 1. 

h EJle cap. ejlava no caderno de João de Barros mui 
^ordenado , trocadas as coufas , c todas fora de feu (*f 
çar , com qi\e ficavam húntelliglveis. 



452 ÁSIA de João de Barros 

ges defcarrega fuás aguas per dous prínci- 
pacs braços no Oceano Oriental , e onde a 
terra retirando-fe mais de fuás oiidas , faz 
a grande enfeada a que os Geógrafos cha- 
maram Gangetica , e agora lhe chamamos 
de Bengala. Nas fozes dos dous braços do 
Ganges fe mettem dous notáveis rios , hum 
da parte Oriental , e outro da Occidental , 
ambos limites deite Reino > a hum delles 
chamam os noíTos de Chatigam , por entrar 
na foz Oriental do Ganges em huma Cida- 
de deite nome , que hc a mais célebre , e 
rica daqueJle Reino , por razáo de feu por- 
to , no qual concorrem as mercadorias de 
todo aquelle Oriente. O outro rio entra no 
braço Occidental do Ganges abaixo de ou- 
tra Cidade , que fe chama Satigam 5 também 
grande , e nobre , mas menos frequentada 
que Chatigam , por o porto não fer tao cóm- 
modo para a entrada , e fahida das náos. 
O rio de Chatigam nafce nas ferranias dos 
Reinos de A vá , e de Vagarú , e fazendo 
feu curfo do Nordeíte para o Sudueíte , de- 
vide o Reino de Bengala das terras do Co- 
dovafcan , e ao longo das correntes deite 
rio ficam os Reinos de Tipora , e de Brem- 
ma Limma , que rodeam Bengala da parte 
Oriental. Pela do Norte cingem eíte Reino 
humas ferranias , que o apartam do Reino 
de Barcunda, nas quaes abrio a natureza o 

ca- 



Década IV. Liv. IX. Cap. I. 45*3 

caminho áquclle illuílrc rio Ganges para le- 
var fuás aguas ao mar ; e neíta abertura , que 
he no eítremo deíle Reino , tem oRey hu- 
ma fortaleza chamada Gorij para defensão 
das gentes que habitam aquellas ferras , e 
partes montuofas por onde o rio Ganges 
íàhe , para que não poliam entrar per terra, 
nem per agua. Voltando eílas mefmas fer- 
ras ao Ponente , apartam os Bengalas dos 
povos Patanes , e mais abaixo contra o meio- 
dia do Reino de Orixá, ficando deita parte 
entre as ferras , e a corrente do rio Ganges 
-as campinas de Bengala. Outro rio , que en- 
tra no Ganges abaixo de Satigam , corre 
pelo Reino de Orixá, e tem fuás fontes nas 
cortas da ferra , a que os índios chamam 
Gate , naquella parte que ella vizinha com 
Chaul ; e por fer eíle rio grande , e correr 
per muitas terras , os naturaes á imitação do 
Ganges , em que fe elle mette , chamam-lhe 
também Ganga , e tem fuás aguas por fan- 
tas como as do Ganges. Deita maneira jaz 
o Reino de Bengala pela fua parte mari- 
tima , que he a auílral entre os dous rios, 
efte de Satigam ao Ponente , e o de Cha- 
tigam ao Oriente , e os dous braços do Gan- 
ges , em que elles entram , formam a figu- 
ra da letra Delta dos Gregos , como fazern 
todos os rios grandes , que per bocas en- 
tram no mar. « 

To 



4?4 ASIÀ de JoÃo de Barros 

Toda a lerra entre hum braço , e o ou- 
tro he dividida em Ilhas , ou Leziras , que 
eftam retalhadas com a agua do meímo Gan- 
ges , e dos outros rios grandes , que nelle 
entram ; das quaes começando da foz Orien- 
tal , são eftes os nomes das que vieram á 
noíTa noticia , Tranqucteá , Sundivá , Ingu- 
diá , Merculij , Guacalan , Tipuriá , Bulnei , 
Sornagam , Angará , Mularangue , Noldij , 
Cupitavaz , Pacuculij , Agrapara , e outras 
Bonitas. Dentro dos limites com que com- 
prehendemos o Reino de Bengala , eílam 
eftes Reinos a elle fuj eitos , Caor, que vi- 
zinha com o Reino Cou , e foi em outro 
tempo parte delle , e os Bengalas o ulur- 
páram ; e mais abaixo delle contra o mar , 
o Reino de Comotaij ? e outro chamado 
Cirote , onde lè fazem todos os capados 
cjue vem a Bengala , e vam a outras par- 
tes , de que ha grande número. O eftado do 
Codavafcam , (que he hum Principe Mou- 
ro grande Senhor , e fe mette entre Ben- 
gala , e o Reino de Atracam , ) também 
os Bengalas o contam dentro dos termos 
do feu Reino , e aííi o de Tipóra j mas o> 
mo eftas terras sao montuofas , dizem os 
Bengalas , que certos fenhores poderofos fe 
levantaram com ellas contra Ellley de Ben- 
gala ; e como entre osTiporitas, e os Ben- 
galas houve fempre ódio , e emulação , co-f 

mo 



Década IV. Liv. IX. Cap. T. 4^ 

mo pela maior parte foe haver entre Rei- 
nos vizinhos , quando algum delles preten- 
de ler maior que o outro , ou fuperior , fi- 
zeram-íe em liga os Tiporitas com os do 
Reino deCou, também inimigo de Benga- 
las, com que lhe levantaram a obediência ; 
e fegundo eíle Reino de Cou he grande, 
e tem mais gente de cavallo que nenhum 
de léus vizinhos , e he afpero por as mui- 
tas ferranias que tem , pudera por íi fó con- 
quiílar Bengala , quanto mais ajudado dos 
Tiporitas , que he gente mui bellicofa. Mas 
como eíles dous Reinos amigos , e confe-* 
derados são Gentios , fem entre fi confen- 
íirem Mouros , que com artilheria , e arti- 
fícios de guerra de que uíam , tem feito o 
.Reino de Bengala poderofo , vem eftes dous 
.Reinos amigos a perder por falta da diíei- 
plina militar dos Mouros , que a vieram 
dominar , o que lhe fobrelevam de esfor- 
ço , de animo , e valentia. Da outra parte 
do Ponente contra o Reino de Orixá tem 
os Bengalas o Reino de Cofpetir , cujas 
campinas no tempo das crefeentes do Gan- 
ges são cubertas quaíi ao modo das do rio 
Nilo; e porque Bengala a maior parte do 
tempo contende com dous Reinos vizinhos, 
com o de Orixá , que he Gentio , e com 
jOsPatanes, de que a maior parte saoMou- 
SQS y ficava aquelle Reino Cofpetir trilhada 

da 



( 



^6 AS1A de JoXo de Barros 

da paíTagem dclles quando entravam em 
Bengala , até que os Patancs totalmente fe 
fizeram lenhores delle , como adiante dire- 
mos. 

Deíle Reino de Bengala , e de outros 
quatro feus vizinhos , dizem os Gentios , e 
Mouros daquellas partes , que a cada hum 
deites deo Deos feu particular dom ; a Ben- 
gala gente de pé fem numero ; ao Reino 
de Orixá elefantes ; ao de Bifnagá gente mui 
defira na efpada , e adarga ; ao Reino do 
Delij muitas Cidades , e povoações ; e ao 
■de Cou grande número de cavallos. Aos 
rjuaes aífi nomeados nefta ordem , elles dam 
cftoutros nomes ., Efpatij , Gaípatij , Norc- 
patij 5 Buapatij , e Coapatij. 

A terra de Bengala como jaz entre vin- 
te dous , e vinte íete gráos da parte do Nor- 
te , e a maior parte delia he de campos , 
que fe regam de quatro rios notáveis , e he 
retalhada em leziras , (como diíTemos , ) to- 
da he mui fértil , não fomente de arroz , 
*]ue he feu geral mantimento, mas de mui- 
tos legumes 5 hortalizas , e frutas , delias co- 
mo as de noífa Hefpanha , e de outras que 
cá não temos , que são naturaes áquellas 
.xegióes do Oriente : faz-fe em todo eíle Rei- 
■jio muito , e bom aífucar , que fe leva em 
■fardos para outras partes : nafee nelle mui- 
■ta pimenta longa > e he abundante de todo 



Década IV. Liv. IX. Cap. L 45-7 

gcnero de gado miúdo , e groflb , e anfr 
maes montezes , c aves de ribeira de toda 
forte : criam-íe muitos cavallos do tamanho 
de facas de Inglaterra , e íe colhe, tanto al- 
godão , e ha tantos Oíriciaes , que tecem fi- 
niflimos pannos , que pode dar de veftir com 
elles a toda Europa ; porque não fomente 
de Malaca por diante, em que ha hum in- 
finito número de Ilhas naquelle arcipelago , 
mas ainda a toda a índia , em cuja coíla 
em rodos os lugares fazem infinitos pannos 
de algodão , por o geral cia gente não fe 
veftir de outra coufa , quem fe quer veftir 
~de pannos finos os ha de haver de Bengala y 
e nas coufas de lavores de agulha , e dife- 
renças de tecedura ? a todas as gentes os Ben- 
galas levam vantagem , como fe vê nos 
lavrados das colcha,? riquiffimas $ e de ou- 
tras coufas que de lá vem. ' 

A gente natural da terra pela mor par- 
te he Gentia , e fraca para pelejar, mas a 
mais maliciofa , e atreiçoada de todo aquel- 
le Oriente 3 pelo que para injuriar hum ho- 
mem em qualquer parte , baila dizer que he 
-írum Bengala ; mas tem hum bem efte po- 
vo , que como he gente que não tem mais 
-de feu , que quanto ganham para comer 
•aquelle dia, nefta pobreza eftam mais fegu- 
-xos da vida que os grandes, porque a eftes 
ccomo lhe femem fazenda , logos. lhes acham 

hu- 



4?3 ÁSIA de JoÂo de Barros 

huma culpa , per que lhes he tomada para 
EIRey 9 c muitas vezes com ella perdem 
a vida • e quando morrem naturalmente , EI- 
Rey he herdeiro aííi do rico , como do 
pobre. Ufa EIRey de outra tyrannia, que 
como os feus Officiaes da juftiça, e da fa- 
zenda eftam hum pouco de tempo nos offi- 
■cios , e a elle lhe parece que algum eftá já 
groífo em fazenda , por qualquer achaque 
o manda chamar , e a poder de açoutes lhe 
tira o que pode , e depois lhe veííem huma 
cabaia, que EIRey lhe manda dar, com a 
qual vai mais honrado que injuriado com 
os açoutes , por fer final que fica já recon- 
ciliado com EiRey , e que com aquella 
honra da cabaia lhe manda que torne a fer- 
vir feu officio , no qual torna de novo a 
roubar , porque fabe que aíTi lhe convém 
para quando vierem outros açoutes. 

A principal Cidade deite Reino he cha- 
mada Gouro, íituada nas correntes do Gair- 
ge , e dizem ter de comprido três léguas 
das noífas , e duzentos mil vizinhos. De hu- 
ma parte tem o rio por cerca , e da banda 
da terra hum muro de pedra , e cal mui al- 
to , e na parte onde o rio lhe não chega , 
tem huma cava cheia d'agua , em que po- 
-dem nadar grandes batéis. As ruas são lar- 
gas , e direitas , e as principaes tem arvo- 
res poílas em ordem ao longo das paredes, 

pa- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. I. e II. 45-9 

para fazerem foinbra á gente que paíTa ; e 
como o povo he tanto , sao as ruas tão fre- 
quentadas com o trafego , e fcrviço da gen- 
te , principalmente as que vam demandar os 
paços d'ElRey , que não podem nellas rom- 
per huns per outros , pelo que os que acer- 
tam decahir entre gente de cavallo , ou de 
elefantes , em que vam os Senhores , e ho- 
mens nobres , alli ficam muitas vezes mor- 
tos , ou efmágados dos pés das beítas. Grão 
parte das caías deita Cidade são nobres , e 
bem lavradas j e a riqueza , e groflura do 
trato deita Cidade, e de todo o Reino de 
Bengala era tanto , antes que os Patanes o 
tomailem , ( como adiante diremos , ) que 
dizia Soltam Badur , fendo elle hum Rey 
dos mais ricos daquelle Oriente , e muito 
arrogante , que elle era hum , e El Rey de 
Narfínga dous , e EIRey de Bengala era 
três , querendo dizer , que EIRey de Ben- 
gala tinha fó , quanto elle , e EIRey de 
Bifnagá tinham juntamente. 

CAPITULO II. 

Perque maneira os Reys de Bengala 
vieram a fer Mouros. 

EM tempos paliados , fegundo dizem , 
haverá cem annos , acertou de vir hu- 
ma náo do Reino de Adem , que eílá nz 

bo- 



460 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

boca do Eílreito do Mar roxo , ao porto 
da Cidade de Chatigam , de que vinha por 
Capitão hum Mouro Arábio homem nobre , 
eabaftado, que trazia comíigo duzentos ho- 
mens. Vendo efte o eftado da terra , como 
fagaz , e curiofo , a quem a fortuna chama- 
va para maiores couíàs, começou a inqui- 
rir o eftado do Rey , e do Reino, e feu 
governo ; e como fe informou bem de tu- 
do, começou conceber em feu ânimo maio- 
res efperanças das com que elle veio. Car- 
regada fua náo com o retorno do que trou- 
xera , a tornou a mandar para Adem , dei- 
xando-fe elle ficar em Bengala em figura 
de Feitor de parentes ricos que tinha , dif- 
íimulando fua intenção; aos quaes mandou 
a náo , e a fazenda , e lhe efereveo que lo- 
go o armo feguinte Jhe mandaíTem outra 
náo com aquella , e nellas a mais gente que 
pudeífe vir , pelo qual ardil, em três, ou 
quatro viagens , dobrando as náos , e a gen- 
te , fe achou com quinhentos homens ; e por 
elle fer já conhecido dos Mandarijs , que 
são os Governadores , e havido por homem 
proveitofo á terra , por os muitos direitos 
que pagava, era tido como natural. Eíta re- 
putação em que eftava lhe deo oufadia de 
fe elle ir offerecer a EIRey para huma guer- 
ra , que fe moveo entre elle, e EIRey de 
Orixá feu vizinho , o que lhe EíRey aceci- 



toii \ 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. II. 461 

tou ; mas nefta jornada o Arábio com fua 
peííoa, c gente que levava, fervio de pou- 
co , porque o Capitão geral do exercito , 
que era Bengala , como homem que fe af- 
frontára de Jhe EIRey dar o Arábio em 
maneira de ajuda , não o metteo em coufa 
em que clle moitrafTe feu animo , e induf- 
tria , antes fe houve efte Capitão mor tão 
defconcertadamente em huma batalha que 
deo ao inimigo , que perdeo muita gente , 
e lhe tomaram muitos elefantes , que EI- 
Rey muito ientio. O Arábio vendo o mo- 
do que efte Capitão com eIJe tinha em o 
dcfprezar , e quanto fe EIRey enojara da 
parte daquclla batalha , pedio a EIRey que 
o deixaíTe ir com a mefma gente , com que 
o feu Capitão fora desbaratado , porque com 
ella , e com a pouca Arábia que tinha lhe 
daria vingança de feus inimigos. EIRey lho 
concedeo , e elle o fez de maneira , que 
houve huma grande victoria delles, e lhes 
tomou dobrados elefantes. Finalmente elle 
fervio naquelle officio da guerra tao bem , 
que em fatisfação difíb o fez EIRey Guar- 
da mor de fua peíToa. 

Nefte officio veio elle a cumprir feu de- 
fejo, que foi matar a EIRey, e apoderar- 
fe da Cafa Real , e do Reino. Polo que 
tanto que o matou , fe deixou eftar nos pa- 
ços , que naqueila Cidade de Gouro EIRey 

ti- 



462 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

tinha , que eram maiores que huma grande 
Villa , e eram a fortaleza da Cidade , em 
que eítavam feus theíburos , fuás armas, ca- 
vallos , elefantes , mantimentos. Dcftes pa- 
ços íahio o novo Rey com feus Arábios , 
e outros Mouros eftrangeiros que rccolheo , 
e com alguns Bengalas que para elle fe vie- 
ram , e tanta guerra fez aos da Cidade , 
que fe fez Senhor delia , e de todo o ref- 
tante do Reino ; c para fua defensão , e con- 
versão daquelíe Gentio , mandou vir muita 
gente de Arábia , pela qual , como fe vio 
Rey pacifico, repartio os Officios , e gover- 
no do Rey no como lhe parecco ; e por cf- 
te modo ficaram os Mouros fenhorcs de 
Bengala ; e efte foi o principio de os Reys 
delia virem a fer Mouros , fendo antes el- 
le, e o povo Gentio. Deite tyrahno , e dos 
feus vem todos os Reys , que depois delle 
fucccdêram em Bengala , não per íuccefsao 
de pai a filho , porque para fucceder no 
Reino , tem os Bengalas hum cruel , e bár- 
baro coítume dos antigos tempos introdu- 
zido , que fe algum dos fervidores d'El- 
Rey , dos que elle tem naquelles paços , o 
matar , e eítiver três dias aflentado em fua 
cadeira Real , fem alguém o mover dalli , 
he Rey fem mais contradição ; e a razão 
que para iílb dam , he , que pois Deos fuf- 
tenta aquelle na cadeira Real aquelles dias, 

o ap- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. II. 463 

o npprova por Rey para governar melhor 
que o paliado, que per elie foi morto ; e 
Martim Affonfo de Mello Jufarte , por cu- 
ja cauía viemos contar as coufas de Benga- 
la , dizia , que no tempo que elle eftivcra na- 
qucile Reino , ouvira dizer, que em cfpnço 
de quarenta annos fe fizeram treze Reys 
per aquelle modo , entre os quacs foi hum 
eícravo feu Abexij de nação , e outro que 
lhe fervia de lhe trazer o andor em que an- 
dava ; e o que reinava em tempo que Mar- 
tim Affonfo de Mello lá foi, e que o pren- 
deo , (como diremos , ) fe chamava Mamud 
Xiah , que na conjunção de fua chegada 
matara hum feu fobrinho filho de Nanca- 
rote Xiah feu irmão , o qual o deixara por 
tutor do filho á hora de fua morte , por fer 
de pouca idade ; e por parecer a Mamud 
Xiah que náo ficava feguro com a morte 
do moço , por fe affegurar dos grandes do 
Reino , acerefeentando huma maldade á ou- 
tra j mandou matar mais de duzentos ho- 
mens , e tomar-lhes as fazendas , das quaes 
são fenhores os Reys daquella terra , não 
fomente dos que são mortos por culpas , 
mas dos que morrem fem ellas. 

Efte tyrarmo Mamud eítava com eftas 
cruezas recolhido na fortaleza daquelles pa- 
ços de Gouro, como a quem tudo era íuC- 
peito j e não tinha coufa de que fe fiaífe 

mais, 



46*4 ÁSIA de JoXo de Barros 

mais , que de quatrocentos homens da guar- 
da das portas que havia antes que entra fiem 
a eJle , repartidos em quatro Capitanias. Os 
Capitães deita gente vigiavam a quartos , e 
todas as noites haviam de ler mudados de 
maneira , que nenhum havia de íabcr que 
porta havia de guardar a noite feguinte , 
fenao quando era poíto nella. Somente hum 
Capado , que tinha cargo das mulheres d'El- 
Rey , que fe áffirmava ferem mais de dez 
mil , e tinha a porta mais interior onde ci- 
tava a peííoa d'ElRey , não era mudado 
delia como os outros eram das outras. Ef- 
te era Capitão de quatrocentos Capados , 
que havia das portas adentro para ferviço 
das mulheres , os quaes nunca fahiam fora ; 
e os que fora hiam , eram moços pequenos 
também Capados. Daquellas mulheres d'El- 
Rey , quatro eram as principaes , e da pri- 
meira deitas quatro os filhos eram herdei- 
ros. Finalmente o Eftado daquelles Reys de 
Bengala era tão grande naquelle tempo , 
que havíamos meíler muito para poder ef- 
crever fuás coufas. 

E porque a caufa que nos moveo efcre- 
ver o que até aqui diílemos , foi ter efte 
tyranno prezo Martim AíFonfo de Mello 
Ju farte na fua Cidade de Gouro ; fera ne- 
ceffario repetir de longe a razão por que o 
prendeo, e contar quão proveitofo lhe foi 

ter 



Dec. IV. Liv. IX; Cap. II. e III. 46? 

ter com figo Marti m Affoníb já folto ; e co- 
mo elle , c os outros Portitguezes , que com 
clle foram prezos , livraram aMamudXiah 
da guerra que lhe os Patanes faziam. Em 
a qual narração fe verá , que não houve 
guerras naquelle Oriente de huns Príncipes 
com outros , em que alguns dos noíTos fe 
acharam , que a parte , que ellcs favorece- 
ram , não houvefle vicloria de feus inimi- 
gos j e também fe verá em quão breve ef- 
paço fe trocam os Eítados , por grandes 
que fejam , de huns povos em outros , quan- 
do os Príncipes delles os poííuem com ty- 
rannia. 

CAPITULO III. 

Como Marfim Affonfo de Mello foi a El* 

Rey de Bengala reqtterer-lhe amizade , 

e commercio com Portugueses : e do 

que j Cobre ijjo lhe aconteceo. 

A Trás temos dito no fegundo Livro de£ 
jLjl ta Década , como Coge Sabadim Mou- 
ro refgatou Marrim Affonfo de Mello , e 
feus companheiros do poder do Codavaf- 
cam, os quaes per hum Coge Sucurulá feu 
parente mandou á índia em huma fua fufta 
no anno de 1529 a Nuno da Cunha , que 
já áquelle tempo governava. O que moveo 
# elle Mouro fazer efte beneficio foi ter 
TonuIF.P.iL Cg d- 



466 ÁSIA de João de Barros 

cllc negocio com o Governador Nuno da 
Cunha , e era eíle. Como ordinariamente 
os mais dos annos os Governadores da ín- 
dia mandam a Bengala hum Capitão , a 
que querem aproveitar com huma Armada , 
em que entram navios dchomnes, que vam 
áqucllas partes fazer commercio , de que ef- 
te Fidalgo he Capitão mor , e leva jurdi- 
çao febre elles , como fobre os navios d'Ei- 
Rey : deo Lopo Vaz de Sampaio cita Ca- 
pitania a Ruy Vaz Pereira , (como atrás dif- 
femos j ) que era hum Fidalgo de ferviço. 
Eíle chegado a Chatigam , que he a Cida- 
de de Bengala , onde concorrem todos os 
navios que vam tratar áquélle Reino, achou 
alli ao Mouro Coge Sabadim , que era Par- 
íio de nação , e havia annos que eílava na- 
quella Cidade de Chatigam negociando fua 
fazenda , e de alguns Mouros de Ormuz , 
c fizera huma galeota á noíTa ufança , fen- 
do defeza na Lídia poios Governadores , e 
por EIRey de Bengala no feu Reino , á 
inftancia de Rafael Pereftrello , quando alli 
eíleve ; e a caufa por que fe defendiam ga- 
leotas na índia aos Mouros era porque al- 
guns delles fe faziam coifa i ros , e andavam 
roubando com os navios da feição dos nof- 
Jbs , e as partes roubadas fe queixavam que 
os Portuguezes os roubavam. 

Havendo cita defeza 7 como Coge Sa- 

ba- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. III. 467 

badim tinha muito favor dos Governadores 
<ie Chatigam , por os peitar groííamente a 
para bem fazer ieus negócios , teve em pou- 
co impedir-lhcRuy Vaz Pereira ufar da ga- 
leota , que tinha feito á noíTa ufança ; polo 
que Ruy Vaz lhe tomou hum galeão que 
no porto tinha carregado. Queixando-fe di£ 
to Sabadim a Nuno da Cunha , que já go- 
vernava , e pendendo demanda na índia fo- 
bre iflb , fez o refgate de Martim AíFonfo , 
c dos mais Portuguczes , por obrigar ao Go- 
vernador a lhe fazer juftiça , e mandou jun- 
tamente com Martim AíFonfo a feu parente 
Coge Sucurulá , para andar na demanda do 
galeão , ( que lhe foi tornado com toda a 
fazenda , ) praticar algumas coufas de im- 
portância com o Governador, além de Mar- 
tim AíFonfo as trazer em lembrança. Eram 
algumas do ferviço d'EIRey de Portugal > 
e outras em benefício delle Sabadim , para 
libertar lua peífoa da violência , que os Go- 
vernadores de Chatigam lhe faziam em o 
não deixarem ir daquella Cidade para a Per- 
iia lua terra natural ; porque por o muito 
tempo que efe Mouro eíleve naquella Ci- 
dade , e o grande trato que tinha dalli para 
Ormuz , enriqueceo tanto , e era fua eftada 
alli tão proveitofa ás rendas d'E!Rey ? e a 
toda a terra , com a entrada , e fahida das 
mercadorias em que tratava ? que o não 

Gg ii que- 



468 ÁSIA de João de Barros 

queriam deixar ir para fua terra , dizendo- 
lhe , que EIRey o mandava afli. Coge Sa- 
badim porque conhecia a natureza dos Ben- 
galas , e a tyrannia d'ElRey , com que lhe 
tomaria toda a fazenda , e mais que o tra- 
ziam já prezo per olho que fe nao foíTe , 
deo conta de tudo a Martim AfFonfo de 
Mello , e de quão aflbmbrado vivia , te- 
mendo de perder a fazenda , e com ella a 
vida ; e nao fomente lhe deo conta dos de- 
fejos de fua liberdade , e falvação , mas lhe 
deo muitas razoes de quanto cumpria ao 
íervico d'E!Rey de Portugal ter ai li hum a 
fortaleza , e quão leve feria de a manter, 
e defender , e quanto ferviço e\k podia fa- 
zer a S. Alteza em Ormuz , fe o Governa- 
dor ordenaííe como pudeíTe fahir daquelle 
cativeiro. Finalmente pedia ao Governador 
itiandaíTé Martim AfFonfo de Mello a Cha- 
íigam com huma Armada a fazer fazenda 
d'ElRcy , para o que elle daria muita aju- 
da , ena envolta delia recolheria fua fazen- 
da , e fua peílba ; e depois que fe viíTe com 
elle , daria ordem ao mais que promettia. 
Nuno da Cunha praticou com Coge Sucu- 
rulá todo aquelle negocio , e lhe deo mui- 
ta efperança , que como fofíe tempo man- 
daria Martim AfFonfo a Bengala , e afli o 
efpedio contente com a promeíTa , c com o 
galeão y e fazenda de feu primo. . 

Nu- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. III. 469 

Nuno da Cunha , que citava determina- 
do de executar o que oferecera a Coge Sa- 
badim per leu primo Sucurulá , fe moveo 
inais per huma carta que lhe EIRey Dom 
João efereveo , em que lhe encommendava 
aquelle negocio ; porque Martim AíFonfo 
querendo gratificar o beneficio que de Sa- 
baditn recebera em o refgatar , efereveo a 
EIRey nas primeiras náos que a eíte Rei- 
no vieram , e também lhe efereveo Cogc 
Sabadim , dando-lhe grandes efperanças de 
o íervir bem naquelle particular, e em ou- 
tros. Poio que no anno de i>34. mandou 
Nuno da Cunha a Martim AíFonfo de Mel- 
lo (como atrás eferevemos a ) com duzen- 
tos homens , cm huma Armada de cinco 
veias, de que eram Capitães Chriítovao de 
Mello de Sampayo de hum galeão , em que 
hia Martim AíFonfo como Capitão mor, e 
dos outros navios eram António Pacheco , 
Franciíco Bocarro , António Gramaxo > e 
António Dias ; e o regimento , que Martim 
AíFonfo levava , era fomente para commu- 
nicar com Coge Sabadim a viíta , íitio , e 
difpoíição da terra, e tentar fe por ventura 
EIRey de Bengala daria lugar para fe fa- 
zer no porto de Chatígam huma cafa for- 
te para os Portuguezes alternarem huma Fei- 
toria , e fer azo de terem trato pacifico , e 

cora- 

a No capitulo 22. do livro 4. 



47o ÁSIA de João de Barros 

commcrcio , fem temor de alevantamentos 
que havia naquelle porto. Para crleito dif- 
to lhe deo Nuno da Cunha cavallos , e pe- 
ças ricas para mandar a EIRey de- Benga- 
la á fua Cidade de Gouro , onde continua- 
mente tinha íua Corte , ao coítume daquel- 
las terras , onde fe nao vai ante EIRey 
com as mãos vazias. 

Chegado Martim Affonfo ao porto de 
Chatigam a falvamento do mar , parece que 
na terra lhe eftavam guardados feus perigos 
de cativeiro , como já naquellas partes ti- 
vera ; e conforme ao regimento que levava 
de Nuno da Cunha , ordenou logo de man- 
dar a EIRey as cartas que levava para el- 
le com o prefente , que em aquelle Reino 
chamam Adíá , onde na offerta dos preíen- 
tes fe tem efta ordem per coítume mui an- 
tigo. Tanto que algum prefente he levado 
ante EIRey , elle o manda avaliar pelos pre- 
ços da terra , e per os meímos preços fe 
paga ás partes de maneira , que qualquer 
prefente ante EIRey de Bengala he huma 
commutaçao de huma coufa por outra - y e 
mais fe contenta EIRey de lhe íer apreíen- 
tado per efte modo o melhor que cada hum 
leva , que fer-lhe dado de graça , por as 
partes nao efeonderem o bom para o ven- 
derem a outrem ; e com terem por certo 
que lho ha EIRey de pagar , nao tem re- 
ceio 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. III. 471 

ceio de o aprefentarem. O preíente que 
Marfim Aftbnfo mandava, eram alguns ca- 
vallos íormofos , c peças de brocado , e de 
leda , e outras couíàs que ie cítimavam em 
Bengala ; e para authorizar as cartas , e o 
preíente , ordenou em modo de Embaixa- 
dor que o levaííe hum cavalleiro , que fe cha- 
mava Duarte de Azevedo , e em íua com- 
panhia doze homens , de que eíles eram os 
principaes , João de Villalobos , Lopo Car- 
doíb , Diogo Ferraz , Nuno Fernandes Frei- 
re , Jordão de Moraes , e Diogo Cabaço. 

Quando chegaram com o preíente , não 
foram tão bem recebidos como elles eípe- 
ravam , por fer em conjunção que o Ma- 
mud tinha morto pouco havia a leu fobri- 
nho } fazendo-íè Rey de Bengala ; e com 
temor deita maldade , e da que commettê- 
ra na morte dos nobres 3 eílava recolhido 
em feus paços , e toda a novidade lhe era 
então fufpeitofa ; e para maior defdita dos 
Portuguczes , acertaram a levar no preíen- 
te certos caixões com barrilinhos d'agua 10- 
fada , fegundo os Mouros os navegam do 
Eftrcito de Meca , e Ormuz , como mer- 
cadoria , em que fazem proveito naquel- 
las partes , por os Mouros delias ferem 
mui delicioíos em couías de cheiros. Eíles 
caixões foram tomados em huma náo de 
Mouros per hum Damião Bernardes Por- 

tu~ 



47 2 ASIÀ de JoXo de Barros 

tuguez a , que andava levantado , e feito cof- 
fairo , íem Nuno da Cunha o poder haver 
á mão ; e no próprio porto de Chatigam , 
onde eftava Mârtim Afrbnfo de Mello , ti- 
nha elle tomada huma fuftá de hum Tur- 
co , (que hi andava em Bengala,) com a 
qual tinha roubada a náo ; e conhecendo 
efte , e os outros Mouros os números , e 
marcas dos caixões ferem de Mouros mer- 
cadores , a quem a náo fora tomada , de- 
pois cPElRey ter acceitado o prefente , e 
cartas de Nuno da Cunha , taes coufas dif- 
feram ao tyranno Mamud Xiah . que fal- 
tou pouco para os mandar matar ; e para 
melhor effeíluar feu defejo , o Senhor da fuf- 
ta roubada , e outros a que muito pezava 
da paz , e amizade que Nuno da Cunha 
queria , tomaram por atiçador deite fogo 
hum Capado chamado Agá Abdelá , o mais 
acceito que Mamud Xiah tinha , fazendo- 
]he crer muitas íufpeitas , de que Mamud 

fe 

a Damião Bernardes tendo licença de Nuno da Cunha 
para ir em hum navio Jèu tratar a BenraJa , fe levan- 
tou , e fez, coffairo. Em "Baleacate tomou muitas champa- 
ncis de Mouros , e Gentios amigos dos Portugueses; e na 
Ilha de Negamaíe huma galeota de Rumes com muita fa+ 
Zenda ; e em Chatigam roubou muitos dos (eus moradores \ 
e voltando para a índia , em Çeguimento da çaleota , que 
lhe levava N:mo Fernandes Freire , foi prezo em JVega- 
patam , e levado a Goa , onde na cadeia faleceo fenten- 
ciado em dez. annos para a Ilha de Santa Hiena. Fernão Lo- 
pes de Cafianheda nos capítulos 47. e 4S do liv. 8. e 
Franeifco Ue Andrade no cap. 77. da 2. Farte, 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. III. 473 

fe podia temer dos Portuguezes , dizendo, 
que ieu officio era efpiar as terras , e com 
nome de amigos vinham depois a poder de 
ferro tomar pofle do alheio ; e que elTc mo- 
do tiveram em Ormuz , e Malaca ; e que 
nao era tempo, nem conjunção para fe fiar 
delles , eftando em Chatigam huma Arma- 
da lua , e virem em requerimento de ami- 
zade , coufa que até então nao tinham fei- 
to. Ultimamente fe os Portuguezes nao ti- 
veram alguns Mouros por fua parte , hum 
dos quaes era Alfachan , homem que tinha 
grande authoridade ante EIRey , por fer 
Aio , e Meftre dos moços Fidalgos , que 
ferviam ante elle , e aíli hum Elche Valen- 
ciano , que naquelías partes fe fizera Mou- 
ro , os noííos perderam as vidas. Alas aífi 
neile primeiro Ímpeto d'E!Rey , como no 
tempo queefliveram prezos , fernpre lhes fo- 
ram bons amigos , principalmente hum Gen- 
tio homem virtuofo moralmente , que co- 
mo tal era havido entre elles por fanto , e 
que diziam fer de idade de mais de duzen- 
tos annos ; porque eíle , polo credito que ti- 
nha ante EIRey , o defviou da morte dos 
Portuguezes , e acabaram com elle que fe 
contentade com os prender; e que achando 
que eram os que lhe diziam , então lhe fi- 
cava tempo para os caftigar; e lhe lembra- 
ram que não eflava cm tempo para ganhar 

ini* 



474 ÁSIA de JoÃo de Barros 

inimigos ; c que o Governador da índia 
era fenhor do mar , e os Portuguezes eram 
homens que em breve íè vingavam de quem 
lhes fazia damno. EIRey movido com ef- 
tas razões , e com outras , ou por fazer 
maior preza , ou porque aíli teria ao Go- 
vernador da índia mais fujeito a feus re- 
querimentos , fecretamente efpedio hum feu 
Guazil de muita qualidade , quefoíTe a Cha- 
tigam , e prendeíle a Martim Afronto , e 
aos principaes que com q\Iq eílavam ; e iílo 
de modo que nao vieílem ás armas , por 
fer gente bellicofa ; e para que os Portu- 
guezes não foíTem avifados , mandou , que 
nem per agua , nem per terra paíTaíTe ho- 
mem algum para Chatigam ; e fendo acha- 
do , foíTe logo prezo ; e em quanto efte Gua- 
zil hia , nao curou de mandar prender a 
Duarte de Azevedo , e feus companheiros , 
até lhe vir recado da obra que o Guazil 
tinha feito. 



CA- 



Década IV. Liv. IX. 47? 

CAPITULO IV. 

Como Marfim Affonfo de Mello , e os Por* 

tuguezes que com elle hiam foram 

prezos per mandado d^El- 

Rey de Bengala. 

OGuazil cTElRey de Bengala como foi 
em Chatigam , fingio que vinha muito 
de preíía a negociar cerras coufas para fe 
logo tornar á Corte donde viera. E acer- 
tou , ao tempo de fua chegada, Martim Af- 
fonfo , e feus companheiros eftarem poííos 
em huma aíFronta com os Officiaes da Al- 
fandega ; porque como nella fe pagavam 
por entrada das mercadorias grandes direi- 
tos , alguns dos Portuguezes quando defem- 
barcáram fonegáram algumas coufas das 
que levavam para vender , para não paga- 
rem tantos direitos. O que fabendo os Of- 
ficiaes , tomaram-lhe toda a fazenda per mo- 
do de embargo , até pagarem tudo o que 
eram obrigados per feu regimento. Sabendo 
o Guazil deite embaraço , folgou com aquei- 
la occafiao para entender com os Portugue- 
zes , e Martim Affonfo muito mais com fua 
vinda , parecendo-lhe que por fua intercef- 
são , por fer peííoa tão principal , teria mais 
favorável defpacho. Sendo apofentado o 
Guazil , Martim Affonfo acompanhado de 

mais 



47^ ÁSIA de João de Barros 

mais de cem homens bem ataviados , e ar- 
mados para paz 3 e para guerra , o foi vi- 
fitar de fua chegada. Deííe apparato ficou 
o Guazil confuíb , mas com aftucia de ho- 
mem de Bengala lhe moftrou bom roftro j 
e tocando-lhe Martim AfFonfo nas differen- 
ças que com elle tinham os Officiaes da Al- 
fandega , com boas palavras lhe. fez o caio 
leve , e lhe difle , que fe informaria dos Of- 
ficiaes próprios , e logo o defpacharia , por- 
que também elle fe havia logo de tornar 
paraElRey. Mas elle foi entretendo odef- 
pacho até fe aperceber para o feito a que 
era mandado , e como vio tempo , mandou 
dizer a Martim Affonfo que elle eílava de 
caminho , e tinha leu negocio acabado , 
que fe folTe com feus Capitães , e pcíToas 
principaes a jantar com elle , porque fe par- 
tia ao outro dia. Martim AfFonfo não cui- 
dando a traição que fe lhe armava , e lem- 
brando-lhe as cartas , e prefente que tinha 
mandado a EIRey , fem receio algum fe 
apercebeo , como homem que hia a hum ban- 
quete mais de feita que de guerra L levan- 
do fomente as armas que os homens na paz 
coílumam trazer ; e acompanhado de qua- 
renta peílbas das mais principaes , fe foi a 
cafa do Guazil , onde foram recebidos com 
tanta feita , e gazalhado , quanto podiam 
receber de hum parente, ou grande amigo; 

e fem 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. IV. 477 

e ícm mais detença fe aífentáram a comer 
em hum a varanda térrea, que cercava hum 
grande pario defeuberto. Eítando quaíi no 
fim do comer, fingio o Guazil que lhe to- 
mava hum accidente , e íe levantou dizen- 
do , que lhe perdoaífem , que logo tornava; 
e os Mouros que eram preíentes per modo 
de cortezia fe foram com elle , deixando os 
Portuguezes íós. Não tardou muito que per 
cima das paredes , e partes que cahiam íò- 
bre o pátio appareceo grande número de 
Mouros frecheiros , e eípingardeiros , que 
atiravam a es Portu<ruezes , fem lhes faliar 
coufa alguma. 

Martim Affonfo vendo-fe fobrefaltado , 
e em tamanho perigo, mandou-lhes pergun- 
tar per hum moço que lhe fervia -de lín- 
gua , que porque os frechavam ? Ao que el- 
ies rcfpcndêram , que diífeífe ao Capitão 
daquella gente da parte do Guazil , que lhe 
pagaíícm dez mil pardaos , que lhe tomara 
o Capitão de Malaca. A ifto replicou Mar- 
tim Aífonfo , que dívidas de dinheiro , ain- 
da que foífem verdadeiras , não fe requeriam 
daquella maneira , e mais a quem fe vinha 
metter em cafa de hum homem tão honra- 
do como era o Guazii ; e que mal corref- 
pondiam aquellas obras ao que clle vinha 
áquella Cidade com cartas , e prefenres a 
EIRey de Bengala fobre a paz, e amizade 

que 



478 ÁSIA de JoÁo de Barros 

que o Governador da índia queria ter com 
elle. A eftas palavras lhe foi refpondido com 
muitas efpingardadas , com que derribaram 
a Chriftovão de Mello íobrinho de Lopo 
Vaz de Sampayo , Governador que fora da 
índia , que logo morreo. Vendo Martim 
AíFonfo morto a Chriftovão de Mello, dif- 
fe aos que eftavam com elle : Senhores , mais 
he ijlo que divida de dez mil parados ; 
venhamos d verdade , morramos com a ef- 
pada na mão como cavalleiros , e não com 
ella na bainha , matemos quem nos quer 
matar. E todos juntamente iè arremefíáram 
a huma porta do pátio , para fahirem per 
onde entraram j mas eílava tudo tão tran- 
cado , que não aproveitaram fuás forças ; e 
porque eílando ahi ficavam mais defeuber- 
tos para os frecharem , tornáram-fe a en- 
cantoar no alpendre onde comeram , e nel- 
le mataram ás frechadas Gonçalo Gomes 
de Azevedo , António de Mefquita , Antó- 
nio Gramaxo , e hum page de Gonçalo Go- 
mes fobre feu Senhor , que querendo-o ir 
ajudar a levantar quando o vio cahir, o fi- 
cou acompanhando na morte. No qual tem- 
po eílando já Martim AfFonfo , e outros 
mui frechados , enfraqueceram tanto por o 
fangue que fe lhes li ia , quecahíram. E ven- 
do-fe tão feridos, e poítos ao modo de ga- 
do em curral , e que poucos a poucos os 

Jiiam 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. IV. 479 

Liam matando, difle Martim Affbnfo: Se- 
nhores , aqui não ha outra cavalleria , pois 
eftamos decepados , fenao por-nos eme fia do 
deCbrrJiãos, pedindo a Deos perdão denof- 
fos peccados , porque tieftes taes cafos mais 
obra a limpeza da alma , que a força de 
braços , quanto mais que não ha que efpe- 
rar fenão a mifericordia de Deos ; e pri- 
meiro que venhamos ao artigo da morte , 
em quanto temos alento , e lingua , quero 
perguntar a efta gente , fe quer outra ecu- 
fa de nós , porque fe com dinheiro podemos 
remir as vidas , leve rcmifsao he , e bem 
o podemos fazer ; efe querem a mefma vi- 
da , proteflemos morrer como fieis Chriftaos , 
e martyres debaixo do ferro deftes infiéis. 
Ditas eftas palavras , fe puzeram todos em 
gioihos proteftando a Fé, qucconfeílavam , 
e mandou ao moço, que lhe fervia de lin- 
gua, que d iíTeíTe ao Capitão daquella gen- 
te , que foífe perguntar ao Guâzil que que- 
ria dos que ficavam vivos. O moço tornou 
com recado doGuazil, dizendo, que a cul- 
pa dos mortos fora fua , pois fe não qui- 
zeram entregar á prizao , e que dos vivos 
não queria mais que entregarem-fe para os 
levar a EIRey, que os mandava prender, 
para darem de li razão das culpas que con- 
tra elles pediam iuíliça ; porque dle como 
Rev era obrigado de a fazer a quem lha 

pe- 



4$3 ÁSIA de João de Barros 

pedia ; e que fe elles fe queriam entregar 
para os levar a EIRey, mandaria ceifar os 
tiros , e para illo houveíTem feu confelho. 
Martim AíFonfo quando ouvio cila refpoíla , 
diflfe aos que com elle eílavam : Parece-me , 
Senhores , fer efta a verdade , que a califa- 
do damno que temos recebido , he mais man- 
dado d* EIRey , que a dívida dos dez mil 
parados , que o Guazil dizia dever o Ca- 
pitão de Malaca , porque por t ao pouca cou- 
fa nao Je havia de atrever o Guazil fazer 
tamanho cxceffo , fendo fora ordem d 'EI- 
Rey ; e pois ajfi he , que fará dos outros 
que tem com figo ? peço-vos que cada hum 
de vós cuide o que deveis fazer , porque eu 
nao quero tomar fobre mim a morte alhea y 
nem fou tão bárbaro que queira morrer 
como amou co , como efes Gentios fazem , 
pois fomos aqui vindos por jerviço d" EI- 
Rey Noffo Senhor , por cujo rej peito have- 
mos de cortar pola cava/leria , e não pola 
vida , porque Jegundo entendo , I IRey nao 
quer no ff a morte , fenão noffa prizdo , pa- 
ra algum inter effe feu , que lhe importa 
mais que morrermos todos. Praticado efte 
negocio entre toclos , affentáram em fe en- 
tregar, jurar.do o Guazil cm lua lei que os 
levaria vivos a EIRey ; e para ifíb veio a 
huma janclla do pátio , onde o jurou no 
feu Moçafo. 

Per 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. IV. 481 

Per eíh maneira Martim AfFoníb , e feus 
companheiros , que leriam poucos mais de 
trinta 5 fe puzeram nas mãos do Guazil , 
os quaes logo foram mettidos cm huma ca- 
ia com as mãos atadas , e esbulhados de 
quanto traziam pelos miniftros de fua pri- 
zão a , da qual eícapáram Francifco Pache- 
co , ejoao J ai arte Tição , porque o Pache- 
co não foi ao banquete , por ficar na pou- 
iada de, todos por guarda delia ; e ojuíar- 
te por fer grande monteiro , naquelle mef- 
nio tempo era ido a monte. Os quaes fa- 
bendo o cafo , e prizao de Teus companhei- 
ros j fe acolheram aos navios , e fe puze- 
ram em laivo \ o que não puderam fazer 
outros Portuguezes , e os eícravos Chriftaos 
dos que foram prezos. EIRey foi logo avi- 
fado per cartas do Guazil da prizao dos 
Portuguezes , e ao mefmo tempo o foi Nu- 
no Fernandes Freire per hum Gentio feu 
amigo per nome Darindá , que o conhecia 
já do tempo que eílivera em Chatigam , o 
que Nuno Fernandes logo communicou com 
Duarte de Azevedo ; e confultando todos , 
fe os quizeíTem prender , o que fariam , co- 
mo fabiam o que Martim Aífbnfo paíTára 
antes de fer prezo , aílentáram de fe não 
Tom AV. P.iL Hh dei- 

a E/la prizao de Martim Aflonfo efereve di* outra ma* 
neira Francifco de Andrade nos capitules 80. 6 81. d# 
7. Parts. 



482 ÁSIA de João de Barros 

deixarem prender; mas depois que citando 
elles juntos na poufada , fe viram de íiibi- 
to accommettidos de quinhentos homens ef- 
pingardeiros , lhes pareceo que feria íbbcr- 
ba , e temeridade querer- fe defender , e fe- 
rem homicidas de fi mefmos , diflbram que 
fe entregariam , pois EiRcy o mandava , 
polo que não foram tão enxovalhados dos 
miniítros como Martim Aífonfo , e feus com- 
panheiros. 

CAPITULO V. 

Como Martim Ajfonjò de Mello , e feus com- 
panheiros foram levados a EIRey d Ci- 
dade de Gouro : e do que pajfou An- 
tónio da Silva indo refgatar 
a Martim Ajfonfo. 

Anto que Martim Aífonfo foi prezo 
com os feus companheiros , foram met- 
tidos em hum a caía efeura , fem ferem cu- 
rados de fuás feridas ; e quando veio a noi- 
te , vieram muitos miniítros de fua prizao , 
e apartando huns dos outros , os principaes 
delles puzeram em andores , e os levaram 
todos acompanhados de gente de guerra , 
e caminharam com elles toda a noite ; e 
quando veio ao outro dia , acharam- fe em 
huma povoação chamada Mavá , que feria 
féis léguas donde partiram, Eíte lugar era 

por- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. V. 483 

porto de mar ; e porque o Guazil fe temeo 
que embarcando logo alli em Chatigam po- 
diam aquelles prezos íer tomados pelos Por- 
tuguezes , que citavam nos navios , os man- 
dou de noite áquelle lugar , onde eftavana 
cerros navios de remo aoufo da terra, nos 
quacs mettidos , com as mãos atadas aos 
peícoços , os levaram á Cidade de Gouro. 
A gente dos navios como foube que 
Martim Aifonfo era levado prezo , e outros 
com clle , e que no banquete foram mor- 
tos outros , fahirara-fe do porto de Chati- 
gam , temendo-fe de outro tal perigo ; e co- 
mo foi tempo , foram-fe caminho da índia 
dar novas a Nuno da Cunha daquelle def- 
aftre , de que elle foi mui anojado , por fe 
lhe abrir de novo aquella guerra de Ben- 
gala em tempo , que tinha na índia muitas 
coufas a que cuidar ; e dizia , que a prizao 
de Martim AfFonfo fora em penitencia do 
que elle lhe diíTera , e eferevêra a EIRey 
de Portugal em abonaçao de íua ida áquel- 
las partes , e dos bens que fe podiam con- 
feguir em fazer fortaleza em Chatigam ; e 
fegundo os trabalhos que elle paífou , bem 
purgou eíta informação , de que Nuno da 
Cunha fe queixava , porque elle , e feus 
companheiros não foram tratados como ho- 
mens racionaes , mas como beílas feras. A 
prizao em que osmettêram efeura, nos pa- 

Hh ii ços 



484 ÁSIA de João de Barros 

ços cPEIRcy , defronte de outra, em que 
citava Duarte de Azevedo com os mais da 
embaixada , era huma ícmclhança do infer- 
no , fem ter algum modo de refrigério mais 
que a confolaçaó que recebiam dos amigos 
que diíTemos em fuás neceílidades. 

Nuno da Cunha como a prizao deftes ho- 
mens o atormentava , -tanto que veio a mon- 
ção para Bengala, a grande preíTa fez pref- 
ics huma Armada de nove velas , ( como 
atras diíTemos a ,) em que iriam até trezen- 
tos c cinçoenta homens , c por Capitão An- 
tónio da Silva de Menezes. O regimento 
cue lhe deo , foi , que como apportafle a 
Bengala , a primeira coufa que fizefle fofle 
mandar notificar a EiRey , como elle o 
mandava para faber a caufá da prizao da- 
quelle Capitão , per quem lhe mandara tra- 
tar de paz , e amizade ; porque fazendo el- 
le coufa per onde mereceííe caíligo , o feu 
delle Nuno d-â Cunha bailava para o Ei- 
Rey não mandar prender quando lhe noti- 
ficara fua culpa", por EiRey não violar o 
direito das gentes , que lie não prender , 
nem matar Embaixador, ainda que feja de 
inimigos 3 quanto mais fendo feu , que re- 
prefentava a EIRey de Portugal feu Senhor , 
com quem elle Rey tinha paz, e commer- 
cio. Mas quando elle António da Silva vif- 

• fe 

a No capitulo 25. do livro 4. 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. V. 48? 

fe que EIRey não refpondia com paz , nem 
lhe entregava a Martim AíFonfq , e aos ou- 
tros cativos , então Jhc fizefle guerra a fo- 
go , c a langue. E porque todos eííes Prín- 
cipes Orientaes tem grande vaidade nos pre- 
fentes que lhe levam com as embaixadas 3 
e he meio mui coôumado para bem nego- 
ciar com elles , ordenou Nuno da Cunha, 
que com António da Silva foíTe Jorge Al- 
coforado com hum prefente para EIRey , em 
modo de meíTageiro , para mais levemente 
poder ir á Cidade de Couro, onde EIRey 
eftava ; e acertou que eífando António da 
Silva para partir de Goa , veio hi ter hu- 
ma náo de Ormuz , e nella hum criado de 
Coge Sabadim , que de Chatigam fora lá 
vender íua fazenda 3 e lhe levava outra por 
retorno. E porque Coge Sabadim fora a 
principal caufa de Nuno da Cunha mandar 
Martim Affonfo a Bengala , lançou mão 
Nuno da Cunha de fua fazenda , e defte 
íêu criado , e entregou tudo a António da 
Silva em modo de reprelalia , com tal or- 
dem , que nao havendo per meio de Coge 
Sabadim o que pedia , retiveffe fua fazen- 
c criado , e nao mandaífe Jorge Alco- 
forado a EIRey. 

António da Silva partido de Cochij , 
como foube que em Coulam eftava huma 
náo de Mouro ú carga de pimenta , paf- 

fan- 



486 ÁSIA de João de Barros 

íando per alli , a romou ; c chegando a Cha- 
fígam 3 ordenou logo como per cartas Mar- 
fim Affoníò de Mello íbubelTc de lua vin- 
da j e a elic , e aos outros cativos pareceO 
bem que devia logo de mandar Jorge Al- 
coforado com o prefente a EIRey , pare- 
cendo-lhe que com fua ida acabaria a foi- 
íura de todos ; mas EIRey citava tão duro 
por os mdos intentos que tinha , que não 
refpondeo ao propoílto da liberdade , fo- 
mente que íe tornaíTe a António da Silva, 
dando-lhe huma carta para Nuno da Cu- 
nha em refpofta da que lhe levou , em que 
lhe mandava pedir certos pedreiros, amiei- 
ros , e ourivezes , quaíi em modo do ref- 
gate dos cativos. António da Silva , por- 
que tinha affenrado com Jorge Alcoforado, 
que dentro de hum mez fe tornaíTe , por- 
que paflado elle , como deíèfperado do pou- 
co que acabara com EIRey , havia de fa- 
zer guerra aos lugares do Reino da fralda 
do mar , vendo o tempo ler paflado , e mais 
alguns dias que lhe deo de falhas , parecen- 
do-lhe fer prezo como os outros , queimou 
grande parte da Cidade de Chatigam , por 
ler de cannas ; e pela mefma maneira fez 
entrada em três , ou quatro lugares , fazen- 
do quanto dam no podia , em que cativou , 
e matou muita gente da terra ; mas eíTe da- 
mno pagaram Marcos Barbofa , Gonçalo 

Fer- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. V. e VI. 487 

ífernandes , e Manoel Lobo de Sequeira y 
que morreram , e outros , que foram feridos 
na peleja que teve. Chegada efta nova á Ci- 
dade de Gouro , mandou EIRey apôs Jor- 
ge Alcoforado , que havia três dias que era 
partido ; mas qiuz Deos que efcapou , apref- 
iàndo-fe ornais que pode, por no caminho 
faber o que António da Silva fazia , que 
o veio tomar eftando já de verga d'alto pa- 
ra a índia. EIRey com a indignação da 
que António da Silva fizera , mandou amea- 
çar a Martim Affònlb , e os outros prezos , 
e tirar-lhes ametade do comer, eapartallos 
de dous em dous ; e fe deixou de lhes fa- 
zer mais mal , foi por lhe parecer que Nu- 
no da Cunha por fua carta lhe havia de 
mandar os Oíriciaes que pedia. 

CAPITULO VI. 

Como Xerchan Capitão d* EIRey dos Mo- 
goles fe foi de feu fervi ço para EIRey de 
Bengala , o qual o fez feu Capitão mor , 
e depois fe levantou contra elle , e fe tor- 
nou ao mefmo Rey dos Mogoles. 

EStando Martim Affònfo de Mello , e 
feus companheiros na dura prizão que 
diííemos , como Deos NoíTo Senhor acode 
com fuás mifericordias nos tempos defefpe- 
rados de remédios humanos , em hum mo- 

men- 



488 ÁSIA de J0Ã0 de Barro? 

jnento mudou as coufas ao revés do eíbdo 
em que eftavam ; porque a EIRey Mamud 
poz em tanta ncceílidade , que não fomente 
«ceifou do furor que tinha contra Martim 
Affonfo , e feus companheiros , mas com 
mimos , e favores os começou a contentar , 
e animar ; e para que íe veja melhor quão 
pouca fegurança os tyrannos tem no tempo 
do maior feu repoufo , ( íe elles nefta vida 
o podem ter , ) traremos algum tanto de lon- 
ge a ca ufa per que veio áquelle eílado , que he 
hum dos maiores exemplos de noflbs dias. 
No tempo que Babor Patxiah Rey dos 
Mogoles conquiftou o Reino de Delij , hum 
♦dos Capitães , que naquella conquifta o ferví- 
ram , foi Xerchan , (como atrás diíTemos a , ) 
por os quaes ferviços Babor lhe deo a Ci- 
dade de Chinao , e outras temis que co- 
roeíTe ; e com a mefma reputação em que 
Babor o tinha , ficou per lua morte em íer- 
viço de- Omaum Patxiah feu filho. Acaba- 
da a guerra do Delij , em que elle fora Ca- 
pitão deites doús Reys \ como os Príncipes 
acabado de não haverem tanto meíler os ho- 
mens os defeftimam , e efquecem , e fe não 
dam por tão obrigados por os ferviços pai- 
fados , como por os que cfperam de futu- 
ro , e ou porque EIRey o mandou , ou 
porque o confentio 3 aconteceo hum dia, 

que 

n No capltuto 3. 4 o livro 6. 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VI. 489 

que querendo Xerchan entrar onde eftava 
EIRey, coqaocada dia fazia , não fomente 
lhe defendeo a porta o Official delia , mas 
ainda dos Capitães 5 que prefentes eítavam , re- 
cebeo mao tratamento. Do qual cafo fazen- 
do elle queixume a EIRey , foi a fua re- 
fpofta tal , que delle iè houve por mais in- 
juriado que dos outros; polo que entendeo 
que lhe tinha avorrecimento , que já havia 
dias fentia nelle. Tinha Xerchan hum ir- 
mão ieu por nome Hedelechan , homem es- 
forçado , e de muitos merecimentos , com 
que communicou fua affronta ; e vendo am- 
bos que com as guerras do Del ij acabadas 
EIRey os eílimava em pouco, cque os feus 
Capitães Mogoles os defejavam deílruir por 
ferem naturaes da terra , ordenadas fuás cou- 
ías fecretamente , fe foram para EIRey de 
Bengala. Xerchan ficou com elie em Cou- 
ro , e Hedelechan com cento e oitenta de 
cavalio , que tinha feus , foi tomar huma 
Cidade de Gentios chamada Rotaz per hum 
ardil , havendo muitos dias que EIRey de 
Bengala a pretendia haver , o qual mandou 
Jogo muita gente á preíTa , com que ficou 
Senhor da Cidade. Com eíla boa entrada 
ficaram eíles dous irmãos mettidos no fer- 
viço d'ElRey , e acreditados , dos quaes 
Hedelechan ficou naquellas partes de Ro- 
taz , e a Xerchan mandou EIRey que fof- 

fe 



4<P ÁSIA de João de Barros 

ie por Capitão de cerra gente debaixo da 
Capitania de Mocadam Olam , (que quer 
dizer Capitão do Mundo , ) o qual EIRey 
trazia na parte do Reino dos Paranes vizi- 
nhos aos Mogoles do Reino de Delij , com 
grande poder de gente , por fer feu cunha- 
do , caiado com huma lua irmã. 

Correndo o tempo , veio eíle Mocadam 
Olam a morrer andando no campo com leu 
exercito , em cujo lugar a gente de guerra 
levantou por Capitão mor a Xerchan , por 
o grande credito que já naquelle tempo ti- 
nha por os honrados feitos d'armas que na- 
quella guerra lhe viram fazer , no qual car- 
go EIRey de Bengala o confirmou. Xer- 
chan como vio morto a Mocadam , e que 
elle ficava com a potencia daquelle grande 
exercito, per hum tempo diílimulou o que 
trazia guardado em feu peito , que era vin- 
gar a rnerte do Rey menino , c dos gran- 
des que Mamud matou. E aíli depois de 
ter havido algumas viftorias dos Mogoles , 
que defeiam do Delij ao longo do rio 
Ganges a roubar , com as quaes ganhou 
grande credito entre os Bengalas , e mui- 
to mais por fua liberdade para todos , par- 
te neceííaria para ganhar as vontades da 
gente , começou a tomar a voz contra o 
tyranno Mamud , chamando-fe vingador do 
fangue do menino Rey innocente. 

Nao 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VI. 491 

Não paflaram muitos dias , que cfcan- 
dalizado Omaum Patxiah de Xerchan, por 
o damno que fizera a feus Capitães , veio 
fobre elle , e o desbaratou ; mas Xerchan 
nao ficou tão quebrado , que Omaum fe nao 
contentaífe do concerto de paz que Xerchan 
lhe commetteo , dizendo , que elle faria guer- 
ra áquelle tyranno tão jufta como elle fa- 
bia , pois matara feu Rey , e aos principaes 
homens do Reino , mas que elle o fer viria 
como Capitão que já fora feu tão leal co- 
mo elle íabia; e que não queria mais delle 
que dar-lhe alguma parte do que ganhafle 
para fe manter ; e para fegurança de tudo , 
lhe daria em arrefens feu filho maior Gi- 
lalchan , que o andaííc fervindo com algu- 
ma gente de cavallo. Eíle conceito acceitou 
Omaum , vendo que á eufta de Xerchan , 
fem pôr cabedal de lua cafa , podia acqui- 
rir em Bengala alguma coufa , havendo 
também refpeito que Xerchan fervíra a feu 
pai , e a c\\q lealmente , e que tivera juíla 
cauia de fe ir delle, e de feu ferviço; e que 
a guerra que fizera aos feus Mogoles fora 
como Capitão d'ElRey de Bengala , e de- 
baixo de fua bandeira , como foldado que 
hia ganhar vida , e não como inimigo em 
modo de fe vingar delle ; e também naquel- 
Je tempo tinha Omaum feu intento nas cou- 
fas de Cambaya^ de que atrás eferevemos, 

e por 



492 ÁSIA de JoXo de Barros 

e por iiTo deixou Xcrchan no citado cm 
que citava , que depois o poz a clle , no 
que adiante diremos. Neíta guerra de Cam- 
bava , leu rilho Gilalchan , que andava com 
Omaum em arrefens , fc lançou com Soltam 
Badur , o qual iabendo cujo filho era, e o 
modo como andava , o mandou a leu pai 
mui honradamente , do qual beneficio não 
rcíultou pouco proveito ao Reino de Cam- 
baya , como adiante íe dirá. 

Como Xerchan teve feu filho cm leu po- 
der , ficou com mais animo, e menos re- 
ceio de Omaum para fazer guerra a Ben- 
gala, fem ter com clle conta, para o que 
teve duas caufas principaes ;■ a primeira an- 
dar Omaum algum tanto quebrado daquel- 
la grande potencia de gente , com que en- 
trou em Cambava , porque lá perdeo mui- 
ta , e alguns grandes Capitães , que naquel- 
les defpojos íc fizeram ricos , foram comer 
com repouíò fuás prezas, por andarem mui 
deícontentes dellc j porque vendo-fe com 
tantas viclorias , e tão poderofo , concebeo 
tanta opinião de fi , que não lhe falecia 
mais que mandar-fe adorar , o que lhe cau- 
lava o Anfiam que tomava , (que he o Ópio , ) 
com que os índios fe embebedam mais , do 
que faz o vinho por forte que feja a , per- 

que 

a Ao Andam chamam os Árabes OJiom , e Afíom , pou- 
co corrupto de Ópio , nome que es Gregos lhe deram. Fax." 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VI. 493 

que Xerchan o veio a ter em menos. A ou- 
tra cauía de fe elle níío temer deOmaum, 
era , que RumccJian , que deixando o íer- 
viço d'ElRey de Cambaya Te veio para cl- 
Ic . houve por galardão de feus Jerviços a 
morte , acabando de lhe fazer hum mui 
grande ferviço , e foi efte. 

Tomada per Omaum .a Cidade de Laor , 
ficava-lhe o caftello fituado fobre huma pe- 
na viva , pelo pé da qual corria o rio a 
que os da terra chamam Rave; e havendo 
dous rrjezes que fe defendia, vendo Rume- 
chan a EIRey agaftado , e enfadado de ef- 
perar ai li tanto tempo , diííe-lhe que não 
levaííe má vida , que fe foíTe , e o deixafíe 
a elle com aquelle cargo , que elle lhe da- 
ria o caftello , ou a vida. Partido EIRey 
dalli para huma Cidade perto , deixou dous 
irmãos feus quaíi com todo o exercito , e 
mandou-lhe que deixaífem ufar a Rumechan 

de 

fe o Anfiam da goma , ou lagrima de dormideiras , as quaes 
Crefcem tanto em Cambaya , que ha cafca de dormideira 
capaz de huma canada d 1 agua. Ha muitas diferenças de 
Anfiam -. o do Cairo , a que chamam Meceri , he o mais 
ejlimado , e de mor preço , vai também á índia de Adem t 
e dd outros 1ugare$*vix.inhos do Mar roxo , e fe fax. nos 
Remos áe Cambava , Mandou, eChitor, He tanta a frial- 
dade do Anfiam y que ufando de He incenfideradamente , ma- 
ta-, e os que de ordinário o comem t fe o nTio continuam f 
correm perigo de morte ■. adormece aos que o tomam , com 
que não jentem fus t r atalhos y nem cuidam delles , e em- 
Garcia ifOrta no livro dos fímptes , c drogas da 
Índia , no CoV.oqu.io 4í. 



494 ÁSIA dk João de Barros 

de íeu ardil 3 com que efperava tomar aquel- 
le caftello , o que aíli ie fez per efte artifi- 
cio. Foi-fc Rumcchan pelo rio acima obra 
de três léguas , e lá ordenou hum caftello 
de madeira íòbre barcos , tão alto que pu- 
ácí^c igualar com o outro da Cidade íltua- 
do íbbre a pedra; e como efte rio Rave he 
grande, e cabedal, por íer o legundo bra- 
ço de que fe Aiz o Indo . trouxe por elle 
Rumcchan efta poderoía máquina , com a 
qual tomou de noite o caftello , elle fó com 
os feus Tiix-coo , de que era Capitão , fem 
nefta entrada cile cenfentir Mogoles. Os ir- 
mãos d'EIRey quizeram logo entrar den- 
tro , mas cllc o não confentio , dizendo , que 
elle promettêra a EIRey de lhe fazer entre- 
ga delle , ou de lua cabeça , por tanto a 
elle o havia de entregar. EIRey fabendo 
a nova da tomada do caftello , e o propo- 
íito de Rumcchan , o veio receber delle ; e 
por fentir nas palavras com que Rumcchan 
lho entregou , que efperava que elle Ihedéf- 
fe aquella peça , pois a ganhara per aquelle 
modo , por o não defeontentar deo a Ci- 
dade a feu irmão Camiran Mirzá , dizen- 
do que lha tinha promettida. Todavia Ru- 
mcchan foliou algumas palavras em abona- 
ção de feu faber , e esforço , e quão mal o 
faziam com elle ; e que per menos ferviços 
tinha EIRey dado a Capitães Mogoles maio- 
res 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VI. e VII. 49? 

rescoufas , não chegando á peflba delle Ru- 
mechan com muita parte. Eílas palavras com 
outras deita qualidade não fatisfizeram a al- 
guns Capitães que as ouviram , e as aggra- 
varam muito a Omaum Patxiah , chaman- 
do a Rumechan alevantadiço , e que não fe- 
ria muito commetter alguma traição , por- 
que entre palavras de fua abonação , e de 
feus Turcos diífera : Ah quem me dera dez 
mui Turcos comigo parafer Senhor do Mun- 
do ! desfazendo em as outras nações , donde 
íe feguio que antes de muito tempo Omaum 
feerctamente lhe mandou dar peçonha , e 
aiTi acabou Rumechan. 

CAPITULO VIL 

Da guerra que Xerchan fez a EIRey de 
Bengala , em que os Portuguezes in- 
tervieram : e do concerto com 
que deftfiio delia. 

T Ornando a Martim AfFonfo de Mello y 
e a feus companheiros , que citavam 
prezos com tanta afpereza , veio Xerchan 
apertar tanto a EIRey Mamud de Benga- 
la , que delle eftava bem deícuidado , que 
o temor que tinha defta guerra lhe fez mu- 
dar o ódio que tinha a Martim AfFonfo , 
e aos Portuguezes em amizade , poia opi- 
nião de elles com confelho « e obra o po^ 

de- 



4<?ó ÁSIA de João de Barros 

derem ajudar ; e ainda por mais de preíTa 
terem termos os feus trabalhos , acertou de 
chegar ao porto de Satigam (que he o 
outro porto do braço occidental do Gan- 
ges , ) Diogo Rebello Capitão da pefearia 
do aljôfar , que he no Cabo de Comorij , 
onde chamam Callecaré. A cite Capitão man- 
dou Nuno da Cunha encommendar que fof- 
fe ver fe per algum modo podia per aquel- 
la parte tirar a Martim Arroníò , e aos ou- 
tros cativos. O qual quando foi vifto no 
porto com duas fuítas , e huma atalaia que 
levava , caufou tanto temor ao Capitão da- 
quelle lugar , que logo mandou recado a 
EIRey , dizendo, que temia que por caufa 
do~ cativos Portuguezes , que não foltava , íi- 
zeffe aquelle Capitão outro tal damno na 
terra , como o anno paflado fizera o outro 
Capitão Portuguez nas partes de Chatigam. 
Diogo Rebello por fentir eíle temor , e que- 
rer levar aquelle negocio per outro modo , 
diífe-lhe , que queria mandar hum meíTa- 
geiro a EJPvey , e hum prefente , que con- 
vinha elle dar ordem a ifTo ; o que logo 
fez. O prefente mandou Diogo Rebello per 
Diogo de Spindola feu fobrinho , e com 
elle Duarte Dias , os quaes chegaram á Ci- 
dade de Gouro a tempo que eílava EIRey 
tão apertado de feu inimigo Xerchan , que 
íúo tinha outro deícanço fenao mandar tra- 
zer 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VIL 497 

zer ante íi a Martim AíFonfo , ( porém pre- 
zo , e com grande guarda , temendo que 
lhe fugiíTe para Xerchan , ) e com eJle pra- 
ticava nas coufas daquella guerra ; e como 
queria mandar hum Embaixador ao Gover- 
nador da índia , que lhe mandaffe alguns 
Officiaes , que havia mifter ; mas efta fimu- 
lação de Officiaes eraliança de amizade que 
elle pretendia , com pedir ajuda de Capi- 
tães contra íeu inimigo , por elle ter enten- 
dido que Soltam Badur Rey de Cambava 
por fim de feus trabalhos, no Governador 
achara amparo de vida , e por fe metter em 
fuás mãos o livrara de feu inimigo Omaum 
Patxiah. 

Finalmente chegado Diogo de Spindo- 
la a Corte , ElFvey o recebeo mui bem , e 
mandou a grande prefla ao Capitão deCha- 
tigam em refpofta da carta que lhe efcreveo 
fobre a vinda de Diogo Rebelio , que lhe 
fizeííe muito gazalhado , e lhe diíTeUe que 
logo defpachava o meíTageiro que lhe man- 
dara j e adi o fez , defpachando mui bem 
a Diogo de Spindola. Com elle mandou 
feu Embaixador com requerimento a Nuno 
da Cunha de amizade , e paz 'jeem final 
Tom. W. P. iL li dei- 

a Efle Embaixador chegou 4 índia antes que Nuno 
ãa Cunha fojje a ultima vez a Dio , donde tornando a Goa , 
efpedio looo Vafco Pires de Sampayo com htima Armada 
de nove velas , para ir a foccorrer EiRey de Bengala , 
como per Jeu Embaixador lhe mandara pedir. Os Capitães 



498 ÁSIA de João de Barros 

delia dava efperança de dar em Charigain 
lugar para fazer huma cala forte , quafi ao 
modo d'E!Rey de Cambava quando deo 
Dio ; porque como Martim Affonfo não 
hia a outro fim fenão de tentar fe EIRey 
de Bengala daria licença para fe fazer a 
fortaleza , e para ver o íltio em que íc fa- 
ria ; como vio a EIRey na neceííídade, e 
temor em que eftava , e quantas vezes o 
mandava chamar, foi-lhe dando a entender 
quão feguro teria feuEftado, fe obriga (Te a 
Nuno da Cunha afazer alli huma cafa for- 
te, por os muitos infultos , e incêndios que 
os Portuguezes padeciam quando a Benga- 
la vinham a feus commercios ; e que tendo 
alli efte recolhimento feguro , fempre teria 
até quinhentos Portuguezes preftes para qual- 
quer neceííídade fua , além de porelles obri- 
gar a Nuno da Cunha a lhe mandar toda 
ajuda ; e que do que o Governador fazia 
por eííe , e por os Portuguezes , fe veria 
o que faria quando eílivelfe obrigado por 
tanta gente , tudo em proveito delle Rey 
de Bengala , por razão dos rendimentos 
que havia de ter dez vezes dobrados na en- 
trada , e fahida das mercadorias , porque 

com 

áeftes navios eram António de Mellcr , Francifco de Bar* 
ros de Paiva , Manoel Mascarenhas , Chrijlovao d?Oria , 
Diogo Rebeilo , e outros. Vafco Pires par tio de Cochij em 
Maio y levando comfigo o Embaixador. Fernão Lopes fifi 
Caftanheda no cap. 187. do Uv* %. 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VIL 499 

com temor dos roubos , que alli aconteciam 
muitas vezes , os mais dos Portuguezes não 
oufavam confiar fuás fazendas da guarda de 
huma caía edificada de cannas. Finalmente 
com eftas , e outras razoes enfiadas a efte 
propoíito da fortaleza , aífi tinha Martim 
Aífonlb movido a EIRey naquelles feus 
temores , que não fomente defpachou mui 
bem a Diogo de Spindola , e com elle feu 
Embaixador , mas ainda mandou a Nuno 
da Cunha vinte e dous dos cativos , como 
penhor de fua amizade , defculpando-fe de 
não mandar Martim Affbnfo ; e os outros , 
que ficavam por razão de folgar muito de 
os ter junto comfigo ; e ainda por mais ado- 
çar a vontade de Nuno da Cunha para o 
que lhe mandava requerer, fez que Martim 
AfFonfo lhe efereveífe huma carta em favor 
de feus requerimentos. 

Nefte tempo fazia EIRey tanta conta 
de Martim AfFonfo, que querendo feu ini- 
migo Xerchan entrar per hum certo paífo 
da fortaleza de Gorij , que diíTemos eftar 
na quebrada , perque o rio Ganges fahe para 
as terras de Bengala , per feu confelho man- 
dou lá doze Portuguezes , quaes dle no- 
meou , para darem ordem aos Bengalas, 
como defendeífem o paífo , os quaes hiam 
em duas fuílas , de que foram Capitães João 
de Villalobos , e João Corrêa y e já confiava 

li ii tan- 



$oo ASL\ de Joio de Bakros 

tanto nelle, c em feu confelho, que o tra- 
zia folto ; mas o temor o fazia per outra 
parte delconfiado de o perder , e aíli per 
olho o trazia prezo , pofto que mimofo de 
veftidos , e dinheiro quanto elle, eos com- 
panheiros haviam mifter. 

Xerchan por Jhe fer impedido o paíTo 
pelo esforço , e inauftria dos noflbs per on- 
de determinava de tomar a Cidade de Fer- 
randuz , que efta vinte léguas da Cidade de 
Gouro , onde EIRey eílava , foi buícar ou- 
tra quebrada da ferra , pela qual veio á Ci- 
dade de Gouro , e affirma-fe que trazia qua- 
renta mil de cavallo , e mil e quinhentos 
elefantes de peleja, e duzentos mil homens 
de pé , e pelo rio abaixo trezentas alma- 
dias, cada huma com dous remeiros, e três 
frecheiros. Tanto que Xerchan paliou a fer- 
ra per outro porto, e não per onde os nof» 
íbs eftavam , o Capitão Bengala , que com 
elles eílava na Cidade de Ferranduz , defam- 
parou aquelle lugar , com que o Capitão 
de Xerchan , que alli eílava com aquellas 
almadias , fe veio pelo rio abaixo ter a Ci- 
dade de Gouro , entre a qual , e o exerci- 
to de Xerchan , fe mettia o Ganges , no 
qual tinha EIRey oitocentos para os para 
lhe defender a paffagem. Neíla defensão oi- 
to Portuguezes em hum paráo , de que era 
Capitão Duarte de Brito , fizeram marava- 
lhas , 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VII. ?oi 

lhas , principalmente por tomarem hum ele- 
fante , que vinha pela agua abaixo , que EI- 
Rey muito defejava , e mandou que lho to- 
maílem per modo de vicloria , eilando elíe 
vendo a peleja de lugar bem alto, que ca- 
bia fobre o rio. Eíle elefante cuítou a vida 
de João de Vilialcbos , de Affoníb Vaz , e 
de Manoel Vaz , que eram dos oito do pa- 
ráo. Mas todavia Xerchan aíli apertou a Ci- 
dade , que veio EIRey aíTcntar pazes com 
elle cem tenção , que da índia efperava que 
o feu Embaixador lhe trouxeíle gente para 
fe defender deite inimigo , que o apertava. 
O concerto das pazes foi, que Xerchan do 
arraial donde eftava havia de fazer huma 
adoração, ou humilhação a EIRey de Ben- 
gala , a que elles chamam Sumbaia , e fe 
foíie Jogo ; e que EIRey de Bengala para 

(Dsgar aquella gente que alli trazia, lhedéf- 
è huma fomma de dinheiro; mas no con- 
felho de EIRey dar efte dinheiro, não foi 
Martim AíFonfo , antes o contrariou, dizen- 
do, que com eíle lhe faria depois a guer- 
ra. Porém como Mamud fe levantara com 
o Reino , e não era Rey legitimo , fenao ty- 
ranno , não fomente fe temia dos inimigos y 
mas dos feus vaííallos, edomeílicos, e an- 
dava tão aíTcmbrado , que além daquella fom-? 
ma d'ouro que dera em público , deo fecre- 
tamente outra tanta por fe aquietar. 

C A- 



502 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VIII. 

Como EIRey de Bengala deo liberdade 
a Marthn Affonfo de Mello , e licença que 
fe fojje para a Índia : e como Xerchan veio 
contra EIRey , e lhe tomou a Cidade de 
Gouro , e EIRey fe foi a Omaum Patxiah y 
e do que lhe fuccedeo. 

^7 LRey Mamud de Bengala como fe 
_L vio defaíTombrado de Xerchan , e co- 
meçou a ter efperança que Nuno da Cu- 
nha o ajudaria por a embaixada que lhe 
mandou , deo licença a Martim Affonfo , 
e aos feus companheiros que fe fofiem pa- 
ra a índia, e que fomente ficaíTem em mo- 
do de arrefens Affonfo de Brito a } António 

Paes, 

a Eífe Affonfo Vai de Brito defpachou de Cochij Már- 
tir» Affonfo de Soufa , per ordem da Governador Nuno da 
Cunha , em liuma fu/ta para Bengala , a refgatar Mar- 
tim Affonfo de Mello Jufarte. Cheirou AJfonJo Vaz a Chã' 
tigam , e dalli foi ao Gouro , onde deo a EIRey Inima car- 
ta de Martim Affonfo de Sotifa , em que lhe dava ra-^ão 
dos fucceflos paffados de Cambaya , que eflorváram ao Go- 
vernador mandar-lhe aquells atino ofoccorro de gente , que 
■per feu Embaixador lhe mandara pedir , a qual lhe envia* 
ria o anno fegninte ; e pedia-lhe Martim Affonfo de Sou/a 
que déffe liberdade a Martim Affonfo de Mello. Per ejla 
carta , e 'promefja deo EIRey licença a Martim Affonfo de 
Mello , e a feus Companheiros para que fe fojjem para a 
índia y os quaes fe embarcaram na fujla de Affonfo Vaz 
de Brito , e chegaram a falvamento a Goa. Fernão Lov 
pes de Caítapheda nos capítulos 17 j. e 1S0. do livro 8* 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VIII. 5-03 

Paes , Nuno Fernandes Freire , e João 
Adam; e fez Deos mercê a Marrim Affon- 
fo em ler logo partido , porque nas coitas 
delle veio recado a EIRey para o entreter, 
por ter novas que Xerchan vinha outra vez 
mais poderoíb ibbre a Cidade de Gouro; 
e íua vinda era por íer paliado hum anno 
depois que recebeo aquelía grande quantia 
de dinheiro , pedindo-lhe que lhe déífe ou- 
tro tanto por ler paííado o tempo , dizen- 
do que era tributo annual ; e porque EIRey 
o negava , elle veio, e cercou a Cidade, 
c a ferro , c a fogo a tomou , não perdoan- 
do a coufa viva , até chegar ás calas d'El- 
Rey a ? das quaes lhe a EiRey conveio ia- 

hir, 

o I<o tempo que Xerchon totncu a Cidade âe Gouro , 
chegou a Chatigam Vafco Pires de Sampaio com huma 
Armada , que o Governador mandava emfoccorro a?ElRey 
de Bengala» Aehou aquelía Cidade mui alvorotada com as 
guerras , e difeordia que então havia entre Codavafcam t 
e Amarzacam , pretendendo cada hum fer Senhor da Cida- 
de. Delia fe pudera facilmente apoderar nejla occajião Vaf- 
co Pires , como lhe aconfelhava Nuno Fernandes Freire > 
e ofereciam alguns Bengalas , mas elle attendeo a fazer 
muita fazenda em Chatigam , onde invernou , e da/li foi a 
Pega , e nelle faleceo. 

Em quanto e/leve em Chatigam , aportou em hum rio 
êuat'0 léguas daquella Cidade huma galeota com Jeffenta 
Turcos , que fe derrotaram da Armada de Soleimão Ba- 
nia ■, o que fahendo Vafco Pires , mandou Francifco de 
Barros na fua fufla , e alguns calaluxes com gente , que 
fofje tomar a galeota dos Turcos ; mas elíes fe defenderam 
ée maneira , que voltaram os Portugueses escalavrados ; 
C pojlo que Vafco Pires pudera tomar fatisfacao dejla «fi 



yo4 ÁSIA de JoÁo de Barkos 

fiir , e pelejar com a mais efcolhida gente 
que rinha comíigo , até receber três , ou qua- 
tro feridas , com que fe falvou trabalhofa- 
mente, ao qual feguíram alguns feus fami- 
liares , e com elíes paíTado o Ganges foi 
em bufca cPElRey dos Mogoles Omàum 
Patxiah , a lhe pedir o viefle reíHtuir em feu 
Reino , a quem já quando paíTou a primeis 
ra affronta com Xerchan , tinha mandado 
feus Embaixadores com grandes prefentes , 
e promeíías do que lhe daria , vindo-o a focr 
correr. Omaum movido de cubica das pro- 
meíías , fabendo fer efte o mais rico Rey 
daquelle Oriente , mandou logo hum íeu 
Capitão diante , que veio encontrar a El- 
Rey fete , ou oito jornadas de Gouro , in- 
do ainda com as feridas abertas da bata- 
lha , de que morreo depois que fe vio 
com eíle Capitão Mogol. O Capitão por 
honra de feu Rey o mandou embalfamar, 
e pofto em andas com toda a pompa , e 
ceremonia que elle pode fazer , o levou ca- 
minho de Gouro, dizendo, que hia entre- 
gar aquella Cidade ao corpo de feu Rey, 
onde com toda a folemnidade o havia de 
fepultar. 

No 

fronta , ríio qttiz fazer ; -porém Chriftovao de Oria vin- 
gou a Francifco de Barros , tomando aos Turcos a galeo* 
ta com toda a artilhcria , e riqueia , que neíla tinham s 
que era muita. Fernão Lopes de Caílanheda no cap» 20 1 9 
ffo tiv, S, 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. VIII. fOf 

No tempo que eftas coufas paíTavam , 
Xerchan aproveitando-fe de fua vicloria , 
esbulhou o mais precioíb do thefouro , que 
o Rey morto tinha nos íeus paços. A forn- 
iria de pedraria , pérolas , aljôfar , ouro , e 
prata , foi coufa tão grande , que fe nao po- 
de faber. Os Portuguezes que fe acharam 
naquelle tempo no mefmo esbulho , nao 
fouberam dar diíTò mais razão, que perefc 
paço de dezefete dias andarem trezentos ca- 
ialuzes , que são navios de remo grandes , 
carregados daquelles thefouros , aos paífar 
da banda dalém do Ganges , e que foi o 
maior thefouro que fe fabia naquellas par- 
tes de Oriente ; e era fama que paííava 
aquella preza de feífenta milhões d 5 ouro. 
No fim defte recolhimento de Xerchan com 
efte defpojo , chegou Omaum Patxiah , por 
]he ir nova da morte d'ElRey Mamud, 
ao qual Xerchan mandou orTerecer hum con- 
to d'ouro , e que nao entraíTe na Cidade , 
por o povo delia não receber algum damno 
da fua gente d'armas ; e vendo que fe não 
contentava Omaum com eíla promeíla , co- 
mo hum eftava de huma parte , e o outro 
da outra do rio Ganges , e Xerchan fe po- 
dia ir com a preza em falvo , fe foi com 
ella. Omaum porque o não podia feguir 
como defejava , quiz primeiro fazer as hon- 
ras ao Rey morto 3 e como feu herdeiro 

to- 



506 ÁSIA de João de Barros 

tomou poíTe da Cidade , e afíi dos merca- 
dores , como de alguma gente nobre del- 
ia houve huma boa fomma de dinheiro 
para o pagamento da gente que trazia. To- 
mada poííe âa Cidade , deixou por Rey del- 
ia a Mir Mahamed Zaman feu cunhado, 
com quem já eftava reconciliado > e alTen- 
radas todas as coulas , e ordenada gente pa- 
ra íua defensão , tornou-fe para feu Reino 
de Dclij. Mas Mir Mahamed Zaman não 
durou rnuito no Senhorio da Cidade , por- 
que Xerchan como poz o dinheiro , e ri- 
quezas que delia tirou em as lerranias da 
Cidade de Rotaz , onde tinha fuás mulhe- 
res , e filhos , per armas o lançou de Gou- 
ro. 

CAPITULO IX. 

Como fe ajuntaram Xerchan \ e Omaum 

Patxiah Rey dos Mogoles na Cidade de 

Canofe junto do 'rio Ganges , e foi 

desbaratado Omaum. 

OMaum Patxiah não podendo fofFrer os 
mimos que a fortuna lhe fazia com 
tantas viftorias , determinou de perfeguir a 
Xerchan , e tentar fua fortuna contra elíe \ 
polo que bufeando-o Omaum , fe encontra- 
ram junto do rio Ganges antes que com 
elle fe incorpore o rio Jamoná no lugar on- 
de da parte do Ponente do rio eftá huma 

V-d— 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. IX. 507 

Cidade , que fe chama Canofe , das princi- 
pães do Reino de Delij. Xerchan eftava 
além do rio na Comarca a que os naturaes 
chamam Purbá ; e íabendo que Omanm o 
hia bufcar , chegou-fe junto do rio Ganges , 
hum pouco perelle acima, apartado da Ci- 
dade de Canofe, o qual lugar elle efcolheo 
para fe melhor defender , porque de huma 
parte lhe ficava o rio , e da outra o fitio 
da terra , que elle por mais defenfavel ef- 
colheo. Omaum como foube que Xerchan 
fe fazia alli forte , fubio-fe acima , e poz 
feu arraial defronte do outro de Xerchan , 
fem haver mais entre elles que a agua do 
rio , que também lhe fervia de beber tama- 
nho exercito como trazia , ficando elle da 
parte de Ponente do rio , e feu inimigo da 
de Levante ; e para paííar ordenou huma 
ponte de madeira aíTentada fobre barcos , e 
foi tomar lua eftancia mui vizinho a Xer- 
chan ; e para lhe dar batalha , repartio fua 
gente em trcs efquadróes , dous deo a dous 
íèus irmãos Hildan Mirzá , e Afcarij Mir- 
zá , C3da hum de trinta mil homens de ca- 
valío , e elle tomou o terceiro que era de 
quarenta mil , porque fe affirma que de ca- 
vallo eram cem mil , e de pé cento e cin- 
coenta mil , a fora a gente do ferviço do ar- 
raial , que feria de mais de duzentas mil al- 
rnas, Xerchan per o mefmo modo repartio 

qua- 



£08 ÁSIA deJoao de Barros 

quarenta e cinco mil homens de cavallo , 
çne trazia em três batalhas , dando a feu 
filho Gilachan dez mil , e outros dez mil a 
hum feu Capitão Capado per nome Avaf- 
chan , e ellc ficou ^om o reíto. Vindo hu- 
ma manha Omaum demandar o campo de 
Xerchan para pelejar , elle não quiz fahir 
do feu arraial , e deixouxfe eftar efperando 
que o commetteííe dentro das forças que 
tinha , polo que Omaum fe tornou ; e da- 
hi a dous dias o mefmo Xerchan fez ou- 
tro tanto de ir demandar a Omaum as por- 
tas de feu arraial , a quem também Omaum 
não fahio , ate que ao outro dia portos em 
campo fe deram batalha. O Capitão Avaf- 
chan a noite que precedeo o dia da bata- 
lha fe foi pelo rio acima , levando comfi- 
go dous mil de cavallo , que elle efeolheo 
dos dez mil que tinha , deixando com os 
oito mil hum feu Capitão de confiança, ao 
qual mandou que rompeíTe no tempo , em 
que cftava ordenado que a fua gente havia 
de romper, fem alguém faber que elle era 
aufente , porque aífi convinha para haverem 
vicloria dos inimigos. Chegado efte Avaf- 
chan a hum lugar perque elle fabia que o 
rio fe vadeava , o paílbu da outra banda , 
e veio per elle abaixo , até fer na ponte que 
Omaum fizera , e trabalhou por vir a tem- 
po que as batalhas já andaíTem travadas ; e 

paf. 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. IX. 509 

paflando por ella deo nas coitas dos inimi- 
gos , e acertou de fer na gente de Afcarij 
Mirzd irmão de Omaum. O qual como fe 
não temia daquella parte , recebeo tanto da- 
mno naquelle primeiro ímpeto que deram 
nelle , que começaram de ie pôr em fugida 
demandando a ponte , a qual acharam que- 
brada per Avafchan , por eíte fer o feu ar- 
dil ; e quando fe viram tão apertados dos 
inimigos, e a ponte quebrada, lançáram-fe 
a nado por falvar as vidas. Xerchan ícntin- 
do a vicio ri a , e íèndo aviíado do que paf- 
fava, começou de apreífar, e appellidar os 
feus , dizendo : Ao rio com elles* E pondo- 
fe as outras batalhas de Omaum também 
em fugida , per o mcfmo caminho , foi cou- 
fa laítimola de ver lançar-fe tanta gente ao 
rio, que andava coalhado delia, e fazia re- 
prezar a agua ; porém não levantava tanto 
que os ajudaffe para ter afahida chã, por- 
que havia humas ribanceiras , por o rio ir 
aili fundo, perque os cavalios não podiam 
fordir , e fe afogavam a íi , e a feus fenho- 
res , que por fe falvar os foffreavam mais 
do necefTario. No trabalho deita paíTagem 
eíteve Omaum quaíi afogado , fe lhe não va- 
lera hum feu efcravo Abexij homem gran- 
de de corpo , e forçofo , que por faber bem 
nadar o falvou , tirando-o fora do cavalío , 
de que fe não fabia defembaraçar. Final- 



5Tio ÁSIA de JoÃo de Barros 

mente ellc deixou feu arraial fem fazer mais 
conta que pòr-fe em íaivo com vinte e cin- 
co de cavallo, que o feguíram , e não pa- 
rou menos que na Cidade de Laòr , onde 
feu irmão Camiran Mirzá o recebeo com 
mais gazalhado , e amor do que elle teve 
quando com peçonha oquiz matar, de que 
ainda Mirzá não citava fem perigo. 

E acauía deita peçonha foi, que fendo 
efte Camiran Mirzá filho fegundo de Babor 
Patxiah , e irmão déíle Omaum , quando feu 
pai veio áquella conquifta do Reino de De- 
lij , (como atrás eferevemos , ) deixou a ef- 
te Camiran por Governador do feu Reino 
de Mogoftan , o qual partido feu pai, lhe 
fez logo guerra Abiethan Rey de Samar- 
cant , que era feu vizinho , vendo que Ba- 
bor andava oceupado na guerra do Delij. 
Camiran por fer bom cavalleiro fe defen- 
deo de maneira , que fendo Abiethan Em- 
perador de Tártaros Usbeques , e Chaca- 
tais , veio a fazer pazes com Camiran , por 
fe lhe abrir outra guerra com Xiah Ifmael , 
peia parte do Reino de Horacan , que con- 
finava com elle. Acabada efta guerra , Ca- 
miran Mirzá fendo já feu pai falecido , e 
iabendo ter Omaum feu irmão mais velho, 
e fueceífor do Reino , neceílidade de gente 
contra Xerchan , o veio ajudar ; e como 
Camiran em todas as viítorias que Omaum 

hou- 



Dec. IV. Liv. TX. Cap. IX. 5-11 

houve fe moftrou bom cavalleiro, ecrã li- 
beral , e arfabil á gente , que são as partes 
perque os Príncipes mais vontades acqui- 
rem , todas as coutas que naquella guerra 
fuecediam bem , eram attribuidas a eile , e 
não a Omaum. Polo que Omaum lhe co- 
meçou a ter inveja , e ódio , de que fe cau- 
fou , que indo Omaum em buíca de Xer- 
chan j que o desbaratou , tendo para íi que 
tinha vicloria certa por a deíigualdade de 
feu poder ao do outro , por náo dizerem 
que feu irmão Camiran fora caufa de fui 
vicio ria, .determinou de o não levar com- 
íigo ; e por mais diílimulaçao o levou três , 
ou quatro jornadas , e alli lhe mandou dar 
peçonha leve , que lhe impediííe ir mais 
adiante. Difto fe aíFrontou muito Mirzá , e 
entendendo a tenção de leu irmão , fe tor- 
nou para a Cidade de Laor , que lhe cile 
tinha dada, e quando Omaum a elle veio 
desbaratado, ainda leeftava curando da pe- 
çonha que obrava. 

Tornando a Xerchan , tanto que foube 
que Omaum fe puzera em fugida por fal- 
var fua peííoa , mandou a feus Capitães que 
ninguém o feguiíTe , nem aos feus , e que 
os deixaífem ir em boa hora , pois no ar- 
raial deixavam a honra , que eram fuás mu- 
lheres , e a fazenda que tinham , que com 
iflb fe deviam por então de contentar , por- 
que 



5*12 ÁSIA de João de Barros 

que o mais era tentar de indignação a for- 
tuna , que tão levemente lhe dera a viOlch 
ria delles. E comoj Príncipe politico , e não 
como homem bárbaro, achando no arraial 
as mulheres de Omaum , elle as mandou 
tratar com toda a honemdade , e fez tanta 
honra á principal delias , chamada Begiun , 
como fe fora huma Rainha fua Senhora , 
aíli no tratamento de fua peííoa , como em 
todo o feu ferviço. Outro tanto mandou 
fazer á irmã de Omaum , mulher de Mir 
Mahamed Zaman feu cunhado , que naquel- 
la batalha morreo j e por não trazer no cam- 
po eítas mulheres nobres , e outras de fua 
cafa , em quanto fe andava fegurando dos 
Mogoles , as mandou mui acompanhadas 
á Cidade de Rotaz , que feu irmão toma- 
ra aos Gentios , onde elle tinha fua mu- 
lher , por fer coufa mui forte. Paífado hum 
anno , Xcrchan mandou eítas duas Prince- 
zas com algumas luas criadas a Omaum 
Patxiah , dando-lhes maiores jóias , e mais 
ricas peças do que ellas tinham. Omaum 
chegando a Cidade de Laor no eílado que 
diílemos , com fó vinte e cinco de cavai- 
lo , que o feguiam , feu irmão Camiran 
Mirzá o recebeo , como fe delle tivera re- 
cebido obras de muito amor , e não o bo- 
cado de peçonha que o chegara á morte ; 
e aíli o fervio , e proveo do neceífario tão 

per- 



Dec. IV. Lrv. IX. Cap. IX. e X. 5-13 

perfeitamente como fe elle eftivera em fuá 
caía com toda fua profperidade. 

CAPITULO X. 

Como Orna um Palxiah foi bujear foccor ro- 
de alguns amigos , e va/Jallos feus , e 
lho não deram , e o foi pedir ao 
Xiah Tamas , que lho deo. 

A Gente do arraial de Omaum Patxiah 
como íòube que elle era falvo , e os 
inimigos o não leguiam , como cada hum 
pode , huns per huma parte , e outros per 
outra, fe vieram ajuntar na Cidade deLaor, 
onde íabiam que leu Rey citava ; e os que 
fe acharam nella juntos , dizem que eram 
duzentos mil homens , de que os viiue mil 
eram de cavallo. Mas não fe atrevendo 
Omaum naquelleeítado , ecomaquella gen- 
te eíperar aili , antes que Xerchan o vieífe 
bufear , determinou de deixar por então o 
Reino de Bengala , por não eftar podero- 
fo para o conquiftar , e vencer feu inimi- 
go , a quem os Patanes haviam antes de 
querer obedecer , por fer feu natural , que 
a elle que era Senhor eítrangeiro , e aíli fe 
reíblveo de deícer ao Reino de Cinde , on- 
de citavam três , ou quatro vaííàllos feus, 
e que já foram Capitães de feu pai , e fe 
.intitulavam Revs , e pedir-lhes ajuda para 
:JV.P.lL KIc to*- 



5*14 ÁSIA deJoáo de Barros 

tomar outra vez o Reino de Cambava , en- 
trando pelos Resbutos , que ficam entre o 
Cinde , e o Guzarate. Para cita empreza lhe 
pareceo boa occafiao as divisões, edefafo- 
cegos , que entre os grandes do Reino ha- 
via pola recente morte de feu Rey Badur; 
e por a prática que já tivera com Nuno da 
Cunha parecia-lhe , que dando-lhe os por- 
tos de mar que em Cambava quizefíe, (co- 
mo já lhe offerecêra,) elle o ajudaria , e 
com eíla ajuda dos Portuguezes efperava 
nao fomente ganhar o Reino de Cambava , 
e aílegurallo , mas tornar-fe a reílituir , e 
reformar em tudo , para fe vingar de Xer- 
chan , de quem elle fempre fez pouca con- 
ta ; mas menos a fizeram delle aquclles , em 
quem elle efperava. 

Porque chegando Omaum perto da Ci- 
dade de Moltan , íituada ao longo do Rio 
Indo , cujo Senhor fora Capitão de feu 
pai , fabendo elle que vinha Omaum des- 
baratado , ao coílume do Mundo que favo- 
rece aos que eftam mui profperos , e def- 
preza os que vê defeuidados , por o náo 
agazalhar em Moltan , lhe mandou per ba- 
téis a hum certo paíío alguns mantimentos, 
para com elles efeufar a Omaum de o ir 
bufear á Cidade, temendo que a neceílida- 
de o obrigaíTe a iíTo. O mefmo defengano 
achou Omaum em Mirzá Xiah Hocen feu 

vaf- 



Dec, IV. Liv. IX. Cap. X. 5-15* 

vaflallo Senhor de Tatá , ( Cidade aíTenta- 
da em hum cotovello 5 onde o rio Indo fe 
parte em dous braços principaes , com que 
íe mette no mar , e diftante delle pouco 
mais de vinte e cinco léguas ; e polo íitio 
mui célebre , por fer huma efcala de quan- 
to fòbe , e deíce per aquelle famofo rio,, 
ao longo do qual occupa huma légua e 
meia , ) porque caminhando Omaum para 
efta Cidade , fabendo Mirzá Xiah Hocen 
de fua vinda , o não quiz ver , e para iíTp 
mandou recolher todas as embarcações que 
andavam no rio, porque não achaííem ern 
que o ir buícar á Cidade de Tatá , e nella 
fe fez forte , para que vindo Omaum lho 
não pudeíTe fazer damno. a O qual chegan- 
do junto deita Cidade com a maior parte 
de lua gente morta de fome , fede , e tra- 
balho do largo , afpero , e defpovoado ca- 
minho que ha de Laor a Tatá per diftan- 
cia de cento e quarenta léguas , vendo a in- 
gratidão daquelles feus Capitães , e vaíl.al- 
los antigos , fruílrado das efperanças que o 
alli trouxeram de melhorar íeu efíado , de- 
terminou de fe ir para o feu Reino de Mo- 

Kk ii gof- 

a contrario efcreve Diogo do Couto no cap. j. do 
Jiv. io. ajfir mando que Mirzá Xiah fahio a rece.hr Omaum 
tom muita honra , e o confohu de fua de/graça , ojferecen- 
do-lhe léus Ejlados , e thejouros ; e por Omaum querer paf- 
far A Per (ia , lhe deo Mirzá muitos cavai/os , jóias 3 e di* 
nhei'0. para a jornada- 



$i6 ÁSIA de João de Barros 

goffan. E aconfelhahdo-lhe feu irmão Ca- 
líuran Mirzá que primeiro puzeíTe cerco áquel- 
la Cidade , c deftruifle a Hocen , como me- 
recia íua rebelião , Parxiah lhe reípondeo : 
Parece-vos que ganharei bom nome entre 
os Príncipes da terra , que vencido de hum 
meu Capitão podcrofo , venho empregar mi- 
nhas forças cm outro tão fraco como efte 
hc ? Deixai-o , que jd pode fer que ajji co- 
mo cu ora o venho bufcar para me ajudar 
com elle , ajji hufcard ella ajudas em ou- 
trem , que me vingará do que me ora faz. 
O que fuccedeo aííl ; porque os Portugue- 
zes lhe deítruíram aquella Cidade por luas 
malícias , mandando-os elle bufcar para íua 
ajuda. a Refoluto Omaum na jornada de 
Mogoftam , fez volta pelo rio acima para 
paiTar á Cidade de Bacar, que atrás diíTc- 
mos citar no meio do rio Indo , per onde 
paliam as cáfilas , que vem da Períia para 
a Cidade de Candar. Elle caminho fez com 
não menor trabalho , porque da Cidade de 
Bacar até Candar ha alguns dias de de ferro 
fem agua ? onde de fede lhe morreo muita 
gente. 

Chegado Omaum á Cidade de Candar , 
que era de feu Senhorio , mandou dalli hum 
Embaixador ao Xiah Tamas Rey da Períia 

a lhe 

a Efia Cidade de Tatá dejlruio Pêro Barreto em 
t-mpo que governava a índia Francifco Barreio jfèu fcV< 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. X. ftf 

a lhe pedir licença para o ir ver , e lhe dar 
conta de íeus trabalhos. Ao qual elle re-< 
fpondco , que nenhuma couía mais defeja- 
va que velío para lhe pagar quanta honra 
elle tinha dito que lhe havia de fazer quan- 
do folie ante elle. Efia refpoíla foi cm mor 
do de remoque , por o que Omaum diílera 
delle ; porque eftando hum dia torvado da 
snfiam , (ao coítume daquella gente que o 
tomam para certos fins , e fe embebedara 
com elle , fem fe diíTo affrontarem y coma 
as gentes feptentrionaes fa.zem quando com 
o vinho fe emborracham , ) entre muitos dei- 
vários , e defconcertos que difle , foi contar, 
perante alguns de feus Capitães , que. elle 
tinha por nova que três Principes o queriam 
ir ver , como ao maior Principe que havia 
no Mundo. Hum delles dizia que era Abie-r 
than Rey de Comarca nt , o outro era o 
Xiah Tainas Rey da Períia , o terceiro a 
Grã Turco ; e porque elle defejava de lhes 
fazer honra, lhe diíTefíem como lha faria; 
e dizendo os Capitães que ninguém podia; 
ter niflb melhor parecer que elle , que per 
eftado , grandeza, e cavalleria era Senhor 
de toda a honra do Mundo.: Omaum enle^ 
vado da va. gloria , e torvado do anfiam , 
difle , que quando aquelles Principes vief- 
lem a elle, havia de aíTentar á fua mão dn 
reita a Abiethan Rey de Comarcant, por 

fer 



yi8 ÁSIA de João de Barros 

fer Chacatai , e de fua nação ; e a Xiah Ta* 
mas Rey da Perfia , porque feus pais fo- 
ram grandes amigos , e era bom cavallei- 
ro , o a/Tentaria á mão efquerda , e que ao 
Grã Turco por haver alcançado muitas vi- 
élorias de Chriítãos , poílo que era de bai- 
xa origem , o mandaria aíTentar na entrada 
da caía , entre fi , e feus cavalleiros. Deita 
prática foi fabedor o Xiah Tamas , e por 
iíTo lhe refpondeo daquella maneira , o que 
Omaum não entendeo , porque lhe lembra- 
va pouco do que dizia , e fazia naquella 
torvação ; e com a refpoíla do Xiah Ta- 
mas determinou de fe ir ver com elle , e 
âffi defpedindo dalli Aítarij Mirzá feu ir- 
mão • que fe foíTe para Cabol Cidade prin- 
cipal do Reino de Mogoftan , lhe mandou ? 
que em quanto elle fazia aquella viagem , 
lhe ajuntaflè a mais gente que pudeíTe , pa- 
ta que quando tornaííe eíliveíTe preíles para 
ir com ella a cobrar o que tinha perdido , 
è com mil de cavallo fez feu caminho para 
a Perfia. 

Xiah Tamas como teve nova de fua ida 
três jornadas primeiro que chega ffe a elle , 
lhe mandou três Capitães com. grande ap- 
p? r ato de todas as coufas para o irem re- 
ceber , e lhe nzeíícm o cufto do caminho. 
Chegado Omaum a hum campo , onde o Xiah 
Tamas tinha aííèntadas fuás tendas ao feu 



coí 1 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. X. yio 

coílume , que fempre anda no campo , e não 
reíide cm Cidades , dando a entender cjuq 
andava á caça per alli , o recebeo dentro 
em ília tenda com toda a mageftade , e pom- 
pa que pode , porque os Mouros neftas vi- 
íi tacões j e recebimentos são mui váos , e 
moítram niíTo todo feu poder. Omaum Pat- 
xiah, que era cortezão , e bom poeta na lín- 
gua Períla , de que fe prezava, e tinha gra- 
ça no que dizia nella , quando veio a fe 
abraçar com o Xiah Tamas , abaixou-fe tan- 
to , que quafi ficou aos feus pés , e aludin- 
do o feu próprio nome ao do páilaro das 
Ilhas de Maluco a , a que os Perfas cha- 
mam Omaum 3 (o qual os Principes daquel- 
ias partes trazem na cabeça por pennacho ao 
modo das plumas de que cá ufamos > ) diíTe 

em 

a Bf.es pá faros , que alguns chamam páfjaros do Pa- 
taifa , acham-fe nas Ilhas do Maluco , aonde vem da Ilha 
Arus. De Maluco os tracem á índia já mortos , e efea- 
lados pela barriga , feccos , e fem pernas , fomente com 
cabeça , e cofias. A fua penna he de cor ama relia , mui gra- 
clofa â vifía ; e no cabo , que he comprido , tem httns três , 
cu quatro fios mui delgados como nervos , que lhe fihem 
das outras pennas ; e como fe lhe não vejam pernas , he 
epinião (pofio que errada) que as não tem , e que per aqueU 
les fios fe penduram nos ramos das arvores quando querem 
repeufar. Efes pá faros por fer coufa rara , e vir de par- 
tes mui remotas , são mui ejlimados dos Principes Orien- 
iaes para os trazerem na cabeça por pennacho , guarneceu- 
do-lhe a cabeça , e pefcoqo agouro , com pedraria ; e en- 
chendo os fios , ou nervos de pérolas , com que fica humç 
jçia rica f e galante. 



£20 ÁSIA de João de Barros 

em vcrfo ao feu modo : Omauvn , que naf* 
ceo para andar na cabeça dos Príncipes > 
velo aqui ejlá pojlo aos teus pés. O que 
foi mui celebrado entre os Perías , por mof- 
trar nefte dito huma grande foberba , e hu- 
ma grande humildade. O Xiah Tamas de- 
pois de lhe fazer grande honra , íem que- 
rer faber a caufa de fua vinda , deteve-fc 
hum pouco em lhe perguntar como vinha 
de fua indifpoíiçao de tão comprido cami- 
nho , e fe defpedio delle , dizendo , que fe 
hia para feu apofento , pois elle ficava no 
feu , deixando-lhe tendas , camas , e todas 
as coufas de feu ferviço mui abaíladamen- 
te , e elle foi-fe á outra tenda , que já para 
aquelle efFeito tinha ordenado. PaíTados 
dous dias Xiah Tamas o veio vifitar , e fa- 
ber delle o que mandava ; e paliada muita 
prática entre elles , em que Omaum lhe deo 
conta de feus trabalhos , lhe diífe que o vi- 
nha bufear para remédio delles , confiado 
na grande amizade que feu pai Soltam Ba~ 
bor tinha com o Xiah Ifnrael pai delle Xiah 
Tamas; e que a entrada que fizera na ín- 
dia , e conquifta do Reino do Delij , tudo 
fora per feu confelho , e pois ambos fica- 
vam herdeiros daquella amizade de feus 
pais, eelle tinha perdida a herança do feu, 
vinha bufear a elle Xiah Tamas para o aju- 
fiar a cobralla. Xiah Tamas depois que o 

Con- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. X. 5-21 

confolou de feus trabalhos , approvando-lhe 
a confiança que delle tinha para o ajudar 
nelles , por caufa da grande amizade, que 
houve entre feus puis, fe defpedio delle ; e 
a primeira couía em que moílrou o que por 
elle havia de fazer, foi mandar-lhe duzen- 
tos cavallos íellados de íellas guarnecidas 
d'ouro , e pedraria, e outras de prata, e 
no arção de cada huma fella íèu arco , col- 
dre , e terçado que dizia com cilas. Eíles 
cavallos levavam duzentos eícravos vertidos 
de feda , cada hum com fua gomia na cin- 
ta , e terçados guarnecidos de prata , o qual 
prefente com fuás tendas , e movei de todo 
leu ferviço , que lhe deixou , foi avaliado 
em hum conto d'ouro. Sobre iíTo difle a 
feus Capitães todos, que no que cada hum 
mandaíle a Omaum Patxiah havia de ver o 
amor que lhe tinham. Com cila palavra , 
conto os homens naturalmente fe defejam 
de infinuar na benevolência dos Príncipes , 
e dos melhores da terra , foram tantos os 
prefentes de coufas diverfas que lhe man- 
daram , que diziam valerem mais de qui- 
nhentos mil xerafljs ; e Xiah Tamas o aju- 
dou com doze mil homens de cavallo pa- 
gos á fua cuíla por dons annos , e licença 
para que todo homem de feus Reinos , que 
o quizeíle ir fervir , pudeífe ir com cllc ; e 
por mais o honrar ; vendo que Soltam Xiah 

Çqt 



5*22 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

Colij Rcy de Quercman feu vaífallo fe ef» 
cufou de ir por Capitão mór daquclla fua 
gente , dizendo , que nunca Deos quizeíTe 
que elle folie pelejar debaixo da bandeira 
de outro Principe , fenao delle Xiah , que 
era feu Senhor , ou de algum de íèus filhos, 
mandou Xiah Tamas com elle hum filho 
feu menino , que ainda andava no collo de 
fua ama , e que Soltam Xiah Colij fofle 
com qIIq por Governador de fua cafa, ede 
feu exercito que levava. 

CAPITULO XI. 

Do que fez Orna um Pa t xiah com o foc cor- 
ro y que lhe âeo o Xiah Tamas , e da 
morte de Xerchan. 

OMaum com os doze mil homens de 
cavallo, que Xiah Tamas lhe deo , e 
com dez mil mais que o quizeram feguir, 
a primeira Cidade , em que entrou do feu 
Eirado foi a dcCandar, donde fe q\\q def- 
pedio de feu irmão Aftarij Mirzá quando 
foi á Pcifia , na qual não pode entrar fe- 
nao per força d'armas , e combate de mui- 
tos dias, porque feu irmão fe tinha intitur 
lado por Rey daqueíle Reino Mogoílan, 
Como efta Cidade foi tomada , a deo Omaum 
áquelle Principe menino filho de Xiah Ta- 
mas para fua criação, que elle mui pouco 

lo- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XI. 523 

logrou , por falecer por o trabalho do ca- 
minho tão comprido , porque como era de 
tiío pouca idade , não pode aturar os gran- 
des cu rios que os Mogoles tem em feu ca- 
minhar , e conquiftar. 

E porque o Xiah dera ao Soltam Xiah 
Colij huma Provisão, per que lhe manda- 
va , que tanto que Omaum tomaíTe per ar- 
mas a primeira Cidade , como começo de pof- 
fe de feu Eftado , elle fe tornaíte com o 
menino , e ficaffem com Omaum os doze 
mil de cavallo , que lhe dera em ajuda , e 
os quatro Capitães que hiam com elles a 
três mil por Capitania , para andarem lá o 
tempo dos dous annos : vendo Xiah Colij 
o menino falecido , apreíTou-íe mais em lua 
partida para o ir enterrar em huma Cida- 
de cabeça do Reino de Oracan , onde ja- 
2em enterrados alguns Reys da Períia. Da 
morte do Príncipe Pería , e partida deíle Rey 
pezeu muito a Omaum , por fer homem 
mui notável , de cujo confelho muito fe 
aproveitava; mas como vio acarta que lhe 
eile moftrou do Xiah Tamas, e íbbre iíTo 
a neceílidade do enterramento daquelle Prín- 
cipe menino , o IbfFreo. 

Os quatro Capitães que ficavam , por- 
que Omaum fe deteve algum tempo em an- 
dar efperando recado de alguns Capitães ? 
que fmdavam com os irmãos x parece que 

en- 



p4 ÁSIA de João de Barros 

enfadados daquclla vida , pediram-lhc licen- 
ça para fe tornarem para a Períia , fomen- 
te fuás peíloas , e a gente de feu ferviço , 
e que a outra que era ordenada para o aju- 
dar , ficaria. Iíto fcntio Omaum ; e porque 
iníiftíram muito, lhes deo licença, masciles 
nao ficaram fem caftigo , porque o Xiah 
quando os aiTi vio tornar leni acabar o a 
que hiam , os mandou cavalgar em afnos. 
virados ás avéíías , com çorochas nas cabe- 
ças , e outros íinaes de infâmia , e que fof- 
ièm aííi levados com pregão per todo o ar- 
raiai , e per fentença os houve por inhabi- 
les para nunca lervircm em coula de hon- 
ra , pois deixaram de cumprir feu mandado 
no tempo que os mandou andar com Omaum 
Patxiah, dizendo mais que nenhuma morte 
pudera feu filho morrer mais honrofa que 
nos braços de fua ama , em ajuda de hum 
tão valerofo Príncipe como era Omaum 
Patxiah. 

E para que acabemos cila tao vária tra- 
gedia de tantos Príncipes , deixando Omaum 
em guerra com feu irmão , de que os fuc- 
ceífos nao tocam a efta noífa quarta Déca- 
da , tornaremos a fortuna de Xerchan , de 
que começamos fallar. O qual fendo tão 
grande Príncipe em Eftado , e riqueza com 
eífas viclonas que houve de Omaum , af- 
ibmbrou iodas aquellas partes da índia, que 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. Xt 5-25* 

fe eomprehendem entre o Indo , e o Gan- 
ges ; c como o favor dos homens fe incli- 
na aonde íe inclina a fortuna , não houve 
Príncipe Mouro, nem Gentio naquellas re- 
giões , que lhe não mandrilem íeus Embai- 
xadores. Affirma-fe , que por os grandes 
theiburos , c defpojos que acquirio das vi- 
clorias de tão ricos Príncipes , trazia em 
campo quatrocentos mil homens de cavai- 
lo. Finalmente elle foi na índia hum ter- 
ror de todos os Eirados delia ; e íe deixou 
de fazer guerra ao Reino de Guzarate , per 
onde elle quizera entrar para vir ao Reino 
de Dccan , foi porque em tempo de Soltam 
Badur tinha recebido delle grandes obras 
de amizade. A primeira foi a honra que 
fez a feu filho Gilalchan , o qual (como atrás 
diíTemos) Omaum Patxiah trazia em arre- 
fens comíigo ; e quando fahio do Reino de 
Guzarate com a vicloria que de Soltam Ba- 
dur houve , Gilalchan fe lançou com o meí- 
mo Badur , que depois o mandou a feu pai 
mui honradamente ; e a íegunda , o mefmo 
Badur dera o titulo de Rey a Xerchan , 
porque por antigo coftume dos Mouros da- 
quellas partes do Oriente , de que efcreve- 
mos , eílá introduzido , que nenhum Prín- 
cipe , não lhe vindo per herança , fe pode in- 
titular Rey , por mui poderofo , e rico que 
feja y fenao per eoncelsão de hum de qua- 
tro 



$z6 ASIÀ de JoÁo de Barros 

tro Príncipes , a que os Mouros fomente 
dam titulo de íoberanos , como Emperado- 
res ; pelo Grã Turco, que pode dar aqueí- 
Je titulo aos Príncipes de Ponente ; pelo Rey 
da Períla , que pode fazer Reys aos do rio 
Eufrates até o rio Indo ; pelo Tártaro Us- 
beque Rey de Samarcant do rio Geum con- 
tra a Tartaria ; e EIRey de Cambaya até 
o rio Ganges. E não contente Xerchan com 
a dignidade a que chegou , quiz também 
accrefcentado o Eftado , accrefcentado o no- 
me , e deixando o de Xerchan , fe começou 
a chamar Xiah Olam , que na lingua dos 
Patanes quer dizer Senhor do Mundo. Mas 
nefte titulo durou poucos annos ; porque 
tendo íitiado huma Cidade de Gentios Res- 
butos , per nome Calija , não tanto para fc 
fazer Senhor delia , quanto para roubar hum 
templo quenella eftava , em que havia gran- 
des thefouros de oifertas , que os P^eys Gen- 
tios de longo tempo alli oífereciam , e affi 
toda a mais Gentilidade daqucllas regiões , 
fendo já tomada a Cidade, por querer clle 
matar com hum tiro de bombarda hum ele- 
fante, que fervia naquelle templo, a bom- 
barda rebentou de maneira , que fez Xiah 
Olam em tantos pedaços , que fomente foi 
conhecida lua cabeça entre outros muitos , 
que também a bombarda efpedaçou , que 
eram dos mais nobres Capitães que comfi- 

S° 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XI. ?27 

go trazia \ e aíli fe acabou como coufa que 
era vã , e caduca a gloria de Xiah Olarn , 
e toda fua felicidade. Deixou dous filhos , 
Soleimcchan , e Eidelechan , que depois 
contenderam fobre a herança , e do Reino 
de Bengala fe fez Senhor hum Patane por 
nome Mahamedchan. 

Eíla longa digrefsão rizemos por aca- 
barmos a hilloria de Mamud Rey de Ben- 
gala , e de Xerchan , que começámos fo- 
bre o cativeiro , e refgate de Martim Af- 
fonfo de Mello Jufarte , que na guerra 
deíles dons Príncipes interveio ; e também 
por kv notável exemplo para todos os que 
mal obram , faberem , que como Deos faz 
nafcer o Sol fobre os bons , e os mdcs , 
aífí he a todos igual fua juftiça , ainda que 
infiéis fejam , em não diffimular culpas no- 
táveis fem caftigo. 



CA- 



528 ÁSIA deJoao de Barros 

CAPITULO XII. 

Como D. Paulo da Gama Capitão de 
Malaca mandou Bajliao Vieira vifitar d 
EIRey de Ujantana , o qual o matou , e 
aos Portugueses que o acompanharam : e 
como D. Paulo foi morto pelejando com hu- 
ma Armada do me/mo Rey. 

EM Malaca não faltaram defgraças cm 
quanto paííáram as de Bengala ; por- 
que D. Paulo da Gama , (que o Governa- 
dor Nuno da Cunha defpachou para ir fer- 
vir de Capitão daquella fortaleza , na aufen- 
cia de D. Eftevao da Gama feu irmão , o 
qual não paliou á índia o anno de 1532. , 
que partio defte Reino , ) como chegou a 
Malaca , mandou hum BaíHao Vieira natu- 
ral da Ilha Terceira a Ujantana vifitar a 
Alaudim Rey delia filho do Rey de Bin- 
tam , que Pêro Mafcarenhas deítruio , e a 
dar-Ihe conta da fua vinda áquella fortale- 
za , como a hum vizinho tão chegado , e 
faber dellc fe o havia deter por amigo, ou 
inimigo , para lhe correfponder com as obras 
que eftes dous nomes mereciam ; e que lhe 
mandava fazer cila pergunta como homem 
novo na terra , a quem convinha faber que 
vizinhos tinha , por algumas coufas que os ; 
moradores de Malaca diziam > a que elle' 

não 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XIL ^9 

não dava credito , até o entender da fua 
reípoíh. A que EIRey deo foi mandar ma- 
tar a Baítiáo Vieira , e a cinco Portugue- 
zes " , que hiam em fua companhia , pro- 
vocado por EIRey de Pacem , que lhe per- 
fuadio que aquelle meflageiro era elpia que 
hia reconhecer o rio , e aíTento da lua Ci- 
dade. D. Paulo foube defte íucceíTo , quê 
fentio muito, e quizera ir tomar vingança 
de tão grande maldade ; mas foi aconíelha- 
do que o não fizeíTe , por Malaca eftar mui 
defapercebida de gente , e de embarcações 
para commetter tamanho feito ; e que para 
o acabar efperafíe navios , e gente da ín- 
dia , que não podiam tardar. Outra embai- 
xada mandou D. Paulo per Manoel Godi- 
nho aos Reys de Panda , e de Patê , com 
osquaes elleaffentou paz, que foi mui pro- 
veitofa para Malaca , porque dalli fe pro- 
via de mantimentos , pofto que com traba- 
lho , por caufa das armas d'E!Rey de Ujan- 
t€na. 

Nefte eílado eftavam as coufas de Ma- 
laca , quando chegou a ella em Junho de 
15^4 D. Eftevão da Gama , o qual entre- 
Tonu IV. P. iL LI gue 

a A eftes Portugueses mandou matar cfte tyranno com 
extfuijito , e cruel género de morte , forque os mandou pôr 
núos em hum campo atados de pês , e mãos , e tançar-Ihes 
em cima tanta agua fervendo , até que ficaram meios co~ 
fidos ; e deixados affi , foram comidos dosadibes. Franciíco 
dc Andrade no cap. Sj, da 2. Parte. 



5^0 ASIÀ de João de Barros 

gue da fortaleza , a proveo logo de man- 
timentos , e munições , de que eftava falta , 
e para a ordinária provisão mandou con- 
certar navios , fem os quaes ella fe não po- 
de fazer ; porque como tudo lhe vem de 
fora , e o mais do tempo eftá de guerra 
com os vizinhos , convém fempre ter em- 
barcações preítes para mandar bufear man- 
timentos , e para os defender dos inimigos , 
que os querem tolher. Andando nefta oceu- 
pação lhe vieram dizer , que no rio de Muar 
viram entrar lancharas , e calaluzes ; e por- 
que a gente da terra que lhe deo eíta nova 
não fe affírmava no número delles , para o 
faber mandou Simão Sodré com oito ba- 
lões , (que são huns barcos leves , ) em ca- 
da hum dos quaes levava três efpingardei- 
ros ; e havendo féis horas que eram parti- 
dos, vio-fe hum fumo contra a Ilha Gran- 
de , duas léguas de Malaca , que parecia fer 
de bombardas , e era de huma Armada de 
lancharas , e calaluzes de Tuam Caba tio 
d'ElRey de Ujantana * 3 que a feu rogo 

com 

a EJla Armado era de Jetenta velas , de que vinha por 
Capitão mèr Lacximena , [como efereve Diogo do Couto 
no cap. ii. do liv. 8.) o qual fe foi lançar em cilada de- 
trás da Ilha das Náos , que os naturaes chamam Pongor , 
duas léguas de Ala 'aca , e dal/i defpedio dez lancharas , 
para que correfjem até a noffa fortaleza , contra as quaes 
mandou D. E/ieviio alguns bantis , e três batéis grandes 
das nãos , em lv\m d<>s quaes fe embarcou D. Paulo-, e 
nos outros deus André Cafco , e Simat Sodré; e nus outras 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XII. J31 

com alguma gente da Jaoa era alli vindo 
para dar huma viíta a Malaca j e quando 
a teve de Simão Sodré, foi-fe trás elle, la- 
drando as bombardas , cuja fumaça era a 
que íe vio , irido-fe Simão Sodré recolhen- 
do , por não poder refiftir com os balòcs a 
tão grofla Armada. D. Eílevao parecendo- 
lhe , polo fumo que vira , que Simão So- 
dré pelejava , acudio aprefladamente á ribei- 
ra para lhe mandar foccorro , onde já achou 
D. Paulo feu irmão embarcado em hum 
batel, efem lhe poder eftorvar a ida, man- 

Ll ii dou 

embarcações , que feriam quinze , hiam João Rodrigues de 
Soufa , Balthazar Leite , Ju farte Freire , e outros nobres. 
Os navios dos inimigos fe foram retirando até perto da 
Ilha , da qual f ah indo Lacximena com toda f na Armada t 
pelejaram com ella os Portugueses tão esforçadamente , que 
■pojlo que a maior parte deV.es foram mortos na peleja , 
fizeram tal ejlrago nos inimigos , que não houve entre el- 
les quem fe apoderajje das nofjas embarcações defamparadas 
de eus defenfores. Lacximena fe recolheo malferido com 
grande número de fua gente morta , e a maior parte das 
fuás lancharas me t tidas no fundo , e de/lroçadas. D. Paula 
cheio de henrofas feridas veio a morrer a Malaca , e fem 
os que nomea João de Barros , morreram André Cafco , 
Sancho Sanches filho do Commendador de Calatrava Luiz AU 
vares , e outros. Foi efia batalha tão celebrada dos Ma- 
laios y pelo damno que nella receberam , que ainda hoje a 
lamentam elles com grande fentimento nas fuás cantigas. 
Fernão Lopes de Caítanheda cap. 80. Uv. 8. e Francis- 
co de Andrade cap. 93. da 2. Parte eferevem o mefmo 
que João de Barros. Di^em porém que os inimigos leva' 
ramD. Paulo fem fent ido quaji morto na lanchara que elle 
abalroou , não fabendo os Mouros que o levaram fenão ao 
dia feguinte que morre o , e o conheceram* 



ç$z AS1A de JoÂo de Barros 

dou mctter Manoel da Gama em outro , e 
com elles fe embarcaram João Rodrigues 
de Soufa , D. Francifco de Lima , Vafco 
da Cunha , Gonçalo Baião , e outros ho- 
mens nobres. 

Partidos elles mais apreífada que pruden- 
temente, mandou D. Eflevao nas fuás cof* 
tas António de Abreu em hum paráo , e 
apôs elle Henrique Mendes de Vafconcel- 
los ; e como os batéis de D. Paulo , e de 
Manoel da Gama levavam á efles ventagem , 
foram os primeiros no perigo , e na defgra- 
ça , porque indo já huma légua de Mala- 
ca 5 toparam os balões de Simão Sodré , que 
vinham fugindo a dez , ou doze lancharas 
de Mouros , íèm o feu Capitão , nem Dom 
Paulo os poderem entreter para voltarem 
fobre as lancharas* D. Paulo vendo-fe fó , 
e que corria mais perigo em ir tomar o 
foccorro da terra , que em pelejar com os 
inimigos , por virem já mui perto delle, 
por confelho dos que levava comíigo , en- 
veftio com a lanchara dianteira , e tendo-a 
quaíi rendida , acudio outra , na qual fem 
nenhum temor fe lançou D. Paulo , e com 
c\1q Bernardo Queimado , Miguel Freire , 
Gonçalo Baião , António de Faraó , e Jorge 
Fernandes Borges , onde pelejando mui es- 
forçadamente foram mortos. A Manoel da 
Gama, que com o feu batel chegou a efte 

tem- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XII. 5-33 

tempo , deram-Iiie huma ferida pelo pefcoço , 
e outra na mão direita. D. Francifco foi fe- 
rido pouco no rofto , e Vafco da Cunha 
muito na cabeça , e João Rodrigues deSou- 
ía morto. Dos inimigos foram tantos os 
mortos, e feridos , que não ouíáram as ou- 
tras lancharas chegar aos nofíbs batéis , os 
quaes com tão deleftrado fucceíTb fe reco- 
lheram a Malaca , onde houve o fentimen- 
to que merecia a morte de taes peííoas. Dei- 
ta perda noíTa tomaram os Mouros oufadia 
para virem com fuás lancharas mui perto 
da Cidade a tomar os navios que vinham 
de fóra , o que fentia muito D. Eftevao , 
por não ter navios para caftigar feu atrevi- 
mento j e andando em preíía de concertar 
alguns , veio Tuam Mahamed enteado de 
Sinaia , que Garcia de Sá mandou lançar 
da torre abaixo , com vinte e cinco lancha- 
ras dar viíla á Cidade tão perto , que com 
huma efpera lhe mettéram huma manchua 
no fundo. E refentido D. Eftevão da fo- 
berba deite Mouro , mandou a Manoel da 
Gama com treze , ou quatorze navios , (dos 
que já tinha preíles , ) que o folie caftigar ; 
mas elíe foi tão fezudo , que não quiz fa- 
zer experiência de feu poder. 



CA« 



534 ÁSIA de JoÃo de Barros 

CAPITULO XIII. 

Como Z). Eftevao da Gama foi contra TLU 

Rey de Ujantana , e lhe dejlruio , e 

queimou a fortaleza* 

DOm Eíievão da Cama defejofo de vin- 
gar a morte de D. Paulo feu irmão , 
e deitar de Ujantana aquelle Pvey , que fe 
hia fazendo mui poderoíò , e temido , por 
cauía do fitio da íua Cidade , fundada na 
garganta do Eítreito de Cingapura a , pelo 
qual como mais principal que o de Sabá , 
le navegava de Malaca para todo aquelle 
Àrcipélago , e regiões que ficam ao Orien- 
te delia , determinou de lançar efte Mouro 
do lugar, de que tanto damno fe podia fe- 
guir; e para fe aííegurar do animo d^ElRey 
de Pam , cunhado do de Ujantana , man- 
dou lá Simão Sodré em huma não , não 
tanto a comprar mantimentos , como fe di- 
zia publicamente , quanto a defcubrir com 
cleítreza a tenção daquelle Rey , e o que 
fe podia efperar quefizeíTe, em quanto Dom 
Eíievão eítiveíTe aufente de Malaca , occu- 
pado na guerra d'E!Rey de Ujantana. Pro- 
veo ElRey mui largamente a não de man- 
timentos , e íignificou com verdade a Simão 
Sodré, que era grande fervidor d'ElRey de 

Por- 

a Q}ie por outro nome fe chama o Canal ãe Varela* 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XIII. 5^5- 

Portugal, c que nefla conta o podia ter o 
Capitão de Malaca para tudo o que lhe 
áquella Cidade cumpriiTe , e que folgaria 
muito que deílruiífe a íeu cunhado , por- 
que o merecia como hum grande traidcr 
que era. 

Quieto , e aíTegurado com eíta rcfpoíla 
D. Eílevão , eílando já apercebido para a 
jornada , partio de Malaca em Outubro 
com huma Armada de vinte e féis velas, 
das quaes eram duas náos , e Capitães del- 
ias D. Francifco de Lima , e Diogo Bote- 
lho , ( neíla hia D. Eílevão , ) huma cara- 
vela de Fernão Gomes , de que era elle Ca- 
pitão , a qual , e a náo de D. Francifco 
mandou D. Eílevão que fe adiantaílcm , e 
fe foííem lançar na boca do rio de Ujan- 
tana , e que não deixaífem entrar , nem fa- 
hir coufa alguma. As outras embarcações 
eram de remo, fuítas , lancharas, catures , 
e balões ; e Capitães delias D. Chriíiovão 
da Gama irmão de D. Eílevão , Manoel da 
Gama , Henrique Mendes de Vafconcellos , 
Simão Sodré , Vicente da Foníeca , que vie- 
ra de fervir de Capitão de Maluco , Pêro 
Barriga , António Grandio , Fernão Sodré , 
e outras peíloas nobres , e moradores de 
Malaca , que todos faziam número de du- 
zentos , e cincoenta homens. 

E para que fe tenha noticia do íitio da 

Ci- 



ç$6 ÁSIA de JoXo de Barros 

Cidade de Ujantana , que D. Efteváo hia 
commetter , e o que aquelle Rey efcolheo 
para íua morada, e a defensão que- nella ti- 
nha ; he de iaber que Ujantana he huma 
ponta a mais Auítral , e Oriental da terra 
firme da coita de Malaca , a qual deita pon- 
ta , (que diita da Equinocial quaíi hum gráo , 
e de Malaca pouco mais de quarenta lé- 
guas , ) volta para o Norte ao Reino de 
Sião , onde fazendo a coita huma enfeada 
bem penetrante , na qual entra no mar o 
rio Menam , cuja boca eílá em altura de 
treze gráos , e hum terço, torna, á terra a 
correr para o Sul ao Reino de Camboja. 
Na parte Occidental deita ponta fahe ao mar 
hum rio * tão alto , que entram per elle 
náos até quatro léguas da barra ; e ao lon- 
go delíe bem a dentro tinha EIRey Alau- 
dim feito huma grande povoação, cujas ca- 
fas eram de madeira , como são todas as 
daquella região ; e abaixo delia pouco mais 
de três léguas , onde a terra fazia hum co- 
tovelo , eítava fundada huma tranqueira co- 
mo fortaleza com muitas peças de artilhe- 
ria para defender o paífo , que era alli tão 
eítreito , e delle para cima até a Cidade, 
que ás frechadas , e com zargunchos fe po- 
dia defender; nem podia paliar hum barco, 
por pequeno que foífe , aue deita fortaleza 

fe 

($ EJie rio fe chama Jçr. 



Dec. IV. Liv. XI. Cap. XIII. 5^7 

fe nao mettefle no fundo , e ao longo del- 
ia tinham os Mouros alagados juncos , e 
muitas arvores cortadas , e atadas , para que 
chegando alli as noífas embarcações , as fol- 
iarem , c impedir com ellas a pafTagem. 

Chegado D. Eftevão com toda Arma- 
da aboca do rio deUjantana, onde achou 
D. Francifco , e Fernão Gomes , como del- 
le não Ievafle Piloto prático , elíe mefmo 
fez o officio , guiando as náos pelo rio aci- 
ma até onde puderam fubir , e chegar mais 
perto da fortaleza , em que gaitou íeis dias , 
por o rio ter muita correnteza , e muitas 
voltas. Antes que chegaíTem á fortaleza com 
as embarcações menores , porque tudo ao 
longo do rio era cuberto de mato , e delle 
frechavam os Mouros a noíía gente , pofto 
que com algum damno feu , mandou Dom 
Eftevão Pêro Barriga , e António Grandio 
com feífenta efpingardeiros em duas lancha- 
ras per huma margem do rio , e pela outra 
com outras duas lancharas D. Francifco de 
Lima , e Henrique Mendes de Vafconcel- 
los , que fizeram retirar os Mouros , e ficou 
defaffrontada a gente que hia nos navios , 
os quaes furgíram perto da fortaleza detrás 
de huma ponta da terra , onde a artilheria 
lhes nao podia fazer algum mal; epara que 
os Mouros não entendeílem per onde os ha- 
viam de accommetter 3 mandou D. Eftevão 

pôr 



5-38 ÁSIA de João de Barros 

pôr defronte da fortaleza , da outra banda 
do rio , quatro peças de artilheria a cargo 
de Henrique Mendes de Vafconcellos , com 
as quaes fez muito damno , ferindo muitos 
Mouros , e matando quinze, ou vinte, e 
entre eiles dous Capitães. 

No mefmo tempo intentou D. Eítevao 
entrar a fortaleza per outra parte ; e che- 
ga ndo-fe a ella , vendo que não podia fer 
por alli fem notável perda de gente , fe re- 
tirou ; e mudado de parecer, mandou fa- 
zer hum bailéu á caravella de Fernão Go- 
mes tão alterofo , que ficaíTe igual da for- 
taleza , para fe accommetter , e entrar , pon- 
do-lhe fuás arrombadas, que pudeíTem fof- 
frer toda a artilheria que lhe tiraílem. A 
Capitania deite aíTalto deo a D. Chriftovao 
da Gama feu irmão , acompanhado de Si- 
mão Sodré , como de homem que daquelle 
exercício era mais prático naquellas partes. 
Efta caravella levava aos lados huma fuíla , 
e hum batel com fuás arrombadas , nos 
quaes hiam Vicente da Fon fec a , e Fernão 
Sodré com muitos efpingardeiros \ mas fo- 
ram tantos os impedimentos de tranqueiras , 
e juncos alagados , que não puderam ef- 
ias embarcações chegar á fortaleza como de- 
terminavam , e delia lhes fizeram os Mou- 
ros muito damno, (porto que também o re- 
ceberam , ) ferindo alguns homens , e ma- 

tan- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XIII. 5-39 

tando a Fernão Gomes Capitão da caravel- 
la. Polo que vendo D. Eftevao os eítorvos , 
e perigos do mar, fe reíblveo de bater da 
terra a fortaleza , para o que mandou Fran- 
cifco Bocarro Feitor de Malaca , que fof- 
íè reconhecer o íítio onde fe podia plantar 
a artilheria , e per fua informação fe elegeo 
hum tezo , que ficava cavalleiro á fortale- 
za , onde mandou D. Eílevão pôr artilheria 
em duas eflancias , que entregou a Henri- 
que Mendes de Vafconcellos , e a António 
Grandio , das quaes íe bateo a fortaleza por 
efpaço de oito dias , com morte de muitos 
Mouros. Mas vendo os Portuguezes que 
durava o cerco mais do que elles efperar 
vam , e que os mantimentos , e munições 
começavam a faltar , e os inimigos eílavam 
mui inteiros , e com grande determinação 
de fe defender , e receando mais a enfermi- 
dade, por fer o lugar mui doentio, que as 
bombardadas , e efpingardadas dos Mou- 
ros , começaram a tratar de alevantar o cer- 
co ; o que fabendo D. Eílevão , poz o ne- 
gocio em confelho , no qual todos fe fo- 
ram com o voto de Pêro Barriga , appro- 
vando as razoes que elle deo , como de ho- 
mem mui- experimentado na guerra , para 
fe não alevantar o cerco , que era o que 
deíejava D. Eílevão , porque lhe parecia me- 
nos cabo do valor Portuguez tornar para 

Ma- 



?4o ÁSIA de João de Barros 

Malaca fem caftigar aquellc Rey , e aífi 
mandou que todos fe apereebeflem para de 
novo combater , e aflaltar a fortaleza dos 
inimigos. Os quaes briofos com nova gente 
de fòccorro que trouxe Tuam Mahamed , 
fahíram das tranqueiras 3 e commettêram as 
nolTas eftancias , e delias fe retiraram com 
tantos Mouros mortos , e feridos , que não 
oufando efperar outro combate , no íilencio 
da noite feguinte defamparáram as tranquei- 
ras , e fortaleza , e EIRey fe metteo pela 
terra dentro com feu thefouro , e mulheres^ 
Os noífos o fouberam pola manha , queren- 
do profeguir- à bateria ; e avifado logo Dom 
Eftevao , que eftava no mar , defembarcou 
com toda a gente, e fe foi metter na for- 
taleza , que de todo eftava defpejada y e re- 
colhida a artilheria que achou nella , e nas 
tranqueiras , e as melhores embarcações que 
eítavam no rio , a tudo o mais fe poz fogo. * 
Com efta vicloria fe tornou D. Eítevão pa- 
ra 

a Fernão Lopes de Cartanheda nos capítulos 87. S8« 
89. 90. do liv. 8. e Francifco de Andrr.de no cap. 6. da 
$. Parte conformam-fe com João de Sarros , po/lo que 
efcrevem e/la dejlruição de Ujantana mais particularmente. 
Diogo do Couto a conta em fumma no cap. 12. do liv. 8. 
tom alguma diferença , dando por razão , que mio achou 
quem dejla jornada o pudejje informar-, e que chegado Dom 
Eflevão viâoriofo a Malaca , entendeo logo na ear ga da não 
Santa Catharina , que havia de vir a Portugal, de que, 
era Capitão Vafco da Cunha , o qual partia em Dezemfa-ff 
feguinte , e chegou a Lisboa a falvamentOt 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XIII. e XIV. £41 

ra Malaca , onde foi recebido com muita 
feita , e univerfal contentamento , por quão 
ncceflario era caíligar aquelle Mouro dos 
males que tinha feito aos Portuguezes , para 
exemplo dos vizinhos , que tinham poíto os 
olhos no íucceíTò daquclla emprcza , para 
aíli faberem o como fe haviam de haver 
comnofco. 

C AP I T U L O XIV. 

De outra jornada , que D. EJievao da Ga- 
ma fez contra EIRey de Ujantana , e 
das pazes que lhe concedeo : e como 
foi commettido duas vezes 
dos Achens. 

c ]\T Ão ceifou EIRey de Ujantana , com 
JL^I as perdas que recebeo na guerra pat 
fada , de continuar com ella contra Mala- 
ca , procurando per todas as vias que pode 
de reftaurar os damnos , e vingar as offen- 
fas recebidas; de que refentido D. Eftevao 
da Gama , e não efquecido da morte de 
D. Paulo feu irmão , de que fe não dava 
por fatisfeito com a deftruição da fortaleza 
de Ujantana , aprcftou huma Armada de três 
furtas com lancharas ,. calaluzes , e balões , 
em que embarcou quatrocentos Portugue- 

zes 3 

à Fnncífco de Andrade nó cap. 27. da 5. Parte, e 
Fernão Lopes de Caftanheda no cap. 131. d» tiv. %. 



£42 ÁSIA de João de Barros 

zes , com que partio de Malaca. Chegando 
ao Eílreito de Cingapura , lhe deo huma 
trovoada de ventos tão impetuoíbs , que íe 
não fe cozeram com a terra , nenhum re- 
médio humano os pudera ialvar ; e ainda 
aííi correram rifco os navios de ferem foço- 
brados com as arvores , que arrancadas dos 
ventos com raizes , e terra , vinham a ca- 
hir em cima das embarcações. D. Eftevao hia 
em huma fufta velha , que abrio per baixo , 
e fe foi ao fundo , em que fe afogaram qua- 
tro Portuguezes , e alguns remeiros , e elle 
fe falvou no bailéu da fufta , que o vento 
arrancou inteiro , e lançou ao mar, PaíTada 
a trovoada que durou pouco , chegou Dom 
Eftevao a boca do rio de Ujantana, pelo 
qual acima cinco léguas além da fortaleza , 
que elle deftruíra , tinha EIRey a fua po- 
voação , em que eftava mui fortificado ; e 
nofuio em que efteve a fortaleza havia ou- 
tras tranqueiras com muita artilheria 3 e cin- 
co mil homens para fua defensão , e den- 
tro delias varadas quarenta lancharas, que 
os Mouros tiraram em terra , para melhor 
as poderem defender. A efte lítio chegou 
D. Eftevao em nove dias com grandes dif- 
iculdades , porque quando enchia a maré 
era com tanto impeto , que a grande cor- 
rente atravefíava as embarcações , com que 
não podia fazer caminho fenáo com a va- 

fan- 



De o IV. Liv. IX. Cap. XIV. 5-43 

fonte , atoando-fe com cabos ás arvores , 
que cllavam ao longo do rio , per onde 
hiam os noflbs cortando , e desfazendo mui- 
tas eftacadas , a pezar dos inimigos , que com 
muitas frechadas o impediam. 

Vendo os Portuguezes a multidão dos 
Mouros , e fua fortificação , não deixaram 
de recear o feito , e havello por duvidoíb 
de acabar , porém o esforçado animo de 
D. Eítevao tudo lhes facilitou, e aíTegurou j 
e furgindo detrás de huma ponta , que o 
rio fazia, onde eftava livre da artilheria das 
tranqueiras , determinou de as commetter 
na madrugada do dia feguinte , para o que 
ordenou que os Malaios que levava , e re- 
meiros foflem diante com panellas de pól- 
vora , e apôs elles os efpingardeiros , e elle 
com a mais gente os havia de feguir. Da- 
da efta ordem , defembarcando antes que 
amanheceíTe , commettêram as tranqueiras, 
cm que lançaram os Malaios , e remeiros 
grande multidão de panellas de pólvora , 
com que fe accendeo tanto fogo per todas 
as partes , que chegou ás lancharas que eí- 
tavam varadas ? nas quaes fe ateou com 
grande fúria. 

D. Eftevão chegou a efte tempo ás tran- 
queiras , e fubindo per huma de taboado , 
teve huma mui travada peleja com os Mou- 
ros que acudiram a defender-Jhe a entrada 

com 



544 ÁSIA de João de Barros 

com muitas efpingardadas , e frechadas ; po- 
rém os noflbs per meio delias apertaram de 
maneira com clles , que os desbarataram , 
e puzeram em fugida , fendo já manha cla- 
ra. Morreram neíla peleja fomente três Por- 
tuguezes , e dos Mouros mais de quinhen- 
tos. EIRey citava a eíle tempo em hum ou- 
teiro , huma légua das tranqueiras , do qual 
fe deícubria o fogo delias , e das lancha- 
ras , onde foram ter os feus abrazados , que 
lhe deram a nova de fer queimada a lua 
Armada , tomadas as tranqueiras com a ar- 
tilheria , e desbaratada a fua gente , polo 
que fe retirou d preíTa com fuás mulheres , 
e thefouro para o mato , onde fe havia por 
mais feguro que na Cidade. 

D. Eftevão não quiz paíTar adiante até 
que a gente repoufaíTe do trabalho , e que 
foffem curados os feridos , e enterrados os 
mortos ; o que feito , mandou que marchaf- 
fem para a Cidade. Sabendo-o EIRey , e 
vendo-fe fem gente , fem Armada, e fem 
artilheria , arrependido das guerras paíTadas , 
conheceo que para viver quieto , e feguro 
lhe convinha ter paz com os Portuguezes , 
e conceder-lhes tudo o que elles quizeííem ; 
e com eíla refolução mandou dizer a Dom 
Eftevão , que lhe pedia não paífaíTe dalli, 
porque queria ter paz com elle , para o que 
lhe enviaria feus Embaixadores. A D. Ef- 

te- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XIV. !|?4J 

tcvao parccco conveniente alternar pazes com 
cfte Mouro para quietação , e beneficio de 
Malaca , c afli Jlie refpondeo , que não ou- 
viria filiar nellas fem reféns. EIRey os man- 
dou logo , e foram li um feu tio homem ve- 
lho 3 e de muita authoridade , com fuás mu- 
lheres , e família , com os quaes D. Efte- 
vão fe tornou para Malaca , onde foi rece- 
bido com grande feita , e triunfo ; e o tio 
d\ElRey de Ujantana agazalhado na forta- 
leza , e tratado com muita honra. a Def- 
pedio EIRey logo por Embaixadores Cu- 
rutaule da Raja , Lacximena , Taucam da 
Raja , c Turcam Marcar filho do feu Ban- 
dará , os quaes chegaram a Malaca em oi- 
to , ou dez embarcações embandeiradas , com 
grandes íinaes de alegria. D. Eftevao da 
Gama os recebeo com grande apparato , e 
ouvio tudo o que lhe diíferam da parte do 
feu Rey com rollo alegre , e os mandou 
agazalhar , e communicando o negocio com 
os Capitães , e cafados de Malaca , aíTen- 
íáram que lhes deviam conceder as pazes 
com condições honeíías , para aíli ficar aquel- 
la Cidade de fafíbm brada, e defaprezada da- 
quelles ináos vizinhos \ pelo que fe concluí- 
ram com as condições feguintes : 

Que toda a artilheria , que houvejje 
fer todo o Reino de Ujantana com as ar~ 
Tom, IV. P.iL Mm mas 

a Diogo do Cauto ng cap. 6. ão Uv. 10. da 4. Vec* 



546 ÁSIA de João de Bakros 

vias d' EIRey de Portugal , de muitas em- 
barcações , que por fuás cofias fe perde- 
ram , feria logo tornada , e trazida a Ma- 
laca. 

Que nunca mais EIRey de Uj anta na 
faria em porto algum dos feus lancharas , 
Tiem outras embarcações de guerra ; e to- 
das as que fe fize/fm fem o EIRey faber , 
tanto que foffe d fua noticia , as manda- 
ria a Malaca com os donos delias ; e que 
todas as que ao prefente efliveffem feitas , 
ajji fuás , como de feus vajfallos , manda- 
ria logo entregar dpeffoa , que com os Em- 
baixadores para ijjo havia de ir. 

Que nunca já mais faria tranqueira , 
nem fortes alguns em Sintam , nem cm 
Ujantana , e que fe paffaria logo para o 
rio de Muar , por ficar mais perto de Ma- 
laca , para delle converfarem , e commer- 
cearem como amigos ; e que naquelle lugar 
também nao faria tranqueira , nem forte 
algum. 

Que todas as d/vidas que Tuam Ma- 
famede devia aos mercadores de Malaca , 
das fazendas que tinha tomadas antes da 
guerra , as tornaria logo a feus donos \ e 
nao podendo fer tudo , foffe parte , e a de- 
mazia para o anno , de que ele Rey ficava 
por fiador. 

Que todos os ef cravos dePortuguezes , 

que 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XIV. ?47 

que ejiavam fugidos de Malaca , e d ai li 
por diante fúgifíèm , fe tornariam logo ; e 
fe algum já jeffe Mouro , o pagariam a feu 
dona , e o mcfmo fe faria em Malaca aos 
fugidos de Ujantana ; e fe ainda houvejfe 
cm feu Reino alguns filhos de Portuguezes , 
que fe perderam havia annos na fua cofia 
cm hum junco 3 que hia de Borneo para Ma- 
laca y fe tornariam logo com todos os feus 
Cj (cravos , e e [cravas. 

Que deixaria navegar livremente to- 
das as embarcações de quaefquer partes 
que fo/fem para Malaca com fazenda ? ou 
mantimentos , fem as obrigar a tomarem 
feus portos ; e que entrando algumas nel- 
les com tempo fortuito , EIRey lhes daria 
toda a ajuda , e aviamento para irem pa- 
ra Malaca. 

Que mandaria a feus vajfallos , quefof 
fem com fuás jdzendas a Malaca para as 
venderem , e comprarem outras como ami- 
gos 5 a quem fe faria favor , e amizade y 
e o mefmo fe jaria em feus portos aos Por- 
tuguezes, 

a Eftes Capítulos de pazes juraram os 
Embaixadores em nome de feu Rey - y e Dom 
Eftevão os mandou apregoar pela Cidade 
Mm ii com 

<i Fernão Lopes de Ciiíhnheda nos capítulos i$i, e 
1S2. do liv. S. e Franciico de Andrade no cap- 55. <fcf 
4. Pqrte. 



5^8 ÁSIA de João de Barros 

com univerfal alegria de todos ; e defpcdi- 
dos os Embaixadores , contentes com as pe- 
ças que lhesdeo, mandou com elles os que 
haviam de ver jurar as pazes a EIRey ,. que 
os feítejou muito , e as mandou publicar , 
e fez logo entrega das couíãs capituladas. 
Mudou-fe EIRey para Muar , onde fundou 
nova Cidade , começando acorrer em gran- 
de amizade com os Portuguezes , com que 
ficou Malaca em muita quietação , e fe cn- 
nobreceo tanto com a frequência de mer- 
cadores , que nella concorriam , navegando 
feguros porcaula das pazes , que nunca cm 
outro tempo efteve em maior profperidade. 
Depois da deltruiçao de Ujantana , e 
pazes a (Tentadas com o feu Rey , vieram os 
Acliens duas vezes accommetter Malaca no 
anno de 15*37. A primeira mandou EIRey 
hum Capitão com três mil Achens em hu- 
111a Armada , e fem terem delia avifo os 
Portuguezes , defembarcáram os Mouros de 
noite , e entraram na povoação dos Que- 
Jins pelo baluarte de Bandorá , fem ferem 
fentidos; e mortos muitos Quelins., encami- 
nharam para a ponte. D. Eílevão da Gama 
fahio a ella com duzentos foldados , acom- 
panhado dos Fidalgos , queeftavam em Ma- 
laca , fabendo da entrada dos inimigos , com 
os quacs pelejou tão esforçadamente , que 
os fez recolher ao baluarte de Bandorá , 

don- 



Dec. IV. Ltv. IX. Cap. XIV. ^49 

donde os deitou Triílao de Taíde , ( que 
havia pouco que chegara de Maluco , ) e 
retirados a hum efpcíío mato , em que fe 
defenderam todo o dia , na noite feguinte 
íe embarcaram na íua Armada , que eftava 
na Ilha das Nãos , com menos quinhentos 
companheiros , que ficaram mortos em Ma- 
)aca ; dos nofTos foram feridos Triílao de 
Taíde , D. Françiíço de Lima , António 
Pereira , Francifco Bocarro , e outros , e ne- 
nhum morto. Idos eíles Achens , fez Dom 
Etlevao cercar de taipa a povoação dos Quc- 
lins , que era cercada de madeira ; e faben- 
do que EIRey de Achem apreílava outra 
maior Armada para mandar contra Mala- 
ca , ordenou a defensão da Cidade , e for- 
taleza como efperto Capitão ; no baluarte 
de Bondará poz Paulo da Gama com du- 
zentos homens , a Triílao de Taíde , a Dom 
Francifco de Lima , a D. Manoel de Li- 
ma , e a Manoel da Gama , deo a cada hum 
vinte e cinco homens , para que correíTem a 
nova cerca , e acudiíTem onde foííe neceíía- 
rio , e elle com outros cento íe poz junto 
da fortaleza. Os Achens , que eram cinco mil , 
defembarcáram , e afíentáram feu arraial em 
Tanjaquelim meia légua da Cidade , econ> 
mettêram três noites a cerca, o baluarte, e 
a fortaleza ; mas de tal maneira lho defen- 
deram os Portuguezes , que defeonfiados de 

con- 



y^o ÁSIA de JoXo de Barros 

confcguircm feu intento , com muitos mor- 
tos , e feridos , fe embarcaram com tanta 
preíTa , que Triftão de Taíde , que foi após 
elles com huma Armada , os não pode al- 
cançar. 

CAPITULO XV. 

Do que aconteceo a Francifco de Barros de 
Paiva em Patane , e a Henrique Men- 
des de Vafconcellos na -peleja que 
ambos tiveram com huma 
Armada de Jaós. 

NO tempo que D. Eílevao da Gama 
mandou Simão S odre a Pam a defeu- 
brir o animo daquelle Rey , mandou tam- 
bém Francifco de Barros de Paiva a Pata- 
ne com a mefma ordem de intentar fe os 
Patanes eílavam firmes na paz, que tinham 
com os Portuguezes. Chegado Francifco de 
Barros á barra de Patane , citando nclla fur- 
to , o veio commetter Tuam Mahamed Ca- 
pitão da Armada d'ElRey deUjantana com 
algumas quarenta velas , de quem fe defen- 
deo Francifco de Barros como Capitão es- 
forçado que era , depois de huma larga pe- 
leja , em que lhe mataram alguns Portugue- 
zes de vinte que tinha no navio. Aífaílados 
os Mouros com muitos mortos , e feridos 
para tomar algum repoufo , vendo-fe os not 

fos 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XV. 5^1 

fos tão canfados , c feridos , que tornando 
os Mouros a elles fe nao poderiam defen- 
der , requereram a Francifeo de Barros , que 
no batel do navio fc recoIheíTem á terra ; 
o que nao querendo elle conceder , tendo 
por melhor morrer em defensão do navio , 
elles fe foram no batel aterra, e com Fran- 
cifeo de Barros ficaram fomente João Fer- 
reira , e Baíliao Nunes , os quaes moítrando- 
Ihc que era temeridade aguardar mais alli 
os inimigos , o perfuadíram a que fe foífe 
á terra , falvando primeiro a artilheria , e 
queimando o navio. Em Patane achou Fran- 
cifeo de Barros bom acolhimento , onde ef- 
teve , até que D. Eílevao acabada a jornada 
de Ujantana voltou a Malaca , e deípachou 
Henrique Mendes de Vafconcellos a Pata- 
ne para o trazer , e mandar dalli á China 
hum junco a aífentar o trato que antes ti- 
nham os de Malaca com osChijs, que en- 
tão eílava quebrado. 

Chegado Henrique Mendes ao porto de 
Patane , depois de apreftar , e partir o na- 
vio para a China , e aviar outro , em que 
vieíle Francifeo de Barros , e os Portugue- 
ses feus companheiros, eítando para fe tor- 
nar para Malaca , teve novas de huma Ar- 
mada de Jaós coífairos , de que era Capi- 
tão mor Ericatin , o qual trazia vinte cala- 
iuzes , que remavam com duas ordens de 

re- 



yya ÁSIA de João de Barros 

remos , huns de galé , e outros de pangaio y 
com muita gente de guerra , artilheria 5 e 
artifícios de fogo. Eítes foram demandar o 
porto de Patane , de que fendo os noííos 
nvifados , fe fizeram á vela ; mas porque 
Francifco de Barros não tinha toda a lua 
gente dentro no junco, furgio perto da ter- 
ra , efperando por ella , e Henrique Men- 
des fefez na volta do mar. Os Jaós haven- 
do viíla dos noíTòs navios , os accommet- 
têram repartidos em duas efquadras. Dez ca- 
laluzes , porque o vento era calma , chega- 
ram a abalroar com muito esforço o navio 
de Henrique Mendes , cercando-o por to- 
das partes ; mas acharam tal refiílencia nos 
noífos , que depois de durar a peleja hum 
grande efpaço , fe afFaíláram os Jaós com 
perda de muita gente , e cala luzes efpeda- 
çados , ficando também no navio três Por- 
tuguezes mortos , e muitos feridos ; e ca- 
hindo Henrique Mendes fem acordo de hu- 
ma frecha de peçonha , de que não tornou 
em íí, fenao depois de affaílados os inimi- 
gos , poios remédios com que lhe acudi- 
ram. 

Francifco de Barros com fós dezefeis Por- 
tuguezes , que tinha no feu junco , fe defen- 
deo com tanto valor de oito calaluzes que 
o inveftíram , que fem o poderem entrar fe 
affaftáram delle , e com frechas de peçonha , 

e com 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XV. 5-5-3 

c com a artilheria começaram de novo a 
pelejar com os noflos ; e foi tanta a bom- 
bardada , que todo o navio era aberto dos 
pelouros , que íb na camará de poppa lhe 
mettêram' cincoenta ; e hum que foi dar em 
hum barril de pólvora , queimou três ho- 
mens. Os Mouros vendo o fogo , e fumo , 
dando grandes gritas, remettêram ao junco 
para o abalroarem , cercando-o per todas 
partes, e pondo nelle efcadas parafubirem; 
mas Francifco de Barros , poílo que ferido 
de huma frechada d'erva , que lhe atravef- 
fou huma perna , com Baftião Nunes , e o 
Meftre do navio , que ainda eftavam vivos, 
fizeram tantas maravilhas com artifícios de 
fogo, que os mais que intentaram fubir fo- 
ram queimados ; porém não puderam dei- 
xar de fer entrados , fe a efte tempo não 
chegara o navio de Henrique Mendes de 
Vaíconcellos , que ttfrnando em feu acordo , 
e refrefeando o vento , dando todas as ve- 
las , veio foccorrer o junco; e rompendo pe- 
lo meio dos calaluzes com a artilheria , 
metteo no fundo três , e efpedaçou outros ; 
e dos que eftavam per poppa do junco al- 
cançou dous , em hum dos quaes vinha o 
Capitão mor, que fe falvou a nado em ou- 
tro , e fe foi logo para terra feguido dos 
outros calaluzes , e o navio trás dks , tí- 
rando-lhes muitas bornbardadas ; e porque 

em 



574 ÁSIA de João de Barros 

cny quanto Francifco de Barros pelejou lhe 
fugiram para terra todos os marinheiros , e 
nella citavam alguns Portuguezes , lhe foi 
forçado tornar ao porto tomar a gente que 
lá tinha , e prover-íe do neceíTario para a 
viagem de Malaca , aonde chegaram eftes 
dous Capitães a falv amento , encontrando 
no caminho outra Armada de Jaós cofíai- 
ros, de que andava por Capitão Paribara, 
e trazia comfigo fetenta velas , de que não 
foram accommettidos por levarem muito 
vento, e irem muito ao mar. 

CAPITULO XVI. 

Como António Galvão , que ElRey fizera 

Capitão de Maluco , foi por mandado do 

Governador a fueceder a Trijlao de 

Taíde : e do alvoroço , efe/ia com 

que foi recebido de todos, 

EM quanto em Malaca havia eftas in- 
quietações , em Maluco houve outras 
muitas , a que deram caufa os exceíTos , que 
Triítão de Taide fez no feu cargo , com 
os quaes poz muitas vezes a rifeo perder- 
fe aquella fortaleza com todos os Portugue- 
zes , que nella havia. Aquella foltura caufa- 
va , affi nelle , como nos que o precederam , 
o refpeito que tinham mais a feu proveito 
particular , que ao d'ElRey , e do commum , 

e a 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XVI. 5Tf 

e a grande diftancia que ha daquellas par- 
tes á índia , perque o Governador nao fo- 
mente os nao podia caftigar , mas nem fa- 
ber de fuás culpas ; e Triílão de Taídc ro- 
mã va ainda mais licença , por a confiança 
que tinha na muita amizade que entre elle > 
e o Governador Nuno da Cunha havia ; e 
no pa rente fco com D. Eftevao da Gama , 
que em Malaca eftava por Capitão , que era 
feu fobrinho , filho de lua meia irmã. Mas 
fendo Nuno da Cunha informado por Lio- 
nel de Lima , que a Goa chegou com El- 
Rey Tabarija , c fua mãi , e padrafto , que 
Triftao de Taíde lhe mandou prezos ; e ou- 
vindo os clamores daquella gente, de cuja 
innocencia lhe confiou , determinou de man- 
dar aquelle anno a Maluco António Gal- 
vão por fuecefibr de Triftao de Taíde , por- 
que por EIRey tinha a Capitania de Ter- 
nate. 

a António Galvão , podo que fe lhe re- 
prefentava quão árduo negocio era naquelle 
tempo acceitar a Capitania de Maluco por 
a terra eítar quaíi levantada , affi os Mou- 
ros , como os Chriítãos , por as muitas ve- 
xações que os Capitães lhes faziam , que e£- 
tavam poílos em foro de nao ferem caítiga- 
dos por luas infolencias , e por a terra ef- 
tar falta de mantimentos , de homens \ e de 

ar- 

a Fernão Lopes de Caflanheda no cap. 127. do Uv. S, 



576 ÁSIA de JoÂo de Barros 

armas ; porém como elle era mui zelofo do 
feviço cíeDeos, e d'ElRey , determinou de 
ir , e de maneira que remediaíTe as neceíli- 
dades , em que aquella fortaleza eílava ; e 
porque o Veedor da Fazenda não tinha tan- 
to dinheiro que lhe dar , quanto elle havia 
mefter , com toda a fazenda que tinha , e 
com a que pode haver de feus amigos fe 
apercebeo do neceííario. E porque para Ma- 
luco fe achava gente com difficuldade , de 
que lá havia muita neceíRdade , com dadi- 
vas , rogos , e promeííás ajuntou a mais que 
pode , além da que lhe o Governador deo ; 
c para levar eíla gente , que era a mais con- 
certada que nunca foi a Maluco , fretou 
outra náo á lua cuíla. Além deíla gente de 
guerra levou algumas mulheres , a que fez 
grandes partidos para lá cafarem com Por- 
tuguezes , e formar huma colónia para ar- 
raigar a gente na terra , e faberem os Mou- 
ros que os Portuguezes faziam em Maluco 
fua habitação de aííento : levou também inf- 
trumentos de cortar , ferrar , e metaes pa- 
ra fazer outros , e muitas alfaias para os 
homens viverem naquella terra commoda- 
rnente. 

Provido António Galvão deíla maneira > 
partio de Cochij aos 8. dias de Maio da- 
quelle anno de 15:36. , e chegou a Malaca 
aos 18. de Junho com fuás duas náos , e 

OUr 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XVI. 5^7 

outros navios de fua conferva. a Alli lhe 
vieram cartas de Maluco , de muitos que 
lhe pediam com grande efficacia apreílafle 
fua ida para ir remir aquclla terra, que ef- 
tava falta dejuftiça, e de gente, e tanto de 
mantimentos , que pereciam á fome. Outra 
carta teve do Feitor da náo Santo Efpirito , 
cheia de queixumes de Triftao de Taíde, 
que lhe não quizera deixar carregar cravo 
para EIRey , e o detivera dous annos , por 
elle o comprar , e carregar para íi. Polo que 
eílando ainda mui mal de huma doença , que 
o chegou á morte , e em grande perigo , 
quiz partir contra confelho de D. Eílevao da 
Gama. * E porque a falvaçao daquella gen- 
te de Ternate coníiftia em elle lhes levar 
mantimentos , e o Feitor da náo d'ElRey 
não podia comprar fenão mui poucos , elle 
comprou tantos á fua eufta , com que car- 
regou a fua náo , que levava fretada ; e por- 
que não fe fatisfazia com eftes , deixou em 
Malaca hum António Soares , que foífe cora 
hum junco á Jaoa , e hi o carrega fle del- 
les \ e por já não ter dinheiro , lhe deo pa- 
ra iífo fua prata lavrada. E aííi tão doente 
como citava partio aos 18. de Agofto , e 
furgio no porto de Ternate a 2f. de Ou- 
tubro , onde foi vifto da gente com tanto 

ai- 

a Fernão Lopes Ue Caítonhecla no cap* ij8. da íiv. 8* 

é C.tíLnheda, 



5^8 ÁSIA de João de Barros 

alvoroço , como bum homem de que cípc- 
ravam fer remidos do duro jugo que ti- 
nham. " Ea primeira coufa que os homens 
principaes que o foram viíltar lhe difícram , 
íoram grandes queixumes de Trilião de Taí- 
de, attribuindo-lhe toda a culpa da guerra, 
que os Mouros lhe faziam , e do ódio que 
lhe tinham , e que tão efeandalizado eílava 
deile o povo , que já o tiveram mandado 
prezo ao Governador da índia , íè D. El- 
tevao da Gama feu íòbrinho não eftivera 
por Capitão em Malaca , onde havia de ir 
aparar. Tantos foram os males quedeTrif- 
tao de Taíde recontaram , que António Gal- 
vão os não podia crer , e parecia-lhe que 
por ograngearem a elle os acerefeentavam ; 
ecomo elle era humano, ede efpiritos no- 
bres , tinha por coufa vergonhofa a Portu- 
guezes , que os Capitães de Maluco todos 
que vinham de novo prendeíTem aos palia- 
dos , e determinava ( fe poííivel foíTe) não 
prender a Trilião de Taíde , falvo fe as 
culpas foíTcm taes que não pudeífe ai fazer. 
Trilião de Taíde o mandou vifitar a náo , 
e pedir-lhe foíle logo tomar poífe da for- 
taleza • mas António Galvão querendo apa- 
gar aquelle ímpeto , que via na gente con- 
tra elle , e por o favorecer , não quiz fahir 

lo- 

. a Fernão Lopes de Cailanheda no cap.i^g. do Uv. 2, 
t Franciíco de Andrade no çap. 4}. da j. JPartf. 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XVI. SS9 

Jogo cm terra, mas fe deteve alguns dias, 
parecendo-lhe que fe viííem que o favore- 
cia de alguma maneira , fe reconciliariam 
com ellc , ou ao menos não fe queixariam 
com tanta efficacia como alguns tinham fei- 
to; e como os da fortaleza eftavao defejo- 
fos de ver António Galvão por os bens que 
de leu governo efperavam , e mui efeanda- 
lizados de Trilião de Taíde , por o máo 
tratamento que lhes fizera , murmuravam 
daquclla dilação, eattribuiam a medo, que 
António Galvão tinha do trabalho em que 
entrava , porque a gente da fortaleza era 
mui pouca , a falta dos mantimentos mui- 
ta. Os Reys Mouros vizinhos todos con- 
trários , fendo alguns de antes muito ami- 
gos dos Portuguezes , a gente divifa entre 
li , e mui pouco obedientes , porque como 
eram poucos , e fe hiam á índia contra von- 
tade dos Capitães , quando vinham juncos 
de Malaca , ou de Banda , os Capitães ain- 
da que nao quizeíTem foífriam os exceíTos 
dos que ficavam , porque fe os caftigaífem , 
ou prendeíTem , ficaria a fortaleza fò , e em 
grande perigo com os Mouros. Mas faben- 
do António Galvão quão mal interpretavam 
fua dilação, fahio logo em terra, onde foi 
recebido com procifsão , e cântico de Te 
Deum laudamus , com grande prazer , e 
acclamações de todos, dizendo-lhe publica- 

aaen- 



yóo ÁSIA de João de Barros 

mente que os liia remir do cativeiro , em 
que citavam , e da fome com que pere- 
ciam. 

António Galvão como entrou , poz lo- 
go taxa nos mantimentos 3 abaixando-os aos 
preços de antes ; e para que entendeííem 
aíTi os Chriftaos que os compravam , co- 
mo os Mouros que os vendiam , que os pre- 
ços fe não haviam de alterar , começou lo- 
go pelos mantimentos d'ElRey , que cita- 
vam na fortalaza. a E para metter a gente 
em ordem , e policia , e viverem como ho- 
mens de razão , e os enfrear com leis , le- 
vou os cinco livros das Ordenações do Rei- 
no , para per elles fe governarem ; e para 
os Clérigos as Conítituiçoes do Arcebifpa- 
do de Lisboa , que o Cardeal Infante Dom 
Affonfo fizera. Inítituio para execução das 
Leis , e adminiítraçao da juítiça hum Juiz 
ordinário , e dous Almotacés , que até en- 
tão não houvera. Apôs iíto entendeo logo 
em repairar a fortaleza de artilheria , de 
que a achou mui falta , porque a que havia 
boa dcra-aTriílao deTaíde aos juncos dos 
mercadores , para fegurança do cravo que 
lhe levavam de graça , e a artilheria que hi 
achou eítava toda defapparelhada , nem achou 
ferreiro que a concertafie ; porque a hum 
que havia deo Triítão de Taíde licença que 

fe 
a Ciftanheda, e Francifço tfe Andrade. 



Dec. IV. Lrv. IX. Cap. XVI. e XVII. 5*61 

fe foflb a Malaca ; mas António Galvão 
fez tanta diligencia , que defcubrio hum fer- 
reiro , que andava encuberto , e em outro 
foro , a que deo tanto de fua fazenda , que 
o obrigou a tornar ao officio , o que rele- 
vava tanto, que d'outra maneira não havia 
artilheria , e fem ella não havia fortaleza. 
Também não achou pólvora , pelo que lo- 
go mandou fazer muita ; e para fazer car- 
vão , e trazer madeira para os repairos das 
bombardas , hia António Galvão mefmo ao 
mato com todos os Fidalgos , e cada hum 
trazia ás coitas a mais que podia , de que 
António Galvão trazia fempre o maior car- 
go para os animar 3 o que tudo fe não pu- 
dera fazer fe António Galvão não levara a 
ferramenta , e inílrumentos que diífemos. 

CAPITULO XVII. 

Do memorável feito , que António GaU 
riío fez em ir bufcar com cento e vinte For- 
tuguezes a oito Reys Mouros , que com 
grande exercito ejlavam em Tidore : e co- 
mo os desbaratou , c deftruio a Cidade , e 
a queimou. 

OS Mouros de Maluco como com as 
viclorias paliadas cobraíTem coração, 
e eítiveíTem juntos em Tidore oito Reys ? 
que contra os Portuguezes eftavam conjura- 
Tom.IKP.iL Nn dos, 



£02 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

dos , os quatro dcllcs de Maluco , e os ou- 
tros quatro dos Papuas , com innumeravel 
gente de guerra , não paíTava momento que 
os Portuguezes nao foflem delles falteados 
com fuás Armadas , com que os corriam , 
polo que lhes era neceílario a iodas horas 
citarem com as armas vertidas ; e parecen- 
do-lhe a António Galvão que por elle fer 
novamente vindo , e Triítao de Taíde , de 
quem fe cllcs davam por offendidos fe ha- 
ver de ir 5 queriam paz com elle, lha man- 
dou pedir per Gonçalo Vaz Sernache Capi- 
tão mor do mar ; e elles fe defculpáram a 
Gonçalo Vaz da guerra que faziam , com 
os males que Triítao de Taíde tinha fei- 
tos 5 e depois de confultarem entre íi , aíTen- 
táram tréguas por alguns dias , para nelles 
faberem o eítado da fortaleza , e a deter- 
minação de António Galvão. Mas eíta tré- 
gua guardaram elles mal , porque fahindo 
alguns eferavos da fortaleza ao campo a 
bufear lenha , tomaram três , e foram-fe com 
elles. António Galvão felhes mandou quei- 
xar , e dizer , que pois am* paíTava , que el- 
le lhes faria guerra defeuberta , e não á 
traição ; ao que elles refpondêram , que fi- 
zeíTe o que quizeíTe. Polo que António Gal- 
vão fe determinou em hum façanhofo fei- 
to , que era ir fobre Tidore , onde a qu el- 
les oito Reys eítavam com infinita gente , 

c mui- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XVII. 5-63 

e muito esforçada , e com eíTes poucos que 
tinha dar-lhes batalha , que era coufa que 
o Governador com todo o poder da índia 
não faria pouco em a commetter. a E pof- 
to que entendia bem o grande rifeo a que 
fe punha da vida , e ainda da hotlra , por- 
que , não lhe fuecedendo bem , poderia fer 
julgado por temerário , parecia-llie que era 
neccílario tentar a fortuna , porque para ef- 
perar mais gente , nao lhe podia vir fenao 
da índia , e que por ella havia de efperar 
dous annos , a lhe nao acontecer no cami- 
nho algum defaftre ; e que para a gente que 
ao preíente tinha , nao havia mantimentos 
para a terceira parte deíTe tempo , nem de 
outra parte os podia haver , e íem ter man- 
timentos não fe podiam fufter. Polo que o 
melhor confelho lhepareceo aventurarem-fe 
em huma batalha , com a efperança pofta 
em Deos , que ir-fe confumindo com a fo- 
me poucos , e poucos. A ifto teve António 
Galvão muitos que o contradifleram , mas 
em fim feu parecer fe feguio ; e fem mais 
demora fe partio para Talangame , onde ef- 
tavam quatro velas, em que haviam de ir, 
e em duas que eram náos havia de ir çlle , 
e Gonçalo Vaz Sernache , e em hum navio 
Francifco de Soufa Alcoforado , e em hum 
calaluz EIRey Cachil Aeiro de Ternate, 

Nn ii e o 

e Fernão Lopet de Cartanhtda no cap. 160. doíiv. $. 



5^4 ÁSIA de JoÃo de Barros 

e o Samarao com cincocnra Mouros , e os 
Portuguczcs eram cento e fetenta. Na for- 
taleza de Ternate deixou Triílão de Taí- 
de , por fer o mais idóneo para iíTo , por 
feu esforço , e experiência , e por fer tio de 
D. Eftevao da Gama Capitão de Malaca , 
que o foccorreria logo , fe elle António Gal- 
vão mor refle na batalha. 

* Querendo António Galvão partir de 
Talangame , lhe fahio ao encontro huma 
cilada de dous mil Mouros , com que hou- 
ve huma efcaramuça , na qual foi tomado 
hum Mouro homem de efpiritos , a quem 
António Galvão perguntou por o que os 
Reys determinavam , e elle fem nenhum me- 
do livremente lhe diíTe toda a verdade , 
que era eftarem em Tidore os oito Reys 
que diífemos com tantas gentes, que fenao 
podiam contar, e que determinavam de o 
tomar vivo a elle com todos os Portugue- 
ses , para matarem com graves tormentos a 
TriPião de Taíde , e aos que com elle eftavam, 
e a elle António Galvão , e aos que trou- 
xe comílgo refgatallos ; e que a Cidade de 
Tidore eftava forriílima com muros , e ba- 
luartes , e muitos eílrepes , que per nenhu- 
ma parte podia fer entrada , e com huma 
fortaleza íbbre huma rocha talhada , para 

on- 

a Caftanheda , e Francifco de Andrade no cap. 44. 
da 3. Parte, 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XVII. JTÍJ 

onde fubiam per hum tãoeílrcito caminho, 
que ás pedradas fe defenderia a íubida a 
todo o Mundo , e para ella haviam de fu- 
bir mais de huma légua per caminho muito 
fragofo , e cercado de arvoredo ; e com tu- 
do o Alouro lhe prometteo de o levar Já, 
porque (íegundo elle dizia) quanto mais 
cedo o levava , tanto mais cedo íe veria a 
íi livre , e a António Galvão cativo ; ifto 
lhe íbffria António Galvão, porque o guar- 
dava para guia , íe o houveíTe meíler. 

Ao íeguinte dia , em que António Gal- 
vão determinava partir , em rompendo a Al- 
va appareceo ao mar huma frota dos Mou- 
ros de mais de trezentas velas de remo , 
em que vinham paíTante de trinta mil ho- 
mens de peleja , com os remeiros , que tam- 
bém fe contam por homens d'armas. <l Por- 
que coítumam naquella terra os filhos dos 
Sangagcs , e dos Mandarijs , e dos mefmos 
Reys , em quanto são mancebos , andarem 
ao remo , e prezarem-fe diíío , porque dalli 
vem a fer mais déftros nas armas. Aquella 
mofira d' Armada quizeram os Mouros dar, 
fabendo que António Galvão eftava de par- 
tida para o efpantarem ; porém não fe che- 
garam muito para elle , com medo de fua 
artilheria ; mas entendendo António Galvão 

que 

(t Fernão Lopes de Caítanheda no cap. 161. ãx> Viv S. 
C Fraucifco de Andrade. 



566 ÁSIA de João de Barros 

que tudo aquillo eram feros , nao deixou 
de partir , e juntamente partio a Armada 
dos Mouros , indo íempre a la mar. 

Chegando a Tidore , foram logo as 
praias cubertas de gente, que o fahio a ver 
com grandes gritas ; e começando a dcfcu- 
brir a Cidade , começou a dilparar a arti- 
lhem delia ; mas como os pelouros palia- 
vam por alto , nao lhe faziam dam no ; e 
para confultar com os feus perque parte da- 
ria na Cidade , furgio ao pé da rocha on- 
de eílava a fortaleza , por dalli poder me- 
lhor esbombardear a Cidade , e cílar mais 
amparado da fua artilheria. Alli tiveram 
grande altercação fobre a maneira com que 
aefcalariam; huns queriam que fe efcalaííe 
per qualquer parte que pudeflem ; outros 
eram de parecer que pela parte que era mais 
forte , porque nella haveria menos gente 
que a defendeífe ; outros eram de opinião 
que fe toma (Te a fortaleza primeiro , por- 
que pofto que foífe difficultofa coufa , era 
de menos perigo , por quanto nao tinha ar- 
tilheria, nem tinha gente que a defendeífe , 
porque os Mouros tinham por impoífivel 
tomar-fe coufa tão agra , e tão forte , e que 
fe a tomaífem , dahi fariam tanta guerra á 
Cidade , que os inimigos a deixariam , ou 
fariam pazes ; e que certo eflava que ga- 
nhada a fortaleza, haviam os Mouros de 

per- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XVII. $6 7 

perder o animo ; e fe tomaflem primeiro a 
Cidade , os Mouros fc haviam acolher á 
fortaleza , e que alli lhes não poderiam fa- 
zer damno. A cite parecer fe acoftou An- 
tónio Galvão, e todos acordaram, que pa- 
ra aquelle feito levaíTem cento e vinte Por- 
tuguezes efeolhidos . e os cincoenta fccaíTem 
na Armada para a defenderem , e para em 
amanhecendo darem vifta de íl nos navios 
todos armados , tangendo as trombetas , e 
atambores , como que queriam defembar- 
car, para que aíli acudiítem os inimigos a 
tolher-lhes a defembarcaçao , e entre tanto 
António Galvão com os mais eícalarem a 
fortaleza. 

No quarto da modorra do dia do Apof- 
tolo S. Thomé , quando os inimigos eíla- 
vam mais açocegados , defembarcou Antó- 
nio Galvão com os feus cento e vinte Por- 
tuguezes , com luas efpingardas , e lanças , 
que eferavos lhes levavam , que com os Se- 
nhores faziam número de trezentos. Tor- 
nados os batéis para a Armada , abalou An- 
tónio Galvão para a fortaleza per hum ca- 
minho , que eílava aifaílado da Cidade , e 
hia para cima da rocha que diílemos. Na 
dianteira hiam Gonçalo Vaz Sernache , Dio- 
go Lopes de Azevedo , Jorge de Brito , An- 
tónio de Teive , D. Fernando de Monroi , 
Jorge de Teive , e outros homens Fidal- 
gos, 



568 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

gos , e hum António Carneiro, que levava 
o Mouro que os guiava. No meio hia An- 
tónio Galvão com a bandeira ; e na trazei- 
ra hiam Francifco de Souía , João Freire , 
e outros. António Galvão por os feus não 
canfarem hia de vagar , e aífi as oito horas 
de dia chegou meia légua da fortaleza ; e 
appropinquando-fe mais a ella , foi íèntido 
das atalaias dos inimigos , que lhes logo 
deram avilb de quão poucos eram os Por- 
tuguezes. Sabendo-os os Rcys , com gran- 
de alvoroço deram rebate aos feus ; e com 
cincoenta mil homens que fe ajuntaram , fa- 
híram logo á prefia para onde António Gal- 
vão vinha ; o qual ouvindo o cítrepito de 
tanta gente , por fe não embaraçar com el- 
la , antes de chegar á fortaleza , deixando 
o caminho que íeguia , fe metteo pela ef- 
peíTura grande do mato , onde fe encubrio 
tanto dos inimigos , que o perderam de vif- 
ta ; e por parecer aos Mouros que com 
medo fe retiraram os noííos , com prazer 
deram grandes apupadas , que naquelles val- 
les , e lugares côncavos retumbavam com 
tamanho eco , que a qualquer homem de 
grande coração fizera muito pavor ; mas 
aquelle pequeno exercito Chriftão , com as 
efperanças poílas fó ern Deos , hia mui es- 
forçado. 

EIRey Cachil Daialo 7 que era hum va- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XVII. ?6> 

lente cavalleiro , e levava a dianteira , a que 
era encarregado que fofle o primeiro que 
déíTe nos Portuguezes , trabalhou por os ata- 
lhar antes que chegafleffl á fortaleza ; e che- 
gando com lua gente a hum efeampado, 
que fe fazia entre elle , e a fortaleza , foi 
alii ter acafo António Galvão, com quem 
elle quizera fallar , para o deter em pala- 
vras , em quanto os outros Reys com o 
reílo do exercito chegavam , para os toma- 
ram vivos ás mãos , porque não fe conten- 
tavam matallos em peleja. António Galvão 
que o entendeo , não curou de praticar, 
ienao de vir ás mãos ; e mandando tocar 
as trombetas , arremetteo aos Mouros , cha- 
mando por Sant-Iago. Neíle primeiro en- 
contro EIRey Cachil Daialo , que armado 
com huma faia de malha . e huma celada 
na cabeça pelejava com huma eípada de am- 
bas as mãos , cahio de feridas que lhe de- 
ram ; mas como era mui esforçado , fe le- 
vantou logo , dizendo , que não era nada 5 
poílo que lhe fahio muito fangue. A bata- 
lha foi mui travada , trabalhando os Mou- 
ros por cercarem os Portuguezes f e os con- 
fumirem ; o que fem dúvida fora , fe EI- 
Rey Daialo não tornara a cahir deímaiado 
do muito fangue que fe lhe hia das feridas 
mortaes , de que dahi a pouco morreo. O 
qual em cahindo bradou que o tiraíTem da 

ba- 



5:70 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

baralha , para que os Portuguezes não fe 
alegraíTem com fua cabeça. Quando os Mou- 
ros o viram aíTi levar já quafi morto , per- 
deram o coração , e íem poderem mais pe- 
lejar, começaram a fugir quanto mais cada 
hum podia , de que alguns por irem mais 
deípejados deixavam as armas ; e encontran- 
do-fe com a gente dos outros Reys , que 
os vinham ajudar , fe embaraçavam huns 
aos outros com a preífa , indo huns para a 
fortaleza , outros para os matos. Amónio 
Galvão feguindo os que fugiam para a for- 
taleza , feenvolveo com elles , e entrou ncl- 
la com todos os feus , e os Mouros que 
entravam , e os que lá eftavam tornaram a 
fahir , e lha deixaram. António Galvão man- 
dou logo pôr fogo á fortaleza ; e por as 
cafas ferem de madeira , e de cannas , e a 
cubertura de ola , facilmente foi tudo quei- 
mado. Os Reys fe acolheram per eíTes ma- 
tos j e o de Tidore tomando fuás mulhe- 
res , e thefouros , com guarda de quatro 
mil homens que o ajudavam , deo comíigo 
cm hum profundo valle. Como o fogo foi 
bem entregue da fortaleza , António Gal- 
vão defceo á Cidade j e entrando com gran- 
de grita , e eftrondo de trombetas , e atam- 
bores , os Mouros a defamparáram , e to- 
da a fazenda que nella tinham , a que tam- 
bém foi pofto o fogo , com que ardeo mui- 
ta 



Dec. IV. L. IX. Cap. XVII. e XVIII. 571 

ta riqueza ; porque como os Mouros cita- 
vam confiados no forte fitio cm que eítava , 
e difficuldade de ir a cila , tinham alli to- 
das fuás fazendas. Dos Mouros foram mui- 
tos mortos , e muitos cativos , e os feridos 
fem conto. Da parte dos Portuguezes não 
morreo peíTba alguma , tirando hum fó ef- 
cravo , o qual parecerá duro a quem o ou- 
vir , como perigofo a quem o efereve , fe 
fenao lembrarem quão poucos Portuguezes 
acabaram já maiores couías contra mais nú- 
mero de inimigos, a que tiraram as vidas, 
c os Eítados. Acabando a Cidade de arder , 
mandou António Galvão derribar os mu- 
ros , e baluartes delia , e entupir as cavas , 
c aíll ficou tudo tão rafo , como fe nunca 
alli eítivera Cidade. 

CAPITULO XVIII. 

Como os Reys Mouros fe foram para fuás 

terras \ e o de Tidore fez pazes 

com António Galvão. 

INdignados os Reys Mouros por a vi- 
cloria que os Portuguezes delles houve- 
ram , com a gente que tinham , determina- 
ram de tomar António Galvão quando das 
náos aonde vinha dormir tornafíe para a 
Cidade. Sendo diíto fabedor António Gal- 
vão y quiz-lhe contraminar feu difenho , e 

ar- 



572 ÁSIA de João de Barros 

armar-lhe huma cilada de alguma gente ao 
longo da terra nos navios de remo que to- 
mara , para que vindo os inimigos lhes fi- 
caflem es da Cidade detrás , e c\\q diante ; 
e para que os. Mouros de melhor vontade 
fahiflem , fe embarcou cm amanhecendo a 
fom de trombetas , e atambores ; e como os 
Mouros eftavam p refles , fahíram logo a elle 
para lhe tomarem a dianteira antes que che- 
ga fle a terra , e indo afíi , foram de fubito 
dar com a cilada , de que logo começaram 
a esbombardear , e chegar- fe aos Mouros , 
eafferráram huma coracora d'ElRey deBa- 
cham carregada de gente , que não oufando 
a pelejar, íe lançou toda ao mar, ficando 
a coracora em mão dos noflbs. Vendo ifto 
os Mouros que atrás ficavam , fe retiraram , 
e afli não receberam mais perda ; mas os 
Reys fe affrontáram muito , vendo quão 
pouco montaram feus ardijs , polo que de- 
terminaram de per mar, e per terra darem 
em António Galvão ; o que vindo á fua no- 
ticia , foi fobre elles per terra ; e indo per 
caminhos encubertos , houvera de tomar os 
inimigos repentinamente , fe huns foldados 
que hiam na dianteira não difparáram asef- 
pingardas indo já perto delles j mas todavia 
com aquelle fobrefalto fe puzeram em fu- 
gida , dos quaes ainda António Galvão al- 
cançou os que hiam na retraguarda , de que 

fe- 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XVIII. 5-73 

ferio ? e matou alguns , e outros cativou ; 
dos mortos foi hum parente d'ElRey de 
Geilolo, que era mui esforçado cavalleiro, 
e de que fazia muita conta , cuja perda os 
Mouros fentíram muito , e fizeram por elle 
grandes prantos. 

Os Reys de Bacham , e Geilolo , e os 
das Ilhas Papuas vendo-fe desbaratados per 
tão poucos Portuguezes , fendo elles tantos , 
e que perdiam tempo em tentar mais a for- 
tuna contra Portuguezes , imputavam feu 
desbarato á ira de feu Mafoma , e fe fo- 
ram para fuás terras , deixando o profegui- 
mento da guerra para outro tempo mais fe- 
lice. * Os Portuguezes quando viram a par- 
tida dos inimigos tão fubita , fendo tantos , 
receavam que foffem fobre a fortaleza de 
Ternate , e com grande inftancia requeriam 
a António Galvão que lhe acudiííe ; ao que 
elle refpondeo , que quem não defendia íua 
cafa , mal poderia tomar a alhea , e que dal- 
li fe não iria até fazer pazes com EIRey 
de Tidore , ou o matar. Para pôr ifto em 
execução lhe efereveo huma carta toda cheia 
de defeulpas por a guerra que lhe fizera > 
e também de queixumes , por a occaíiao que 
elle , e os mais Reys de fua liga a iiTo de- 
ram com lhe engeitar a paz que lhe pedi- 
ra, 

o Fernão Lopes de Caftanheda no cap. i6j. do Uv» í. 
c Francifco de Andrade no cap. 4$. da 3. Parte, 



574 ÁSIA de João de Barros 

ra , íendo os Poituguezes taes , que onde 
quer que chegavam , os maiores Reys lha 
commettéram iempre , e com offertas de tri- 
butos , e valTaliagem a leu Rey ; e clle em 
vez de pedir paz , e amizade , lha negou , 
e mandou afFronrar com fuás Armadas , fa- 
zendo liga , e conjunção com os outros , 
fem elle até então lhe ter feito aggravo al- 
gum , antes dado muitas moílras de quem 
defejava lua amizade ; c que pois pela ex- 
periência vira quantos males trazia a guer- 
ra , quizeíle com elle fazer paz , a qual lhe 
pedia , não por temor algum que tiveííe , 
porque os Portuguezes eram homens em cu- 
jos ânimos não entrava medo , mas por a 
boa fama que delle Rey deTidore corria, 
Com quem folgara ter amizade , e vizinhan- 
ça. Communicando EIRey efta carta com 
os do feu coníêlho , todos fe inclinaram a 
fazer pazes com António Galvão > por a 
differença que delle viam a Triftão de Taí- 
de ; e porque na maneira que procedia lhes 
parecia fer homem humano , e modeílo , e 
que lealmente lhes coníervaria a paz , por- 
que nos encontros que tiveram nunca con-* 
fentio que lhes cortaffem fuás palmeiras f 
nem arvores outras , e que até a fua Mef- 
tjuita , que os Chriííãos tinham por coufa 
abominável , lha guardou illéfa , fem lhes 
locar nella } polo que a todos pareceo que 

sl paz 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XVIII. 57? 

a paz fe havia de fazer ; e entretanto que 
fe capitulava , fe fizeífe trégua de alguns 
dias , com condição que fe foíTem logo de 
feu porto , e que a paz fe afíentaria tanto 
que Triftão de Ta ide fe foífe de Maluco. 
Entendendo António Galvão que fe fe foíTe 
daquelle porto não ficava o concerto fixo , 
e não fe contentando da dilação que have- 
ria até a ida de Triftão de Taíde , mandou 
dizer a EíRey , que antes de tratar fobre pa- 
zes fe haviam ambos de ver. EIRey o re- 
cufou , por o coftume dos Reys daquellas 
partes , que o vencido não vê o rofto do 
vencedor antes de paífarem féis mezes ; e 
em feu lugar mandou a Cachil Rade feu 
irmão , que era peíToa de grande authori- 
dade ; e por António Galvão eftar bem in- 
formado delle , e de fuás qualidades , e que- 
rer grangeallo para o ter de fua parte con- 
tra os outros Reys , antes de entrarem em 
prática fobre as pazes , lhe commetteo que 
o faria Rey daquelle Reino de Tidore, fe 
elle quizeile , porque feu irmão , por fe le- 
vantar contra a fortaleza de Ternate o ti- 
nha perdido , e por não querer paz , fendo 
Tequerido com ella , e fobre iííò lhe fazei 
guerra. Cachil Rade não acceitou a offerta 
do Reino , dizendo , que nunca Deos per- 
forniria que e\k fizeífe traição a feu irmão; 
e de Cachil Rade lhe não acceitar aquella 



576 ÁSIA d e j o Á o de Barros 

oiTerta , e de não lhe prometter que faria 
com ElPvey feu irmão que lhe fallaffe , foi 
António Galvão tão deícontente , que com 
elle não quiz tratar coufa alguma , e aíli 
ficou de guerra com EIRey de Tidore co- 
mo de antes ; mas receando EIRey de es- 
candalizar a António Galvão , como expe- 
rimentado polo paliado , quebrou o ufo dos 
Reys de Maluco , e fem efperar por os féis 
mezes j fe vio com elle , levando comfigo 
feu irmão Cachil Rade , e muitos nobres , 
e aífentáram paz com condição que EIRey 
entregaria a António Galvão toda a artilhe- 
ria que tinha , e todas as armas que foram 
de Portuguezes ; e que por o preço da Fei- 
toria d'ElRey daria todo o cravo , que em 
fua terra houveíTe , e que não ajudaria a 
Rcy algum contra Portuguezes. a Ficou EI- 
Rey tão contente da arte , e brandura de 
António Galvão , a qual parecia ainda fen- 
do maior oppoíta á afpereza , e fequidão 
de Trilião de Taíde , que muitas vezes , 
aíli elle como feus irmãos , e Mandarijs o 
hiam vifitar , e comer com elle , como fe 
toda ávida fe converfáram. MasCachil P.a- 
de em pago da boa conta , em que Antó- 
nio Galvão o tinha , e de o querer fazer 
Rcy , o avifou que fe não partiíTe daquelle 
porto de Tidore até as pazes ficarem bem 

fir- 

9 Caftanhçda. 



Dec. IV. L. IX. Cap. XVI1L e XIX. 5-77 

firmes , porque EIRey feu irmão era tão 
importunado dos Reys de Geilolo , e de 
Bacham , que receava , que tanto que fe dal- 
li partifle , lhe movcíTe guerra em vingança 
da morte de Cachil Daialo , que fora mor- 
to a ferro , que todos eítavam obrigados por 
juramento de vingar , e que aííi lho prega- 
vam feus Cacizes. Polo que António Gal- 
vão fe deteve alguns dias mais \ e a dentadas 
as pazes , prometteo a EIRey de lhe man- 
dar reedificar a Cidade de Tidore no mef- 
mo lugar onde eftava , e aín o cumprio^ 
começande-a antes que dalli fe partifle pa- 
ra a fortaleza de Ternate , onde com gran- 
de feita foi recebido porhuma tão gloriofa 
viíloria , que daquelles Mouros alcançara. 

CAPITULO XIX. 

Das muitas inquietações quefempre houve 

em Maluco entre os Portugueses , e feus 

Capitães fobre a compra do cravo : 

e do trabalho que niffo pajjbu 

António Galvão, 

FEitas as pazes com os eftranhos , co- 
meçaram as difeordias com os domef- 
ticos fobre a compra do cravo , porque co- 
mo para a viagem de Maluco, fempre na 
índia fe achou gente com dificuldade , afíi 
por o lugar fer tão remoto , como por não 
Tom AV. P.iL Oo ha- 



573 ÁSIA de João de Barros 

haver outro commercio , nem trato nelle 
fenão o do cravo ; e os homens que áquel- 
las partes queriam ir eram plebeios , e de 
pouca conta , tirando os Capitães , e Offi- 
ciaes d'ElRey , houve fempre entre elles amo- 
tinações , e alvoroços , pelo que convinha 
aos Capitães diílimular as oíFenías , e ás ve- 
zes as injurias que delles recebiam, por os 
não deixarem íos na fortaleza , como mui- 
tas vezes acontecia. E como EÍRey de Por- 
tugal não tinha na Ilha de Ternate , e con- 
quifta delia renda para fupprir os gados que 
fazia no prelidio que hi tinha , e nas Ar- 
madas que a eila mandava , o Veedor da 
fazenda AfFonfo Mexia enviou a Maluco 
hum regimento em tempo de D. Jorge de 
Menezes , perque mandava que o Feitor 
cornpraíTe quanto cravo houveíTe naquellas 
Ilhas , e carregafíe o mais que pudeíTe para 
EIRey , e o mandaíTe á índia ; e que o que 
fubejaíTe da carrega , o vendcíTe aos mora- 
dores da fortaleza com ganho moderado , 
e que defle dinheiro fe pagaíTem osfoldos, 
e mantimentos dos Capitães , e gente der- 
mas , e outros gaftos da fortaleza ; mas efte 
regimento fe não acceitou , nem houve ef- 
fcito por a grande contradição que aíli en- 
tre os Portuguezes , como entre Mouros 
houve ; e determinando D. Jorge de Me- 
nezes , quando foi a Maluco , de executar 

aquei- 



Dec. IV. Li vi IX. Cap. XIX. 579 

aquelle regimento , mandou apregoar com 
grandes penas que leguardaífe; masosPor- 
tuguezes vendo que le EIRey foubeffe o 
muiro que ganhava cm haver o cravo todo 
á lua mão , que nunca mais o largaria , e 
elles ficariam perdidos , fem terem mais que 
o mantimento , e o foldo , que fe lhes pa- 
gava tarde , e mal , determináram-fe em não 
coníèntir , e valera m-íè de Cachil Daroez 
Governador do Reino de Ternate , a que 
pediram o eítorvafle j e como elle defejava 
occaíião de os Portuguezes o haverem meP- 
ter , o fez aíTi , e mandou , que pois aos 
Mouros le lhes tolhia a liberdade de ven- 
derem o feu a quem quizeíTem , que tam- 
bém elles não vendeííem feus mantimentos 
aos da fortaleza. A difcordia da gente , e 
a falta de mantimentos foi tal , que cum- 
prio a D. Jorge per então diííimular , já 
que não podia perfeverar na defeza que fi- 
zera. 

A execução defte regimento efteve fuC- 
penfa até que António Galvão veio , por- 
que os outros Capitães como tinham o ten- 
to no cravo , que haviam de tirar de Ma- 
luco para levar á índia , mais favoreciam a 
cauía dos que compravam , que a dos Of- 
fkiaes d'ElRey , que o defendiam. E como 
eíle negocio do cravo importava tanto á fa- 
zenda d'ElRey > e á fuftentação da mefma 

Oo ii for- 



580 ÁSIA de João de Barros 

fortaleza , nunca António Galvão affrouxoit 
de fazer a diligencia poílivel , por fe não 
ir contra o regimento , com grande traba- 
lho de fua peíloa a ; e vindo a monção pa- 
ra ir a Malaca , mandou concertar a náo , 
de que viera por Capitão Francifco de Sou- 
fa, e a outra em que elle mefmo viera, 
para nella mandar cravo d'ElRey. E por- 
que Trilião de Taíde fe havia de ir na- 
queila monção , mandou tirar devaíTa delle , 
como fe faz dos Capitães que acabam ; mas 
Triftão de Taíde como homem que fabia 
quantos tinha offendido com fua afpercza , 
perque não podia dar boa relidencia , e que 
os mais dos que em Ternate havia o aceu- 
favam , pedio a António Galvão houveífe 
deile piedade. E como António Galvão era 
homem pio , e inclinado a fazer a todos 
bem 5 lhe prometteo que aíli o faria onde 
nao intervieíTe cargo de fua confeiencia , ou 
deferviço d'E!Rey ; e aíli muitos homens , 
que com Trilião de Taíde citavam mal , 
e delle tinham recebidas muitas más obrass- 
es reconciliou com elle , e fez feus amigos 
antes de tirar delle devaíTa ; o que Triftão 
de Taíde agradeceo tão mal , que começou 
fecretamente amotinar agente, aífi para re- 

fif- 

a Fernão Lopes de Caftanheda rios capítulos 164. 16 c. 
166. do íiv. 8. c Francifco de Andrade no cap. 45, da 
3. -Parte* 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XIX. ?8r 

i iiítirem á defeza do cravo , como para irem 
em íua companhia para a índia , fendo a 
gente dá fortaleza táo pouca , que ficaria 
lèm ter quem a defendeíle ; e chegou iílo 
a tanto , que per António Galvão querer 
\ executar o regimento , e defender as com- 
j pras do cravo , eíleve muitas vezes em rif- 
; co de o matarem. Polo que tentou fe com 
| brandura de palavras os podia pacificar, e 
! acabar com elles , que íe contentaílem de 
; comprar o cravo ao Feitor d'ElRey , que 
era muito mais barato que o que queriam 
comprar dos Mouros ; e que melhor era 
dar hum pouco de ganho a feu Rey , para 
o gaitar na defensão daquella fortaleza , e 
•;| delles mefmos , a que mantinha , e dava fol- 
do , que darem ta o exceííivo ganho aos 
| Mouros , que defejavam de os deftruir. Com 
iffo lhes jurou em hum MiíTal de não com- 
! prar algum cravo para íi daquelle , para que 
EIRey lhe dava licença , e mandou a feus 
; criados que fizeíTcm o mcfmo ; e certo cra- 
vo que de prefente lhe mandaram EIRey 
(de Tidore , e Cachil Rade , o mandou le- 
var á Feitoria para carga das nãos. Tudo 
ifto não pode movellos , mas juntos em aí- 
fuada , tomando por fua cabeça a Triílaò 
IdeTaíde, compravam dos Mouros todo o 
j cravo que achavam , e todo carregavam em 
. hum junco ; em queTriftão de Taídé tinha 

par- 



582 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

parte , e não nas náos (TElRey ; polo que 
receando António Galvão que fe folie Trif- 
tao deTaíde com os mais fem lua licença, 
e lhe levaífe a gente , fez vir o junco , e 
as náos de Talangame , onde eílavam a hu- 
ma calheta perto da fortaleza , e aos Capi- 
tães deo juramento que fe não foífem fem 
fua licença , nem lhe levaífem gente , o que 
cllcs não determinaram guardar; mas com 
o favor de Triílão de Taíde fe ajuntaram 
armados , dizendo a grandes vozes contra 
António Galvão , que eílava recolhido na 
fortaleza , que haviam de comprar cravo , 
e o haviam de defender ás lançadas. Final- 
mente Triílão de Taíde com os que levou 
da fortaleza fe embarcou, e mandou-lhe An- 
tónio Galvão requerer , que não lcvaíle gen- 
te ; elle não curou diífo , mas foltou pala- 
vras defeortezes contra António Galvão , o 
qual indo ao outro dia em bufea de Trif- 
tão de Taíde , e dos outros para os pren- 
der , não achou mais que Diniz de Paiva 
no junco , o qual fe poz a bordo com to- 
da a gente armada , e efpingardas cevadas 
para lhe refiftir ; e por ornar andar groílo, 
e o vento ferfrefco, efeapou. Pelo que An- 
tónio Galvão fez autes , perque os houve a 
todos por alevantados , e os condemnou em 
perdi mento das fazendas ; e logo mandou 
os autos ao Governador da índia , aonde 

não 



Dec.IV. Liv.IX. Cap.XIX. eXX. 783 

não chegaram, com o favor de Manoel da 
Gama , que cila v a por Capitão cm Banda , 
e de D. Eftcvão da Gama Capitão de Ma- 
laca. Polo que na índia , nem cm Portu- 
gal fe pode faber dos exceíTos de Trilião 
de Taíde , nem do bom ferviço que niífo 
fizera António Galvão, como acontece on- 
de os Reys não são p rei entes , e a couía 
fica em Officiaes , e Miniílros. 

CAPITULO XX. 

Como António Galvão ajjentou pazes com 
os Reys de Geilolo , e B acham \ e aJJ o ce- 
gou os Ter na t es , que nao queriam 
ter por Rey a Cachil Aeiro* 

* Á Cháram-fe os Reys de Geilolo , e 
A Bacham tão affrontados por a perda 
paliada, e porque fendo elles tantos , ecom 
tão innumeravel exercito , foram desbarata- 
dos per hum Capitão com tão poucos Por- 
tuguezs , que como foram em fuás terras , fe 
começaram logo a aperceber 3 e bufearem 
novas ajudas para virem contra António 
Galvão , e fe fatisfazerem daquella perda , 
e da morte de Cachil Daialo , que por fer 
morto a ferro , eram obrigados , fegundo cot- 
tume daquelles Mouros , a tomarem delle 
vingança. Polo que achando-fe António Gal- 
vão 

ç Fernão Lopes de Caftanhcda no cap. 185.^ Uv. S. 



5S4 ÁSIA de João de Barkos 

vão muito falto de gente , por fe lhe ha- 
ver ido para a índia a mor parte delia com 
Triítao de Taíde , como aflima diíTemos , 
tratou todos os meios que pode para fa- 
zer paz com aquelles Reys , a qual não que- 
rendo elles acceitar , António Galvão de- 
terminou de tomar o rifeo todo fobre fua 
pcíToa , por a pouca gente que comíigo ti- 
nha , e os mandou deiàriar , para ambos fe 
matarem com elle , pois elle fó era o de 
que diziam receber offenfa. Sendo acceita- 
do o defafío pelos Reys de Geilolo , e Ba- 
cham , EIRey de Tidore , e feu irmão Ca- 
chil Rade , íe mettêram de por meio , e fi- 
zeram com que o defafio não foífe por dian- 
te , concertando os Reys com António Gal- 
vão. E como elle era homem tão inteiro 
em fuás coufas , e tinha fama de homem 
virtuofo , foram as pazes tão aventajadas , 
que não fomente os Reys fe fizeram feus 
amigos 5 mas lhe mandaram os Portugue- 
ses que tinham cativos , e as armas , e ar- 
tilheria , que aos noífos tinham tomado ; e 
pela mcfma maneira lhes mandou António 
Galvão alguns prefentes de coufas de Por- 
tugal , em final de amizade , a qual eííes 
Reys também guardaram , que andando en- 
tre aquellas Ilhas dos Papuas duas náos de 
Caftelhanos , os não confentíram defembar- 
çar em feus portos , e lhes mandaram re- 

quçr 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XX. 5% 

querer da parte de António Galvão , que fe 
foííem á fortaleza , que nella feriam provi- 
dos de todo o neceííario \ o que os Cafte- 
lhanos não quizeram fazer; e por virem as 
náos mui abertas da larga navegação , com 
hum tempo rijo, e contrario que lhes fobre- 
veio , deram com elles á coíla , onde os 
mais acabaram , e os poucos que efcapáram 
mandou António Galvão refgatar , e foube 
delles que partiram de Nova Hefpanha , e 
vinha por Capitão mor Fernão de Grijaí- 
va, e hum Alvarado. a 

Com todas eítas pazes não eftava quie- 
to 

a Efcreve Diogo do Couto, que Fernando Cortes Mar- 
ques dei Vate mandou ao Peru Fernando de Grijaíva no 
anno de 1537. em dons navios , hum dos quaes eíie tornou 
a mandar á Nova Hefpanha , e com o outro partio a def- 
cubrir humas Ilhas , que diziam ficarem a Ponente , e fe- 
rem mui ricas agouro. Correndo Grijaíva per diverfas der- 
rotas , chegando de huma delias a 29. grãos da parte do 
Sul , e d? outra a 25. da parte do Norte , cuidando de to- 
mar a Califórnia , mio achou terra ; polo que requerendo- 
Jhe os do navio que arribafje a Maluco por curfarem para 
lá os tempos : e não o querendo elle fazer , por não entrar 
na demarcação d^ElRey de Portugal , o mataram y e a 
Lopo de Avalos feu fobrinho , e elegeram por Capitão ao 
Me/Ire , que logo tomou a derrota de Maluco , no qual 
caminho acharam tantas calmarias , que quando chegaram 
cos Papuas não hiam mais que fete homens vivos. AíU 
deram á cofia com o navio , que vinha todo desfeito de\o, 
vux.es de viagem-, e mei tidos no batel , chegaram a huma 
Ilha y que fe chama Crefpei , onde os cativaram , e alguns, 
foram ter a Ternate f que António Galvão recolheo , agã" 
zalhou y e proveo de tudo que lhes ira neccjjario. Cap, 5, 
fffl Uv. 6. da Década 5. 



5*86 ÁSIA de João de Barros 

to em Ternate António Galvão , pelas dif- 
fercnças , e fediçoes que havia entre os mef- 
xnos Ternates íbbre o Reinado de Cachil 
Aeiro , em que os Sangages , e Mandarijs 
não queriam confentir , dizendo , que era 
baftardo , e que o Reino pertencia per le- 
gitima fuccefsão a Tabarija filho legitimo 
d'ElRey Boieife , que Triftao de Taíde man- 
dara prezo á índia íem caufa. Polo que com 
grande inftancia requeriam a António Gal- 
vão , que efcreveíTe ao Governador da ín- 
dia lhes mandaíTe íeu legitimo Rey , que 
injuítamente fora privado do Reino per Trif- 
tao de Taíde , como foram indevidamente 
feitas outras muitas coufas per elle. Incita- 
va-os ainda mais a iníiílirem neííe requeri- 
mento fer o Samarao Governador do Rei- 
no homem de que elles não eram conten- 
tes , por a razão que diíTemos. Tinha a ef- 
te tempo António Galvão tão pouca gente 
na fortaleza , que a nenhuma fedição dos 
Mouros que houvelTe iè atrevia refiílir. Po- 
lo que vendo que a feguridade daquella for- 
taleza , e do Senhorio que EIRcy de Por- 
tugal tinha em Maluco , confiftia em paci- 
ficar os Ternates , que andavam divididos , 
trabalhou quanto lhe foi poílivel por pro- 
curar a amizade com elles , e ficar Rey Ca- 
chil Aeiro. * Os Sangages, que de nenhu- 
ma 

a Caíhnhedxj 



Dec. IV. Ltv. IX. CAr. XX. 5B7 

ma maneira queriam tirar o Reino a Ta-r 
barija , e deiêjavam com muitas veras pri- 
var do governo ao Samarao , commettiam 
partido a António Galvão , que priva fle do 
Reino a Cachil Aeiro , e que elle ferviííe 
de Rey , em quanto Tabarija não vinha , o 
que António Galvão não quiz acceitar , co- 
mo homem zelofo do iervico d ? ElRev , e 
pouco ambicioío como elle era , receando 
também , que por elle fer Chriftão , o povo 
nao perfeveraria em querer fer rigido per 
elle. A bondade que António Galvão niftp 
moftrou , e a pouca cubica que os Mouros 
nelle viram , ganhou grande fama entre el- 
les , vendo que engeitava a governança de 
hum Reino, de que tanta honra, e provei- 
to lhe pudera vir , e não acabavam de o lou- 
var j e aíH tanto pode com elles a virtude 
de António Galvão , e o favor que EIRey 
de Tidore, e Cachil Rade feu irmão niífo 
deram, que os Sangages, e Mandarijs do 
Reino reconheceram por leu Rey a Cachil 
Aeiro , e ao Samarao por Regedor , e os 
obedeceram como taes. 

a Com efte affentp dç concórdia , que An- 
tónio Galvão fez , todos aquelles Ternates , 
que por as fediçóes , e trabalhos paífados 
do tempo de Triftão de Taíde, e de feus 
anteceílbres na Capitania, , andavam efpalha- 

dos 

a Cartanheda. 



5*88 ÁSIA de João de Barros 

dos per outras Ilhas , por aggravos , ou me- 
do, fe tornaram a recolher, e povoar a ter- 
ra, e gozar dos bens que a paz traz com- 
íigo j polo que huns , e outros confeíTavam 
ter grande obrigação a António Galvão , e 
punham fuás coufas no Ceo quando com- 
paravam o bom tratamento , que nelle acha- 
vam , com o máo que receberam dos que 
o precederam no cargo. 

CAPITULO XXL 

Como António Galvão mandou ao Moro con- 
tra hum levantado , que foi morto , e 
desbaratado : e da muita diligencia 
que fez Jobre a conversão dos Gen- 
tios das Ilhas de Maluco, 

ACabadas as diíFerenças , que António 
Galvão trazia com os Reys Mouros 
de Maluco , vindo a íua noticia que no Mo- 
ro andava hum Capitão alevantado , que 
aíToberbava aquella terra com huma grande 
Armada que trazia., ameaçando que havia 
de correr a Tcrnate , mandou huma Arma- 
da de certas coracoras , que lhe EIRey de 
Tidore empreitou , e por Capitão delias 
hum Clérigo per nome Fernão Vinagre ho- 
mem audaz , e de bons efpiritos , com fós 
quarenta Portuguezes , que foíTe em bufca 
delle , para o amancar do orgulho que tra^ 

zia* 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XXL 589 

zia. O Clcrigo pelejou com aquelle Capi- 
tão , e lhe deo batalha, em que o matou, 
e a hum íeu irmão , e a gente foi desbara- 
tada , e pofta em fugida. 

Havida efta vifloria , Fernão Vinagre 
pacificou a terra , e fez muitos Chriftãos. 
António Galvão vendo tão bom fucceílo, 
o tornou lá mandar para ganhar a vontade 
daquellas gentes , e os perfuadir fe conver- 
teíTem á Fé de Chrifto ; o qual com fua 
pregação , • e perfuasoes fez muitos mais 
Chriftãos , cujos filhos trouxe comíigo a Ter- 
nate para fe hi crearem entre os Portugue- 
zes a , os quaes António Galvão mandava 
doutrinar nas couías da Fé , e enfinallos a 
ler , e efcrever ; e para os noífos ferem mais 
feguros com os filhos daquelles homens no- 
bres , que tinha como arrefens de fua Chri- 
ftandade , e amizade , aos pais quando os vi- 
nham ver , dava peças ,e dadivas. Polo que era 
António Galvão tão acreditado com aquellas 
gentes, por a juftiça , e equidade, com que 
procedia com os homens , que entendiam , 
que o Deos que clle adorava era o que fe 
havia de crer ; e a religião que elle profef- 
fava, fe havia defeguir: tanta efficacia tem 
a virtude , e o bom exemplo do que quer 
incitar , ou converter a outros a bem viver. 
Sobre a conversão deíles Gentios houve ou- 
tras 

« Fernão Lopes de Caílanheda no caji» 20 j. áqliv. 8 a 



J90 ÁSIA de João de Bakros 

trás muitas occafioes , que António Galvão 
bufcou , porque a todos negócios a que man- 
dava , fempre encommendava em primeiro 
lugar o de íalvar almas , como foi quando 
mandou Diogo Lopes de Azevedo , Capitão 
mor do mar de Maluco , em bufea de hu- 
ma Armada mui groíTa de juncos da Jaoa , 
Banda , Macacar , e Amboino , que ibube 
vinham bufear cravo a Maluco , a cujo tro- 
co traziam para dar aos Mouros muitas ar- 
mas , e artilheria em. noíTo damno , donde 
depois feriam máos de lançar, por cuja vin- 
da , e commercio fe tolheria haver-fe o cra- 
vo para EIRey de Portugal. Polo que Dio- 
go Lopes com lua Armada , que era fomen- 
te de quarenta Portuguezes , e duzentos Ter- 
nates , e outros duzentos homens , que lhe 
empreitou EIRey deTidore, com os quaes 
hia Cachil Rade feu irmão , os foi bufear , 
è achou a Armada em Amboino , onde pe- 
lejando com elles , os desbaratou , e fez fu- 
gir com morte de muitos ; e nos juncos 
que tomou achou muitas armas , e artilhe- 
íia , e dinheiro que levavam para emprego 
do que hiam bufear. Indo Diogo Lopes ao 
longo daquelia coita , aíTentou paz , e ami- 
zade com toda a gente delia ; e aos mora- 
dores de três lugares , que fe chamam Atavia, 
Matelo , e Nucivel , fez tornar-fe Chriftãos * ; 

e de£ 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XXI. 5-91 

e deitas partes trouxe comfígo hum irmão 
d'ElRey de Ternate , que lá andava retraí- 
do do tempo de Triftao de Taíde , que o 
períeguia; e a Cachil Vaidua , a que Dom 
Jorge de Menezes mandara affrontar , co- 
mo atrás diíTeinos. 

a Naquelle mefmo tempo vieram a Ter- 
nate dous irmãos Macaçares b , homens no- 
bres , 

a Diogo do Couto cap. i. do liv. 7. da j. Década, 
b Ejies Macaçares , ou Macacas , como outros lhes 
chamam , são naturaes de huma Ilha do mejmo nome , que 
com outras muitas juntas , os Geógrafos erradamente fa- 
iem de todas huma jâ , com nome de Cellebes , prolongada 
do Norte ao Su! , defde hum grão da Equinocial da parte 
Septentrional y até cinco e meio da parte Aujlral. São ef« 
las Ilhas fenhoreadas de muitos Reys diferentes nas Un~ 
gtias , ritos t e cojiumes. Reino dos Bogis oceupa a par» 
te mais Septentrional y cuja 'Cidade principal fe chama Sa- 
vito , grande de cafas nobres de madeira. O Reino de Ma* 
caça he vizinho a ejie , fua Cidade principal fe chama Goa. 
Segue-fe o Reino Dirapa , e a ejle o de Chirranã , e o ul- 
timo , e mais Aujlral he o dos Cellebes. Tem eflas Ilhas 
outros muitos régulos fujeitos a ejles Reys , e nellas ha 
fandalo , aquila , lacre , algodão , cobre , ferro , chumbo , 
e muito ouro , de que as mulheres faiem manilhas para os 
Braços. Tem pedraria vermelha, de que fa^em jóias. Te- 
cem-je nellas muitos pannos de feda. São mui abajladas de 
arroz , legumes , frutas , fal , tem cavallos , elefantes , car* 
jieircs , bvfaros , veados , porcos , gallinhas , perdizes , e 
toda a mais caça do mato , mas não tem vacas. Navegam 
os naturaes delias Ilhas em h:\mas embarcações chamadas 
]?elan , eflas são de remo , e de guerra , ás de carga cha» 
ruam Lopi , e Jojoga. São todas ejlas gentes de cor laça 
como os Malucos : os homens bem difpoflos , e gentis-homens j 
es mulheres formofas , e de grande ferviço. Diogo do Cou^ 
to Dec, 5. Uv. 7. cap. 2, 



^92 ÁSIA de João de Barros 

bres , que fe fizeram Chriílãos , de que hum 
fe chamou António Galvão , como feu pa- 
drinho , e outro Miguel Galvão : eíles tor- 
naram á íua terra •, e querendo depois vir 
viíitar feu padrinho , trouxeram certos na- 
vios carregados de iandalo , e algum ouro , 
e mercadorias , que diíTeram havia nas fuás 
Ilhas , e nas dos Celebes , aonde , fe os Por- 
tuguezes foliem , fe converteriam muitos , 
e fariam proveito em luas mercadorias. Com 
eíles vinham alguns mancebos Fidalgos 5 com 
tenção de fe fazerem Chriílãos 5 como de 
feito fizeram. Vendo António Galvão que 
de hum caminho fe podiam ganhar almas, 
e fazenda , mandou áquellas partes hum ca- 
valleiro honrado chamado Francifco deCaf- 
tro , e com elle dous Sacerdotes , a que deo 
hum regimento , para que aííentaíTe amiza- 
de com os Reys daqueilas terras , e que os 
induziíTe a tomarem noífa Fé , e lhes deo 
peças , e prefentes. Partido Francifco de Caf- 
tro de Ternate , deo-lhe hum tempo tão 
rijo , que lhe foi forçado correr á vontade 
dos ventos ; e no cabo de alguns dias foi" 
dar com humas Ilhas ao Norte de Maluco 
mais de cem léguas , até então não defcu- 
bertas , nas quaes foube , que aquella a que 
aportou fe chamava Satigano , cujo povo , 
e Rey eram Gentios. AíTentou logo Fran- 
cifco de Caílro com elle amizade 5 e para 

íir-. 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XXL y 9 ^ 

firmeza delia , fe fangráram ambos no bra- 
ço ao coílume daquella gente, e bebeo hum 
o fapgue do outro. EIRey fe fez Chriítão 
dahi a poucos dias , e com elle fe baptiza- 
ram a Rainha, c hum íeu filho, e três ir- 
mãos d'EIRey , e muitos Fidalgos , e gen- 
te popular ; e gaitando nifíb vinte e dous 
dias , fe partio Francifco de Caítro , dei- 
xando a todos muita íaudade ; e parlando 
ao longo da Ilha de Mindanao , chegou a 
hum rio , ao longo do qual eílava huma 
Cidade chamada Soligano a , cujo Rey fe 
fez Chriítão , e com elíe a Rainha , e duas 
íiihas luas , e muitas peíloas outras. Na mef- 
ma Ilha fe fez Chriítão EIRey de Butuano ; 
(a que chamaram EIRey D. João o Gran- 
de,) e EIRey de Pimilarano, que tomou 
o mefmo nome de D. João ; e EIRey de 
Camiíino , que fe chamou D. Francifco , e 
aíTi fe converteram as mulheres , e filhos 
deftes Reys , e muita parte de feus vaílal- 
los. Querendo Francifco de Caítro paíTar 
deita Ilha á de Macaçar , foi-lhe o vento 
tão contrario , que fe houvera de perder, 
tentando-o muitas vezes. Polo que os que 
Tom. ir. P.il. Pp com- 

o Diogo do Couto diz , que Soligano lie Ilha , e ajji 
o são Buí nano , Pimilarano , e Camifim ; e que no anno de 
154J. ch<eou a ellas , e a de Mindanao Bernardo de la 
Torre Capitão da frota de Ruy Lopes de Villaloíes , o qual 
Je tem por o primeiro dejcúbridor de Mindanao , porém que 
9 foi Francifcê de Ctíjirtj* Cap. 2. dQ liv, 7. da 5. l>*ç* 



^94 ASIÀ de João de Barros 

comíigo levava , não quizeram que tornaíTe 
atentar caminho tão perigoib , e voltou pa- 
ra Temate com muitos filhos daquelles que 
fe tornaram Chriííãos. a Para os quaes or- 
denou , e fundou António Galvão com mui- 
to goílo de fua fazenda hum Seminário , 
que foi o primeiro de todas aquellas partes 
Órientacs , em que crcando-fe aquellcs mo- 
ços no leite , e doutrina Chriftã , pudeflem 
vir a fcrvir na conversão de feus naturaes , 
meio que para a reformação de toda a Igre- 
ja Catholica , o Sagrado Concilio de Tren- 
to depois approvou , e efcolheo. Vendo os 
Cazices quanto fe dilatava a Chriftandade 
na quellas Ilhas , e que fe abalava todo Ma- 
luco para receber , e feguir a noíla Fé San- 
ta , requereram aos Reys que acudilTem po- 
la honra , e feita do feu Profeta , fob pena 
de ella , e elles por lhe não valerem aca- 
barem mui de preíía ; nem ceifaram até os 
Reys de Maluco mandarem per luas pro- 
visões , com pena de confifcação da fazen- 
da , e deílerro , e cativeiro da peííoa , que 
nenhum da má feita a deixa ífe. Mas não 
puderam as ameaças dos Reys , e brados 
dos Cazices impedir a muitos que não cor- 
reílem ao Sagrado Baptifmo , entre os quaes 
Cachil Colão do confelho d'ElRey de Ter- 
nate > trabalhando EIRey polo tirar de feu 

bom 

a Diogo íío Couto m cap. 2. tfe uv. 7. fia 5. Dec % . 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XXI. S99 

bom propofito , fugio para a noífa fortale- 
za , onde foi logo com todos os de fua fa- 
mília baptizado, tomando por nome Dom 
Manoel Galvão. Veio apôs efte hum fobri- 
nho d^ElRey de Geilolo , que fem refpeito 
do tio , trocou (anta , e animofamente a fal- 
Jidade Mahometana pola verdade da Fé \ 
mas a conversão de hum Mouro Arábio ha- 
vido por parente em fangue do mefmo Ma- 
famede , homem de tanta authoridade entre 
todos aquelles Príncipes , que o refpeitavam, 
e veneravam como a leu próprio Califa , 
foi a que maior gloria rendeo a Chrifto. 
Efte com grandes demonftraçóes de alegria , 
e feíla de todos os Chrifíaos , foi polo San- 
to Baptifmo contado entre elles ; e a todos 
recebeo , amparou , e honrou António Gal- 
vão com tanto amor , e liberalidade , que 
pouco mais que durara o tempo da fua Ca- 
pitania , ou fe lhe perpetuara , ( como pe- 
diam a EIRey D. João os Reys , e povos 
de todas aquellas Ilhas , ) fem dúvida todas 
cilas, além dos grandes intereíícs da Coroa 
defte Reino , receberam noífa Santa Lei ; 
mas nem nós , nem ellas merecemos huma 
tão grande mercê de Deos. 



Pp*i CA- 



5-96 ÁSIA de J0Â0 de Barros 

CAPITULO XXII. 

Como António Galvão foltou EIRey Cachil 

Aeiro da prizao , em que ejlava : e dos 

muitos beneficios que fez aosTemates. 

VEndo-fe António Galvão aíTocegado, 
e em paz com os Terna tes , e com 
os Reys íèus vizinhos , converteo o animo 
a fazer aos Ternates tantos benefícios , com 
que fe compenfaífem as afflicçóes , e damnos , 
que da afpcreza dos Capitães paliados ti- 
nham recebidos j e primeiro que tudo , pa- 
recendo-Ihe grande ingratidão a que fe ufá- 
ra com EIRey Boleife, em lhe prenderem 
todos feus filhos , e os terem como cativos , 
fendo aquelle Rey o que agazalhou aos 
Portuguezes , e os acceitou por hofpedcs , e 
amigos , e lhes deo lugar em fua terra pa- 
ra fazerem a fortaleza , foltou da prizao a 
EIRey Cachil Aeiro , e o deixou ir livre- 
mente para a Cidade , e lhe entregou in- 
teiramente a adminiítraçao do feu Reino , 
e lhe deo licença que cafaíTe , o que aos 
Reys de antes fe não permittio , depois que 
a fortaleza fe fez. a Por cita liberdade , que 
António Galvão deo a EIRey , lhe ficou 
elle tão obrigado , e o povo todo , que o 
nome que entre todos tinha era de pai, e 

co- 

« Fernão Lopes deCaftanheda no cap. 202. do íiv. %. 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XXII. 5^7 

como tal o amavam , e obedeciam ; nem 
EJRey , e Teus Mandarijs faziam coufa al- 
guma fem íèu coníèlho ; e para as coufas 
de António Galvão ficarem entre elles em 
perpétua lembrança , faziam os Ternates 
cantares em leu louvor , que ao feu modo 
são as Chronicas , perque fe fabem nos 
tempos vindouros o que fizeram feus pal- 
iados , e quem foram. Da mefma maneira 
era António Galvão bemquifto dos Portu- 
guezes , e a todos obrigou com muitos be- 
nefícios , que lhes fez ; porque devendo-lhes 
os Mouros muitas dívidas de feus contra- 
tos , e diftratos , que faziam entre íi , que 
os Capitães paliados nunca foram podero- 
fos para lhas fazer cobrar , elle fez com 
que de boa vontade , e fem contenda lhes 
pagaflem ; e devendo EIRey de Portugal 
muitos foldos , e mantimentos aos Portu- 
guezes , que eftavam emTernate, não ten- 
do feus Feitores dinheiro , elle o empref- 
tava com grande perda fua : da mefma ma- 
neira gaitava do feu com os doentes , que 
curava á fua curta , e em outras obras pias 
que fazia aos que cahiam em neceílidade; 
e como hum dos frutos da paz he o orna- 
mento , e concerto das coufas públicas, na- 
quelle tempo em que fe vio quieto reedi- 
ficou a fortaleza de edifícios, eofficinas ne- 
ceíTarias de . pedra , e cal > que antes ao cof» 

tu- 



598 ASTA de v JoXo de Barros 

tuine da terra eram de cannas , e mate- 
riaes fracos , e tudo cercou de muro. Aos 
Portuguezes fez edificar fuás cafas de pe- 
dra , e cal 5 e com chaminés ao nofíò mo- 
do , com que aquella povoarão ficava pa- 
recendo de Portugal ; e por a entrada do 
porto fer difficultofa , por hum penedo que 
eftava no meio da barra , mandou quebrar 
efte penedo , e levantar tanto o arrecife, 
que ficou feito hum molle , com que o por- 
to ficou fácil , e feguro. E porque o que 
aquella fortaleza mais cumpria era ter gen- 
te arreigada , que por qualquer leve coufa 
fe lhes não foíTe , como muitas vezes fe fa- 
zia , ficando a fortaleza lo fem ter quem 
a defendeííe , formou hurna nova colónia , 
fazendo com EIRey Cachil Aeiro que déf- 
fe terras aos Portuguezes que lavraílem , e 
planta flem , com que fizeram quintas , cm 
que traziam muito género de gado , e ave ; 
e para ornamento da Cidade trouxe agua 
de três léguas per canos , de que a gente , 
e os gados bebiam , e fe regavam as hor- 
tas , e pomares ; e aíli incitou com feu exem- 
plo aos Mouros , queoccupados em lavrar, 
e femear as terras , e crear gado , fe efque- 
ciam das guerras , em que de continuo an- 
davam , e de foldados fe tornavam lavra- 
dores. EIRey de Ternate vendo o ornato 
da noffa Cidade > cubicou fazer Outro tan-* 

to 



Dec. IV. Liv. IX. Cap. XXII. 5-99 

to á ília j c com ordem de António Gal- 
vão a cnnobreceo de edifícios, e outras cou- 
ias ; muitas outras fez António Galvão , per- 
que com razão lhe puderam os Ternates 
chamar Pai da Pátria. u 

DE- 

a Foi António Galvão o quinto filho de feu pai Duarte 
Galvão y e o menor de /eus irmãos , que todos morreram 
em fervicú de feu Rey. Levou a Maluco fazenda que valia 
dez. mi! cruzados , que todos gafou em defender , reedificar y 
e conjervar em paz, a fortaleza de Ternate , em reduzir 
os Reys daquelias Ilhas á obediência , e amizade d?FlRcy 
dê Portuga/ , e em procurar que todo o cravo delias vieffe 
a mão de S. A. que lhe renderia mais de quinhentos cru- 
zados cada atino , com grande damno da fajenda delle An- 
tónio Galvão ; porque fazendo cravo para fi , como fizeram 
todos os outros Capitães de Ternate , viera a Portugal mui- 
to rico , e não fem fatenda como veio , cheio de confiança , 
que peio que tinha feito havia de fer mais favorecido , e 
honrado , que fe trouxera cem mil cruzados ; mas elie não 
achou outro favor fenão o dos pobres mineráveis , que he 
e hofpital onde fe recolheo , e morreo. Do hofpitaí lhe de- 
rem a mortalha ; e a Confraria da Corte t como a Corte- 
são pobre , e de f amparado , lhe fez, o enterramento , dei- 
xando doas mil cruzados de dividas , parte que trouxe da 
índia , e parte que alguns feus amigos lhe emprelláram 
para fe manter de-.efete annos que viveo no hofpital , por- 
que- em todos elles nunca d^ElRey houve mercê alguma pa- 
ra fe remediar ; nem de dez. livros das coujas do Maluco , 
que deixou efericos , que fe entregarem per mandado d^El- 
Key a Damião de Góes , fe de o fatisfacão para def carre- 
gar fua alma. Fez num tratado dos defeubrimentos das An- 
tilhas , e índia , que Francifco de Soufa Tavares feu tef- 
tamenteiro imprimio em Lisboa no anno de i$6j. e dedi- 
cou ao Duque de Aveiro D. João-, e e/ta foi a fatisfacão 
dos affignalados feitos de António Galvão , a quem nunca 
as profper idades das vitiorias de Maluco enfoberbeceram p 
fiem as adverfidatUs , c continuei âefpre70s de Portugal 
éUjàmmdram, 






DÉCADA QUARTA. 
LIVRO X. 

Governava a índia Nuno da Cunha. 

CAPITULO I. 

Das coufas , que houve para Sole ima o Em- 

perador dos Turcos mandar á índia 

huma grande Armada contra 

os Portugueses. 

NO Sexto Livro defta Década a fica 
dito como vindo Soltam Badur Rey 
de Cambava a Dio desbaratado d'El- 
Rey dos Mogoles , mandou pedir íbecorro 
ao Grão Turco per Safchan ; e que para 
ganhar ília amizade , e favor , lhe mandara 
hum riquiílimo prefente , e dinheiro para 
pagamento da gente que lhe mandaíTe. Efte 
Safchan foi apportar ao porto de Judá , 
donde de fua chegada avifou a Soleimao 
Eaxiá Governador do Cairo , de cuja vm*> 

da, 

O Capitulo ii. 



Década IV. Liv. X. Cap. I. 6or 

da , c caufa delia Soleimão o efcrevco lo- 
go ao Turco ; o qual cubiçoíb de ver tão 
rico prefente , mandado per hum Príncipe 
tão poderofo , e de terras tão remotas , man- 
dou a Soleimão , que a fazenda de mais 
fubítancia , e de menos volume lhe levaf- 
ièm per terra ao Cairo, e a outra per mar; 
e para trazer a que havia de vir per terra , 
mandou Janá Hamed Zaoi feu Veedor da 
Fazenda com trezentos decavallo, por cau- 
fa dos Alarves , e cincoenta azemalas ; e 
para a que havia de vir per mar mandou 
hum Hamed Raez , que depois per defgof- 
tos que teve de Soleimão Baxiá em Cam- 
bava , fe fahio da Armada , e per terra foi 
a Goa , onde fe fez Chriílão, e fe chamou 
Garcia de Noronha , por amor de D. Gar- 
cia de Noronha, que então era Vifo-Rey. 
Efta fazenda toda efteve no Cairo em po- 
der de Soleimão Baxiá , e Safchan , até que 
foi recado ao Turco como Soltam Badur 
Rey de Cambava era morto pela maneira 
que contamos. Com eíla nova , que para 
eile não foi mui trifte , efcreveo logo a So- 
leimão Baxiá, que lhe levaíTe a fazenda per 
terra , e com elle fofíe Safchan , e Janá Ha- 
med Zaoi , que a fora bufcar a Judá. Efta 
fazenda toda dizia o Turco quê lhe per- 
tencia per direito , e que com juíliça a po- 
tfia tomar ; porque quando Muftafá , que 

de- 






602 ÁSIA de João de Barros 

depois fe chamou Rumcchan fugira para 
Cambava , fendo feu Capitão , em navios , 
munições , e dinheiro dos rendimentos das 
terras de Zeibid levara quaíl outra tanta 
quantia , e que fe defcontava huma couía 
por outra ; e que em EIRey Badur reco- 
lher tamanho roubo , fizera hum grande 
peecado , que não pudera pagar com me- 
nos que com a maldade que lhe Rumechan 
fizera , até vir ao eítado da morte que hou- 
ve , e elle daquella maneira haver pagamen- 
to do feu. 

Com o thefouro partiram Janá Hamed 
Zaoi , e Safchan , e tudo levaram fechado , 
e fellado como viera ; e porque o Turco 
o queria ver com Soleimao Baxiá , o man- 
dou vir ; e para o Cairo não citar fem Go- 
vernador , mandou que fica ífe, em feu lugar 
Ucaraf Baxiá , e Soleimao partio para Conf- 
tantinopla , aonde chegou a tempo que ha- 
via quatro dias que os outros eram chega- 
dos com o thefouro , o qual não quiz o 
Turco que fe abriíTe fenão perante o mef- 
mo Soleimao , por razão do fello , que lha 
elle também puzera. Quando o Turco vio 
tão grande riqueza d"ouro , pedraria , péro- 
las , e moeda , e tanta policia de peças de 
diverfos ufos daquelle Príncipe do Oriente , 
cujos feitios eram de mais preço que a mef- 
jna matéria, ficou maravilhado, ecntendco 

a ven- 



Década IV. Liv. X. Cap. I. 603 

a ventagem , que as terras donde aquillo vi- 
nha , tinham ás iuas , que ficavam parecen- 
do pobres em fua comparação , e accendeo- 
fe em grande defejo de conquiftar a índia , 
a cuja conquifta determinou mandar logo 
huma Armada , e quem fazia ifto mais fá- 
cil era Jorge o arrenegado, que fora deDio 
comSafchan, que por íer homem mui im- 
portante á navegação , Soleimao Baxiá o 
fez vir de Suez , aonde viera com a fazen- 
da que veio per mar • eftc lhe deo muitas 
razoes , desfazendo no poder dos Portugue- 
zes , e dizendo-lhe quão leve coufa era íèr 
S. Mageftade Senhor do Eftado que elles 
na índia tinham ; eque, como ifto tiveíle , 
ficava Senhor do Mundo 3 porque na índia 
era hum Sol , que o alumiava todo. Eftas 
razoes abonava o Álvaro Madeira Piloto 
Portuguez 3 que fora enviado ao Turco per 
EIRey de Xael , com os outros Portugue- 
zes , que tomou com D. Manoel de Me- 
nezes , como atrás diflemos. * Efte lhe pro- 
inettia de ir por Piloto mor da Armada, 
moflrando fer muito experto na navegação 
da índia , o que d\e dizia , não por ter o 
animo tão dam nado que efperaíTe de fazer 
o que promettia , quanto por lhe darem al- 
gum favor em feu cativeiro , até lhe Deos 
dar modo com que fe livraíTe ; e affi foi, 

que 

u No cap. 14. ão Uv. 3. 



6o4 ÁSIA de JoÁo de Barros 

que fugio , e veio a Portugal , e deo conta 
a EIRey dos grandes apparatos que fe fa- 
ziam para huma Armada , que o Turco que- 
ria mandar á índia. 

CAPITULO II. 

Como o Grão Turco mandou huma gr o f]a Ar- 
mada à índia , de que fez Capitão mor 
Soleimao Baxid 7 das qualidades de 
fua pejjba , e crueldades que 
fez antes de fua parti- 
da , e depois delia. 

DEterminado o Turco em conquiftar a 
índia , e tirar aos Portuguezes ( fe pu- 
defte ) a poíTe que delia tinham , cuidando 
quem mandaria por Capitão geral para tão 
importante em preza , íuccedêram muitos 
meios para Soleimao Baxiá o ler, que co- 
mo era homem grandemente ambiciofo , e 
cubiçoíb das riquezas da índia , de que vi- 
ra tão grande mòítra , per todas as manei- 
ras poífivcis trabalhou por impetrar o que 
pertendia , não fendo elle o mais fuffkiente 
que outros para aquelle cargo ; mas de hu- 
ma parte a Mai do Turco , que queria bem 
a Soleimao por haver íido criado antigo de 
Selim íèu marido , e da outra parte a mu- 
lher legitima do prefente Turco Soleimao i 
que lhe tinha ódio fecreto > e o defejava 

f<> 



Década IV. Liv. X. Cap. II. 6o? 

fóra do Cairo , por favorecer a Muftafá feu 
enteado , a que o Baxiá tinha perfilhado , o 
ajudaram em fua pretenção , e aíli o Tur- 
co , pofto que tinha homens de grande ex- 
periência na guerra , e muito mais aptos pa- 
ra efta empreza , que Soleimao Baxiá Gover- 
nador do Cairo elegeo para elle, enao aos 
outros , porque além de o ter por leal , e 
eftava delle feguro que fe lhe não levanta- 
ria , como outros fizeram , era homem me- 
nos euftofo , (o que os Principes pela maior 
parte tem por mais proveitofo , ) e fendo 
mui rico , tudo o que acquiria era para. 
Muftafá feu filho , e fe oftereceo a fazer 
efta Armada á fua própria eufta , fem que- 
rer mais delle que a gente , e artilheria ; affi 
que havendo eftes diffèrentes refpeitos , to- 
dos foram em lançar Soleimao Baxiá na ín- 
dia , fem haver mais caufa que o appetite , 
e interelTe deitas partes ; dos quaes refpei- 
tos particulares nafeem acerca dos confelhos 
dos Principes geraes damnos feus 5 como 
veremos que fuecedeo a efte. 

Era efte Soleimao capado , de nação Gre- 
go Janicaro natural daMorea, que ao Grão 
Turco Selim fervíra de porteiro da Came- 
ra , e ao prefente Soleimao feu filho de 
guarda de fuás mulheres : as feições de fua 
peíToa eram correfpondentes á fealdade de 
feus coftumes. Sendo pequeno de corpo, 

era 



606 ÁSIA de João de Barros 

era gordo emdemazia, ecom a gordura ti- 
nha huma papada táo grande que lhecahia 
íbbrc os peitos , e a barriga tão lançada 
por diante , que parecia mais largo que 
comprido ; e como era de mais de oitenta 
annos , e com a velhice tinha as fobrance- 
lhas , e peíianas muiro brancas , o faziam 
mais disforme , e terrivel em feu afpccto ; 
e com a muita carne era tão decepado , que 
donde fe aíTentava não podiam quatro ho- 
mens levantalio ; mas tudo o que lhe fal- 
tava nas forças do corpo , fobejava na ma- 
lícia , e crueldade 5 condição natural de ca- 
pados covardes. 

Tanto que Soleimao Baxiíi fe vio eleito 
para cita empreza , partio de Conílantino- 
pla , mandando primeiro madeira diante ao 
Cairo , para dahi a levarem per terra a 
Suez , e fe fazerem vinte e quatro galés , 
com que quiz acerefeentar a Armada que 
lá eftava havia tantos annos, que os Gover- 
nadores do Cairo feus antcceílbrcs manda- 
ram fazer para fe levantarem. Chegado Sor 
leimao áquella Cidade , defpedio para Suez 
os Officiaes , e mais coufas neceiTarias para 
a Armada que havia de levar, e elle ficou 
no Cairo recolhendo a gente que tinha man- 
dado fazer; e como fe vio tão favorecido 
do Turco , a cuja cubica , e ambição hia 
fatisfazer, com pretexto de bona fervidor, 

fez 



Década IV. Liv. X. Cap. II. 607 

fez graviflimas extorsões , e cruezas , aífi 
nos moradores do Cairo , como de outras 
partes , dos quaes houve a fazenda com 
morte de fuás pcílbas , como foi a de hum 
grande Senhor de nação Arábio per nome 
Mir Daud , que tinha titulo de R.ey da Pro- 
víncia de Thebaida aílima do Cairo , a que 
os naturaes agora chamam Saida , que era 
o homem de maior Efíado , e poder que 
havia no Egypto. A caufa da morte defte 
foi mandar-ihe Soleimao Baxiá pedir cinco 
mil homens feus para remar as galés , e elle 
fedefculpar que feus vaflallos não eram ho- 
mens para poder fervi r no mar , por não 
ferem coftumados a iífo ; o qual por não 
parecer que recufava fervir áscoufas defeu 
Senhor o Grão Turco, veio ver Soleimao 
com mil efcravos negros dos Nubijs com- 
prados por feu dinheiro , cuidando que por 
aquelle ferviço o Turco lhe faria mercê, e 
Soleimao lhe daria agradecimentos 5 e elle , 
em lugar delles , o mandou enforcar , com 
achaque , que o pão que pagava de tributo 
ao Turco cada anno , de que fe fizera o 
bifcouto para a Armada , e os mais legu- 
mes , vieram muito mifturados com terra. A 
morte deite homem foi caufa de grande ef- 
candalo em todo o Egypto, por fer cabe- 
ça dos Arábios delle , cujo Eftado era tão 
grande , que o tributo que dava cada anno 

ao 



6o8 ÁSIA de JoXo de Barros 

ao Turco em trigo , cevada, e legumes 
de toda forte, (porque a terra não era de 
trato , e tinha pouco dinheiro , ) era cm tan- 
ta quantidade , que íe affirmava que quaíi 
igualava ao quinto do que rendiam as no- 
vidades de todo o Egypto , além de du- 
zentos quiçaes d'ouro , que cada anno pa- 
gavam ao mefmo Turco , de que cada hum 
valia feiscentos e quinze cruzados. O Efta- 
do deite Mir Daud deo Soleimão a Man- 
for parente do mefmo Daud , (que eílava 
prezo havia quinze annos em modo de ar- 
refens , por fe o parente não levantar , ) pa- 
recendo-lhe que com efta eleição ficaria quie- 
ta aquella Província ; porém outros paren- 
tes , e os criados , e mais familia de Mir 
Daud , fe recolheram com hum parente po- 
derofo per nome Abumazá ; e fendo em 
número de mais de cincoenta mil cafas , 
foram habitar junto das Catadupas do Ni- 
lo , a que elles chamam Cabel Elavat , que 
são as ferras que dividem aquella região 
dos Reinos de Egypto. Mandou também 
Soleimão Baxiá , como homem férò , e fem 
-lei , matar no mefmo dia Janá Hamed Zaoi 
ATeedor da Fazenda do Turco , e a hum feu 
filho per nome Cide Juçuf com muita cruel- 
dade , e lhe tomou a fazenda , e depois três 
nãos, que tinha em hum dos portos doEf- 
treito, com que acerefeentou fua Armada, 

por 



Década' IV. Liv. X. Cai». II. 609 

por faber que clic efcrevêra lnima carta ao 
Turco dos roubos , e males que elle So- 
leimão fazia , a qual carta o Turco mandou 
ao meimo Soleimão para que a Icííe ; e aífi 
matou outros três homens principaes , por 
lhe não concederem o que pedia , e deixou 
ordem a Uçaraf Baxiá , que ficou em leu 
lugar por Governador do Cairo , para que 
mataífe a Abedcliuab Mouro rico íénhor 
de mais de cincoenta lugares contra Damia- 
ta , porque o não podia haver ás mãos pa- 
ra o matar. Eftes foram os íncriricios , e 
oblações que fez , e elmo! as que deo por 
lhe Deos dar profpera viagem. 

Do Cairo partio Solcimao para Suez , 
e chegado áquelle porto , deo preíTa á Ar- 
mada , de que já achou a mor parte no 
mar 5 e em breve efpaço ajuntou íetenta e 
duas velas , das quats eram quinze galés 
baíiardas , de trinta e três bancos cada hu- 
ína , vinte e cinco galés Pveaes de trinta 
bancos , dez galés íubtijs , quatro albeto- 
ças , leis galeões de duas gáveas , quatro 
náos de carga , oito navios menores para 
munições. A gente de guerra que nefta Ar- 
mada hia eram mil e quinhentos Janiçaros , 
dous mil Turcos , quinhentos Mamelucos 
da guarda do Baxiá , que elle fez no Cai- 
ro , e outros três mil homens , que fe le- 
vantaram na Natolia , Alexandria j Damia- 



éio ÁSIA de João de Barros 

ta , e< outros portos do mar Mediterrâneo. 
Hia eíla Armada mui bem chufmada, e nnil 
provida de marinheiros , comitres , calafa- 
tes , carpinteiros, e bombardeiros $ a maior 
parte deites Oiiiciaes foram cativos nas ga- 
lés Venecianas , que a efte tempo acertaram 
eílar em Alexandria , as quacs mandara re- 
prezar o Baxiá , por o Turco romper nella 
conjunção as tréguas que Baiazcto fizera com 
a Republica Veneciana. a E porque Solei- 
mão per fua muita idade , e indifpoíiçao 
não poderia fupprir todos os encarregos de 
Geral , fez Capitão mor do mar a Juçuf 
Mouro Arábio , que era Capitão de Ale- 
xandria j refervando elle para fi o iupremo 
mando, e governança de tudo. Também le- 
vou comfigo para o ajudarem cinco Capi- 
tães antigos, Barbaram Bec , Iça Bec , Ma- 
li a med Bec , e Muftafá Bec , Queuam Bec , 
todos homens experimentados na guerra de 
mar , e terra , ordenados para naquella jor- 
nada fervirem de Capitães dequaeiquer for- 
talezas que Soleimão tomaíTe ; e como a 
gente foi junta , fomeceo a Armada de mui- 
ta , e mui grcíía artilheria , e de todas as 
munições , e mantimentos neceííarios, e man- 
dou antes da fua partida que fe embargai- 

feni 

a F.jla pa» fizeram os Vcr.cciams com Baiazeto no ou- 
ro de t joj. e no de 1537. a rompeo Soleimão neto de 
Baiazeto f.lho de feu filho Selim 
tovia de Veneza . 



/ 



Dec. IV. Liv. X. Cap. II. e III. 611 

feqa todos os navios que hi citavam , níli 
dos naturaes , como de eílrangeiros Mala- 
vares, c Arábios, que tratavam na índia, 
e o meímo fez nos outros portos do Mar 
Roxo, para que nao pudeile faber-fe na ín- 
dia dos apercebimentos que elle fazia , de 
maneira . que todo aquelle anno , em que 
elle fe apreílou , e pai tio , nenhum barco 
podia navegar que nao folie tomado j e ef- 
ta foi a ca ufa por que na índia fe nao po- 
de iaber defte grande r.ppararo fenão de- 
pois de feito á vela , tendo o Governador 
Nuno dá Cunha feitas muitas diligencias 
per muitas vias para faber das galés dos 
Rumes , que eílavam cm Suez , de que tan- 
to havia que fc temiam na índia. 

CAPITULO III. 

Corno Soleimão Baxia par tio de Suez para 

a índia : e do que pajjbu no caminho 

até chegar a Dio. 

FOrnecida a Armada de todo o necef- 
fario , começou Soleimão Baxiá alojar 
2 gente em feus lugares , no que houve hum 
grande motim entre os foldados , caufado 
da afpera condição , e pouca fé de Solei- 
mão ; porque trazendo elle do Cairo mui- 
tos homens tomados a foido para fervirem 
de homens tf armas ? tomou glande nume- 

Qci ii ro 



6i2 ÁSIA de João de Barros 

ro delles , e os mandou metter a banco per 
força ; os qunês como não fofíem cativos , 
nem áífcidadados para remciros , e os offi- 
ciaes das galés os trataíTem como taes , lof- 
friam mal aquclla força , e engano , e qua- 
trocentos delles fe amotinaram , dizendo , 
que não havinm de fervir ícnáo no officio 
para que foram conduzidos ; polo que def- 
tes quatrocentos foram defcabcçados per 
mandado de Soleimao mais de duzentos , 
e a ieveridade deite exemplo fez a outros 
foldados forfrer o jugo , e tomarem o re- 
mo mal de ku grado. Feita preíles a Ar- 
mada , e embarcada a gente , partio Solei- 
mao de Suez a 22. de Junho : do dia que 
partio a três dias chegou ao Toro , e dahi 
a cinco foi ao porto Jubo , e dclle a ou- 
tros tantos dias ajuda. Como alli chegou, 
quizera Soleimao Baxiá haver EIRey a mão 
per manha ; mas d\c que bem conhecia a 
pouca fé dos Turcos , principalmente de 
Soleimao, cuja crueza, etyrannia era bem 
fabida , defpejou a Cidade , e fe poz em 
falvo. Dejudá fez faa derrota á Cidade de 
Zebit fituada na coita da Arábia , de que 
era Rey Nacodá Hamed Turco , que fuc- 
cedêra a Mir Efcander, que levantando-fe 
da obediência dos Governadores do Cairo , 
fenhoreou alguns annos ; e aífi por o dito 
alevantamento de feu anteceíTor, (como fe 

nel- 



Década IV. Liv. X. Cap. III. 613 

nèlle tivera culpa Nacoda , ) como per lhe 

dizerem que aqueile Senhor era rico, fem 

embargo dos prefentes, c refrelcos que Jhe 

I mandou á Armada , o mandou Soieimão 

Idelcabeçar a , e deo leu Eíiado a Muílafá 

I Naxar Mameluco. 

Eítando ainda Soleimao no Cairo , di- 
zem que mandou hum meílageiro a EIRey 
de Adem , fazendo-lhe laber como o Grã 
I Turco o mandava vir com aquella Arma- 
da , e que havia de paliar per feu porto , 
jque lhe pedia lhe tiveíTe preíles os manti- 
mentos que lhe baftailem , que elle compra- 
jria por feu dinheiro; e quando íe Soleimao 
! partio do porto de Judá , onde efteve aí- 
jguns dias, veio á Ilha de Gamaram, ache- 
gando mandou logo per terra o melmo mef- 
jiageiro a EIRey de Adern apercebello de 

fua 

a Efe r e ve Diogo do Couto , que EIRey de Zebit man- 
dou Httm premente ao Haxiá de ef padas , e punhaes gttfir- 
wecidos tf oure , e prata, com alguns rubijs , turquezas , 
\e pérolas , rodellas , e cofos mui ricos , e outras pecas cu- 
'.riofas , e lhe mandou dizer , que fo/Je fazer a jornada coar 
\tra os Portugueses , e que da volta o ej per ar ia para o fer- 
roir em tudo § que lhe mandajje . e que quando Soleimao 
\Baxid voltou para Suez desembarcara junto de Zebit , pa- 
ira cafligar a EIRev Kacodá , polo recado que lhe mandou 
lanando á ida pajjou por alli -, e que desamparado EIRey 
Idos [eus je viera apresentar aoBaxid com huma touca a to- 
lda ao pefcoqo , em final de culpado , e lançado a {eus pés 
\lhe pedira misericórdia , que como no Baxiá a não liou- 
Ivel/e , lhe mandou fogo cortar a cabeça. Cap. <. liv. jl 
\e cap. 4. Hv. 5. da 5. Década. 



614 ÁSIA de João de Barros 

fiia vinda, e pedir-lhe de ília parte que lhe 
mandnfTe dar Immas cafas , em que fe aga- 
zalhaílem alguns doentes que trazia , para 
fe curarem. EIRey que nao era tão fui pei- 
to fo como fora o de Judá , nem tinha tan- 
ra noticia da peíToa de Soleimão , lho con- 
cedeo de boa mente. Chegada a Armada 
ao porto de Adem , lhe mandou EIRey 
muitos refrefeos , e mantimentos. Soleimão 
começou a mandar, entre alguns poucos en- 
fermos que trazia , muitos foldados rijos , 
e valentes , fingindo que eram doentes , com 
tenção de metter muita gente na Cidade para 
fe levantarem com ella \ e a invenção era , 
que os doentes verdadeiros , e os fingidos 
hiam cada hum cm íèu leito ás cotias de 
quatro foldados , e nos leitos levavam fuás 
armas efeondidas, e com cada hum doente 
ficavam em caía dons para o curarem \ e 
; aífi trazidos huns , tornavam bulcar outros 
Per cila maneira , e com gente das mãos, 
que Iiia a Cidade balear os mantimentos , 
que fe compravam , eram entrados nas ca- 
fas dos doentes , ferh os da Cidade fenti 
rem o engano, quinhentos homens dos mais 
esforçados daquella Armada para qualquer 
feito, a quem Soleimão tinha dito, que co 
mo vilTem certo final , faliiííem a cercar as 
enfas d'EÍRcy , e faqueallas , e aíli mefmc 
a Cidade. Como aquella gente entrou , mau 

dou 



Década IV. Liv. X. Cap. III. 6XS 

dou Soleimao dizer a EIRey, que porque 
elle não podia fahir em terra , lhe pedia íe 
folie á galé , para íe verem , e communi- 
carem algumas coufas , que lhe relevava tra- 
tar com elle. E poíco que EJRey receou 
muito ver-fe com Soleimao , todavia fen- 
tindo o poder de tão grande Armada , foi- 
le a elle com três homens principaes , aos 
quaes rodos , em chegando , Soleimao man- 
dou enforcar nas antenas das galés a \ c fei- 
to final aos quinhentos foldados , que tinha 
na Cidade , mettéram a gente delia á cípa- 
da ; e com ajuda de outros ; que logo en- 
traram , foi laqueada , e pofta em poder dos 
Turcos ; e como o Baxiá era cubiçofo 3 e 
cruel , mandou apregoar , que fob pena de 
morte , todo o defpojo fe lcvalfe ante elle 
para o repartir; e pofto em huma porta da 
Cidade , que íò havia aberta, mandou ía- 
hir a todos os foldados, e lhes tomou to- 
do 

a Efcrcvc Diogo do Couto , que chegado o Baxiá a 
Adem y EiRey o mandara vifitar com muito repefee , e pe- 
ças âc prefente , e que o Baxiá lhe. enviara hum f alvo 
conduto do Turco , para que fegwamente fe viefle ver com 
eV.c á galé j o que recufando E/lley , o Baxiá ordenara, 
que defemuarccljcm as Jani caros em terra, mandando dian- 
í W perfadiffe , e fep-urajje EIRey , o qual vendo a 

~~o do Baxiá , acompanhado dos mais principaes da 
jua cajá , o fora ver ; e recehido com lio, ir a , e gauilhado 
do Baxiá , o dejpedira com capeias rica* ; e chegando Ei- 
Rey á prja da «ali , para fe embarcar , o tomaram os 
Janiçaros , e o enforcarem na entena a\\ ^alé , e junto deU 
U quatro dos que o acompanhavam. Cap. A \. Co liv. j. 



616 ÁSIA de João de Barros 

do o ouro , prata , e jóias que levavam , e 
mandou entregar tudo a leu theíòureíro , e 
lhes deixou para repartirem os Mouros, o 
fato, dequeelles tinham pouca neceffidade 
por o ofticio em que andavam , do que to- 
dos ficaram mui eíeandalizados. Em Adem 
fe deteve dezefeis dias em prover coufas da 
Armada , e da fegurança da Cidade , dei- 
xando nella para lua guarda quinhentos ho- 
mens , e por Capitão Barharam Bec , hum 
dos cinco Capitães , que atrás nomeámos , 
e elle fe partio na volta da índia , fazendo 
íeu caminho a Dio ã \ e a razão por que fe 
inoveo a ir áquelle lugar mais que a outro 
algum da índia , foi por Coge Sofar mui- 
tas vezes ter eícrito a Nacodá Hamed Se- 
nhor deZebit, que era feu parente, e ami- 
go , que fe a Armada dos Turcos houvef- 
fe de vir , vieife direito a Dio , porque 

quem 

a Seis navios fe apartaram de fia Armada com algumas 
trovoadas que teve , atraveffando de Adem a Dio. Dejles 
féis navios /ruma galé quaji dejiroçada foi tomar a enjeada 
de Jaquete , onde os Mouros da terra lhe tomaram o la- 
le! y e mataram feflent a pefjoas \ e os poucos que ficaram 
largando a amarra fe acolheram. Hum galeão foi ter aos 
liheos de Santa Maria na cojla do Cariará , onde e/lava 
António de Soto-maior com liv.mas fuflas , com as quaes pe- 
lejou todo hum dia com o galeão , e o rende o com morte 
cia maior farte dos Turcos , e muito Jangue dos Portugue- 
ses. Huma não , e outra galé chegaram a Madrefavat , 
pude a mio fe perdeo ao entrar da barra-, outro galeão fe^ 
dar â coda Mm tim Affònfo de Soufa , c huma fujla foi 
parar a Bengala.'' 



Década IV. Liv. X. Cap. III. 617 

quem a índia pertendeíTe conquiflar , con- 
vinha-lhe muito ter aquclla Cidade , por ier 
forte , e de bom , e íeguro porto , e a bal- 
ravento de toda a índia , e por cita razão 
veio Soleimão furgir a Dio aos 4. dias do 
mez de Setembro daqueile anno de 1538. 

O confelho de Coge Sofar parece que 
foi coufa ordenada por Deos para fe não 
arrífear o Eftado da índia , porque fe aquel- 
la Armada dos Turcos fora a Goa no tem- 
po, em que lá podia chegar, per boa con- 
ta houvera de ler aos quinze , ou vinte dias 
do dito mez de Setembro ao mais tardar ; 
e a Armada de Portugal , em que foi Dom 
Garcia de Noronha , chegou ao mefmo por- 
to de Goa aos onze dias , e fegundo outros 
a quatorze do mefmo mez , que vinham a 
fer quatro , ou féis dias , ou pouco mais 
antes da Armada dos Turcos chegar j e 
não houvera que fazer em fe perderem as 
náos com aquella repentina vinda dos Tur- 
cos , e a qualquer fortaleza das noflas a 
que então chegara , lhe não pudera refiftir 
três dias , fegundo eftavam mal repairadas , 
e fracas , mormente que já com as novas 
dos Turcos alguns dos Príncipes da índia 
noíTos vizinhos eftavam em propoíito de 
fe bandearem com elles. Da entrada dos 
Turcos daremos depois razão , porque 
agora convém primeiro eferevermos em 

que 



6io ÁSIA de JoÂo de Barros 
que cftado tomou os noílbs quando chc- 

C A P I T ULO IV. 



Í.TOU 
o 



Como Coge Sofar fe foi fecretamente de 
Dio , e perjuadio a EIRey de Cambaya fa- 
zer guerra aos Portuguezes , e veio cer- 
car a Cidade : e dos apercebimentos que 
António da Silveira fez- para fe defender. 

N r Uno da Cunha por a obrigação , em 
que lhe parccco que eilava a Coge 
Sofar, por a boa ordem que com fua pru- 
dência , e authoridade deo em pacificar a 
Cidade de Dio , pola morte d'ElRey de 
Cambaya , e por ler grande ornamento da- 
quella Cidade ter hum homem tão abali- 
zado cm riquezas , e credito entre Mou- 
ros , quando de Dio íè partio , o deixou 
mui encommendado ao Capitão António da 
Silveira • o qual vivendo em muita profpe- 
ridade , e reputação , e fendo acatado de 
todos , e mui favorecido do Governador, 
e de António da Silveira , propoz em leu 
animo por caufas a que ninguém ibube dar 
ia ilida , de fe ir de Dio com fua cafa ; e 
mais efpanto cauíòu em todos o íegredo, 
e íilencio de fua ida , que a mefma ida : 
tão fabedor , e diíllmulado era ; porque ten- 
do tanta fazenda , e taato número de mu- 
lheres 5 e criados, que não podia fazer mu- 

dan- 






Década IV. Liv. X. Cap. IV. 619 

dança fem grande cftrondo , fe não íbube da 
íua ida , fenão depois de partido a \ porque 
cm. huir.a noite dos ultimos dias de Abril , 
fe foi em huma ília náo , em que tinha em- 
barcado leu fato , que como mercadoria das 
que mandava para muitas partes , fe não ef- 
tranhavam as idas , e vindas dos íèus á 
náo 5 e para fe não attentar niíTo , e aífe- 
gurar a todos de íua cilada em Dio , co- 
meçou a fabricar hutnas cafas mui nobres. 
O lugar que foi demandar era a fua Cida- 
de de Surat , delia fe paliou á Cidade de 
Abmadabat do Reino de Cambaya , onde 
EIRey com fua Corte citava , ao qual fe 
defeuipou do tempo que eftivera entre os 
Portuguezes fem fazer mais cedo o que en- 
tão 

a Antes da ida de Coge Sofar , fe foi feri filio , cut 
e fiava r.a fortaleza em reféns , o qual indo algumas vezes 
á Cidade ver fua mâi , com a licença que lhe deixou o 
Governador , o dia que determinou frigir , lhe trouxeram 
hum cavallo para aquelle /'eu intento experimentado , no 
qual chegando ao cais da Alfandega acompanhado de alguns 
foldados de guarda , pondo-fe d borda anágua , como que ef- 
iava vendo as embarcações , apertou as pernas ao cavai- 
lo , e arrernefando-Je ao mar , em breve ejpaço pafjou o 
ejieiro ; e pofto da outra banda na villa dos Rumes , fe 
foi a Cambaieta , onde EIRey o recebe o com gayalhado. 
Afifado António da Silveira da fugida dejle moço , man- 
dou trazer diante de íi a Coge Sojar feu pai , que com 
tanta feguranca lhe deo fiu:s razoes , que lhe pareceo ao 
Capitão que ejiava fem culpa ■, e por não alterar a Cida- 
de o nlío prendeo , e lhe mandou que continuajje cem o fer- 
Viqò d^ElRcy de Portuga! , como tinha per obrigação. Dio* 
go do Couto cap. 9. do liv. 2. da Década 5. 



620 AS1A de João de Barros 

tao fizera , dizendo , que com ferviços que 
lhe efperava fazer, fe compenfaria a demo- 
ra paliada. 

E por achar EIRey abalado para fazer 
guerra aos Portuguczes , com muitas palavras 
o exhortou ao profeguimcnto delia , pondo- 
Ihe diante quão grande ignominia era para 
hum Rcy tão poderofo como elle , ver fua ter- 
ra fujeita a huns homens eítrangeiros , que 
não tinham terra em que fe recolher fenão a 
que com mão titulo , e força ufurpáram por 
fraqueza dos Principes que tal ibíFriam , 
fendo elles tão poucos cm número , e tao 
alongados da terra donde vieram ; e que 
era arFronta , e mafeabo de íeu Real fan- 
gue vizinhar , e ter commercio com os 
que tao cruelmente mataram feu tio , de 
que herdara tantos Eílados , e potencia , e 
que os muitos apparelhos que tinha de gen- 
te de armas , d^rtilheria , de mantimentos , 
de cavallos , e thefouros , e a liga que po- 
dia ter com os Príncipes feus vizinhos , que 
a elle fe poderiam ajuntar , accuíavam feu 
deícuido j c que mui fácil feria debilitar 
tao pequenas forças como eram as dos Por- 
tuguezes , os quaes fe começaífem defeahir , 
não fe poderiam mais levantar , por não te- 
rem donde lhes pudeíTe vir foccono , nem 
de quem fe puder valer , nem aonde fe ir , 
fe fe vilfcm desbaratados ; e que fe algumas 

re- 






Década IV. Liv. X. Cap. IV. 621 

relíquias dcllcs efcapaííem , nem tornar- íe 
poderiam d fuás terras , fendo cilas na mais 
alongada parte do Mundo. Para o mais ani- 
mar ofFercceo-lhe ajuda de ília peflba r e 
fazenda , e gente , que logo faria preíles , 
e que o meíino fariam muitos Príncipes 
feus comarcãos por honra de lua Lei , e 
por livrar a fi , e as terras , cm que naf- 
ceram , que aqudles poucos coflatros ti- 
nham opprimidas , c eíperavam de fujeitar; 
e como quem tinha conhecimento do eíta- 
do em que efiava Dio , e fua fortaleza , 
punha-lhe também diante a boa occaíião que 
então fe orferecia para lançar dalli os Por- 
tuguezes , porque eíhvam naquelle tempo 
mui faltos de mantimentos , e principalmen- 
te de agua ; porque huma dilema que co- 
meçaram fazer na fortaleza , nao era ainda 
acabada, nem fe poderia acabar dahi a hum 
anuo , por o grande fundamento , em que 
a começaram ; e que o baluarte da Villa 
dos Rumes , que o Governador mandara 
fazer, eílava ainda mui baixo, e não tinha 
defensão. Lembrava mais, que nem a Ilha , 
nem a Cidade poderiam os Portuguezes de- 
fender , por ferem poucos , e na Cidade ha- 
ver muitos Mouros de guerra , que diílimu- 
lados em hábitos de mercadores andavam 
nella ; e que como os Portuguezes alargaf- 
fem a Ilha , e a Cidade , nao fe podiam 

fuf- 



6ii ÁSIA de João de Barros 

íuítentar na fortaleza por a dita falta d'a- 
gua , e que além diíTo elle Coge Sofar ti- 
nha per nova certa , que a Armada dos 
Turcos citava preílcs no Mar Roxo, e náo 
tardaria muitos tnczes que nao fofle na ín- 
dia , com cujo favor poderia acabar tudo. 
Eílas , c outras razoes dava Coge Sofar pa- 
ra incitar a EIRey , ao qual como nao fal- 
tavam efpiritos , e fe creára em ódio dos Por- 
tuguezes , que fe acere ice ní ou por a morte 
de feu tio , nao houve meíter tantas pala- 
vras para o indignar a procurar vingança 
delia. Polo que mandou logo formar hum 
exercito em Champanel de cinco mil ho- 
mens de cavallo , e dez mil de pé eícolhi- 
dos , de que fez Capitão geral a Aluchan , 
que era grande Senhor , e hum dos três 
Governadores do Reino , que os Mouros 
elegeram per morte de Soltam Badur. Co- 
ge Sofar fe fez primeiro preítes com três 
mil homens de cavallo , e quatro mil de 
pé. 

Efta gente fe levantou o mais encuber- 
ta mente que pode íér , para de fobrefalto 
darem em Dio ; e tanto que a nova deík 
apparato veio á noticia de António da Sil- 
veira , e como aquelles Capitães vinham a 
cercar Dio , por ter por acabar algumas 
couías , que Nuno da Cunha mandou co- 
meçar para defensão da Cidade > acudio as 

mais 



Década IV. Liv. X. Cai>. IV. 623 

mais importantes. Primeiramente mandou a 
grande prelía acabar a ciílerna , por na for- 
taleza não haver outra alguma agua , para 
o que metteo muita gente até que fe aca- 
bou , e nella mandou lançai quanta agua 
puderam acarretar mais de trezentos bois 
per muitos dias : aíli me fino mandou reco- 
lher muitos mantimentos , e as mais coufas 
de que podia ter neceífídade , fe o cerco 
durafie. E para fegurança , e defensão da 
Cidade , mandou muita gente á Villa dos 
Rumes , para fe acabar hum baluarte que 
Nuno da Cunha mandou fazer, de que era 
Capitão Franciíco Pacheco Juiz da Alfan- 
dega da meiina Viiia , que logo lá foi dor- 
mir com alguns homens ordenados para fua 
defensão. Apôs iíto mandou quantos navios 
tinha que andaíTem no eíleiro , que cerca a 
terra , em que a Cidade eftá íituada , o 
qual faz que tíque em Ilha, e daquella Ar- 
mada fez Capitão Francifco de Gouvea* 
Keíle meio tempo que António da Silvei- 
ra fe apercebia para reíiítír a Aluchan , e 
a Coge Sofar , por os quaes efperava , foi 
tão grande medo nos Guzarates , principal- 
mente nos que chamam Baneanes Gentios , 
que como gente fraca , e medro fa que são , 
começaram a fugir ; ao que António da 
Silveira acudio com rigorofos pregoes de 
morte 3 que ninguém fe foíle } e porque 

não 



6 24 ÁSIA de JoÁo de Barros 

não deixavam de fe ir , mandou enforcar 
alguns , com que outros fe detiveram. 

CAPITULO V. 

Como Coge Sofar veio d Vi lia dos Rumes , 
e de o a (falto ao baluarte : e como Antó- 
nio da Silveira prove o os pqffòs da 
Ilha 3 e o que mais fuccedco. 

EM quanto António da Silveira fe aper- 
cebeo para o cerco que efperava , lhe 
veio recado que Coge Sofar viera diante 
dos léus com vinte e cinco homens de ca- 
vallo fomente , e eftava em Novanaguer, 
mas que deixava perto dahi feu exercito \ 
e quando veio ao feguinte dia 5 que eram 
vinte e féis de Junho daqueJle anno , ante 
manha , de fubito com toda fua gente , que 
eram os que diíTemos todos efcolhidos , de 
que os mais eram efpingardeiros Arábios , 
Turcos , e Abexijs , deo na Villa dos Ru- 
mes , e roubou tudo o que achou da gen- 
te que alli vivia , que eram Guzarates , e 
matou alguns 5 de que André Villela Efcri- 
vão da Alfandega com outros três Portu- 
guezes , que com elle citavam , efeapáram , 
e fe acolheram ao baluarte de Francifco 
Pacheco , que comfigo tinha doze homens 
efpingardeiros , com os quaes fe poz em de- 
fensão j e fendo dado rebate á fortaleza , 

acu- 



Década IV. Liv. X. Cap. V. 6if 

acudio António cia Silveira deixando-a a 
recado ; e temcndo-fc que aquelle aílalto 
folie principio para íè dar outro maior na 
fortaleza, onde le faria mais damno, poí- 
to que para paliar á Ilha , cm alguns paf» 
ibs delia tinham porto guardas , mandou 
Lopo de Soufa Coutinho , de cujo esfor- 
ço , e aviíò muito confiava , aos muros da 
Cidade daqueUa parte que reíponde ao cam- 
po da dita Ilha. Neíle tempo Coge Sofar 
apertava com- os do baluarte, os quaes to- 
mando esforço com a vinda de António 
da Silveira, que já viam abalar, ie defen- 
deram mui vale rol a mente ; e fendo de hn- 
ma parte , e outra a coufa mui pelejada, 
do baluarte fahio hum pelouro de efpingar- 
da , que deo a Coge Sofar em o bucho 
de hum braço , em que lhe ficou mettido , 
de que eíleve mui mal , e com a dor da 
ferida, e vinda de António da Silveira, fe 
arfaítou com alguma perda dos feus. 

Efte fubito accommettimento de Coge 
Sofar , e preambulo de guerra , com a no- 
va dos inimigos que vinham , metteo a An- 
tónio da Silveira em maior cuidado de pro- 
ver em toda a Ilha ; e como havia na Ci- 
dade , (como já diíTemos,) muitos Mouros 
de guerra , que nos trajos andavam diffi- 
mulados em figura de mercadores , que al- 
gumas vezes já haviam tentado de dar ai- 
Tom.IT. P.il. Pvr gum 



6z6 ÁSIA de João de Barros 

gum dcíàfíbcego j António da Silveira ven- 
do que com as Coufas que íe moviam , íe 
moítrariam os Mouros da Cidade inimigos 
mais á defeuberra , os deípojou a todos das 
armas , e alguns dos principaes prendeo 
por evitar ajuntamentos, e tumultos ; e lo- 
go fem mais dilação proveo os lugares do 
eíleiro , que divide a Ilha da terra firme , 
que eram fracos , e fe podiam facilmente 
vadear ; e onde a agua era mais baixa , ha- 
via dons baluartes , que Soltam Badur man- 
dara fazer no tempo que fe temia de os 
?AogoIes virem a Dio. Em hum delles 
mandou eílar Manoel Falcão com cincoen- 
ta homens , e em o outro Luiz Rodrigues 
de Carvalho com vinte e cinco , bem pro- 
vidos d'artilheria. Em outro pafíb , que não 
era tão fecco , porem era muieílreito , man- 
dou eftarLopo de Soufa Coutinho com hu- 
ina galeota , huma barcaça , e duas ftiíías ; 
e a Francifco de Gouvea Capitão mor da- 
quelle mar de Dio mandou que fe foíTe 
pôr com cinco navios no cabo da Ilha , 
que eílá contra o Norte em hum certo paf- 
fo , porque alli havia hum banco de arêa , 
perque com baixa mar podia paíTar a gçn- 
te a pé da terra firme para a Ilha ; e além 
deites havia mais de vinte navios , em que 
andavam mais de trezentos efpingardeiros 
para tolher a paífagem ? os quaes paílbs o 

Ca- 



Década IV. Liv. X. Cap. V. 6*27 

Capitão António da Silveira per lua pcílba 
vigiava muito ameude. Eltes apercebimen- 
tos pode fazer no tempo que Coge Sofar 
ie retrahio para íe curar de íua ferida , no 
qual ie acabou o que ficava por fazer na 
fortaleza , e no baluarte da Villa dos Ru- 
mes , que fe poz em quarenta palmos de 
alto ; e nelle lendo fornecido de muita ar- 
tilheria , e munições, fe recolheo Franciíco 
Pacheco com fetenta homens eícolhidos. 

Feitos eíles repairos , aos 14. dias do mez 
de Agoílo chegou Aluchan com feu cam? 
po , em que havia cinco mil homens de 
cavallo, edez mil de pé, gente efeolhida , 
e bem concertada , e fe foi alojar ao lon- 
go do eíleiro nos paííbs perque Gonçalo 
Falcão , António da Veiga , e Francifco de 
Gouvea andavam. «Coge Sofar com fua gen- 
te fe veio aííentar fobre o paílo de Lopo 
de Soufa , que fe chama Palerin , e aíTefcon 
contra clle três bombardas groíías , com 
que lhe fazia muito dam no ; e Lopo de 
Soufa lhe fazia a eile também aíTás com 
fua artilheria , aíFi na gente de pé , como 
na de câvallo. Como eíles Capitães fe vi- 
ram alojados nos lugares perque efp era varri 
paliar a Ilha , todo íeu cuidado foi virem 
com terra em modo de vallos pouco , e 
pouco até a borda d'agua , ampara ndo-fe 
da artilheria de noííos navios , até que de 

Rr ii to-* 



623 ÁSIA de JoÁo de Barros 

todo ficaram com elites rcpairos encuberros- 
Polo que ellcs offendkm os noflbs de ma- 
neira , que na o oufavam , nem podiam paf- 
far peralli fem receberem dos Mouros mui- 
to damno da íua artilheria grofla , e efpin- 
gardaria , que era muita. António da Sil- 
veira vendo que era por demais poder lon- 
gamente defender o rio , e que cada dia 
perdia gente , e munições , c a dcfeza da 
Ilha ficava em offenfa dos íeus , havido con- 
fclho com os Capitães , e peíTòas princi- 
paes , aíTentou de de/pejar os baluartes , e 
alargar a Ilha , e defender a Cidade , e por 
nelía toda a artilheria , que para defensão 
da Ilha eftava efpalhada ; e aíli aos que nos 
paffos andavam mandou que fe vieflem 
aquelía noite , e que Paio Rodrigues de 
Araújo Alcaide mor da fortaleza tomaííe a 
barcaça de Lopo de Soufa Coutinho , e rc- 
colhefle ndla a artilheria do baluarte de 
Gonçalo Falcão ; e mandou huma fufta gran- 
de a Luiz Rodrigues de Carvalho , para 
que também em cila cmbarcaííe a artilheria 
que no feu baluarte tinha. E como ido era 
de noite , e tal que parecia abrirem-fe os 
Ceos com chuva , c a maré vaiava , vindo 
já a barcaça atoada per hum catur que a 
trazia , com o grande pezo da artilheria 
deo comíigo em fecco , e aíli foi mui va- 
rejado dos Mouros , e lhe conveio deixar 

a bar- 



Década IV. Liv. X. Cap. V. 629 

a barcaça com dez peças (Partilhem que 
trazia, e ia 1 v a r- fe rio ca tur. Per o me fm o 
modo deram em lecco aquella noite a fuf- 
ta em que vinha Luiz Rodrigues de Car- 
valho com tudo o que tirara do feu ba- 
luarte , e três galeotas , a que os noíTòs pu- 
zeram fogo , por fe os Mouros não apro- 
veitarem delias , as quaes meias queimadas 
foram tomadas dos Mouros , com a arti- 
lhería que nellas vinha ; e fendo os Mou- 
ros muitos , e os Portuguezes ío vinte , 
tiveram bem que fazer em fe livrar delles, 
pelejando mais de duas horas , fem os nof- 
los ferem entrados , até que foram loccor- 
ridos de almadias noilas , em que íè falvá- 
ram. Lopo de Soufa fez-fe á vela em fua 
galeota, e atormenta o lançou da parte da 
terra firme; e como a maré já então vaia- 
va , ficou em fecco , e aíli eíleve até a ma- 
nhã , que lhe fez ver a muita diftancia que 
havia delle á agua , e em breve foi cerca- 
do de grande cópia de Mouros, dos quaes 
fe defendeo com muita, perda delles , até 
que veio a maré , e a galeota nadou , poi- 
to que a tormenta não ceifava , e fe foi pa- 
ra a Cidade. 



CA- 



630 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VI. 

Como António da Silveira alarvou a Ilha y 

e a Cidade , e fe recolheo d fortaleza : 

e do que fez depois de ejlar nclla. 

DE fim pedidos os pados do efteiro , ao 
outro dia foi a Ilha entrada dos Mou- 
ros , aíli da gente de pé , como de cavallo ; 
e vendo António da Silveira como a arti- 
lheria que eftava na Ilha, com que elle de- 
terminava defender a Cidade , era perdida , 
e não fomente ficava elle com ella falta , 
mas os inimigos que a cobraram com me- 
lhoria j chamou a confelho os Capitães , e 
peííoas principaes , e lhes propoz , como 
ell^ já que lhe não foi po/Iivel defender a 
Ilha com a artilheria que na defenfa delia 
eftava, determinava defender a Cidade; e 
que como viam , a artilheria , e os navios , 
(por aíli Deos o permittir,) eram em po- 
der dos inimigos , que feu parecer era , (fe 
elles o approvaífem , ) que a Cidade fe dei- 
xaflb , porque para a defender convinha ti- 
rar da fortaleza parte da artilheria , que nel- 
ia eftava , e fenao podia efcufar. A qual 
como não era muita , fe ainda delia tiraf- 
fem , não fe feguiria diílo mais proveito 
que enfraquecer muito a fortaleza , e ajudar 
pouco a Cidade , porque era tão grande, 

e os 



Década IV. Liv. X. Cap. VI. 63T 

e os noíTos tão poucos , e mal armados, 
que facilmente fe poderia perder , e após 
ella a fortaleza, como ordinariamente acon- 
tece , quando coufas grandes , e unidas fe 
fepáram , que cada huma fica fraca ; e que 
alem diílb era couía íábida , que na Cida- 
de havia muita gente de guerra di (Emula- 
da , de que alguns , pofto que fe lhe tiraram 
as armas , ás fuás vontades damnadas não 
faltariam outras ; e que lo com gritas , que 
deílem em favor dos de fua lei , fariam 
grande torvação. Por cilas razoes , e outras 
que fe alli lembraram , o voto de todos , 
fem algum diferepar, foi, que a Cidade fe 
alargaíTe; e como já os inimigos eítiveíTetn 
•na Ilha, vieram perto da Cidade a dar vif- 
ta três mil decavalio, e muita gente de pé; 
e como os Mouros da Cidade os viflern 
tão perto , foram logo em algumas partes 
delia levantadas bandeiras , fazendo finaes 
aos de fora, que commettelTem a entrada, 
e houve entre elles alvoroços, e ajuntamen- 
tos de gente , pelos quaes fe vio claramen- 
te a grande cópia de inimigos , que dentro 
dos muros havia , dos quaes os noflos fe 
não podiam guardar; e por já íèr afíenta- 
do o recolhimento á fortaleza , mandou o 
Capitão alguns homens que queima flem cer- 
tos navios de remo , que na ribeira eftavam 
varados , por fe delles não aproveitarem os 

ini* 



652 ÁSIA de João de Barros 

inimigos , e que também queimaffem o en- 
xofre , e falirre , que em hum dos arma- 
zéns tinha , para o que levavam artifícios 
de fogo convenientes ; mas com aquelles 
materiaes ferem tão promptos para toma- 
rem fogo , os rniniítros que a iílb foram , 
com a preffo de fe recolherem á fortaleza , 
o fizeram de maneira que nada ardeo , e 
de tudo fe aproveitaram os inimigos em 
damno noíío. António da Silveira iòmenta- 
com cem homens fe metteo pela Cidade , 
e onde achava ajuntamentos, principalmen- 
te de homens com armas , os mandava alan- 
cear , e enforcar. a E da]li mandou levar 
prezos á fortaleza quatro mercadores prin- 
cipaes da Cidade , não porque nellcs achaf- 
fe culpa alguma daqueJles ajuntamentos , 
mas para com fuás peíToas remir alguma 
neceffidaxk , fe a occaíião a offerecefle , por 
o muito credito que tinham , por ferem hon- 
rados , e ricos. Os quaes foram mui bem 
tratados no tempo do cerco , e depois del- 
Je poítos em liberdade. Deita maneira fe fa- 
hio o Capitão da Cidade aquelle dia com 
os íeus , e fe recolheo á fortaleza ; e quan- 
do veio a noite , fendo pelos de dentro avi- 
iado aos inimigos, como a Cidade era def- 
pejada dos noífos , entraram nella , onde 

fo- 

a Lopo de Soufa Coutinho no Tratado , que fc^ dejlc 
cerco de Do , o qual dedicou a EIRey D. João HL e fe 
imfritnip em Coimbra no anuo de 1556. 



Década IV. Liv. X. Cap. VI. 633 

foram recebidos com grandes feitas , e lu~ 
mi 11 a rias j e toda a noite gaitaram em an- 
dar viíitando as Meíquitas , dando louvo- 
res a íèu falíb profeta por cobrarem a Ci- 
dade íem langue. 

Aluchan fe alojou nas cafas da Rainha 
A^ai de Soltam Badur , que citavam em hum 
alto á maneira de fortaleza, porque fua ida- 
de , que era muita , nao foífria eítar em lu- 
gar inquieto com rebates. Coge Sofar fez 
lua eftancia junto com a fortaleza em hum 
lugar que chamam Mandovin ; e antes que 
folie manha aíTentáram algumas bombardas 
junto a hum cais , que cftá no mefmo Man- 
dovin , e fica defronte do baluarte do mar , 
nao tanto por fazer damno ao baluarte , 
quanto á galeota de Lopo de Soufa , e ou- 
tras fuítas das que efea param , que eítavam 
ao focairo da fortaleza ; e aííi como foi de 
dia atirando-lhe bombardadas , rnettêram no 
fundo duas fuítas , e mataram alguns mari- 
nheiros delias; mas na galeota de Lopo de 
Soufa fizeram pouco damno. No próprio 
dia fahioGafpar de Soufa per mandado do 
Capitão com alguma gente , para valer a 
alguns dos noííos , que moravam fora da 
fortaleza em cafas vizinhas a cila , que com 
a preíía de fe recolherem deixaram parte de 
fua fazenda , o que ainda aproveitou a mui- 
tos j e como já os inimigos andaííem per 

aquel- 



634 ÁSIA de J0X0 de Bar k os 

aquellas caías , matou Gafpar de Soufa mui- 
tos j e a clle lhe mataram hum , e feriram 
outros. A Lopo de Soufa mandou o Ca- 
pitão que déffe guarda aos que hiam bufcar 
agua aos poços , que eílavam na Cidade , 
e aos que mettiam na fortaleza a lenha , 
que íe tirou das cafas vizinhas a ella , que 
fe derribaram , porque lhe podiam fazer da- 
mno , as quaes não fe puderam aíTolar tan- 
to , que quando veio, o tempo do cerco dos 
Turcos , deixaíTem de fazer delias muito 
mal. Neílas fahidas que Lopo de Soufa fa- 
zia , indo dar guarda á gente miúda , que 
fahia bufcar agua, e lenha, houve muitos 
recontros com a gente de Coge Sofar, cm 
que os nofibs fendo poucos \\\q mataram 
bom número dos feus \ e o dia 14. de Agof- 
to ? íahindo Lopo de Soufa com cincoenta 
liomcns , que repartio per as bocas de al- 
gumas ruas , para feguridade dos que hiam 
bufcar agua , e lenha , ficando elle fó com 
quatorze em huma rua efireita , determinou 
de pelejar com os Mouros , pofto que o nú- 
mero era tão deíigual ; e depois que os vio 
mais entrados pela rua , ajudando-fe da com- 
modidade do ftio 5 os accommetteo 5 e ma- 
tou trinta , e ferio outros tantos ; e volven- 
do elles as cofias os feguio matando nel- 
Ics. Deita volta fatio Lopo de Soufa feri- 
do de huma cutilada em huma perna , ç 

hum 



Década IV. Liv. X. Cap. VI. 635- 

hum page feu com hum olho quebrado, 
e outro homem com hum a cílocada per hu- 
ma perna , fem outro damno algum. Ou- 
tras vezes iahíram á rncfma guarda , ora 
Gafpar de Souia , ora Gonçalo Falcão , o 
qual tomou hum Mouro homem de res- 
peito , e aviíado , que fendo perguntado 
per António da Silveira per novas do exer- 
cito , que na Cidade citava , e vinda dos 
Rumes 3 refpondeo , que do exercito não 
havia que dizer mais , que citarem nelle jun- 
tos dezoito , ou dezenove mil homens ; e 
que a ca ufa de fazerem guerra era efpe- 
rarem a vinda dos Rumes , e que de fua 
vinda não fabia mais que dizer-fe no ar- 
raial , que do porto de Mangalor Cidade 
de Cambaya , viera nova que na Cidade de 
Adem ficava huma grande Armada de Ru- 
mes. Naquelles dias que reítavam de Agof- 
to , não fe fez outra coufa mais que eftas 
fahidas da guarda, em que fempre dos ini- 
migos fe mataram alguns , e da fortaleza , 
e do baluarte da Villa dos Rumes fizeram 
algum damno com tiros perdidos aos ini- 
migos , mas com muito gaito de pólvora, 
per que depois poio tempo foi pofta a for- 
taleza em muito rifeo por falta delia. Sen- 
do chegado o fim deAgollo, por o inver- 
no não fer muito aí pêro , e fe poder nave- 
gar, fez António 'da Silveira faber ao Go- 

ver- 



6^6 ÁSIA de João de Barros 

vernndor Nuno da Cunha o que ate então 
era íuecedido. Polo queelle defpachou lo- 
go de Goa, onde eftava, alguns Fidalgos , 
e çavalleiros , que foliem a Dio , hum dos 
quaes foi Fernão de Moraes , de que de- 
pois faremos menção. a 

CAPITULO VIL 

Como Soleimao Baxid veio com fu a Ar- 
mada ao porto âe Dio : e da mojlra que 
deram de fi alguns [jani caros : e do avifo 
que António da Silveira mandou a Nuno 
da Cunha. 

AS coufas de Dio eftando no eftado, 
que contamos , o Capitão António da 
Silveira fufpeitando a vinda dos Rumes , 
aííi por o accommettimento que EIRey de 

Cam- 

a Tio lo galeão dos Turcos , que António de Sot ornai or 
t ornou nos Iiheos de Santa Maria , foube elle da Armada 
Turquel ca , de que cm hum catur mui ligeiro avifou ao 
Governador , que com grande diligencia mandou logo apref- 
tar a Armada com determinação de ir pelejar com os Tur- 
cos ; e no mefmê dia , que ejla nova chegou a Goa , fe em- 
tarearam em três catur es Fernão de Moraes , Simão Ran- 
gel de Cajlello-b ranço , e António de Araújo com feu irmão 
Gajpar de Araújo , e partiram para Dio. Levava cada 
hum de Jles Capitães vinte foldades t e os principaes de qu& 
fe foube o nome foram , Lançarote Pereira , Rodrigo Ho- 
mem , António Ma;:hoz y Trijlão da Silva, e Fernão Cor- 
rêa. Governador efereveo por Fernão de Moraes , [que 
fá fe dejpedio de lie , ) a António da Silveira como fe fica- 
va apercebendo para o ir foccorrer. Diogo tio Couto cap, 
6. Uv. j. 



Dec. IV. Liv. X. Cap. VIL 637 

Cambaya fazia , que lhe não parecia fer fem 
caufa , como por afama que já íe rompia, 
mandou huma fufta para a parte de Man- 
galor , de que hia por Capitão , e como 
atalaia hum cavalleiro per nome Miguel 
Vaz homem mui esforçado a defeubrir no- 
vas da Armada dos Rumes ; o qual tornan- 
do á preíía , as deo a António da Silveira , co- 
mo divifára huma grande Armada • e ao tem- 
po de fua chegada já dos lugares mais altos da 
fortaleza íè viram vir pelo mar diílantes da 
terra duas léguas , quatorze galés em huma 
batalha , e de longo da terra outra de fetc 
galés na mefma ordem , e que apôs eftas 
duas batalhas vinham todas as mais galés , 
e navios , trazendo ante íi as nãos de car- 
ga ; e Miguel Vaz certificou ferem de Tur- 
cos , c que contara quarenta e cinco galés, 
afora outras que divifára, com outros mui- 
tos navios de toda forte. António da Sil- 
veira a grande preíía efereveo logo huma 
breve carta a Nuno da Cunha , fazendo-lhe 
faber o eftado em que ficava , e a deo ao 
mefmo Miguel Vaz , que logo foííe na vol- 
ta, de Goa, e lha levaííe , e lhe difleíTe de 
palavra o que vira. Outra tal carta efereveo 
a Simão Guedes a Chaul. Miguel Vaz por 
o recado que havia de dar a Nuno da Cu- 
nha fer a relação do que elle mefmo vira , 
querendo affirmar-fe mais na verdade , fez 

o ca- 



638 ÁSIA de João de Barros 

o caminho tão chegado á Armada , que os 
Turcos querendo caííigar aquelle atrevimen- 
to , foram com duas galés feguindo-o ás 
bombardadas , e m et tendo os baítardos por 
o alcançar ; e fe o vento não acalmara , o 
tomaram fem dúvida, mas como afulta era 
leve , fe falvou ; e chegando a Chaul , achou 
que lii viera então MartimAíFonlb de Mel- 
lo Ju farte cm li uma galé com gente , que 
Nuno da Cunha mandava em lbccorro de 
António da Silveira ; porque quando Alu- 
chan lhe poz o cerco , elle efereveo fobre 
iílo a Simão Guedes , e Simão Guedes a 
Nuno da Cunha , a quem a carta fe deo a 
8. de Agofto , e neífe mefmo dia efereveo 
a António da Silveira , que logo o prove- 
ria , e elle em peífoa com toda a gente no- 
bre que pudeífe , iria apôs a carta ; e aper- 
cebeo a Simão Guedes , que lhe tiveíTe mui- 
tos mantimentos , e preftes todos os cafados 
que tiveílem cavallos , porque elle também 
havia de levar os de Goa , e efpcrava de 
naquelle verão dar algum caíligo a Cani- 
baya. Sobre eíle recado mandou logo a Mar- 
tim Affbnfo de Mello para entrar em Dio 
com a gente que levava , e com a que Si- 
mão Guedes lhe havia de dar. E tinha or- 
denado , cm quanto elle não hia com toda 
a força da índia, de mandar trás Martitn 
Affbnfo a António da Silva de Menezes 

com 



Dec. IV. Liv. X. Cap. VIL 639 

com outras velas de remo , para entreter os 
cercados com a efperança da iiia ida , e af- 
fombrar a Armada dos Turcos com aquel- 
les corredores ; mas quando Miguel Vaz 
lhes diile o eítado , e parigo em que citava 
o porto de Dio , não pareceo bem a Mar- 
tim Affonfo , nem a Simão Guedes fazer 
mudança de fi , até não ir Miguel Vaz com 
aquelle recado a Nuno da Cunha. 

Sendo pois quatro dias de Setembro , 
naquelie dia , e doutro feguinte acabou de 
chegar toda a Armada dos Turcos, a qual 
aíli por ô muito número de velas , e força 
d'artilheria que trazia , como por ler tão e im- 
perada , e temida, e que tantos annos ha- 
via que ameaçava, não fomente pareceo te- 
merofa aos Portuguezes , contra os quaes 
vinha, que em número , e apercebimento fe 
viam tão defiguaes , mas poz triíleza , e eP- 
panto aos mefmos Mouros da Cidade , que 
efperavam por os Turcos como por huns 
remidores da fujeiçao, em que os tinham 
poítos os Portuguezes ; o que fe vio logo 
no feguinte dia , em que nenhum dos Mou- 
ros de Dio foi á Armada viíitar algum Tur- 
co , fò Coge Sofar como homem criado 
entre elies , e que com ellcs tinha prática 
fobre fua vinda á índia , foi á galé de So- 
leimao Baxiá dar-lhe os parabéns da fua 
chegada j e para o contentar ; lhe encareceo 

g ef- 



640 ÁSIA de João de Barros 

o efpanto em que a fubita vinda de tão 
poderoía Armada inettêra os noflbs ; polo 
que parecendo a SoJeimao Baxiá que os aí- 
fombraria verem alguma moftra de íua gen- 
te , ao dia feguinte. mandou íahir em terra 
feteccntos Janiçaros efpingardciros , e fre- 
cheiros mui ricamente vertidos de brocadi- 
lhos , e cetijs cremcíijs , e de outras fedas , 
e cores , os quaes com os feltros que nas 
cabeças trazem guarnecidos d'ouro , e ricas 
plumagens , perque são conhecidos por Ja- 
niçaros , pareciam em feus fembrantes mais 
foberbos , e altivos. a Eíles começaram a 
caminhar para a Cidade , e prepaíTando ao 
longo do muro da fortaleza , defparavam 
feus arcabuzes , e frechas , com que mata- 
ram féis homens dos noíTos , que por os 
ver fe puzeram no muro com pouco reí- 
guardo , e aíli foram vinte feridos ; mas tre- 
zentos efpingardeiros dos noíTos lhes refpon- 
dêram de maneira , que lhes fizeram mudar 
o foberbo meneo de fuás peíToas com que 
vinham , quando viram aos pés os da lua 
companhia; porque como emaquella gran- 
de multidão delies nao fe podia perder ti- 
ro, foram mortos cincoenta, e muitos fe- 
ridos , que lhes fizeram ter mais tento em 

a Antes que eftes Janiçaros âeffem vijia á for ta le%a t 
entraram na Cidade , e a meticram a jacco , roubando o 
melhor deita , e deshonrando as mulheres , e filhas de feus 
moradores. Diogo do Couto cap.y, do liv. 3. da Dec. 5» 



Dec. IV. Liv. X. Cap. VIL 6 4 r 

fi , que no compaflb , e pompa com que 
paflavam. Como chegaram á Cidade , os 
principaes delles quizeram ver a peflba do 
AJuchan, quepoufava nos paços d'ElRey, 
e os efperava com apparato , e atavio con- 
forme á íua dignidade , aflentado em huma. 
rica cadeira ; mas fete , ou oiro deftes Ca- 
pitães Turcos chegando a elle com muito 
deiprezo , o tomaram peia barba, elhe de- 
ram hum par de avanaduras nella , tendo-a 
elle mui venerável , e branca , por fer de 
muita idade , e de tal afpecto , que todo 
homem lhe tivera acatamento. Alguns dos 
léus criados vendo eíla deícortezia , e fol- 
tura , quizeram logo caíligallos ; mas como 
elle era homem prudente , o impedio , dizen- 
do-lhes , que não fízeíTem movimento de íi , 
que aquelles homens eram eítrangeiros , e 
na íua terra uíavam aquilio em modo de 
íaudação ; e entendendo elle da íbltura da- 
quelíes Turcos, que fe os muito commu- 
nicaiTe viriam a mais , fingindo que como 
a hoípedes os queria agazaihar bem , lhes 
deixou as cafas , e com fete , ou oito mil 
homens fe parlou á terra firme , e fe apo- 
ientou em hum palmar , que eftá junto da 
Villa dos Rumes , por fe aífaítar bem del- 
les , e a mais gente deixou a Coge Sofar , 
para os adeftrar no que deviam fazer. 

Ao feguinte dia que os Turcos deram 
n.W. P.tL Ss aquelr 



6^2 ÁSIA t)E Joá o de Barros 

aquella moílra de íi , que era aos íeis de 
Setembro , Jogo pela manha , por fer o tem- 
po ainda verde para aquelle porto , come- 
çou a ventar Sul mui rijamente , trazendo 
grandes, e efeuras nuvens, e relâmpados- 
e como o lugar em que a Armada eftava 
furta fica fie em traveília , cumprio ao Baxiá 
levantar-fe dalli com toda íua frota, emet- 
ter-fe no porto de Madrefabat , queeítá da- 
hi cinco léguas. Naqueile porto perdeo qua- 
tro navios de carga com algumas munições , 
entre as quaes íe acharam muitas íqILis de 
cavallo com íuas guarnições , de que o mar 
lançou boa parte , e foram ás ínacs dos 
Guzarates , o que lhes a elles pareceo mal , 
e a Aluchan peior , porque fe moíírava cla- 
ro , que a tenção dos Turcos era fazer guer- 
ra aíli no mar , como- na terra , equererem- 
fe apoderar da índia , e logo houveram por 
fufpeitofa íua vinda, e mais fabendo a na- 
tureza dos Turcos , e o que fizerarn cm 
Adem. Efta fufpcita , e outros íinaes , que 
Aluchan , eCogeSofar nelles viram, apro- 
veitaram ao diante muito aos noííbs cerca- 
dos. Affi que aquelle movimento da Arma- 
da foi felice fucceíTo , além de declarar a 
tenção dos inimigos , por a detença que 
em Madrefabat fizeram de vinte dias. 



CA 



Década IV. Liv. X. 645 

CAPITULO VIII. 

Dos apercebimentos , que António da 
Silveira , e Côgâ Sofar faziam em quanto 
a Armada foi , e tornou de Madrefabat : 
r como veio nova , que era chegado a Goa. 
o Vifo-Rey Z). Garcia de Noronha. 

EM quanto a Armada eflcve cm Ma- 
drefabat , onde gaitou vinte dins , poz; 
António da Silveira as coufas dá fortaleza 
em ordem , provendo primeiro as faltas dos 
muros , que não eftavam de maneira que pu- 
deflem foffrer tiros de baíllifco , e outras 
peças furiofas , que os Turcos traziam pa- 
ra baterem a fortaleza. Polo que mandou 
repairar as paredes , engroíTando em partes 
o delgado , e levantando o baixo , aíli no 
muro , como nos baluartes de maneira , que 
as paredes ficaram de dobrada groflura , do 
que antes eftavam. Aseftancias repartio def- 
ta maneira : o baluarte grande chamado Sao 
Thomé deo a Gonçalo Falcão ; e no de 
Garcia de Sá poz a Gaípar de Soufa ; e no 
lanço do muro que corre de hum ao outro 
poz Francifco Henriques Theíòurciro da 
Alfandega , e Fernão Peleja ; e o muro que 
vai do baluarte S. Thomé para o mar , deo 
a Rodrigo de Proença Efcrivao da Alfan- 
dega 3 e a António Foreiro Efcrivao da Fei- 

Ss ii to- 



644 ÁSIA de João de Barros' 

toria. No outro panno do muro , que eftava 
da parte do rio além das cafas do Capitão, 
que era bem fraco , e mal repairado d 
o fundamento da fortaleza por falta decai, 
poz a Lopo de Sou ia Coutinho , c mais 
adiante na Feitoria velha ao Feitor Antó- 
nio da Veiga ; e o muro da couraça que 
fahc ao mar , deo a Paio Rodrigues de Araú- 
jo ; e no baluarte da entrada do mar , onde 
eítavam os Armazéns , poz a Francifco de 
Gouvea Capitão mor do mar , os quaes to- 
dos repairáram com grande diligencia fuás 
eftancias; e quanto ao outro panno do mu- 
ro , que vai ao longo da cofta brava por fer 
inexpugnável , não teve neceíTidade de mais 
que de vigias. O Capitão António da Sil- 
veira ficou fobreíalente com os (eus para vi- 
giar , e foccorrer todas as cítancias ; e para 
dar exemplo aos outros, ferecolheo em hu- 
ma tenda , que mandou armar no baluarte 
de S. Thomé. 

Em quanto a Armada fe deteve em Ma- 
drefabat , os Turcos que ficaram em Dio 
também gaitaram o tempo em aífentar íuas 
cíhncias per induftria de Coge Sofar, co- 
mo de homem de cafa , e que fabia como 
a fortaleza eftava de dentro para a bateria 
lhe fazer damno ; e o lugar onde as aífen- 
táram foi eíte. Havia ao redor da fortale- 
za muitas calas , que no tempo da paz fer- 
viam 



Dec. IV. Liv. X. Cap. VIII. 645- 

viam aos noílòs deterem fuás provisões de 
'mantimentos, e couias de grande volume, 
que não podiam caber dentro da fortaleza. 
Eftas caías em quanto os Guzarates tiveram 
cercado os noflbs , deixaram citar em pé, 
por lhe fervirem de reparo da noífa artilhe- 
ria • delias os Turcos também fe aprovei- 
taram , até que aflentadas alíi fuás eílancias, 
as derribaram , ficando entre cilas , e a for- 
taleza hum terreiro defpejado , que teria de 
largo cem pés. Coge Sofar , depois que deo 
efta ordem aos Turcos , por ter concertado 
com o Baxiá , que a primeira coufa que ri- 
zeíTem folie combater o baluarte da Villa 
dos Rumes , por fe vingar da ferida que 
nelle houve , paflbu-fe lá. E para o efFeito 
do combate mandou pedir ao Baxiá alguma 
artiíheria groíla , o qual mandou defembar- 
car três baíilifcos com outra artiíheria miú- 
da para lha mandar por terra com Barha- 
rari Bec , e alguma gente ; e como o ca- 
minho era longo para tao grandes peças , 
e de arêa folta a maior parte , com grande 
trabalho levaram hum bafilifeo , e as ou- 
tras peças tornaram a embarcar. Chegado 
Barharan Bec , começou com Coge Sofar 
a preparar as coufas neceílarias para as ba- 
terias que queriam dar áquelle baluarte da 
Villa dos Rumes , e á fortaleza , trabalhan- 
do nos repairos , e trincheiras de noite, e 

de 



646 ÁSIA de João de Barros 

de dia ; ecomo fua tenção era começar pe- 
lo baluarte da Villa dos Rumes , entre as 
coufas que para eíte effeito fizeram foi fa- 
bricarem fobre hum a grande barcaça , que 
ler via de deícarregar das nãos as mercado- 
rias , que levavam á Alfandega , hum a má- 
quina de taboado a maneira de caftello de 
grande altura , que fe igualaífe com as ameas 
do baluarte , e entulhada de muitos mate- 
riaes difrerentes , aptos a receber fogo , co- 
mo falitre , enxofre , rama , e coufas que 
de li lançam grandes fumaças , e fedores , 
a puzeram em meio do rio a quatro amar- 
ras , para com aguas vivas as acoitarem aos 
muros '■ e lhe darem fogo , crendo que com 
aquelle fumo podiam aífogar os que no ba- 
luarte eftavam. António da Silveira enten- 
dendo o artificio , logo no principio o dif- 
íímulou ; e como o vio em eítado para po- 
der fervir , mandou Franciíco de Gouvea 
Capitão mór domar, que de noite lho fof- 
fe queimar, o que elle executou logo com 
muito rifeo de fua peífoa , porque dentro 
daquclla máquina criavam efpingardeiros , 
que a guardavam , e aííi chegando a ella 
lhe deo fogo per muitas partes , com que 
os que eftavam dentro faltaram no rio ; e 
depois de bem queimada , poíto que dos 
Mouros foi varejado de fua artilheria , fe 
tornou a recolher á fortaleza, 

A 



Dec. IV. Liv. X. Cap. VIII. 647 

A efte mefmo tempo , que foram 13. 
de Setembro , chegou Fernão de Moraes 
em hum catur que vinha de Goa a , com 
recado de Nuno da Cunha , por ter já no- 
va da vinda dos Rumes , e em fua compa- 
nhia Pêro Vaz Guedes em outro catur , com 
algum provimento , que Simão Guedes Ca- 
pitão de Chaul mandava a António da Sil- 
veira , o qual Jogo fe tornou; e querendo 
fazer o mefmo Fernão de Moraes , Antó- 
nio da Silveira lhe rogou o não fizcíTe , 
porque por fua idade , e muita experiência 
das coulâs da guerra tinha neceílidade del- 
Ie. Era Fernão de Moraes grande amigo 
de Franciíco Pacheco Capitão do baluarte 
da Vilía dos Rumes; e aíli por o ver, co- 
mo por lhe levar novas do ioccorro , que o 
Governador havia de mandar , acceitou ir 
em hum catur com quatorze homens , a le- 
var-lhe alguns mantimentos , que per efte 
meio delles o provia de noite António da 
Silveira ; e porque Coge Sofar abrio huma 
cara, que das luas eítancias chegava até o 
mar , para defender delia efta provisão de 
mantimentos ; e por eíla caufa Franciíco 
Pacheco mandara tapar de pedra , e cal a 
íèrventia da porta do baluarte, como cou- 

fa 

u Com efte catur de Fernão de Moraes chegaram os 
outros dons de Simão Range! , e de Antónia de Araújo , 
que em fua companhia partiram de Goa. Diogo do Cou- 
ta cap. jo. liv. 3. 



640 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

íà de que nao tinha neceíiidade para entra- 
da , ou fahida , nao pode Fernão de Mo- 
raes dar-lhe os mantimentos que levava ; 
mas citando a falia com elle do leu catur 5 
lhe fahíram da cava huma fufta, eduas al- 
madias com muitos Turcos , e pelejaram 
com dle até virem a bote de lança , com 
os quaes Fernão de Moraes com os léus fe 
houve tão esforçadamente , que lhe arrom- 
bou a fufta com hum berço , e por derra- 
deiro os fez fugir , e elle lahio da briga 
com morte de hum Portugucz , e alguns re- 
mei ros Canarijs feridos. A cites dous ami- 
gos Fernão de Moraes , e Francifco Pache- 
co aconteceram duas coufas ibbre pontos 
de honra , que a huns deram matéria de ef- 
candalo, e a outros de rifo, fendo ambos 
havidos por bons cavalleiros , e que o ti- 
nham moftrado em bafos perigoíos , e ti- 
nham dado fempre mui boa conta de íi, 
e foi , que vindo ao outro dia Francifco 
Pacheco á fortaleza em hum catur , que 
de noite lhe levara mantimentos 3 dando por 
razão de íua vinda , que era querer-fe con- 
feííar , e fazer teítamento , e ordenar algu- 
mas coufas de íua alma , António da Vei- 
ga Feitor da fortaleza requereo ao Ouvidor 
o obrigafTe a lh^ pagar certo dinheiro que 
devia a EIRey. Deite requerimento feito cm 
tal tempo ; e peraquelia maneira, fe houve 

Fran- 



Dec. IV. Lxv. X. Cap. VIII. 649 

Prancifco Pacheco por tão injuriado , que 
íe determinou em não tornar á Villa dos 
Rumes ; e vindo a António da Silveira, 
lhe difle que elegeífe outro Capitão para o 
baluarte , porque elk nao tornaria lá em ma- 
neira alguma. António da Silveira fofíren- 
do-lhe muita íòbegidao de palavras que fol- 
iou , podendo-o obrigar a ièrvir em tempo 
de cerco , lhe rogou que tal nao fizeíTe , 
porque daria a entender que nao era verda- 
deira a opinião que fé delle tinha , e que 
pois elle viera a defearregar fua conícien- 
cia , (como dizia,) houvera de agradecer 
a quem lhe lembraíte defeargos delia , co- 
mo era pagar o que devia; enao o poden- 
do perfuadir o Capitão com fuás boas ra- 
zoes , mandou a Fernão de Moraes que o 
tiraíTe daquelle erro , como tirou } e o fez 
tornar ao baluarte , vendo que por elle o 
recufar fe offerecia a iíTo Lopo de Soufa 
Coutinho , que com mui grande inftancia 
pedia a António da Silveira a defensão da- 
quelle baluarte. 

Aos 26. do mez de Setembro chegou 
hum catur de Goa a com novas como era 

hi 

a Vinha nefle catur João de Córdova , que o Vifo-Key 
X>. Garcia de Noronha defpachou de Goa com cartas a 
António da Silveira , avifando-o de fua chegada á índia ; 
e ao dia fègttmte defpedio Amónio da Silveira o mejmo 
navio , refpondendo ao Vifo-Rcy , com relação de tudo çttç 
tru pujado. Diogo do Couto cap. 11. do liv. 4. 



6$o ÁSIA de João de Barbos 

hi chegado o Vifo-Rey D. Garcia de No- 
ronha com grande Armada , o qual efcre- 
veo a António da Silveira , dando-lhe mui- 
tas efperanças de o foccorrer mui cm bre- 
ve. Deíla nova foram todos mui alegres , 
tirando Fernão de Moraes , que perguntan- 
do ao mefíageiro fe trazia também carta do 
Vifo-Rey para elíe , edizendo-lhe que não, 
diife que pois o Vifo-Rey lhe não efere- 
via , fe queria ir para Goa, e aíli o fez, 
íem aproveitarem rogos do Capitão , que 
lhe não deo outro caítigo , nem reprensao 
mais que ver a má reputação em que ficou 
tido de fc anojar por lhe não eícrever o 
Vifo-Rey a cIIq , fendo hum cavalleiro de 
huma lança , onde citavam muitos homens 
Fidalgos , que mais podiam efperar aquelle 
cumprimento , e ir-fe em tempo que hou- 
vera de vir á fortaleza , fe fora delia efti- 
vera ; e defejando o Capitão que os do 
baluarte da Villa dos Rumes foubeííem as 
novas que eram vindas do Vifo-Rey Dom 
Garcia , Lopo de Soufa Coutinho fe oífe- 
receo a lhas levar , e fe metteo em huma 
fuíla com a gente neceíTaria com grande 
nico da vida , e foi á viíía do baluarte ? 
onde por a porta fer tapada não defembar- 
cou ; e bradando por Francifco Pacheco , 
lhe fallou , edeo as novas que levava; mas 
fendo fentido dos Mouros , á ida 3 e á vin- 
da 



Dec. IV. Liv. X. Cap.VIII. eIX. 6yr 

da defcarregáram nclle tanta artilheria , que 
foi milagre tornar íem receber damno. 

CAPITULO IX. 

Como Soleimao Bãxid tornou de Madrefa* 

bat do combate que fe deo ao baluarte 

da Villa dos Rumes : e como Fran- 

cifco Pacheco fe entregou, 

SEndo pafFados vinte dias que Soleimao 
Baxiá fe fora a Madrefabat a efpalmar, 
e prover do necefTario fua Armada , hum 
dia pela manha , que eram vinte e fete de 
Setembro , começou a apparecer a Arma- 
da , que com vento profpero , e de bonan- 
ça entrava toda embandeirada de muitas ban- 
deiras de feda , e com feus tendaes de ri- 
cos paramentos , arrojando pela agua 5 com 
a gente , que nas apparencias , e ornamentos 
de fuás peflbas moílravam virem de feita , 
e com grande roido de clarões , e ataba- 
fes, e outros infírumentos. As galés feguin- 
do huma fufta em que hia Juçuf Hamed 
Capitão mór do mar , entraram em ordem 
huma ante outra ; e emparelhando com a 
lagea , que eftá no rofrro do baluarte da 
barra , de que era Capitão Francifco de Gou- 
vea , defparavam , e lançaram dentro da for- 
taleza grande número de pelouros ; e defte 

ba- 



6$2 ASTA de João de Barros 

baluarte , e da torre de S. Thomé Uie re- 
ipondiam com groíla artiiheria , de que hum 
tiro lhe metteo huma galé no fundo , e del- 
ia fe falvárarn poucos ; mas com os tiros 
que os noflbs fizeram , fe lhes feguio mais 
ciam no que com os dos Turcos, porque ef- 
tes não mataram mais que hum loldado a , 
e algumas das noflas bombardas arrebenta- 
ram , que feriram muitos Portuguezes , e 
mataram alguns , ifto caufou a pólvora não 
fer a que devia , porque como a mais que 
na fortaleza eftava fora da que fe achou nos 
armazéns d'ElRcy de Cambava , e efla ef- 
tiveffe per erro , e pouco tento mal embar- 
rilada , a de efpingarda da que era fina ef- 
tava em' vafos 3 que ferviam para as bom- 

bar- 

a Chamava-fe efle fotâaão Chrifiovao , mancebo de dez- 
tnove ânuos mui esforçado , filho de huma Barbara Fer- 
nandes l 3 or tu<r.ue\a viuva , que vivia em Dio. Efia mulher 
mojirou na morte âefle filho huma rara fortaleza , e di- 
gna de perpétua memoria ; porque recebendo cila em [eus 
traços efle filho , ( nos ames elle e (pirou , ) efpedaçado de 
hum pelouro , c fujlent ando- lhe com as mãos as efpalhadas 
entranhas , fentindo nas fuás mater na es huma tamanha dor , 
com tão inteiro , e igual animo a foffreo , que foi admira- 
ção aos clrcumjlantes , banhados em lagrimas , ( que Bar- 
tara Fernandes nao derramava } ) vendo em hum peito fe- 
vienil huma tão nova , e chrijlã con/lancia em cafo tão 
Icfimofo. E porque efia dor não par afie na morte ãefle 
filho , acontece o que ao outro dia fe perdeffe o baluarte da 
YiV-a dos Rumes , onde efia matrona tinha outro filho maior , 
aue fe chamava Luiz Francifeo , para que com a perda 
êefte fe lhe dobrafe a mágoa de es perder ambos , e a 
fortaleza com que a jofreo. Lopo <Je Souto Coutinho. 



Dec. IV. Liv. X. Cap. IX. 65-3 

bardas , e íèm os bombardeiros attentarem 
niflb , carregavam as peças per Ília medi- 
da , eaíli a fineza delia as fazia arrebentar. 
Em quanto as galés entraram , que foi des 
que o Sol fahio ate ás dez horas do dia , 
durou efte esbombardear , e huma nuvem 
de fumaça que occupava grande efpaço. En- 
trada aíti a Armada , foi furgir junto a hu- 
ma Melquita , que eílá em hum alto fobrc 
o mar , defronte do baluarte de Diogo 
Lopes de Sequeira , que fica no angulo da 
Cidade, que reípeita ao Sul. 

Coge Sofar , que todo efte tempo não 
havia ceifado de bater o baluarte da Villa 
dos Rumes , com o balilifco que trouxe de 
Madrefabat, e com outras peças, tendo já 
com cilas arraiado por cima o baluarte , e 
cega a artilheria , aquella tarde que entrou 
a Armada , deo o aflalto com dous mil 
homens , dos quaes fetecentos Janiçaros a 
fom de muitos inílrumentos , feguindo a 
hum Alferes , que os guiava com huma 
bandeira vermelha , arremettêram com mui- 
ta fúria , fubindo per aquella ruina da ba- 
teria , e paredes derrubadas , quanto per 
aquelle lugar podiam caber , aos quaes os 
que entretanto não lubiam favoreciam com 
luas efpingardas , e frechas , e defendiam 
aos noítos apparecercm , elherefíftirem. E£ 
tando já os Turcos como vencedores em 

1*. 



6^4 ASTA deJoao de Barros 

lugar que fe igualava com o mais alto , 
e crendo que a coufa era vencida , tentan- 
do arvorar fua bandeira , vieram ás máos 
com alguns dos nofibs , que vivos com mui- 
tas feridas tinham eícapado da contínua ba- 
teria , os quaes ás lançadas , e com panelias 
de pólvora os rebateram , e lançaram em 
baixo , com morte de cento e cincoenta , 
a fora muito número delles , que foram fe- 
ridos ; e os que eíle furiofo affalto mais fuf- 
tiveram , foram dous mancebos , que acer- 
taram de eílar em hum andaimo , que fica- 
va fora da parede do combate , os quaes 
primeiro ás lançadas, e depois com panelias 
de pólvora , que os de dentro lhes davam , 
fizeram o que a todos os de dentro era dif- 
ficultoíb , e perigofo ; e aíTi pelejando até a 
noite os apartar , fendo eíics fós os que 
ínfHnham o pezo de tanta gente , e a que 
os inimigos todos aíTeftavam feus tiros , que 
como eram muitos , não deixaram de lhe 
acertar alguns , de que foram mui mal fe- 
ridos. Em fim elles fizeram tanto , que os 
inimigos defefperados alargaram o comba- 
te , e fe recolheram a fuás eílancias , efpan- 
tados do esforço daquelles dous homens, 
dos quaes hum havia nome António Pinhei- 
ro , mancebo de vinte e cinco annos , filho 
de hum cavalleiro da Cidade de Faro. 
Naquella mefma noite veio á fortaleza 

hum 



Dec. IV. Liv. X. Cap. IX. 6$9 

hum António Falleiro , que eftava no ba- 
luarte , com huma carta de crença dcFran- 
cifeo Pacheco para António da Silveira , 
dizendo , que citava tao mal do combate, 
que lhe não pudera eferever, que lhe man- 
dava António Falleiro para lhe dar conta 
do que paliava ; e tudo o que dilíe foi re- 
contar citarem todos em tal eííado , que fe 
houveíle outro combate , feriam tomados ás 
mãos , e mortos , porque já fe nao podiam 
defender; e-que Coge Sofar lhes commet- 
tia que fe entrega fiem , e os deixaria com 
as vidas para fe irem á fortaleza , que por 
tanto viífe elle António da Silveira o que 
deviam fazer. Praticado eíle negocio com 
as principaes pcííoas 3 aííentáram , que pois 
o baluarte nao tinha defensão, enão podia 
fer foccorrido da fortaleza , melhor era fal- 
varem-fe aquelíes homens , que padecerem 
todos ao cutello fera fruto algum , porque 
vivos podiam ajudar a defender a fortale- 
za. Eíta foi a refpoíta que fe deo a Antó- 
nio Falleiro , e que quando aíTentaffe as 
condições de fua entrega com Coge Sofar , 
foífe de maneira que ficaíTem confirmadas 
por Soleimao Baxiá ; e ainda para mais fe- 
gurança lhas trouxeíTem primeiro moítrar 
a elle António da Silveira ; mas parece que 
o temor oceupou tanto a Francifco Pache- 
co ; e aos que com elle eftavam , que quan- 
do 



6jó ÁSIA de JoÁo de Barros 

do amanheceo viram os noíTòs da fortale- 
za huma bandeira branca poíta no baluarte , 
em final de paz , e outras no cães da meí- 
ma Villa dos Rumes. Quando veio a ho- 
ras de meio dia, embarcaram todos osPor- 
tuguezes , que eftavam no baluarte , e foi 
nellc pofta huma bandeira vermelha das in- 
fignias do Turco , em cujo levantamento , 
e abatimento da bandeira da Cruz de Noíío 
Senhor Jeíus Chrifto , que he a infignia de 
lua Milicia , e Ordem , hum João Pires ho- 
mem velho indignado daquclle feito , aba- 
teo a bandeira do Turco j e íobre efte aba- 
ter , e levantar cada hum a fua , entre os 
Turcos, e féis Portuguezes , que com o meí- 
mo zelo fe ajuntaram com João Pires , hou- 
ve tal debate , que por os Turcos ferem 
muitos , e os noiTos poucos , vieram todos 
fete a morrer , e padecer martyrio , zelando 
a honra de Chriílo , e fua Fé Santa. a 

Quando veio ao feguinte dia depois da 
fahida deites homens , Tem António da Sil- 
vei— 

a Os corpos âefles fete Portugueses forrrm lançados pe- 
los Turcos no rio a tempo que a maré enchia ; e queren- 
do De os mojirar quão acceito fora diante de lie o jangue 
da que lies cava He ir os feus , per fua honra derramado , no 
mefmo injlante que os corpos tocaram a agua , refreando o 
mar feu ordenado curfo para cima y tornou com igual ím- 
peto para baixo , e levou aquelles corpos juntos até os pôr 
na porta da couraça da fortaleza , onde peflos tornou a ma- 
ré t que enchia a continuar feu ordinário, curfo para ci- 
ma. Noiáram os da fortaleza o milagre , recolheram os 



Dec. IV. Lív. X. Ca*. IX. 657 

veira faber as condições , com c]ue fe de-* 
ram , chegou António Falleiro ao pé do 
baluarte de Caí par de Soufa já vertido á 
Turquefca , e mandou a António da Sil- 
veira huma carta de Francifco Pacheco, cm 
que lhe dizia , como elle fe entregara per 
hum leguro do Ba\'id , e que lhe não de- 
ram tempo para lho mandar moítrar , pelo 
qual lhes dava as vidas , fazenda , e efera- 
vos , tirando as armas , e artilheria , com 
tanto , que lhe foliem fazer a falema á galé 
onde eííe eftava ; e que quando os levaram 
á Cidade , os dividiram per eíTas caías de 
dous em dous ; e que elle , e Gonçalo de 
Almeida íeu primo , e António Falleiro fo- 
ram levados á galé do Baxiá , o qual os 
recebera bem , e lhes dera lendas cabaias y 
e que pedindo elle a Soleimao que lhe cum- 
prifle o que lhe promettêra , no formão do 
feguro que lhe dera , lhe reípondêrã , que 
fe náo agaftafle , que elle cumpriria o que 
ficara , mas que por quanto queria comba- 
ter a fortaleza per mar , e per terra , o tem- 
po que nifíb gaílaííe os havia de reter com- 
íigo ; e que tomando a fortaleza , os man- 
daria á índia ; e que fendo pelo contrario a 
Tom. IF. P.iL Tt os 

corpos i e levados com grande honra á Igreja , os enterra* 
ram defronte da Capettè tàâr , e de crer he que juas al- 
mas fubíram triunfantes diante da Mageftade Divina , on- 
de receberiam a gtortofa cerca de martyrl? Lopo ue So*« 

£a Coutinho. 



6$2 ÁSIA de João de Barros 

os foltaria para fè irem á fortaleza , e que 
lhe diííera que efcreveíTe a elle António da 
Silveira , que fe entregaííe logo , e que a 
todos daria as vidas , e embarcações para 
fuás peíToas ; e que fazendo de outra ma- 
neira , todos havia de metter á eípada ; e 
que fobre ifib houveífem feu confelho , em 
quanto carregava hum baíilifco , e certas pe- 
ças crartilheria fu rio ias para combater a for- 
taleza. Acabando António da Silveira de ler 
a carta , fem coníultar a refpoíla , eícreveo 
logo a Franciíco Pacheco , que de Solei- 
mao Baxiá nao cumprir com elles , não íb 
efpantava , porque os Turcos nunca manti- 
veram f c , nem palavra ; e que as ameaças 
que lhe Solçimao fazia , lhe nao dava mais 
refpoíla fenao que dcfcarregaíTe quantos ba- 
ílliícos quizeííe , que coítumados eram a if- 
fo , e que por a mais pequena pedra da- 
quella fortaleza haviam todos de morrer; 
e que clle , nem António Falleiro nao fof- 
fe mais oufado de lhe trazer , nem mandar 
taes recados , porque como a hum Turco , 
que clle já era , lhe mandaria tirar ás bom- 
bardadas. O preciío termo , que Soleimao 
deo aos Portuguezes para lhe alargarem 
a fortaleza , e as ameaças que fez como ho- 
mem victoriofo , Dor a tomada do baluarte 
da Vil la dos Rumes , e confiado na grande 
Armada > e gente que trazia y em vez de 



Dec. IV. Liv. X. Cap. IX. e X. 65-9 

diminuir os ânimos aos cercados , foi gran-» 
de incitamento para tomarem novos eipiri- 
tos , e os animar a lhe rcilílrem ; porque 
por aquella quebra de ilia palavra , e pouca 
fé que moftráram áqueiles poucos homens 
cercados , e enganos que com elles ufáram , 
viram que neíles não podia haver esforço , 
nem Conftancia , polo que já deíejavam de 
virem ás mãos com elles , tão animofamen- 
te como fe elles foram gente ferri número , 
e baítecidos -de todo o neceílário , e os ini- 
migos náo foram tantos , nem táo armados- 

CAPITULO X. 

Como os Turcos deram bateria d fortaleza. 

de Dio vinte e cinco dias contínuos : e 

do muito damno \ que ns 11 a fizeram. 

A Os cinco dias do mez de Outubro 3 
cftando as galés dos Turcos derrama- 
das pelo porto, entraram dous catures nof- 
fos per entre ellas , em Jium vinha Francif- 
co Sequeira Malabar de nação , ( que por 
feus ferviços EIRey de Portugal lhe man- 
dou deitar o habito de Chrifto com tença , ) 
ao qual o Viíb-Pvcy D. Garcia de Noro- 
nha mandava com cartas a António da Sil- 
veira 3 e aos Capitães que com clle : cita- 
vam ; e em lua companhia veio no outro 
• de Baçairn , (onde citava Garcia da 
Tt ii Sá y ) 



66o ÁSIA de João de Barros 

Sá , ) D. Duarte de Lima rilho do Montei- 
ro mor , que por íua vontade com dez , ou 
doze homens le vinha rnetter naquella for- 
taleza para a ajudar a defender. Efpcdido 
logo Franciíco de Sequeira com nova do 
eftado em que ficava , houveram-fe os Tur- 
cos por mui injuriados de paliarem os ca- 
tures per entre clles , e ordenáram-fe logo 
para nao poder entrar , nem fahir embarca- 
ção alguma ; e como Soleimao Baxiá era 
já íenhor do baluarte daVilla dos Rumes, 
e eftava indignado por a pouca conta que 
António da Silveira moftrou fazer delie , 
na refpoíta que deo a António Falleiro , de- 
terminou nao dilatar mais o combate da 
fortaleza , pelo que mandou aíícílar a arti- 
lheria em íeis eftancias , que lhe Coge So- 
far ordenou , que como mais domeítico fa- 
bia os cantos da fortaleza , poílo que nao 
tinha noticia dos repairos , e contramuros , 
que António da Silveira per dentro tinha 
feitos. A fomma da artilheria ordenada pa- 
ra bater a muralha eram nove baíiliícos de 
defacoílumada grandeza , dos quaes cada 
hum deitava pelouro de noventa até cem 
arráteis de ferro coado , cinco eípalhafatos , 
que lançavam pedra de cinco , e féis , e íè- 
te palmos em roda , quinze leões , e águias , 
quatro colobrinas , e alguns canhões de ba- 
ter j que eram para efpedaçar hurna rocha 

ma- 



Década IV. Liv. X. Cap. X. 66t 

maciça. D'outra artilheria haveria oitenta 
peças entre efperas , fal vagens , meias efpe- 
ras , e falcões ; e pelo cerco adiante tirava 
hum quarta o , que era hum temerofo inf- 
trumento. Delta artilheria eram Capitães Co- 
ge Sofar , que ordenara o a (Tento delia , e 
Juçuf Hamed Capitão de Alexandria; e pa- 
ra Tua guarda havia dous mil Turcos re- 
partidos per Capitanias nos lugares , que 
lhes foram ordenados , a fora a gente Gu- 
zarate de Coge Sofar. Soleimao Baxiá ef- 
teve fempre na Armada em lua galé , fem 
k a terra ver coufa alguma , ou por fua 
idade , e aleijão de muita gordura , ou por 
eftar mais feguro para fazer alguma coufa 
de fi , fe a noíTa Armada vieGfe ; mas a ga- 
lé lhe hiam dar razão do que fe fazia , e 
dalli provia , e ordenava o neceífario. A li- 
ma f ao defta artilheria para nos combater, 
era , que a que mais longe eílava da forta- 
leza , não pa flava de cento e cincoenta paf- 
fbs , e a mais chegada citava a feíTenta , e 
toda amparada com mantas groflas. Entre 
efta artilheria , e os muros da fortaleza ef- 
tavam humas eftancias de gente , para logo 
arremetter , como houveííe coufa aberta , 
ou derribada para poder entrar , e toda met- 
tida per cavas em tal ordem , que a noíTa 
artilheria não lhe podia fazer nojo , e a fua 
tirava per cima delles ás ameas dos baluar- 
tes . 



662 ÁSIA de João de Barros 

tes , e muros , que por fer ponteria alta ci- 
tavam debaixo ieguros de recebei algum 
damno. 

Com cita ordem , e concerto começa- 
ram os Turcos a bater a fortaleza huma 
fegunda feira quatro de Outubro , em fa- 
hindo o Sol , no qual , e no íeguinte em 
nenhuma outra couiá trabalharam fenao em 
cegar noíla artilheria ; no qual tempo elles 
dos noiTos receberam pouco damno , e os 
noffos delles muito , por o grande eftrago 
que faziam nas ameas , e no muro , e em 
toda a outra parte aonde apontavam per on- 
de deíejavam entrar , e aííi procuravam de 
nos quebrarem algumas peças , a que de 
propoíito apontavam , porque eram tão gran- 
des orliciaes , que fempre acertavam no lu- 
gar em que queriam dar, do que hum dos 
noíTos foldados querendo fazer experiência , 
tirou o chapeo da cabeça , e o poz de in- 
dufljria em hum pá o , o qual , cuidando os 
artilheiros que era cabeça de homem , o le- 
varam logo com hum pelouro ; e nos lu- 
gares onde desfaziam parede , amea , ou 
outra couía , que convinha aos noílos re- 
parar , tinham efta aftucia , que como fen- 
tiam que trabalhavam , de novo tornavam 
atirar ao próprio lugar ; o que entendido 
dos noílps , batiam de dentro em outra par- 
te sã, quando repairavam alguma quebra- 
da, 



Dec. IV. Liv. X. Cap. X. e XI. 663 

da , e aííi trabalhavam mais íegura rr.cn te. 
Eíb ordem rivcram os Turcos em dar lua 
bateria pereípaço de vinte e cinco dias con- 
tínuos tôttl ceifarem. A parte onde fizeram 
maior damno foi no baluarte , em que ci- 
tava Gaípar de Soufa , porque como não 
tiveíTe travézes de que íe pudeííem temer, 
o bateram os primeiros cinco dias de ma- 
neira , que ficou raio , derribando-lhe todas 
as amcas ; e abaixo delias foram comendo 
tanto a groíTura da parede do baluarte , que 
chegaram ao entulho dcllc. Quando An- 
tónio da Silveira vio tanto darnno , ata- 
lhou o baluarte quaíi hum terço , e dalli 
foi criando huma parede de pedra , e bar- 
ro da banda da bateria , e veio deícendo 
pela parte de dentro em degráos , para os 
noíTos terem per onde íubir , e defender , íè 
vieiTem com eícadas a commettéllos. 

CAPITULO XI. 

Como os Turcos ferfeverãram em comba- 
ter o baluarte de Ga/f ar. de Soufa ; e 
da rejlftencia que fe lhes fez* : e 
como foi morto Gol calo 
Falcão. 

ACabados os repairos , e atalho , que An- 
tónio da Silveira mandou fazer no ba- 
luarte de Gafpar de Soufa y eom a pedra, 

e ca- 



6Ó4 ÁSIA de JoÁo de Barros 

e caliça que cahia do que fe derribava ao 
pé delle , fabricaram os Turcos huma fu- 
bida , que íem efeadas facilmente podiam 
iubir , e vir ter á parede que os noííos ti- 
nham feita, para virem com elles ás mãos. 
Pelo que paliados cinco dias do combate, 
ao fexto , a horas de meio dia , quando lhes 
parecco que feria o repoufo dos noííos , 
(o qual elles não tinham de dia , nem de 
noite , ) fubíram por aquelle lugar cincoen- 
ta Turcos bem armados, que mais nao ca- 
biam por a cflreiteza do fitio , ficando po- 
rém grande número delles mettidos na nof- 
ia cava , porque os nao videm do muro , 
para fuecederem aos que morreíTem , ou can- 
faífem ; e com piques , partefanas , e panei- 
las de pólvora foram a commetter Gafpar 
de Souía , que com os feus fe defendeo va- 
lerofamente , acudindo-lhe também os das 
outr^ eftancias vizinhas , porque eíla or- 
dem tinha dada António da Silveira em to- 
das , que quando houveíTe preíía em huma , 
lhe acudiíTe a mais vizinha , e cllc com fua 
peífoa acudiria a todas , fegundo a neceííi- 
dade de cada huma , e eíle era o mais cer- 
to lugar em que o achavam. Com efte foc- 
corro mataram os Portuguezes tantos dos 
Turcos , pofto que , derribados os de cima , 
fubiam outros em feu lugar dos da cava , 
que os fizeram affaflar mal de feu grado ^ 

e nef- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XI. 665- 

e nefta porfia morreram dos noflbs fomen- 
te dous , mas foram muitos feridos. 

Deite dia em diante , em quanto o cerco 
durou , fempre fe pelejou neííe repairo íèm 
intermilsao alguma todos os dias duas , e 
três vezes , havendo fempre dos Portugue- 
zes alguns mortos , e muitos feridos , e dos 
Turcos muitos mais, pofto que fe enxerga- 
va neJles menos , que nos noíTos. No lugar 
da peleja nos tinham elles grande vantagem, 
porque pelejavam de cima para baixo , por- 
que o feu arremeílò hia com força natural , 
e os noíTos paílavam maior trabalho. E co- 
mo a contínua bateria tiveífe gaitado , e der- 
ribado o repairo , que fe fez naquelle ba- 
luarte de Gafpar de Soufa , levantou-fe ou- 
tra parede de terra , e pedra detrás da der- 
ribada. E porque já no pouco efpaço , que 
fkava aos noííos do baluarte , fe não podiam 
revolver quarenta homens , que para reíifti- 
rem a algum pezo de gente eram mui pou- 
cos , nem havia lugar onde fe fizeíTe outro 
repairo , foi António da Silveira criando de 
dentro junto ao baluarte huma torre de pe- 
dra , e barro tão alta , que igualou a altura 
do baluarte , da qual com menos perigo ? 
e defeommodidade podiam os noíTos pelejar , 
e defender- fe. 

No mefmo tempo vieram os Turcos me- 
lhorando fuás eílancias, chegando-as até as 

pe- 



666 ÁSIA de JoÁo de Barros 

pegar com a cava , fem fe lhe poder defen- 
der, porque fizeram de couros de bois gran- 
des bailas , e fardos cheios de terra , e de 
algodão , os quaes os vinham rolando ho- 
mens detrás delles em giolhos , encuberros 
com a groflura deitas bailas ; e pofto que 
do muro trabalhaííern os cfpingardeiros de 
lho defender, matando, e ferindo muitos, 
não foram parte para eftorvar , que não che- 
gaífem ácava, onde com enxadas , e alviões 
cavando fizeram vallos tão altos , que po- 
diam a ícu falvo andar em pé cubertos , c 
feguros da noíTa eípingardaria. E deitas fuás 
eftancias fizeram outras cavas , pelas quaes 
liiam , e vinham feguramente , engroííando 
os ditos repairos com muita pedra folta , e 
terra , e rama , e deita maneira accommet- 
tiam os do muro fem perigo cada vez que 
queriam. E como a terra , e caliça da bate- 
ria do baluarte impedia barer-fe no vivo 
dellc , deitas eftancias compeliam a gente de 
Cambaia, que com Coge Sofar eftava , que 
com enxadas , e céflos defpejaíTem o pé 
do muro, E porque António da Silveira 
mandou tirar a artilheria daquelle baluarte , 
por eítar toda cega , e não fervir já nelle 
fenao braços de cavalleiros , que á mão ten- 
te o defendiam , e os Turcos tinham fua 
eftancia perto , e não receavam a artilheria 
por a não haver alli , vieram-fe ao pé do 

ba- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XI. 667 

baluarte , e minarão tanto por dentro delle , 
que ficava hum grande íbmbreiro de parede 
fobre elles , que os encubria , e não lhes 
podiam os noflbs fazer algum damno. E pa- 
ra ver aquelle lugar , mandou António da 
Silveira eit.es quatro homens , Fernão Ro- 
drigues , Rodrigo Alvares , Duarte Pinto , 
e hum homem mulato de alcunha de Sil- 
va , que foííem faber fe faziam mina , por- 
que fentia bater no muro. E defeidos per 
cordas , acharam quatro Turcos , que citavam 
com gente de íerviço tirando pedra , e ca- 
liça já quebrada do baluarte , dos quaes Tur- 
cos mataram dous , e os outros fe puzeram 
cm falvo , e elles fe tornaram a recolher ; 
e porque elles homens com a revolta da 
morte dos Turcos não pudérao ver bem 
o que lhe mandaram , e António da Silvei- 
ra não perdia dalli o íentido , mandou lá 
Paio Rodrigues de Araújo Alcaide mor da 
fortaleza, a ver fe faziam alguma mina per 
baixo da terra , o qual defeco abaixo per 
cordas , levando comíigo quatro homens , 
e vio que não era mina , fomente defpeja- 
vam a pedra, e caliça das minas do balu- 
arte. 

Aos dezefeis de Outubro , trabalhando 
Gonçalo Falcão no feu baluarte , em que 
os Turcos tinham feito muito damno com 
fua artilheria, e embaçada a noífa com ca- 



662 ÁSIA de João de Barros 

liça , andando ellc dando ordem para fe aça- 
lhar hiuna bombarda, como era o diantei- 
ro que encaminhava os outros , tanto que 
foi deicubcrro , veio hum pelouro de bom- 
barda dos inimigos que lhe levou a cabeça 
pelos ares , ficando o toro do corpo entre 
Jeus companheiros , aonde logo António da 
Silveira acudio , provendo de Capitão daqucl- 
le baluarte a Paio Rodrigues de Araújo. A 
morte de Gonçalo Falcão foi de todos rnui 
fèntida , aíli por as boas qualidades de fua 
peíToa , como por a ajuda que nelle acha- 
vam de confelho , e de obras em todos ne- 
gócios , e porque naquelle cerco á fua cuíla 
iuítentava muita gente. Naquelía mcfma ma- 
nhã tornaram os Turcos outra vez com- 
irietter a Gafpar de Sou ia , a que logo na 
primeira arremettida mataram tres homens , 
e feriram fete , ou oito , dos quaes foi hum 
João de Fonfeca , que de huma efpingarda- 
da , que lhe entrou pelo collo do braço , 
e lhe fahio pelo íangradouro , ficou com a 
mão direita aleijada , e inútil; e mudando 
a lança para a efquerda , e a adarga para 
o hombro do braço aleijado , tornou a pele- 
jar como valente homem que era , e como 
iènelie não houvera falta de fua mão direi- 
ta. E por o lugar fer eftreito , em que não 
cabiam mais que doze homens , de que el- 
ie era o dianteiro , e ficavam muitos detrás 

et 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XT. 66 9 

efperando vagante, Duarte Mendes de Vai- 
concellos vendo-o tão ferido , e o muito 
íangue de que iè vafava , tirou por elle , di- 
zendo, que fe foílc curar ; mas como João 
de Fonfeca tinha mais tento nos Turcos , 
que nos companheiros , não lhe acudio , e 
tornando Duarte Mendes dizer-lhe em mo- 
do de reprensão , que íe tiraíTe dalli, pois 
não podia governar feu braço direito, elhe 
déíTe o lugar , elle anojado lhe refpondeo : 
Em quanto eu tenho braço ej quer do , não 
hei mijler o direito , e vós não fejais tão 
âefarr azoado que me peçais meu lugar. Lo- 
po de Soufa Coutinho , que era. prelente , e 
ouvio que aquillo fora dito com cólera , 
com .palavras brandas lhe rogou que fe fol- 
fe curar , o que elle então fez , mais por 
cortezia , que por a dor do braço, de que 
de todo ficou aleijado. 

Nefte combate , porque foi mui rijo , acu- 
dio Lopo de Soufa com fua gente , fegun- 
do era ordenado que acudiflem os das es- 
tancias vizinhas huns aos outros. E como 
os Turcos per andarem efcaldados dos nof* 
fos affrouxaílem os combates , mandou An- 
tónio da Silveira a Lopo de Soufa , que 
com fua gente defceííe á cava , e déíTe nos 
Turcos que nella eítavam , porque lhe fa- 
ziam mais damno irem de vagar no com- 
bate , que depreíía , por lhe impedirem tra- 

ba- 



6jo ÁSIA de João de Barros 

balhar na torre que diíTemos que levantava 9 
por fer já a maior parte do baluarte toma- 
da , e também porque eítando muita gente 
no baluarte impediam o íerviço , e os Tur- 
cos achavam fempre em que empregar feus 
tiros. Recolhendo Lopo de Souia rua gen- 
te , fe foi com feu guião ao baluarte S. T ho- 
me , e per hum recanto delle contra o mar , 
ainda que o lugar era perigofo por fer mui 
alto , e a cava alli mais profunda , per hu- 
ma corda que fe atou em huma amea , fe 
defceo ao releixo entre a cava, e o muro, 
e dalli lançando huma efeada de corda de 
quarenta degráos , fe calou a baixo. a E kn- 
do-lhe dito decima, que de huma mefqui- 
ta fora vifto de hum Mouro que hia cor- 
rendo dar o rebate de fua ida aos das eílan- 
çias , com eífes homens que já eram defei- 
dos , que feriam trinta e cinco , fem efpe- 
rar por os mais , por não fer fentido , foi 
commetter os Mouros , de que muitos cita- 
vam em cima do baluarte , e outros pelas 
quebras delle defeançando , e incitando aos 
no (Tos que fe defeubriflem , para com fua 
artilheria os peitarem. E como Lopo de 
Soufa chegaíle áquelíes que mais baixos e£« 
tavam , fizeram roítro ; mas como os elle 
apertaíTc ás lançadas , empuxando-os , fica- 
ram féis mortos , e os que em cima eílavam , 

ven- 

-a Xopo de Soufa Coutinho. 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XI. 67T 

vendo como os debaixo eram tratados , der- 
ribando-íe pelas quebras , vinham mui de- 
preda cahir cm fuás lanças, edelles morre- 
ram outros poucos 5 e aíTi fe deípejou o lu- 
gar para os noilbs fazerem fua obra. E pa- 
ra fe evitarem eftes pequenos combates , com 
que fe perdia trabalharem nos repairos , man- 
dava António da Silveira muitas vezes gen- 
te a cava , e hum dia mandou a hum Si- 
mão Furtado homem valente 3 e fefudo , 
com outros da companhia de Lopo de Sou- 
fa , e com elles foi hum feu criado per no- 
me Joanne de idade de dezoito annos , 
com fua efpada , e huma efpingarda ; efei- 
to íinal pelos do muro , quando foi tempo 
para darem nos Mouros da cava arremet- 
téram com cllcs ; o moço defparando a ef- 
pingarda em hum Mouro , e arrancando a 
efpada , feguio a outro 3 não fendo parte Si- 
mão Furtado para lho eftorvar , e antes que 
o Mouro fe pudeíTe recolher ás eftancias 
que ellavam pegadas na cava , lhe chegou 
o moço , e o picou de maneira que o Mou- 
ro não fe atrevendo a defender delle , nem 
menos deitar-fe nas eftancias , poz o roftro 
no rio , determinando de fe falvar na agua , 
na qual fe metteo até lhe dar pelos hom- 
bros. E como o moço o hia feguindo até 
lhe dar a agua peio pefcoço , por fer pe- 
queno de corpo , e o Mouro fe não atre- 

vef- 



672 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

vciíe a metter-fe mais dentro , porque a cor* 
rente do rio o não levafle , e o moço lhe 
nao pudeífe bem chegar para o ferir , Lo- 
po de Soufa bradou do muro ao moço que 
lhe défíe de ponta : o moço que eílava tan- 
to em li, que conheceo na falia feu fenhor, 
e o entendeo , começou a lhe tirar eftoca- 
das ; e como a agua onde o moço eílava 
foííe muito alta para íua pequena eftatura 5 
querendo-fe melhorar para ferir o Mouro , 
lè lhe foram os pés , e cahio , ficando mer- 
gulhado. O que vendo o Mouro , veio fo- 
bre elle , e lançando-fe-lhe em cima , o que- 
ria aífogar , fem até aquelle tempo lhe lem- 
brar que trazia efpada. Mas ao moço nao 
falleceo efpirito , porque podo que da agua 
faigada em que eftava tiveííe bebida muita 
quantidade , e eíliveíTe canfado . e huma das 
mãos oceupada com aefpingarda que nun- 
ca a largou , lembrando-fe melhor da lua 
efpada , que o Mouro da lua , lha met- 
teo três , ou quatro vezes pela barriga , 
e o matou, eellc fe levantou cheio de lan- 
gue do Mouro. E tirando-lhe os inimigos 
grande fomma de efpingardadas , e frecha- 
das , fem nenhuma delias lhe tocar , fe 
fahio da agua feus paílos contados , com 
a efpada em huma mão, e a efpingarda na 
outra , e pegado aos Turcos paliou com 
o roftro nelles > como quem os tinha em 

pou- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XI. 673 

pouco , e aíli entrou na cava fem ferida ai* 
guma. a 

Outra vez mandou António da Silveira 
a Manoel de Vaiconceilos per duas vezes 
a entrar neíla cava , por fe achar bem do 
damno que per alli íé fazia aos MouroSi 
E da primeira , poílo que dlc , e os feus 
pelejaram mui valentemente , matáram-lhe 
Chnilovao de Soufa , homem fidalgo 3 e 
mancebo em .grande maneira esforçado , e 
de grandes èfperanças , que neíle cerco ti- 
nha fervido muito , e aíli lhe feriram alguns 
homens outros. Mas da fegunda vez por ir 
com mais ordem , fez muito damno aos ini- 
migos > ferindo , e matando muitos delles. 
Lopo de Soufa Coutinho também teve fua 
hora de damno , porque cabendo-lhe ir vi- 
giar no quarto da alva o baluarte dos com- 
bates , vindo a manha o accommêtteram os 
inimigos , e como lho defendeífe , de hum 
través foi ferido de hum pelouro de meia 
efpera pela hombro , e efpadoa direita , de 
que recebeo huma grande ferida , e das la- 
minas das couraças que tinha vertidas hou- 
ve outras feridas pelas coitas , das quaes foi 
levado a curar á fua eftancia. E tudo o que 
fuecedeo até o ferimento de Lopo de Sou- 
Tom. IV. P. il Vv fa , 

a Ejle moco je chamou depois João Gil de alcunha o 
Pequeno , e viveo depois muitas annos cajado em Dio , ri- 
co , e alájiado , onde o conheceo Diogo do Couto , 'coma 
o efereve no cap. 9. do Uv, 4. Dec. j. 



Ó74 ASÍA de João de Bahros 

ia , diz dlc mcíhío cm hum tratado que dei- 
te cerco fez , que de tudo foi teítemunha 
de vifta , c o que dahi em diante efereveo , 
foi do que lbube , e ouvio a pefioas dig- 
nas de fé. Do qual tratado no que toca a 
efte cerco , como de author tão authentico , 
nos aproveitámos em muitas califas. 

CAPITULO XII. 

Da doença grande que fobreveio aos cerca- 

dos y e como as mulheres ajudaram a 

trabalhar nos repairos. 

ERa vinda a tanta diminuição a fortale- 
za com a contínua bateria que os Tur- 
cos davam havia tantos dias , e com as fa- 
hidas , que os nofíòs faziam para lançarem 
os Turcos das cavas , que fazia parecer a 
muitos , que fe não poderia defender , por- 
que viam mortos muitos homens valeroíbs , 
e grande número de feridos , que com fuás 
curas oceupavam os sãos. A pólvora de ef- 
pingarda , e bombarda eftava quaíi acaba- 
da , e da mefma maneira todas as mais mu- 
nições , e artifícios para a defensão. As lan- 
ças dos contínuos tiros as mais eram cor- 
tadas. A efperança i em que a gente cern- 
iu um fe fuftentava de foccorro do Vifo-Rey , 
hia-fe perdendo. Ajunta va-íe a ifto , que as 
fortalezas vizinhas á que o Capitão man- 
da- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XII. 6 7 $ 

dára pedir algumas coufas neceííarias , de 
nenhuma maneira acudiam. E mandando fó 
Simão Guedes Capitão de Chaul certa pól- 
vora , teve tão mio recado nelJa o que a 
trazia , que em a dcíèmbarcando , cahíram 
os valos, em que vinha, na agua, e íe per- 
deo toda. Outro infortúnio , que áquelles 
cercados miíeravelmente tratava , e que era 
intolerável , foi a doença geral , que a todos 
iòbreveio da bocadamnada , e gingivas cor- 
ruptas. Eíta enfermidade era táo exceífíva , 
que lhes cahiam os dentes , e com as gran- 
des dores lhes era forçado vigiarem eíTe pou- 
co eípaço , que alguma hora do trabalhar 
nos repairos , ou de pelejar com os inimi- 
gos lhes ficava para poderem dormir , ou 
repoular , porque todo o paliavam em ge- 
midos. E íbbretudo de nenhuma maneira 
podiam comer , e da boca tornavam a dei- 
tar muitas vezes eíTe pouco arroz , que co- 
miam. Eíta doença lhes caufou a agua , que 
bebiam da cifterna ; porque como com a pref- 
fa da guerra deitaram nella agua , eftando 
de frefeo guarnecida com hum betume , que 
fe faz em Ormuz , que fe chama Chard, 
cprrompeo-fe a agua , e caufou aquelle tra- 
balhofo mal. Polo que com o continuo tra- 
balho das baterias , e rebates dos inimigos, 
e da pouca fubílancia do mantimento , e por 
andarem difvelados os homens de tanto tem- 
Vv ii po ? 



6j6 ÁSIA de João de Barros 

po , andavam triítes , e debilitados , mas não 
que por iííò fe viffein ir com menos esfor- 
ço a pelejar. 

a Havia na fortaleza de Dio entre as mais 
mulheres , que a eíla fe recolheram da Ci- 
dade , quando fe começou a 'guerra , huma 
Dona Ifabel da Veiga rilha de hum nobre 
Cidadão de Goa chamado Francifco Fer- 
rão , Juiz que foi da Alfandega daquella Ci- 
dade , e mulher de Manoel de Vafconcel- 
los muito bom cavalleiro , e homem Fi- 
dalgo , natural da Ilha da Madeira , que foi 
Juiz da Alfandega de Dio, a qual por fuás 
muitas virtudes , e animo heróico fenão de- 
ve pôr em efquecimento o muito que no tra- 
balho defte cerco ajudou com muitas mu- 
lheres , que a iífo incitou. Era erta Dona na 
idade ainda moça, e mui gentil mulher, e 
de tão honefto , e authorizado afpeílo , que 
ninguém haveria que lhe não tivefle grande 
acatamento, e reverencia; ejá no princípio 
deite cerco tinha ella dado huma grande pro- 
va de feu valor ; porque quando António 
da Silveira defpedio o catúr em que veio 
João de Córdova com a nova da chegada 
a Goa do Vifo-Rey D. Garcia de Noronha , 
Manoel de Vafconcellos a quizera mandar 
naquelle catúr a Goa a feu pai , receando 
que fe perdeífe a fortaleza , e que foífe fua 

mu- 

a Lopo de Soufa Coutinho- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XII. 677 

mulher dcfpojo dos Turcos ; e communi- 
cando com ella efta fua determinação , Jhe 
refpondeo , que não permittiífe Deos que el- 
la fe aufentaíie donde elle ficava ; que fe ti- 
nha conhecido nella alguma fraqueza , ou 
defcuido cm Teu ferviço , que lho diílefle , 
e que fe emendaria; mas dar-lhe tão afpera 
pena , como era apartalla de fi , ella o não 
merecia ; e que não cuidafle , que a fegura- 
va apartando-a daquelles perigos , porque 
em fua companhia lhe não pareciam taes , 
o que lhe não aconteceria eftando aufente , 
porque feu efpirito feria fempre atormenta- 
do de grandes receios , e temores , e que 
cuidando elle que a tinha fegura dos inimi- 
gos, a matariam imaginações-, pelo que lhe 
pedia que houveíTe por bem que ficaffe ella 
alli , ao menos para ler fua enfermeira quan- 
do lhe foííe neceífario. Mas porque tiveífe 
menos de que cuidar , mandaífe a Goa hu- 
ma filha pequena , que de entrambos havia , 
porque fe Deos daquella fortaleza alguma 
defaventura tivefle ordenada , por fua pouca 
idade fe não perdefle. Puderam eftas honef- 
tas , e difcretas razões de Ifabel da Veiga 
tanto com feu marido , que defiftindo elle 
de fua determinação , quiz antes fua com- 
panhia com temores , que fem elles apartai- 
la de íi. Continuando-fe o cerco , e vendo 
Ifabel da Veiga que o número dos cavallei- 

ros. 



6jo ÁSIA de João de Barros 

ros , e Toldados que alli havia era vindo a 
muita diminuição , e que lhes era neccflario 
dividirem-fe huns para pelejarem, e outros 
para fervirem nos repairos , e acarretos da 
terra , e pedra , e outras achegas , em que 
coníiftia ília defensão , e que dividindo-íe , 
não ficava delles número baítante para bem 
acudir a huma coufa , e outra ; e que o aju- 
dar a tirar , e a acarretar a pedra que hia , 
fendo muita , podiam fazer mulheres , que 
nao era obra viril , nem de artificio , com 
que ellas nao pudeflem , determinou-fe de 
ella , com as mulheres que na fortaleza ha- 
via , tomarem fobre 11 efíe cargo , e defoc- 
cupar outros tantos homens para feu offlcio 
das armas. Ecommunicando ifto com huma 
Anna Fernandes , mulher honrada , de ida- 
de velha , cafada com o Bacharel João Lou- 
renço Fyfíco , a qual era de grandes efpiri- 
tos , e fora da com mu m medida das outras 
mulheres , e que naquelle cerco ufou de gran- 
de caridade com os feridos , e enfermos , 
ambas incitaram todas as outras mulheres de 
toda qualidade a acarretarem em fuás alco- 
fas , évafilhag terra, pedra, agua, e outras 
coufas neceílarias , fendo governadas pelas 
duas Ifabel da Veiga , e Anna Fernandes, 
e com fua diligencia , e exemplo obrigavam 
aos homens foffrer dobrado trabalho. 

Não fe fatisfazia o efpirito de Anna Fer- 

nan- 



Dec. IV. L iv. X.C ap. XII. e XIII. 679 

nandes com eíles exercícios , porque fem to- 
mar repouío como anoitecia , hia correr as 
eílancias das vigias , e quando havia aiTal- 
tos acudia a elles , e com animo varonil fe 
mettia em meio dos foldados , animando-os ; 
e vendo pelejar alguns froxa mente , os re- 
prehendia , e esforçava. Vifitando elia hum 
dia o baluarte dos combates , achou nelle 
morto de huma eípingardada pela cabeça a 
hum filho , que tinha de dezoito annes , 
mui bom íbldado , ao qual com grande in- 
teireza tomou nos braços , recolheo , e co- 
mo fe acabou abriga, lhe fez dar fepultura , 
com huma íegurança , e foíFri mento que ef- 
pantou a todos , não deixando de continuar 
com feus piedoíbs exercícios , encubrindo a 
dor de tal perda por nao entriftecer a todos , 
que como mai a amavam. 

CAPITULO XIII. 

Como os Turcos tentaram minar o baluar- 
te dos combates ; e como Gafpar de 
Soufa foi morto. 

SEndo o baluarte de Gafpar de Soufa o 
que os Turcos mais combatiam que ne- 
nhum outro , por o terem já tão rafo , que 
do chão fubiam per elle , como quem vai 
per huma coita acima , nao fe contentaram 
lenao de irem melhorando tanto fuás eílan- 
cias, 



68o ÁSIA de João de Barros 

cias , até que deram com ellas na borda da 
nofla cava ; e como as alli tiveram , come- 
çaram de minar o baluarte, em que muitos 
dos íeus perderam a vida. Para o que ufá- 
ram de huma máquina da forma que são 
os cavallos de pôr fellas , os quaes eram de 
taboado , cubertos de couro de boi , e aífi 
eram altos por cima , e largos per baixo , 
que em cada hum delles vinham mettidos 
cinco , e féis homens , de que huns hiam a 
minar o baluarte , outros fubiam em cima del- 
Je a pelejar com os noífos , fem haver en- 
tre huns , e outros mais que huma parede. 
Mas como os Turcos viram que efta inven- 
ção lhe fervia pouco , porque os noíTos com 
panellas de pólvora , ola , azeite, e lenha 
miúda lhe queimavam cites cavallos , tor r 
iiáram-fe ás bailas , com as quaes tiveram 
encuberta para irem pegar fuás eítancias em 
a noíía cava. António da Silveira como nao 
perdia o íentido deíle lugar , e fempre te- 
meo fer minado , por fe tirar deita fufpei- 
ta , mandou a elle Cide de Soufa , c Rodri- 
go de Proença , ambos eícoteiros , por elles 
ferem peflbas de que podia confiar iíto , os 
quaes trouxeram recado que o baluarte fe 
minava. E porque Luiz Neto , que já lá fo- 
ra antes deites , porfiava que nao podia íer 
mina , dando fobre iíTo muitas razoes, nao 
defeancou António da Silveira até que lá 

man- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XIII. 681 

mandou Gafpar de Soufa Capitão do mef- 
mo baluarte , que defceo pelas roturas , c 
quebradas com fetenta homens bem arma- 
dos , e preftes para tal accommettimento , e 
que huns foflem accommetter as eftancias dos 
Mouros , para que em quanto eit.es deíTem , 
c entenderem com elles , outros a quem o 
cargo hia encommendado , viíTem bem o que 
elles faziam , e fe minavam , ou não ; eque 
nas coftas deites ficaffem outros preftes para 
acudir de dentro da fortaleza. Defcido Gaf- 
par de Soufa antemanhã a efte feito , os que 
levavam as bombas , e lanças de fogo tive- 
ram cuidado de as logo pegarem nas bailas 
que os Mouros tinham por repairo. Os quaes 
como gente confiada , que os noííos não ou- 
fariam chegar áquelle lugar ,' eílavam tão 
defeançados , que fe vingaram os noííos bem 
delles , matando , e ferindo , como fe fora 
gado fonorento. Nefte tempo aqueíles a que 
foi dado cargo de verem a mina , a viram , 
e mediram quanto entrava pelo corpo do 
baluarte. 

Dado com efte alvoroço rebate nas ou- 
tras eftancias dos Turcos , acordaram ao ap- 
pellidar daquelles feridos , onde logo foram 
juntos mil e quinhentos delles , e feguíram 
a Gafpar de Soufa , o qual vinha já perto 
da boca da cava , recolhendo os feus , e fa- 
zendo-os andar. E porque vio dous homens 

a que 



6o2 ÁSIA de João de Barros 

a que quiz acudir , ficando elle fó detrás de 
todos , como iempre fazia no recolher dos 
feus , foi accommettido de grande número de 
Turcos. E como elle era homem de gran- 
de animo, e primor, não querendo falvar- 
íe , aprcfTando o paíTo , fez roílro a elles com 
grande valentia , e aíTi os accommetteo , que 
lendo o lugar eftreito , fez tornar atrás aos 
que diante hiam , até vir ao largo com el- 
les 5 onde foi cercado de todos , e defenden- 
do-fe yalerofamente , foi decepado das per- 
nas , e aíli fe defendeo quanto lhe foi pof- 
livel , até que com o muito fangue que fe 
lhe hia, e multidão dos inimigos, foi der- 
ribado. Os Turcos lhe cortaram os pés , e 
mãos , e a cabeça pofta em huma compri- 
da lança , trouxeram com triunfo per todas 
as eftancias , e o corpo lançaram na praia , 
onde depois foi achado , e conhecido , en- 
terrado com muitas lagrimas de todos por 
lua grande bondade , e valentia. Recolhi- 
dos os que com Gafpar de Souía foram , e 
fabido per António da Silveira como a mi- 
na dos Turcos entrava ainda mais que ao 
meio do baluarte , mandou com muita dili- 
gencia fazer huma contra-mina , cavando o 
entulho delle , e levantar a torre que fazia. 
E do baluarte deo a Capitania a Rodrigo 
de Proença , homem esforçado , e foífredor 
de trabalho. 

Nef- 



Dec. IV. Liv. X. Ca?. XIII. 683 

Neftes me finos dias os Turcos comba- 
tiam outras partes , como foram a caía do 
Capitão, e eítancia de Lopo de Souíà Cou- 
tinho. E como as paredes eram delgadas , 
com dez , ou doze tiros vieram ao chão > 
mas logo de dentro foram reformadas com 
outra parede mais grofla de muro terraple- 
nado , e outros entulhos. E de tal maneira 
accommettêrarn os Turcos a eílancia de Fran- 
cifeo Henriques , que era de muro delga- 
do , que não ficou amea fobre ella , de ma- 
neira que não podiam andar per elle de ra- 
fo ; mas logo reformaram os noííos outras 
dobradas em largura em parte , que quan- 
do os inimigos combateítem eftes lugares , 
podiam receber damno do baluarte do mar > 
em que eílava António de Soufa , ao qual 
também combatiam , e aíli a torre de ho- 
menagem , que era domefmo baluarte, on- 
de todos , aíli os de dentro , como os de 
fóra , fempre recebiam damno de homens 
mortos, e feridos. O que fe enxergava mais 
nos noííos , que eram poucos , por os mais 
ferem mortos , e feridos , e elT^s dos prin- 
cipaes em que coníiftia a defensão. 



CA- 



684 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 
CAPITULO XIV. 

Do ardil , com que os Portuguezes trata- 
ram de impedir os combates que fe da- 
vam ao baluarte \ e do foccorro que o 
Vifo-Rey mandou a Dio ; e da confu- 
são que caufou aos Turcos. 

SEndo os aíTaltos , e combates , que os 
Turcos davam á fortaleza , tão contínuos 
de dia , e de noite , fem intermifsao alguma , 
eítavam os Portuguezes tao canfados , e dif- 
velados , por não terem hora de repoufo , 
que fe não podiam ter em pé , e tinham per- 
dido muito de fuás forças , fe as do animo 
lhes não valeram. Porque como os inimigos 
eram muitos mil , e quando caníavam huns , 
fuccediam outros em feu lugar , que eítavam 
folgados , podiam continuar os combates , 
fem o trabalho que os cercados padeciam , 
os quaes eram tao poucos , que começando 
cm feiscentos , veio o número diminuir-fe 
tanto por os mortos, e feridos , que era ne- 
ceflario ao% melmos pelejarem fempre em 
hum tempo , e em todos lugares , e repai- 
rar o que os Turcos derribavam , e aífi não 
tinham foccgo de hum momento. Polo que 
para terem algum repoufo , inventaram hum 
ardil de guerra nunca viíto , não para defa- 
liviarem de todo do trabalho, mas para o 

di- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XIV. 68> 

diminuírem cm alguma parte, tomando por 
remédio o que outros puderam ter por dam- 
no. E o ardil era efte. Ao pé do baluarte, 
que defendiam no lugar dos atalhos , e que- 
bras delle , fe fazia hum terreiro , em que 
os Turcos fe punham, e pelejavam com os 
que citavam no baluarte. E para os noíTos 
osdefviarque não pudeflem vir amiúde aos 
combater , como faziam , lançaram naquellc 
terreiro muita quantidade de lenha fecca ac- 
ceza , que com outra mais fecca hiam ac- 
crefeentando , com que fizeram huma gran- 
de fogueira , cujas brafas com ganchos , e 
inílrumentos de ferro efpalhavam per todo 
o campo do terreiro. Eíte fogo veio a fer 
tão grande , que os inimigos não fe podiam 
chegar a ellQ , nem com grande parte def* 
viados o foífrer. E os noíTos mefmos , que 
entre o fogo , e o lugar onde eítavam fe não 
mettia mais que huma parede , lá fentiam 
feu trabalho de excelfiva quentura fobre a 
do Sol , que então era mui grande. Mas ti- 
nham nifto alguma maneira de defeanço do 
continuo trabalho. E ainda efte lhe durou 
pouco ; porque os inimigos vendo eíla in- 
venção , perque os noíTos lhes impediam che- 
gar aelles, a bateria que houveram de dar 
ao baluarte , davam aos tições , e brafido , 
que ás bombardadas começaram de o des- 
fazer , e esborralhar de maneira , que os 

met- 



686 ASIÀ de João de Barros 

mcttiam dentro do baluarte , de que os nof- 
fos recebiam muito máo tratamento , não 
deixando todavia Rodrigo de Proença de 
acerefeentar o fogo com copia de lenha com 
que o lua cevando; mas foi fem fruto, por- 
que o fogo fe aífogou de todo , e os Tur- 
cos tornaram dar grande opprefsao aos noí- 
fos. 

Aos 26 dias daquelle mez de Outubro, 
fendo já o fogo de todo acabado , huma 
grande multidão de Turcos bem armados 
commettêram a entrada do baluarte , lançan- 
do dentro muitas panellas de pólvora , e ar- 
tifícios de fogo , das quaes os noílos fe li- 
vraram com mandar banhar a parte do ei- 
rado , que elles oceupavam de muita agua , 
que mandavam acarretar , para que a pól- 
vora das panellas não tomaffe fogo. Final- 
mente os Capitães das eftancias fahindo com 
os Turcos ao chão , que fobre os repairos 
fe fazia , refiftíram de maneira ao furor , e 
impeto ? com que os Turcos os commettê- 
ram , que depois de huma grande , e bem 
perfiada peleja os empuxaram , e lançaram 
do lugar , dos quaes foram mortos quaren- 
ta , e feridos grande número , e dos noílos 
mortos quatro , e feridos vinte e cinco , en- 
tre os quaes Francifco de Gouvea fahio quei- 
mado de pés , e mãos , e roíto , que fe não 
conhecia , e feridos Manoel de Vafconcel- 

los 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XIV. 687 

los de duas frechadas pelo rofto , e Duarte 
Mendes em huma perna , os quaes naquelie 
combate moílráram bem feu esforço , e ou- 
tros Jiomens honrados , que pofto que mal 
feridos, não deixaram de pelejar y e traba- 
lhar como os mais sãos. 

Ao dia feguinte , que foram 26 do mez , 
ante manhã entraram pela barra quatro ca- 
tures , que o Viío-Rey D. Garcia mandara 
de Goa para favorecer a gente , de que eram 
Capitães Gonçalo Vaz Coutinho , Martim 
Vaz Pacheco , com Gabriel Pacheco feu pri- 
mo , António Mendes de Vafconcellos , e 
com elles vinte oito homens , taes quaes ha- 
via miíler aquelle accommettimento. E pof- 
to que não traziam pólvora , que era a cou- 
fa de que na fortaleza mais falta havia , nem 
outras munições , por ferem conhecidos em 
fuás obras , alegraram a todos. E por a en- 
trada deftes catures fer ás duas horas depois 
da meia noite , ufou António da Silveira 
de cautela , que por os inimigos não fabe- 
rem quão poucos eram , porque per hi po- 
deriam colligir a gente que entrava , man- 
dou que logo antes de amanhecer-fe tornaf- 
fem a ir. Os Turcos por o luar que fazia 
houveram íentimento dos catures , ainda que 
não viíta do número delies. E ouvindo a 
fefta que hia na fortaleza , julgavão que lhe 
viria grande foccorro , a qual fufpeita fez 

nel- 



688 ÁSIA de João de Barros 

nelles grande alteração , poíto que Coge So- 
ía r , e os feus lhes moftravão fazer pouco 
cafo da genre da fortaleza. Porque lançavam 
conta que ao tempo dá chegada de Solei- 
mão Baxiá , era íabido não haver nella mais 
de feiscentos homens de peleja , que com o 
longo cerco eftavam cantados , e em núme- 
ro muitos menos , por nos combates ferem 
muitos mortos , e feridos , fem lhes ter vin- 
do foccorro mais que aquelle , que era de 
crer feria de pouca gente , pois os navios 
eram fomente de remo. E que a artilheria 
que tinham era pouca , e déíía lhe arreben- 
tara alguma , por a principio os viam tirar 
mais que ao prefente. 

O que também fazia confusão a Solei- 
mão Baxiá era ver, que elle tinha perdida 
muita gente , e de quantas vezes accommet- 
têram a fortaleza , fempre foram lançados 
dos combates com muito damno feu , e que 
mão por mão hum dos Portuguezes era pa- 
ra dez dos feus Turcos. Também começou 
tomar defgofto de Coge Sofar, porque fo- 
ra caufa de elle quebrar a fúria , e força 
de fua Armada em cercar aquella fortaleza , 
fazendo-lhe crer que em dous combates a 
levaria nas mãos , e depois iria a pelejar com 
noíTa Armada, o que elle tudo vira ao con- 
trario. E que em íeguir o confelho deCo- 
ge Sofar, eítava dando tempo a que o Vi- 

fo 



Dec.IV. Liv.X.Cap.XIV.eXV. 689 

fo-Iley vicífe mais podcrofo contra elle j 
pelo que lhe diziam da grande Armada que 
ajuntava. A iílo fe chegava, fegundo fe ti- 
nha por certo , que o regimento , que trazia 
do Turco feu Senhor, era quebrar as for- 
ças do mar aos Portuguezes por ter fabido, 
que eftas lhes tinham dado ferem Senho- 
res da índia, e que o modo que elles tive- 
ram para a fenhorear, eíTe lhe convinha a 
elle ter. Efta indignação que trazia veio a 
quebrar na cabeça de António Falleiro , o 
qual fendo perguntado por Soleimao Baxiá , 
quando tomou a Villa dos Rumes , quanto 
poderia tardar o foccorro do Vifo-Rey com 
ília Armada, porque lhe diíFe que não po- 
deria paliar de certo termo per razoes que 
deo, e não fuecedeo aíli, lhe mandou cor- 
tar a cabeça. 

CAPITULO XV. 

Dos ajfaltos que os Turcos deram ao ba- 
luarte do mar , e ao dos combates : e 
refere-fe hum cafo de hum esfor- 
çado Jòldado. 

H Aviam per aquelles dias os Turcos 
batido o baluarte do mar , e aberto 
nelle grande caminho para fer accommerti- 
do da gente. Polo que a terça feira feguin- 
re , que foram vinte e nove domez, foram 
Tom. IV. P.iL Xx jun- 



690 ÁSIA de João de Barros 

juntas cincoenta barcas das galés , c galcócs 
que na Armada vinham, e embarcados nel- 
las fetecentos homens, eMahamud Queuau 
Bec por Capitão delles. E em rompendo a 
manhã , a fom de muitos clarões o foram ac- 
commetter. E antes de chegarem ao baluar- 
te, os noffos lhes tiraram da fortaleza cer- 
tos tiros , com que lhes mettêram no fundo 
duas barcas, E fahindo das outras a gente 
de que o defembarcadouro era capaz , ac- 
commettêram a fubida , que já lhes era fá- 
cil. Ao que os que nas barcas ficavam aju- 
davam defendendo com feus arcos , e ef- 
pingardas apparecer ninguém nos repairos. 
Subindo aíli os inimigos , António de Sou- 
fa , e os companheiros os vieram receber, 
lançando nelles muitos artifícios de fogo , e 
apôs iflb pondo-lhes as lanças os fizeram 
defcer , em que lhes pezou , matando alguns 
delles. E fendo feridos pelos das barcas três , 
ou quatro dos do baluarte , cuidando os ini- 
migos que era maior o damno , tornaram a 
fubir , e iníiílir na entrada ; o que tão rijo 
lhes foi rcíiítido , que em fim mui depreila 
tornaram a fe defcer , e embarcando-fe fe 
tornaram. E praticando entre íi, que fora af- 
fronta para elles defiftirem do que accom- 
mettêram , fendo tão poucos os que lhe re- 
fiftiam , deram todos volta , e tornaram a 
combater o baluarte António de Soufa , e 

os 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XV. 691 

&s que nellc citavam vendo a volta dos Tur- 
cos , deram-fc por perdidos, e como taes 
determinaram de vender as vidas. E antes 
que os inimigos defembarcaíTem , já eram 
com elles , fazendo-lhes tal reíiftencia , que 
poucos puderam defembarcar. E aíli por a 
prelTa que António de Soufa , e os feus lhes 
davam, como por ferem varejados da for- 
taleza , cheios de medo , e de vergonha fe 
tornaram a embarcar , levando muitas apu-* 
padas dos da fortaleza. Vendo Queuan Bec , 
que era Capitão mui esforçado , o pouco 
que tinham feito naquelles dous accommet- 
timentos , e quanto lhes tinha cuílado , os 
fez tornar , e pondo-fe clle na dianteira , em 
chegando ao baluarte , foi ferido mortal- 
mente de hum berço , de que ao outro dia 
morreo. E de outros tiros de bombardas 
foram as barcas arrombadas , perque com 
dobrada vergonha fe tornaram , deixando 
quarenta mortos , e levando muito número 
de feridos. Dos do baluarte morreram dous , 
e foram feridos cinco. Das barcas , que a 
noífa artilheria arrombou , como a maré en- 
tão vafava, foram pela agua alguns Turcos , 
que as outras fuás barcas não puderam to- 
mar , aos quaes António da Silveira man- 
dou huma almadia , e em ella alguns ho- 
mens , para que os trouxeíTem ; mas elles 
efeandalizados dos males que dos feus ti- 
Xx ii iiham 



6y2 ÁSIA de João de Barros 

nhatn recebidos , os matavam , e a poder 
de brados , que do baluarte da barra lhe 
davam , trouxeram fós dous vivos* 

' ; Os feridos noflbs mandou António de 
Soufa á fortaleza para fe curarem , entre os 
quaes vinha hum Fernão Penteado , homem 
mancebo mui esforçado , natural da Covi- 
lhã , mui mal ferido na cabeça de huma 
racha de pedra de bombarda. E porque ao 
tempo que eftes feridos vieram , os Turcos 
affrontados de aíli ferem mal tratados dos 
noííbs aquella manhã no baluarte do mar, 
querendo logo vingar-fe , commettêram o 
baluarte dos combates , e aífi apertavam co- 
mo quem queria cobrar o perdido ; duran- 
do a peleja, aconteceo a Fernão Penteado , 
de que atrás falíamos , hum cafo que he pa- 
ra lembrar , e foi ; que chegando ao Cirur- 
gião que o curalTe da ferida que diíTemos , 
achou-o oceupado na cura de outro ferido , 
dos que do combate vinham , e ao redor 
de íi tinha outros dez , ou doze efperando 
por vez para ferem curados ; e ouvindo 
Fernão Penteado os gritos , e eftrondo que 
o combate caufava , não lhe foffrendo o co- 
ração não acudir lá , e achar-fe preíènte , 
não efperando fer curado , diíTe ao Cirurgião , 
que curaíTe outro ; e correndo como pode , 
fe foi ao combate, e envolvendo-fe na pe- 
le- 
a Lopo de Soufa Coutinho, 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XV. 693 

lèja , que foi mui brava , liouvc outra gran- 
de ferida também na cabeça ; e apertado 
affi de duas, tornou ao Cirurgião , ao qual 
achou muito mais occupadc. Ecomoáquel- 
le tempo os Turcos apertaflem muito os 
noflbs , e elles com dobrado esforço, e fer- 
vor lhes refiftiíTem , ouvia-fc fóra hum hor- 
rendo eftrondo , e concorrência de vozes ; 
o que fentindo Fernão Penteado , deixando 
o que cumpria á fua faude , e vida , pare- 
cendo-lhe que lá aquietaria mais feu efpiri- 
to , tornou á peleja , não como ferido , mas 
com novas forças , e efpiritos , onde rece- 
beo outra ferida.de hum pique que lhe en- 
cravou o braço direito , e então impedido 
delle , fe veio curar de todas três , dando 
moítra de feu grande animo , e valentia , 
das quaes, fendo todas mui perigofas, efeapou. 
Durou aquelle combate hum bom efpaço , 
em que dos noflbs morreram três , e foram 
feridos muitos. Dos Turcos morreram mais 
de vinte , e foram feridos mais de cento. 
A efte tempo fe achavam dos noflbs para 
pelejar duzentos e cincoenta homens , pou- 
co mais , ou menos, e deíTes muitos feri- 
dos , e os mais eram mortos , havia mais fe- 
tenta homens, que em nenhuma maneira po- 
diam tomar armas. E dos inimigos , (fegun- 
do fe foube per tormento dos dous Turcos 
que fe tomaram' das barcas,) eram mortos 

áquel- 



6c?4 ÁSIA de João de Barros 

áquelle tempo mais de oitocentos , ceflavam 
feridos mais de mil. 

CAPITULO XVI. 

Do grande ajjalto , que os Turcos deram d 
fortaleza com quatorze mil homens de 
peleja : e do grande aperto , em que 
a puzeram com morte de mui- 
tos dos nojjòs. 

a T T Endo os Turcos que nos paíTados 
V combates não tinham aproveitado mais 
que gaitarem o tempo , e diminuírem fuás 
forças , e temendo-fe do foccorro que os 
noílòs efperavam âo Vifo-Rey h , quizeram 
dar hum aííalto com toda a lua gente , e 
averiguarem dehuma vez o que podiam fa- 
zer contra os Portuguezes , e não irem-íe 
desfazendo pouco \ e pouco , como a expe- 
riência U\qs moftrava. Para ifto determina- 
ram de ufar de manha , fingindo que fe que- 
riam ir , e deixar Dio , para tornarem com 
grande poder , c tomarem a fortaleza de 
improviíò. E quando veio ao outro dia, 
que foram trinta de Outubro , não curaram 
de continuar a peleja com os noflbs , íb- 

men- 

a Lono de Soufa Coutinho. 

b Efle ajjalto , que foi o ultimo que os Turcos deram 
á fortaleza , não e flava efcrito nos. cadernos de João de 
Birros , nos quaes havia duas folhas em branco para fe 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XVI. 69; 

mente tiraram alguns tiros aos muros, co- 
mo fempre faziam , com que de todo tinham 
roto o repairo do baluarte , e desfeitas as 
caías do Capitão , e parte das de Lopo de 
Soufa Coutinho. Mas aquelle dia á tarde 
para maior diífimulação fahíram de fuás ef- 
tancias á viíla da fortaleza mais de mil ho- 
mens com fua bandeira , e pafiando pela 
Villa dos Rumes , fe vieram pela praia em- 
barcar na Armada , que eftava áquella par- 
te , para que os noflbs cuida ílem , que le- 
vantavam o cerco , e fizeram-fe logo á vela 
doze galés , e foram na volta do mar , pa- 
ra que os noílbs mais fe defcuidaiTem. Mas 
António da Silveira , que por leu entendi- 
mento , e grande providencia anteveio o en- 
gano , nunca fe tanto temeo como então , e 
com muita diligencia proveo todo o necef- 
fario para reíiílir a todos engenhos , e má- 
quinas com que os inimigos o podiam ac- 
cemmetter. E andando vigiando tudo o que 
cumpria , quando acabava a fegunda vigia , 
em que a Lua já era poíla , huma das vigias 
que no baluarte dos combates vigiava , diír 
fe fentir ao pé do mefmo baluarte , e per 
outros lugares gente que com muito filencio 
movia madeira. Para o que António da Sil- 
' veira mandou que deitaííem huma panella 
de pólvora , e viíTem o que era. Com a 
claridade que a pólvora fez , fe viram mui- 
tas 



6o6 ÁSIA de João de Barros 

tas efcadas , que os inimigos punháo nos lu- 
gares onde haviam de fervir. O Capitão 
vendo tanto número de efcadas , creio que 
por fuás cafas , e pela eftancia de Lopo de 
Soufa .queriam os inimigos accommetter , 
porque numas, e outras eílavam batidas. E 
para que elles não pudeífem arvorar as ef- 
cadas , mandou que nenhum efpingardeiro 
fizeífe tiro , fenão aos inimigos que vieífem 
pegar delias ; e que os das lanças , e ou- 
tras armas fe oppuzeíTem aos portaes , e ro- 
turas das paredes batidas. 

Os Turcos , que de dia na vida de to- 
dos fe embarcaram , como foi noite , defem- 
barcáram todos , e fe vieram para as eftan- 
cias , onde os Mouros eftavam , e juntamen- 
te os mais dos Capitães de toda a Armada. 
E fendo poftos em ordem por Juçuf Hamed 
Capitão do mar , e por Barharan Bec ho- 
mens esforçados , e práticos na guerra , quan- 
do começou a manha fe aprefentáram ante 
a fortaleza em três batalhas de mui luzida 
gente , em que haveria quatro mil homens. 
Trás eftes eftavam dez mil , das companhias 
de Aluchan , e de Coge Sofar , derrama- 
dos , que com innumeraveis tiros efperavam 
o a (falto. Antes de outra coufa defparáram to- 
da a fua artilheria nos lugares per onde ef- 
peravam entrar; e ceifando as bombardas, 
a primeira daquellas três batalhas y feguindo 

hu- 



De o IV. Liv. X. Cap. XVI. 6 9 ? 

Inima bandeira vermelha , a fom de muitos 
•Tambores , e clarões , rompendo o ar com 
gritos , arremetréram huns ao baluarte , e 
os outros ás efeadas , que tentaram levantar 
pelas caías do Capitão. Mas como os nof- 
íbs citavam de aviíb para fó nell as empre- 
garem feus tiros , e nos que delias fe qui- 
zeflem aproveitar , defparavam , e tratavam 
os inimigos de maneira , que quantos a el- 
las vieram cahíram mortos , ou gravemente 
feridos , fem algum tiro fe perder ; porque 
como o lugar era pequeno para tamanho cor- 
po de gente , não ficava tiro algum em vão. 
Polo que morrendo quantos nas efeadas fe 
oceupavam , fe ajuntaram todos em hum cor- 
po para a entrada do baluarte , o que aos 
nofíbs foi menos trabalhofo por fe não di- 
vidir o combate , fendo elles tão poucos. 
Naquelle inftante , aífi agente das batalhas, 
como os de Coge Sofar , começaram a def- 
parar innumeravel cópia de tiros de efpin- 
gardas , e de frechas, com que cubria o ar, 
e fazia hum horrendo efpeclacuío , por fer 
a gente tanta , e junta em pequeno efpaco. 
Os noííos da outra parte com muitos arti- 
fícios de fogo , e panellas de pólvora, que 
lançavam em lugar tão cheio de gente, cau- 
favam, que de huma parte, e outra houvef- 
fe hum immenfo eflrondo , e confusão de 
vozes > gritando huns que morriam , e ou- 
tros 



698 ÁSIA de JoÃo de Barros 

tros incitando que mataíTem ; huns atravef- 
fados das frechas dos arcos , e pelouros das 
e i pinga rd as , c outros apparecendo queima- 
dos feitos brafa , e em tudo brados , e ge- 
midos , e varias imagens de morte. No mef- 
rao tempo vieram quatorze galés Reaes , e 
baílardas chegando-le á eftacada , e defear- 
regáram muitas vezes fua artilheria na for- 
taleza ; mas fem eífeito algum , das quaes 
Francifco de Gouvea de algumas bombar- 
dadas que do feu baluarte da barra lhe ti- 
rou , defapparelhou duas , matando-lhe al- 
guma gente , e as fez affaftar. E fendo já dos 
Turcos mais de duzentos em cima do ba- 
luarte com fua bandeira levantada, fe ajun- 
taram dos nofibs vinte e cinco , ou trinta 
homens na praça , que já diíTemos que fe fa- 
zia fobre o repairo do baluarte , ás lança- 
das , e com artifícios de fogo , matando mui- 
tos , e com elles o Alferes , os fizeram per- 
der o que tinham ganhado , e com ido fe 
reforçou a peleja , e fe foi embravecendo 
mais. Achando-lè em ella Martim Vaz Pa- 
checo Cavalieiro mui esforçado , que com 
muito animo foftinha o Ímpeto dos inimi- 
gos , e tendo mortos muitos delles , foi fe- 
rido de hum pique por baixo da faldra do 
ccíTolcte , de que cahio logo morto. O que 
vendo Gabriel Pacheco feu primo , e gran- 
de amigo y que nunca fe delle apartava , que 

era 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XVI. 699 

era hum mancebo mui esforçado , e de gran- 
des efperanças , movido de grande dor , e 
deíejos de vingar lua morte , ferindo , e ma- 
tando nos inimigos , foi ferido de duas gran- 
des feridas no roíto com que dobrou o pe- 
lejar - y e fendo-lhe dito per hum da compa- 
nhia que fe foffe curar , e não quizelTe que 
feu esforço , e mocidade fe perdeífe tão em 
breve , refpondeo , que pois feu primo , c 
grande amigo era morto , a vida lhe não fer- 
via já de nada , e perfeverando na peleja , 
foi ferido na cabeça de huma efpingardada , 
de que cahio logo morto fobre o corpo de 
feu primo , dando em idade de poucos an- 
nos grande exemplo de esforço , e de ami- 
zade. Durando eíla revolta, do baluarte do 
mar , e da torre de S. Thomé defparáram 
alguns tiros de cameletes , que como por a 
multidão da gente junta , e apinhoada não 
podiam dar em vão , lhes fizeram grande 
damno. Eílando pois os Turcos nefta con- 
tenda de entrar , e os noííos de lho defen- 
der , hum homem , que citava mettido em 
huma rafgadura dorepairo tirando com hu- 
ma efpingarda , e aquella defearregada , dan- 
do-lhe outra , matou muitos fem perder ti- 
ro , e de hum matou o fegundo Alferes , que 
ao primeiro fuecedeo. 

Sendo deíla primeira batalha mortos os 
melhores y e muitos feridos , começaram os 

n of- 



7oo ÁSIA de João de B ar r as- 
neiros a apertallos muito. Os da fegunda ba- 
talha , em que vinham homens efcolhidos , 
vendo cíia quebra , fizeram affaílar os pri- 
meiros , e íubíram ao baluarte com quatro 
bandeiras que levantaram , e com grande fú- 
ria apertavam aos noíTbs , que lhe afremef- 
favam muitos zargunchos , pedras, c arti- 
fícios de fogo , e os de fora infinito núme- 
ro de efpingardadas , e frechadas , com que 
as lanças , e as mãos dos noíTos que as ti- 
nham , e as rodellas , e os roílos encrava- 
vam. Muitos dos noíTos feridos , e com íuas 
faces cheias de fangue , defciam do muro , 
e lugares da peleja a curar-fe. Outros abra- 
zados , e queimados do fogo da pólvora, 
com o defaííbcego das dores corriam como 
f urio fos , de que alguns que em lugares da 
fortaleza acharam tinas de agua falgada , fe 
mettiam nellas , cuidando de mitigar aquel- 
Jes ardores com a frialdade da agua ; mas 
como era falgada , lhes accrefcentava mais a 
dor , e alli expiravam. O Capitão António 
da Silveira , que em feu animo padecia o 
mal de todos , não aíTocegava , e esforçan- 
do a huns , e exhortando a outros , e con- 
folando a todos , e provendo a todos os lu- 
gares , mandava aos efpingardeiros que con- 
tinua (Tem em feus tiros , porque em todo lu- 
gar podiam os inimigos fer feridos. O que 
bem guardou hum , que tendo deitada a pol- 
vo- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XVI. 701 

vora na eípingarda , não achando pelouro , 
com o fervor da peleja, lançou mão a hum 
dente, (que per ventura teria abalado,) e 
arrancando-o , o atacou á eípingarda com el- 
le , e atirou aos inimigos. Efta íegunda ba- 
ralha tinha ganhado mais que a primeira , 
porto que tinha ante íi mui esforçados caval- 
leiros , entre os quaes fe acharam António 
Mendes de Vafconcellos , Gonçalo Vaz Cou- 
tinho , Manoel de Vafconcellos, Cide de 
Soufa , Francifco de Gouvea , que , depois 
de fazer afaftar do baluarte as galés , fe veio 
ao combate , Rodrigo de Proença Capitão 
do mefmo baluarte , Duarte Mendes , Si- 
mão Furtado , Rodrigo Alvares , Manoel 
Moreno , Francifco Mendes de Vafconcel- 
los , Lançarote Pereira , António Coelho , 
Lourenço de Mello , António Foreiro , Paio 
Rodrigues de Araújo , Manoel de Aguiar , 
Bartholomeu Freire , Diogo da Silva Almo- 
xarife , Bartholomeu Corrêa , Manoel Ro- 
drigues , Gil Thomé , Francifco Serrão , 
Francifco Henriques Thefoureiro , e outros 
mui valentes homens , os quaes como tra- 
balhaífem por fufter o pezo de tantos ini- 
migos , Rodrigo de Proença cavalleiro mui 
esforçado , que alli tinha pelejado mui va- 
lentemente , e tinha mortos muitos per fuás 
mãos , tirando a vifta a hum elmette , que 
tinha na cabeça^ lhe deo huma frecha pe- 
los 



702 ÁSIA de João de Barros 

los olhos , que voltando ao cérebro , o ma- 
tou , que todos íèntíram muito por perder tal 
homem em tal tempo. No mefmo lugar An- 
tónio de Vaíconcellos 3 fendo ferido de duas 
feridas , de que huma era mortal , nao cef- 
fando de pelejar , fobre ellas foi ferido de 
hum tiro de berço pelo hombro efquerdo , 
e paliado da outra parte , de que neíTe dia 
morreo , e aíTi morreram , e foram feridos 
outros muitos. Durando a fúria deita pele- 
ja , hum João Rodrigues mancebo valente 
natural das Ilhas , trazendo ás coitas huma 
jarra de pólvora tapada , em que haveria hu- 
ma arroba , que para aquelle eíFeito tinha 
guardada , fegundo a falta havia delia , fu- 
bindo ao baluarte , e fazendo afaítar os que 
defendiam a entrada aos Turcos , lhes dil- 
fe, que o deixaíTem paliar , que a feus hom- 
bros levava a morte para íi , e para os con- 
trários. E rompendo per entre elles , arre- 
metteo aos Turcos , e ajudando-fe das mãos , 
lançou a jarra entre elles , e com muita pref- 
teza fe recolheo entre os noflbs. Ajarrapof- 
to que mui rija era , como cahio em pedras , 
quebrou , e tomou fogo a pólvora , com 
que levou pelos ares mais de vinte Turcos 
feitos brazas , e chamufeou outros muitos. 
O que fendo favorecido dos noíTos com ou- 
tros artifícios de fogo , e panellas de pólvo- 
ra, dando o fogo nos Alferezes , arderam eU 

les, 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XVI. 703 

les , e as bandeiras , c dando os noíTos ás 
trombetas , e nomeando vitoria , e ferindo , 
e matando nelles , os foram empuxando. Os 
efpingardeiros Portuguezes não ceifavam de 
mui a' preíía defpararern/cus tiros, de que 
nenhum ficava cm vão. Aquellemeímo tem- 
po o baluarte do mar defparou huma bom- 
barda , que dando o pelouro ao pé do ba- 
luarte , em que o combate fe dava , como 
tudo o em que deo foíle gente , matou , e 
defpedaçou muitos. Não tardou outro tiro , 
que diíparou do baluarte de S. Thomé , que 
dando o pelouro no meímo lugar, fez ou- 
tro tanto damno , perque a fúria dos Tur- 
cos começou a remittir-fe. E como os nof- 
fos de cima trataíTem da mefma maneira aos 
que debaixo pelejavam , lhes derribaram ou- 
tras duas bandeiras que ficavam , e aos Al- 
ferezes que as tinham começaram a levallos 
de vencida. 

Aterceira batalha , vendo o fim que hou- 
vera a fegunda j fazendo apartar os feridos , 
e canfados , com novas bandeiras fe puze- 
ram no lugar delles. Mas como eíiavam á 
vifla do que os noílcs fizeram daquellas duas 
batalhas, que tão animofamente pelejaram, 
parecia que o não faziam com tanto calor. 
Andava entre elles no mais afpero da pele- 
ja ferindo com grande esforço , e incitando 
os feus a outro tanto , Carahacen genro de 

Co 



yoj. ÁSIA de João de Barros 

CogeSofar, que diziam ferjaniçaro de na- 
ção , ao qual por fèr differente dos outros , 
aíli na difpoíiçao , e esforço , como nas ri- 
cas armas que trazia , lhe foi deitada huma 
grande panella de pólvora , que dando nel- 
Je , o abrazou , queimando-lhe o rofto > per- 
nas , e braços , o qual com grandes gritos 
fe íahio , ficando todo feio , e aleijado , do 
que fe elle depois gloriava. Com a falta dei- 
te homem , que era cabeça daquella batalha , 
afrouxaram muito os inimigos, poílo que en- 
tre clies havia outros muito esforçados. Os 
noíTos havendo tanto tempo que com feus 
dcsfallecidos , e feridos corpos fuftinham o 
pezo da peleja , cobrando novos efpiritos , 
e renovando a peleja , fizeram aos Turcos 
defcerem do baluarte , e volver as coitas , 
retirando-fe , e deixar o que tinham adqui- 
rido , com morte de tantos bons cavalleiros 
feus , e noíTos. Durou efte grande , e per- 
fiado combate mais de quatros horas , ferri 
os Portuguezes tomarem fôlego , porque fem- 
prc pelejavam os mefmos . o 'que não era 
nos inimigos , que por ferem tantos fe re- 
novavam. 

Lançados aíii os Turcos do baluarte , íè 
foram ás fuás eííancias com grande fiiencio, 
como aconteceo aos que receberam algum 
grande mal , deixando tinto de fanguc todo 
o fitio , que pelejando occupavam ? e dos 

feus 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XVI. 7oy 

fcus morros naquelle combate mais de qui- 
nhentos dos mais esforçados , e levando fe- 
ridos mais de mil. Efte combate, por íèr o 
que mais efpaço durou , e dado per tantos 
mil homens juntos em hum corpo , foi o 
que chegou aos noííos ao ultimo da afrlic- 
çao , e deílruiçao total , fe Deos lhes nao 
valera. Porque nelle foram mortos dos nof- 
fos quatorze homens esforçados , e feridos 
mais de duzentos de cruéis feridas ; polo 
que nao ficavam mais que quarenta homens 
para poderem pelejar. Parlado o meio dia , 
começaram os Turcos de recolher-fe ás ga- 
lés , levando a artilheria miúda, que com 
menos abalo leu , e íèm vifta dos no fios 
podiam levar, efperando por a noite para 
recolherem a grofla. E para mais facilidade 
de a embarcarem , chegáram-fe as galés mais 
á Villa dos Rumes do que eílavam , e por 
encubrirem fua determinação , nao deixou 
por iíío fua artilheria de tirar á fortaleza , 
corno faziam de antes. 



Tom.IF.P.iL Yy CA- 



7o6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

CAPITULO XVII. 

Do que o Capitão António da Silveira fiz 

quando os Turcos cejjdram dos combates : 

e das ca ufas per que tão de fubito 

levantaram o cerco. 

a \ O tempo que os Turcos fe retiraram , 
i\ e defiílíram de feus combates , eílava 
a fortaleza no mais infelice , e miíeravel ci- 
tado que podia fer; porque da gente que a 
defendia grande parte era morta , e toda 
a mais ferida , fó ficavam quarenta homens , 
(como diííemos , ) que podiam tomar armas. 
As munições eram todas desfeitas. A pólvo- 
ra de bombarda, em que confiftia a princi- 
pal defensão , era acabada , e as vafllhas del- 
ia varridas. Da de efpingarda não havia 
mais que a que cada efpingardeiro trazia em 
feu frafco mal cheio. As lanças eram todas 
quebradas , que não ferviam fenão para bor- 
dões , em que fe arrimavam os feridos , e 
aleijados. Ver o edifício da fortaleza era hum 
trifte , e medonho efpeélaculo ; porque pela 
parte de fóra da contínua bateria eílava to- 
da arruinada , e pela de dentro , com a ne- 
ceflidade que havia de pedra para os repai- 
ros , que contínuo faziam os noíTos , desfi- 
zeram muitas cafas , e paredes 3 e pareciam 

mi- 

« Lopo de Soufa Couti»ht>« 



Dec. IV. Liv. X. C ap. XVII. 707: 

fiiinas de caías, que com algum terremoto 
eahíram. Em nenhuma cottfa punham aquel- 
les cercados os olhos , de que pudeífent eí- 
perar remédio , nem defensão , ienao no in- 
vencível animo de fed Capitão x\ntonio da 
Silveira , o qual tanta feguridade moílrava 
em feu roíto , e aíli esforçava a todos, que 
lhes dava efperança nao fomente de fe de^ 
fenderem com aquelíe pouco, mas de offen- 
derem aos inimigos ; e com tanta confiança 
o arnrmava , que parecia não faltar couia 
alguma das neceífarias , e que tudo fe re- 
formara. Mas ellecomfigo de nenhuma ma- 
neira fe aílegurou na dcílftenciá , que os 
Turcos fizeram de feus coítumados comba- 
tes , e de moftrarem que fe embarcavam ; 
porque tinha para fi , que era outro tal es- 
tratagema , e ardil , como o do dia atrás 
paífado ; polo que com muita vigilância man- 
dou prover eífe pouco que havia, cfperan- 
do fer combatido. E vendo que na cafa 
da pólvora nao havia alguma , mandou d et. 
carregar certas bombardas , que eftavam car- 
regadas , e efta pólvora repartio per certas 
panellas que fe bufeáram , porque também 
iífo era acabado nos combates. Os lugares 
que eftavam fracos, fez repairar, e ajuntar 
nelles muita pedra folta para arremeíTar ; pe- 
los muros mandou pôr os poucos efpingar-* 
deiros , que havia em feus lugares } e para, 
Yy ii que 



708 ÁSIA de JoÃo de Barros 

que pareceíTcm mais dos que eram , vieram 
aos muros muitos dos feridos , que podiam 
andar, e fe punham entre os sãos, para fa- 
zer volume, e gente. E muitos dos que em 
cama citavam , le mandavam levar aos mu- 
ros , parecendo-lhes que acabavam mais hon- 
radamente, morrendo no lugar, onde hou- 
veram de morrer fendo sãos. Com eíle pe- 
queno apparato eítava o Capitão efperando 
o fucceíTo que Deos ordenaffe. A gente ef- 
tava tão leda em feu afpeclo , como quem 
do eílado em que eílava efperava em breve 
gloriofo fim , ou morte fanta , e honrada , 
que como calis de fua ultima determinação 
tinham bebido. O que não fomente moítra- 
vam os homens , mas as mulheres , que pa- 
ra tal empreza dizem que algumas fe arma- 
ram. Aquella noite , para que a gente efti- 
vefíe vigilante, enao fe defcuidaífem algum 
momento , mandou o Capitão dar alguns, 
rebates falfos , em que fe vio o que fariam 
quando de verdade viíTem os inimigos com- 
íigo. 

Polo contrario nos Turcos começou a 
crefcer novo receio ; porque como no com- 
bate paífado , onde mettêram o refto de tu- 
do o que podiam , lhe fuecedeo tão mal > 
morrendo tantos homens da flor da fua gen- 
te , e ficando todos os outros feridos , lhes 
pareceo que deviam mudar o confelho , e 

tor- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XVII. 709 

tornarem-fe para fuás terras. Ido não foi 
medo que inconíideradamenre tomaram So- 
leimao Baxiá , e os feus ; mas difcurfos que 
fizeram , e coufas que concorreram , perque 
vieram entender que lhes compria aííi. Por- 
que como feelles foram fazendo tantos me- 
nos , e as munições , e os mantimentos lhes 
hiam faltando , com que os da terra já lhe 
acudiam de má vontade , não fe fiava o Ba- 
xiá do Aluchan , de Coge Sofar , e dos Gu- 
zarates , que tinha armados comíigo , e em 
cuja terra eftava , e que fabia lhe não terem 
sã vontade, receava que vendo fua fraque- 
za, emprenderiam contra elle alguma novi- 
dade. Ifto nafceo da foberba de Soleimao , 
e dos feus , que logo na entrada trataram 
tão mal a Aluchan (como temos dito ) per- 
que fe veio aufentar delies. Chegou-fe a if- 
to íaber-fe por as fellas , que fe lhe perde- 
ram emMadrefabar , e por os felleiros que 
traziam , fer fua determinação (como diíTe- 
mos ) per terra conquiítarem o Reyno de 
Cambava. O que fe mais entendeo por 
mandar Soleimao Baxiá , quando logo veio 
hum feu Faratebec por Embaixador a El- 
Rey de Cambaya , e a feus Governadores , 
notifícando-lhes fua vinda , que dizia fer a 
fim de vingar a morte de Soitão Badur, e 
encarregar a efte feu enviado , que lhe com- 
praífe em Abmadabad os mais cavallos que 

pu- 



grjo ÁSIA de João de Barros 

pudefíe. O que fcntindo os Governadores * 
,o detiveram quarenta , ou eincoenta dias , 
fem lhe dar lugar que fallaííe a EIRey , 
nem licença para comprar cavallo algum , 
antes fe defendeo , que ninguém lhos ven- 
defle , havendo muitos na Cidade. E por as 
novas queAluchan, e Coge Sofar efereviam 
a EIRey , e aos Governadores do que fen- 
tiam da tenção de Soleimao , lhes refpon- 
dêram , que fe a fortaleza de Dio íe pudeí- 
fe tomar da mão dos Portuguezes , para fi- 
car com EIRey de Cambaya , que trabalhaf- 
fem niíTo , mas não para ficar em pod-cr dos 
Turcos , porque antes queriam nofla fujei- 
çao , que a íoberba delles. Coge Sofar per 
outra parte , que de Soleimao andava mui 
eícandalizado , ainda que o diílimulava , por 
p pouco refpeito com que o chamava , e 
mandava como hum feu eferavo , determi- 
nava de o não deixar fem alguma vingan- 
ça , a qual Deos permittio que elle inten- 
laíTe para a fortaleza fe não acabar de per- 
der. 

Havia naquelles dias próximos , que em 
Chaul eítava parte da Armada que de Goa 
vinha em foccorro de Dio , e eram as ve- 
las que atrás diíTemos que Nuno da Cunha 
mandara per Martim Arronfo de Mello ; e 
vendo Coge Sofar naquelle dia do grande 
aííalto^ e ultimo combate, quedando outro 

fe- 



Dec. IV. Lfv* X. Ca p. XVII. 711 

fegundo combate , eftando a fortaleza des-> 
feita como eftava , fem dúvida feria entra- 
da ; e iabendo o temor que já Soleimão ti- 
nha , com grande prefla mandou per terra 
hum feu criado, de que muito fiava, aMa- 
drefabar, dando-lhe huma carta, a qual el- 
le fingia que lhe efcrevia Cide Acut feu 
Capitão que tinha em Surat. E nella fe con- 
tinha , que áquelle porto eram chegados trin- 
ta navios da noíTa Armada que ficava em 
Baçaim , que era de cento e cincoenta ve- 
las , em que vinham féis mil foldados , e 
que mandava o Vifo-Rey aquellas diante em 
foccorro á fortaleza de Dio , que lhe fazia 
a fiber efta nova por o muito que lhe im- 
portava. A eíle feu criado mandou Coge 
Sofar , que em Madrefabat tomaíTe huma 
galveta , que he hum barco mui leve , e 
fe mctteíTe pelo meio da Armada dos Tur- 
cos , e f e o tomaíTem , diíTeíTe como era feu , 
e vinha de Surat com aquella carta de Ci- 
de Acut feu Capitão para clle. Eíle criado 
veio na galveta , e tanto que foi no porto 
de Dio , os Turcos o tomaram , e levaram 
ao Baxiá , o qual fabendo que trazia recado 
a Coge Sofar , o mandou chamar , apre- 
fentando-lhe o criado , que lhe deo a carta. 
Coge Sofar a leo entre íl , e no fim delia 
fe moítrou trifte , e deo conta ao Baxiá do 
que lhe feu Capitão efcrevia, por o muito 

que 



712 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

que importava fabcr aquella nova para fe 
aperceber. Sóleimão como era fabedor , dif- 
íimulou a nova, e para fazer o que cfpcra- 
va , efpedio a Coge Sofar, e aquella noite 
fez grande marinada , dando a entender , 
que era para ao outro dia dar combate. E 
para fe Solcimao mais apreífar em fua par- 
tida , acertou de ouvir muitos tiros de bom- 
barda , que fe tiravam em Madrefabat , que 
eram de certas furtas que oVifo-Rey Dom 
Garcia mandara per António da Silva , pa- 
ra de longe com ellas favorecer noíía for- 
taleza , e crerem os Turcos , que trás ellas 
vinha a Armada do Vifo-Rcy. Com iílo 
ficou tão acreditada a carta de Coge Sofar, 
que pareceo a Soleimao que pela manhã fe- 
ria a Armada com elic. Polo que com gran- 
de preíTa recolheo aquella noite a mais ar- 
tilheria que pode , e a outra entregou a Co- 
ge Sofar, e juntamente as eftancias , em que 
lhe mandou que puzeííe lua gente , para que 
a fua ida fe não fentiííe , e os noífos lha 
não impediíTcm , como quem ignorava o 
que na fortaleza paliava , e as faltas que 
nella havia de tudo , de maneira , que já fe 
temiam os Turcos de os noílòs os commet- 
têrem. Tantas são as mudanças que ha nas 
coufas humanas. 

a Ao outro dia , que era dia da feita de 

to- 

« Lopo de Soufa Coutinho. 



Dec. IV. Liv\ X. Cap. XVII. 713 

todos os Santos , que os noffos efperavam 
fofle o derradeiro de fua vida , e em que 
com morte honroía dariam fim a feus tra- 
balJios , eftando com ás armas preíles para 
o que vicííe , lhes amanheceo huma bem 
aííombrada , e quieta manha , fem as coftu- 
madas alvoradas de tanta artilheria , de que 
perpetuamente eram perfeguidos , e fem ve- 
rem nenhuma da inimiga gente de que eC- 
tavam cercados , que parecia coufa de en- 
cantamento , e que os noíTos cuidavam que 
era ibnho em que eftavam. Os inimigos no 
meímo dia , eftando ao longo da praia meia 
légua da fortaleza , com outros féis dias fe- 
guintes que mais eftiveram , fizeram fua agua- 
da , e tomaram o neceífario para fua viagem , 
que os naturaes da terra , vendo-os deftroça- 
dos , ao coftume do Mundo , lhes impediam , 
inatando-fe alguns de huma parte, e outra. 
Neftes dias não fe defcuidava António 
da Silveira 5 nem dormia , antes como fe as 
mouras dos Turcos foíTem falfas , fazia offi- 
cio de Capitão vigilante , repairando os lu- 
gares rotos , e levantando mais a torre que 
detrás do baluarte fizera , e ajuntando mui- 
ta pedra para novos repairos , fe neceíFarios 
foííem. E no mefmo dia de todos os San- 
tos a tarde , em que claro fe vio a ida dos 
Turcos , e.como a gente de Cogc Sofar 
occupava o lugar que elles deixaram, man- 
dou 



714 ÁSIA de João dè Barros 

dou o Capitão dar alguns rebates , não tan- 
to por o damno que lhes podia fazer , co- 
mo porque os Mouros não conheceíTem nof- 
fa fraqueza , e quizeíTem profeguir o que 
pelos Turcos não pudera fer acabado , e 
para que lhes derribaíTem as trincheiras , que 
dentro em nofla cava tinham plantadas. Pa- 
ra o que mandou António da Veiga Feitor 
da fortaleza com vinte cinco homens , o 
qual dando nas eítancias , matando alguns , 
e afugentando muitos , derribou as mais vi- 
dinhas a nós. Em quanto iílo fe fez , hum 
dos foldados chegou a hum baítiao que achou 
defpejado, com huma bandeira ainda arvo- 
rada , que com a preífa os Mouros nelle dei- 
xaram , e huma grande peça de artiíheria 
de metal y e tomando a bandeira , tornou- 
fe para António da Veiga , a quem deo re- 
lação da bombarda que vira , e elle a deo 
a António da Silveira, e lhe pedio licença 
para a ir recolher , que com grande impor- 
tunação lha concedeo. Sahio António da 
Veiga da fortaleza mui galante de medalha , 
e plumas com alguns foldados , e chegado 
ao lugar onde eílava a bombarda , vio que 
era arrebentada , e querendo-a afli mandar 
levar , foi morto de hum pelouro de huma 
efpingarda que de mui longe hum Mouro 
tirou a montão áquella parte , e deo na ca- 
beça a António da Veiga , que eílava no 

meio 



Pec. IV. Liv. X. Cap. XVII. 71? 

meio de léus ibldados , e era o mais peque-» 
no de corpo de todos elles. Foi efte caio 
mui fentido do Capitão pola perda daquel- 
le homem, e por fucceder contra fua von- 
tade , forçado da importunação de António 
da Veiga : o que deve íer avifo para fe não 
haver nenhum lugar por feguro , pois eílá 
o perigo tão certo , onde fe eíle menos efpera. 
Os Turcos feita fua aguada , e deixan- 
do mortos tantos , e tão valentes homens , 
e gaitadas innumeraveis munições , e com mui- 
to menos velas das que trouxeram , que per 
diverfos cafos fe lhes perderam , e desbara- 
tados fe fizeram á vela aos cinco dias da- 
quelle mez de Novembro do anno de 1538. 
Ecomo ventaífe o Levante rijo, e feachaf- 
fem carregados com tanto número de feri- 
dos , tornaram a furgir no mefmo lugar , 
onde ao outro dia a tarde , que era o fexto 
dia do mez , defembarcáram dos feridos os 
inais perigofos , que nao podiam foffrer o 
trabalho de tao longa viagem , e fe torna- 
ram logo a fazer á vela. E como o vento 
abrandou mais , fahíram a huma ponta que/ 
eftá huma légua e meia da fortaleza contra 
aenfeada de Cambava, e alli furgíram , pa- 
ra como a maré da noite vafaífe , darem ás 
velas. Aquella mefma noite chegaram á for- 
taleza de Dio duas fuílas das fete da com- 
panhia de António da Silva de Menezes, 

que 



yi6 ÁSIA de João de Barros 

que (como diflemos) eftava em Madrefa- 
bat. Em huma delias vinha D. Luiz de Taí- 
de , em outra D. Martinho de Soufa , que 
traziam homens bem armados , e outras cou- 
fas neceíTarias. a Na niefma noite ás onze 
horas poz a gente de Coge Sofar fogo á 
Cidade per muitas partes , e queimada a def- 
amparáram , e fe foram. E ao mefmo tem- 
po as galés dos Turcos, e os mais navios 
léus deram ás velas , e feguíram o caminho 
do mar Roxo, e foram deixando pelas ter- 
ras onde aportavam mais de quatrocentos fe- 
ridos , a que não podiam acudir. 

Eíte foi o fim daquelle grande , e me- 
morável cerco de Dio , que foou per todo 
o Mundo , e perque de António da Silvei- 
ra , e dos que com elle foram , ficará fem- 
pre perpétua lembrança. 

CA- 

a Efcreve Diogo do Couto no cap. 4. do l/v. j. que 
na madtugada do dia -primeiro de Novembro chegara d 
fortaleza Francifco de Sequeira o Malavar com avifo da 
vinda de António da Silva , o qual cos 6. de Novembro 
fbre a tarde , havendo vijla da terra , e da Armada Tnr- 
quefea , fe fora detendo para de noite commetter a barra 
de Dio , o que não quiseram /ater D. Luiz de Taíde , e 
X>. Martinho de Soufa , que vinham na ftia companhia-, e 
que na manha fgunte , fendo partida daqueíla noite antes 
a Armada , entrara António da Silva com todas as fitas 
fujlas em Dio , onde no cães o efperou , e recebeo com 
grandes mo/Iras de alegria António da Silveira , e que 
íiquelle próprio dia escreveram ambos ao Viío-Rey tudo o 
que havia pafjado , despachando com as cartas o mejma 
FrancijCo de Sequeira. 



Década IV. Liv. X. 717 

CAPITULO XVIII. 

Do que acontcceo a Soleimao Baxid , como 
foi cm Confiant inópia 3 e do fim que houve. 

HAvendo recontado íbbre a vinda dos 
Rumes á índia as grandes cruelda- 
des , e tyrannias nunca viftas , que Soleimao 
Baxiá leu Capitão uíbu com os homens de 
íua meíma lei , e vaííallos de feu meímo Se- 
nhor , de quem não recebera aggravo , mas 
ferviços , e hofpitalidade , pareceo-nos que 
para exemplo dos que os feitos daqueíle ho- 
mem ouviram , fe devia também fazer men- 
ção do fim que houve , para que fe faiba que 
nunca a Divina juftiça fe efquece do caíligo 
que aos máos fe deve, ainda que por feus 
lecretos juizos dilate a execução delia. a Pro- 

fe- 

a Da -ponta de Jaquete atravejjcu Soleimao â cofia da 
Arábia , onde aos 27. de Novembro foi tomar Acer lugar 
d J ERey de Dofar , o qual mandou prefentar ao Baxiá 
quarenta Portugueses , que alli ejiavam fazendo fuás mer' 
çado> ias , que fe aferrolharam logo nas galés. 

Aos 16. de Dezembro furgio no porto de Adem , na 
qual deixou por Capitão Emir Moftafá com quinhentos 
Turcos , guamecejido a fortaleza de cem peças dfartilhe» 
ria, e provendo- a de muitas munições , e mantimentos ,. £ 
áe cinco fujlas para fervi ço da fortaleza. Nd praia de Ze- 
lit , {onde degollâram a ÊlRey Nacoda , ) mandou cortar 
as cabeças , narizes , e grelhas aos Portuguezes , que le* 
vava , entre os quaes foi Francifco Pacheco r e feus com- 
panheiros , o que tudo fez falgar , e enviou de prefente ao 
Grã Turco y para moftrar as grandes cruezas que deixa* 
va feitas nos Pcrtuguezes. Diogo do Couto cap. 4. liv* $• 



ji% ASLA de João de Barros 

feguindo pois Soleimão Baxiá fua viagem 
pelo mar Pvoxo , pelos mefmos caminhos 
que trouxe j tornou a Conftantinopla per 
grandes trabalhos do tempo que lev r ou , on- 
de na terra achou outros peiores. Porque 
como a mulher do Grão Turco lhe tinha 
ódio por a creação que fez em Muítafa fi- 
lho de Soleimão feu marido, que tinha per- 
filhado ; tanto que elle foi em Conílantino- 
pla , fez com Ucerá Baxiá , ( que eftivera 
no Cairo por Governador em aufencia de 
Soleimão Baxiá j ) que contra Soleimão mo- 
veífe alguma culpa das que commettêra no 
Cairo em tempo de feu governo , perque vief- 
fem a más razoes ; e havendo modo para iíTò , 
o matafle , que ella o livraria , e faria com 
feu marido lhe défle a elle o cargo do fêllo 
que elle tinha , e feu Jugar. AíTentado ifto , 
eílando elles , e outros Baxiás fallando , trou- 
xe Ucerá propofito para vir fallar em cou- 
íás do Cairo , e dizer a Soleimão , que de 
huns certos tributos , que elle levantara no 
Cairo , não houvera o Grão Senhor coufa 
alguma. Deita prática fe efcandalizou Solei- 
mão Baxiá tanto , por fua idade , e autho- 
ridade , e muita valia , que foltou muitas 
palavras mui feias, e injuriofas contra Uce- 
rá , e mui anojado fe foi para fua cafa. O 
Grão Turco fabendo o cafo , mandou cha- 
mar Ucerá, e lhe perguntou, que palavras 

.2 fo- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XVIII. 719 

foram as que diíTera a Soleimao , porque 
elle fe anojara. Ucerá lhas contou , e para 
o indignar contra Soleimao, lhe deleubrio 
outras culpas. O Turco em alguma manei- 
ra defeulpou a Soleimao , dizendo , que tu- 
do o que elle adquiria era para Muílafá feu 
filho , que tinha feito feu herdeiro. Mas ain- 
da que não culpou muito a Soleimao , to- 
davia fe indignou contra elle , por fe ir pa- 
ra cafa fem primeiro lhe fazer queixume de 
Ucerá. Com efte impeto lhe mandou pedir 
o fêllo per hum feu porteiro de camera , 
com algumas palavras , de que Soleimao fi- 
cou delcontente. E mandando-lhe o fêllò ? 
fe foi para huma fua quinta , onde o Tur- 
co o mandou chamar , o qual crendo que 
efte chamado era para o matarem , por não 
dar efle godo ao Turco, fe matou elle com 
peçonha , e o Turco mandou recolher fua 
fazenda , e ao Ucerá deo feu fêllo , e lugar • 
de maneira , que aquelle , que tantos rou- 
bos fez a outros , fazendo- fe Senhor de fuás 
fazendas , lhe foram conflfcadas fuás gran- 
des riquezas ; e o que a outros tirou os Ei- 
rados , e os officios , e a honra , em huma 
hora fe vio privado da honra , e da gran- 
deza de feu officio ; e o que foi matador 
de tantos homens fem culpas , foi elle o ma-' 
tador, e algoz de íl meímo por a fuás. 

CA- 



*r2o ÁSIA de JoÃo de Barros 

C A P. I T U L O XIX. 

Como D. Garcia de Noronha chegou d Ju- 
dia , e foi entregue do governo delia , e 
da Armada que ajuntou para ir 
foccorrer Dio. 

POr não interromper o proceflb , que con- 
távamos do cerco , em que os Turcos , 
eGuzarates tinham á fortaleza de Dio, que 
começara em tempo de Nuno da Cunha , 
e que com a ordem que a elle dera fe aca- 
bou , não falíamos até agora na vinda, e en- 
trega do governo do Vifo-Rey D. Garcia 
de Noronha , que ainda não era chegado á 
índia. Porque começando o cerco dos Tur- 
cos a 4. dias de Setembro de 1^38 ? e o de 
Aluchan , e Coge Sofar muitos dias antes , 
D. Garcia de Noronha chegou a 14. do 
mefmó mez de Setembro , e a 26. fe foube 
em Dio a nova da fua chegada. Tornando 
pois a elle , e á fua Armada , fendo EIRey 
D.João certificado dediverfas partes da Ar- 
mada dos Turcos , que eftava em Suez pa- 
ra ir a índia, determinou de mandar a cila 
na Primavera daquelle anno por Vifo-Rey 
D. Garcia de Noronha , affi polas partes , e 
qualidades de ília peífoa , como per fua pru- 
dência , e esforço , moftrado em todas as 
occafioes > em que fe na índia achou em com- 

pa- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XIX. 721 

panhia do grande ArFonfo d'Alboquerque 
leu tio. Partio D. Garcia de Noronha defte 
Reyno no anno de 1538. com huma Arma- 
da de doze náos com três mil homens der- 
mas , em que entravam muitos Fidalgos , e 
moradores da caia d'ElRey , e outra gente 
limpa , e honrada. 

Os Capitães eram eftes , D.João deCaf- 
tro cunhado do meímo Vifo-Rey , filho de 
D. Álvaro de Caítro Governador da cala do 
Civel , que depois foi por Governador á ín- 
dia , e lá foi feito Vifo-Rey delia. u Dom 
Garcia de Caítro filho de D. Francifco de 
Caítro , que hia para Capitão de Goa , Dom 
Ch riflo vão da Gama filho do Conde Almi- 
rante D. Vafco da Gama , provido da for- 
taleza de Malaca. Ruy Lourenço de Távo- 
ra filho de Álvaro Pires de Távora Senhor 
do Mogadouro, que levava a Capitania de 
Baçaim , D. João Deça filho de D. Pedro 
Deça Alcaide mor de Moura , defpachado 
com Goa , D. Francifco de Menezes filho 
de D. Henrique de Noronha , irmão do Mar- 
quez de Villa-Real , que hia para Capitão 
Tom. IV. P. iL Zz de 

a Frota da índia do anno de 1538. Defpachou E/Rey 
a D João de Ca/iro para ir á Índia com a fortaleza de 
Ormuz 1 que elle não acceitoa , dizendo , que a não tinha 
merecido , que como a merecefje , lhe faria S A. mercê 
delia , o que ElRey ejlimou muito , e lhe fez mercê de 
quatrocentos mil reass de tença , em quanto andajje na 
índia. 



722 ÁSIA de João de Barros 

de Baçaim , Luiz Falcão filho de João Faf- 
cão , provido da mefma fortaleza , João de 
Sepúlveda filho de Diogo de Sepúlveda > 
Francifco Pereira de Bcrredo , e Bernardim 
da Silveira filho de Francifco da Silveira 
Coudel mor , que fe perdeo fem faber on- 
de , nem como , * indo todos os outros a 
falva mento. c D. Garcia chegou com as on- 
ze náos a Moçambique , donde defpedio pa- 
ra 

b Nejla não de Bernardim da Silveira embarcaram 
iodos os homiziados , degredados , e condemnndos á mor- 
te , que fe tiraram das cadeias do Reino ; parece que qu/'x 
Deos fazer jujliqa ãelles , já que em Portugal fe não fi- 
zera. 

c Os Fidalgos aventureiros , que fe embarcaram nejla 
Armada , foram D. Álvaro , e D. Bernardo filhos do Vi" 

fo-Rey D. Garcia , D. Martinho de Sottfa filho de Dom 
Jorge , D. João Manoel o Alabafiro filho de D. Nuno t 
X>. Luiz de Taíde , que depois foi Conde de Atouguia , a 
Vi fo-Rey da Índia duas vexes , filho de D. Affonfo de 
Taíde , D. António de Noronha Ca t arras , Fernão da Sil- 
va Commendador , e Alcaide mor de Alpallui , D. Diogo 
de Almeida o Alfenim , D. João Mafcarenhas , Francifco 
Lopes de Soufa , e Pêro Lopes de Soufa feu irmão , Dom 

João Henriques , D. Duarte Deqa , Manoel de Mendoqa t 
João de Mendoqa , e Diogo de Mendoqa irmãos , filhos 
de António Furtado de Mendoqa, dos quaes João de Men- 
doqa governou a índia , D. Jorge de Menex.es , que de- 
pois fe chamou Baroché , e outros muitos Fidalgos , e ca- 
va He ir os. 

Foi também nejla Armada Dom Frei João de Alho* 

■ píer que , fegunáo Bifpo de Goa , Frade da Ordem de Sa§ 
Francifco da Provinda da Piedade de Portugal , varão 

:de grande virtude , e religião, que fuecedeo a D. Fran- 

• cifeo de Mello primeiro Bifpo daquella Cidade , ( que hoje 
he Metropolitana ,) o qual morre o antes de pafjar á índia» 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XIX. 723 

ra o Reyno com as novas da fua boa via- 
gem Henrique de Souía Chichorro na náo 
.em que alji viera com íeu irmão Aleixo de 
Soula ; e partido de Moçambique , chegou 
a Goa , como diflemos , a 14. de Setembro 
de 15-38. onde Nuno da Cunha eftava , que 
■lhe Jogo entregou a governança com as io- 
lemnidades coílumadas. E como as caufas , 
por que EIRey D. João mandou á índia 
D. Garcia de Noronha por Vifo-Rey com 
rantas náos , e tanta gente nobre , e efcolhi- 
da , era o receio que tinha de ir de Suez 
huma grande Armada de Turcos, a fim de 
lançarem os Portuguezes da índia : tanto que 
D. Garcia chegou a Goa , fe começou a fa- 
zer preftes , e com mais diligencia , por os 
Turcos eftarem já fobre Dio , e terem em 
.cerco a fortaleza. E poílo que tratarmos da 
Armada , que ajuntou para a ir íbccorrer , 
.pode parecer a alguns que he tirar a maté- 
ria aos que hão de continuar efta hiftoria da 
índia , e efcrever as coufas do meíino Dom 
•Garcia ; coníiderado bem , não he affi. Por- 
que como aquella Armada fe apercebeo pa- 
ra foccorro daquelle cerco , que nos propu- 
semos contar até o fim , e o cerco fe come- 
çou em tempo do Governador Nuno da Cu- 
nha , e per fua ordem , íem D. Garcia niífo 
poder intervir , por elle chegar do Reyno , 
-quando os noífos eílavam já cercados , c com 
Zz ii a§ 



724 ÁSIA de JoÁo de Barros 

as armas nas mãos; e porque fobre a dita 
Armada , e partida delia deo Nuno da Cu- 
nha feu parecer per cartas que aqui referi- 
remos j não he defraudar o que fe ao dian- 
te per outros efe rever , pois deita Armada 
não refultou effeito algum , por primeiro fe 
acabar o cerco, que D. Garcia fe acabaíTe 
de determinar. 

Vindo pois a Armada 5 como D. Garcia 
foi mandado por Vifo-Rey principalmente 
para reíiftir aos Turcos , e em Portugal , e 
outras partes engrandeciam mais a potencia 
da Armada do que na verdade era , deter- 
minou D. Garcia de fazer outra tão grande , 
com que fe defendeíTe Dio , e aífeguraíTe o 
Eftado da índia , em que o Turco tanto de- 
fejava metter o pé. Polo que elle ajuntou 
cento e fetenta velas , em que havia dezefe- 
te galeões , de que eram eleitos Capitães Dom 
Bernardo de Noronha feu filho , em que ha- 
via de ir o Vifo-Rey leu pai , António de 
Lemos , D. Paio de Noronha , D. Jorge Tel- 
3o , D. João Lobo , Luiz Xira , D. Garcia 
de Caftro , Henrique de Soufa, Balthazar 
da Silva , Vafco da Cunha , D. Francifco 
de Lima , Fernão de Moraes , Bernabé Dra- 
go , Fernão de Caftro , Pedralvares de Mef- 
quita , D. Jorge de Caftro , e Francifco Pe- 
reira o moço. 

Quinze náos , de que os Capitães eram 

ef- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XIX. 72? 

eftes, D. João Dcça , Pêro de Faria, Fran- 
cifco Pereira de Berredo , Gonçalo Pereira , 
Ruy Lourenço de Távora , Chriftovao da 
Gama , Luiz Falcão, D. Manoel de Me- 
nezes , Trilião Fogaça , Fernão Rodrigues 
de Caftello-branco Veedor da Fazenda , Mi- 
guel Froes , João Jufarte , Garcia de Sá , 
Luiz Coutinho , e Francifco Freire. 

Sete caravelas , de que eram Capitães 
António Corrêa , Manoel de Mello , Dio- 
go de Soufa , Chriftovao de Mello , Fran- 
cifco de Barros de Paiva, Francifco da Cu- 
nha , e Baftião de Soufa. 

Oito galés , de que hiam por Capitães 
Martim Áffbnfo de Soufa , D. Pedro de Ca£ 
tello-branco , D. João de Caftro , D. Álva- 
ro de Noronha, João deMendoça, Fernão 
de Lima , Diogo Lopes de Soufa , e João 
de Soufa. 

Dezoito galeotas , Capitães delias , Dom 
Diogo de Almeida , Martim Affonfo de Mel- 
lo , Martim Corrêa , António da Silva , Ma- 
noel de Soufa , Francifco de Sá , Fernão de 
Soufa , Jorge de Lima , António Mendes 
de Vafconcellos , D. João de Menezes , Ber- 
nardim de Soufa , Vicente Pegado , Dom 
Triftao de Monroi , Francifco de Menezes , 
Jorge de Mello de Soufa , D. Manoel de 
Lima , e Pêro Vaz Guedes. 

Nove bargantijs , de que eram Capitães 

An- 



726 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

António de Sá , Álvaro de Mendoça , Va- 
Iençuela , D. Diogo de Almeida , Diogo de 
Meí quita , Gafpar Rodrigues , Lopo de Sou- 
fa , Braz Fernandes , e hum Tanador mór. 

Trinta e três fuftas , Capitães delias Dom 
Chriftovão da Gama , Affonfo Bernardes , 
António Pereira , D. Manoel de Lima , Dio- 
go Fernandes , Monis Sardinha , o Patrão 
mór , Gafpar de Soufa Freire , D. Francif- 
co de Noronha, Francifco Mendes de VaC- 
Concellos , D.Luiz deTaíde, D. Martinho 
de Soufa , Francifco de Ilhes , Mattheus Pe- 
reira , Gafpar Mendes , Pêro Barriga , Tho- 
mé Vellofo , Francifco Mendes , Fernão de 
Lemos , Álvaro de Sequeira , Francifco Ve- 
lho , Jeronyrno de Figueiredo , Balthazar 
Pimentel , Gonçalo Alvares , Jacome Trií- 
tao , Thomé Gomes , António Fernandes 
Malavar , António Jorge , e outros quatro, 
que vieram de Cananor em companhia de 
Manoel Sodré. 

Treze catúres , Capitães Lourenço Bote- 
lho , Francifco Martins , Manoel AfFonfo , 
Filippe Rodrigues , Thomé Nunes , Jorge 
Fernandes , Duarte Pereira , Francifco Dias , 
António Boto , António Fernandes , Fran- 
cifco de Sequeira , João de Córdova , e Af- 
fonfo Luiz. 

Havia mais vinte catures, e fuftas d'ElRey, 
e de partes j que andavam no caminho de Goa 



Dec.IV. Liv.X. Cap.XIX. e XX. 727 

para Dio com recados , e a fora cilas velas 
havia outras de mantimentos , e munições , 
que per todas faziam dita ibmma de cento 
e íetenta , nas quaes eftavam para embarcar 
quatro mil e quinhentos homens d'armas, 
a fora a gente do mar 5 e remeiros da terra. 

CAPITULO XX. 

Conto o Vifo-Rey D. Garcia eftava indeter- 
minado fobre a maneira per que accom- 
met teria os Rumes : e do confelho que 
nijjb lhe deo Nuno da Cunha, 

TEndo já o Vifo-Rey D. Garcia p refles 
de tudo a Armada , e a gente , que nel- 
la fe havia de embarcar em ordem , não fe 
acabava de determinar fobre o modo perque 
havia de accommetter os Turcos, e com o 
as náos , e navios haviam de pelejar , polo 
que fe hia perdendo a occaíiao de acudir a 
tempo aos cercados de tantos inimigos. E 
tendo fobre iíTo muitos confelhos , quiz fa- 
ber o parecer de Nuno da Cunha , por lho 
EIRey mandar aíTi quando do Reyno par- 
do , por a muita experiência que tinha da 
guerra daquellas partes , e do governo del- 
ias. E além de D. Garcia ter muitas vezes 
praticado com Nuno da Cunha fobre "iflb, 
citando elle ainda em Goa , aos i£. dias de 
Outubro lhe mandou o Vifo-Rey pedir feu 

pa- 



728 ÁSIA de João de Barros 

parecer per efcrito , moítrando-lhe huma car- 
ta , que António da Silveira lhe efcreveo de 
Dio , dando-Ihe conta do eftado em que ef- 
tava ; e o voto de Nuno da Cunha , fem ac- 
creícentar , nem diminuir coufa alguma , re- 
feriremos aqui , por fer de homem tão infi- 
gne , e tão prudente. 

Senhor , eu vi a carta , que me V. S. 
mandou moftrar de António da Silveira , 
que agora D. Duarte trouxe de Dio. E na 
-primeira parte delia Je agafta muito da ba- 
teria que lhe dam 5 e de como o apertam , 
e que lhe fizeram cerrar as ameas do ba- 
luarte de Garcia de Sá , e ajji que lhe ti- 
nham derribado huma ame a nelle , e outra 
fobre a porta , e que Dio he mui fraco. E 
torna logo abaixo a dizer , que ha féis dias 
que batem nelle , principalmente no baluar- 
te de Garcia de Sâ , e que lhe tem feito pou- 
co nojo \ e que a artilheria com que diz que 
lhe tiram , são três bafilifcos , e três efpa- 
Ihafatos , e muitas efperas , e meias efpe- 
ras , e falcões , e berços , e que iflo lhe ti- 
ram todolos dias manha , e tarde continua- 
damente. E não aponta que lhe tenham mor- 
to , nem ferido homem , donde parece que 
vão he Dio tão fraco , como elle o faz na 
primeira parte da fua carta. E ajji vi o 
que efcreveo a V. S. per Sequeira , e te- 
nho eu efperança que os quatro c atures , 

que 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XX. 729 

que V. S. tem mandado com huns homens 
Fidalgos , fe entrarem em Bio , que não fo- 
mente esforçarão os que lá ora eftam fra- 
cos , e canfados , mas figurarão a fortale- 
za j que não haja medo dos Rumes. E quan- 
to ao que diz do baluarte do mar , também 
ei que lhe he feito muito pouco nojo ; porque 
fe V. S. foubejfe quão pequena coufa he , e 
quão fraca , efpantar-fe-hia como podem neU 
le ejlar quarenta homens , que António da 
Silveira diz que tem , fem os matarem to- 
dos , com mui pouco nojo que lhe fizefiem. 
Ajfi , Senhor ? que a fortaleza não me pa- 
rece que eftá tão fraca como dizem, , emais 
eftá nella António da Silveira , que he tão 
efpecial cavalleiro , e outros Fidalgos , a 
que V. S. fabe o nome , que todos fobre ella 
hão de morrer. Quanto d mingua da pól- 
vora que diz que tem , e da que poderão 
ter , e também de mantimentos , não indo 
V. S. tão prejles , a ifto não pojfo eu mais 
dizer do que fimpre diffe : Quanto compre 
vojfa ida daqui Jer mui cedo. E ainda que 
fefaça prejles com tanta prejfa quanta pô- 
de , vejo eu lançar mão de tantos navios , 
queferão caufa de tardardes muito , e tam- 
bém de efpalhardes a gente , artilheria , e 
munições , donde ficareis mais fraco. Epa- 
rece-me a mi , que fe poderão ef colher en- 
tre todas efias velas oitenta mui boas , e 

pa- 



V 



730 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

para em qualquer parte da Chrifandade 
ferem de receber , e para as temer , e re- 
cear , que para cinco mil homens , que V. 
S. poderá levar , efta Armada b afiava , por- 
que iria ella mui cheia de gente , e mui bem 
ãpparelhada para tudo o que cumpriffe. E 
eu cada vez que fiz fundamento de pelejar 
com os Rumes , nunca puz ponto em mais 
que fe tenta , ou oitenta velas , e affi fe 
achará per minhas cartas , que a ÊlRey 
Noffò Senhor tenho efcrito , e ejla me pa- 
recia que era a força da índia , porque a 
mais havia eu por fraqueza, Ejla Armada 
fe poderá apparelhar mui prejles , e as mais 
mos , e navios de Chatijs , e todalas ou- 
tras feram necejfarias para vos levarem 
mantimentos , pólvora , e outras coufas , de 
que tereis nccejfidade : e he bem que cada 
dia vos vá foc corro do que cumprir , ajji 
para vojfa Armada , como para baftecerdes 
a fortaleza cada vez que quizerdes. E eu 
ei fegundo as novas dos que vem a Arma- 
da , de quão mal ãpparelhada ella eflá ; e 
também António da Silveira efcreve , que a 
maior parte da vitoria eflá na prefteza da 
ida de V. S. E também valerá muito fua 
ida para esforçar os Guzarates , que não 
façam partido com os Rumes para os reco- 
lherem na terra , e fallo-hão com V. S. pa- 
ra os dejlruir. Se V* S. tão cedo não pode 

ir 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XX. 73 r 

tr por alguns negocias , ou impedimentos que 
terá , pôde fazer hum feito mui honrado 
nelles , e com muita fegurança , que he to- 
mar quinze , ou vinte fuftas , e catares , os 
mais leves , e melhores que para iffo fe acha- 
rem y com hum homem principal , que vd nel- 
les por Capitão , a que dará a mais honra 
que pode dar a nenhuma pejfoa , e efcolhei- 
tos também Capitães para os outros navios , 
homens que faibam a guerra , e valentes 
cavalleiros que aqui ha , e com muitas pa- 
nellas de pólvora , e efpingardas , não duvi- 
do eu que indo eftes navios , que podem le- 
var trezentos , ou quatrocentos homens , que 
dando nas galés de noite , ou antemanhã , 
que lhe não fiquem meia dúzia nas mãos 
tomadas , ou queimadas. E ifto tudo, Se- 
nhor , são pajfos feguros , porque elles não 
tem navios , que fe remem para lhe fazer 
nojo ? fe fe delles quizerem fahir , nem po- 
dem eftar apercebidos para faberem parte 
da Armada que vai , nem o que vai fazer. 
E pollos-hão em tanta confusão , pela efpe- 
rança que tem que ha de ir V.S. cada ho^ 
ra , que ficarão meios desbaratados. E po- 
deis , Senhor , ifto julgar polo alvoroço em 
que vos poriam , fe deffem na voffa Arma- 
da de noite outros tantos navios ; e quiçd 
que alargarão Dio defta maneira , ou ofoc- 
correreis , com que não haja medo a todo 

Mun- 



732 ÁSIA de João de Barros 

Mundo. E affi podem ir em companhia dcf 
tes , três , ou quatrofufias grandes de Cba- 
tijs , que aqui ha muitas boas , carregadas 
de bif couto , e pólvora , para que em eftes 
dando , na volta pojjam ellas paffar , e en- 
trar em Dio , e dar-lhe o que levarem. Ef- 
ta gente , e Armada que V. S. manda , não 
desfaz na voffa , porque lá a tem diante , 
e eflam prefies , e fe ejld mal efquipada f 
ir-fe-ha efquipando pelos rios. Eu lhe digo 
ijlo como feu fervidor , e com aquellas fàl- 
vas com que lhe jd dijfe outras coufas , e 
também por me parecer fervi ç o d^ElRcy 
Nqffb Senhor. E peço-lhe por mercê , que 
não queira que nifto lhe ponham muitos in- 
convenientes diante , porque as coufas da 
guerra não fe perdem fenão per inconvenien- 
tes ; e em coufa que tanto importa , como 
he tomar Dio , ou f alvar Dio , muito mais 
fe deve aventurar , quanto mais que ifto que 
eu digo são paffos mui feguros , indo nijfo 
homem , que o faiba mui bem fazer , e ef 
colhendo bons homens. Efle , Senhor , he o 
meu parecer , que V. S. quiz que lhe déffe 
per eferito. 

A efte parecer refpondeo o Viíb-Rey 
D. Garcia a Nuno da Cunha com eíta carta : 

Senhor 5 vi efte parecer de V. S. e por 
minha falva cão , e affi me Deos valha , que 
fico tão contente deíle , como fiquei de mi de 

acer- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XX. 733 

acertar de ir per eftes pajfos cà no parecer 
que tomei com eftes Senhores. Epara faber 
que todos fomos defta volta , ordenamos de 
mandar féis fuftas as melhores , e mais re- 
me ir as , e quatro cat tires com ellas , e An- 
tónio da Silva Capitão mor , e vam dar re- 
bate de noite , ou de dia , como melhor pu- 
derem nas galés. E porque os quatro cata- 
res , que são diante ? os hão de ynet.ter em 
muita confusão , e vendo agora outra volta 
de fuftas fobre fi , ha-lhes de parecer que 
eu devo eftar perto. Afft , Senhor , que fe- 
guimos o parecer deV. S. que me a mi pa- 
rece mui bem , e temos nos bem acertado y 
em ter mandado taes cavalleiros naquelles 
catúres , que certo hão de entrar dentro y 
€ eu dou hoje efte dia os Rumes por venci- 
dos , tanto que nos elles virem , que aquel- 
le apreffar-fe a combater a fortaleza per 
muitas partes , não hefenão faber que fua 
falvação eftd em tomar a fortaleza. Quan- 
to d minha ida daqui , efte foi fempre meu 
propofito , pôr-me no mar com efta Armada 
que aqui tenho , e ihe beijo as mãos por ef- 
fa lembrança que me faz , e ajfi o farei. 
E o que he feito até agora , parece obra de 
S. Frei Gil , nem fe faz mais na calçada 
dos galhardos , pois até hoje , que são de- 
zoito de Outubro , não temos mais que dous 
mil fardos de arroz } que hontem chegaram , 

tra* 



734 ÁSIA de JoÂo de Barros 

trabalhando tanto por haver mantimentos , 
que ijio he o que nos aqui eflorvou , com 
acharmos efta Armada de todo defapercehi- 
da , que a pouca ef per anca que V. S\ tinha 
de virem ejies homens a efta terra , e que 
em Portugal ajfi também fe cuidava , efte 
foi o engano que NoJJb Senhor permittio que 
tivejjemos ; mas ha no-lo de pagar na hon- 
ra que, havemos de levar em os desbaratar. 
Beijo as mãos de V. S. hoje 18. de Outu- 
bro de 1538. 

CAPITULO XXI. 

Do aggravo que o Vifo-Rey D. Garcia fez 
a Nuno da Cunha fobre fua embarca- 
ção., e como apercebendo-fe em Cochij 
para fe vir para o Reyno , efcreveo 
huma carta ao Vifo-Rey em re- 
fpofta de algumas fuás. 

EStas coufas , e outras defta qualidade , 
paíTáram entre o Vifo-Rey , e Nuno da 
Cunha , em que ambos eílavam conformes. 
Mas como he coítume do Mundo, mormen- 
te de Portuguezes , que não são huns ami- 
gos das honras dos outros , e muito mais 
dos que andam na índia , que aos Governa- 
dores que acabam tratam mal , e com in* 
gratidão, ainda aos que o melhor fazem ^ 
por grangearem aos* que vem ? não faltáranj 

Ho- 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XXL 735' 

homens que ante D. Garcia calumniáram a 
Nuno da Cunha de deicuidado , de nao ter 
feito maiores apercebimentos a para tama- 
nha Armada , como era a que efperava dos 
Turcos , e outras coufas , e mexericos , que 
pudeííem dam na r a vontade a D. Garcia. 
Mas Nuno da Cunha por furtar o corpo 
áquellas calumnias , fendo o tempo em que 
D. Garcia tinha mais neceíTidade de feu con- 
felho 5 por fua muita prudência ? e experiên- 
cia fe foi a Cochij a fe fazer preíles para 
vir a Portugal. E tendo elle Provisão d'El- 
Rey para em quanto eftiveíTe em Cochij , 
depois de alargar a governança , ufar dos 
poderes de Governador ? que antes tinha , e 
•fazer a carga da pimenta , e tomar para íua 
peíToa qualquer náo que quizeffe , D. Gar- 
cia lha não guardou , nem lhe quiz dar al- 
guma náo das d'EiRey 5 e chegou a haver 
cartas , e requerimentos de parte a parte , 
até Nuno da Cunha pedir a D. Garcia , que 
pois lhe nao queria dar náo d'E!Rey das 
que de cá do Reyno hiam para trazer pi- 
menta , lhe déíTe a náo de hum Armador 

pa- 

et Efcreve Diogo do Couto no cap. 9. do 5. Viv. que 
o Governador fcuno da Cunha entregou ao Vifo-Rey Dom 
Garcia huma Armada , que ejiava já de verga de alto t 
de oitenta vilas , das quaes as quarenta eram p-aleÕes f 
náos , e caravelas , e as demais galés , e fufias , e os 
armazéns cheios de muita artilheria , muitas munições , e 
mantimentos , como quem tinha tudo apercebido para ir 
h*[car os Rumes, e pelejar com elles. 



736 ÁSIA de João de Barros 

para vir nclla. Ao que D. Garcia dco por 
reípofta , que elle lha não podia dar por fer 
de Armador , a que por razão de feu con- 
trato lhe não podia tomar a Capitania. E 
que além diíío , que elle Nuno da Cunha ha- 
via de oceupar tanta parte da náo com fua 
peííba , e familia , que viria mal carregada : 
que íc elle quizefle obrigar-fe a pagar todas 
as perdas, e damnos que o Armador pedif- 
fe contra a fazenda d'ElRey , por elle vir 
naquella náo , o podia fazer , mas que elle 
lha não podia dar. Finalmente o Feitor do 
Armador requereo a Nuno da Cunha , que 
não vieíTe naquella náo fem fe obrigar ás 
perdas , e damnos , que por iíTo o Armador 
contra elle pediífe. Com eftas obrigações hou- 
ve Nuno da Cunha embarcação ao cabo de 
dez annos que governou a índia , onde além 
de muitos, e grandes ferviços perque mere- 
cia mui grande remuneração , fez as forta- 
lezas de Challe , Baçaim , e Dio , que foram 
de tanta importância ao Eftado da índia , e 
do Reyno , quanto são Ormuz , Goa , e 
Malaca , que deixou feitas Affonfo d'Albo- 
querque , a quem também no fim de feu go- 
verno mais o enterraram ingratidões , que 
trabalhos , e idade. Efte pouco refpeito que 
á peíToa de Nuno da Cunha fe teve na ter- 
ra , que elle governara tanto tempo , pedin- 
do embarcação para o Reyno , que a ne- 
nhum 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XXI. 737 

nlium homem de grande , ou pequeno eílado 
fe negou , íentio elle tanto , que fe crê que 
junto irto a fuás indifpofiçocs , Jhe cauíòu 
a morte ; porque lhe lembrava também que 
em Portugal , para onde elle hia , tinha tantos 
émulos , e tão poderoiòs , que fariam que fe 
não eítranhaffem aggravos , que na índia fe 
lhe fizeram , mas os teriam por gloria. E por- 
que pertenee á hiíloria de Nuno da Cunha 
huma carta fua , que foi a derradeira -que el- 
le efcreveo de Cochij ao Vifo-Rey, quere- 
mos pôr aqui a cópia delia. 

Senhor , em Goa mandei a V. S. huma 
lembrança , por me parecer que devia eu 
ifto ao fervi ço d'ElRey NoJJò Senhor , por 
S. A. ajfí mo mandar per huma fua carta , 
que em todalas coufas vos déjje meu pare- 
cer : eKS. me dijje também , que ijjb mefi 
mo vos mandava S. A. e hum pouco tam* 
hem o fazia pola amizade do Taco , e pou- 
fada que tivemos. E verdadeiramente efia 
me obrigou a fallar-vos verdade , como me 
obrigara a tomar as armas por vós quan- 
do cumprira , contra a pejfoa a que eu não 
tivera maiores obrigações. Também diffo 
vos fiz , Senhor , outro efcrito de mi a vós , 
erefpondeftes a elle mais afpero do que me 
parecia que convinha , a quem vos também 
aconfelhava ; epela refpofia que me mandafi 
tes , vi eu que e fiáveis com tantos receios , 
Tom.IF.P.iL Aaa et*. 



j^ ÁSIA de João de Barros 

€ temores , que era efcufado refponder-vo? 
naquelle tempo , nem também me parecia 
fervi ço d"ElRey Nojfo Senhor , e por tanta 
me calei. Nem agora menos o fizera de Co- 
chij , fenao vira outra refpqfta , e lembran- 
ça que fiz áV.S. quando me parti de Goa. 
Bem vos deve , Senhor , lembrar , que fem- 
pre vos d ijje quão fracos os Rumes vinham y 
e quantas razoes para ijjb vos dei \ e que 
fe vós quizerets fazer Armada preftes , que 
b afiara pelejar com efies homens , e em que 
toda a gente que na índia tinheis coubera 
muito bem , vós podereis fazer duas coufas 
mui grandes , ganhar a mais honra que nun- 
ca homem ganhou , e fazer o maior fervi- 
ço a EIRey Nojfo Senhor , do que nunca ho~> 
memfez. Mas parece-me que folgáveis mais 
de tomar o confelho d? outros homens que o 
meu , que certo não entendiam o negocio tão 
bem como eu entendia. Devêra-me V. S. a 
mi de crer > por haver dez annos que efia. 
terra governava , e conhecia a gente delia , 
e as coufas como fe haviam de ordenar , e 
fazer : e fe vos nijfo f aliava verdade , ou 
não, afahida do negocio omofirou. Eu fem- 
pre , Senhor , vos dijfe , e a todos os homens 
com que f aliei , que pois fe os Rumes pu- 
nham a combater Dio , que não haviam de 
pelejar com voffa Armada \ pois fe defeja- 
veis de pelejar com elles > dever a-lhe a V* 

S* 






Dec. IV. Liv. X. Cap. XXI. 739 

í 7 . lembrar , que tinham elles fejfenta e três 
velas , nas quaes traziam féis , oufete mil 
homens de peleja , e vós fizefies cento e fc- 
tenta para levardes quatro mil e quinhen- 
tos até cinco mil. E pois tendo tantas vê- 
las , e tão grandes , peço- vos por mercê , 
que me digais como havíeis de repartir vof- 
fa gente , e artilheria , tendo difto mui pou- 
co \ e mais que tão grande Armada , e defi- 
ne cejf ar ia vos gaftava o tempo , e o dinhei- 
ro. AJJi que eu a ejlas confias lhe não fei 
pôr o nome; e porque eu via ifto tudo, lém* 
brava a V. S. que mandajjè duas nãos a 
S. A. que desfaziam mui pouco em vojfa 
Armada , e accrefcentaveis muito no credi- 
to , a ff? do Reyno , como defie Malavar , 
que quafi eflava levantado por ijjò. E quem 
com os Rumes quizer pelejar , não havia 
de fer com muitas velas , e fem gente , fie- 
não com navios efe olh idos 5 e cheios de gen- 
te que lhe baftajfe. E quanto ao que , Se- 
7ihor , dizeis , que tínheis a efpada dos Ru- 
mes f obre voffio pefeoco , antes que V. S. 
chegajfe , já eu fiabia que eram vindos , è 
não havia que me tinham elles tanto a ef- 
pada fobre o pefcoço ; antes me parecia , 
que ficando eu nefta terra , e vindo-me a 
gente que comvofco veio , que era huma das 
maiores mercês que me Deos nejie Mundo 
podia fazer ; pelejar eu com elles , porque 
Aaa ii efi 



74o ÁSIA de JoÃo de Barros 

efperava eu nelle que me déffe vitoria. K 
quando dijfo 7iao fora fervido , não fei eu? 
jornada em que melhor pudera acabar , nem 
mais honradamente que nefta. Porque ajji 
como vos , Senhor , diziam , que eram tan- 
tas as galés de Turcos , e tantos medos , 
com iffò mettiam também dizerem-lhe todos 
os que os viram , e os que efereviam de 
Dio , quão defefquipadas eram , e como fe 
Tião podiam bolir ; e os homens que de lâ 
vieram fugidos , confejfavam , que efcajfa* 
mente podiam virar a poppa com o remo. 
Pois a efes fe devera dar credito , porque 
o medo faz parecer que os inimigos trazem 
azas para voar , epois lhas elles não acha* 
vam 3 ainda o mal não era muito. AJfi , Se- 
nhor , que por eftas razoes vós podereis ter 
Armada mui grande , e mais mandar parai 
o Reyno carga y que b afiara para S. A. Juf- 
ter os gajlos , e o credito que ha mejier que 
tenha. E quanto ao ojferecimento que lhe 
eu agora fiz do dinheiro , e cravo , não era 
de nenhum hoynem deffes , que queriam ir 
ao Reyno , nem vos requeria que mandaf" 
féis peffoa nenhuma \ epois vós acháveis of- 
ferecimento diffo per outras peffoas , fereis 
vós muito de culpar em o não acceitardes 
para foccorrer a S. A. com carga de três 
nãos \ fendo coufa > que quando me elle mais 
lembrança fazia dos Rumes 2 me mandava % 

que 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XXL 741 

que não perdei]} o cuidado da carga , que 
havia de ir para o Reyno. Mas tornando 
a f aliar no dinheiro que eu dava , eu vos 
juro por vida de meu pai , que nenhuma pef- 
Joa aqui mettia dinheiro , fenão eu , que o 
queria emprejlar , e meus criados , ajji al- 
guns que na índia ficavam , como os que 
comigo levo. E quaiito ao que V. S. diz y 
que algumas pejfoas lhe aconfelhavam que 
mefizeffe requerimentos , para que euficaf- 
fe na índia , per ventura o não fariam ef- 
Jes homens , fendo per lhes parecer que era 
para huma coufa de tamanho pezo , como 
efta era , e teria eu muitas qualidades pa- 
ra terem de mi necejfidade. E quando me 
'vós , Senhor , requerereis , ou elles , não 
houvera defer para ficar per homem alar- 
mas , que não me pario minha mãi fenão 
para Capitão , e não voffo lafearim ; fenão 
fe fora para tomar parte do trabalho , de 
viandar , e pelejar , e me fer dado muito 
credito para aconfelhar. Ora vós , Senhor , 
para efia primeira não me défies diffo ne- 
nhuma parte 5 nem ma offereceftes \ e para 
a fegunda , o L ue he o confelho , vós nunca o 
tomafles meu , e agora nefta voffa refpofta 
me dizeis , que vos dou confelho fem mo pe- 
dirdes. Ajfi que não fei para que minha fi- 
cada fojfe na índia , fenão fojfe para tefle- 
ínunha de muitas coufas , que me não pa- 
re- 



742 x\SIA de JoÃo de Barrou 

reciam bem. E dever a-vos de lembrar , 
que D. Francifco de Almeida em Cananor 
topou vofjb tio , que vinha de Ormuz \ e lhe 
offercceo a metade da Armada , e da hon- 
ra , e que fojfem aos Rumes , e elle o não 
quiz fazer. E eu com menos cumprimento 
que me fizeram , folgara de fervir a Deos 7 ' 
e a EIRcy NoJJb Senhor. Quanto a pôr fa- 
zenda , e criados por fervi ço de Deos , e 
de S. A. ijfo fem vojfo confelho fiz eu jd 
muitas vezes \ e que he o que eu fiz dez 
annos ha nefia terra , onde me são mortos 
tantos ? Não fallo em irmãos , que também 
morreram em feu officio. E que vós , Se- 
nhor , pelejajfeis muitas vezes , e eu algo 
tenho feito dijjò , efe me não feriram , dou 
eu muitas graças a Deos , que não foi por 
me não pôr em lugar onde fe os cavallei- 
ros , e Capitães deviam pôr. E ajfi tam- 
bém me diz V. S. que me não quizefies fa- 
zer requerimentos , acerca de me pedirdes 
dinheiro , como EIRey Nojfo Senhor manda- 
va , fe o eu tevera , bem efcufado eram os 
taes requerimentos , porque eu o dera com 
mui boa vontade , e não dera a minha pra- 
ta por prata quebrada , e a de Er andes por 
prata baixa , de que vos agora fervis d 
voffa meza , e ajfi vos dava toda a minha 
dourada ., que a quebrajfeis , e fizefjeis dei- 
la o que quizejfeis. Mandai , Senhor , olhar 

as 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XXI. 743 

as contas dos Feitoircs de Goa , e das ou~ 
trás fortalezas , e achareis quanto dinhei- 
ro emprejlei a EIRey NoJJb Senhor para fuás 
necefjidades. E não fomente lhe emprejlei o 
meu , mas ainda me não paguei de meus or- 
denados , e levo por arrecadação para o 
Reyno dez mil cruzados de meus próprios 
'vencimentos. Ora vede vós , Senhor , fefez, 
nunca i/lo Governador da índia. E quanto 
ao que me V. S. diz , que como não tinha 
eu fent intento da perda do baluarte da Vil- 
la dos Rumes , e do cerco de Dio , que era 
coufa que eu fizera , por ijfo me hia eu pa- 
ra Portugal poios não ver perder ante os 
meus olhos , fem lhe poder valer. Porque 
não aproveitavam as lembranças que vos 
fazia para foccorro de Dio , e me diffeftes 
muitas vezes , que vos não havíeis de ir 
fenão com toda a Armada junta. Ora quem 
quer V. S. que eftivefje nefla terra , vendo 
ijlo que tanto magoava ? Epois eu não po- 
dia aproveitar em coufa alguma , houve por 
melhor ir-me , que ficar nefla terra , vendo 
mais verdadeiramente a efpada fobre os 
pefcoços dos que eflavam em Dio ? que dos 
que eflavam em Goa. E o que peior era , que 
os homens com que f aliava , todos me di- 
%iayn , que ninguém oufava de vo-lo dizer. 
Também me dizeis , que me deixafles tra- 
zer todos meus criados 3 e outros que o não 

eram * 



744 ÁSIA de João de Bar*o$ 

eram , havendo quem vos dijfejfe á orelha 
que eram muito ricos , e que vos poderiam 
empreftar vinte mil cruzados y fe na índia 
ficajjem. Por efias , e outras coufas que 
yos , Senhor , difieram , e V. S. ouvia , vos 
'mudaram do bom propofito que me diziam 
que trazíeis do Reyno , e a mi damndram 
a vontade de ficar nejla terra comvofco. 
Bem fefabe , que todolos criados que levo , 
todos eram meus criados , fenao hum fó y 
que vos mandei dizer per João de Paiva , 
que fe quizejjeis queficajje que ficaria ? pois 
a ferem tão ricos como ijjò , perguntem d 
matricola , e achar-fe-ha , que do meu di- 
nheiro lhe mandei repartir hum conto de 
reaes para poderem comprar camifias , e fe 
aperceberem para o Reyno. E fe alguns cd 
tenho que tenham alguma coufa , na Índia 
ficam , huns por ferem ojficiaes em Baçaim > 
e outros por efíarem em Dio , e outros por- 
que vos não quizefles que lhes tomajfemfuas 
contas , nem os defpachajfem. E eftes cria- 
dos que eu levo , S. A. mos deo perfua car- 
ta , que leva ff e todos os que me fojfem ne- 
cejfarios para fegurança de minha não. E 
vao fei como tanto cafo fazeis dijjb , por- 
que nefias náos que ora cá vieram , vi eu 
muitos criados , que vós , Senhor , déjies a 
homens que nunca tiveram tantos como eu : 
e além defles homens , muitos mancebos , que 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XXL 74? 

fe vam para o Reyno pedir fatisfação a 
ElRey JSfo/Jò Senhor de fervi cos que elles 
nunca fizeram. E a ff Je vam cá de Cochij 
outros muitos d que fe dam licenças , e fe 
pagam rpuitos foldos aos que fe forem. E 
mais verdade he ijlo , que outras muitas 
coufas que vos d vós dijferam. E ao que 
me mais dizeis , que eu folgava de levar 
muita carga de pimenta para fer bem re- 
cebido no Reyno ; fe vos eu , Senhor , mal 
quizera , bem folgara eu de ir fó em hu- 
ma não , como me mandáveis , porque ahi 
veria S. A. a diferença das cargas que 
lhe èu fempre mandei , da que lhe mandaf- 
tes em chegando. Não levo eu para Portu- 
gal para me receberem bem 5 fenao dez an- 
nos de muitos fervi cos , que eu nejla terra 
tenho feitos a S. A. e tão bons , que tarde 
virá a ella Governador que me ponha o pê 
diante : e vos entreguei a índia de manei- 
ra , que polo que eu tenho feito , fe desba- 
rataram os Rumes , fem mais ninguém pe- 
lejar com elles , efe tornaram per onde vie- 
ram. E tão b afie c ida de navios , e muni- 
ções , que de cento e fetenta velas que vós 
nella ajuntaftes , todas achaftes na Índia , 
e munições para ellas , e não fe compraram 
outras , fenao as que eu tinha nos arma- 
zéns , ajji em Goa , como nas outras forta- 
lezas. Não vos peze , Senhor , de vos ref- 

pon- 



746 ÁSIA de João de Barros 

ponder a todalas coufas miudamente dejla 
maneira , porque he bem que as faibais por 
mi , pois vo-las outrem não ha de dizer > 
porque derredor de V. S, não andam homens 
que me querem bem , e os que cá gftavam 
na índia , eu lhes tenho feito muitas hon- 
ras , e boas obras , efei que mo agradecem 
mal > e por ijjò lançai as barbas em remo- 
Iho , e fiai-vos mais de vojja diferi ção > e 
bondade , que da fua de lies. 

Ao tempo que Nuno da Cunha efereveo 
cila carta ao Vifo-Rey em refpoíta de ou- 
tras fuás , era o negocio de Dio acabado , 
como atrás efere vemos , e o Vifo-Rey ti- 
nha defpachado aMartim Affonfo de Sou- 
fa para vir em huma náo , e Vicente Pega- 
do veio per Capitão de outra com a carga 
de efpeciaria , os quaes vieram a cfte Rey- 
no a falvamento , depois que chegou a náo 
de Nuno da Cunha, e diante delle mandou 
o Vifo-Rey hum navio , de que António 
da Silva veio por Capitão com nova a 
EIRey da ida dos Rumes. E parece que 
permittio Deos que antes que Nuno da 
Cunha partiííe da índia, viífe duas coufas, 
os Rumes idos , da maneira que fe foram , 
e hum grande número de cartas que lhe ef- 
crevêram homens que ficavam na índia, 
muitos dos quaes tinha elle caíligado pòr 
fuás culpas , confeíTando todos , quanto fen- 

tiam 



Dec. IV. Liv. X. Cap. XXI. e XXII. 747 

tiam fua partida. Falíamos ncíla particulari- 
dade por nos ferem entregues duas arcas de 
feus papeis , de cuja relação nos compuze- 
mos o difcurfo de feus feitos. E as feitas 
que eíte Reyno tinha ordenadas para o re- 
ceber , mais por inveja , que por culpas fuás , 
eítas calará a noíTa pena por honra do 
melmo Reyno. O que Deos per honra de 
Nuno da Cunha , e por não dar gloria aos 
Miniítros delias , atalhou com fua morte, 
da maneira que logo diremos. 

CAPITULO XXII. 

Como Nuno da Cunha partio da Índia pa~ 
ra Portugal, e no caminho fali ceo. 

NUno da Cunha partindo deCochij pe- 
lo mez de Janeiro de 15 3 9. na náo 
de Duarte Triítao , como diíTemos , tão des- 
contente , como a índia o efpedio , por as 
razões que lhe fizeram efcrever a carta atrás , 
veio ter a Cananor mal difpoíto entre pai- 
xão do efpirito , e trabalho de fua embar- 
cação. E alli em Cananor fahio em terra a 
fe confeflar , e tomar o íánto Sacramento 
da Communhao , onde Fernand' Anes de 
Souto-maior Capitão da fortaleza , por el~ 
Je vir affi mal difpoíto , e agaítado , o re- 
cebeo com muito prazer , e agazalhado , 
como homem agradecido a feu Capitão. Par- 
ti- 



748 ÁSIA de João de Barros 

tido daqui, foi fua má difpofíçao crefccndo 
de maneira , que cada dia fe achava peior. 
A principal enfermidade foram humas ca- 
marás , e fendo paliados cincoenta dias que 
navegava , defejou de comer hum pouco de 
leite de cabras que levava; e pofto que Jho 
deram ferrado por fua enfermidade , elle o 
corrompeo de todo, e chegou a citado, que 
começou a entender na fua alma mais 3 que 
em outra coufa. E além do teftamento que 
tinha feiro , fez per fua mão huma cédula , 
na qual diííe entre outras palavras , que ju- 
rava por aquella hora em que citava , nao 
ter da fazenda d'ElRey mais que cinco moe- 
das d'ouro , que tomara da fazenda de Sol- 
tam Badur Rey de Cambava , para as mof- 
trar a EIRey em Portugal , por ferem for- 
mofas, e grandes. E aíli dilfe outras pala- 
vras iguaes a citas acerca da limpeza de 
fua peíToa nas obrigações de feu officio. Ven- 
do os feus familiares o eftado em que eíla- 
va , principalmente hum feu Capellao , per- 
guntou-lhe fe havia por bem que levando-o 
Noflò Senhor , o trouxeílem falgado em hu- 
ma pipa , para cá no Reyno lhe darem fua 
fepultura ; e elle refpondeo : Que pois Deos 
havia por bem de o levar no mar , que a 
mar fojjè fua fepultura, pois aterra o não 
quizera. E fe ella tão mal recebia feus 
Jèrviços , nao lhe queria entregar feus of 

fos. 



Dec. IV. Liv. X. Ca?. XXII. 74? 

fos. E vendo-fe apreflado da hora da mor- 
te , chamou o meímo Capellão , e lhe difc 
fe , que porque podia fer que não eftaria 
ainda com defunto que folie Cavalleiro do 
habito, o que havia de fazer era, que tan- 
to que Noilb Senhor o levaífe , tomaííe o 
feu manto da Ordem , e lho veftiíTe , e lhe 
puzefle a cfpada na cinta , e lhe ataílem hum 
par de camarás de ferro aos pés , porque 
ieu corpo fe folie logo ao fundo, e o la li- 
ça flem pela varanda no mar , por não fazer 
torvação na gente da não. O Capellão quan- 
do lhe ouvio fallar naquelle eílado de íua 
morte , moítrou em lagrimas , e palavras o 
fentimento que tinha de lhe ouvir aquellas, 
ao qual Nuno da Cunha confolou com hu- 
ma conftancia de animo Chriflão ; e olhan- 
do para hum Crucifixo que tinha pendurado 
ante dos olhos, que elle alli mandara pôr^ 
diíTe : Senhor , pois vos appraz que eu vos 
vá dar conta de minha vida , eu acceito o 
que vós haveis por vojfo fervi ço , e recebo 
em grande mercê fer antes nejie lugar on* 
de eflou , que na terra , que nao tem os* 
fervi cos que lhe fiz por taes , que delia pof* 
fa efperar algum galardão. Vós , Senhor, que 
fois o galardão verdadeiro , eu vo-lo peço , 
e vós mo dai , não perjuftiça , que per ella. 
ferei condemnado , mas por voffa mifericor- 
dia , que nunca faleceo a quem nella con* 

fiou. 



7^0 ÁSIA de João de Bakros 

fiou. Finalmente com citas , e outras pala- 
vras de varão prudente , e Catholieo , con- 
formando-fe com a vontade de Deos , lhe 
entregou fua alma. 

Foi Nuno da Cunha filho de Triílão 
da Cunha , e de